quarta-feira, 18 de abril de 2018

A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível


RETRATO DE MÓNICA 

Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, colecionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstrata, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.
Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstrata.
Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.
De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.
A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, «qualquer distração pode causar a morte do artista». Mónica nunca tem uma distração. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.
Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é ótima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exatamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.
Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.
O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.
É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.
E por isso Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora das suas virtudes, admiradora de seus silêncios e de seus discursos. Admiradora da sua obra, que está ao serviço dela, admiradora do seu espírito, que ela serve.
Pode-se dizer que em cada edifício construído neste tempo houve sempre uma pedra trazida por Mónica.
Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente, nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.
Não é o desejo do amor que os une. O que os une e justamente uma vontade sem amor.
E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio; mais firme fundamento do seu poder.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Contos Exemplares, Lisboa, Livraria Morais Editora, 1962



       AUDIO

       Clique aqui para escutar o conto (locução: Regina Brasil. Gravação efetuada nas instalações do Centro Naval de Ensino a Distância. © Instituto Camões, 2002).





QUESTIONÁRIO

1. Leia o início do conto:
Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis»...
Qual lhe parece ser a atitude do narrador em relação a Mónica?
O narrador demonstra:
- simpatia
- condescendência
- ironia
- admiração
http://cvc.instituto-camoes.pt/contomes/19/entrada.html
2. Vamos interpretar.
2.1. Ao enumerar todas as tarefas de Mónica, o narrador pretende demonstrar que a personagem:
- tem os dias ocupados com muitas atividades importantes.
- tem muito tempo livre e poucas atividades.
- é desorganizada nas suas atividades diárias.
- tem os dias preenchidos com muitas atividades sem valor.

2.2. «Tenho conhecido muitas pessoas parecidas com Mónica».
A personagem é aqui apresentada como modelo relativamente a:
- características físicas, como cor de olhos e cabelo.
- maneira de ser e de viver.
- mau relacionamento com as pessoas.
- incapacidade de atingir o sucesso.

2.3. «Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade».
Fez tudo para:
- dedicar o seu tempo aos outros.
- ter um emprego estável.
- ser bem recebida pela sociedade.
- ter os dias menos ocupados.

2.4. «Como um instrumento de precisão ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas».
A frase revela que Mónica é uma pessoa:
- que escolhe as companhias consoante precisa delas.
- que não gosta de ter amigos importantes.
- que gosta de perder tempo com os amigos.
- que gosta de ter muitos amigos.

2.5. Em relação ao marido, «quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada».
Esta frase significa que:
- Mónica se preocupa tanto com o marido que lhe resolve muitos assuntos.
- ele é tão incompetente que tem que ser Mónica a decidir.
- ele só é nomeado porque ela já não tem tempo disponível.
- Mónica decide tudo por ele porque é ela que quer mandar.

2.6. Qual é a frase que melhor resume a vida da personagem?
Para Mónica:
- a família está em primeiro lugar.
- a solidariedade ocupa-lhe todo o tempo.
- o trabalho é o fator mais importante.
- a vida é um negócio.
http://cvc.instituto-camoes.pt/contomes/19/compreender.html

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TEXTO DE APOIO

Há uma narrativa breve nos Contos Exemplares de Sophia de Mello Breyner que sempre me impressionou. Chama-se “Retrato de Mónica” e é uma sátira feroz da alta burguesia dominante sob a ditadura de Salazar. Como o regime da sátira não é habitual em Sophia, este conto coloca-se em manifesta dissonância em relação aos outros contos e à restante obra da autora.
Horácio, na sua Ars Poetica, define a sátira como um género ao serviço da morigeração cívica, em nome de determinados princípios e valores morais. “Ridendo castigat mores" é a conhecida síntese que traduz esta conceção. É diferente o ponto de vista de Juvenal, que considera a indignação como fonte de inspiração do poeta satírico e faz da sátira um meio de condenar vícios ou defeitos pessoais, de forma violenta e crítica.
O conto “Retrato de Mónica” situa-se entre estas duas conceções da sátira. O ataque é pessoal e a indignação é sem dúvida o estímulo da criação, mas o alcance da crítica é social e político, em consonância com o propósito de intervenção que preside à maior parte dos contos da coletânea, assinalado aliás na dedicatória a Francisco Sousa Tavares: “Para o Francisco, que me ensinou a coragem e a alegria do combate desigual”.
Mónica é, ao que parece, um retrato de Cecília Supico Pinto, a famosa “Cilinha”, como era conhecida na época. Mulher de Luís Supico Pinto, que ocupou importantes cargos políticos e administrativos e foi um dos homens de confiança de Salazar, Cecília Supico Pinto criou o Movimento Nacional Feminino, de que foi presidente entre 1961 e 1974. O Movimento destinava-se a prestar apoio na guerra colonial e tornou-se um dos instrumentos de propaganda da política ultramarina nos anos 60, graças sobretudo à visibilidade pública da sua presidente, que, além de privar com o ditador e com as altas patentes militares, era figura indispensável nas festas do “Natal dos Soldados e das Famílias” e noutros eventos similares, e se deslocou várias vezes a África em missões de ação psicológica.
Em “Retrato de Mónica”, Sophia mobiliza todos os recursos irónicos para traçar a caricatura da mulher de sociedade que “faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome”1, íntima de poderosos e esteio fiel do ditador, numa relação de implicação que o final do conto torna explícita:
“Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima e toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.
Não é o desejo do amor que os une. O que os une é justamente uma vontade sem amor.
E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio, o mais firme fundamento do seu poder”.
Este final torna evidente a estratégia metonímica do conto: a metonímia, enquanto tropo de deslocação ou implicação, é aqui uma forma indireta de representação do poder. O ponto de mira não é propriamente o ditador – apesar de ele aparecer nomeado como o “Príncipe deste Mundo” – mas sim as extensões da autoridade, na figura emblemática de Mónica.
Não menos conseguido é o modo de estigmatizar a figura em questão, através da litotes. Em vez dos vícios ou defeitos da personagem satirizada, à maneira convencional, são as qualidades que são postas em realce:
“Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da “Liga Internacional das Mulheres Inúteis”, ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, toda a gente gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, colecionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstrata, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria”.
Esta é talvez a frase mais longa da prosa narrativa de Sophia, prosa essa que, como veremos, obedece normalmente a outras cadências e a outros metros. A acumulação, mais ou menos caótica e levada até ao absurdo, é um recurso eficaz ao serviço da sátira. Acaba por tornar inverosímil o retrato, produzindo um efeito de negação dentro da própria afirmação. Ajudam à função demolidora outros tropos do pensamento, como a hipérbole, a ironia, o “nonsense” e até o humor negro:
“A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.
O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma.(...)
É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também(...)”.
O retrato é, de facto, notável. Mas se pelo tom satírico e corrosivo ele se nos afigura dissonante dos restantes contos, tem de comum com eles o carácter exemplar. A exemplaridade é, de facto, um traço fundamental da coletânea, como o próprio título indica. Decalcado do de Cervantes, Novelas Ejemplares, é um indicador incontornável, que sublinha a determinação axiológica do texto. O prefácio de D. António Ferreira Gomes à 3.ª edição dos Contos Exemplares, de 1970, começa por destacar precisamente este aspeto: “Contos Exemplares – Provocação, desde o próprio título!... Contar histórias, e histórias exemplares, nestes tempos de literatura - romance, novela, filme ou poema – sem herói, sem personagens, sem enredo, sem objeto, sem desfecho? Fazer exemplares estes contos, quando certa literatura up to date se quer situar fora da moral e dos valores (...), fora também da coerência e do bom senso, para instalar-se comodamente (ou angustiada e nauseadamente, tanto vale!) na dispersão, na confusão, no Absurdo, Angústia e Náusea?!”. Destacando a obra do contexto histórico-literário dominante, o prefaciador louva a sã exemplaridade dos contos de Sophia no plano humano e moral. Recorde-se que D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto a partir de 1952, foi uma das vozes mais desassombradas da hierarquia eclesiástica durante a ditadura. A sua famosa carta de 13 de julho de 1958 ao Presidente do Conselho, criticando o regime corporativo e defendendo os valores da doutrina social cristã, causou polémica e valeu-lhe o exílio durante dez anos.

Clara Rocha, “Para uma leitura dos Contos Exemplares”, MÁTHESIS n.º 10, Viseu, Universidade Católica Portuguesa. Faculdade de Letras, 2001

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Cecília Supico Pinto

Quebrou um silêncio com mais de três décadas e autorizou a publicação de uma biografia que evoca sobretudo os anos da guerra colonial. Líder do Movimento Nacional Feminino, Cilinha foi a mulher que, entre 1961 e 74, tentou servir a propaganda da política colonial do regime
a Foi o primeiro momento de visibilidade. Em 1949, quando o general Norton de Matos lançou a sua candidatura à Presidência da República, o país assistiu a uma inédita mobilização feminina conservadora. A iniciação na política de um vasto grupo de mulheres, maioritariamente católicas, fez-se através do Movimento Nacional Feminino (MNF), então liderado por Maria Teresa Andrade Santos. O MNF servia, então, dois propósitos: apelava à participação ativa na campanha eleitoral do marechal Carmona e assumia-se como uma espécie de movimento de resistência contra as ideias propagadas pela Comissão Feminina do Movimento de Unidade Democrática. 
Depois das eleições, a palavra de ordem que as mulheres do MNF exclamavam nos comícios de Carmona - "ao serviço de Deus, da pátria e da família, o vosso grito de mulher será sempre apenas este: presente!" - não se fez ouvir com tanto estrépito. O MNF entrou em hibernação. Até 1961. 
Para quem acreditava, como Cecília Supico Pinto, que Portugal ia "do Minho a Timor", o início da guerra nas "províncias ultramarinas", como ainda hoje designa Moçambique, Angola e Guiné, não era o momento para recuos ou hesitações. Cecília, educada numa família da alta burguesia lisboeta e assumidamente monárquica, fez despertar o MNF e, na qualidade de sua presidente, apelou à mobilização das mulheres para o apoio moral e assistencial aos soldados que partiam para a guerra. 
Em 1963, já António de Oliveira Salazar, que então proibira todas as associações de mulheres que não fossem agregadas ao regime, reconhecia publicamente os efeitos das ações do MNF junto das tropas que combatiam no Ultramar. "Elas servem de apoio aos que são tentados a descrer e hesitam e perturbam com dificuldades que vós não receais e nós estamos seguros de vencer", disse o então Presidente do Conselho, recolhendo uma ovação de centenas de mulheres.
Na frente de combate
Há mais de três décadas que o nome de Cecília Supico Pinto desapareceu da esfera pública (com a exceção da referência que Pedro Abrunhosa lhe fez numa entrevista ao Ípsilon, no ano passado, a propósito da "caridadezinha" que abomina). Depois dos anos de silêncio, Supico Pinto decidiu aceitar o desafio da historiadora Sílvia Espírito Santo e contar um pouco da sua vida, centrando as recordações nos 13 anos da guerra colonial. 
O resultado dessas conversas que se alongaram por quatro anos é o livro Cecília Supico Pinto - O rosto do Movimento Nacional Feminino (Esfera dos Livros), hoje apresentado por Anne Cova e Fernando Dacosta na Sociedade de Geografia, em Lisboa, às 18h30. Com a exceção do Expresso (ao qual deu uma entrevista), a antiga líder do MNF, hoje com 86 anos, manteve a sua recusa em falar com a comunicação social. 
A obra de Sílvia Espírito Santo não é uma biografia no sentido clássico do género. Não se limita a transformar o livro num longo depoimento, nem faz dele um repositório de memórias. Rejeitando a ideia de escrever uma biografia laudatória ou hagiográfica, a investigadora do Centro de Estudos das Migrações e Relações Interculturais procurou "o rigor", cruzando as recordações de Cecília com factos históricos, depoimentos de mulheres do MNF, historiadores e antigos combatentes, e também com a literatura sobre a guerra colonial. 
Durante os anos da guerra, Cilinha, como era conhecida, foi mais do que o rosto do MNF. Pertencente ao topo da hierarquia do regime, era ela quem personificava todas as actividades do movimento feminino - com um curso de Enfermagem na bagagem, viajou incessantemente pela Guiné, Angola e Moçambique, entrou pelo mato dentro, vestiu um camuflado para acompanhar os soldados na linha da frente dos combates (o "baptismo de fogo" aconteceu nos arredores de Mueda, Moçambique), aprendeu a disparar, dormiu ao lado de uma G-3, foi ferida pelos estilhaços provocados pelo rebentamento de uma mina, na Guiné. Escreve a autora do livro que Cecília "trabalhou para e entre homens", um acto "socialmente reprovável" no Portugal da segunda metade do século XX. 
Ao P2, Sílvia Espírito Santo define-a como uma mulher "paradoxal": porque "tem posições avançadas na defesa do empenhamento social das mulheres, mas é uma antifeminista primária". As causas para as quais ela apelava estão longe de traduzirem a emancipação das mulheres portuguesas. Até porque, sob a capa do apoio prestado pelo MNF, o movimento operava a doutrinação ideológica e moral junto das mulheres e dos combatentes. 
Em finais de 60, Cecília não poupou as mulheres que se organizaram contra a política colonial. Por isso, considerou como um ato de "guerrilha internacional" a reunião, em Helsínquia, da Federação Democrática Internacional das Mulheres, na qual participou uma comitiva portuguesa do Movimento Democrático das Mulheres. 
Vigiada pela PIDE
Quando Cecília iniciou a sua "missão" no MNF, uma organização "patriótica" de apoio aos militares e às suas famílias, não descurou nunca os seus "deveres" enquanto "dama" do regime. Era casada com Luís Supico Pinto, que começou por ser subsecretário de Estado das Finanças, foi ministro da Economia, presidente da Câmara Corporativa e membro do Conselho de Estado. 
As importantes funções que o marido foi exercendo aproximaram-na do Presidente do Conselho. O historiador José Freire Antunes, citado no livro, designa-a como o "duplo feminino" de Salazar. Ao P2, a historiadora explica: "Ela tem a personalidade que ele gostaria de ter: é culta, desinibida, bem-nascida. Por isso, ele sublimava-a". 
Salazar gostava de ouvir as anedotas que ela contava. Mas a relação não se alimentava apenas de uma admiração mútua. Cilinha fazia-lhe relatórios sobre o que via e ouvia quando regressava dos teatros de guerra e, para o chefe do Governo, esta mulher era o perfeito meio de propaganda no terreno militar e junto da opinião pública. A recompensa que ela recebeu foi esta: dentro e fora do regime, houve quem a visse como a "primeira-dama" (foi o caso de Adriano Moreira, ministro do Ultramar entre 1961 e 1962, conforme se pode ler no livro). 
 ima que mantinha com Salazar não impediu que o seu telefone estivesse sob escuta e que todos os seus passos fossem vigiados pela PIDE, conforme se pode constatar no arquivo da PIDE/DGS, na Torre do Tombo. Questionada sobre o assunto, Cecília explicou que tinha conhecimento destas acções de "vigilância" e que nada tinha a esconder. "Acho que, a certa altura, ela pensou que estava acima da PIDE", nota a investigadora, "porque não evitava certo tipo de conversas e chegava mesmo a chamar este e aquele de fascista. Ela não tinha medo, é certo. Mas acho que a PIDE a vigiava para a proteger." 
Cecília parecia conhecer de cor as malhas do salazarismo e sabia quais as regras para uma boa convivência, o que lhe garantia um chorudo subsídio do Ministério da Defesa e do Ministério do Interior. Entre essas regras estava a ausência de qualquer tipo de reclamações. Só assim se justifica o facto de o Ministério de Defesa se ter apropriado, sem burburinhos, de várias propostas idealizadas pelo MNF. A saber: a gratificação de isolamentos dos militares em serviço nas fronteiras, nova legislação para militares universitários, subvenções para as famílias, deslocação e pagamento dos funerais dos militares mortos em combate. 
Para o MNF, e para a sua presidente, restavam os "louros" do envio de tabaco e de revistas e da iniciativa das "madrinhas de guerra", uma cópia do trabalho realizado pela Cruzada das Mulheres Portuguesas, liderada por Ana de Castro Osório, durante a I Guerra Mundial. 
Até 1974, a edição de revistas foi uma das faces mais visíveis do trabalho do MNF: primeiro surgiu a Presença, depois a Guerrilha e, finalmente, a Movimento. Na sede, na Rua das Janelas Verdes, em Lisboa, um pequeno estúdio de rádio emitia para Angola, Moçambique e Guiné o programa Espaço e foi nesse mesmo estúdio que o MNF gravou o disco Natal 71, uma coletânea que provocou polémica porque foi distribuída nos campos de guerra, onde, como se podia imaginar, não existiam gira-discos. 
"Exibicionismo" em África
As reações dos combatentes às atividades do MNF e às visitas a África de Supico Pinto foram as mais diversas, constatou Sílvia Espírito Santo. "A partir da segunda metade da década de 60, os militares mais politizados atacam o MNF como forma de atacar o regime. Há outro tipo de militares que dizem os maiores insultos sobre ela e há ainda uma faixa que vive dessas memórias e que enaltece o trabalho do movimento", explica a investigadora, que recorreu ao romance Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes, para olhar o MNF pelos olhos dos que partiam: "Reencontrei-as [as senhoras do MNF] no portaló do barco na manhã da partida, encorajando-os com maços de cigarros Três Vintes e apertos de mão viris em que as falanges, falanginhas e falangetas se articulavam entre si por intermédio dos anéis de brasão." Mas, fora dos territórios da guerra, houve também ferozes ataques a Supico Pinto. Vinham sobretudo da Rádio Portugal Livre, emitida em Argel pela Frente Patriótica de Libertação Nacional, que a acusava de "exibicionismo" nas incursões a África. 
A isto somou-se a fria e distante relação que Cilinha mantinha com Marcelo Caetano, nomeado Presidente do Conselho em 1968. Ela temeu que ele pusesse cobro à guerra, considerava-o "desconfiado", dizia que lhe chamavam "o pisca". Sílvia Espírito Santo nota que a animosidade já tinha muitos anos: "Ele tomou posições sobre a monarquia que desagradaram a Cecília e ao marido. E quando Luís Supico Pinto estava no Ministério da Economia, Marcelo foi uma das pessoas que mais o criticaram por não saber resolver os problemas económicos do pós-guerra". 
Olhando para as atrocidades da guerra, para o crescente número de mortos e estropiados e para as péssimas condições de vida dos combatentes, Cecília nunca vacilou na sua crença por uma nação "pluricontinental e plurirracial"? "Ela sempre acreditou que o regime resolveria qualquer problema. E só nas vésperas do 25 de Abril é que alertou para a necessidade de se fazer alguma coisa, pois considerava que a contestação no meio militar estava fora de controlo", diz a autora. 
A 25 de Abril de 1974, Cecília rumou para a sede do MNF. "Tinha a presunção de que, como eram os militares que faziam a revolução, ela estaria protegida." Ditado o fim da guerra colonial, o MNF tinha os dias contados. E a sua sede também, que foi depois ocupada pela famosa 5.ª Divisão, comandada pelo coronel Varela Gomes. Em Junho de 74, o movimento foi oficialmente extinto e Cecília Supico Pinto remeteu-se a um silêncio de décadas. 
Quando Sílvia Espírito Santo visitou a Rua das Janelas Verdes, em busca de recordações sobre o trabalho do MNF, alguém lhe perguntou se era da PIDE. "Respondi que a PIDE já não existia e a pessoa disse-me: "Isso é o que a senhora pensa"." 

Maria José Oliveira, Público, 12-02-2008


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