segunda-feira, 20 de março de 2017

A felicidade sentava-se todos os dias no peitoril da janela

           


            FELICIDADE

            A felicidade sentava-se todos os dias no peitoril da janela.
            Tinha feições de menino inconsolável.
            Um menino impúbere
            ainda sem amor por ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo
pelas faces humanas.
E, como menino que era,
achava um grande mistério
no seu próprio nome.

Jorge de Sena, 13.4.41 (PerseguiçãoLisboa, Cadernos de Poesia, 1942)


*


A discussão do poema foi engraçadíssima. Em primeiro lugar as miúdas da turma, em especial  Rute Elétrica, discordaram de que a felicidade fosse um menino. Antes uma menina e o negócio estava arrumado. A Carla Corações disse que podia ser um menino, se tivesse olhos verdes, uma moto fabulosa e de preferência que andasse na Universidade Católica como o seu primo Bernardo. Aí, o Telegoela disse que Bernardo era nome de cão e a Rute Elétrica, para defender a sua amiga Carla, deu-lhe com o “dossier” na cabeça. A Maria Só disse que o autor era um grande machista e o João Boião propôs que se lhe escrevesse uma carta, a pedir que mudasse a palavra menino para rapaz, ou homenzinho. Aí, a Maria Bonita disse que nem rapaz nem rapazinho, nem menino nem menina. Para ela, a felicidade era uma mulher de vestido até aos pés e com muitas jóias e um namorado rico. O Pedro Poças disse que não e que o avô dele achava que a felicidade não é deste mundo, por isso a felicidade devia ser uma história de mortos, boa para um filme de terror ou coisa assim. O Tó Provetas disse: a felicidade é um substantivo feminino, não pode ser menino.


Alexandre Honrado, Uma Chuvada na Careca, Porto, Edinter Jovem, 1989



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