sexta-feira, 31 de julho de 2015

"Nova poesia" e "poesia nova" (Gastão Cruz)




"Nova poesia" e "poesia nova"
Gastão Cruz

Quando procuramos hoje uma "nova poesia portuguesa", a primeira coisa que poderá surpreender-nos é a inexistência de autores, já suficientemente visíveis, com idades situadas entre os vinte e os trinta anos.
Alguns dos principais nomes que viriam a formar a magnífica constelação de poetas revelados na segunda metade do século XX, ou mesmo um pouco antes, se recuarmos até à década de quarenta, afirmaram-se cedo; alguns exemplos: estreando-se aos vinte e três anos (Perseguição, 1942), Jorge de Sena publica aos vinte e sete o seu primeiro grande livro, Coroa da Terra (1946); Sophia, aos vinte e cinco, Poesia (1944); Eugénio de Andrade, As Mãos e os Frutos (1948), também aos vinte e cinco; Ramos Rosa afirma-se, a partir de 1951, nas páginas da Árvore, com vinte e sete; Cesariny publica, com a mesma idade, Corpo Visível (1950); Fiama e Luiza Neto Jorge têm, respectivamente, vinte e três e vinte e dois anos em 1961 (Morfismos e Quarta Dimensão, que não são sequer as suas primeiras obras); Nuno Júdice, a primeira estreia marcante da década de 70, torna-se imediatamente, aos vinte e três anos, com A Noção de Poema (1972), um poeta conhecido; Luís Miguel Nava ganha, aos vinte e um, o Prémio Revelação da APE de 1978, com Películas (1979).
É certo que um dos poetas presentes neste número de Relâmpago - e dos mais representativos, Luís Quintais ‑ alcançou, com vinte e sete anos, uma relativa projecção, quando o seu primeiro livro, A Imprecisa Melancolia, foi publicado simultaneamente em português e em tradução castelhana, depois da obtenção do Prémio Aula de Poesia de Barcelona, em 1995. E que também Daniel Faria, desaparecido em 1999, com vinte e oito anos, deixou um considerável e, sem dúvida, importante conjunto de poemas, distribuído por três livros principais, tendo o último, e acaso o mais relevante, Dos Líquidos, saído postumamente, em 2000. Objecto de uma discreta consagração, logo após a morte, o seu lugar, no panorama da poesia portuguesa mais recentemente revelada, parece não ter parado de consolidar-se, o que, suponho, continuará a acontecer.
Onde estão, porém, neste momento, os poetas portugueses com idade inferior a trinta anos? Ainda por publicar? À espera de serem descobertos nas páginas de livros mal divulgados? E por que não existem, quase, vozes poéticas femininas jovens?
Esperemos que venha a haver, em breve, resposta factual para estas perguntas.
Se não podemos falar, propriamente, de jovem poesia, falemos então de nova poesia portuguesa. E a primeira questão que se coloca é a seguinte: será a nova poesia uma poesia nova?
Ruy Belo, um dos poetas que mais penetrantemente pensaram o fenómeno poético (e será conveniente voltar a sublinhar, contra a sectária miopia de certos detractores, a extraordinária importância da sua obra teórica e crítica, constituída, quer pelos textos reunidos no volume, recentemente reeditado, Na Senda da Poesia, quer pelos prefácios aos seus próprios livros de poemas, sem dúvida, ao lado das de Sena e Ramos Rosa, uma das que mais contribuíram para uma verdadeira reflexão sobre a poesia moderna e contemporânea, em Portugal), defendeu, num ensaio fundamental, de 1961, "Poesia Nova - Tentativa de Caracterização da Poesia", que poderia ser lido com proveito por alguns poetas actuais, como "característica essencial de toda a poesia a novidade".
Sabemos como a produção do novo, como pressuposto de validação da obra de arte, não somente do poema, passou a ser vista com suspeição, em tempos mais ou menos recentes, marcados por essa espécie de contra-reforma que tem dado pelo nome de pós-modernidade.
Todavia a exigência de novidade não foi exclusiva do modernismo ou das várias vanguardas novecentistas: novo foi Sá de Miranda (cf. Jorge de Sena, "Reflexões sobre Sá de Miranda ou a arte de ser moderno em Portugal", in Da Poesia Portuguesa, Ática, Lisboa, 1959), novos foram Cesário Verde ou Camilo Pessanha - novo terá de ser, hoje, qualquer poeta que queira escrever alguma coisa capaz de superar o descritivismo morno, a observação rasteira do que o cerca (ou ele decide que o cerca), a má (ou menos má...) prosa disfarçada de poema.
Um sector do que podemos chamar "nova poesia portuguesa", ou, talvez mais exactamente, o teorizado r de uma poesia "sem qualidades", Manuel de Freitas, tem procurado impor um conceito de poesia que, recusando as "qualidades" que terão andado associadas à chamada poesia moderna, tal como a conhecemos desde meados do século XIX, lhes contrapõe a ausência delas ("Estes poetas não são muita coisa. Não são, por exemplo, ourives de bairro, artesãos tardo-mallarmeanos", diz-se no prefácio do organizador, M. de Freitas, à pequena antologia Poetas sem Qualidades), ecoando a curiosa tese de Joaquim M. Magalhães, precisamente num artigo de exaltação da poesia de M. de Freitas, de que "vieram os finais do séc. XIX e quase toda a extensão do séc. XX estragar tudo isto e pôr os leitores a milhas da poesia" (Público, 3/8/2002).
Não poderia falar de "nova poesia portuguesa" sem me deter um pouco na estranha postura de Manuel de Freitas, dado o protagonismo que, em contradição flagrante com uma pouco convincente encenação de marginalidade, a sua intervenção vem assumindo. Trata-se de uma actividade que no plano crítico se baseia, por norma, em meras execuções sumárias, como, por exemplo, a que de Nuno Júdice procura fazer no prefácio à antologia referida, sem qualquer fundamentação ou desenvolvimento de pontos de vista, numa recusa sistemática de toda a poesia que não esteja de acordo com a sua inconsistente teorização (e, com a quase exclusiva ressalva de J. M. Magalhães e de alguns poetas do grupo do próprio M. de Freitas, nenhuma estará), o que conduziu mesmo à espantosa afirmação, referida a Herberto Helder, de que "a um génio tudo se perdoa" (até o pecado de ter "dado voz a uma quase esmagadora intemporalidade"). Não parece, obviamente, que, por não se enquadrar na poética preconizada por M. de Freitas, Herberto careça do seu perdão.
Voltemos à afirmação de J. M. Magalhães. Também para tal encontramos resposta noutro ensaio do mesmo livro de Jorge de Sena, "Sobre Modernismo": "No fundo, e hoje e aqui, a questão do "modernismo" é a questão do tão chorado abismo entre as artes e o povo. Sem dúvida que é digno verter lágrimas dessas, tentar encher de lágrimas o abismo. Diga-se de passagem que se tem procurado enchê-lo com palavras, ainda que humedecidas, e com mediocridades, ainda que bem intencionadas."
Na verdade, temores como esse de "pôr os leitores a milhas da poesia" só conduzem, como, por vezes, sucedeu nos tempos a que Sena se refere, ao culto da mediocridade, da banalidade, à ausência de risco, ao recuo perante qualquer veleidade de invenção verbal, em suma, a uma poesia (realmente) "sem qualidades".
Não creio que, na prática, seja isso o que se tem passado, pelo menos nos melhores casos, com a "nova poesia". O trabalho poético, o ofício cantante, a aplicação artesanal, não estão sequer excluídos da escrita de dois ou três dos poetas que aceitaram figurar sob a designação de "poetas sem qualidades": José Miguel Silva, Rui Pires Cabral ou mesmo Manuel de Freitas (aliás não integrado na antologia), pelo menos no seu melhor livro, Game Over, procuram, sem dúvida, fugir ao amadorismo a que o seguimento à letra da defesa de uma poesia "sem qualidades", tão desajeitadamente teorizada, forçosamente conduziria. O prefácio a Poetas sem Qualidades reclama-se, aliás, de Baudelaire e de T S. Eliot, inexcedíveis artesãos da poesia - e bem conscientes da necessidade de que o poeta seja um fabbro.
Bons artesãos, nos seus bons momentos, talvez uma maior ousadia na produção de imagens, uma dimensão metafórica mais ambiciosa, alguma desconstrução textual, lhes elevasse a "temperatura poética", para me servir da expressão de Ruy Belo, ainda do ensaio "A Poesia Nova", do qual seria agora oportuno citar o seguinte: "Temos, portanto, que a palavra, tomada no sentido lato que lhe dá Frei Luís de Leão, apresenta essas duas maneiras de ser: uma, no pensamento; a outra, na boca. A primeira, o sermo interior da Escolástica, natural; a segunda, posta, inventada, feita. É dentro deste último sector que, como estamos a ver, se recruta a palavra sobre a qual nos vimos debruçando. Palavra surpreendida no momento de soar e não no momento de estar. Palavra dinâmica, instável. Palavra de arte. E a palavra de arte é sempre uma palavra surpreendida, apanhada em flagrante delito de criação." Talvez a poesia de Carlos Bessa, com um discurso mais desconstruído e mais imprevisível no domínio das imagens, pratique com especial eficácia esse" delito".
Ao observarmos a "nova poesia portuguesa", não podemos deixar de notar a diversidade e a quantidade de casos dignos de atenção. Uma geração (releve-se o uso do impreciso, mas inevitável, conceito) que pode ostentar obras tão diferentes como, por exemplo, as de Luís Quintais, José Tolentino Mendonça, José Mário Silva, José Ricardo Nunes, Carlos Bessa ou Rui Coias, apresenta uma dinâmica que inevitavelmente impressiona, sobretudo se compararmos a actual proliferação de nomes (outros ainda poderiam, provavelmente, ter sido acrescentados aos que figuram nas páginas deste número de Relâmpago, que não pretende, de forma alguma, estabelecer o cânone da "nova poesia portuguesa") com a muito menor abundância de poetas interessantes surgidos na fase imediatamente anterior, aproximadamente entre 1980 e 1995. Não será fácil destacar, nesse período, muito mais de cinco nomes: Luís Miguel Nava, Paulo Teixeira, Fernando Luís Sampaio, Adília Lopes, Fernando Pinto do Amaral - todos nascidos entre 1957 e 1962 (Luís Filipe Castro Mendes, AI Berto, Fátima Maldonado, Manuel Gusmão, entre outros, cujas obras se afirmaram também entre 80 e 95, pertencem, verdadeiramente, a gerações anteriores).
Além de Manuel de Freitas, outros dois poetas têm exercido actividade crítica, com alguma regularidade ou extensão, José Ricardo Nunes e Pedro Mexia, tendo o primeiro reunido, em 9 Poetas para o Século XXI (2002), abordagens das obras poéticas de Carlos Bessa, Daniel Faria, João Luís Barreto Guimarães, Jorge Gomes Miranda, José Tolentino Mendonça, Luís Quintais, Paulo José Miranda, Pedro Mexia e Rui Pires Cabral, o que faz dele o principal estudioso da poesia da sua geração.
Tanto J. Ricardo Nunes como Pedro Mexia cultivam, em geral, o poema curto, contido, procurando uma sobriedade de escrita que é comum a José Mário Silva. Se - e, de novo, como diz Ruy Belo - "nunca a extensão do poema foi garantia de alta temperatura poética", é igualmente certo que o poema menos extenso requer uma forte carga expressiva, uma concentração de energia, uma intensidade, sem as quais dificilmente funcionará. Ruy Belo: "Dois ou três versos convenientemente isolados ferem-nos mais, muitas vezes, do que abundantes versos, em contínuo perigo de descambarem na prosa."
O "perigo de descambarem na prosa" espreita, por vezes, os versos, quer em poemas curtos, quer em mais longos, de alguma da actual produção poética portuguesa - e já não me refiro apenas à "nova poesia". O desejo de tornar os textos acessíveis, de poupar esforço ao leitor, tem dado, por vezes, origem a uma poesia light, constituída por apontamentos ligeiros, pequenas piadas, observações inócuas do quotidiano, com o consequente definhamento da linguagem poética.
É evidentemente possível escrever grande poesia a partir do "real quotidiano": têm-no feito poetas tão diversos como Sophia de Mello Breyner, Jorge de Sena, Mário Cesariny, Fiama Hasse Pais Brandão, Carlos Drummond de Andrade, entre tantos outros. Numa carta de 1915, dirigida a Armando Cortes-Rodrigues, diz Fernando Pessoa: "Chamo insinceras às cousas feitas para fazer pasmar, e às cousas, também – repare nisto, que é importante - que não contêm uma fundamental ideia metafísica, isto é, por onde não passa, ainda que como um vento, uma noção de gravidade e do mistério da Vida. Por isso é sério tudo o que escrevi sob os nomes de Caeiro, Reis, Álvaro de Campos. Em qualquer deles pus um profundo conceito da vida, diverso em todos três, mas em todos gravemente atento à importância misteriosa de existir."
A ausência de uma "fundamental ideia metafísica", de "um profundo conceito da vida", associada à incapacidade de transfiguração do real, é o que, em geral, compromete a validade de uma poesia a que em Espanha se tem chamado "de la experiencia" e que, entre nós, alguns têm procurado imitar. Como escreveu também Ruy Belo: "A palavra poética é universal porque abstracta. Embora haja um facto concreto na sua origem, não está vinculada a esse facto. É mais e é coisa diferente desse facto. Despida das circunstâncias que rodearam o seu nascimento, existe como mensagem de uma experiência não só do poeta mas de todos os homens. Por isso estes podem reconhecer nessa palavra a sua própria palavra." Ou, como ironicamente comentava um poeta espanhol: "Mucha experiencia, poca poesia".
Felizmente apercebemo-nos de que, em alguns dos novos poetas portugueses, é cada vez maior a consciência de que a poesia tem de ser algo mais do que o mero cliché de uma marginalidade de papelão, com as constantes e inevitáveis referências ao álcool, aos bares, etc., ou a simples observação directa do que ocorre no centro comercial, no supermercado ou no café. Neste mesmo número de Relâmpago existem elucidativos exemplos da ultrapassagem do puramente acidental, mesmo por parte de poetas cujos textos procuram normalmente cingir-se a uma realidade low profile, desprovida, a um primeiro olhar, de quaisquer atributos especiais. Penso, particularmente, em José Ricardo Nunes ou em Rui Pires Cabral, o primeiro enveredando por uma certa leitura simbólica do mundo circundante, mesmo quando o ponto de partida do poema é, por exemplo, um "Mercado", o segundo procurando descobrir uma dimensão metafísica em acontecimentos vulgares e assegurando que "a realidade/defenderá até à morte/os seus mistérios".
Noutros mundos se moveu, desde o começo, a poesia de Luís Quintais. E encontramos, na sua obra mais recente, quer em Angst (2002), provavelmente, com Dos Líquidos de Daniel Faria, um dos dois mais importantes livros da "nova poesia", quer na sua presente colaboração nesta revista, uma respiração metafísica cada vez mais ampla, a busca de "uma perfeição de palavras". Tentando decifrar "uma atmosfera de encanto e morte" ou invejando "o remorso de Onegin", a poesia de Quintais procura uma interpretação para o mundo, reflecte sobre "a importância misteriosa de existir" de que falava Pessoa: "aqui sonhas a tua origem e o teu fim/aqui repousas o eixo do fátuo enigma./Nada foste. Nada és, animal cego e piedoso."
É numa zona afim desta, embora com um tom muito diferente, que se desenvolve a poética de José Tolentino Mendonça. A sua poesia aproxima-se com humildade do real, como eloquentemente nos diz numa arte poética que faz lembrar as de Sophia: "A poesia é um procedimento humano, uma maneira que mimetiza outras ainda mais puras, um gesto que repete o arco de outro gesto: coisas tão simples como varrer um pátio ou lançar o balde ao poço ou traçar caminhos num bosque. A poesia não é feita de invenção, mas de repetição. (...) O lugar ínfimo da poesia é o lugar que no mundo ocupa o espírito."
Afectado por uma "imprecisa inquietação", por entre "a vazia escuridão", "os redemoinhos imperceptíveis", "como se estivesse para ser morto/às mãos do próprio Deus", "enquanto a alma repete a pergunta eterna", Tolentino Mendonça vê a vida com um dramatismo crescente: uma “combustão” de que o amor é um dos ingredientes. E creio que esta "combustão", esta intensidade emotiva e expressiva, contraria, de alguma maneira, a modéstia do papel meramente repetitivo da realidade mais pura que Tolentino Mendonça reivindica para a poesia.
Não me é possível, nem é esse o objectivo desta reflexão sobre os novos percursos da poesia portuguesa, deter-me no trabalho de cada um dos autores mais recentemente revelados. Como já disse, o panorama é vasto e diversificado. Mas penso que se justifica uma referência particular a Rui Coias, pelo lugar isolado que me parece ocupar.
Num momento em que muita poesia revela algum empobrecimento em termos de imaginação, de criação metafórica, de espessura verbal, o livro que Rui Coias publicou em 2000, A Função do Geógrafo, e que tem evidente continuidade nos poemas com que colabora nesta revista, delineou um rumo diferenciado e autónomo, que talvez se inscreva numa nova zona surrealizante da poesia portuguesa, marcada por uma diversa, acaso mais controlada, confiança no poder das imagens, enraizadas em lugares concretos reproduzidos pela memória: "Farei da memória a função do geógrafo".
Se não quiser deixar-se arrumar no armazém das inutilidades fúteis (e não há nada menos inútil do que a poesia), uma "nova poesia" não poderá deixar de ser uma "poesia nova" – a "palavra de poesia" que, no ano já remoto de 61 , Ruy Belo redefiniu e caracterizou como essencialmente metafórica. É dessa palavra que, em tempos bem recentes, nos falou igualmente, neste poema admirável, Daniel Faria:

Escrevo do lado mais invisível das imagens
Na parede de dentro da escrita e penso
Erguer à altura da visão o candeeiro
Branco da palavra com as mãos

Como a paveia atrás do segador
Vejo os pés descalços dos que correm
E escrevo para os que morrem sem nunca terem provado o pão
Grito-lhes: imaginai o que nunca tivestes nas mãos

Correi. Como o segador seguindo o segador
Numa ceifa terrestre, tombando. Digo:
Imaginai





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RELÂMPAGO N.º 12.  4|2003
Director deste Número: Fernando Pinto do Amaral.
Conselho Editorial: Carlos Mendes de Sousa, Gastão Cruz, Paulo Teixeira.

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