terça-feira, 25 de junho de 2019

Calafonas

Monumento ao Emigrante Açoriano, Ponta Delgada



À CONVERSA COM JOÃO DE MELO

Vemos as casas os carros os fatos os vestidos
sabemos o suor a fábrica a máquina a vaca
adivinhamos o sentido da vida os sentidos
de uma saudade que bate e às vezes mata

Ouvimos a palavra perdida como nova
provamos-lhe o sabor trazido na bagagem
olhamos corpos rostos nossos - são a prova
de uma viagem sem fim ao fim da viagem

Calafona será vocábulo desprezível
para gente de tanta lágrima mas feliz
é porém o erro a palavra incorrigível
para gente e lágrimas como a gente diz

Vasco Pereira da Costa, Ilhíada antes e depois (poesia 1972-2012)
Vila Nova de Gaia, Calendário das Letras, setembro 2012
ISBN: 978-972-8985-63-9



CALAFONAS - De regresso à ilha, todos quantos os tinham emigrado para os EUA eram conhecidos pela forma jocosa de calafonas, numa alusão estropiada aos habitantes da Califórnia. Nesse estado norte-americano, as colónias de açorianos eram muito importantes, estando ligadas à pesca e à criação animal. Porém, a maior parte dos emigrantes micaelenses privilegiava a costa Leste, onde se integravam na estrutura industrial existente. Tendo emigrado numa altura em que os ricos escasseavam, a chegada ao novo mundo abriu-lhes consumos desconhecidos e insuspeitados na sua terra. De regresso à ilha, gostavam de mostrar as novas aquisições e, sobretudo, passear-se com as novidades «ainda» ausentes na ilha. O guarda-roupa, inusitado, causava estranheza pelo colorido e, por isso, todos quantos nas ilhas adotavam comportamentos e atitudes diferentes, porque ainda desconhecidas, passaram a ser «calafonas».

“Calafonas”, in Dicionário sentimental da ilha de São Miguel de A a Z, 
Fátima Sequeira Dias, Ponta Delgada, Publiçor, janeiro 2011 (1ª edição)


 

Calafão é regionalismo açoriano, significa «aquele que retorna ao arquipélago».
O que o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, regista é a forma calafona, que o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa inclui, atribuindo-lhe origem obscura. Mas é o próprio Machado (op. cit.) que dá a pista: a par de calafona, existe califonho califórnio, o que indica que estes termos se devem relacionar com CalifórniaCalafão e calafona serão afinal variantes da adaptação portuguesa da pronúncia americana de Califórnia.






CEMETERY, Alfred Lewis

In “Cemetery”, Alfred Lewis recollects a childhood experience when he and a group of boys were returning from Sunday school and happened to pass by lhe village graveyard. At the time, the undertaker was busy digging a new grave. The boys, however, simply stood there

in awe as he disappeared
Into his own crevass
Until the sound of rotten planks reached us
And up came the awful shower
—Tibias , ribs, an empty skull—
Tainted by the smell ofmoths.

"Time to remove old Calafona,”
Our friend, the digger said, heaxvy with thoughts.
Seven years dead; came back with sacks
Of gold, bought a cow and fed the village.
A vow to Our Lady. Laughed, winked at the girls,
Grew fat and died one day.
That's the way it is, when you're old." (52—53)

“Calafona" is the name Azoreans traditionally ascribe to the Portuguese immigrants who settled in California. This particular “Calafona" embodies the mentality of most senior-citizen immigrants, especially in their desire to return to their native country to die after having secured a sound financial position for themselves and their children. In addition, this poem indirectly touches upon a recurrent theme in Lewis's poetry and fiction, namely his realization that America “devours" these immigrants' vigour and youth. When thcy return to the Azores after a life of toil in America, they are not more than food for worms. T his is the price one must pay when emigrating. But while America kept this “Calafona's" youth, he earned a decent livelihood there, whereas ifhe had remamed in the Azores, he would have struggled to survive. While the boys do not grasp this message, as a mature man remmiscing about this episode in this poem, Lewis reflects on the opportunities America offered him and his countrymen.

Reinaldo Francisco Silva, “Alfred Lewis as a Writer of Transition”
 in Portuguese American Literature, Penrith: Humanities - Ebooks.co.uk, 2010.



CALAFONAS

Se sou calafona
pois assim o quero
ou shoa que ir à ilha
é bom p'ra um gud time
mas ver Tê-Vê
não há melhor como cá
I mean, you não!
as coisas lá são okay
mas só para visitar
dou-me bem com os
calafonas portuguêses
dos meus velhos lugares
agora sou migrante
nesta nova nação
daqui é que já ninguém me tira
e as dólas
é a minha nova moeda
é o meu melhor pão.

Arnaldo Dias Baptista, Raízes, EUA, Xlibris Corporation, 2010
ISBN Ebook 978-1-4771-6253-8


   Poderá também gostar de:



Mário Moura, “Portugees there, Calafonas here”, Associação dos Emigrantes Açorianos e Câmara Municipal da Ribeira Grande, [2015?]. Disponível em: https://slideplayer.com/slide/4285801/#.XRKadGNMRFR.google

sábado, 22 de junho de 2019

Reabilitação, Amy Winehouse




REHAB

They tried to make me go to rehab,
but I said, "No, no, no"
Yes, I've been black but when I come back,
you'll know, know, know
I ain't got the time and if my daddy thinks I'm fine
He's tried to make me go to rehab,
but I won't go, go, go

I'd rather be at home with Ray
I ain't got seventy days
'Cause there's nothing,
There's nothing you can teach me
That I can't learn from Mr. Hathaway

I didn't get a lot in class
But I know we don't come in a shot glass

They tried to make me go to rehab,
but I said, "No, no, no"
Yes, I've been black but when I come back you'll
know, know, know
I ain't got the time and if my daddy thinks I'm fine
He's tried to make me go to rehab,
but I won't go, go, go

The man said "Why do you think you're here?"
I said, "I got no idea"
I'm gonna, I'm gonna lose my baby
So I always keep a bottle near

He said, "I just think you're depressed
Kiss me, yeah baby and go rest"

They tried to make me go to rehab,
but I said "No, no, no"
Yes, I've been black but when I come back
you'll know, know, know

I don't ever wanna drink again
I just, ooh, I just need a friend
I'm not gonna spend ten weeks
Have everyone think I'm on the mend

And it's not just my pride
It's just 'til these tears have dried

They tried to make me go to rehab,
but I said, "No, no, no"
Yes, I've been black and when I come back
you'll know, know, know

I ain't got the time and if my daddy thinks I'm fine
He's tried to make me go to rehab,
but I won't go, go, go


Amy Winehouse
 * * *


REABILITAÇÃO

Eles tentaram mandar-me para a reabilitação,
mas eu disse "não, não, não"
Sim, eu tenho estado mal, mas quando eu melhorar,
tu vais ver, ver, ver
Eu não tenho tempo e se meu pai pensa que estou bem
Ele tentou mandar-me para a reabilitação,
mas eu não vou, vou, vou

Eu prefiro ficar em casa com o Ray
Eu não tenho setenta dias
Porque não há nada,
Não há nada que me possas me ensinar
Que eu não possa aprender com o Sr. Hathaway

Eu não aprendi muito nas aulas
Mas sei que isso não vem num copo de shot

Eles tentaram mandar-me para a reabilitação,
mas eu disse "não, não, não"
Sim, eu tenho estado mal, mas quando eu melhorar
tu vais ver, ver, ver

Eu não tenho tempo e se o meu pai acha que estou bem
Ele tentou mandar-me para a reabilitação,
mas eu não vou, vou, vou

O homem disse "Por que pensas que está aqui? "
Eu disse: "Não faço ideia"
Eu vou, vou perder o meu amor
Então eu tenho sempre por perto uma bebida

Ele disse: “Eu penso que estás deprimida”
Dá-me um beijo, rapariga, e vai dormir”

Eles tentaram mandar-me para a reabilitação,
mas eu disse "não, não, não"
Sim, eu tenho estado mal, mas quando eu melhorar
tu vais ver, ver, ver

Eu não quero voltar a beber
Eu só, oh, eu só preciso de um amigo
Eu não vou perder dez semanas
Com todos pensar que estou em recuperação


E não é apenas o meu orgulho
É só até estas lágrimas secarem

Eles tentaram mandar-me para a reabilitação,
mas eu disse "não, não, não"
Sim, eu tenho estado mal, mas quando eu melhorar
tu vais ver, ver, ver

Eu não tenho tempo e se meu pai pensa que estou bem
Ele tentou mandar-me para a reabilitação,
mas eu não vou, vou, vou

Amy Winehouse

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Paterson


ABÓBORA

Minha aboborazinha,
por vezes gosto de pensar noutras raparigas
mas a verdade é que
se alguma vez me deixasses
rasgaria todo o coração
e nunca mais o consertava.
Nunca vai haver ninguém como tu.

Que embaraço.

Poema de Ron Padgett em Paterson, Trad. de João Luís Barreto Guimarães


* * *

A CORRIDA

Atravesso
triliões de moléculas
que se afastam
para abrir caminho para mim
enquanto de ambos os lados
outros triliões delas
permanecem onde estão.
A lâmina do limpa-brisas
começa a chiar.
A chuva parou.
Eu paro.
Na esquina
um menino
numa gabardine amarela
segura a mão de sua mãe.


Poema de Ron Padgett em Paterson, Trad. de João Luís Barreto Guimarães



Título original:
Paterson
De:
Jim Jarmusch
Com:
Adam Driver, Golshifteh Farahani, Helen-Jean Arthur
Género:
Drama, Comédia
Classificação:
M/12
Outros dados:
ALE/EUA/FRA, 2016, Cores, 118 min.
Paterson trabalha como motorista de autocarro na cidade de Paterson, em New Jersey (EUA). A sua rotina diária é sempre igual: acorda exactamente à mesma hora, vai trabalhar, regressa para os braços de Laura, a namorada, passeia Marvin, o cão, bebe uma única cerveja no bar de um amigo e escreve poesia, não necessariamente por esta ordem. A sua vida é tranquila e a sua existência discreta. Paterson está apaixonado por Laura e ela por ele. Ele apoia os sonhos e projectos mais arrojados da namorada; ela incentiva-o e inspira-o na escrita dos seus poemas. É assim todos os dias.
Escrito e realizado por Jim Jarmusch – o aclamado realizador de "Noite na Terra", "Homem Morto", "Café e Cigarros", "Broken Flowers - Flores Partidas", "Os Limites do Controlo", "Só os Amantes Sobrevivem" ou "Gimme Danger" –, e com Adam Driver e Golshifteh Farahani como protagonistas, um filme melancólico sobre as incontáveis rotinas de um casal durante os sete dias de uma semana.


Assistir ao filme completo, aqui.




Para poeta de ‘Paterson’, Jim Jarmusch fez trabalho artesanal em filme

Ron Padgett diz que adaptação respeitou caráter pessoal de seus poemas
RIO - Os fãs da série “Girls” e do mais recente episódio da franquia “Star Wars” devem se surpreender com o papel de Adam Driver em “Paterson”, de Jim Jarmusch. Driver vive um discreto motorista de ônibus em Nova Jersey, que escreve versos em brechas de sua rotina diária. A partir de sua observação detida, registrada em papel e lápis, o espectador conhece o trabalho de um dos nomes mais relevantes da poesia norte-americana da segunda metade do século XX. São de Ron Padgett os belos poemas que Paterson, personagem de Driver, escreve e verbaliza ao longo do filme. Poeta profundamente ligado à cidade de Nova York, onde dirigiu o icônico e ainda ativo Poetry Project, na Igreja Saint Mark, no East Village, Padgett conta nesta entrevista, por e-mail, um pouco sobre sua relação com Jarmusch e o processo de criação dos poemas de “Paterson”.
Você e Jarmusch já se conheciam há tempos, como foi o convite para participar da produção?
Jim e eu nos tornamos amigos uns 15 anos atrás, por meio de um amigo comum, o escritor Paul Auster. Conhecíamos o trabalho um do outro muito tempo antes disso. Vários anos atrás Jim me ligou e contou de um filme que estava pensando em fazer sobre um motorista de ônibus que escreve poesia e vive em Paterson, e me perguntou se eu poderia servir como o que ele chamou de “consultor de poesia”. Eu não sabia o que poderia ser um consultor de poesia, mas imediatamente disse sim, porque eu gosto de Jim e confio nele. Mais tarde ele voltou a me ligar perguntando se poderia usar alguns dos meus poemas no filme, e é claro que fiquei surpreso e encantado. O processo todo foi simples e pessoal. Jim é muito respeitoso com quem trabalha com ele.
Quando escreveu os poemas para o filme, você tentou incorporar a voz do personagem aos versos?
Quatro dos meus sete poemas em “Paterson” foram escritos muito antes de o filme ser feito. Jim os selecionou por conta própria de meus livros, mas disse-me que eu poderia escrever mais poemas se eu quisesse. Em princípio a ideia me apavorou, mas logo eu me vi escrevendo mais três. Para realizá-los, de certo modo eu me projetei na fantasia de ser um motorista de ônibus, mas, ao mesmo tempo, queria escrever poemas que pudessem existir por conta própria, independentemente do filme.
Como se sentiu trabalhando para a indústria cinematográfica, tão diferente da atmosfera artesanal do trabalho poético?
Jim Jarmusch é um cineasta muito independente, então não penso nele como alguém da “indústria cinematográfica”. Na verdade, ele é um artesão, como eu. Esse projeto se parece mais com os projetos colaborativos que tenho feito com amigos artistas nos últimos 55 anos: pessoal, não industrial.
Como foi ouvir Adam Driver lendo seus poemas? Sua leitura o surpreendeu?
Eu estava muito curioso para ver como Driver diria os poemas em voz alta, e eu fiquei não apenas aliviado, mas encantado com sua entrega. Soa certo, perfeito para o personagem. Driver é realmente um bom ator. Ele não parece estar atuando.
O poeta William Carlos Williams é uma espécie de centro gravitacional do filme, com diversas referências à sua biografia e sua obra principal, seu longo poema sobre a cidade de Paterson. Qual sua relação com o trabalho de Williams?
Eu descobri a poesia de Williams quando tinha 16 anos e gostei muito, então li seu trabalho em prosa também. Ele era um maravilhoso escritor de ficção. Em 1964, por volta de 18 meses após sua morte, eu e alguns amigos poetas fizemos uma espécie de peregrinação até sua casa em Nova Jersey e fomos muito bem recebidos por sua viúva, uma mulher doce e amável. Eu senti como se nós tivéssemos entrado em um lugar muito especial.
Como foi o começo de sua carreira como poeta? Quando você sentiu que a poesia poderia ser seu trabalho?
Eu venho de uma família da classe trabalhadora, não literária, mas, quando eu tinha 16 anos, decidi que escrever poesia era o que eu queria fazer. Talvez os poemas no filme funcionem por conta dessa trajetória modesta. Em minha família, ser esnobe, presunçoso ou se gabar era considerado vergonhoso.
De Ginsberg a Patti Smith, boa parte da poesia norte-americana produzida na segunda metade do século passado passou pelo evento literário Poetry Project. Como foi ter dirigido o projeto? Como é possível que ele ainda se mantenha vivo?
Eu dirigi o projeto por apenas dois anos e meio. Era muito trabalho duro — nada do glamour que as pessoas podem pensar —, mas eu me sinto feliz por ter feito. Neste ano o projeto celebra 50 anos, uma tremenda conquista para um grupo pequeno e local. Ter um espaço físico num prédio histórico tem proporcionado continuidade, mas o projeto tem sido fundamentalmente sustentado pelo idealismo e a energia de cada geração que se envolve com ele, constantemente renovando-o enquanto honra suas tradições - uma delas é a inovação!
A poesia tem algum papel em momentos como o atual, protagonizados por personagens como Donald Trump?
A poesia tem um papel em todos os tempos, mas, nestes dias tristes e deprimentes nos EUA, ela pode servir como um consolo para alguns e um motivador para a ação política para outros. Não conheço um único poeta que não esteja enojado, desanimado e enraivecido por Trump e seus perigosos companheiros, então, embora nós poetas tenhamos, é claro, nossas diferenças estéticas, nós estamos unidos. Quanto efeito isso trará é uma questão a ser respondida, mas estamos fazendo o melhor que podemos. Se nada mais, talvez a poesia possa ajudar as pessoas a se sentirem um pouco melhor em estar vivas, assim como o filme de Jim Jarmusch faz.
* José Godoy é poeta, autor de "A arte de andar por aí sem portar um celular" (Ed. 7Letras)


Um filme em formato de poema: “Paterson”, de Jim Jarmusch

dos princípios da poesia aplicados à narrativa cinematográfica

“Eu sempre carrego esses caras [os poetas] no meu coração”. Jim Jarmusch
Paterson, último filme de ficção de Jim Jarmusch, foi uma das surpresas mais gratificantes de 2016. No lado oposto daquilo que o crítico Roger Ebert identificou como “a nova especialidade de Hollywood: filmes de categoria B com orçamento de categoria A”, Paterson é um filme de categoria A com orçamento de categoria B.
O que não prejudica em nada a sua excelência. Aliás, as condições de produção parecem ter contribuído para a unidade temática da narrativa. Uma grande produção talvez não estivesse de acordo com as necessidades espirituais do personagem principal — o jovem Paterson, poeta da cidade de Paterson, New Jersey, que, no “horário comercial”, é também motorista de ônibus.
O nome de Jarmusch é frequentemente associado ao adjetivo indie. Com o passar dos anos, o próprio diretor alimentou a ideia de que era um marginal na indústria de cinema americana, como a assinalar não apenas as condições materiais de suas produções, mas também a singularidade de sua visão de mundo.
Em Paterson não é diferente. Embora esteja inserido numa determinada tradição cinematográfica (e eu penso em nomes como Cassavetes, Bresson e Rohmer), sem dúvida não é o tipo de filme com o qual os donos de cinema esperam faturar bastante: não há nenhuma ação frenética, não há nenhum tipo de conflito que não possa ser encontrado na nossa própria vida cotidiana, e, depois de 20 minutos, você já se acostumou com a sua estrutura de modo que já dá para saber exatamente o seu desenvolvimento.

Sequências estruturadas em estrofes

Isso acontece porque a narrativa de Paterson é construída como um poema. Ela se desenvolve de acordo com a rotina do poeta-motorista: acordar, trabalhar, escrever, conversar com a mulher a respeito do dia e das aspirações futuras, passear com o cachorro, beber no pub da esquina, ler e dormir.
Ora, a regra da linguagem poética é a repetição. Essa repetição que está tão fundamentalmente arraigada na constituição do ser humano que, longe de ser algo entediante, é simplesmente essencial à própria vida (vejam-se o ritmo da nossa respiração, dos nossos batimentos cardíacos e da nossa circulação sanguínea).
Assim, para transformar a linguagem da natureza em uma linguagem artisticamente expressiva, basta o indivíduo ser sensível o suficiente para observar e captar os ritmos já presentes no mundo. Como o poeta Maiakovski, que escreveu:
“O ritmo pode ser produzido tanto pelo trabalho repetido do mar como pela criada que todas as manhãs faz bater a porta, e esse barulho repete-se, arrasta-se penetrando na minha consciência, e até o movimento da Terra à volta do sol, que para mim, como num armazém de material para lições de coisas, alterna e se liga de modo caricatural e inevitável com o vento que se levanta e assobia” (Como Fazer Versos, p. 50).
Sensível ao ritmo da vida, Jarmusch constrói o seu filme como um poema. Os sete dias da vida de Paterson são como sete estrofes: sete sequências de acontecimentos nas quais os temas se repetem com ligeiras alterações. Há a proposição de um padrão e uma leve subversão do mesmo, um encadeamento de pequenos contrastes dentro de um sistema repetitivo.






Cada segmento do filme de Jarmusch começa com o letreiro na tela indicando o início de um novo dia. Na comparação das imagens (com as informações que vamos adquirindo durante a exibição do filme) podemos inferir as consequências das leves subversões do padrão proposto: segunda-feira, há um livro de Melville virado para cima; na terça, ele está virado para baixo, o que significa que Paterson o leu antes de dormir. Na quarta-feira, aparece outro livro junto com o livro de Melville, um livro de poesia, revelando nova leitura de Paterson. Ao sono tranquilo dos dias do início da semana seguem-se dias de sono intranquilo ou de maior cansaço (devido aos pequenos mas significativos conflitos vividos durante o dia). Como num poema, a mera justaposição desse motivo visual possui um poder altamente sugestivo.


Um padrão pode ser reconhecido também no tema dos gêmeos, pelo qual nos é apresentado um dado curioso da personalidade de um poeta. Um poeta enxerga padrões na realidade. De acordo com o seu interesse, a sua sensibilidade guiará o foco de sua atenção. Assim, depois de ouvir de sua mulher que ela havia sonhado que estava grávida de gêmeos, Paterson passa a prestar atenção aos gêmeos que ele encontra pela cidade. Num exercício metalinguístico, a câmera de Jarmusch direciona nossa atenção para esse motivo, criando inesperados efeitos de sentido.

O extraordinário quotidiano










Paterson não apresenta nenhuma das características comumente associadas aos poetas: a divindade, a profecia, a vidência, a possessão, a magia, a loucura, a grandeza, o idealismo, o heroísmo, a prodigiosidade, a predestinação, a angústia, o engajamento político. Talvez essas características estejam presentes em sua personalidade (pela imaginação literária), mas elas não constituem o seu traço mais distintivo.
Ele é um personagem que ignora completamente a frase atribuída a Martin Amis de que “devemos desconfiar de um poeta que saiba dirigir um automóvel”, pois ele não apenas sabe dirigir um automóvel, como o faz durante a maior parte dos seus dias. Mas Paterson está muito bem adaptado à vida real. A atuação minimalista de Adam Driver, com economia expressiva à maneira de Bresson, empresta uma sinceridade bastante humana ao personagem: temos vontade de nos tornarmos seus amigos.
O filme de Jarmusch está mais de acordo com uma visão realista e menos idealizada do artista. À maneira de poetas como o médico William Carlos Williams (nascido na cidade de Paterson e homenageado pelo filme) e o corretor de seguros Wallace Stevens, a atividade pela qual Paterson se sustenta não influi no fator predominante do seu espírito. Sua imaginação educada permite-lhe retirar poesia das situações e objetos mais simples da vida: uma caixa de fósforos, as banalidades da vida conjugal, a cerveja bebida à noite. Contudo, estes pequenos elementos do cotidiano são transcendidos pela dedicação a um sentido maior: o amor à sua esposa e a reflexão sobre o tempo e o sentido da vida, materiais próprios da poesia.
Diferente do que um mundo repleto de intelectuais pop-stars ou intellectuals yet idiots pode querer fazer crer, a cultura não é um salvo-conduto que deve prover garantias de privilégios sociais, nem muito menos apenas um conjunto de conhecimentos estéticos que fazem o seu portador parecer “mais legal”. Independente da circunstância social do indivíduo, a cultura será o elemento que lhe ajudará a encontrar o sentido de sua vida, o triunfo da beleza e da inteligência contra as trevas da feiura e da ignorância.
Nesse sentido, a escola de poesia de Nova York, e notadamente a poesia de Ron Padget (o verdadeiro autor dos poemas presentes em Paterson), demonstra que mesmo a influência dos beatniks não desviou a literatura americana de sua vocação moral; por isso, o cotidiano de Paterson não é apenas uma arbitrariedade do destino, uma “imposição social”, nem nada do tipo; é simplesmente o modo como ele escolheu viver a sua vida de maneira que fosse possível realizar a sua vocação de poeta. O modo de vida de Paterson é mais do que imperativo: é necessário.

Paterson demonstra que o quotidiano de um indivíduo é mais ou menos extraordinário na medida da sua imaginação.
Olhando para a carreira de Jarmusch como um todo, na qual uma mixórdia de referências culturais era enquadrada por uma estética que se convencionou chamar de hipster, podemos afirmar que nenhuma de suas obras anteriores foi tão coerente quanto essa. Há bons filmes, como Stranger Than ParadiseDown by Law e Dead Man, mas nenhum é tão bom quanto este Paterson.
Leandro Costa, 2017-04-13




“Paterson”: poesia, autocarros e comédia “zen” por Jim Jarmusch



Paterson é uma cidade do estado americano de New Jersey, com cerca de 145 mil habitantes. É o título de um longuíssimo poema de William Carlos Williams, influenciado por Ulisses, de James Joyce, e uma resposta a The Waste Land, de T.S. Eliot, publicado em cinco volumes, entre 1946 e 1958, escrito enquanto o autor, que era médico pediatra, estava colocado no hospital de Passaic, mesmo ali ao pé de Paterson. E Paterson é também o nome do protagonista do filme homónimo de Jim Jarmusch, placidamente interpretado por Adam Driver com o seu ar equino e pachola. Paterson é condutor de autocarros, tem uma mulher iraniana carinhosa e hiperactiva, Laura, que quer ser cantora “country” e pinta círculos em tudo, da roupa aos “muffins”, tem um buldogue, Marvin, que só obedece à mulher, e escreve poesia, que só mostra a Laura. O seu poeta preferido, tal como o da mulher, é Williams Carlos Williams. Isto está mesmo tudo ligado, como diria o outro.
A história desenrola-se ao longo de uma semana na vida de Paterson, seguindo as suas rotinas diárias, com uma ou outra fuga ao habitual ou acontecimento inesperado. Jarmusch gosta de dar tempo ao tempo, e este é um daqueles filmes sem pressas, em que se sente o tempo passar, enquanto Paterson sai de casa, guia o autocarro, volta para casa, janta com a mulher e vai dar uma volta com o buldogue e beber uma cerveja no bar do bairro. E escreve os seus poemas, à mão, com um lápis, e sem fazer cópias, apesar dos repetidos avisos da mulher. Paterson não tem telemóvel (quando um dia o seu autocarro pifa, tem que pedir um emprestado a um passageiro para comunicar a avaria). Aliás, em “Paterson”, ninguém passa horas ao computador nas redes sociais, nem a devorar séries de televisão. Nem há cenas de sexo, porque Jarmusch não se sente à vontade com o assunto e evita filmá-las sempre que pode.
É como se o filme se ambientasse numa América alternativa, uma utopia pacata, de felicidade rotineira “low, low tech” e sem gente má, onde as pessoas ainda falam umas com as outras nos bares, nas lavandarias e nos autocarros, em vez de estarem com as caras enfiadas nos Smartphones. Até mesmo quando Paterson e a mulher quebram a rotina no fim-de-semana e decidem ir ao cinema, não vão ver um filme de super-heróis ou uma comédia de adolescentes estúpida, mas sim uma velha fita a preto e branco, “A Ilha das Almas Selvagens”, de Earl C. Kenton, a primeira adaptação ao cinema de “A Ilha do Dr. Moreau”, de H.G. Wells.“Paterson” é uma comédia “cool” e “zen” como só Jim Jarnusch as sabe fazer, anti-“slapstick” e casual, subtilmente poética e excêntrica (ver as rimas visuais em casa de Paterson ou os gémeos que povoam o filme) e com “gags” de pavio tão longo como o poema de Williams Carlos Williams que dá nome ao filme e à personagem.
E depois, há a poesia que Paterson escreve (da autoria do poeta Ron Padgett, grande amigo do realizador, e que fez três poemas expressamente para o filme), tão quotidiana como a sua vida e o filme, imediata, despretensiosa e transparente, também ela “zen”. É que Paterson não só não tem quaisquer angústias ou fúrias criativas, como também não escreve com a ambição ardente de ser publicado, reconhecido e ganhar prémios. “Paterson” vai frontalmente contra todos os “clichés” da representação dos poetas e da escrita poética no cinema, porque Jim Jarmusch quer desdramatizar e desromantizar o acto da criação poética, e trazê-lo para o quotidiano mais prosaico e tangível. Sim, a poesia tem muita importância na vida de Paterson, mas ele encara-a com naturalidade, sem dramas nem estados de alma.
E quando um acidente doméstico com o cão Marvin provoca o único grande baque do filme e vem dar razão a Laura (interpretada pela encantadora Golshifteh Farahani) o universo, na pessoa de um turista japonês também apreciador de Williams Carlos Williams e de visita à cidade, encarrega-se de o ajudar a começar a recompor-se do abalo. Tudo muito “cool”, tudo muito zen, tudo delicada, empatica e soberbamente jarmuschiano. Será ainda preciso dizer que “Paterson” é um dos melhores filmes do ano?

Eurico de Barros, 2017-06-29


Paterson: o triunfo da poesia sobre o poema


Heidegger apontou, em sua obra prima Ser e Tempo, que toda uma tradição de comentadores da obra de Platão foi responsável por disseminar um grande equívoco: o privilégio do ente em detrimento do ser. Ele aponta que a história da recepção de Platão é a história do esquecimento do ser.
O que Paterson, o mais recente filme de Jim Jarmusch, tem a ver com o diagnóstico feito por Heidegger em sua obra de 1927?
No filme acompanhamos o dia a dia de Paterson, motorista de ônibus, poeta e morador da cidade de Paterson, onde vive ao lado de Laura, sua companheira, e Marvin, seu cachorro.
Paterson leva uma rotina pacata de cidadezinha do interior, acorda cedo, sai pra trabalhar, almoça, volta do trabalho, janta, leva o cachorro pra passear e bebe uma cerveja no bar antes de voltar pra casa. Tudo isso acompanhado do caderno onde escreve seus poemas e que só o espectador tem acesso ao longo do filme. A rotina ganha vida através das palavras de Paterson e uma caixinha de fósforos vira uma metáfora para o amor. Em Love Poem ele descreve um fósforo “furioso, sóbrio e obstinadamente pronto/ a queimar em chamas/ acendendo talvez o cigarro da mulher amada/ pela primeira vez… eu me torno o cigarro e você o fósforo/ ou eu o fósforo e você o cigarro/ ardendo em beijos que queimam até o céu”.
São quatro os poemas apresentados ao longo do filme, um deles de William Carlos Williams. Os poemas de Paterson, assim como o de WCW, são simples, curtos e ao mesmo tempo potentes por revelarem a poesia presente no cotidiano. Paterson é mais do que seus poemas, escondidos do mundo em seu caderno secreto, Paterson é alguém cuja abertura de mundo se dá através da poesia. No filme, a poesia é representada como um modo de ser no mundo, de ser e de habitar. Esse foi o aspecto que mais me chamou a atenção no filme: o privilégio da poesia em detrimento do poema, ou no linguajar heideggeriano, o privilégio do ser em detrimento do ente e não o contrário. Algo tão raro quando se trata de poesia, quase sempre deixada em segundo plano pelo poema.
O cinema está para a poesia assim como o filme está para o poema. Cinema e poesia estão para o ser assim como filme e poema estão para o ente.
Pouco ou nada se fala sobre o apagamento da poesia em detrimento do poema, assim como pouco ou nada se falava em relação ao esquecimento do ser em detrimento do ente. O filme é um excelente mote para a discussão desse apagamento. É a poesia, enquanto modo de ser no mundo, que contamina o nosso olhar e a nossa linguagem, sempre sobrepostos. Ver o mundo poeticamente não resulta necessariamente em poemas.
O ponto alto do filme é quando Paterson e Laura saem para o cinema e ele deixa seu caderno secreto sobre o sofá, que acaba sendo inteiramente destruído pelo cachorro. É evidente que após o episódio Paterson não deixa de ser um poeta, mesmo sem poemas.
Todo esse equívoco em relação à poesia tem provocado uma série de desentendimentos e desconfiança por parte dos leitores, que não entendem a proposta por não saberem o que é poesia. Por isso não entendem que a poesia é uma experiência de mundo, um modo de ser da verdade entre tantos outros (tais como a física, a química ou a biologia).
O filme é, sem dúvidas, um grande elogio à poesia. Privilegiar a poesia em detrimento do poema é seu grande triunfo, pois aproxima o espectador e torna o universo poético acessível a mais pessoas, principalmente as que costumam pensar que a poesia é algo que está muito distante da realidade, quase inacessível. O filme nos mostra o que é ver, dizer e se relacionar consigo, com o outro e com as coisas de modo poético. Jim Jarmusch, ao apresentar o mundo a partir da perspectiva poética de Paterson, possibilita que todo e qualquer espectador seja tocado pela poesia.

Yasmin Nigri, 2017-05-01




     Ron Padgett (17.6.1942, Tulsa)     #poesianorteamericana




O POETA ENQUANTO PÁSSARO IMORTAL

Um segundo atrás o meu coração deixou de bater
e eu pensei: «Seria uma péssima altura
para ter um ataque cardíaco e morrer,
a meio de um poema», então reconfortou-me
a ideia de que nunca soube de ninguém
que morresse a meio da escrita de um poema,
assim como os pássaros nunca morrem a meio do voo.
Acho.

Ron Padgett, Poemas Escolhidos, tradução de Rosalina Marshall, ed. Assírio & Alvim













Ron Padgett, Poemas Escolhidos, tradução de Rosalina Marshall, ed. Assírio & Alvim