quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

SONETO DE GELO (Camilo Pessanha)


Edvard Munch, Melancolia, 1894
  


SONETO DE GELO

Ingénuo sonhador — as crenças d'oiro 
Não as vás derruir, deixa o destino 
Levar-te no teu berço de bambino, 
Porque podes perder esse tesoiro.

Tens na crença um farol. Nem o procuras, 
Mas bem o vês luzir sobre o infinito!... 
E o homem que pensou, — foi um precito, 
Buscando a luz em vão —sempre às escuras.

Eu mesmo quero a fé, e não a tenho...
— Um resto de batel — quisera um lenho, 
Para não afundir na treva imensa,

O Deus, o mesmo Deus que te fez crente... 
Nem saibas que esse Deus omnipotente 
Foi quem arrebatou a minha crença.
  
Camilo Pessanha
  
  
autógrafo de «SONETO DE GELO»   
Transcrição da Gazeta de Coimbra, feita por José Campos H Figueiredo .
Publicações anteriores à terceira edição de Clepsidra:
  Gazeta de Coimbra, de 2 de Setembro de 1887.
  
  
TEXTOS DE APOIO
O naufrágio em Camilo Pessanha, Ângela Carvalho (2006-2008)
Florescem as rosas bravas simbolistas, Antônio Donizeti Pires (2009)
A melancolia e os seus objetos. João Paulo Barros de Almeida (2009)
O materialismo trágico em Camilo Pessanha. Giuseppe Freitas da Cunha Varaschin (2011)
   
   

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Tommy Ingberg, Still Standing, 2012-09-08 
   
   
O NAUFRÁGIO EM CAMILO PESSANHA
  
A morte figurada como indesejada está patente no “Soneto de Gelo”, onde o sujeito poético declara abertamente querer um “resto de batel”, um “lenho” que lhe permita não se “afundir”. Estas tábuas de salvação aparecem-nos como metáfora da fé, ausente porque desejada, inatingida porque procurada:
Ingénuo sonhador – as crenças d’oiro
Não as vás derruir, deixa o destino
Levar-te no teu berço de bambino,
Porque podes perder esse tesoiro.
Tens na crença um farol. Nem o procuras,
Mas bem o vês luzir sobre o infinito!...
E o homem que pensou, – foi um precito,
Buscando a luz em vão – sempre às escuras.
  (Pessanha, 1887: 94-5, vv. 1-8)
  
Este poema apresenta uma dicotomia entre a busca ativa da fé e a quietude dos que já a possuem. No que diz respeito à primeira, conduzirá à perda de valiosas crenças, no caso de estas já existirem, ou à condenação ao não alcance das mesmas, no caso de estas ainda não existirem. A ação amaldiçoa também o homem que ousou pensar,“buscando a luz em vão – sempre às escuras”. Este sujeito, que deseja a fé que não tem, está condenado a naufragar, embora faça tudo para o evitar. A quietude dos que já possuem a fé é apresentada como única solução para não “perder esse tesoiro”. O “ingénuo sonhador” deverá unicamente deixar-se levar pelo destino, vida fora, se não quiser perder o farol que luz sobre o infinito. O “ingénuo sonhador” não procura essa luz e é por isso mesmo que a vê luzir.
O naufrágio em Camilo Pessanha”, Ângela Carvalho. 
Revista da Faculdade de Letras — Línguas e Literaturas, II Série, vol. XXIII, Porto, 2006 [2008], pp. 224-225.
   
   
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Tommy Ingberg, Anchored (2012-12-05)
   
   

FLORESCEM AS ROSAS BRAVAS SIMBOLISTAS
  
[…] convém frisar que os temas do inverno e das rosas (aqui poetizados conjuntamente) aparecem de modo persistente na obra do poeta. Assim temos, numa recolha não exaustiva: os poemas “Soneto de gelo” e “Rosas de inverno” (não aproveitados, ambos, na primeira edição de Clepsidra), ou os dois sonetos de “Paisagens de inverno”.
No primeiro citado, “Soneto de gelo”, a atmosfera é metafórica, pois “gelo” equivale à descrença (ou à falta de crença) do eu-lírico, que se dirige a um tu: “[...] O Deus, o mesmo Deus que te fez crente... / Nem saibas que esse Deus omnipotente / Foi quem arrebatou a minha crença.” (PESSANHA, 1992, p.94). Aqui, o eu-lírico dirige-se claramente a um “tu humano”; porém, na obra madura talvez se possa afirmar que este foi substituído por um “tu reificado”, como dá a ver, em alguns poemas, o sutil uso da prosopopeia: esta (cujas características principais são a animização, a personificação, a dotação de voz e viva presença – inclusive pela apóstrofe, tão cara a Pessanha – a coisas inanimadas e/ou ausentes e/ou mortas), cumpriria duas funções básicas na poesia camiliana: a mais óbvia, de humanizar/dar vida aos objetos (da natureza, do quotidiano, do mundo, da cultura); a outra, de revelar exatamente por este meio a solidão, a angústia melancólica, o abandono e o exílio do poeta.
Antônio Donizeti Pires (UNESP/Araraquara). Texto Poético
Revista do GT Teoria do Texto Poético (ANPOLL) (ISSN: 2808-5385), Vol. 6. 2009– 1.º Sem.
   
   
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Tommy Ingberg, "Torn" (2011-01-23)
   
   
A MELANCOLIA E OS SEUS OBJETOS
  
Em tempos bem mais recentes, Eduardo Lourenço, falando de Pessoa, equaciona simbolismo e depressão (nome moderno para a melancolia): «No sentido mais cru do termo, Fernando Pessoa e o poeta da Depressão ‑ histórica, psicológica, metafísica e psiquiátrica ‑ que teve no Simbolismo de que e, em última análise com Mallarmé e Pessanha, a única expressão genial, a sua versão poética»55. Já Baudelaire punha ominosamente toda a poesia moderna sob um céu melancólico («Ciel mélancolique de la poésie moderne»56). À luz da frase de Eduardo Lourenço, também em Pessanha se poderiam escavar os diversos níveis da depressão/ melancolia.
Se as raízes psicopsiquiátricas e históricas da sua melancolia são facilmente reconhecíveis (abulia, «inibição psíquica endógena», absinto e ópio, o «país perdido», Portugal), já a expressão depressão metafísica lançada por Lourenço é mais enigmática. Talvez o termo se adequasse melhor a um Antero de Quental57, associando naturalmente a busca metafísica com o problema de Deus, porque na sua obra não palpita uma clara ânsia de Transcendência, como na do pensador açoriano, que instaure um drama existencial. A crença religiosa é vista como uma ingenuidade de infância, que o despontar do pensamento arruína, em «Soneto de Gelo»58. Curiosamente, o seu publicista João de Castro Osório fala da desorientação e da desolação de uma alma sem Deus.
Partindo da definição de Les Fleurs du Mal, cunhada pelo próprio Baudelaire (o grande precursor do Simbolismo) numa primeira versão, como um «misérable dictionnaire de mélancolie», Pierre Dufour propõese ler essa obra como um texto melancólico por hipótese, cruzando abordagens da psiquiatria moderna, da psicanálise, da história da cultura, e das obras poéticas melancólicas por elas mesmas enquanto discursoespelho, isto é, discurso melancólico sobre a melancolia. Entre as diversas «démarches» que a argumentação do crítico aciona, interessa reter a afirmada função cognitiva do imaginário melancólico, alcançada pela via aberta de uma semântica cognitiva (teoria de extração americana) cujo objetivo é o de reconstruir a unidade da dinâmica do discurso para além das clivagens entre semântica, sintaxe e pragmática. A dimensão figural, imaginária do sentido nasce de uma conceptualização, fortemente estruturada, de tipo arcaico, metafóricoanalógico, que subsiste sob o sentido lógico-sintático. A manifestação dessa conceptualização analógica, parcialmente não proposicional, está nas metáforas mortas, lexicalizadas, estereotipadas, que promanam de um sistema cognitivo inconsciente que estrutura não só a nossa linguagem, mas também os nossos conceitos, afetos, valores, o próprio vivido. O específico do «modelo cognitivo» próprio do imaginário melancólico está numa espécie de extremitas, de desmesura de que provêm o gosto pelo excessivo e a retórica da hipérbole…sendo os objetos melancólicos mais densos, implicados nesse modelo cognitivo, o espelho, a máscara, o labirinto, o mar, particularmente arcaicos, e por isso semanticamente mais pregnantes. É interessante verificar como este tipo de análise, estribada em princípios e orientações da «semântica cognitiva», vem ao fim e ao cabo reunirse, em muitos pontos, com uma leitura simbolista (nomeadamente, o papel central que aquela confere à analogia livre ou forçada, «contrainte»).
  
Sentimento e Conhecimento na Poesia de Camilo PessanhaJoão Paulo Barros de Almeida, 
Coimbra, Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, 2009, pp. 105-107.
  
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(55) Cit. in Rubim, Inscrição Espectral..., p. 4.
(56) Cit. in Pierre Dufour, “«Les Fleurs du Mal», Dictionnaire de Mélancolie”, in Littérature, nº 72, 1988, p. 32.
(57) O qual no mesmo ano da publicação das revolucionárias Odes Modernas escreveu a Alberto Sampaio que se ia «fazer padre», veleidade que testemunharia o pulsar de uma alma religiosa que no misticismo teísta teria encontrado realização pessoal, mas que, encontrando a porta fechada, se abisma em «desespero metafísico». Daí que o Cardeal Cerejeira tenha retirado do seu destino trágico uma ilustração de apologética. Antero teria podido fazer sua a famosa frase de um personagem de Os Demónios de Dostoiéwski: «Deus atormentoume toda a minha vida», mas é duvidoso que pudesse ser perfilhada por Pessanha.
(58) «As crenças de oiro» são encaradas como um embalo que adormece o bambino no seu berço e que um destino benigno manteria pela vida fora («Ingénuo sonhador – as crenças d’oiro/ Não as vás derruir…Deixa o destino/ Levarte no teu berço de bambino,/ Porque podes perder esse tesoiro.»). Porém, o último terceto parece dirigirse a alguém crente, provavelmente ele próprio, («O Deus, o mesmo Deus que te fez crente…»), responsabilizando a omnipotência de Deus pela perda da crença do sujeito («Nem saibas que esse Deus omnipotente/ Foi quem arrebatou a minha crença.»), que quisera «um resto», «um lenho» de fé para não soçobrar nas trevas. O farol da fé, a luz que lança sobre o infinito apenas irradiam na condição de o sujeito não procurar, não pensar, manter uma ingenuidade précrítica.
   
   
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Tommy Ingberg,  Think, 2012-10-24 
   
   
O MATERIALISMO TRÁGICO EM CAMILO PESSANHA
  
[…] este traço parece-me tão absolutamente gritante na poesia de Camilo que seria, de certo modo, imprudente não o dedicar uma boa dose de atenção e uma investigação mais aprofundada até mesmo acerca de suas possíveis origens históricas.
Trata-se do fenômeno que dominarei doravante de materialismo trágico. Não considero o materialismo trágico propriamente uma doutrina ou uma filosofia no sentido estrito da palavra; ele é mais uma reação emocional ao materialismo. Contudo, é também difícil dizer precisamente o que é o materialismo, é difícil considera-lo, por si, uma corrente filosófica unívoca, porque o conceito de matéria não foi ainda filosoficamente esclarecido. Desde Demócrito, que diria que a matéria é um aglomerado de átomos indivisíveis movendo-se aleatoriamente, passando por Epicuro, que associaria ao movimento atômico a necessidade de cumprimento da vontade de prazer, até Marx, que a definiria a partir da sua relação com o homem que a manipula de acordo com a ideologia, e os físicos modernos, que diriam algo provavelmente incompreensível para mim, mero estudante de letras; o facto unânime é que nada a respeito do materialismo é unânime, que a tradição dita materialista não possui a unidade de um conceito, e sim a mera unidade arbitrária de um significante. Como então reconhecer esse materialismo na poesia de Camilo Pessanha? Não é possível, como vimos, defini-lo positivamente, busquemos então uma delimitação semânticanegativa – tentemos reconhecê-lo a partir do que ele nega. O materialismo de Camilo Pessanha é uma negação da transcendência, de entidades metafísicas – até mesmo do Eu metafísico - o que pode justificar a admiração que Fernando Pessoa expressara por ele e sua obra, qualificando-o de mestre, haja vista que o próprio Pessoa exercera a anti-metafísica, ou seja, o que qualificamos aqui como materialismo, com o heterônimo de Alberto Caeiro. É um materialismo da negação de Deus, ou da morte de Deusnietzschiana, da total transitoriedade (e materialidade) da vida e da irrevogabilidade do tempo – e por isso a imagem da Clepsidra, duplamente remetente ao tempo, tanto pelo símbolo da água cuja relação simbólica com o tempo vai desde os tempos de Heráclito até Guimarães Rosa, quanto pelo instrumento do relógio. É um materialismo, portanto, que não busca mais o absoluto e a certeza no transcendente e sim no que é imanente, nas substâncias e sensações sensíveis e no tempo – pode-se dizer que a perda do significado de uma infinitude metafísica, ou vertical, foi abalançada pela descoberta das duas dimensões horizontais: o tempo (ou a história, seu menos abstrato correspondente na esfera cultural humana) e o espaço quantificável.
A origem desse deslocamento, ou rebaixamento – num sentido analogicamentelocal – dá-se, como já mencionei, em alguns filósofos pré-socráticos gregos, fica dormente durante o período medieval para “renascer no renascimento” com figuras da baixa escolástica como Nicolau de Cusa e Guilherme de Occam. Aquele operou algo que poderíamos chamar de divinização do espaço, aplicando ao espaço raciocínios e paradoxos que anteriormente eram “monopólios” do Deus transcendente, por exemplo: uma curva que se estende infinitamente é uma reta; um ponto que se move a uma velocidade infinita está parado em todos os lugares ao mesmo tempo.... Vê-se aí uma atribuição ao imanente de caracteres anteriormente exclusivos ao transcendente, entre eles a ininteligibilidade incapacidade de apreensão de essência que antecipa, de certa maneira, o agnosticismo Kantiano e o irracionalismo de que falaremos posteriormente. Já Guilherme de Occam prenuncia muito do ateísmo moderno com sua chamada navalha: “as entidades explicativas de um fenômeno não devem ser multiplicadas sem necessidade”. Daí advêm certos argumentos como o do bule de cháde Bertrand Russel e o do monstro do espaguete voador dos neo-ateus.
Essas são apenas algumas origens históricas ou justificativas filosóficas possíveis para a defesa de uma posição materialista tal qual a de Camilo Pessanha. Contudo, estamos, por enquanto, apenas na esfera filosófica de Camilo Pessanha – ignoramos até agora o fato de que qualquer elemento externo, seja ele um objeto, como uma faca ou uma cadeira, ou um ente de razão, como um sentimento ou uma idéia, quando inserido numa obra de arte adquire uma coerência e uma significação antes estética do que qualquer outra. O que dá à Camilo o ímpeto poético ao seu materialismo é justamente sua faceta artística, a tragicidade.
O aspecto trágico, que chamei de reação emocional a esse materialismo vem do fato de os compromissos filosóficos dele – que era, aliás, professor de filosofia elementar no Liceu de Macau -, não corresponderem às suas necessidades emocionais ou expectativas de sentido transcendente à fria estrutura material do cosmos. Pode-se dizer que ele sustenta uma cosmovisão que para ele parece insuficiente, mas algo só é insuficiente em oposição a algo que seria suficiente; a cosmovisão materialista de Camilo adquire para ele certo tom de insuficiência, creio eu, em oposição à cosmovisão tradicional religiosa – seja ela cristã como a com quem ele convivera em Portugal ou até mesmo taoísta ou budista, com as quais ele conviveu em seu exílio voluntário em Macau.
Todas as tradições religiosas se baseiam no pressuposto de que a realidade não frustra, de que há nela tudo o que o homem precisa, de que para cada inclinação natural de um ente há um fim próprio que é real e existente; pois, para elas, caso o contrário a natureza desse ente seria incongruente com a realidade e ele não existiria, por exemplo: um coelho come cenoura; se não houver cenoura não pode haver coelho. Do mesmo modo, analogicamente, o homem teria essa necessidade de transcendência - como “provam” as existências de religiões em todas as civilizações conhecidas – e se essa transcendência não existisse de fato, a natureza humana seria inconsistente com a realidade e o homem não existiria, da mesma maneira que não existem as zebras douradas que comem quadrados redondos. Por isso o materialismo trágico pode ser considerado uma espécie de precursor do existencialismo ateu do início do século XX – há o reconhecimento da propensão humana para Deus, mas não se deduz disso a existência de tal entidade, gerando assim, uma espécie de frustração inerente ao processo do conhecimento da realidade.
Por outro lado, essa concepção de uma materialidade insuficiente é um traço típico de uma cultura cristã. A tragicidade do materialismo de Camilo deriva justamente do ato de confrontar sua cosmovisão materialista com um fundo moral, doutrinal e ideológico muito arraigado em sua bagagem cultural: o cristianismo. O cristianismo baseia-se num senso de privação, de que este mundo, o mundo dos homens não é o bastante e de que todos os valores aqui presentes não são senão versões diminutas do fundamento de todo e qualquer valor possível, que é Deus. Estamos, portanto, para o Cristianismo, privados, por conta do pecado original, da plenitude da existência. Os ritos e símbolos cristãos são, justamente, meios de perceber esta privação. No entanto, não é correto dizer que o cristianismo é a religião da privação – como afirmam muitos pensadores modernos, inclusive Frederico Nietzsche, que guarda muitas semelhanças com Camilo Pessanha -; pois a insuficiência do mundo material, no cristianismo, é completada, ou saciada, pela suficiência da contemplação Divina, como diz Santa Teresa de Ávila: só Deus é suficiente. A privação é somente o ponto de partida, o sentimento originário da religiosidade cristã, porque é só na medida em que percebemos a privação que nos podemos abrir para a redenção.
Ocorre porém que Camilo Pessanha, ao abolir a transcendência com o seumaterialismo fica apenas com o aspecto puramente negativo do cristianismo. Seu desgosto perante a realidade totalmente imanente e material é uma espécie de rastro subconsciente de uma influência que ele ainda não conseguiu apagar por completo. Se temos de buscar uma coerência psicológica em algo é porque já não mais é possível encontrar uma coerência lógica, que caracterizaria um pensamento filosófico autêntico. Por isso defendo que o materialismo trágico de Camilo é um traço de sua poética, e não necessariamente sua filosofia. É uma visão ilógica e irracional, pois não há como um materialista considerar racionalmente a matéria insuficiente, justamente pelo motivo já explicado: insuficiente é um conceito, ou um polo dialético que só faz sentido em oposição ao outro polo, ou conceito – o de suficiente – de modo que não pode haver insuficiência se não há também, na mesma medida e na mesma realidade, suficiência. O materialista lamentar a materialidade do mundo é tão absurdo quanto um astrônomo lastimar a existência dos astros, ou um matemático praguejar sobre a existência dos números. Ou existe a transcendência que redimirá a experiência de sofrimento e privação no mundo material, ou ela não existe e reclamar de sua inexistência é lamentar-se perante uma fatalidade. Mas Camilo não consegue se livrar de comparar sua “filosofia” materialista com o cristianismo e pensar, saudosistamente: como era melhor... Vemos um bom exemplo disso no seguinte soneto: “E eis quanto resta do idílio acabado”. […]
Um outro exemplo de como o materialismo trágico de Camilo é uma antes poética do que ideológica – devido às suas gritantes contradições, que, aliás, são um traço típico do simbolismo, movimento ao qual Camilo é geralmente associado – é o seu famoso “Soneto de Gelo”.
Novamente há aí a atribuição de ingenuidade àqueles que creem, que pode ser, como já mostrei, traçada em suas origens desde os Evangelhos. O biólogo britânico e militante ateísta Richard Dawkings cita em uma entrevista o trecho da epístola paulina aos Coríntios (“Quando era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Depois que me tornei homem, fiz desaparecer o que era próprio de criança.”) querendo transmitir semelhante mensagem. Mas a pretensa maturidade, que carregaria a racionalidade, que se oporia a essa crença infantil não parece aí ser retratada de maneira muito racional. Na mesma estrofe em que Camilo admite que o farol da crença luze sobre o infinito ele diz que aquele que busca a luz, fá-lo em vão, pois vai sempre às escuras. Depois, novamente aludindo à imagem da treva, propõe um lenho como possibilidade de salvação. É curioso que a palavra lenho tem uma dupla acepção: pode significar tanto madeira, que serviria literalmente para impedi-lo de afogar-se como na água, quanto uma cruz, possivelmente a de Cristo. Por isso considero este o soneto-síntese do que chamei de materialismo trágico: Camilo admite a fé em Cristo (“esse tesoiro”) como uma possível fonte de salvação, mas não o alcança, ou não o quer alcançar por acha-lo ingênuo, ou coisa de bambino. A última estrofe é extremamente significativa: o Deus em que ele não crê é o agente do seu processo de descrença. É como se Camilo dissesse – “Ele existe, mas eu não acredito”. E, com tamanhas contradições acumuladas, vê-se também um dos mais claros exemplos do anti-racionalismo ou irracionalismo da poesia de Camilo Pessanha. Se o instrumento da razão o trouxe a tantas certezas deprimentes não seria melhor descartá-lo? Até que ponto o conhecimento traz a felicidade? Por isso ele diz que o homem que pensou foi um precito.
O irracionalismo é um traço comum disto que chamei de materialismo trágico, até mesmo em Nietzsche, que talvez seja no ramo da filosofia – ou devemos incluí-lo também na poesia? - o maior representante desta condição. Eugen Fink, talvez o melhor intérprete deste filósofo, ao tentar sistematizar de forma coerente a filosofia de Nietzsche deparou-se com, não somente um, mas cinco sistemas mutuamente contraditórios. Por isso Nietzsche, bem como Camilo, tende para uma expressão poética, polissêmica, alusiva e simbólica da realidade, uma explicação aberta, não redutível às categorias exigidas pela razão.
Vimos então que o que era negação da transcendência, passou a ser, também, negação da razão mesma que a nega. A adesão racional a uma comovisão torna-se, assim, um assentimento emocional e irracional a um desgosto. Por isso o “cessais de cogitar, o abismo não sondeis” do último poema, indício forte desse irracionalismo. O ato de cogitar é aí igualado ao ato de sondar, de contemplar o abismo. Associo essa alusão imediatamente ao famoso aforismo 146 da obra Além do bem e do mal de Nietzsche: “E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você.” É a razão – o sondar – que leva à descoberta não de uma substância plenamente cognoscível, de uma realidade logocêntrica, e, portanto, inteligível2, e sim de um abismo – frio, aleatório e sem sentido. Desse modo, o que era supostamente a obra de um professor-filósofo, em quem deveríamos buscar sabedoria e racionalidade, torna-se uma apologia ao nada, o materialismo trágico se converte num delicioso convite à inexistência àqueles que nem sequer chegaram a existir – “Adormecei. Não suspireis. Não respireis.
O materialismo trágico em Camilo Pessanha”, Giuseppe Freitas da Cunha Varaschin. Trabalho académico para a cadeira de Literatura Portuguesa II, Universidade Federal de Santa Catarina - Centro de Comunicação e Expressão, 2011.
  
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(2) Há aí algo mais em comum com a cosmovisão religiosa. Há um argumento em favor da existência de Deus que na teologia se chama argumento da inteligibilidade. Esse argumento pode ser resumido da seguinte maneira: Se tudo é inteligível - leia-se compreensível – há então um princípio geral e fixo de possibilidades ao qual o cosmos obedece. Esse princípio de possibilidades realizáveis preexiste, necessariamente, ao cosmos e chama-se Logos Divino. Deus é, aí, a misteriosa fonte da inteligibilidade cósmica. Há várias versões desse argumento, desde a proposta pelo filósofo escolástico medieval Duns Escoto, passando pelo escritor e pensador G.K. Chesterton, até a descrita pelo então cardeal Jospeh Ratzinger em sua obra Introduction to Christianity. Negar a existência de Deus dentro de uma perspectiva ainda cristã – que é, em certa medida, o que Camilo faz – é ser incapaz de ver no universo qualquer sentido.
  
ilustração de Señor Salme para «Is It Time You Stopped Thinking About Living Longer?», endpoints.elysiumhealth.com, 2017


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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/01/15/soneto.de.gelo.aspx]
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