segunda-feira, 24 de setembro de 2012

SONHO ORIENTAL (Antero de Quental)

   
ANTERO DE QUENTAL
           

           
SONHO ORIENTAL

Sonho-me às vezes rei, n'alguma ilha, 
Muito longe, nos mares do Oriente, 
Onde a noite é balsâmica1 e fulgente2 
E a lua cheia sobre as águas brilha... 

O aroma da magnólia e da baunilha 
Paira no ar diáfano e dormente... 
Lambe a orla dos bosques, vagamente, 
O mar com finas ondas de escumilha3... 

E enquanto eu na varanda de marfim 
Me encosto, absorto n'um cismar sem fim, 
Tu, meu amor, divagas ao luar, 

Do profundo jardim pelas clareiras, 
Ou descansas debaixo das palmeiras, 
Tendo aos pés um leão familiar.
          
Antero de Quental, Sonetos
          
_______________
Balsâmica: odorífera, apaziguadora, consoladora.
Fulgente: brilhante.
Escumilha: espuma miúda.
          
          

TEXTOS DE APOIO
          
EXPRESSÃO LÍRICA DO AMOR IDEAL
       
Repare-se na inspiração bíblica deste soneto e do seguinte [“Ideal”], que constituem exceções na obra de Antero pelas características parnasianas que os distinguem: a descrição pictórica e colorida; o visualismo completado pelas sensações auditivas e olfativas (aroma da magnólia e da baunilha; lambe a orla dos bosques, vagamente, / o mar...); o recorte severo do verso; a sugestão do cenário exótico e nobre (varanda de marfim; debaixo das palmeiras; tendo aos pés um leão familiar). Assim, este soneto, em que não se reconhece objetivo pragmático ou transcendente, aproxima-se da pintura e da conceção da arte pela arte. Assinala, portanto, um momento de transição: o da convergência do som e da cor, do poder sugestivo da musicalidade das palavras, que o poeta abandonará definitivamente.
      
Maria Ema Tarracha Ferreira, Antologia Literária Comentada. Século XIX. Do Romantismo ao Realismo. Poesia, Lisboa, Editora Ulisseia, 1985, 2ª edição.
        
*
       
Este soneto, como indica Júdice, inserido no período de entre 1862-1866, conta formalmente com uma sonoridade muito destacável de jogos com as vogais /o/ e /a/ ao longo da composição. E é que Martins, no famoso Prefácio, já avisa que se trata “da série de sonetos psicologicamente menos original, mas sendo, artisticamente, a mais brilhante.” 
A voz poética vê-se numa ilha lá no Oriente que tal qual ele o imagina suscita um aparente ambiente agradável (“balsâmica”) e cheio de luminosidade, devido a ação da lua cheia. As comparações, neste último sentido, como estereótipos românticos são inevitáveis. No segundo quarteto evoca-se o aroma de prantas aromáticas (“magnólia e da baunilha”) dando uma sensação de vaguidade e de formas não muito claras (“o ar diáfano dormente”) ao tempo que se dão, como no primeiro terceto, pinceladas de sumptuosismo turrieburnista (“marfim”) para reincidir na meditação evasiva da voz poética. Há uma referência a uma segunda pessoa (“meu amor”) que repousa num jardim de claras evocações românticas, novamente, ao tempo que elementos exóticos (“ palmeira”, “leão”) partilham esse cenário que a voz poética semelha visualizar com olhos de serenidade libertadora.
António Sérgio situa este soneto no Ciclo “Da expressão lírica do Amor Paixão” devido, supomos, a essa referência a essa segunda pessoa que a voz poética denomina como “meu amor”. Contudo, também nos atreveríamos a situar esta composição fazendo parte do ciclo que se refere ao desejo de evasão na terminologia achegada por Sérgio, sobre tudo tendo em conta umas declarações de Antero adicadas a Castelo Branco por volta de 1865 e que Joel Serrão recolhe no seu exemplar deGénese e Devir dos Sonetos de Antero:
          
“[...] Ainda no ano da publicação de Odes Modernas (1865), em Setembro-Outubro, Antero confidencia a António de Azevedo Castelo Branco, um dos seus maiores amigos de então: “O cenobistismo e a contemplação, o misticismo, se quiseres, são na sua inércia aparente, os mais rijos obstáculos que a liberdade de espírito pode opor à brutalidade invasora das condições fatais do mundo; são a maior vitória consciência, o maior triunfo, com esta arma invisível e silenciosa – a indiferença, o desdém.- Todas as vezes que a alma humana, sufocada pelo abraço bestial da natureza, se tem visto em perigo de morrer, não lhe tem valido nem a paixão nem a luta ruidosa e dramática, mas só o desprezo, a abstinência, a contemplação. Esta é que é a base das religiões como das filosofias: e Cristo e Buda vão nisto (que é o essencial) de acordo com Sócrates e Epicteto. Crê que a grandeza de alma estava em resistirmos, conservando-se cada um no meio hostil em que o acaso o deixou cair, em resistir na imobilidade duma consciência a quem o mundo não pode ferir porque não depende dele para nada; mas só do ideal ou do espírito se quiseres. Enfim, tudo isto sabes tu melhor do que eu, que és acabado moralista – e eu sei também que tudo isto é uma questão doutrinal, de valor quase só científico e nada prático, para nós, porque não somos heróis nem mártires, mas só homens aspirando a viver segundo a justiça e a razão, o que não é pouco já. Para quem aspira e não são precisas condições: é que sem elas não fora o que só vê como ideal. E se isto, assim posto, por um lado é uma confissão de fraqueza, de doença mesmo, por outro lado é a justificação de todos os esforços que esses doentes morais fazem para sair dacorrente de ar mefítico, em que não podem respirar, para chegarem a alguma colina aonde o pulmão, e o coração também, se dilatem e sirvam enfim para alguma coisa. [...]” (Serrão,1999: 29-30)
          
Semelha haver uma aposta clara pela contemplação e as formas de cultura orientais, preferentemente budistas, para se evadir, desfazer do desajuste em que nos mergulha, às vezes, o meio hostil. Um meio adverso, supomos, muito em sintonia com o que se referia no anterior soneto que analisamos: o longo conflito entre o ideal e o real. Aqui, com respeito ao anterior poema, Antero semelha querer evoluir, superar-se numa luta que transcenderá através de toda a sua vida poética e dos seus ciclos evolutivos. Detrás da fachada da aparência plácida que suscita este soneto de formas suaves, temos um Antero fortemente convulsionado.
          
“[...] E fraco, por tanto? Não. A vontade, em obediência à qual, e com esforço, se faz colérico, fá-lo também forte – dessa força persistente, raciocinada e na aparência plácida, como a superfície do mar em dias de bonança. O oceano, porém, é interiormente agitado pelo gulf stream quente e invisível: encobre ondas aflição que sobem até aos olhos e rebentam em lágrimas ardentes. Sabe chorar, como todo o homem digno da humanidade. [...]” (Martins em Sérgio, 1976: LXVI)
          
“[...] O poeta é por isso um místico, e o crítico um filósofo. O misticismo e a metafísica, o sentimento e a razão, a sensibilidade e a vontade, o temperamento e a inteligência, combatem-se às vezes dilacerando-se. Eis aí a explicação desta poesia que é o retrato vivo do homem. [...]” (Martins em Sérgio, 1976: LXVII)
          
          
Castelo Branco, em Vila Franca do Campo, com a Lagoa das Furnas ao fundo. Ilha de São Miguel - Açores
          
QUESTIONÁRIO INTERPRETATIVO
          
1. Divida o soneto nas partes lógicas que o constituem, justificando a sua resposta.
2. Enumere os elementos descritivos que evocam o Oriente.
3. Indique qual o papel da distância na construção do sentindo geral do poema.
4. Mostre como é sugerido, no texto, um ambiente de sonho.
5. Explicite de que modos são representados o «eu» e o «tu».
          
          
EXPLICITAÇÃO DE CENÁRIOS DE RESPOSTA
          
1. As duas quadras, por um lado; os dois tercetos, por outro. As duas partes são unidas por um «E» integrativo; a primeira refere o lugar, o tempo e o ambiente na ilha, e a segunda a presença do «eu» e do «tu» num espaço que apesar de ainda marcado como exterior, é já o de uma casa, ou um palácio: «varanda», «jardim».
          
2. Os principais elementos descritivos pelos quais no poema se representa o Oriente são:
- «aroma da magnólia e da baunilha»
- «a orla dos bosques […] / O mar»
- «varanda de marfim»
- «palmeiras»
- «leão»
          
Também poderão aceitar-se como válidos os elementos:
- «ilha»
- «mares do Oriente»
- «noite […] balsâmica»
- «ar diáfano»
- «profundo jardim».
          
3. A distância é sublinhada desde o segundo verso, «Muito longe», e depois é referida pelo «Oriente», pela «varanda de marfim» e pelo «leão familiar», que são outros tantos sinais dessa distância, dessa estranheza ou desse exotismo.
A distância é um elemento importante para a caracterização deste «sonho oriental», que está situado num mundo tão longínquo que nada tem a ver com o mundo em que é sonhado.
A distância convida à divagação, á fantasia, ao onirismo.
          
4. A impressão de sonho consolador, num ambiente paradisíaco, é transmitida pelos elementos visuais da noite luminosa e pelos odores balsâmicos, bem como pelo clima de paz e de silêncio (o ar é «dormente», o «eu» está «absorto», o «tu» divaga «ao luar» ou descansa) e, ainda, pela imagem do leão deitado aos pés da mulher, em harmonia perfeita.
Nota – Também se pode elaborar a resposta a esta questão a partir de expressões do texto, tais como:
- noite «fulgente»; «a lua cheia sobre as águas brilha»; «ar diáfano»; «a orla dos bosques»; «O mar com finas ondas de escumilha»; «varanda de marfim»; «profundo jardim pelas clareiras»; «debaixo das palmeiras»; «aos pés um leão familiar»;
- noite «balsâmica»; «aroma de magnólia e de baunilha».
          
5. «Eu»: «rei», encostado à varanda, «absorto num cismar sem fim»…
«Tu»: ou «divagas ao luar» no jardim ou «descansas debaixo das palmeiras, / Tendo aos pés um leão familiar».
O «eu», que é quem sonha, é representado imóvel, num espaço quase-interior.
O «tu» é representado no exterior, em movimento ou descanso; ao ser figurado «debaixo das palmeiras» com um «leão familiar» aos pés, o «tu» mais que o «eu», torna-se uma imagem do poder real, quer porque o leão é um símbolo de realeza, quer porque a mansidão com que se lhe deita aos pés mostra que o «tu» tem poder sobre ele.
          
Exame Nacional do Ensino Secundário nº 139. Prova Escrita de Português B, 12º Ano 
(plano curricular correspondente ao Dec.-Lei nº 286/89, de 29 de Agosto)
Cursos Gerais e Cursos Tecnológicos. 1998, 1ª fase, 2ª chamada.
          
        

        
Poderá também gostar de:
        

► Projeto #ESTUDOEMCASA, aula 50 de Português – 11.º ano, sobre "Sonho oriental", de Antero de Quental. Temas, motivos e estilo dos sonetos anterianos, 2021-06-08. Disponível em https://www.rtp.pt/play/estudoemcasa/p7903/e549509/portugues-11-ano


 Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária de textos de Antero de Quental, por José Carreiro. In: Lusofonia – plataforma de apoio ao estudo da língua portuguesa no mundo, 2021 (3.ª edição) <https://sites.google.com/site/ciberlusofonia/PT/Lit-Acoriana/antero-de-quental>



[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/09/24/sonho.oriental.aspx]

domingo, 23 de setembro de 2012

NOX (Antero de Quental)

  
ANTERO DE QUENTAL
             
            
NOX1

Noite, vão para ti meus pensamentos, 
Quando olho e vejo, à luz cruel do dia, 
Tanto estéril lutar, tanta agonia, 
E inúteis tantos ásperos tormentos... 

Tu, ao menos, abafas os lamentos, 
Que se exalam da trágica enxovia... 
O eterno Mal, que ruge e desvaria, 
Em ti descansa e esquece alguns momentos... 

Oh! Antes tu também adormecesses 
Por uma vez, e eterna, inalterável, 
Caindo sobre o Mundo, te esquecesses, 

E ele, o Mundo, sem mais lutar nem ver, 
Dormisse no teu seio inviolável, 
Noite sem termo, noite do Não-ser! 
       
Antero de Quental
            
___________
1 Nox: noite.
          


           
TEXTO DE APOIO
           
O poeta, nas quadras, começa por invocar a Noite, caracterizando-a por oposição ao dia onde reina o Mal; nos tercetos, manifesta o desejo de que a noite seja a libertação deste Mal que assola o Mundo, impedindo-o de “lutar” e “ver”.

Note-se que esta Noite surge conotada com a Morte pois é "Noite sem termo, noite do Não-ser!" (v. 14). A noite apresenta-se como fim eterno, que anula toda a possibilidade de ser (capaz de libertar totalmente da adversidade sensível).

Os elementos apolíneos, que surgem na referência à "luz cruel do dia" (v. 2) em que decorreram as suas lutas, são substituídos pelos noturnos, que melhor lhe permitem exprimir a agonia e a inutilidade dos tormentos passados. Considera que o seu "apostolado social" não lhe permitiu a realização do sonho, não foi mais do que ''Tanto estéril lutar, tanta agonia" (v. 3). Sente inglória a sua luta e a luta do Homem, ao longo da história. Resta-lhe o desejo de uma noite eterna que adormeça e que caia sobre o Mundo para sempre.

Antero de Quental mostra-se atormentado pela sede de infinito. Nos seus sonetos, há a dor e a esperança, a razão e o sentimento, a revolta e a fé, o combate e a desilusão.

A poesia de Antero de Quental está sempre carregada de misticismo, de crítica filosófica, histórica, social e política. Como afirma Oliveira Martins, Antero é "um poeta que sente, mas é um raciocínio que pensa. Pensa o que sente; sente o que pensa".
           
Português A e B: acesso ao ensino superior 2000, Vasco Moreira, Hilário Pimenta. Porto, Porto Editora, 2000. 
(Coleção: Acesso ao ensino superior: preparação para a prova de exame nacional - 12º ano)
           


           
LINHAS DE LEITURA
           
Elabore um comentário global do soneto "NOX" de Antero de Quental, focando os seguintes tópicos:

• tema

• função apelativa da linguagem utilizada

• modos e tempos verbais predominantes no poema

• recursos estilísticos e sua expressividade

• marcas características da poesia anteriana
           
           

CRITÉRIOS SUGESTÕES DE CORREÇÃO
           
Integrados no comentário global do texto, devem ser focados os seguintes tópicos:
           
• Tema
O desejo de libertação dirigido à noite como símbolo do apaziguamento, da evasão, do inexistir.
           
• Função apelativa da linguagem utilizada
- Os vocativos "Noite"... , "Noite"... a enquadrar um discurso dirigido a uma entidade apostrofada, a Noite;
- presença explícita e frequente do pronome pessoal de 2ª pessoa: "para ti"; "Tu"; "Em ti"; "tu"; "te" e ainda do possessivo "teu";
- ‘diálogo’ entre um "eu" que tem a palavra e um "tu" recetor de um apelo;
- modo verbal conjuntivo, "adormecesses", "esquecesses", na 2ª pessoa, que exprime o apelo à realização de um desejo.
           
• Modos e tempos verbais predominantes no poema
- O carácter real, factual do presente do indicativo usado nas quadras - situação de que se parte;
- o carácter hipotético e desiderativo do imperfeito do conjuntivo, predominante, nos tercetos, - apelo à possibilidade de realização do desejo de libertação da situação apresentada.
           
• Recursos estilísticos e sua expressividade
- adjetivação expressiva
- metáfora
- reiteração
- aliteração
- exclamação e suspensão
- apóstrofe
………….
(Deve ser comentado o efeito de intensificação expressiva dos recursos apontados.)
           
• Marcas características da poesia anteriana
- A nível temático, estão presentes a angústia existencial e a Morte como libertação, tópicos relevantes na poesia de Antero.
- Formalmente o poema é um soneto, tipo de composição muito frequente e com grande importância na obra deste poeta.
- A construção rítmica que acompanha a expressão poética, no seu evoluir em crescendo ou decrescendo, obtida pelo pontuar da frase e sua construção, é também um traço marcante da poesia deste autor. (Ex. “Tanto estéril lutar, tantaagonia, / E inúteis tantos ásperos tormentos...”)
- Verifica-se, também, a presença de metáforas recorrentes nesta poesia, como a do sono e a da noite.
           
Exame Nacional do Ensino Secundário nº 138. Prova Escrita de Português A, 12º Ano 
(plano curricular correspondente ao Dec.-Lei nº 286/89, de 29 de Agosto)
Curso de Carácter Geral – Agrupamento 4. 1997, 1ª fase, 1ª chamada.
           
        
        
SUGESTÕES DE LEITURA
        
 AApresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária de textos de Antero de Quental, por José Carreiro. In: Lusofonia – plataforma de apoio ao estudo da língua portuguesa no mundo, 2021 (3.ª edição) <https://sites.google.com/site/ciberlusofonia/PT/Lit-Acoriana/antero-de-quental>



[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/09/23/NOX.aspx]

sábado, 22 de setembro de 2012

ACORDANDO (Antero de Quental)

  
 estreia em televisão… “Anthero – O Palácio da Ventura”, dia 1 de Junho

           
        
ACORDANDO

Em sonho, às vezes, se o sonhar quebranta
Este meu vão sofrer, esta agonia,
Como sobe cantando a cotovia,
Para o céu a minh'alma sobe e canta.

Canta a luz, a alvorada, a estrela santa,
Que ao mundo traz piedosa mais um dia...
Canta o enlevo das coisas, a alegria
Que as penetra de amor e as alevanta...

Mas, de repente, um vento húmido e frio
Sopra sobre o meu sonho: um calafrio
Me acorda - A noite é negra e muda: a dor

Cá vela, como dantes, a meu lado...
Os meus cantos de luz, anjo adorado,
São sonho só, e sonho o meu amor!
         
Antero de Quental, Sonetos
       



           
TEXTO DE APOIO
          
No poema “Acordando”, de Antero de Quental, “é nítida a oposiçãoSonho/Realidade, que constitui precisamente o tema do poema.

Na verdade, estes dois aspetos estão perfeitamente delimitados no texto, estando o Sonho expresso nas quadras e a Realidade nos tercetos. Assim, poderemos distinguir dois momentos neste soneto:

- o primeiro, correspondente às duas primeiras estrofes, onde o poeta manifesta o desejo de se evadir da realidade, que lhe provoca sofrimento, através do sonho;

- o segundo, constituído pelos dois tercetos, iniciado pela conjunção coordenativa adversativa "Mas" que marca, precisamente, a oposição ao sonho do qual o sujeito poético desperta em consequência da ação do vento que o leva novamente para a realidade fria, desconfortável e desoladora.
          
Cecília Sucena e Dalila Chumbinho, Sebenta de Português: Antero de Quental – introdução ao estudo da obra,
Estoril, Edição da papelaria Bonanza, [Edição/reimpressão: 2006]
          
          


LINHAS DE LEITURA PARA UM COMENTÁRIO DE TEXTO
         
Elabore um comentário do poema “Acordando” de Antero de Quental, integrando o tratamento dos seguintes tópicos:

- tema;

- desenvolvimento do tema;

- campos semânticos opostos;

- caracterização do sujeito poético;

- recursos expressivos importantes;

- relação do texto com a evolução literária do autor.
           

            
COMENTÁRIO DE TEXTO (PROPOSTA DE RESOLUÇÃO)
   
O soneto apresentado para objeto de comentário é da autoria de Antero de Quental, poeta da segunda metade do século XIX, que teve uma ação preponderante em todos os movimentos culturais do seu País, nomeadamente na chamada Questão Coimbrã (1865) e nas célebres Conferências do Casino (1871). No primeiro caso, bateu-se pela renovação contra o imobilismo de Castilho e da geração que este representava, pela inovação contra a imitação sem originalidade, pela liberdade e isenção contra o compadrio e a dependência do poder estabelecido; no segundo acontecimento, lançou, com outras eminentes personalidades, os fundamentos programáticos da ação renovadora. É considerado unanimemente a "alma" da Geração de 70, constituída por um vasto leque de exímias personalidades, de nível sobretudo literário, empenhadas na transformação política, Europa como modelo a seguir. Educado tradicionalmente, místico por natureza, chegou a Coimbra e sofreu os efeitos de um meio totalmente diverso do familiar. Sentindo-se atraído por um mundo ideal, utópico, deixa-se influenciar pelo socia lismo de Proudhon e pelo idealismo de Hegel. A mediocridade da realidade contrasta com o mundo que traz gravado no seu coração e, por isso, sente-se sempre um inadaptado, vivendo um permanente conflito, oriundo dessa oposição.
       
A oposição entre o sonho e a realidade é precisamente o tema do soneto "Acordando", composto, como é de lei, por duas quadras e dois tercetos, com o esquema rimático abba, ccd, eed, de versos decassílabos interpolados (a a, d d) e emparelhados (bb, cc, ee). O sonho está expresso sobretudo nas quadras – primeiro momento -, através de vocabulário de carácter positivo: “o sonhar quebranta...”, "a cotovia", "Céu", "canta", "luz", "alvorada", "estrela", "dia", "enlevo", "alegria" e "amor". Sente-se a atração, a magia que este conjunto semântico de felicidade exerce sobre o sujeito poético. Com efeito, é através do sonho que o Poeta se eleva para o "Céu", para o ideal, aquele mundo perfeito que Platão soube expor em textos ainda sedutores e identificados com o desejo do "Bem Absoluto", aspiração que mora na alma de cada ser humano. Comparando-se a uma cotovia, é embalado pelo canto desta ave: a repetição do verbo "subir" e do verbo "cantar" acentua essa evasão para o paraíso do sonho. De realçar o gerúndio "cantando" a sugerir a permanência do canto/sonho, e ainda a expressividade da substância fónica dos versos 3 e 4 realizada, quer pelas leves aliterações /c/, /t/, /s/, quer pelo tom nasal, quer pela repetição da vogal /i/. Nesta quadra, encontra-se já claramente definida a oposição entre o sonho e a realidade. Há dois campos semânticos opostos: sofrer, agonia", cotovia, Céu. A rima explicita também esta oposição: quebranta/canta, agonia/cotovia. O entusiasmo, a magia do canto é muito mais evidente na segunda quadra. Na verdade, o verbo cantar, repetido anaforicamente, dá O tom a todo um discurso embalador, feito sobretudo da enumeração assindética de muitos elementos, todos eles apelando para um mundo pleno de alegria. A rima entre santa e alevanta, dia e alegria, o vocabulário positivo, luminoso, a pontuação suspensiva, a construção paralelística (vv. 5-6, 7-8) são aspetos bem sugestivos de que no mundo do sonho paira um mar de felicidade.

Todavia, nos versos 1 e 2, há um indício claro de que o sonho é passageiro e a realidade persiste: "às vezes, se o sonhar quebranta/Este meu vão sofrer, esta agonia". É essa realidade que se instala no primeiro terceto e no primeiro verso do segundo terceto - segundo momento do texto.

A adversativa "Mas" impõe uma oposição. Por isso, o discurso regressa à realidade, trazendo para o texto todo um vocabulário negativo: "vento húmido e frio", "um calafrio", "A noite é negra e muda", "a dor", recupera-se o vocabulário dos versos 1 e 2 da primeira quadra, numa circularidade simbólica, a sugerir o eterno retorno à realidade cruel.

Personificando o vento, caracterizado pelo duplo adjetivo "húmido" e "frio", faz dele o elemento destruidor do mundo onírico: "Sopra sobre o meu sonho", que acorda, em calafrio, o Poeta. Repare-se no travessão como divisória, afastando o sonho e impondo a crueldade da realidade: "A noite é negra e muda". As palavras de sentido negativo, a aliteração do som nasal [ n ] e [m], a dupla adjetivação, tudo se agrupa num campo semântico para criar a relação antitética entre dia noite, sonho realidade. Em consequência, nova realidade antitética se gera: a alegria e a dor. Já não há canto, já não há aves, já não há luz, já não 'há amor; só a dor aparece vigilante. O encavalgamento estrófico é elucidativo do estado de tristeza que avassala a realidade. O verbo "velar", do campo semântico da vigilância, que não pode permitir evasões, impõe a dor, personificada, feita companheira inseparável do sujeito poético. Compreende-se a expressividade do título "Acordando", um gerúndio, a sugerir a dificuldade do abandono do sonho e da entrada na realidade.

Em sinal de honestidade, o sujeito poético não deixa de, num terceiro momento, se dirigir em apóstrofe ao seu destinatário "anjo adorado", lembrando-lhe que os seus cantos – os seus poemas - são "sonho só" e nada mais. Ele sonha o "seu amor". Nova circularidade a ressaltar que a passagem do mundo real ao mundo irreal se faz "às vezes", mas a realidade acaba sempre por se impor.

Poema belo, simples e dramático. Vocabulário fácil e expressivo, realidade dramática: o "eu" não consegue libertar-se do mundo real, que o oprime.
              
Quem não vê aqui a trajetória da evolução literária de Antero? Poeta combativo, luminoso, otimista, paladino de um mundo orientado pela Razão, Justiça, Verdade, Amor, Liberdade, procurando "O palácio encantado da Ventura", tentando realizar o que afirmara em 'Odes Modernas': "A Poesia moderna é a voz da Revolução"; poeta abatido, desalentado, destruído, pessimista, apelando ao Nada, ao Nirvana, ao Não-Ser, onde possa descansar do seu inútil combate. Ele é verdadeiramente o cavaleiro andante que, no "Palácio encantado da Ventura", encontrou "silêncio e nada mais". Ficou, todavia, a sua obra como manifestação imorredoura do drama que acompanhará sempre a humanidade dividida entre o sonho e a realidade.
     
João Guerra e José Vieira, Aula Viva – Português A. 12º Ano, 1º vol. Porto Editora, 1999
             
             

QUESTIONÁRIO INTERPRETATIVO
             
1. Neste soneto de Antero é nítida a oposição sonho/realidade.

1.1. Faça a delimitação textual da presença desses dois aspetos.

1.2. Indique os elementos que o poeta faz corresponder a cada um dos polos
da oposição.

1.2.1. Explique as razões da sua utilização tendo em conta o modo como alguns deles são caracterizados.

1.3. Nos dois últimos versos do segundo terceto, o poeta faz uma constatação.

1.3.1. Refira-se a ela, evidenciando o seu contributo para a compreensão global do texto.

1.4. Atente no título do poema.

1.4.1. Comente a utilização do gerúndio Acordando.

2. Na poesia anteriana, o plano do real é sempre confrontado com o plano do ideal.

2.1. Reporte-se a uma das fases da sua produção poética e, não ultrapassando as 8 linhas, demonstre a veracidade da afirmação.
      
Exame Nacional do Ensino Secundário nº 139. Prova Escrita de Português B, 12º Ano (plano curricular correspondente ao Dec.-Lei nº 286/89, de 29 de Agosto). 1996, 1ª fase, 1ª chamada.
             
        
        
SUGESTÕES DE LEITURA
        
 AApresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária de textos de Antero de Quental, por José Carreiro. In: Lusofonia – plataforma de apoio ao estudo da língua portuguesa no mundo, 2021 (3.ª edição) <https://sites.google.com/site/ciberlusofonia/PT/Lit-Acoriana/antero-de-quental>


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/09/22/acordando.aspx]