quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Gostava de escrever com um fio de água


              ESCREVER




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Se eu pudesse havia de transformar as palavras
em clava.
Havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressonante, sem música.
Como um gesto, uma pancada brusca e sóbria.
Para quê todo este artifício da composição sintác-
tica e métrica?
Para quê o arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras, pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo.
Vejo, admiro, desejo?
Ou sim ou não.
E, como isto, continuando.

E gostava para as infinitamente delicadas coisas
do espírito…
Quais, mas quais?
Gostava, em oposição com a braveza do jogo da
pedrada, do tal ataque às coisas certas e negadas…
Gostava de escrever com um fio de água.
Um fio que nada traçasse.
Fino e sem cor, medroso.

Ó infinitamente delicadas coisas do espírito!
Amor que se não tem, se julga ter.
Desejo dispersivo.
Vagos sofrimentos.
Ideias sem contorno.
Apreços e gostos fugitivos.
Ai! o fio da água, o próprio fio da água sobre
vós passaria, transparentemente?
Ou vos seguiria humilde e tranquilo?

Irene Lisboa, Um Dia e outro Dia… Outono Havias de Vir Latente, Triste, 1936


VOCABULÁRIO:
Clava: pau curto terminado em pera; cacete; moca.
Dispersivo: que tem dificuldade em sem concentrar.

AUDIÇÃO DO POEMA:
Produção e voz de Luís Gaspar, Estúdio Raposa - audiocast, 26-08-2013 http://www.estudioraposa.com/index.php/26/08/2013/irene-lisboa-escrever/





LEITURA ORIENTADA:
O sujeito poético começa por formular o desejo de transformar as palavras em armas (paus e pedras), usando-as (atirando-as) sem artifícios, isto é, deseja tornar o significado das palavras o mais simples e direto possível, sem artifícios ou musicalidade. Cada palavra ficaria, assim, com um sentido claro e preciso. Se as palavras ficarem despidas de significados obscuros, complexos, é fácil responder à pergunta lançada pelo sujeito poético sobre o amor: “Amo?” – ou se ama ou não se ama.
Ainda na primeira estrofe, o sujeito poético duvida da necessidade de respeitar, na escrita, alguns recursos próprios da literatura, como a sintaxe artificial (“artifício”, v. 6), a métrica, o “arredondamento linguístico” (v. 8) e o uso das palavras em sentido figurado (“Sentidos próprios em tudo”, v. 11). Aliás, na própria construção deste poema de Irene Lisboa também se abandonaram outras convenções versificatórias: ausência de rima e estrofes de tamanhos diferentes.
Na segunda estrofe, o eu lírico manifesta o desejo de utilizar uma outra forma de escrever reservada para as “infinitamente delicadas coisas / do espírito” (vv. 16-17). Nessa outra escrita utilizaria “um fio de água” (v. 21) que “nada traçasse. / Fino e sem cor, medroso” (vv. 23-23) - esta metáfora significa escrever de uma forma leve, menos marcante, menos agressiva. As “delicadas coisas do espírito” de que o sujeito poético gostaria de escrever surgem enumeradas na terceira estrofe: o amor, o desejo, os sofrimentos, as ideias, os apreços e os gostos (cf. vv. 29 a 33). Contudo, o sujeito poético tem dificuldade em definir essas “coisas do espírito” (“Quais? Mas quais?”, v. 18) pelo facto de serem vagas, imprecisas, fugidias: Amor que se não tem, se julga ter. / Desejo dispersivo. / Vagos sofrimentos. / Ideias sem contorno. / Apreços e gostos fugitivos.
As perguntas finais (vv. 30-32) revelam a incerteza relativa ao ato de escrever: como o sujeito poético gostaria de escrever as “infinitamente delicadas coisas do espírito” (v. 24) com um fio de água, ele não está certo se as conseguiria registar com o fio a passar por cima delas, ou se o fio as teria de seguir, ficando, também ele, impreciso e vago.
Bibliografia: Conto Contigo 9, Conceição Monteiro et alii. Areal Editores, 2013. Diálogos 9, Fernanda Costa et alii. Porto Editora, 2013. Letras & Companhia 9, Carla Marques e Inês Silva. Edições ASA, 2013.


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