quinta-feira, 9 de julho de 2015

Avieiros, pescadores do Tejo


“Soubesse de outro ofício e bem lhe dava de abalar terra dentro à cata de trabalho. Porém, deixar o rio era coisa reparada. Quebrar tradições era traição ao seu povo.” (Alves Redol)






Pescador da Borda d' Água,
ao cimo d'água salgada;
passa fome, passa frio,
junto do seu camarada.
Vila Franca de Xira

Quem tem um homem do mar,
julga que tem algum duque:
tem um pastel de dez reis
c’uma pitada d’açucre.
Alcochete

Está nevoeiro no sol,
debaixo da proa deita fumo;
vai o ferro para o mar
e a caldeira para o lume.
Alcochete

O meu amor é do mar,
é do mar, é marinheiro;
se ele não fosse do mar,
não me ganhava dinheiro.
Alcochete

Vale mais um homem no mar,
sem botão no colarinho,
que valem trinta manatas
de bengala e chapéu fino.
Alcochete

Que linda maré que leva
o barco do meu irmão;
debaixo da proa tem
Senhora da Conceição.
Alcochete

O barqueiro leva a barca,
leva também a barquinha;
meu amor namora duas,
mas a fama é sempre minha.
Alcochete

Ó Senhora d'Atalaia,
atalaia dos pinheiros;
és mãe dos homens do mar,
madrinha dos carreteiros.
Alcochete

Adeus ó rua do Rato
e rua das Calçadinhas,
onde passa o meu amor
quando vai para as marinhas.
Alcochete

Ó loureiro, ó loureiro,
ó loureiro ramalhudo;
quem tem um amor barqueiro
tem passagem, passa tudo.
Chamusca

Ó senhor arrais do barco
pelo amor de Deus me leve;
as tranças do meu cabelo
servem de cordas de leme.
Chamusca

Quem tem um amor marujo,
pensa que tem algum duque;
é um pastel de tostão
c’uma pitada d’açucre.
Ereira

O meu amor é do mar,
anda a aprender a marujo;
s’inda me der na cabeça,
abalo com ele e fujo.
Palhota

O meu amor é do mar
e vai a Lisboa e vem;
Nossa Senhora mo guarde
das ondas que o lar lá tem.
Samora Correia

A sorte do marinheiro,
é uma verdade pura;
anda sempre a trabalhar
em cima da sepultura.
Samora Correia

Ó barqueiro arreia a vela,
ó barqueiro arreia o pano;
quem casa com mulher magra,
tem bacalhau todo o ano.
Vila Franca de Xira

Rapaz vê lá se descobres
num cantinho do mercado,
uma peixeira magrinha,
com o peixe perfumado.
Vila Franca de Xira

Uma gaivota voando,
no bico leva um letreiro,
com letras d’oiro que dizem:
meu amor é marinheiro.
Vila Franca de Xira

Lá vem o barquinho à vela,
lá vem a sardinha boa,
lá vem o meu amorzinho
assentadinho na proa.
Vila Franca de Xira

O meu amor é barqueiro,
tem a lancha presa no cais;
este ano é camarada,
para o ano é arrais.
Vila Franca de Xira

Já lá vai a embarcação,
toca não toca no cais;
é da minha obrigação
ajudar o meu arrais.
Vila Franca de Xira

No verão, cheio de calor,
muito pescador se passa:
lá vão uns para o melão,
outros ficam à fataça.
Palhota


PESCADORES VS CAMPINOS

Andas tola, andas vaidosa
por namorar um varino;
também eu ando vaidosa
por namorar um campino.
Vila Franca de Xira

PESCADORES
Vale mais um homem do mar
co'as mãos sujas d’alcatrão;
que valem trinta da terra
com as enxadas na mão.
Alcochete

Anda lá rapaz do mar,
ao leme dessa fragata;
manda lá o terreano
p’ra vinha sachar batata.
Alcochete

O meu amor é do mar,
é do mar e é varino,
e se não fosse do mar,
era do campo e campino.
Alhandra

Eu não quero ir ao campo
que lá faz muito calor;
eu não quero ser campina
que o meu bem é pescador.
Palhota

Eu hei de ir ao Alegrete
namorar uma varinha,
por que são flores viçosas,
não se encontram na campina.
Vila Franca de Xira

CAMPINOS
Homens do mar não são homens,
varinos homens não são;
onde chegam valadores,
abre a terra, treme o chão.
Vila Franca de Xira


Cancioneiro do Ribatejo, org. e prefácio de Alves Redol.
Vila Franca de Xira, Centro Bibliográfico, 1950


Obra integral disponível para leitura.



Há mais de cem anos, os avieiros, eternizados por Alves Redol, começaram a trocar o quezilento mar invernal de Vieira de Leiria pelo amável estuário do Tejo. Depois, trouxeram as famílias, e pelo rio ficaram.

“Eu não quero ir para o campo / que lá faz muito calor / eu não quero ser campina / que o meu bem é pescador." No seu Cancioneiro do Ribatejo, António Alves Redol pincela uma das rugas mais vincadas dos avieiros: o seu caráter reservado, isolado no rio, de costas para o vizinho mundo das lezírias e fechado aos camponeses que as habitam e trabalham. Esse lado recluso, que os leva a casar sempre dentro da própria comunidade, é uma das razões para o escritor neorrealista os apelidar de “ciganos do rio”, no livro Avieiros, publicado em 1942. Outra justificação, porventura mais forte, é o seu lado nómada ‑ os avieiros vieram de longe, de Vieira de Leiria, e durante muito tempo andavam de trás para a frente de barco às costas a fazer-lhes de casa.
O século XIX não foi um bom século para Vieira de Leiria. Começou logo mal, com o exército das invasões napoleónicas a saquear e arrasar a eito a vila piscatória, no seu caminho para Lisboa. O saldo só não foi pior porque a maioria da população fugiu antes para o pinhal de Leiria, levando consigo tudo o que conseguia carregar. Mesmo assim, nos anos seguintes, metade da população sucumbiu às epidemias, consequência da fome e de muitos terem encontrado as suas casas destruídas pelos franceses.
A arrasadora passagem das tropas inimigas tornou ainda mais difícil uma vida já de si duríssima. Os pescadores enfrentavam todos os anos invernos cruéis, de mar frio e bravo, em barcos demasiado pequenos e frágeis para encararem olhos nos olhos as descomunais ondas. Porém, ver os filhos a passar fome dá coragem ao mais poltrão dos homens. Muitas vezes, os pescadores da Vieira de Leiria arriscavam sair para o Atlântico debaixo de tempestade. Bastas vezes não regressavam. A alternativa era empregarem-se nas serrações, à jorna, mas o bom pescador enjoa longe do mar.
Até que, no final do século XIX, um deles aventurou-se a descer a costa até Lisboa e a entrar no Tejo. O pioneiro encontrou um mar dentro do rio - mas um mar de ondas suaves e peixe gordo. Palavra puxa palavra e o estuário foi-se enchendo de homens de Vieira de Leiria nos meses frios. No verão, continuavam a lançar a rede à sardinha, na terra natal; no inverno, faziam do Tejo casa, à cata de sável, enguia, robalo, lampreia, fataça. O povo que há séculos habitava as margens do rio imediatamente os batizou: avieiros, à conta da longínqua vila que lhes serviu de berço.


Duas bateiras com toldo à proa.

A bateira como abrigo.

Ao princípio, os homens vinham sozinhos, com o colorido barco a servir-lhes de casa e local de trabalho. A ré era a oficina, de onde lançavam as redes e guardavam o peixe. A barriga da embarcação fazia de cozinha, apetrechada com fogareiro a petróleo e um armário para guardar alguidares, comida e o material de costura, para consertar as redes. A proa empinada transmutava-se de quarto, separado da cozinha por uma taipa, chamada “emparedeira", que também servia para apoiar os pés no momento de dar uso ao remo. dormiam, embalados permanentemente pelo ondular das águas e mal protegidos da chuva por uma pobre e precária cobertura de lona. Nestes seis ou sete metros de comprimento por metro e meio de largura viviam os avieiros uma boa parte do ano.
Cinco meses parecem cinco anos quando se está sozinho. A temporada longe das mulheres e dos filhos alongava-se, cada vez mais penosa, e a saudade esmagava espíritos, mas o peixe deixava-se apanhar e no Tejo raramente se morria. Já com o século XX mais do que inaugurado, alguns avieiros começaram a trazer as famílias com eles e deixaram de regressar a Vieira de Leiria. Lentamente, os nómadas sedentarizaram-se, e passaram a ter como viagem maior as excursões até Lisboa para vender o pescado.
A grande migração aconteceu entre 1919 e a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Assentar raízes no concorrido rio, no entanto, não foi fácil. Incontáveis centenas de pescadores abarrotavam já as águas, e os avieiros nem sequer tinham sido os primeiros forasteiros a chegar. Era constante o choque com os varinos, naturais de Ovar, os murtoseiros, da Murtosa, e os ílhavos, de Ílhavo, que haviam descoberto o Tejo nos séculos XVIII e XIX. Também os homens e as mulheres dos campos olhavam com desconfiança para estas gentes de estranhos hábitos, que acampavam nas praias, para ficarem mais perto do peixe, às vezes erguendo casitas feitas de caniços, não ousavam dar dez passos terra adentro e se tratavam uns aos outros pelas mais estrambólicas alcunhas: o Diabo Coxo, o Boga, o Malho, o Tubarão, o Japão, o Picareta, o Cientista, o Póri, o Botas, o Cosminha...
A estabilidade e o generoso número de filhos com que os pescadores eram agraciados obrigaram-nos a procurar habitação mais condigna. Tábua a tábua, o rio ia sendo ladeado por barracos de madeira, iguais aos palheiros das praias de Vieira de Leiria mas assentes em estacas cravadas no leito ou nas margens, para escaparem às copiosas inundações e não se afastarem do barco, seu único sustento. É por esta altura, nos anos 20 e 30, que o Tejo ganha cor: ao invés da monotonia alva que rodeia o estuário, as casas de palafita dos avieiros são pintadas de vermelho, azul e verde.


No apogeu da migração de Vieira de Leiria, chegaram a "fundar-se" 80 lugarejos avieiros. Escaroupim, Palhota, Caneiras, Carrasqueira, Barreira da Bica, Lezirão, Muge, Valada, Carregado, Vila Franca de Xira, Alhandra, Póvoa de Santa Iria... Por todo o lado, quase até Santarém, assomavam pequenas aldeias berrantes, que ao longe pareciam flutuar nas águas. Habitações trôpegas e modestas – “pequenas, talvez para que as não vissem; tímidas, para que não as mandassem destruir", no dizer de Alves Redol - com cozinha, uma salinha e um ou dois minúsculos quartos. Por cima das camas, apetrechadas com singelos colchões de palha e velhas mantas, ficavam penduradas as redes. A entrada fazia-se por umas escadas que desciam para o rio.
Não eram só as casas a pintalgar o Tejo. Também os naturais de Vieira de Leiria se vestiam com roupas garridas. As mulheres envergavam blusas com pregas, saias de xadrez preto ou castanho e amarelo (ou vermelho, ou azul), casacos rematados por rendas, lenço na cabeça e um omnipresente avental - fosse no labor mais árduo, ajudando o marido a puxar as redes, fosse na festa mais catita. Os homens usavam calças de fazenda, sempre arregaçadas na bainha, e camisas de flanela aos quadrados, com um barrete preto ou uma boina vermelha.
http://www.vascoloubet.eu/portfolio_page/rancho-ceifeiras/

Com o tempo, a comunidade abriu-se mais. Aqui e ali, um ou outro pescador oferecia-se aos campos, quando o peixe, a crescer de esperteza ou a mingar de tamanho, fintava as redes ou as atravessava sem mácula. Empurrados para fora do rio, desempregados e puxados pelas fábricas que lhes invadiram o espaço, os netos e os bisnetos dos avieiros largaram paulatinamente a vida no Tejo.
Hoje, pode dizer-se que o tempo dos avieiros já lá vai. A modernidade encarregou-se de os extinguir, pescador por pescador. Restam apenas algumas casas, abandonadas ou a servir de barracão, entretanto empalidecidas, desbotadas pelo sol e pela água, apoiadas em apodrecidas e débeis escoras de madeira. As poucas casitas originais que ainda se mantêm de pé estão agora entre as últimas habitações típicas de palafita da Europa. Em Escaroupim, no concelho de Salvaterra de Magos, um antigo lar avieiro foi remodelado e convertido em museu.
A história dos pescadores que fizeram da aventura rotina, essa, não morrerá nunca. Alves Redol deixou-a contada no romance Avieiros, um dos pilares do neorrealismo português. O livro foi editado em 1942, mas começou a ser escrito na cabeça do vila-franquense quando ele era ainda uma criança: Alves Redol, que crescera ao lado dos filhos dos varinos, seus companheiros de escola e de brincadeiras, ficou certo dia embasbacado a olhar para o singular e rude desconhecido que viu entrar numa taberna, encher um garrafão de tinto e abalar sem uma palavra; um amigo disse-lhe que o homem era um avieiro, que vivia da apanha do sável, e a curiosidade transformou-se em obsessão por conhecer melhor aquele povo.
Três décadas depois deste episódio, e ao fim de quatro anos a tentar convencê-los, Alves Redol conseguiu que o deixassem viver com eles, na aldeia de Palhota, durante a época do sável, para os acompanhar nas pescarias, entrar-lhes na alma e imortalizar-lhes o legado. Com uma condição ‑ tinha de levar a mulher com ele, não fosse o escritor roubar-lhes mais do que a história.
“Ciganos do rio”, L.R./A.R.. Super Interessante nº 207, julho 2015
Este artigo é uma adaptação de um dos capítulos do livro Histórias do Tejo, do jornalista Luís Ribeiro (A Esfera dos Livros, 2013)






Barcos de Portugal



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