domingo, 29 de maio de 2016

Emanuel Jorge Botelho (entrevista)


Emanuel Jorge Botelho, Correio dos Açores, 2016-05-29

NOSSA GENTE (63)
Emanuel Jorge Botelho tem 65 anos e passou o dia da “Revolução dos Cravos” em Lisboa onde, nas redondezas era dos poucos que tinha televisão e viu a sua casa encher-se de gente, muitos até que não conhecia, para estarem a par das notícias. Confessa que foi “um dia inesquecível” e que quem o viveu “nunca mais dele se esquece”. É escritor e foi professor; ainda se lembra do tempo em que o professor era uma pessoa respeitada, quer pelos alunos quer pelos pais dos mesmos.

De onde é natural?
Sou natural da Matriz de Ponta Delgada. Tive uma vida muito normal. Fui para a escola primária ainda no tempo da escola primária no Campo de São Francisco, a Escola de São José. Depois acabei a primária na Escola da Vitória e fiz os exames de admissão como se fazia na altura ao liceu e à antiga Escola Industrial. Fiquei no Liceu durante 10 anos, por razões que não importa aqui pormenorizar, mas acabou por me sair caro porque quando foi para ir para a Universidade estava “tapado” e à mínima falha ia para a guerra.
Mas tinha um amor muito grande aqui, o amor da minha vida, e não queria deixar e queria acompanhá-la sempre.
Tive uma infância muito feliz, brinquei muito num sítio que adorava brincar que foi no Largo 2 de Março, que hoje em dia é um terreno vazio, triste e solitário. Mas era um sítio com uma alegria imensa na cidade, tinha uma vivacidade imensa, tinha comércio, era uma zona muito bonita da cidade. Hoje em dia já não.
Brincava-se na rua...
Brincava-se na rua. A rua era como se fosse a nossa casa, com um pão com manteiga dentro da algibeira. Brincava-se à vontade e não havia perigo nenhum. Creio que o meu filho, quando volto de Lisboa e passei a viver definitivamente na Avenida D. João III, ainda apanhou uns anos em que podia brincar na rua. Os vizinhos até tiravam o carro para os miúdos brincarem à bola.
Mas hoje em dia é tudo muito diferente. Já não há lugar para as crianças brincarem e também não sei se as crianças querem brincar na rua, por- que estão muito metidos com as electrónicas.
Quanto tempo esteve em Lisboa?
Estudei em Lisboa durante cinco anos, licenciei-me em Ciências Político-Sociais, e penso que regressei em 1975 ou 1976, foi no ano em que comecei a ter a minha vida profissional. Comecei a ser professor naquele ano.
Depois do curso regressei à minha terra, que era o meu sonho. Mal desembarquei em Lisboa pensei logo que era preciso que chegasse depressa o dia de voltar para a minha terra. Lisboa tem uma luz muito bonita mas a minha luz é outra, é uma luz verde.
E o amor que não queria deixar?
O amor foi comigo. A minha mulher já trabalhava e estive pouco tempo lá sozinho. Entretanto casámos e ela foi lá ter comigo e vivemos lá quatro anos. Mas queria regressar e aqui estou e praticamente não saí daqui desde aquela altura.
O que leccionou?
Foi professor de Português e dei Estudos Sociais, uma disciplina que depois desapareceu, e passei a dar História de Portugal.
Viveu então o 25 de Abril em Lisboa?
Estava em Lisboa. Lembro-me de tudo, é indescritível. Saí de casa nesse dia várias vezes, fui para a baixa duas ou três vezes. Cheguei a ter gente em casa que até perguntava à minha mulher, que se chama Lorena, quem era o senhor que estava sentado na nossa salinha, porque vivíamos num T1. Tínhamos comprado uma televisão de- pois de eu fazer uma cadeira que me estava a apo- quentar muito e a prenda para mim próprio e para a casa foi uma televisão. Comprámos a televisão e ali à volta nem toda a gente tinha televisão e como sabiam que eu tinha, houve muita gente açorianos e não só, mas que arrastavam outros, assistir aos comunicados na minha casa. Foi um dia inesquecível. Quem viveu nunca mais dele se esquece. Foi lindíssimo. Foi um dia do grande grito, foi um dia de chorar a gritar.
Quando regressou notou diferenças em Ponta Delgada?
A cidade tem vindo sempre a modificar-se mas naquela altura não notei grandes diferenças porque, naquela altura, vinha cá muitas vezes. Tinha essa possibilidade de vir cá sempre nas férias. As coisas, mesmo que se modificassem, passava por elas e não notei grandes diferenças.
Quando foi para Lisboa foi de barco ou já de avião?
Fui para lá de barco para levar coisas que o meu querido pai nos tinha feito. O meu pai gostava muito de trabalhar a madeira e fazia tudo. Já naquele tempo, a nossa cama, a minha secretária, as mesinhas de cabeceira, a estante principal, estava tudo dentro de um caixote em madeira feito pelo meu pai. Levámos mais algumas coisas que podíamos precisar. Fomos de barco, creio que no “Funchal”.
Depois foi sempre de avião. Mas ainda apanhei aquelas célebres viagens de Santa Maria em que no regresso tínhamos de nos levantar às 4 horas da manhã para ir apanhar a SATA para ir para Santa Maria e depois apanhar a TAP para Lisboa. Era uma coisa épica.
Apanhou muitos sustos?
O maior susto que apanhei na minha vida foi das poucas viagens que fiz, porque viajei mui- to pouco ou nada, à relativamente pouco tempo quando fiz 60 anos. Nunca tive problemas em andar de avião. Era épico porque era muita gente. As pessoas tinham reserva feita mas a reserva não aparecia, havia muitas complicações.
As novas tecnologias vieram facilitar essas coisas...
Para quem sabe mexer nelas, que não é o meu caso. Deve facilitar algumas coisas porque tem muito lixo mas tem de ter inevitavelmente coisas boas e aproveitáveis.
Falou no Largo 2 de Março que está modificado e a cidade de Ponta Delgada está muito mudada?
A cidade hoje em dia é uma cidade muito mais viva e no Verão é muito mais alegre. Mas há coisas das quais sinto a falta e que tenho pena que tenham sido substituídas. Por exemplo, a Avenida Marginal a partir de finais de Julho até princípios de Setembro tinha centenas de pessoas a conversar, sentadas no muro da Avenida, para trás e para a frente numa conversa saudável. Era muito interessante.
Hoje em dia metem-se ali para baixo, ao escuro a beber cerveja. São preferências mas para mim é estranho. Tenho pena que a parte de cima da Avenida Marginal não tivesse mantido a alegria que tinha e a quantidade de gente que para ali vinha conviver, famílias inteiras.
Por baixo tem outras funções, mas para mim é um poço escuro.
Com o aumento de turistas também deve voltar a encher-se a Avenida...
Eu fiquei assustado quando começou esta vaga de turistas, tive medo que a cidade não tivesse o sossego que mantinha, apesar de tudo. Compreendo perfeitamente que é preciso vir para cá gente, que é preciso dinamizar o comércio. Mas quando saem do centro da cidade e vão para os trilhos e visitar as paisagens, creio que tem de haver uma regulamentação muito apertada e tem de ser tudo muito vigiado porque há quem venha para ver e há quem venha para sujar tudo. De resto penso que é muito bom para a economia da ilha, se for tudo bem regulamentado e vigiado.
Ainda lecciona? Nota diferenças entre os alunos que teve quando iniciou a profissão e os de agora?
Infelizmente, com um ‘I’ muito grande, tive que deixar a minha vida profissional por razões muito graves de saúde. Tive de sair mais cedo. Não me lembro do ano em que me reformei mas já nesse ano senti diferença nos alunos, havia uma rebeldia diferente, uma postura diferente e havia coisas que não entendia. Por exemplo, numa turma de 22 alunos, 70% escrevia na ficha que lhes damos para fazerem a sua identificação, na parte da profissão do pai escreviam trabalha. Perguntava em que trabalhava o pai e diziam que não sabiam. Nunca percebi como é que numa casa não se sabe onde é que o pai trabalha. Isso é sintoma que havia qualquer coisa na família que não estava a funcionar bem e creio que isto piorou. Não sei como é que está agora porque não tenho tido esse contacto mas penso que piorou porque o ambiente agora creio que deve ser mais complicado.
Pelo que me contam, também me parece que os pais estão demasiadamente dentro da escola. A escola é para os professores e os pais têm de fazer o seu trabalho de casa. Os pais fazem o seu trabalho e os professores fazem o seu e da complementaridade dos dois nasce a educação dos filhos. O professor ensina mas também educa e os pais têm, fundamentalmente, educar.
Antigamente via-se mais essa educação que vinha de casa?
Acho que sim. A educação que vinha de casa era outra, quando comecei a trabalhar. Por outro lado o professor tinha um estatuto diferente, respeitava-se o professor, o professor era bem tratado. Não era uma pessoa importante, mas era o professor do meu filho ou da minha filha. Era no tempo em que o professor tinha sempre razão. Se eu chegasse a casa e a minha mãe me dissesse que aquilo era vermelho e se o meu professor me tivesse dito que era preto. Eu dizia que era preto porque o professor tinha sempre razão, até mais do que os pais às vezes.
Agora não. Há muita reivindicação dos pais na escola, é um exagero.
Também há reivindicações da parte dos professores. Acha que são incompreendidos?
Por exemplo, uma aula de 90 minutos é muito complicado. É terrível, é preciso ter um espírito inventivo imenso para ter 22 ou 23 crianças permanentemente motivadas à nossa frente durante 90 minutos. Os horários são pesados para as crianças e é tudo muito complicado para os professores porque, pelo que me dizem, têm tanta reunião que quase gastavam mais tempo em reuniões do que a dar aulas. Depois ficavam quase sem tempo para preparara aulas porque as pessoas esquecem-se que os professores não deixam a escola na escola, levam a escola para casa e às vezes estão até às 2 ou 3 da manhã a preparar aulas para dar no dia seguinte às 8h30. Julgam que os professores era quem tinha bela vida. Qual bela vida? Experimentem ir para uma sala de aula desde as 8h30 até às 12h30 dar aulas seguidas. É extenuante. Para um professor sério, que quer dar as suas au- las bem dadas, é extenuante. Até digo que é uma profissão de risco.
Sempre quis ser professor?
Vim para cá com o curso de Ciências Político-sociais, ligado à Sociologia e tinha pensado vir para cá dar algo ligado à Sociologia para começar a minha vida. Não sabia ainda para onde iria. A minha grande vocação tinha sido fazer trabalhos de campo, mas isso depois passou-me e apareceram vagas para professor e concorri. Gostei tanto do primeiro ano que resolvi ver como funcionava o segundo, que funcionou bem, o terceiro também funcionou bem e quando dei por mim estava a fazer estágio, depois a orientar estágios e quando dei por mim estava a gostar da minha vida e decidi que não tinha que escolher mais nada. Gosto de ser professor. Tinha e, digo-o com muito orgulho, uma grande empatia com os alunos e uma relação muito boa com eles. Ainda hoje me cruzo com muitos e vêm ter comigo o que é uma alegria imensa. Deixei-me ficar e quando saí, para mim, foi um tormento.
Agora que já não está dedicado a essa tarefa, como ocupa os seus tempos livres?
Eu tenho que fazer, obrigatoriamente, uma vida muito serena e pacata. Leio muito, mas com a pouca vista que me resta já não leio o que lia. Tenho que seleccionar muito e há autores que já não leio porque prefiro ler outros e tenho de fazer uma selecção. Escrevo um bocado, publico um ou outro livro de vez em quando, principalmente no continente. Tento ter sempre a minha vida a trabalhar.
Tenho três netas, por quem tenho um amor infinito, e vou ajudando no que posso principalmente a minha companheira que é quem faz a parte principal na tarefa, mas vou-a acompanhando na tarefa de “avozar” que é um verbo que gosto de usar.


Fala-se muito na literatura açoriana que é diferente dos restantes autores portugueses. Como caracteriza a sua escrita?
A questão da literatura açoriana não vou entrar por aí porque creio que não se justifica. Há boa literatura e há má literatura. Prefiro falar numa literatura universal.
Sou um homem que, a partir de determinada altura, por influência de um grande professor que tive, o Dr. João Bernardo de Oliveira Rodrigues, a quem mostrei uma vez um papelinho com uma coisa que tinha escrito no liceu. Ele olhou para aquilo e disse-me: “oh Botelho, o papel é um tris- te e infeliz, aceita tudo. Põe isso numa gaveta e lê mais tarde”. Realmente mais tarde, quando reli mais tarde achei que ainda bem que ele me tinha dito aquilo.
Eu sou de escrever muito lento, se trabalhasse num jornal seria um desastre. Para escrever um poema às vezes levo três semanas porque às vezes um poema que tinha 40 versos, ficam dois e acaba por ser um poema muito longo, passado para um poema muito pequenino. O que me interessa é que fiquem as palavras essenciais, que é preciso dizer e nada que tire a atenção do leitor daquilo que quero dizer. Não é da mensagem porque não gosto da palavra, acho que não há mensagens nenhumas, é aquilo que está ali dito.
Tenho um cuidado muito grande com as palavras e sou muito obsessivo com a escrita, nesse sentido. É tudo feito minuciosamente, nem uma palavra a mais nem uma a menos.
Não acredita na influência do mar nos escritores açorianos?
Há palavras que já me irritam como a bruma e essas coisas assim. É natural que quem vive ao pé do mar, sem dar por isso, inclua o mar no que escreve. Mas isso é aqui como em qualquer parte em que há mar ou um rio.
Agora, falar em literatura especificamente açoriana não me repugna, mas penso que não há necessidade. A literatura é universal, não é preciso estar a compartimentá-la. O que interessa é que seja grande literatura.


Perfil: “Escrever sem pressa de chegar às massas”
Com várias obras publicadas, Emanuel Jorge Botelho diz-se obsessivo com a escrita e todas as palavras são minuciosamente escolhidas para completar os seus poemas.
Escolhe sempre pequenas editoras, que optam geralmente por tiragens não muito grandes dos livros que imprimem, e Emanuel Jorge Botelho diz- se satisfeito assim. Confessa que por vezes leva três semanas a escrever um poema que inicialmente se apresentava com 40 versos mas que rapidamente os vai cortando e onde restam apenas dois. Mas “o que me interessa é que fiquem as palavras essenciais, que é preciso dizer e nada que tire a atenção do leitor daquilo que quero dizer”. Não da mensagem que quer passar, porque “não gosto da palavra”, mas daquilo que ali escreve.
Considera que não há uma literatura especificamente açoriana, apesar de admitir que quem vive junto ao mar, “ou ao rio”, tenha mais tendência para escrever sobre essas temáticas com que está familiarizado. Prefere dividir a literatura em “boa” e “má”, do que a compartimentar por zonas geográficas.
Além da escrita, também se dedica à leitura mas devido a graves problemas de saúde teve de abrandar uma das suas actividades preferidas, que é ler. Agora tem de ser mais selectivo na escolha de autores e obras que lê, já que tem de “obrigatoriamente” levar uma vida “serena e pacata”.
Nada que o impeça de realizar outra das “tarefas” que mais gosto lhe dá que é: “avozar”, “um verbo que gosto de usar e que não sei se inventei”. Ou seja, ajudar “o amor da minha vida”, a esposa Lorena, a tratar das três netas “por quem tenho um amor infinito”. A tarefa não se assemelha fácil, a juntar às restantes tarefas literárias, mas Emanuel Jorge Bote- lho gosta de se manter ocupado e de “ter sempre a minha vida a trabalhar”.
Já quando era professor era assim, e por isso entende as actuais reivindicações dos colegas. Refere que manter 22 a 23 crianças minimamente atentas e entusiasmadas durante uma aula de 90 minutos pode ser extremamente cansativo, e que um professor nunca deixa a escola na escola pois é em casa que continua a preparar as aulas que vai dar no dia seguinte.
Os tempos em que o professor era uma pessoa respeitada quase que já estão ultrapassados e considera que “os pais estão demasiadamente dentro da escola”, quando devem unir esforços e complementar o trabalho dos professores e, “fundamentalmente”, educar.

“Nossa gente (63)”, Carla Dias, Correio dos Açores, 2016-05-29


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à Emanuel Jorge Botelho entrevistado por José Andrade, RTP, 02-04-2017. Disponível em RTP Play – Biblioteca Açoriana

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