sábado, 14 de setembro de 2019

Com Navalhas e Navios, de Urbano Bettencourt

Urbano Bettencourt

Urbano Bettencourt, poeta e escritor com várias obras publicadas, nascido no Pico, licenciado em Filologia Românica, colaborador de vários jornais, revistas e televisão, vai lançar a 27 de Setembro, em Ponta Delgada, “Com Navalhas e Navios”, mais um rasto, como ele diz nesta entrevista, de uma longa caminhada na escrita.

“Com Navalhas e Navios”, a publicar  no final deste mês, o Urbano Bettencourt cumpre cinco décadas de escrita. A nova obra é o retrato desta longa caminhada?
Comecei a  escrever e a publicar nos jornais, alguns anos antes de chegar ao primeiro livro em 1972, que já não incluiu todos os meus poemas da altura. 
E neste novo livro procedo a mais uma selecção e deixo  apenas aquilo que eu pretendo venha a ficar como o rasto dessa caminhada, embora em processo inacabado: além dos poemas banidos do conjunto, deixei de fora os textos em prosa poética e algumas narrativas curtas que integravam os livros originais; vou reuni-los em livro próprio e então aí estaremos mais próximos do que foi a minha escrita poética ao longo deste tempo.



Porquê este título? Leva-nos aonde?
O título recupera e adapta a expressão colhida no  poema «Pastagem com homens dentro»,  que pode passar  como glosa,  um pouco bruta e cruel,  ao mais célebre poema de Pedro da Silveira; leva-nos por isso à Califórnia, mesmo que  nalguns casos  esta  se manifeste apenas como objecto de desejos anavalhados, mas,  numa perspectiva  mais pacífica  também pode trazer-nos de lá aquelas «navalhinhas» que vinham na bagagem dos  regressados para presentear amigos mais próximos. 
No contexto mais vasto do livro, é possível que as navalhas tenham passado já à categoria de  «armas brancas», indissociáveis, portanto,    da violência que em diversos momentos o livro  acusa poeticamente. 

“De raiz de mágoa” a “Que paisagem apagarás” vai uma grande distância apenas na duração ou também no estilo?
O tempo faz-nos crescer e divergir, a nossa  compreensão do  mundo altera-se,  a relação que mantemos com a linguagem torna-se mais aprofundada, mais exigente e também  permeável ao contacto com a escrita do mundo –  e essas coisas reflectem-se no modo como em cada momento olhamos para a nossa própria escrita e para aquilo que pretendemos com ela. 
Razões mais do que suficientes para excluir poemas iniciais, em relação aos quais me sinto  desconfortável, incomodado mesmo com o seu excessivo voluntarismo, embora isso não me impeça de  reconhecer que há um certo ponto de vista crítico e irónico que vem desde o início e que alguns temas se prolongam no tempo sob discursos diferenciados entre si. 

A poesia hoje está diferente?
A minha está, seguramente. E,  no geral, está diversa, como o  comprova a recente antologia A Garganta Inflamada, que reúne poemas de 33 autores de língua portuguesa editados pela Companhia das Ilhas entre Maio de  2012 e Maio de 2019. 
Aspectos já referidos na resposta anterior, bem como a função atribuída por cada um à poesia e ao seu lugar na sociedade e no espaço público justificam essa diversidade. 

Temos que publicar mais antologias de autores açorianos?
Podemos pensar em termos individuais e em termos colectivos. 
No primeiro caso, importa referir o que tem acontecido quanto à  obra de autores já falecidos e que vão sendo recuperados lentamente. 
 No ano passado saiu na Companhia das Ilhas a «Poesia Reunida», de José Martins Garcia, no âmbito da reedição da obra completa deste autor picoense. 
Há cerca de quatro ou cinco anos, a SREC promoveu  a edição da Obra Completa de Emanuel Félix; já este ano a Imprensa Nacional publicou «Alexandrina, como era», todos os poemas de J. H. Santos Barros, o grande poeta da minha geração que andou demasiado tempo arredado dos leitores. A Companhia das Ilhas em parceria com a Imprensa Nacional está a reeditar a obra de Vitorino Nemésio. E o IAC acaba de apresentar «Fui ao mar buscar laranjas», que reúne a poesia completa de Pedro da Silveira, uma iniciativa de grande alcance  em virtude da qualidade literária do autor.  
Em termos colectivos, e no âmbito dos Colóquios da Lusofonia, a Calendário das Letras editou a antologia 9 ilhas 9 escritoras – organizada por  Helena Chrystello e Rosário Girão, responsáveis também pela Antologia Bilingue de Autores Açorianos e ainda pela Antologia de Autores Açorianos Contemporâneos (dois volumes de poesia e prosa).
Tudo isto já representa um contributo importante para a divulgação e conhecimento do cânone literário açoriano, mas há nomes que precisam de ser de novo trazidos ao contacto do público, como o do poeta J.H. Borges Martins, para referir apenas um nome de momento. 
Em termos de modelo antológico, parecem-me uma boa solução os Cadernos de Santiago,  projecto desenvolvido na Madeira por um grupo de professores e escritores: cada autor antologiado tem espaço para uma sequência poética representativa e coesa, seguida de uma leitura crítica feita por um convidado, o que significa um avanço a vários níveis em relação ao  modelo habitual, com ganhos literários e de leitura. 

“Uma cidade ama-se. Ou odeia-se. E compreendê-la?” (“Algumas das Cidades”, 1995). Um homem do Pico, da Ponta da Ilha, é universal? Compreende a Cidade onde vive ou a nostalgia dos lugares inspira?
Creio que a vida me tornou imune ao complexo do universalismo e ao, ainda mais doentio, complexo do cosmopolitismo. 
Apesar do espaço e do isolamento, a  Ponta da Ilha ficava a um palmo de S. Jorge e a um pouco mais da Terceira, avistável em dias de luz crua. E tirando bem o rumo a leste podia ainda chegar-se a  S. Miguel, donde viera o meu bisavô Rebelo e a que eu acabaria por aportar duas vezes, a segunda tornada definitiva. 
No Calhau passavam barcos e gentes, vozes diferenciadas   como outros tantos sinais da diversidade do mundo, chegavam os jornais da comunidade açoriana na Califórnia prolongando o espaço insular para lá do horizonte e estabelecendo uma espécie de proximidade e de convívio virtual.    E de um lado e de outro do território  havia ainda os universos especiais da Calheta e de Santo Amaro, entre a baleação e a construção naval, pretexto de viagens,  em suma. 
Tudo isso atravessa a minha poesia como sombra dos lugares e se articula com a sombra de outros lugares mais extensos e abertos, mais violentos também, por vezes; é a matéria residual que em parte a alimenta. 
Mas em termos puramente empíricos  sou um homem de  cidades, em cujas dinâmicas (paradoxais, por vezes) me formei,   e sem grandes nostalgias de um campo que já não existe senão como memória desfigurada de nós próprios.

 Como vai ser apresentado e divulgado “Com Navalhas e Navios”? 
Para já, com uma sessão na Livraria Solmar, a 27 de Setembro ao fim da tarde. Além das intervenções protocolares, o meu amigo e poeta Fernando Martinho Guimarães apresentará a sua leitura, interpretação,  do livro,  e os meus amigos José Carlos Jorge e Maria Fátima de Sousa lerão alguns poemas, à semelhança do que já fizeram, em contexto mais alargado,  na apresentação de África frente e verso. O resto será um processo em desenvolvimento. 

“A minha poesia está diferente, seguramente”, Redação do Diário dos Açores, 2019-09-14


RECENSÕES CRÍTICAS


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Fernando Martinho Guimarães



Uma apresentação de Com Navalhas e navios


Fernando Martinho Guimarães



Com Navalhas e Navios é uma colectânea, uma antologia, uma «poesia reunida», que compreende parte da produção poética de Urbano Bettencourt, desde o volume inaugural de 1972, Raiz de Mágoa, até ao livro África e Verso, de 2012. Encontramos, ainda, no seu fecho, uma série de 5 poemas dispersos. E em nota final, diz-nos o autor que deixou de fora um conjunto de poemas, principalmente dos seus dois primeiros livros, o já referido Raiz de Mágoa e o Marinheiro com Residência Fixa, de 1980. Mais nos diz que, na recolha de poemas que constitui este Com Navalhas e Navios não está a maior parte dos seus textos poéticos em prosa e algumas narrativas breves. Promete-se, nesta nota, que em devido tempo virão a lume, reunidos e reorganizados. O prometido é devido e ficamos nós, seus leitores, a aguardar.

O presente livro conta, ainda, com um Prefácio do poeta Carlos Bessa. Carlos Bessa identifica e reconhece os aspectos mais significativos que, na criação poética de Urbano Bettencourt, simultaneamente o aproximam de um imaginário comum a muitos dos seus contemporâneos e o afastam, constituindo-se como voz própria, tanto no ritmo, cadência e tom que imprime aos seus textos poéticos, como no que exprime das e nas circunstâncias a partir das quais a poesia aparece. E que são todas as circunstâncias, cabendo nelas as que, no poema, é o seu fazer – a arte poética.

O título, Com Navalhas e Navios, é a expressão adaptada de um verso do poema «Pastagem com homens dentro» e que, conforme esclarece o poeta em entrevista ao Diário dos Açores (14-09-2019), «pode passar como glosa, um pouco bruta e cruel, ao mais célebre poema de Pedro da Silveira».

Uma transumância da palavra, uma pastorícia do sentido na incessante procura dele. Um «inventário de reciprocidades», como nos diz Javier Fernandez no prólogo à edição espanhola, canarinha, deste Com Navalhas e Navios.

«Os pastores são os depositários plenos dos planos de viagem,
adormecem a dor medem amarrados à estaca entre a erva
e o esterco. (…)
Com navalhas por dentro e navios nos olhos eles assinam
assim o ponto no dorso da ilha e cavalgam as aves as nuvens
com elas fogem para oeste à frente da fome e do frio (…)» (Pág. 30)

Também o poeta quer pôr ao seu cuidado a linguagem e o que nela é sempre o oeste de onde se está, de onde se fala. Na diligência que empresta ao ofício das palavras, na advertência e desvelo com que toma as palavras a sério, encontramos a inquietação do subverso, a ameaça do adverso. Por isso a poesia, o poema, não é, em Urbano Bettencourt, uma forma entre outras de dizer o mundo. É o mundo que se dá em aliterações, de sílabas, de sons e de sentidos, que no próprio acto de ecoarem se desdobram, produzindo o diverso no mesmo que nos persegue – a infância, a ilha e as ilhas, a guerra, a saudade, alguns nomes circunstansiados, Gaspar Frutuoso, Pedro da Silveira, Roberto Mesquita, Ivone Chinita, Santos Barros, a vida, a morte, o que se queira do que a poesia é feita:

«Fazer versos dói? Não! (…)
O que dói é arrancá-los

assim ao próprio sangue como se um filho fora, erguê-los
à boca, dar-lhes um nome e nisso inscrever
a nossa morte. A nossa vida.» (Pág. 79)

Assinala Carlos Bessa, no Prefácio, que a obra poética de Urbano Bettencourt atravessa – e é atravessada –, por geografias e circunstâncias várias em que a luz e a sombra, a alegria e a dor, a exaltação e o desencanto, eros e thanatos, afluem ao dizer poético, para nele se transfigurarem em modo de redenção, de ascese, como ilha que, sem nunca se deslargar do seu fundo, do seu chão, quer continuar elevando-se como corpo insulado e insuflado – por forças vulcânicas, já se sabe –, numa cadência de aliterações e metonímias – nos versos e na vida.

Uma poesia, diz Lélia Nunes, de regressos e reencontros. Neste sentido, o poema é um exercício de celebração, mas também de redenção. Quer se trate de momentos, circunstâncias que o simples facto de existir inevitavelmente comportam, de geografias que o verso quer dizer como se elas apenas o fossem pelo seu dizer, sentimentos que, ao permanecerem, viram afectos, rememorações de tempos sofridos na primeira pessoa, como os da guerra na Guiné, ou mesmo os que não são estritamente nossos, como acontece no poema sobre a Urzelina de 1808, a poesia de Urbano Bettencourt dá a ver o que já não nos olha.

O que há de autobiográfico na escrita? Com o quê ou com quem se identifica o autor? Com os advérbios, dizia Umberto Eco. O desconcerto desta resposta reforça a constatação de que, nos advérbios, quaisquer que eles sejam, há sempre um tempo, o do autor, o das personagens e o do leitor também, a partir do qual se procura encontrar um sentido para tudo o que cabe numa vida, a vivida, a pensada e a dita. O que há de autobiográfico na escrita – na escrita poética –, de Urbano Bettencourt? Tudo. E, acima deste tudo, a sua escrita. Existe mundo para além do que se escreve? É claro que sim, na condição de que se possa dizê-lo. O silêncio e a sombra não são os limites com os quais a palavra poética se confronta, mas é desse confronto que o dizer poético retira o seu impulso, a urgência do dizer, ou, como se pode ler num poema do livro Lugares Sombras e Afectos, cujo incipit é «Crescem os deuses»:

«E quando a memória queimar de mais, chamarei
a mim a sombra das figueiras bravas. Sem figos,

como nos rebenta a boca? Olho as ruínas,
os escombros da cal e acolho um pássaro
de melancolia
vindo da névoa e de um ardido Setembro.» (Pág. 105)

Para o leitor que se auto-satisfaz em o ser, e que, do ponto de vista do autor, é o máximo que, intencionalmente, o move, os poemas, como é o caso presente, não são apenas fulgurações projectadas ao e no mundo, a solicitarem derivas interpretativas, diferâncias di-versificadas, quantas as leituras que se fazem dos leitores que o livro encontra. São, também, realidades que no seu dizer enunciam a própria condição de possibilidade do que enunciam. Não é deste ou daquele lugar que se fala, não é a partir desta ou daquela geo-grafia que o poema se desenvolve, encandeando (ou não) o olhar do leitor. É com os lugares, reais ou imaginários, que os poemas de Urbano Bettencourt instauram um diálogo, um ajuste de contas, como que edificando um mundo da escrita e uma escrita do mundo. Neste sentido, o poema vale por si mesmo, tem uma vida própria.

A paisagem como espaço, como lugar ou lugares com gente dentro. Uma estética da territorialidade, diria Vamberto Freitas. Espaço, ilha, Urzelina, Angra, Porto, Canárias, ilha, Mafra, Guiné, Cabo Verde, Ponta Delgada, ilha, Lisboa, Piedade, Pico, La Gomera, ilha, lugares nos quais e pelos quais a pulsão poética se entretece a fazer e a desfazer memórias, a fiar e a desfiar sentimentos e emoções, a compor e a descompor imaginários que, pela própria natureza das palavras, são sempre outra coisa, eco, espelho, labirinto, da qual o verso limpo, essencial, de uma delicadeza magoada, procura dar conta, enunciar o seu exacto dizer.

Victor Rui Dores, em texto sobre o livro Outros Nomes, Outras Guerra, uma antologia de poemas publicada em 2015, identifica, justamente, na produção poética e ensaística de Urbano Bettencourt, a íntima ligação entre a vida e a escrita, e em que o poeta, [cito], «decifra o enigma dos dias e viaja da ilha para o mundo, funcionando a ilha como uma alegoria ou uma metáfora do mundo».

Assis Brasil, num ensaio sobre outra colectânea de Urbano Bettencourt, Que Paisagem Apagarás, de 2010, traça o itinerário do espaço, uma topologia, um programa de leitura dos espaços poéticos no percurso criativo do poeta. Suportando-se na topo-análise proposta por Gaston Bachelard no livro A Poética do espaço, Assis Brasil destaca, muito justamente, a natureza do espaço poético como a condensação imagética de objectos, lugares, situações, pessoas, que, na matéria das palavras em si mesmas, se tornam outra coisa, realidades com vida própria e, até certo ponto, independentes daquilo de que elas são o dizer. É a natureza das palavras. Ao permitir-nos falar do que não está sob os nossos olhos, do que já não está ou ainda não está, a palavra poética consome-se na actualização do que nunca está presente ao nosso olhar.

É, aliás, da consciência desta impossibilidade, deste desligamento, desta ausência, desta distância, que o olhar poético de Urbano Bettencourt se institui e constitui como símile da condição humana. O poema é, aqui, um exercício de restituição que, incessantemente, se faz e refaz a partir da consciência daquela impossibilidade. Veja-se, por exemplo, o poema inserto no livro Naufrágios Inscrições, de 1987, cujo incipit pergunta como afrontar a erosão do gesto:

«Como afrontar a erosão do gesto? Algumas
das palavras flutuam depois de mortas mas o verbo

as dissipa, lhes disseca a emoção de breves corpos sobre
a margem. Entretanto simularás aqui a construção da frase
língua a língua enunciada, o rumor do verbo no ventre
das baías.»      (Pág. 63)

Por isso, a ironia e o humor ocupam um lugar e função importantes na poesia de Urbano Bettencourt. É que elas lembram, permanentemente, ao leitor que o verso, no regresso sem fim a si mesmo, nunca se reencontrará no lugar de onde partiu. Só por facilidade é que se diz que numa ilha, independentemente do seu recorte, acaba-se sempre por regressar ao lugar de partida.

O reverso, como a sombra, não é o negativo que se quer anular, mas sim realidade que o poema integra, fazendo dela matéria do seu dizer e desdizer. Pela ironia e pelo humor, o «pássaro da melancolia» não nos permite nunca pausarmos em definitivo em contentamentos celebratórios do que na vida acontece – a estritamente nossa ou a que fazemos com os outros. A guerra, os desencantos e as perdas, que na poesia de Urbano Bettencourt são presenças indeléveis, não autorizam lirismos versificados ou rimas encantatórias, metrificadas como deve ser, auto-satisfeitas na exibição da técnica, na ostentação da competência linguística ou na eufórica amostração do que, na literatura e na cultura, é enleio do que é «nosso». É, vejam mal, «apenas nosso». A ironia ou é disfórica ou não é. E Ernesto Gregório, que apesar de não estar, explicitamente, em Com Navalhas e Navios, sempre aparece no verso que desencaminha do sentido aparente ou na subversiva mestria com que o poeta sabe «fechar» um poema.

É avisado o parágrafo em que Carlos Alberto Machado, em texto de apresentação de Que Paisagem Apagarás, nos alerta para o facto de que, no mundo das ilhas de Urbano Bettencourt, os vulcões, magmas, nuvens, neblinas, baleias e baleeiros não são adornos, ornamentos ou enfeites em que o verso funcionaria ao modo de legenda para bilhete-postal, ou segundo a moda dos facebooks, de que o paraíso é aqui e viver é belo porque é o contrário de estar morto.

Uma antologia é um exercício de recolha e de escolha. Junta-se e ordena-se um conjunto de coisas – tanto as que, na natureza, constituem o mundo, como as que, na cultura, constituem os projectos humanos, colectivos e individuais.Com Navalhas e Navios é uma antologia de poemas, melhor, de livros de poemas, dos quais o autor recolheu alguns que, levando à letra a letra da palavra crestomatia, procura organizar e comunicar o que há de exemplar e de significativo num saber ou num saber fazer.

Com esta colectânea, fica acessível ao leitor um percurso poético de 50 anos em que, ao virar da página, se dá a ver a poesia como um [cito]

«Regresso dos nomes e lugares
destes versos. Não direi, porém,

a exacta dimensão em que me tenha perdido
ou encontrado.
Pouso no peitoril a túnica
das palavras, o secreto sal dos seus caminhos,
e escuto
a lenta respiração
do mundo
.»   (Pág 106)


Texto da apresentação pública do livro na Livraria Solmar, Ponta Delgada, setembro de 2019.




   


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Leonardo Sousa


A propósito de Navalhas e Navios. Considerações sobre a poética de Urbano Bettencourt

Leonardo Sousa


Conta-se que, ao deparar-se com um exemplar de Outros Nomes Outras Guerras, deitada ao prelo pela Companhia das Ilhas em 2013, alguém confundiu a antologia de poemas de Urbano Bettencourt com um passaporte. Tratava-se, pois, de um objecto de tal forma discreto, de tal forma despojado de aparato, uma selecção de poemas que reduzira a pouco mais de quarenta páginas uma obra que percorre meio século, que a ninguém se poderia atribuir culpa pelo equívoco. Seria mesmo um equívoco? Face à transformação de um motivo antológico num objecto de bolso, pondera-se se aquele que se enganou não terá, na verdade, sido certeiro na sua sentença.

Seis anos depois, com carimbo ainda da mesma editora sediada na ilha do Pico, da qual o poeta é também oriundo, será mais difícil fazer a mesma analogia. Com Navalhas e Navios acrescenta poemas a quase todos os livros antologiados e introduz novas sequências que haviam sido excluídas de Outros Nomes Outras Guerras. Longe, contudo, de meramente engordar o volume, esta mais recente colectânea confirma a harmonia, a coerência, a consistência, do trabalho poético de Urbano Bettencourt, quando muito alargando a diversidade formal das suas manifestações. Por outro lado, se sobrevivem apenas dois poemas de Raiz de Mágoa (1972), assinalando o mesmo apuro criterioso, indicando por si só estarmos perante uma reflexão crítica em torno de uma produção certamente mais vasta, é também igualmente verdade que as linhas temáticas e formais desta poética podem ser identificadas já nas primeiras composições.

Em “Quadras da Ilha”, a “mágoa de estar vivo/ de estar vivo junto ao mar/ com meus olhos de partir/ em meu corpo de ficar” constitui desde logo uma representação da vivência insular, ritmada ao gosto popular, isto é, inserindo-se formalmente no âmbito de uma experiência comum a um colectivo; do ponto de vista temático, na tradição literária açoriana, a “dor de ser cais” traduz o conflito colectivo da viagem, da partida de um lugar materno cercado por fronteiras marítimas, em tempos de impossível transposição, e que, dizem os mitos, nos insulares resulta numa experiência existencial persistentemente melancólica aonde quer que se fixem, situada entre o desejo de novos caminhos e a latente consciência de que “os barcos desejados/não regressam nunca mais”.

Os poemas de Urbano Bettencourt viriam sempre a reencontrar-se com esse diálogo entre um sujeito e os tempos e os espaços que atravessa. Ele, porém, demarca-se, coloca-se na posição de quem constantemente revê as circunstâncias da sua acção e afirma, com certa distância, a sua voz individual.  Isto é visível em versos como, no poema seguinte, “Mafra é Mafra/ e eu sou livre”; ou: “não pretendo lançar no futuro/a minha história que os outros construíram”. A liberdade, aqui, circunscreve-se aos limites – geográficos, históricos, culturais – a que ninguém pode escapar, por melhor que se iluda. A consciência individual dessa liberdade chega-lhe, afinal, carregada de memórias que pertencem também a outros – e só detrás desse pano, nos bastidores, o indivíduo se reconhece, “por detrás da máscara/ (…)/despido”.

Tal não significa que o sujeito não procure um olhar autónomo (lembra-nos: “nem porei a cabeça no alvo que procuras”) –  a dicotomia entre si e o colectivo e, daí, a representação vívida, por vezes crua, da guerra colonial, a “persistência da memória” que, por via do acto poético, se transfigura, nisto abarcando a experiência dos lugares – que se estendem das ilhas açorianas, às ilhas de Cabo Verde, à Guiné, a Lisboa – e a experiência dos tempos históricos – desde o Estado Novo, atravessando a revolução dos cravos e desaguando já nos nossos dias de estabilidade (?) democrática –, são motivos que sempre habitam as estruturas da obra aqui em visita. Fortificam-se e diversificam-se os seus meios, a sua forma de canto, mas manifesta-se o que sempre se pode entender como a mesma matéria poética. Trata-se da revisitação, da melancolia retrospectiva de quem se ressente do peso das incontáveis folhas rasgadas do calendário, do efeito da passagem do tempo que “sobre os corpos actua e se transmuta, neles depondo/os resíduos” e dos quais sobra meramente “a intocável poeira das palavras”, ela própria agente de transposição da memória que, no último poema do livro, nos surge como uma “arte de montagem”. Uma fotografia torna-se o mecanismo que serve “a pequena glória do técnico”: “a de inventar-lhes uma história/ anulando a distância que vai de um natal dele/ sobre o Sado, em 70,/ à ilha dela e a um outro estúdio/ que o tempo baniu do mapa da cidade”.

Nisto imiscui-se um tom elegíaco, mas não necessariamente – ou explicitamente – trágico. Mesmo quando se o pode intuir, sobressai-lhe frequentemente o pendor irónico, ainda quando assuma contornos dolorosos. Em “Baía do Canto” pode ler-se: “dizia/ meu avô que das figueiras colhesse/ o fruto, nunca a sombra. Morreu dependurado numa”. Perpassa um tom desencantado por uma vasta parte desta poética, que se dirige ao espectro das promessas e dos sonhos por cumprir (“Castos até no incesto alguns de nós perderam/a fé a esperança em vinhas prometidas”), que invoca âmbitos sociais e políticos (“os estivais calores de 75”, numa elegia dirigida aos “turistas que pastam ao sol poente”), ou que se resigna a este que talvez seja, ainda assim, “o melhor dos mundos” – mais não seja porque é o único.

Este “Agostos”, que conduz o leitor de um Agosto longínquo, de uma paisagem vívida de guerra, até um Agosto presente, onde uma tranquilidade exterior – que o discurso poético, com a sua serena gravidade, reflecte eximiamente – “vibra nos telhados” e “as guerras trazem outros nomes,/outros donos”, é representativo do esplendor desta voz, que intersecta memórias, cruza tempos e espaços díspares, fazendo-as confluir em construções líricas onde não deixam de se envolver o gosto pelo comentário alusivo e pela assonância, nelas operando reflexões de inclinação céptica e/ou pessimista. Decerto porque a memória  é ainda macerada pelos fantasmas de uma guerra que, se aparentemente terminou, legou inesquecíveis marcas a quem a viveu. Em Remuniciar o Tempo, temos disso exemplos vários: a mulher que, “violada pela milésima vez”, permanece “teimosamente virgem”; o poeta que “aborta os versos de gerações massacradas”; os companheiros com os quais perdeu tudo “excepto o instinto animal de gatilhar”. Quando se reencontra com Bolama, em Algumas das Cidades, a raiva, o “cansaço de estar nu”, que se lêem nos poemas da Guiné, décadas antes, são invocados com ironia e até, surpreendentemente, com humor: “Tenho viajado muito/nem sempre na melhor altura”. A viagem, o lugar que se vivenciou ou o lugar onde se está e se confunde com a memória de outro, é, com frequência, nos poemas deste autor, o ponto de partida para a composição poética. Porque o poema “afronta a erosão do gesto” – recupera, por via da imagem, do ritmo, do som, uma circunstância temporal ou espacial, registando-a segundo uma língua comum a todos nós, mas individualizada. Gera-se, assim, um discurso ou um canto que, para o leitor, se torna um passaporte para o universo que procura reportar e transformar.

Como assinala Vamberto Freitas, a poesia de Urbano Bettencourt, ainda assim, “requer o nosso reencontro de tempos a tempos” – a leitura que dela fazemos adensa-se e adquire novas ligações entre si. Reconhecem-se-lhe diálogos com Camões, com Emanuel Félix, com Santos Barros, com Nemésio, quer explicitamente quer ao nível da construção, mas que sempre confirmam a unidade fundamental, orgânica, da voz que nos conduz do primeiro ao último poema de Com Navalhas e Navios. Ainda espaço haveria para se discorrer sobre a influência que Eros (como relembra Carlos Bessa no prefácio) exerce sobre esta obra. Sobretudo na forma como se religam as ideias de casa, natureza e ventre, a atribuição à palavra de uma função fertilizadora (por exemplo, o verbo “penetrar” ressurge assiduamente) resulta frequentemente numa composição na qual o “marinheiro com residência fixa” recupera e reconstrói os lugares, as sombras, os afectos, que atravessaram a sua existência e (des)orientam o seu sentido.


Leonardo Sousa, Atlântico Expresso, 2019-10-14



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Luiz Antonio de Assis Brasil



Os motivos de Urbano Bettencourt

Luiz Antonio de Assis Brasil


            Não desdenho a plurivalência semântica do vocábulo “motivo” do título, ora declinado no plural; mas como uma resenha deve ser esclarecedora e não agente de confusão, apresso-me a esclarecer que aqui, ao falar nos motivos de Urbano Bettencourt, estou a pensar nas fontes culturais de sua escrita, encontráveis na antologia de seus poemas saída na Primavera de 2019, nominada Com Navalhas e Navios – poesia reunida 1972-2012, mas não só: penso, também, nas razões interiores que o levaram a escrever poesia no decorrer das quatro décadas que começam por Raiz de Mágoa [1972]. Como as razões interiores pertencem à reserva íntima do poeta, posso, entretanto, adivinhá-las sob a proteção das reflexões do autor acerca da nossa humanidade, trazidas à luz em poemas escolhidos da obra em pauta. Advirto que pretendo fazer, aqui, um corte “horizontal”, abdicando de uma peregrinação miliar e diacrónica por todos os livros – e poemas avulsos – aqui reunidos.

            Isto posto, meu texto terá um aspecto bifronte: por um lado, tentará descobrir que fontes culturais são essas e, por outro, buscará identificar, num único poema, o que pensa o autor sobre sua forma privilegiada de expressão artística. Não desconheço a existência e a relevância dos textos em prosa de Urbano Bettencourt, mas aqui, por óbvio, devo ficar adstrito ao objeto da recensão.

            Gostaria de fazer um registo vestibular: este é um livro da dúvida, expressa pela grande quantidade de sentenças interrogativas que são disseminadas pelos diferentes poemas que o compõem. Quero dizer: Urbano Bettencourt não pretende nos trazer verdades sólidas, irretorquíveis, mas antes deixar patente a ambivalência que pede a cumplicidade criativa do leitor para que este possa ajudá-lo a decifrar as perguntas que ele próprio se coloca. E são dúvidas que atingem a essência do fazer poético, como revelando sua impossibilidade: como dizer o ritual de retomar o gesto a crueza dos corpos entre as redes e as velas decompostos?  Ou, então, as imprecisões da História ao pensar no célebre quadro de Domingos Rebelo: Estaria ausente o pintor quando / no cais antigo as mulheres / desembarcavam os maridos os baús / e as crianças? Claro, algumas sentenças são apenas formalmente interrogativas, como, do mesmo poema: Janelas / de Ponta Delgada, que horizontes vos não fixam / e se vos negam? – trata-se, vê-se, de um recurso retórico, mas ninguém fica indiferente, e talvez fale mais do que as afirmações. Aliás, em todo o livro há um eu-lírico que, para além das contínuas perguntas, rejeita o tom categórico das afirmativas, ou ele existe de forma mitigada, escondendo-se na insinuação das metáforas.

            Há, perceptível, a presença de um motivo que frequenta – antes com maior força, é verdade – a escrita daqueles açorianos que participaram da guerra colonial ou foram por ela afetados, e que exorcizam suas percepções quase sempre através da narrativa. Esse é um assunto que, parece, transita também para a segunda geração, isto é, a dos filhos e netos dos participantes da guerra, embora não saibamos, ainda, sua exata dimensão e durabilidade. Na vertente “canónica”, entretanto, os exemplos estão aí, e podem ser citados, dentre outros, e em ordem cronológica de publicação, José Martins Garcia [Lugar de Massacre, 1975], João de Melo [Autópsia de um Mar de Ruínas, 1984], Álamo Oliveira [Até hoje. Memória de Cão, 1988] e Carlos Tomé [Morreremos Amanhã, 2007]. Esse viés, em Urbano Bettencourt, é mais visível em Remuniciar o Tempo: – 13 Poemas da Guiné, incluído na coletânea que ora nos ocupa, e que nos traz a vivência desse conflito bélico. Sua irresignação à guerra transparece no poema “De Mafra, com mágoa”, sendo ali um lugar de preâmbulo de uma sequência que levaria à África: Mafra é Mafra / e eu sou eu. A eclipsar/explicar a aparente tautologia, vem a declaração pacifista: Nunca acertei meus passos pelo ritmo das balas / nem porei a cabeça no alvo que procuras. / Por detrás da máscara eu lá estou / sem ódios, nem balas, nem guerras / despido / e com um ramo de cravos / em cada mão. O que distingue nosso autor é a rara utilização do gênero poético para tratar da guerra [tal como, nos Açores, encontramos J.H. Santos Barros e, no Continente, Manuel Alegre]. Sua perspectiva já na Guiné, mais do que o horror e a denúncia de seus pares geracionais, alterna-se na díade medo/enfado: domingo tão chato/como a chatice antiga de ir ao domingo à missa. Depois: daqui escrevo este batuque de medo. Não deixam de estar presentes, contudo, a raiva, a indignação, a saudade de casa, a solidariedade com a Guiné: Aqui também em maio se escreveu / morte mágoa vértice de saudade, ou porque escrevo raiva / ante o cansaço de meus braços armas e depois: um país pisado / lilás / violado em cada noite pelas bombas. O enfado e o medo, portanto, agem como catalisadores dessa raiva, dessa saudade, dessa compaixão, pois todas essas circunstâncias se interpenetram, gerando inesperadas realidades poéticas. Tentando resumir esta última reflexão: porque o poeta é um só, não apenas como poeta, mas também como homem, naturaliza-se a ideia, facilmente apreendida pelo leitor, de que nenhuma emoção é pura, mesmo quando estilizada pelo verso. No caso de Urbano Bettencourt, é possível dizer que ainda valem, e muito, os poemas de Remuniciar o Tempo: a universalidade dos sentires humanos garante-lhes plena justificativa neste século XXI. Essa é, aliás, a marca da boa poesia: ainda que datada, fala-nos desde sempre e para sempre.

            Outro âmbito genético bastante disseminado por todo o livro é a figura feminina, transposta em metáforas aliciantes. Trata-se de uma perspectiva de colocar-se ao lado da mulher que sofre, mas jamais no exercício da piedade, esse sentimento estéril. É uma atitude construtiva, que entende a mulher como um ser de padecimento numa sociedade ainda dominantemente masculina. Essa atitude é ampla, compreendendo também as mulheres da guerra: como este lago de sangue / nascido nas pernas da mulher / violada pela milésima vez / e sempre virgem / teimosamente virgem. Aqui uma exegese mais dilatada poderia inferir citações bíblicas subjacentes, e deixemos ao leitor que o faça, segundo seu modo de entender a fé. Já o lamento, a dor e a incompreensão têm residência no poema “Elis, essa mulher”, a cantora brasileira tão cedo e inesperadamente morta, sem nenhum aviso prévio de peregrinação / à porta, nem um presságio. É um poeta capaz de criar o sintagma: a virtude das mulheres infiéis no notável “Cidades de Passagem”, subvertendo a lógica da moral comum. Aliás, temos de estar atentos. Urbano Bettencourt faz essa subversão a todo momento em Com Navalhas e Navios.

            Esta recensão ficará incompleta se não assinalar a onipresença dos Açores, que são afinal, o lugar de nascença e permanência, esta última com ausências pontuais. Muito longe estamos de Roberto de Mesquita e sua sensação conflitiva de encarceramento e infinitude, como bem detectou José Martins Garcia na obra do autor de Almas Cativas. Os tempos são outros, o poeta é outro. Em Urbano Bettencourt, sem a pretensão de buscar uma amplitude hermenêutica tal como proposta por Martins Garcia, é possível dizer que o poeta cultiva antes de tudo uma realidade insular inominada, o que pode levá-lo além do Arquipélago familiar, e eis aí outra distinção relativamente aos seus coetâneos. Sabe-se que o autor frequenta outros sistemas literários insulares. Como diz, Tenho viajado muito / nem sempre na melhor altura.  E essas viagens ocorrem na busca, ainda que velada à consciência, de conceituar um designativo comum que una esses sistemas para além da língua partilhada e transformada. A tarefa não é fácil, tendo em conta a diversidade histórica e cultural desses universos em meio ao Atlântico. Já as ilhas de sua vivência medular são expressas em engenhosas e escolhidamente naïves “Quadras de Ilha” – a não esquecer Pessoa, que cultivou o género em Quadras ao Gosto Popular – mas, de igual sorte, suas metáforas abstratas, que, por vezes, vêm acompanhadas de um motivo inesperado, como o poema “A meu pai, construtor de barcos”: tu fabricante de viagens / amordaçadas / arquitecto de ilhas / naufragadas. A acompanhar esse inventário há, quase sempre, um olhar que revela algo de tênue sarcasmo, como neste “Postal de São Jorge”: Sábado de manhã, abres a janela sobre o mar e as invisíveis laranjas / da Urzelina. Canal. A gente tá aqui é pra esperar. E o Pico sem mexer. Quanto às outras ilhas fora do Arquipélago, temos Cabo Verde, a que o poeta lança um olhar positivo, de reconhecimento de uma arte fresca como a da cantora bem conhecida em São Miguel, Djuta Ben-David, da qual celebra a discreta música de búzios / e conchas, e que conclui com um brado enérgico e inequívoco: Sodade de Cabo Verde. Ainda Urbano Bettencourt escreve um poema cheio de doçura e enternecimento à “sabedoria” das cabras de Cabo Verde, que envelheceram demasiado cedo / a interrogar o mistério do sal / e do vento. Também às Canárias ele tem os olhos prendidos, como em “La Gomera”, que é um gomo de mistério / na sua casca de cinza / e noite. Digamos assim: se a vida no seu Arquipélago natal vem às vezes carregada de tantas dúvidas e eventuais críticas e ironias, o refúgio moral do eu-lírico encontra amparo noutras ilhas, ainda virgens ao seu olhar, e é lá onde ele põe toda sua reserva de descobertas.

Quando Urbano Bettencourt se volta para o fazer do artista da palavra – passe a expressão um pouco desfasada – muito poderia ser dito, mas creio que a summa está visível num momento capital deste livro. Tudo está ali. É uma declaração de princípios, eu diria, quase um manifesto, se ainda vivêssemos em época de manifestos literários. Peço desculpas pelo tamanho da citação, mas isso é necessário por sua importância: Fazer versos dói? Não! As tecnocracias / literárias também fazem fermentar os seus vates voadores / de cinco e mais estrelas compondo em papel de cor / e perfumado suaves consolações, perversas constelações / ao Dicionário de Rimas arrebatadas. / / O que dói é arrancá-los / assim ao próprio sangue como se um filho fora, erguê-los / à boca, dar-lhes um nome e nisso inscrever / a nossa morte. A nossa vida. O leitor já entendeu que  o poeta não faz concessões à escrita fácil, aquela que não brota da dor e da profunda relação entre a vida – ou a morte – e o poema; enfim, insurge-se com o poema feito de artifícios da superficialidade, das “tecnocracias literárias”, e, ao contrário disso, ele prega a verdade do poema que emerge das entranhas sanguinolentas, “como se um filho fora”.

            Chegou o momento de resumir. Urbano Bettencourt, na sua reunião de poemas em boa hora publicada pela admirável Companhia das Ilhas, constitui-se num poeta de consistência autêntica, persistente no seu ofício, erudito – haja vista as dezenas de alusões culturais – capaz de ser lido por qualquer geração, hoje e amanhã, e que ainda irá dar aos seus leitores muito mais de sua inequívoca vocação.

Publicado no Diário dos Açores, 1 de fevereiro 2020
créditos fotográficos: http://www.laab.com.br/fotografias.html





Bettencourt, Manuel Urbano

 

[N. Piedade, Lajes do Pico, 24.11.1949] Poeta e docente universitário. Raíz de Mágoa, primeiros poemas de Urbano Bettencourt publicados em livro, data de 1972, e a mais recente, Algumas das Cidades, de 1995. Tem publicado entretanto e regularmente nos mais diversos periódicos científico-académicos ou de larga circulação, reunindo-os em sucessivos volumes (três, até hoje) sob o título de O Gosto das Palavras. Paralelamente àquela consistente actividade literária, nunca deixou de intervir a vários níveis na vida cultural da comunidade açoriana, sempre consciente da sua dispersão e consequente ?riqueza? artística ao longo dos séculos ? um mosaico de ser e estar diverso e conjugado num todo, como as próprias ilhas a que ele intimamente pertence, e a partir das quais se posiciona perante o restante mundo. Foi ainda a meados dos anos 70 (e como resultado imediato do 25 de Abril) que Urbano fundou e dirigiu, com o falecido J. H. Santos *Barros, A Memória da Água-Viva, a primeira revista de cultura açoriana que propôs com desusada audácia um projecto de definição e defesa de uma Literatura Açoriana a partir de pressupostos ideológicos profundamente democráticos e universalizados. Urbano tem antecipado outros teoricamente numa antevisão de um pós-modernismo culturalmente abrangente e marcado necessariamente pela permanente dialéctica da territorialização/desterritorialização (de que falaria mais tarde Edouard Glissant em relação às ilhas Caraíbas) da criação literária açoriana, enraizada desde há muito, tanto na experiência histórica da vida nas ilhas como na ?convivência? ou diálogo intelectual com o exterior, desde o Continente português às Américas. Urbano Bettencourt é, nos Açores, um dos mais completos e consequentes exemplos do poeta crítico, com profundo enraizamento na experiência criativa do nosso país. Desde há anos docente de literatura na Universidade dos Açores, a dualidade da obra de Urbano, assim como o seu papel de homem de letras público, faz lembrar a dinâmica criativa e teorizadora do conhecido grupo de poetas sulistas norte-americanos que (também a partir das suas universidades) nos anos 30 e 40 criaram e aprofundaram o New Criticism, a mais duradoura (e internacionalizada) proposta teórica na descodificação do texto poético.

A data da publicação da sua poesia é pertinente. É aí que se encontra a chave descodificadora de muita da sua temática: o desespero e alienação de toda uma geração perante a guerra colonial e a longa ditadura política que não deixava mais do que a resistência ou a emigração a homens e mulheres livres e conscientes do seu momento histórico adentro de um referencial transnacional. O trágico cerco humano, na poesia de Urbano, intensifica-se na geografia atlântica da ilha abandonada e num tempo sem tempo. Urbano cultiva, desde o início, na sua poesia, uma aguda ironia e certo grau de ambiguidade na abordagem do mundo ilhéu açoriano ou mais vastamente português. A sua linguagem poética está decididamente vincada por uma insistente imagística e demais andamentos ora de denúncia da desolação societal ora de dialogismo entre autores e textos das mais próximas e distantes geografias reais e imaginárias; é a poética de uma dialéctica entre a realidade estática e a fuga através da pura fantasia. Há na sua obra a continuidade de preocupações temáticas expressas nas mais diversas formas desde, por exemplo, Fez do abandono um hino de coragem, do poema ?Ilha-Grande? do já referido Raíz de Mágoa de 1972, O mundo acaba mesmo em frente, de encontro à Montanha emboscada na sua teia de nuvens, de ?Horta, um perfil? em Algumas das Cidades de 1995. Este seu mais recente livro contém nove sequências sobre Angra pós-sismo (de 1980). É um gesto poético de aproximação afectiva e simultâneo distanciamento irónico e intelectual à realidade da ilha caída e aparentemente ?recuperada?.

Ensaísta e teorizador crítico da literatura e cultura açorianas, tal como na poesia, Urbano estende consideravelmente o campo de contextualizações estéticas e históricas. A análise textual serve-lhe inevitavelmente para a retenção de ideias principais e impulsos temáticos de cada texto em foco. A sua ?comunidade? de referências literárias e culturais inclui naturalmente a maior parte dos seus colegas dos ou nos Açores, mas nunca ignorando os que, de um modo ou outro noutras partes, intervieram ou intervêm nesse gesto de reconhecimento melvilliano de geografia para geografia, de língua para língua. Os escritores africanos de língua portuguesa, principalmente os cabo-verdianos devido às suas afinidades intelectuais com as ilhas açorianas, são-lhe uma presença constante e frutífera, como nos mostra De Cabo Verde aos Açores ? à luz da Claridade, editado (em 1998) na cidade do Mindelo após uma série de conferências que Urbano proferiu naquele arquipélago. Quanto aos referidos volumes de O Gosto das Palavras, bastará citar o que sobre essa obra de referência (para qualquer estudioso da literatura ou cultura açorianas) escreveu um dia Eugénio Lisboa nas página do JL: ?É que se Urbano é um académico genuíno, por profissão e competência, é também, e acima de tudo, um verdadeiro escritor. A diferença é enorme. O académico só tem que ensinar, investigar e apresentar comunicações com o resultado dessa investigação. Ao escritor compete-lhe criar textos, isto é, de criação literária que, mesmo comentando outros textos, estão muito para além da comunicação meramente denotativa?.

experiência imigrante açoriana na América do Norte e os seus reflexos nalguma literatura do arquipélago, para além de constantes chamamentos na sua restante obra poética e ensaística,  valeu-lhe ainda o estudo Emigração e Literatura: Alguns Fios da Meada, publicado na cidade da Horta em 1989. Trata-se de uma análise de como esse (talvez o mais importante) vector histórico na vida multissecular dos Açores foi transfigurado ou representado por alguns escritores açorianos no fim do século XIX. 

Vamberto Freitas (2002)

 

Obras (1972), Raíz de Mágoa. Setúbal, Ed. do Autor. (1980), Marinheiro com Residência Fixa. Lisboa, Grupo de Intervenção Cultural Açoriano. (1987), Naufrágios/inscrições. Ponta Delgada, Brumarte. (1995), Algumas das Cidades. Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura [poesia]. (1983), O Gosto das Palavras. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional de Educação e Cultura [artigos sobre Antero de Quental e outros autores açorianos; o carácter cósmico de alguma poesia barroca, os Apólogos Dialogais de D. Francisco Manuel de Melo]. (1989), Emigração e Literatura. Horta, Gabinete de Cultura da Câmara Municipal [ensaio que aborda a questão nalguns contistas açorianos do final do século XIX].O Gosto das Palavras. Ponta Delgada, Jornal de Cultura, II [ensaios sobre autores açorianos e ainda Maria Ondina Braga, Helena Marques, António Tabucchi, Raul Brandão, entre outros]. (1998), De Cabo Verde aos Açores ? à luz da Claridade. Mindelo, Câmara Municipal de S. Vicente. (1999), Gosto das Palavras. Lisboa, Ed. Salamandra, III. [Ensaios sobre Literatura Clássica Portuguesa e Literatura Açoriana e Cabo-Verdiana] [Crítica/Ensaios Reunidos]. (1986), ?Rodrigo Guerra - Alguns Olhares? in Onésimo Teotónio Almeida, Da Literatura Açoriana ? subsídios para um balanço. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional de Educação e Cultura. (1987), Algumas Palavras a Propósito... In Terra, F. Água de Verão. Ponta Delgada, Signo. (1998), ?A Ilha de Fernão Dulmo em Mau Tempo no CanalIn Homem, M. A. (ed.), Livro de Comunicações do Colóquio As Ilhas e a Mitologia. Câmara Municipal do Funchal: 117-123. [Ensaios Dispersos].

 

Fonte: http://www.culturacores.azores.gov.pt/ea/pesquisa/Default.aspx?id=51 (consultado em 14/09/2019)




Com Navalhas e Navios, de Urbano Bettencourt” in Folha de Poesia, José Carreiro. Portugal, 14-09-2019. Disponível emhttps://folhadepoesia.blogspot.com/2019/09/a-minha-poesia-esta-diferente.html



quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Antero de Quental - in memoriam, por Fernando Martinho Guimarães




No 11 de Setembro da sua morte.
in memoriam
para o antero de quental


Para os lados do campo de s. francisco
Pelo entardecer em que tudo está quedo
Acontece ocorrer-me ao pensamento
Ideias vagas e longínquas de suicídio
(é bem certo que tudo na vida é literário
e não o sendo de pouco vale)
Há lugares em que o destino
Espera pacientemente pela hora
Derradeiros gestos e solitários assombros
Confusas ideias sobre o que na vida se reservou
Amigos d’além mar e amores de mais para lá
Sonhos de mudar tudo
E o que mais não se verá
Sonhos vãos e anseios de nada
Encantamentos d’infância
Em azuis d’olhar
Esfria o dia e num banco de jardim
A que só em pensamento ouso sentar
Aconchego-me em sonetos de meditar
E um arrepio de vento trespassa a folhagem
De árvores com olhos de tempo
Uma âncora sustém-me o pensamento
E como folha que o outono faz sua
Deixo-me levar como coisa sem rumo
Num sonho de esperança que não finda jamais
Nem dos anjos se diz tal coisa
É que soçobrar assim é real como
Coisa a que não falta nada
Nem da vida nem da morte
Que tudo sendo pouco é
Já a noite se aproxima
Num sopro frio que tudo invade
Uma tristeza sem fim Uma agrura
Uma dor de ser Um lamento
Uma impossibilidade Uma vertigem
Uma anulação e Um nada querer ser
Subtilíssimos deuses agrilhoados
Irrompem pelas raízes das árvores
Todos
Confluem para aquele banco de jardim

“No 11 de Setembro da sua morte. in memoriam para o antero de quental”, Fernando Martinho Guimarães, Facebook, 2019-11-11. Disponível em: https://www.facebook.com/fernando.m.guimaraes/posts/10218351265247077


   SUGESTÃO DE LEITURA:

à Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária de textos de Antero de Quental, por José Carreiro. In: Lusofonia – plataforma de apoio ao estudo da língua portuguesa no mundo, 2021 (3.ª edição) <https://sites.google.com/site/ciberlusofonia/PT/Lit-Acoriana/antero-de-quental>




“Antero de Quental - in memoriam, por Fernando Martinho Guimarães” in Folha de Poesia, José Carreiro. Portugal, 11-09-2019. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2019/09/no-11-de-setembro-da-sua-morte.html



quarta-feira, 24 de julho de 2019

Quem muito viu..., de Jorge de Sena



Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas;
e foi traído, e foi roubado, e foi
privado em extremo da justiça justa;

e andou terras e gentes, conheceu
os mundos e submundos; e viveu
dentro de si o amor de ter criado;
quem tudo leu e amou, quem tudo foi –

não sabe nada, nem triunfar lhe cabe
em sorte como a todos os que vivem.
Apenas não viver lhe dava tudo.

Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
quando o buscar, há de encontrá-lo morto.

Soneto de Jorge de Sena, Brasil, 1956-65
Peregrinatio ad Loca Infecta (1969), incluído em Poesia III (1978)




Sobre “quem muito viu…”

Inscrito na seção “Brasil” de Peregrinatio ad loca infecta (1969), livro dividido em 4 partes mais um epílogo (respectivamente “Portugal (1950-59)”, “Brasil (1959-65)”, “Estados Unidos da América (1965-69)”, “Notas de um regresso à Europa (1968-69)” e o poema “Ganimedes”), o soneto “Quem muito viu…” talvez seja um dos poemas que melhor dê expressão ao título do livro e seu sentido de peregrinação. Talvez até possamos pensar que o sujeito deste poema é o próprio movimento, o próprio peregrinar, numa busca incessante.
Seguindo o trajeto de um sujeito – singular ou coletivo? – apenas designado pelo pronome “quem”, que mais oculta do que revela a sua identidade (ou mais revela que oculta, se pensarmos numa dimensão autobiográfica…), o soneto assinala um movimento contínuo, materializado no discurso pela enumeração e pela sucessão de orações coordenadas (“Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,/ mágoas, humilhações, tristes surpresas;/ e foi traído, e foi roubado, e foi/ privado em extremo da justiça justa”). Esta acumulação de acontecimentos nem sempre correlatos, mas todos ligados ao mesmo sujeito, vai como que arrastando o leitor e tira-lhe o fôlego até poder respirar novamente, no décimo verso, diante do ponto que finaliza o longo período. Percebe então que este se fecha com uma sentença radical: o ser que tanto experimentou, ou que, camoniamente, “errou todo o discurso dos [s]eus anos”, afinal “não sabe nada, nem triunfar lhe cabe/ em sorte como a todos os que vivem.” Tal declaração (que nos recorda “Tabacaria”, de Álvaro de Campos, cuja primeira estrofe enfatiza o não ser nada, o não saber nada) cria enorme surpresa por sugerir a inconsistência ou futilidade daquele somatório de experiências que o sujeito incorporou ao longo dos tempos. Mesmo o ter conhecido “mundos e submundos”, mesmo o ter sido tudo, ainda não foi suficiente e, por isso, em que pese o contraditório, “Apenas não viver lhe dava tudo.”
No entanto, o poema prossegue, semelhante a uma profecia, cujo tom não é menos radical que a afirmação anterior: “Inquieto e franco, altivo e carinhoso, será sempre sem pátria”. Surge aí o termo historicamente ancorado – pátria – que tudo esclarece: esse sujeito indefinido será sempre marcado pelos tempos e espaços do desterro, da condição ex-cêntrica, da condição de exilado, ou seja, do “não viver”. E, ao fim do poema, em outra afirmação voltada para o futuro, lemos, “E a própria morte,/ quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.”, a sugerir uma espécie de sujeito (“altivo”), que, graças à sua trajetória de exílio, de não-vida, é capaz de ultrapassar a própria morte. Antecipando-se a ela, recusa o território que ela lhe poderia oferecer – uma espécie de “pátria” da morte – e, portanto, por ser apátrida acima de tudo, consegue derrotá-la.





    Ligações externas:


Homenagem a Jorge de Sena - Colóquio Letras, N.º 104/105 (Jul. 1988), Disponível em: http://coloquio.gulbenkian.pt/bib/sirius.exe/do?issue&n=104


“Jorge de Sena e o testemunho poético de paisagens ausentes”, Alessandro Santos. Nau Literária, PPG-LET UFRGS, https://seer.ufrgs.br/NauLiteraria/article/viewFile/76095/47029, vol. 13, N. 02 2017

Ler Jorge de Sena® 2010 Universidade Federal do Rio de Janeiro

O essencial sobre Jorge de Sena, Jorge Fazenda Lourenço. 2.ª edição revista e aumentada, INCM, 2019






Quem muito viu..., de Jorge de Sena” in Folha de Poesia, José Carreiro. Portugal, 24-07-2019. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2019/07/quem-muito-viu-jorge-de-sena.html



sábado, 20 de julho de 2019

Quem fala de partir, de despedidas, Jorge de Sena

JORGE DE SENA


1    Quem fala de partir, de despedidas...
2    Quantas vezes parti na minha vida,
3    me despedi de vez de gente e de lugares
4    a que voltei para encontrá-los outros...
5    Nem contar posso. E às vezes despedir
6    foi só pisar com vã melancolia
7    as ruas de cidades onde não deixava
8    ninguém que me lembrasse. Às vezes foi
9    apenas receber por um relance vago
10   a imagem de um recanto ou de uma luz
11   iluminando nevoentos muros...
12   Não muitos terão tido a vida inteira
13   esta febre de andar por vários mundos
14   buscando ansioso o nada nosso e deles
15   que ao menos nada finge em gente e coisas...
16   E não terão, portanto, na memória
17   o tanto haver partido para longe,
18   para saberem que se parte sempre,
19   e não se volta nunca. O mesmo amor
20   que fiel aguarda o regressarmos não
21   é o mesmo já, mesmo se mais ardente
22   sob os cabelos que lhe são mais brancos.
Londres, 15/3/1973
Jorge de Sena, Poesia 2, edição de Jorge Fazenda Lourenço, Lisboa, Guimarães, 2015, pp. 726-727.


QUESTIONÁRIO:

1. Refira dois dos traços que caracterizam a figura de viajante representada no poema.
2. Indique o sentido da expressão «vã melancolia» (verso 6).
3. Neste texto, o sujeito poético realça a diferença entre a sua experiência e a experiência de outros.
Justifique esta afirmação, tendo em conta os versos 12 a 19.
4. Explicite dois aspetos do tema do regresso, tal como é tratado neste poema.

CENÁRIOS DE RESPOSTA:

1. Na resposta, referem-se, adequadamente, dois dos traços que caracterizam a figura de viajante representada no poema, pelo que devem ser desenvolvidos dois dos tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes.
A figura de viajante representada no poema:
sente uma atração irresistível pela descoberta de «vários mundos» (v. 13);
conhece bem, por experiência própria, o que é partir e regressar;
considera que o facto de muito viajar marca a sua personalidade.

2. Na resposta, indica-se o sentido da expressão, desenvolvendo, adequadamente, dois dos tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes:
A expressão «vã melancolia» (v. 6) remete para:
a tristeza absurda de uma despedida em que não se diz adeus a ninguém;
a inutilidade de se despedir de um lugar a que se é por completo estranho;
o sentimento de partir de uma cidade onde ninguém lembrará aquele que parte.

3. Na resposta, justifica-se a afirmação, desenvolvendo, adequadamente, dois dos tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes:
O sujeito poético realça a diferença entre a sua experiência e a experiência de outros:
sugerindo que faz parte de um grupo restrito («Não muitos» – v. 12), com características próprias;
considerando que quem não integra o grupo restrito a que ele pertence não poderá entender a experiência de «tanto haver partido para longe» (v. 17) e de regressar, pois não o faz com a mesma frequência nem o sente com a mesma intensidade;
supondo que a sua propensão para a viagem não será partilhada por muitos.

4. Na resposta, explicitam-se dois aspetos do tema do regresso, desenvolvendo, adequadamente, dois dos tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes:
Tal como é tratado neste poema, o tema do regresso convoca os seguintes aspetos:
o regresso revela toda a mudança que ocorreu durante a ausência;
o pleno regresso é impossível, pois, ao voltar, o lugar que se deixou encontra-se sempre diferente;
mesmo os que aguardam fielmente o regresso de quem partiu já não são os mesmos.

Fonte: Exame Final Nacional de Literatura Portuguesa, 11.º Ano de Escolaridade. Prova 734 (Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de julho; Decreto-Lei n.º 55/2018, de 6 de julho).  Instituto de Avaliação Educativa, I.P. (IAVE), 2019, 2ª fase.




     Ligações externas:
           



Quem fala de partir, de despedidas, Jorge de Sena” in Folha de Poesia, José Carreiro. Portugal, 20-07-2019. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2019/07/quem-fala-de-partir-de-despedidas-jorge.html


sexta-feira, 19 de julho de 2019

Herberto Helder – por sobre as águas

Herberto Helder em Vale de Figueira, Santarém, anos 1960 (José Carlos Lucas/Casa Museu Frederico de Freitas)

Herberto Helder como nunca viu (ou ouviu)

A mais completa exposição sobre o autor madeirense faz casa no Funchal até meio de Setembro. Oportunidade para (re)visitar Herberto Helder: a obra e a vida.
Márcio Berenguer PÚBLICO, 18 de Julho de 2019, 12:13

Herberto Helder – por sobre as águas. A exposição biobibliográfica sobre o poeta madeirense, que abre as portas esta quinta-feira no Funchal, reúne todas as primeiras edições do conjunto de cerca de quatro dezenas de títulos em poesia e em prosa da obra de Herberto, publicadas entre 1958 e 2018.
A mostra, que estará patente até 18 de Setembro na Casa Museu Frederico de Freitas, revela também fotografias inéditas de Herberto Helder (1930-2015), e correspondência particular entre o poeta e alguns nomes maiores da cultura nacional como Sophia de Mello BreynerEduardo Prado Coelho ou Eduardo Lourenço.
Pela primeira vez, destaca ao PÚBLICO Diana Pimentel, curadora da exposição, estará acessível o conjunto das cinco entrevistas dadas entre 1959 e 1968 e uma auto-entrevista feita em 1987. “Revelam, de certa forma, como Herberto Helder foi lido e interpelado à época, dando a possibilidade aos seus leitores de poderem — pela sua própria voz — compreender a lucidez, o desassombro e a ironia que Herberto Helder sempre teve no contexto da poesia portuguesa contemporânea.”



Ao longo da exposição sobre a vida e obra do autor de Os Passos em Volta ou Photomaton & Vox, são documentadas factos “pouco conhecidos do público em geral”, como a apreensão, em 1968, do livro Apresentação do rosto.



Autobiografia do autor, que é de índole esquerdista, escrita em linguagem surreal e hermética que como obra literária não mereceria qualquer reparo se não apresentasse passagens de grandes obscenidades (…) Nestas condições entendo que é de propor a proibição de Circular no País para este livro”, lê-se num relatório da PIDE em Junho de 1968, que integra o acervo da exposição.



Em Herberto Helder – por sobre as águas é “visível e legível” a forma “activa e dedicada” com que colaborou com inúmeras edições de antologias, cadernos e revistas literárias entre os anos 50 e 70 do século passado no Funchal, em Lisboa, em Coimbra e em Paris. “É a travessia, também por sobre as águas, da sua poesia pelas artes plásticas (pintura, escultura, fotografia) ou pelo cinema, num diálogo tão antigo quanto actual”, assinala Diana Pimentel, coordenadora do Núcleo de Estudos Herberto Helder, da Universidade da Madeira, explicando que os visitantes podem aceder a materiais multimédia: registos áudio de poemas lidos pelo próprio, documentários, reportagens e adaptações digitais do trabalho do autor.
A exposição, a mais completa sobre o autor, que cultivou “a ética de um rigoroso silêncio” sobre o ofício de escrever, é promovida pela Secretaria Regional do Turismo e Cultura, integrada nas comemorações dos 600 anos do descobrimento da Madeira e do Porto Santo, e constituiu uma oportunidade de contactar com o projecto artístico inédito de Filipa Cruz (Até Os Tempos Não Mais Serem Interditos), que procura pensar a poesia de Herberto Helder enquanto comentário à materialidade e à imaterialidade.

“O propósito maior desta exposição talvez seja o de acompanhar os leitores (iniciais ou experientes) da prosa e da poesia de Herberto Helder pelas inúmeras águas por e sobre as quais a sua obra se abre, continuamente, e se expande — e expandirá”, resume Diana Pimentel, admitindo o espanto contínuo ao montar a exposição. Mesmo que já estudando a sua obra há algum tempo, ainda me continua a surpreender a intensidade e a potência do seu trabalho de escrita, o extremo rigor do seu ofício poético (e editorial) e o modo como a obra de Herberto Helder, em interacção com os seus contemporâneos e com gerações anteriores e posteriores à sua, se não acomodou — nem está, ainda, acomodada — a um tempo.”

Herberto Helder e o pintor Carlos Fernandes.
Corimba - Luanda, 1971 (Fotografia de Júlio de Saint-Maurice)
Herberto Helder em Vale de Figueira, Santarém, anos 1960
(José Carlos Lucas)
Herberto Helder, 1948
Herberto Helder, 1941