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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Endechas a Bárbara



Endechas a uma cativa com quem andava de amores na Índia,
chamada Bárbara

Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que pera meus olhos
Fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

Ũa graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E. pois nela vivo,
É força que viva.

             Luís de Camões


TÓPICOS DE ANÁLISE

• Retrato feminino singular, diferente do retrato ideal renascentista, imagem mais diretamente ligada ao real.
• Retrato valorativo apreciativo, hiperbolizado e realizado do geral para o particular.
• Figura bela, formosa, graciosa, serena, mais humana que divina.
• Sentimentos despertados no sujeito poético: a paixão (cf. primeira e última estrofes, por exemplo); esta figura feminina que desperta a paixão do poeta permite-lhe, igualmente, descansar a sua dor – nela enfim descansa / toda a minha pena.
• Referências cromáticas: permitem acentuar a beleza feminina, bem como o seu exotismo.
• Poesia lírica tradicional (medida velha – redondilha menor, versos de cinco sílabas métricas).
• Poema composto por cinco oitavas (estrofes de oito versos).
• Esquema rimático: abbacddc (rimas interpoladas e emparelhadas).
• Principais recursos expressivos utilizados: jogos antitéticos e trocadilhos (cativa / cativo– em que se joga com os sentidos literal e metafórico do termo – porque nela vivo / já não quer que viva, pera ser senhora/de quem é cativa, bem parece estranha / mas bárbara não – em que se joga com o sentido duplo de «estranha» (não usual, diferente, estrangeira) e com o nome «Bárbara» e o adjetivo «bárbara» –, e pois nela vivo, / é força que viva.



INTERTEXTUALIDADE


Paul Gauguin, "Arearea" ou "O cão vermelho", 1892
Paul Gauguin, "Arearea", 1892


Bárbora não   
                    
Cantando o poeta em sua escora
levara na fadiga antiga rima.
Ó moço que no leito discorres, cuida,
arde para que sinal torne tua amiga.
Contando que a viu em face distinta,
sua companheira sorriu somente.
Vai com ele na doce peia que mais não
pode viver se sabe. Amor, disse, e apôs
seu nome, sua ventura.
Então a doce morena mordeu o lábio,
mais rica, mais leve na canela.
Porte esguio que a alma aquece.
Com vagar sorriu, deitou olhar e
co’as mãos já humedecidas as escondeu.
"Fico grato, concretamente, de seu fastio
ou de seu intento." Calou. Sorriu.
Sorriu somente.
                    
José Maria de Aguiar Carreiro, Folha de Poesia, 2007-06-10


segunda-feira, 10 de junho de 2019

10 de junho de 1977 - discurso de Jorge de Sena




Discurso proferido na cidade da Guarda, durante as comemorações do “Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas”, no dia 10 de junho de 1977 — o primeiro depois da “Revolução dos Cravos”.

É para mim uma honra insigne o ter sido oficialmente convidado pela comissão organizadora das comemorações de Camões em 1975, e do dedicar-se do Dia de Camões à recordação das comunidades portuguesas ou de origem portuguesa dispersas pelo mundo, para aqui falar na minha dupla qualidade de estudioso de Camões, e de residente no estrangeiro, que eu sou. Com efeito, em 1978, cumprem-se trinta anos sobre a primeira vez que, de público me ocupei de Camões, iniciando o que, sem vaidade me permito dizê-lo, tem sido uma contínua campanha para dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da Revolução de Abril de 1974, e ao mesmo tempo sofrer em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem moderno que não obedece a nada nem a ninguém senão à sua própria consciência. 
Esse meu Camões foi longamente o riso dos eruditos e dos doutos, de qualquer cor ou feitio; foi a indignação do nacionalismo fascista, dentro e fora das universidades, dentro e fora de Portugal; foi a aflição inquieta do catolicismo estreito e tradicional, dentro e fora de Portugal; e foi a desconfiança suspeitosa de muita gente de esquerda, a quem eu oferecia um Camões que deveria ser o deles, quando eles preferiam atacar ou desculpar o Camões dos outros. Foi e ainda é, e será. 
Porque, sendo Camões o maior escritor da nossa língua que é uma das seis grandes línguas do mundo e um dos maiores poetas que esse mundo alguma vez produziu (ainda que esse mundo, na sua maioria, mesmo no Ocidente, o não saiba), ele é uma pedra de toque para portugueses, e porque tentar vê-lo como ele foi e não como as pessoas quiserem ou querem que ele seja, é um escândalo. São essa pedra de toque e esse escândalo o que, neste momento solene, a três anos de distância do 4o. centenário da morte do maior português de todos os tempos, vos trago aqui, certo e seguro de que ele mesmo assim o desejaria. E, antes de mais, peço que, nas minhas palavras anteriores ou nas minhas palavras seguintes, ninguém veja ataques ou referências pessoais que não há; tenhamos todos, tenham todos a humildade de reconhecer que, quando se fala de Camões e de Portugal, não podemos pensar em mais ninguém.
Quanto a ser um residente no estrangeiro, vai para dezoito anos que o sou, o que, curiosamente, é mais ou menos o tempo que o próprio Camões viveu fora de Portugal, desde que dele partiu para as Índias [em 1553, até que regressou,] em 1570, tão pobre como partira, mas com Os Lusíadas no bolso ou na bagagem, para publicá-los. Eu nem estou a regressar, nem tenho Lusíadas nenhuns. Mas não sou exactamente um emigrante no estrangeiro, ainda que neste viva, e com os emigrantes me possa identificar – aqueles emigrantes que vi e tenho visto de perto, primeiro no Brasil e depois nos Estados Unidos, e também pelo mais largo mundo que tenho percorrido, e que, com a sua laboriosidade, a sua dignidade, a sua humanidade convivente, são em toda a parte, míseros e mesquinhos, ou ascendidos e triunfantes, muitas vezes, os embaixadores que Portugal não envia, ou os representantes da cultura que Portugal não exporta.
Por dezassete anos, recordemos, Camões foi apenas um deles, quando ninguém sabia ou podia ainda saber o génio que ele era. Reatando: eu não sou exactamente um emigrante no estrangeiro, porque, quando saí de Portugal, tinha vinte anos de escritor publicado, e desde então a maior parte da minha obra, ou grande parte dela, foi escrita para Portugal ou em Portugal publicada. Seja o que seja, continuo a ser o que era, quando me exilei muito a tempo naqueles idos negros e tristes de 1959: um escritor português que vive no estrangeiro e que mantém um permanente contacto com Portugal, até por obrigação profissional: catedrático de Literatura Portuguesa, que é um dos meus títulos e deveres, não tenho outro remédio senão estar a par do que se publica. Por outro lado, a minha fidelidade a Portugal – e fidelidade é uma das palavras-chave da minha pessoa e da minha obra, como liberdade é outra – nunca me permitiu livrar-me de partilhar (acrescentadas da dor da distância) as dores e as alegrias, os desalentos e as esperanças de Portugal. 


Permitam-me ainda um esclarecimento. Na melhor das intenções, vária imprensa anunciou ou referiu que eu falaria aqui como representante dos luso-americanos. Se alguém pensou que eu tal faria, mais que num plano meramente simbólico de partilhar com eles o viver nos Estados Unidos, enganou-se redondamente. Primeiro que tudo, eu não sou um luso-americano: esta palavra significa não o português que vive na América, mas ou o que adquiriu a cidadania americana, ou o que descende de portugueses e já nasceu americano: luso-americanas são duas filhas minhas, por naturalização, e um neto meu que o é nato, como brasileiro por naturalização eu sou, e dois filhos meus o são natos, enquanto minha mulher e outros cinco filhos mantiveram a nacionalidade portuguesa. E, em segundo lugar, que é o primeiro de todos, eu não recebi dos luso-americanos nenhum mandato eleitoral para falar em nome deles, embora esteja certo de que mo teriam dado, se a eles o tivesse pedido, por saberem que os respeito e estimo, sem distinção de credo ou cor (porque há luso-americanos de cor, idos de Cabo Verde para lá, por exemplo). Democrata como sou, eu não falo em nome de ninguém, sem ter recebido um expresso mandato para tal. Eu fui convidado por Lisboa e de Lisboa, o que é uma honra, mas Lisboa não tem o direito de nomear representantes de nada ou de ninguém. 
Esse vício centralista da nossa tradição administrativa – um dos vícios que Camões denunciou e castigou nos seus Lusíadas – deve ser eliminado e banido dos costumes portugueses, sem perda da autoridade central que deve manter unido um dos povos mais anárquicos do mundo e menos realistas quando de política se trata. Porque os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha; e por isso disfarçam a sua insegurança adulta com a máscara da paixão cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista, quando se vêem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a experiência da liberdade. Isto não sucedeu só agora, e não é senão repetição de outros momentos da nossa história sempre repartida entre o anseio de uma liberdade que ultrapassa os limites da liberdade possível (ou sejam as liberdades dos outros, tão respeitáveis como a de cada um) e o desejo de ter-se um pai transcendente que nos livre de tomar decisões ou de assumir responsabilidades, seja ele um homem, um partido, ou D. Sebastião. 
Também dos limites da ordem social e dos deveres do homem para consigo mesmo e a sociedade de que faz parte foi Camões um mestre. Assim, aqui, no âmbito de celebrações que são camoneanas e do Portugal disperso pelo mundo desde que o país existe e desde que, no estrangeiro, comunidades portuguesas ou de lusa origem se formaram ou mantiveram, eu não represento luso-americanos, e não falo em nome deles ou de ninguém no largo mundo. Aceito falar, como eu mesmo, da importância e do significado de Camões hoje, e da necessidade de ter presente ao espírito esta ideia tão simples: um país não é só a terra com que se identifica e a gente que vive nela e nasce nela, porque um país é isso mais a irradiação secular da humanidade que exportou. E poucos países do mundo, ao longo dos tempos, terão exportado, proporcionalmente, tanta gente como este.
Sejamos francos e brutais. Há neste momento, milhões de portugueses dispersos pelo mundo em mais de um continente, e não só na Europa de que são mão-de-obra. O país pensa neles, e deseja recordar-se deles. Mas o país, pura e simplesmente, na situação económica que herdou e em que se encontra e toda a gente sabe desastrosa, não pode prescindir do dinheiro deles, ou do dinheiro que eles costumam enviar para a santa terrinha, ao contrário do que faziam e fazem portugueses do território nacional, que mandavam o seu dinheiro para o anonimato dos bancos da Suíça. 
Deste modo, celebrar as Comunidades Portuguesas no dia do santo nacional que celebrou a expansão imperial do país é, ao mesmo tempo, um belo ideal e um cálculo muito prático. Há quem diga e quem pense que celebrações como esta – de Camões ou das comunidades – são uma compensação para a perda ou derrocada do Império oferecida ao sentimento popular, e que isso das comunidades é mesmo ainda pior: uma ideia do fascismo. Antes de mais, neste país há que pôr um basta não só ao fascismo ele mesmo, mas à mania de atribuir tudo ao fascismo, até as ideias. Porque, por esse caminho, ficamos todos sem ideias de que precisamos muito, e os fascistas ou os saudosistas deles acabam convencidos de que tinham ideias, quando ter ideias e ser fascista é uma absoluta impossibilidade intelectual e moral. 
O celebrar-se no presente e no passado em sua gente, o homenagear essa gente e recordá-la aonde quer que viva ou tenha vivido é um imperativo imarcescível da dignidade humana, num dos aspectos que a representa: o pertencer-se directa ou indirectamente a um povo, uma história, uma cultura, que como no caso de Portugal, foi, é e será capaz de diversificar-se em outras. Nenhum internacionalismo que se preze de ter os pés na realidade e na matéria de que somos feitos, pode negar ou ignorar essas realidades tremendas que são uma língua ou muitas, uma raça ou várias, uma cultura por mais adaptável ou capaz de absorção que ela seja, que se identificam com um nome secular – Portugal no nosso caso, aqui e agora.
Pensarão alguns, acreditando no que se fez do pobre Camões durante séculos, que celebrá-lo, ou meditá-lo e lê-lo, é prestar homenagem a um reaccionário horrível, um cantor de imperialismos nefandos, a um espírito preso à estreiteza mais tradicionalista da religião católica. Camões não tem culpa de ter vivido quando a Inquisição e a censura se instituíam todas poderosas: se o condenamos por isso, condenamo-nos nós todos a que, escrevendo ou não-escrevendo, e ainda vivos ou já mortos, resistimos durante décadas a uma censura opressiva, e a uma repressão implacável e insidiosa, escrevendo nas entrelinhas como ele escreveu. 
Isto é, condenamos a vera ideia de “Resistência” que, modernamente, fomos dos primeiros povos da Europa a tristemente conhecer e corajosamente praticar. E sejam quais forem as nossas ideias e as nossas situações políticas, nenhum de vós que me escutais ou não, pode viver sem uma ideia que, genericamente, é inerente à própria condição humana: o resistir a tudo o que pretende diminuir-nos ou confinar-nos. Camões não tem também culpa de ter sido transformado em símbolo dos orgulhos nacionais, em diversos momentos da nossa história em que esse orgulho se viu deprimido e abatido. Claro que esse aproveitamento não teria sido possível se ele não tivesse escrito Os Lusíadas. Mas o restituir a quem o podia ler e o podia sentir mais fundamente um pouco de confiança em horas difíceis, é um acto de caridade, essa virtude que não é só cristã porque é, desde antes do cristianismo, a própria essência da civilização: a solidariedade humana quando a dor nos fere. E o ter sido usado, manipulado e treslido como Camões o foi, ou denegrido como também foi desde a publicação do seu poema, é um dos preços que a grandeza paga neste mundo. 
Camões e a sua obra têm pago esse preço como todos os outros. Deixem-me todavia recordar-vos que o grande aproveitacionismo de Camões para oportunismos de politicagem moderna não foi iniciado pela reacção. Esta, na verdade, e desde sempre, mesmo quando brandindo Camões, sentia que as mãos lhe ardiam. Aqueles oportunismos foram iniciados com o liberalismo romântico e com o positivismo republicano. E se o Estado Novo tentou apoderar-se de Camões, devemos reconhecer que ele era o herdeiro do nacionalismo político e burguês, inventado e desenvolvido por aquele liberalismo e aquele positivismo naquelas confusões ideológicas que os caracterizavam e de que Camões não tem culpa: tê-la-iam por exemplo dois homens que merecem o nosso respeito: Almeida Garrett e Teófilo Braga. E quanto à reacção mais recente em face de Camões, eu lembro apenas dois pequenos exemplos em que a censura o proibiu, se não estou em erro: o caso do jornal de Vila do Conde, em que um tio de José Régio usava publicar os clássicos, citando-os convenientemente, e o da revista Vértice, de Coimbra, que fazia o mesmo.
E isto para não falarmos de crimes literários e socio-morais de mais largo alcance, de que Camões era vítima nas escolas, parecendo até que nós éramos as vítimas dele. Porque, para além de encher-se a boca com a Fé e o Império, que nem uma nem outro eram para Camões o que eram para o Dr. Salazar, o poeta não servia para mais nada senão para exercícios de gramática estúpida: o que, tudo junto, chega para gerações lhe terem ganho alguma raiva e perdido o gosto de o ler. E há mais e pior: quando, no liceu, líamos Os Lusíadas, éramos proibidos de ler (e não estudávamos) as passagens consideradas mais chocantes pela pudicícia hipócrita desta nossa sociedade de sujeitos felizmente desavergonhados que fingem lamentavelmente possuir a virtude que não têm, e vivem a perseguir ou reprimir os pecados alheios. 
Claro que nós todos íamos logo ler as passagens “proibidas” e lendo-as assim, com olhos libidinosos, perdíamos a grandeza delas: a majestade do sexo e do amor, a magnitude da liberdade e da tolerância, a inocência magnífica do prazer físico e da paixão erótica, que, acima de tudo, Camões cantava e celebrava nessas passagens com uma abertura de espírito e uma audácia espantosas. Será possível que os frades o tenham feito alterar algumas coisas antes de publicar Os Lusíadas. Mas, em face de algumas daquelas que lá ficaram, temos de reconhecer que, mais do que aquilo, só um poema francamente pornográfico, incompatível com a dignidade e o decoro da grande epopeia que Camões desejou escrever e escreveu.
Tem-se dito que o grande protagonista da epopeia é o povo português, e na verdade o povo aparece, segundo as tradições clássicas, representado apenas pelos seus heróis, aqueles que Camões seleccionou para o efeito, à excepção dos marinheiros anónimos que acompanhavam Vasco da Gama ou os seus guerreiros anónimos sem os quais não haveria a magnificente descrição da batalha de Aljubarrota ou análogos momentos. Aqueles marinheiros, como o próprio Vasco, são deificados, ou transfigurados epicamente na Ilha dos Amores, em condições sem dúvida moralmente impróprias de quem deixara família em Portugal, mas altamente consentâneas, se me permitem a rudeza, com a promiscuidade sexual notória do povo português, ao mesmo tempo que de acordo com as convenções épicas e mitológicas pelas quais os heróis se dignificavam no conhecimento (que aqui uso no sentido intelectualmente neo-platónico e no sentido obscenamente público) das entidades divinas. Já se disse que as personagens mais vivas e activas de Os Lusíadas são os deuses pagãos, e não as criaturas históricas, mais pálidas e incaracterísticas do que elas.
Até certo ponto, isto é verdade. E é-o por algumas razões camonianamente importantes. Antes de mais, na filosofia que Camões assume e torna extremamente pessoal, os deuses pagãos possuem, como atributos do Deus supremo, invisível e silencioso, e como seus intermediários agentes, uma realidade autêntica que a criação artística faria necessariamente mais palpável e concreta. E é assim que nós vemos tão nitidamente Vénus, a Afrodite originária e primeva, um dos deuses anteriores a tudo, e também a deusa do amor que este sim, é todo poderoso – como a não veríamos? Ela é a amante, a esposa, a mãe, tudo o que o princípio feminino significa dentro e fora da nossa humanidade, naquelas complexidades psico-sexuais a que Camões se compraz em aludir, servindo-se de alusões mitológicas que parecem meros ornamentos ao longo da epopeia inteira. E como não veríamos Baco ou Diónisos, receoso de ser castrado da sua lendária glória de conquistador da Índia? Se, como descendentes de Luso, descendemos dele, e ele é o nosso pai receoso do triunfo e da liberdade dos filhos? Como não veríamos Júpiter, se ele é de certa maneira a providência divina, sempre disposta a sucumbir, mesmo incestuosamente, às atracções do amor? Estes deuses, na dialéctica camoniana, sem a qual Camões se não entende, são ao mesmo tempo as emanações do princípio divino que desce à terra, e são a nossa humanidade ascendida e divinizada. 
E é neste mesmo sentido que as referências a Cristo devem ser entendidas nos contextos camoneanos: ele é, supremamente, para Camões, o princípio divino que, como um fogo de vida, desce a encarnar-se humanamente, mas é também o homem, o herói humano que, pelo seu sacrifício, ascende ou regressa ao divino. E é este heroísmo do apostolado e do sacrifício o que, em toda a sua epopeia, Camões propõe continuamente pela referência ou pela narrativa. Até Inês de Castro, a grande matriarca do poema, ascende à glória épica pelo seu sacrifício de amor. Porque para o amor, para todas as formas de amor, Camões arranja sempre uma desculpa, um louvor, ou a suprema divindade, porque esse amor é, para ele, a todos os níveis, a realidade última, e a realidade sempre presente. Sem amor, não há heróis, nem há homens dignos desse nome. E amor, mesmo numa epopeia que transborda de feitos bélicos e de acções guerreiras, não existe sem uma infinita e total tolerância, um respeito pelos outros povos, as outras raças, as outras culturas, as outras religiões, ao ponto de, como já tenho chamado a atenção, o conceito de santidade ou a palavra santo se aplicar a todos, sem distinção alguma, cristãos, muçulmanos, brâmanes, etc., e até – não o esqueçamos – a uma ninfa que se deixa possuir, por bem requestada, na Ilha dos Amores. 
Este Camões de amor e tolerância permeia Os Lusíadas. Mas já se disse que, além e acima de tudo e todos, a principal personagem da epopeia é Camões ele-mesmo, não só como o autor, não só como o narrador, não só como o crítico severo e implacável de toda a corrupção e de toda a maldade, como o denunciador angustiado de uma decadência moral e cívica que ele via e sentia à sua volta, e o qual constantemente interrompe a narrativa para invectivar com o maior desassombro (lembremo-nos de que as ordens daquele D. Sebastião a quem o poema é dedicado, dirigidas aos seus imperiais governadores, chamando-os à virtude e à dignidade, não tinham de tom diverso senão a diferença que vai de uma carta oficial a uma poesia de génio). E há nisso de Camões ser central uma enorme e profunda verdade que é o Camões-homem e o Camões-poeta. Não só ele se colocou, nos seus cálculos arquitectónicos do poema, nessa posição, e assim se colocando, se apresenta como a culminação da aventura portuguesa que ele conta, como o herói que o é por ser quem transforma Portugal numa obra de arte, acima das contingências históricas e da mesquinhês humanas. 
O Camões que na epopeia espreita ou se mostra a cada momento, roubando mesmo alguma realidade estética a tudo e todos, nós conhecêmo-lo e entendêmo-lo de outro volante do políptico que é a sua obra: o grande poeta lírico que é também um grande pensador, e que, na obra lírica como na épica, se apresenta como resumo e epítome da humanidade mesma, e não só do povo português. Ele é o homem em si, aquele ser que se busca continuamente e ao amor que o projecta para dentro e para fora de si mesmo, e é, como Luís de Camões, o predestinado para ser, ao mesmo tempo, o poeta-herói supremo que realiza, isto é, torna real para a eternidade da poesia, a história de Portugal, e a embarca nos navios de Vasco da Gama para unir o Ocidente ao Oriente. Ao mesmo tempo, este poeta-herói-épico, e o poeta-homem, exemplo de ser-se português, em exílios e trabalhos, em sofrer incompreensões e injustiças , e – ao contrário do que sucede ou sucedeu a alguns – regressar com as mãos vazias, apenas rico de desilusões, de amarguras e do génio que havia posto numa das mais prodigiosas construções jamais criadas, desde que o mundo é mundo. E essa construção ele trazia, reunindo o Portugal disperso, para o que ele deixara a vida, como disse, pelo mundo em pedaços repartida. 
Ninguém como Camões nos representa a todos, repito, e em particular os emigrantes, um dos quais ele foi por muitos anos, ou os exilados, outro dos quais ele foi a vida inteira, mesmo na própria pátria, sonhando sempre com um mundo melhor, menos para si mesmo que para todos os outros. Ele, o homem universal por excelência, o português estrangeirado e esquecido na distância, o emigrante e o exilado, é em Os Lusíadas e na sua obra inteira, tão imensa e tão grande, a medida do mais universal dos portugueses e do mais português dos homens do universo. Ninguém, como ele desejou representar em si mesmo a humanidade, representar tão exactamente o próprio Portugal, no que Portugal possui de mais fulgurante, de mais nobre, de mais humano, de mais de tudo e todos, em todos os tempos e lugares. Ele é, como ninguém, o homem que viajou, viu e aprendeu. O homem que se sente moralmente no direito de verberar com tremenda intensidade, as desgraças de viver-se e os erros ou vícios da sociedade portuguesa. É o exilado físico de muitos anos mas é, como todos nós, e nisso tanto ou mais o somos que outros povos, o exilado moral, clamando por justiça, por tolerância, por dedicação à pátria, por espírito de sacrifício, por unidade nacional e universal, lá onde via que o homem é, como ele disse mais que uma vez, o “bicho da terra tão pequeno” contra o qual se encarniçam os poderes do mal.
Haverá ainda quem diga que esse homem cantou a expansão imperial, apesar de tudo, as conquistas imperiais do Oriente, e está portanto fora do nosso tempo e do nosso espaço históricos, e a sua epopeia ofende a consciência das Ásias e das Áfricas. Mas ele cantou a expansão portuguesa, na medida em que considerava que esta expansão era ou deveria ser a civilização ocidental levada a toda a parte, no que tinha de moralmente digno e de socialmente responsável. Ao escolher para assunto central da sua epopeia a viagem de Vasco da Gama, ele sabia perfeitamente que escolhia um momento decisivo da história universal; o encontro, para todo o sempre, para bem e para mal, da Europa com a Ásia, passando-se pela África.
Momento decisivo dessa história do mundo, como eminentes historiadores insuspeitos de simpatias portuguesas ou imperialistas o têm proclamado e reconhecido. E, na verdade, esse encontro (e esse Império que, no tempo de Camões, com todos os erros e crimes, não era os impérios coloniais inventados pela Europa do século XIX, nem socio-moralmente inferior à desordem política existente então, como hoje, em toda a parte) simboliza aquilo mesmo que, mais tarde, nos nossos dias, veio a verificar-se. Porque as ideias de independência política e de justiça social pelas quais lutaram e ainda lutam os povos da Ásia e da África, e às quais se renderam os povos das Américas ao separar-se da velha Europa, não são as tradições tribais originárias por respeitáveis que sejam: são aquelas mesmas ideias que, geradas na Europa, da Europa se difundiram, tal como as naus do Gama partiram de Lisboa para uma das mais gloriosas viagens de todos os tempos. Isso Camões cantou: e vendo-o no seu tempo, e na visão do mundo que ele teve, sabemos que devemos relê-lo atentamente para saber, que ele, tão orgulhosamente português, entenderia todas as independências, se fosse em vida nosso contemporâneo como ele o é na obra que nos legou, para glória máxima de uma língua falada e escrita ou recordada em todos os continentes. 
O orgulho de ser-se alguma coisa, o inabalável sentimento de independência e de liberdade, disso ele falou, e sentiu como ninguém. É disso um mestre. Tudo existe na sua obra: o orgulho e a indignação, a tristeza e a alegria prodigiosa, a amargura e o gosto de brincar, e desejo de ser-se um puro espírito de tudo isento e a sensualidade mais desbragada, uma fé inteiramente pessoal, pensada e meditada como ele a queria e não como uma instituição, e a dúvida do predestinado que se sente todavia só e abandonado a si mesmo. 
Leiam-no e amem-no: na sua epopeia, nas suas líricas, no seu teatro tão importante, nas suas cartas tão descaradamente divertidas. E lendo-o e amando-o (poucos homens neste mundo tanto reclamaram amor em todos os níveis, e compreensão em todas as profundidades) – todos vós aprendereis a conhecer quem sois aqui e no largo mundo, agora e sempre, e com os olhos postos na claridade deslumbrante da liberdade e da justiça. Ignorar ou renegar Camões não é só renegar o Portugal a que pertencemos, tal como ele foi, gostemos ou não da história dele. É renegarmos a nossa mesma humanidade na mais alta e pura expressão que ela alguma vez assumiu. E esquecermos que Portugal como Camões, é a vida pelo mundo em pedaços repartida.

Jorge de Sena, Paris, 3 de Junho de 1977






O 10 de Junho só regressou em 1977

A democracia só aceitou comemorar o 10 de junho três meses depois da revolução. Não deixou de ser feriado mas, em 1975, o governo apelou "à batalha da produção".

Em 10 de junho de 1974, apesar da revolução que tinha acontecido três meses antes, e que execrava o espírito do “Dia de Portugal”, houve feriado na mesma. O que não houve foram comemorações oficiais – o feriado estava tão associado à ditadura que o novo regime não quis oferecer pompa nem circunstância a um dia que servia ao regime salazarista-marcelista para exaltar o império falhado.
Aconteceram coisas, mesmo assim. Uma “manifestação popular de apoio ao Movimento das Forças Armadas” levou a que dois dos heróis do 25 de abril, os generais António de Spínola e Francisco Costa Gomes aparecessem num terraço do Palácio de Belém a agradecer o apoio dos 15 mil manifestantes, segundo contas do Diário de Lisboa.
A manifestação – “convocada por diversas forças democráticas” – tinha começado no Marquês de Pombal, descido a avenida da Liberdade, passado pelos Restauradores e subido até ao Largo Camões, homenageando o poeta com ramos de flores. Rumou a seguir a Belém e o aparecimento dos dois generais na varanda do Palácio de Belém foi “a grande apoteose”, escreve o Diário de Lisboa.
O 10 de junho de 1975 continuou a ser feriado, mas o governo liderado pelo general Vasco Gonçalves apelou aos portugueses para irem trabalhar em nome da “batalha da produção”, tal como a Intersindical. Carlos Carvalhas, que anos mais tarde será secretário-geral do PCP e a 10 de junho de 1975 era secretário de Estado do Trabalho, disse nesse dia em que muitas empresas, incluindo privadas, não fizeram feriado: “Os trabalhadores que em todo o país abdicaram do seu feriado são exemplos verdadeiramente revolucionários que esperamos ver frutificar”.
Para o então secretário de Estado do Trabalho, “a posição que se assume perante a batalha da produção é que distingue os verdadeiros dos falsos revolucionários”. Carlos Carvalhas estava em visita à empresa Cometna, que produzia válvulas e estava em regime de autogestão. Dias antes, a 27 de maio de 1975, tinha sido preso o administrador, Alfredo Alves.
A delegação governamental que visitou algumas empresas que recusaram o feriado incluía, além de Carlos Carvalhas, o ministro do Trabalho major Costa Martins; o ministro da Indústria João Cravinho, que será mais tarde ministro de governos PS e ainda o 1º tenente Judas que nessa visita sentenciará: “A revolução não pode aceitar os que não trabalham”.
Em 1976 não se passou nada de relevante – o candidato a Presidente da República Ramalho Eanes andava em campanha eleitoral entre Buarcos e Coimbra para as eleições que se realizariam daí a duas semanas, a 27 de junho. Numa das intervenções, falou de Camões. Pinheiro de Azevedo, outro dos candidatos presidenciais, andava pelo Algarve em visita na qualidade de chefe do governo.
O 10 de junho tal como hoje o conhecemos só foi criado em 1977, sob o nome “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”. Foi comemorado oficialmente na cidade da Guarda, com as presenças do então Presidente da República Ramalho Eanes e do primeiro-ministro Mário Soares. Jorge de Sena, o escritor radicado há muito tempo nos Estados Unidos, fez um discurso extraordinário em defesa de Camões – incluindo a justificação de que não se poderia chamar a Camões “fascista”.
“Pensarão alguns, acreditando no que se fez do pobre Camões durante séculos, que celebrá-lo, ou meditá-lo e lê-lo, é prestar homenagem a um reaccionário horrível, um cantor de imperialismos nefandos, a um espírito preso à estreiteza mais tradicionalista da religião católica. Camões não tem culpa de ter vivido quando a Inquisição e a censura se instituíam todas poderosas: se o condenamos por isso, condenamo-nos nós todos a que, escrevendo ou não-escrevendo, e ainda vivos ou já mortos, resistimos durante décadas a uma censura opressiva, e a uma repressão implacável e insidiosa, escrevendo nas entrelinhas como ele escreveu”, disse Jorge de Sena.
Ana Sá Lopes, Sol, 2017-06-09



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  CAMÕES, HERÓI HUMANISTA                  
O ideal de homem virtuoso é, para Camões, o daquele que, como ele, for possuidor de «honesto estudo / Com longa experiência misturado». Camões é o herói humanista d' Os Lusíadas.

 Programa “Jorge de Sena”, da série “A Ideia e a Imagem”, Álvaro Manuel Machado, RTP1, 1978-06-15. Disponível em: https://arquivos.rtp.pt/conteudos/jorge-de-sena/

 Ler Jorge de Sena (® 2010 Universidade Federal do Rio de Janeiro)



domingo, 10 de junho de 2018

«Camões e a Tença» ou «Que farei(s) com este livro?»


     CAMÕES E A TENÇA

     Irás ao paço. Irás pedir que a tença
     seja paga na data combinada
     Este país te mata lentamente
     País que tu chamaste e não responde
     País que tu nomeias e não nasce

     Em tua perdição se conjuraram
     calúnias desamor inveja ardente
     e sempre os inimigos sobejaram
     a quem ousou seu ser inteiramente

     E aqueles que invocaste não te viram
     porque estavam curvados e dobrados
     pela paciência cuja mão de cinza
     tinha apagado os olhos no seu rosto

     Irás ao paço irás pacientemente
     pois não te pedem canto mas paciência


     Este país te mata lentamente

Sophia de Mello Breyner Andresen, Dual, 1972


Questionário

1. Caracterize as relações entre Camões e o Paço referidas no poema (vv. 1-3 e 14-16).
2. Apresente uma leitura possível para a expressão «ousou seu ser inteiramente» (v. 9).
3. Explicite o sentido das metáforas presentes nos versos 12 e 13.
4. Comente, na sua dimensão simbólica, este retrato de Camões.

Cenários de respostas

1. A característica principal dessas relações é a dependência, pois Camões precisa da tença que lhe é paga pelo Paço para sobreviver, embora ela seja escassa e paga com dificuldade. Associados a essa dependência estão a humilhação e o desconforto, dado que a tença não é um reconhecimento do seu talento de poeta, mas uma esmola pela qual o fazem esperar.

2. A expressão «ousou seu ser inteiramente» (v. 9) pode, por exemplo, remeter para uma das seguintes leituras:
– a figura do poeta que cantou a pátria nos feitos gloriosos das suas viagens marítimas, mas também arriscou viajar pelo mesmo mundo que essas viagens descobriram;
– a corajosa aventura que constituiu a vida do poeta, por oposição aos que ficaram «curvados e dobrados» (v. 11), alimentando «Calúnias desamor inveja ardente» (v. 7);
– a independência total com que o poeta escreveu, sem patronos nem protetores que lhe assegurassem a subsistência e lhe condicionassem o discurso.

3. Os versos «Pela paciência cuja mão de cinza / Tinha apagado os olhos no seu rosto» (vv. 12-13) contêm uma sequência de duas metáforas: a primeira é «mão de cinza», significando a indiferença ou o entristecimento a que essa paciência acaba por conduzir, e a segunda é «Tinha apagado os olhos no seu rosto», significando, nomeadamente, a perda da lucidez e da consciência crítica.

4. Este poema oferece um retrato dos últimos anos de vida de Camões. Um elemento especialmente importante da sua dimensão simbólica é formulado por um verso que não só se encontra repetido como é aquele que termina o poema: «Este país te mata lentamente» (vv. 3 e 16). Por ele se exprime a ideia de que a devoção, o empenho e o génio do poeta foram sistematicamente incompreendidos e desprezados por «Calúnias desamor inveja» (v. 7) dos seus contemporâneos. A condição do homem que é capaz do «canto» (v. 15) mais elevado – mas a quem só pedem «paciência» (v. 15) – é, então, marcada pela impotência e pela desilusão.

Prova Escrita de Literatura Portuguesa - 10.º e 11.º Anos de Escolaridade. Prova 734/2.ª Fase (Exame Nacional do Ensino Secundário, Decreto-Lei n.º 74/2004, de 26 de março). GAVE, 2011

 


     POEMA PARA LUÍS DE CAMÕES

     A terra basta onde o caminho pára,
     Na figura do corpo está a escala do mundo.
     Olho cansado as mãos, o meu trabalho,
     E sei, se tanto um homem sabe,
     As veredas mais fundas da palavra
     E do espaço maior que, por trás dela,
     São as terras da alma.
     E também sei da luz e da memória,
     Das correntes do sangue o desafio
     Por cima da fronteira e da diferença.

     Meu amigo, meu espanto, meu convívio,
     Quem pudera dizer-te estas grandezas,
     Que eu não falo do mar, e o céu é nada
     Se nos olhos me cabe.
     A terra basta onde o caminho pára,
     Na figura do corpo está a escala do mundo.
     Olho cansado as mãos, o meu trabalho,
     E sei, se tanto um homem sabe,
     As veredas mais fundas da palavra
     E do espaço maior que, por trás dela,
     São as terras da alma.
     E também sei da luz e da memória,
     Das correntes do sangue o desafio
     Por cima da fronteira e da diferença.
     E a ardência das pedras, a dura combustão
     Dos corpos percutidos como sílex,
     E as grutas do pavor, onde as sombras
     De peixes irreais entram as portas
     Da última razão, que se esconde
     Sob a névoa confusa do discurso.
     E depois o silêncio, e a gravidade
     Das estátuas jazentes, repousando,
     Não mortas, não geladas, devolvidas
     À vida inesperada, descoberta.

     E depois, verticais, as labaredas
     Ateadas nas frontes como espadas,
     E os corpos levantados, as mãos presas,
     E o instante dos olhos que se fundem
     Na lágrima comum. Assim o caos
     Devagar se ordenou entre as estrelas.

     Eram estas as grandezas que dizia
     Ou diria o meu espanto, se dizê-las
     Já não fosse este canto.

José Saramago, Poemas Possíveis, 1966 e Provavelmente Alegria, 1970



     QUE FAREI COM ESTE LIVRO?

Palácio do conde de Vidigueira. D. Vasco da Gama1, a condessa D. Maria de Ataíde, Luís de Camões, frei Manuel da Encarnação, aias, moços de câmara.
CONDE DE VIDIGUEIRA
(A quem um criado veio dar um recado em voz baixa)
Trá-lo cá. (Para a condessa.) Vem aí Luís Vaz de Camões saber a resposta à sua carta. (Para os outros.) Não vos retireis, que o negócio é de pouca monta2 e nenhum segredo...
LUÍS DE CAMÕES
(À entrada)
Senhor conde... (Faz vénia, depois repete-a na direção da condessa.) Senhora condessa...
CONDE DE VIDIGUEIRA
Entrai, senhor Luís Vaz.
LUÍS DE CAMÕES
Recebi o vosso recado, senhor conde. Vossa Mercê mandou-me chamar, aqui estou... Posso esperar que tenhais lido a minha carta e as oitavas que juntei?
CONDE DE VIDIGUEIRA
Li a carta e os mais papéis que vieram com ela. Dizei por claro o que pretendeis.
LUÍS DE CAMÕES
Senhor conde, a carta pedia a vossa proteção para as oitavas que por cópia estão em vossas mãos e para as irmãs delas que em minha casa ficaram. Disse-vos que é uma obra composta sobre os feitos dos portugueses e a navegação para a Índia, em que esteve vosso avô como capitão-mor.
CONDE DE VIDIGUEIRA
Decerto não quereis contar-me a história da minha família. (Risos das aias.)
LUÍS DE CAMÕES
Não poderia ser essa a minha intenção. Vossa Mercê mandou que por claro me explicasse.
CONDE DE VIDIGUEIRA
Mas não para vos ouvir repetir a carta nem os versos. Abreviemos.
LUÍS DE CAMÕES
Espero a resposta de Vossa Mercê.
CONDE DE VIDIGUEIRA
Por escrito a receberíeis, mas em atenção à memória de meu avô e de meu pai, a quem sucedi nesta casa da Vidigueira, mandei-vos chamar. Pedis proteção na vossa carta. Que proteção é a que esperais?
LUÍS DE CAMÕES
A que for justa para a minha obra e digna da memória do vosso antepassado.

José Saramago, Que Farei com Este Livro?, Lisboa, Caminho, 1980

Vocabulário e notas
1 D. Vasco da Gama – terceiro conde de Vidigueira, neto do navegador Vasco da Gama.
2 monta – importância.

Questionário
1. Identifica as personagens referidas na indicação cénica «(Para os outros.)» (linhas 5 e 6).
2. Indica a que se refere Luís de Camões com as expressões «oitavas» (linha 18) e «obra composta sobre os feitos dos portugueses e a navegação para a Índia» (linhas 19 e 20).
Justifica a tua resposta.
3. Relê as linhas 17 a 20.
Indica a razão pela qual Luís de Camões dirige ao conde de Vidigueira o pedido de proteção.
4. Na sua quarta fala, o conde de Vidigueira afirma: «Decerto não quereis contar-me a história da minha família.» (linha 22).
Explica estas palavras do conde, evidenciando a sua intenção ao proferi-las.
5. Lê o comentário seguinte.
Pela leitura das falas do conde de Vidigueira, percebe-se que ele não vai conceder a proteção pedida por Luís de Camões.
Apresenta dois argumentos a favor deste comentário, considerando as falas do conde ao longo do texto.


Cenários de respostas

1. Identifica frei Manuel da Encarnação, aias e moços de câmara.
2. Indica que Luís de Camões se refere a Os Lusíadas e justifica, afirmando que é uma obra escrita em estrofes de oito versos, que tem como matéria os feitos dos portugueses e a viagem para a Índia.
3. Indica que Luís de Camões dirige ao conde de Vidigueira o seu pedido, uma vez que há uma relação de parentesco entre o conde e Vasco da Gama, personagem da obra para a qual Camões pede proteção.
4. Explica que o conde quer mostrar a Luís de Camões que este não pode ter a pretensão de lhe contar a história da sua própria família e refere que a intenção do conde é menosprezar Luís de Camões.
5. Argumenta que as falas do conde de Vidigueira indiciam que ele não vai conceder a proteção pedida, por um lado, por não considerar o assunto importante – «o negócio é de pouca monta» (linha 6) – e, por outro, por manifestar impaciência em falas como «Decerto não quereis contar-me a história da minha família.» (linha 22) ou «Abreviemos.» (linha 26).

Prova Escrita de Língua Portuguesa - 3.º Ciclo do Ensino Básico. Prova 22/1.ª Chamada (Exame Nacional do Ensino Secundário, Decreto-Lei n.º 6/2001, de 18 de janeiro). GAVE, 2011



Lisboa, Mouraria, casa de Luís de Camões, princípio de maio de 1570.
Diogo do Couto (Falando de fora) – Luís Vaz mora nesta casa?
Ana de Sá (Abrindo a porta) – Nesta mesma. Vós, quem sois?
Diogo do Couto – Diogo do Couto, amigo e companheiro de vosso filho, para vos servir.
Ana de Sá – Vós sois Diogo do Couto? Entrai. E não repareis na pobreza da casa, que é de mulher velha e viúva. E, se não fica mal dizer, só desde há duas semanas mãe outra vez.
Diogo do Couto – Senhora, de casas pobres falais com homem de muita experiência que não viveu em palácios, ou quando neles habitou não foi em salas e aposentos principais. Tal como vosso filho.
Ana de Sá – Sentai-vos, sentai-vos. Deixai que olhe bem o rosto do amigo do meu Luís.
Diogo do Couto – Outros tem.
Ana de Sá – Mas nenhum melhor do que vós. (Outro tom) Porém não devo ser injusta para quantos, com tão grande generosidade, restituíram o filho aos braços de sua mãe ao cabo de dezassete anos. Dezassete anos que esperei aqui por ele, sem notícias, ou tão poucas, pensando se estaria morto, se por lá me teria ficado, nessas terras estranhas donde nenhum bem nos veio nunca, e já não virá.
Diogo do Couto – Não gostais da Índia?
Ana de Sá – Que é a Índia?
Diogo do Couto – Senhora, que pergunta a vossa. Não cuidava eu, quando desembarquei, que alguém me pusesse em Lisboa questão de tanta dificuldade. Que resposta vos hei de dar?
Ana de Sá – Vós o sabereis.
Diogo do Couto – Sei o que é a Índia agora. Vem de lá a especiaria, a seda, todas essas riquezas que chegam ao reino.
Ana de Sá – Da Índia sabeis certamente muito mais do que isso.
Diogo do Couto – Tendes razão. A Índia será, ou cuido que já o é, uma doença de Portugal. Queira Deus que não mortal doença.
Ana de Sá – Senhor Diogo do Couto, eu não sei ler. Luís Vaz trouxe aí muitos papéis...
Diogo do Couto Papéis ilustres, que os conheço.
Ana de Sá – Aí se senta os dias a corrigir, a ler em voz alta. Muito do que diz não sei entender, é tudo um falar de deuses e deusas, nomes de terras e mares desconhecidos, prodígios, coisas nunca vistas, quem, neste bairro da Mouraria, seria capaz de imaginar o mundo assim?
Diogo do Couto – O mundo tem ainda muito mais que ver e admirar.
Ana de Sá – Há dias pedi-lhe que me lesse uma passagem mais clara, que pudesse chegar melhor ao meu entendimento, e ele pôs-se a olhar para mim com um ar muito grave1, e depois de procurar leu-me a fala do velho2 que esteve na partida das naus para a Índia. Estais lembrado?
Diogo do Couto – Como do meu próprio nome. Ó glória de mandar, ó vã cobiça dessa vaidade a que chamamos fama...3
Ana de Sá – Esses versos escreveu-os Luís Vaz na Índia, não foi?
Diogo do Couto – Decerto.
Ana de Sá – Então, quando vós dizeis que a Índia será uma doença de Portugal, estais declarando doutro modo aquilo que meu filho disse nas oitavas que me leu. É assim que eu entendo.
Diogo do couto – Discreta sois.
Ana de Sá – Zombais de uma pobre velha ignorante. Tive tempo para pensar no meu filho, nessas terras e nessas viagens. Dezassete anos a pensar são muitos pensamentos. Outra vez vos digo obrigada, senhor Diogo do Couto, por mo terdes trazido.

José Saramago, Que Farei com Este Livro?, Lisboa, Caminho, 1999, pp. 47-51. (Texto com supressões)

NOTAS
1 grave – sério. 2 velho – referência ao Velho do Restelo, figura que, em Os Lusíadas, se dirige aos navegadores no momento da partida da armada de Vasco da Gama para a Índia. 3 Ó glória de mandar, ó vã cobiça dessa vaidade a que chamamos fama... – referência ao início da fala do Velho do Restelo em Os Lusíadas.


QUESTIONÁRIO:

1. Assinala todas as alíneas que, de acordo com o texto, correspondem a informações sobre a personagem Luís de Camões.
A – Vivia com a mãe no início de maio de 1570.
B – Fez segredo da sua amizade com Diogo do Couto.
C – Viveu em espaços humildes durante a sua vida.
D – Regressou à pátria graças às diligências da mãe.
E – Partilhou os seus escritos com Diogo do Couto.

2. «só desde há duas semanas mãe outra vez»
Explicita o sentido destas palavras de Ana de Sá, tendo em conta as suas afirmações ao longo da conversa com Diogo do Couto.

3. Diogo do Couto e Ana de Sá usam diferentes expressões para se referirem à epopeia Os Lusíadas, nomeadamente: «Papéis ilustres» e «oitavas».
Completa os espaços em branco para explicitares duas informações sobre Os Lusíadas a partir destas expressões.
A referência às «oitavas» permite-nos saber que as estrofes de Os Lusíadas têm (A) ……………………….
Já na expressão «Papéis ilustres», o adjetivo destaca (B) ………………………. da obra.

4. Ao longo do texto, surgem ideias contrastantes sobre a Índia.
Explica em que consiste esse contraste.

5. Relê as linhas desde “Ana de Sá – Então, quando vós dizeis (…) até “Diogo do couto – Discreta sois.”
Assinala a opção que, de acordo com o texto, completa a frase seguinte.
O comentário que Ana de Sá faz aos versos de Os Lusíadas permite a Diogo do Couto concluir que ela é
A – reservada.
B – cautelosa.
C – ingénua.
D – perspicaz.

6. Imagina que eras o encenador desta peça e que estavas com os atores a ensaiar esta cena.
Que conselho darias à atriz que iria desempenhar o papel de Ana de Sá para a auxiliar a representar a mudança de tom prevista na indicação cénica «Outro tom»?
Justifica a tua opção, tendo em conta o contexto em que surge a indicação cénica.


CENÁRIO DE RESPOSTAS:

1. A; C; E.

2. Explicita, de forma completa, o sentido das palavras de Ana de Sá, referindo os três elementos previstos:
– o facto de o filho de Ana de Sá ter regressado (para junto de si, o que a leva a sentir-se mãe de novo);
– o facto de esta ter tido poucas ou nenhumas notícias do filho / não saber se o filho estava vivo ou morto; / o facto de o filho ter estado muito longe;
– o longo período de ausência do filho.

(Exemplo de resposta completa: Ana de Sá sente-se mãe outra vez, porque esteve muitos anos sem ter notícias do filho e agora ele voltou para junto de si.)

3. (A) oito versos; (B) o valor / a excecionalidade.

4. Explica, de forma completa, em que consiste o contraste na caracterização da Índia, explicitando as duas perceções:
– uma perceção positiva da Índia, enquanto fonte de riquezas;
– uma perceção negativa da Índia, enquanto local de onde não vem nenhum bem / enquanto símbolo de vaidade e de cobiça.

(Dois exemplos de respostas completas:
a No texto, a Índia é fonte de riquezas que chegam ao reino; no entanto, é também referida como um local de onde não vem nenhum bem.
a Diogo do Couto refere a Índia como um local de onde vêm muitas riquezas. No entanto, também refere que esta é uma doença de Portugal, que poderá até ser mortal.)

5. D

6. Explicita o conselho a dar à atriz e justifica-o, de forma completa, tendo em conta o contexto em que surge a indicação cénica. Na resposta, deve referir-se:
– em que consiste a alteração de tom prevista na indicação cénica;
– uma justificação coerente com a alteração proposta, que tenha em conta o contexto em que surge a indicação cénica.

(Dois exemplos de respostas completas:
a Se estivesse a encenar esta peça, diria à atriz para usar um tom mais humilde, uma vez que a personagem estava envergonhada por não valorizar o esforço dos outros amigos de Camões, que também o ajudaram a regressar.
a Terás de usar um tom forte, pois a personagem está a reconhecer que seria injusta ao não ter em conta que os outros amigos do filho foram determinantes para o seu regresso.)

Fonte: Prova Final de Português - 3.º Ciclo do Ensino Básico. Prova 91 (9.º Ano de Escolaridade. Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de julho). IAVE – Instituto de Avaliação Educativa, I.P., 2011


 

     TEXTOS DE APOIO SOBRE QUE FAREI COM ESTE LIVRO?

A teatralização de personalidades exemplares da história literária (...) oscila entre a narrativa biográfica, mais ou menos fiel, mais ou menos fantasiada, e uma finalidade didáctica que extrai da luta do artista com o meio social que foi o seu, a matéria-prima para o ensinamento que se propõe. Na intersecção destas duas linhas se situa, precisamente, a peça de Saramago, que no entanto evita com superior inteligência os escolhos inerentes a uma e outra: nem o rigor histórico se dilui numa ilusória fidelidade arqueológica ou no recurso fácil de anacronismos, nem a invenção poética abdica dos seus direitos sem deles todavia nunca abusar, nem a lição que a obra se desprende («a moral da fábula», diríamos antes) é posta em regras que, à maneira dum catecismo, o aluno/espectador deverá decorar...
Luiz Francisco Rebello


Que Farei com Este Livro?, publicado em 1980, poderá consistir numa homenagem a Camões, já que é toda a problemática da publicação de Os Lusíadas que aqui se dramatiza: o desinteresse do rei e da corte, a miserável situação material do poeta e da sua mãe, as relações com a Inquisição, o negócio do impressor. No entanto, a força extraordinária que esta peça adquire, no seu respeito pela situação histórica (política, social e linguística), é a de justamente pode ultrapassá-la para constituir um libelo contra a situação desprotegida do escritor, que é de todos os tempos mas porventura mais nossa, mais atentos que deveríamos ter-nos tronado às relações de produção no meio cultural, nomeadamente no literário - e essa intenção torna-se mais sensível através da proeminência que na acção se dá a personagens como as de Diogo Couto e Damião de Góis, que alargam a simbologia do escritor-poeta à liberdade de pensamento e de contestação. No entanto, não se pode já falar aqui de corpos colectivos, como na peça anterior, embora o meio intelectual e o cortesão estejam bem marcados; trata-se, de preferência, de uma relação entre o indivíduo e o tempo em que vive, inóspito, opressor, indigno - e da relação deceptiva daqui decorrente. Aliás, a peste e o nevoeiro (figurando, respectivamente, a ambiência criada pela Inquisição e a mentalidade confusa do jovem rei D. Sebastião) são motivos alusivos recorrentes deste argumento negativo, onde só as ideias dos intelectuais podem ganhar raiz, amparadas pelo amor, por laivos de espírito de tolerância e pelo sacrifício maior da fidelidade à criação mediante a perda de tudo o mais. A visão que se dá do poeta sustenta-se em toda a força evocativa do seu tempo mas não é uma visão histórica, antes uma visão fabular, porque o destino de Camões inspira ao leitor pena, o de Damião de Góis admiração - e talvez que só a presença marginal, mas insistente, de Diogo do Couto reconduza o tempo aos seus próprios limites, porque decide abandonar a pátria regressando à Índia («Na Índia, não somos mais alegres, é verdade, mas a terra é outra, não terei mais obrigações para com ela, apenas viver», 122) e porque enuncia o programa trans-histórico verdadeiramente construtivo («Os melhores sonhos são os que se fazem com os olhos abertos, não os da cegueira», 52)."
Maria Alzira Seixo, O Essencial sobre José Saramago, Lisboa, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, 1987, págs. 34-35.


     LIGAÇÕES EXTERNAS

Sobre o poema "Camões e a Tença", de Sophia Andresen:




Sobre Que Farei com Este Livro?, de José Saramago:



            

Última atualização: 2020-01-10