CHICO BUARQUE É O GRANDE VENCEDOR DO PRÊMIO CAMÕES 2019
O músico, dramaturgo, escritor e autor
brasileiro Chico Buarque de Hollanda é o grande vencedor da 31ª edição do
Prêmio Camões. O anúncio foi feito nesta terça-feira, 21 de maio, às 16h, no
prédio sede da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, pelos membros do júri
composto por seis integrantes após reunião que durou pouco mais de uma hora.
A ata redigida pelos
integrantes do júri expressa os motivos que levaram à escolha do autor: “O Júri
decidiu, por unanimidade, atribuir o Prémio Camões a CHICO BUARQUE DE HOLLANDA
pela qualidade e transversalidade da sua obra, tanto através de gêneros e formas,
quanto pela sua contribuição para a formação cultural de diferentes gerações em
todos os países onde se fala a língua portuguesa. O Júri reconheceu o valor e o
alcance de uma obra multifacetada, repartida entre poesia, drama e romance. O
seu trabalho atravessou fronteiras e mantém-se como uma referência fundamental
da cultura do mundo contemporâneo”.
Nesta edição 2019,
o júri foi formado pelos brasileiros Antonio Carlos Hohlfeldt e Antonio Cicero
Correia Lima; pelo moçambicano Nataniel Ngomane; pelos portugueses Clara
Rowland e Manuel Frias Martins; e pela angolana Ana Paula Tavares.
O Prêmio Camões
foi criado em 1988 por um protocolo Adicional ao Acordo Cultural entre a
República Portuguesa e a República Federativa do Brasil com o objetivo de
eleger anualmente um autor de língua portuguesa que tenha contribuído para o
enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua comum. O prêmio
busca estreitar os laços culturais entre os vários países lusófonos. Os
governos dos dois países conferem ao |Prêmio distinção máxima a um escritor de
literatura lusófona, acontecimento de grande relevância política e cultural
para as duas partes.
21 de maio de 2019 - os jurados do Prêmio Camões: Manuel Martins (Portugal), Antonio Carlos Hohlfeldt (Brasil), Ana Paula Tavares (Angola), Clara Rowland (Portugal), Nataniel Ngomane (Moçambique) e Antonio Cicero Correia Lima (Brasil).
Comentários dos jurados
O jurado
brasileiro Antonio Hohlfeldt – doutor em letras, com pós-doutorado em
Jornalismo pela Universidade do Porto – esclareceu que o nome de Chico
Buarque de Hollanda foi consensual para os integrantes do júri que se reuniu
na tarde desta terça-feira. Segundo ele, a indicação surgiu naturalmente e
obteve respaldo de todos. “A diversidade da obra de Chico Buarque em temos de
música, romance e dramaturgia é inigualável. Também pesaram na escolha do nome
fatores como a difusão e circulação do nome do autor nos países de língua
portuguesa”. Antonio Hohlfeldt termina indagando: “Quem não escutou Chico Buarque?”
Para o acadêmico, o Prêmio Camões é o principal reconhecimento que um autor de
língua portuguesa pode alcançar na carreira. “Consulte uma relação dos
escritores já reconhecidos com o Prêmio para entender sua dimensão. Cada um
desses autores tem uma importância específica, cada um enriquece a língua
portuguesa à sua maneira. Isso se confirma mais uma vez agora com a indicação
do Chico Buarque”.
O jurado
moçambicano Nataniel Ngomane, doutor em Letras pela Universidade de São Paulo
(USP) afirma que “o Prêmio é importante para a valorização da língua e suas
diversas culturas, contemplando autores de diversos países de língua
portuguesa. Nomes como Raduan Nassar, Mia Couto e João Cabral de Mello Neto
atestam a elevada qualidade desse reconhecimento”.
A portuguesa Clara
Rowland, professora associada no Departamento de Estudos Portugueses da
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa declara
que “a transversalidade de Chico Buarque expande as próprias fronteiras
estritamente literárias do Prêmio Camões”.
Para o autor e
compositor brasileiro Antonio Cicero – desde 2017, membro da Academia
Brasileira de Letras –, “a obra do Chico Buarque de Hollanda é conhecida no
Brasil e em Portugal, uma obra de alto nível. Sem dúvida, é um nome que
atravessa fronteiras, e a ata da reunião transmite isso”.
Quando
recebi no telemóvel o alerta "Chico Buarque ganha o Prémio Camões"
senti-me no direito de comemorar uma vitória: "ganhei eu, caramba, ganhei
eu!".
Fui
ler a notícia. Os seis membros do júri explicavam a razão desta atribuição do
galardão literário pela "contribuição para a formação cultural de
diferentes gerações em todos os países onde se fala a língua portuguesa".
E
o que é que este português, de 55 anos, que escreve estas linhas, aprendeu com
Chico Buarque?
Aos
cinco anos de idade o meu corpo saltitava sempre que no rádio grande do meu pai
soava "A Banda", a música que, quando passava, diz o verso final do
refrão, ia "cantando coisas de amor". Chico Buarque impulsionou-me a
dança.
Aos
10 anos de idade percebi como um indivíduo sozinho nada pode contra o cerco
violento da indiferença. Bastou-me ouvir a história circular do operário de
"Construção", que "morreu na contramão atrapalhando o
sábado". Chico Buarque ensinou-me a identificar a injustiça social.
Aos
11 anos de idade percebi a inutilidade da divindade quando o coro masculino
MPB4 repetia, em Partido Alto, "Diz que Deus dará/ Não vou duvidar, ô
nega/E se Deus não dá?/Como é que vai ficar, ô nega?". Chico Buarque
deu-me razões para ser ateu.
Aos
12 anos de idade intui, com os versos de Fado Tropical, como a brutalidade da
colonização sangrou a pele dos povos e como as cicatrizes prevalecentes demoram
séculos a fechar: "E o rio Amazonas/Que corre Trás-os-montes/E numa
pororoca/Desagua no Tejo/Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/Ainda vai
tornar-se um Império Colonial". Chico Buarque ofereceu-me uma identidade,
um medo e uma esperança na Lusofonia.
Aos
13 anos de idade percebi, pela letra do pseudónimo Julinho da Adelaide (um
autor inventado, usado para ludibriar a censura da ditadura brasileira, que até
falsas entrevistas deu aos jornais...), que confiar na polícia pode ser
perigoso, como constata Acorda Amor: "Tem gente já no vão de
escada/Fazendo confusão, que aflição/São os homens/E eu aqui parado de
pijama/Eu não gosto de passar vexame/Chame, chame, chame, chame o ladrão, chame
o ladrão". Com Chico Buarque descobri que, às vezes, está tudo certo se se
ficar do lado errado.
Aos
14 anos de idade conspirei o sentido da canção O Que Será (À Flor da Pele):
"Será, que será?/O que não tem decência nem nunca terá/O que não tem
censura nem nunca terá/O que não faz sentido..." Chico Buarque revelou-me
o secreto significado da palavra "liberdade".
Aos
15 anos de idade compreendi, ao ouvir Mulheres de Atenas, que a minha mãe, a
minha irmã e a minha namorada viviam num mundo pior do que o meu:
"Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas/Geram pro seus maridos os
novos filhos de Atenas/Elas não têm gosto ou vontade/Nem defeito nem
qualidade/Têm medo apenas". Chico Buarque justificou-me o feminismo.
Aos
16 anos de idade espantei-me com o atrevimento de O Meu Amor. "Eu sou sua
menina, viu?/E ele é o meu rapaz/Meu corpo é testemunha/Do bem que ele me
faz". Chico Buarque fez-me entender como o sexo pode, ou não, fazer um par
com a palavra afeto.
Aos
17 anos comovi-me com Geni, a prostituta que salva a cidade mas que a cidade
despreza: "Joga pedra na Geni!/Joga bosta na Geni!/Ela é feita pra
apanhar!/Ela é boa de cuspir!/Ela dá pra qualquer um/Maldita Geni!". Chico
Buarque confrontou-me com a dignidade dos indignos.
Aos
18 anos de idade a história de O Malandro exemplificou-me como é sempre o
mexilhão que se lixa: um tipo que foge de um tasco sem pagar a cachaça que
bebeu provoca uma crise mundial. Mas, no final das crises, há sempre um bode
expiatório: "O garçom vê/Um malandro/Sai gritando/Pega ladrão/E o
malandro/Autuado/É julgado e condenado culpado/Pela situação". Chico
Buarque antecipou-me a globalização e fez de mim um comunista.
Aqueles
anos foram os tempos do meu caminho até à chegada à idade adulta, uma época
anterior aos romances que Chico Buarque escreveu e que completam, com a
verdadeira poesia de muitas das suas canções, um currículo mais do que
suficiente para a atribuição do mais importante prémio literário em Língua
Portuguesa.
Aqueles
anos foram os tempos que moldaram o meu carácter.
Aqueles
foram os tempos que moldaram o carácter de tantos outros e de tantas outras
que, como eu, cresceram a ouvir estas canções mas que entenderam nelas tantas
coisas que eu não entendi, que compreenderam nelas tantas coisas que eu não
percebi, que tiraram conclusões destes textos muito diferentes das que eu
tirei.
Mas,
tenho a certeza, apesar de pensarem e sentirem de maneiras tão diferentes da
minha, ontem, milhões de vós, ao saberem da notícia do Prémio Camões atribuído
a Chico Buarque, tiveram o mesmo impulso que eu e comemoram: "ganhei eu,
caramba, ganhei eu!".
Quando io sono solo con te sogno
immerso in una tazza di tè
ma che caldo qua dentro
ma che bello il momento.
Quando sono con te
non so più chi sono perché
crolla il pavimento e mi sciolgo di dentro.
Quando penso a te mi sento denso perché
io ti tengo qua dentro di me
io ti tengo qua dentro con me.
Me so' mbriacato de na donna
quanto è bono l'odore della gonna
quanto è bono l'odore der mare
ce vado de notte a cercà le parole
quanto è bono l'odore der vento
dentro lo sento dentro lo sento
quanto è bono l'odore dell’ombra
quanno c’è er sole che sotto rimbomba
come rimbomba l'odore dell’ombra come rimbomba come rimbomba
e come parte e come ritorna
come ritorna l'odore dell’onda.
Quando io sono solo con te
io cammino meglio perché
la mia schiena è più dritta
la mia schiena è più dritta.
Quando sono con te
io mangio meglio perché
non mi devo sfamare
non mi devo saziare con te.
Me so' mbriacato de na donna
quanto è bono l'odore della gonna
quanto è bono l'odore der mare
ce vado de notte a cercà le parole
quanto è bono l'odore der vento
dentro lo sento dentro lo sento
quanto è bono l'odore dell’ombra
quanno c’è er sole che sotto rimbomba
come rimbomba l'odore dell’ombra
come rimbomba come rimbomba
e come parte e come ritorna
come ritorna l'odore dell’onda.
Alessandro Mannarino, “Me
so' mbriacato” in Bar della rabbia, 2009
Quando estou sozinho contigo sonho
imerso numa chávena de chá
mas que calor aqui dentro
mas que belo o momento.
Quando estou contigo
não sei mais quem sou porque
desaba o chão e derreto por dentro.
Quando penso em ti sinto-me denso porque
eu tenho-te aqui dentro de mim
eu tenho-te aqui dentro comigo.
Estou embriagado de uma mulher
como é bom o cheiro da saia
como é bom o cheiro do mar
onde vou de noite procurar as palavras
como é bom o cheiro do vento
dentro o sinto dentro o sinto
como é bom o cheiro da sombra
quando há o sol que por baixo ribomba
como ribomba o cheiro da sombra como ribomba, como ribomba
e como parte e como retorna
como retorna o cheiro da onda.
Quando eu estou sozinho contigo
eu caminho melhor porque
a minha coluna fica mais direita
a minha coluna fica mais direita.
Quando estou contigo
eu como melhor porque
não preciso alimentar-me
não preciso saciar-me contigo.
Estou embriagado de uma mulher
como é bom o cheiro da saia
como é bom o cheiro do mar
onde vou de noite procurar as palavras
como é bom o cheiro do vento
dentro o sinto dentro o sinto
como é bom o cheiro da sombra
quando há o sol que por baixo ribomba
como ribomba o cheiro da sombra
como ribomba, como ribomba
e como parte e como retorna
como retorna o cheiro da onda.
Eu parti o telemóvel
A tentar ligar para o céu
Pa' saber se eu mato a saudade
Ou quem morre sou eu
E quem mata quem
Quem mata quem mata
Quem mata quem
Nem eu sei
Quando eu souber
Eu não ligo a mais ninguém
E se a vida ligar
Se a vida mandar mensagem
Se ela não parar
E tu não tiveres coragem de atender
Tu já sabes o que é que vai acontecer
Eu vou descer a minha escada
Vou estragar o telemóvel
O telele
Eu vou partir o telemóvel
O teu e o meu
E eu vou estragar o telemóvel
Eu quero viver e escangalhar o telemóvel
E se eu partir o telemóvel
Eu só parto aquilo que é meu
Tou para ver se a saudade morre
Vai na volta, quem morre sou eu
E quem mata quem mata
Eu nem sei
A chibaria nunca viu nascer ninguém
Eu partia telemóveis
Mas eu nunca mais parto o meu
Eu sei que a saudade tá morta
Quem mandou a flecha fui eu
I broke my cellphone
Trying to call heaven
To know if I would kill this longing
Or if I would die instead
And who kills whom?
Who kills who kills?
Who kills whom?
Even I don't know
When I do know
I won't tell anyone else
And if life calls
If life sends a text
If it doesn't stop
If you don't have the guts to pick up
You already know what will happen
I will go down my stairs
I will ruin the cellphone
The celly
I will break the cellphone
Yours and mine
And I will ruin the cellphone
I want to live and break the cellphone to pieces
And what if I break the cellphone?
I only break what's mine
I'm waiting to see if this longing dies
Maybe, it'll turn out that I'll die instead
Who kills who kills?
I don't even know
Snitches don't see anyone being born
I used to break cellphones
But I'll never break mine again
I know this longing is dead
The one who sent the arrow was me
Para quem ainda não viu ou ouviu, a música chama-se Telemóveis (e ganhou o Festival da Canção este fim de semana). Tem um refrão — não é bem um refrão, mas para simplificar — que não anda muito longe do “ceci tuera cela”. É uma pergunta: “Quem mata quem? Quem mata quem?”. E uma resposta: “nem eu sei” — porque a pergunta é acerca de se é a saudade que me mata ou se quem mata a saudade sou eu. Ao mesmo tempo, a música é sobre tecnologia, ou melhor, sobre os telemóveis do título como instrumentos para, entre coisas, matar saudades, e sobre a relação de amor-ódio que estabelecemos com estas ferramentas (em que provavelmente, mais do que num jornal impresso, o leitor está a ler estas palavras). O cantor, compositor e letrista fantasia sobre esmagar e escangalhar o telemóvel, suspeitando nós que nunca conseguirá definitivamente fazê-lo. E fá-lo sobre um fundo sonoro de música tradicional de várias partes do mundo, onde se nota sobretudo um gamelão indonésio, por cima do qual estende a sua voz de fado — uma mistura de tempos e espaços como a do seu próprio nome de personagem de animação japonesa e divindade egípcia.
Já na sua primeira música em português, chamada Amalia, Conan Osiris pusera um verso que é precisamente sobre a mesma angústia de querermos sempre ser novos sem deixarmos de ser os mesmos: “sabes que a saudade anda aos beijos com a morte”. É uma angústia portuguesa, sim. É uma angústia de todos os humanos em todos os lados, ver a cultura a mudar e a matar-nos aos poucos, o que é o mesmo que dizer: a renascer-nos aos poucos.
Por: Rui Tavares, “Quem mata quem”, https://www.publico.pt/2019/03/04/culturaipsilon/opiniao/mata-1864084
Por: Miguel Esteves Cardoso, https://www.publico.pt/2019/02/21/culturaipsilon/cronica/viva-conan-osiris-miguel-esteves-cardoso-1862914
É mais fácil rir e dizer "ah lol
uma música sobre telemóveis". Mas tirem-se uns momentos para interpretar
uma letra que na verdade fala sobre a morte de alguém que nos era querido. Fiz
o trabalho de casa para facilitar:
"Eu parti o telemóvel a tentar
ligar para o céu,
Pra saber se eu mato a saudade
Ou quem morre sou eu" - o sujeito
em sofrimento perde a esperança porque não consegue falar com quem morreu e foi
para o céu. A raiva do sujeito é expressa aqui também.
"Se a vida ligar
Se a vida mandar mensagem
Se ela não parar
E tu não tiveres coragem de atender
Tu já sabes o que é que vai
acontecer" - uma reflexão sobre os imprevistos da vida e uma referência a
uma morte inesperada que levou à raiva do sujeito. A mensagem enviada pela vida
pode ser muito bem, em termos práticos, a mensagem enviada por alguém para informar da morte da outra
pessoa.
"Eu vou descer a minha escada
Vou estragar o telemóvel
O telele
Eu vou partir o telemóvel" - a
raiva e desespero de uma chamada com uma notícia tão triste podem levar a actos
brutais. Ainda hoje lembro perfeitamente os momentos seguintes às notícias da
morte do meu tio e depois do meu avô. A sensação foi exactamente a descrita
aqui. Numa delas o telemóvel literalmente voou contra a parede. Quem nunca?
"Tou pra ver se a saudade morre
Vai na volta quem morre sou eu" -
a morte figurada num dos versos mais fortes da letra. Quantas vezes já
morremos, afinal? E morre quem de facto morreu ou morremos nós que cá ficamos?
"Eu partia telemóveis
Mas eu nunca mais parto o meu
Eu sei que a saudade tá morta
Quem mandou a flecha, fui eu" -
aqui a passagem do verbo do presente para o passado indica-nos que o sujeito já
chegou a um desfecho sobre a dor e revolta anteriores. Finalmente o sujeito
matou a saudade e deixou passar a revolta, talvez aceitando a morte de alguém
que amava como algo que jamais poderá mudar. Inevitavelmente teve de ser o
sujeito a mandar a flecha que selou esse ciclo de sofrimento. A flecha pode ser
uma metáfora para a aprendizagem que vem da difícil aceitação da morte de
alguém.
"Quem mandou a flecha fui
eu".
Hoje o Conan Osiris vai surpreender e
provavelmente chocar todos com a sua actuação. Mas ponham a estranheza de lado.
Olhem e escutem a poesia que ele criou e
vejam além do que parece óbvio. Esta letra é linda e forte e um passo avante na
música portuguesa.
Quem fez tudo igual ao que já estava
feito, nunca contribuiu para mudança alguma. Lembrem-se disso.
Por: Filipe Branco, num comentário ao vídeo “Conan Osiris reage à sua
própria actuação festival da canção”, publicado por Yolanda Tati, no Youtube, em 2019-02-16.
Depois de ver tanta crítica particularmente à letra da música “Telemoveis”
do Conan Osiris, fiquei perplexo! pois considero que esta letra é de longe um
exemplo das melhores que se fazem hoje em dia no universo da música Pop/Rock,
onde atualmente as letras são na sua maioria "receitas de bolos":
textos muito claros e objetivos, desinteressantes sem qualquer capacidade de
surpreender ou promover viagens por histórias nas nossas mentes. Então para os
mais desatentos, que apenas ouviram duas frases da letra e logo concluíram
sumariamente que a letra não presta (pois utiliza termos/palavras alegadamente
pouco interessantes), faço aqui, a título de exemplo, uma breve explicação
(FRASE POR FRASE) de uma das MUITAS viagens que se pode fazer por esta letra,
bastante rica, capaz de nos levar por mundos onde só a arte penetra:
-------------------------------------------
EU PARTI O TELEMÓVEL
(De tanto uso destruí o telemóvel)
A TENTAR LIGAR PARA O CÉU
(a tentar através dele chegar desesperadamente a um estado de felicidade
plena, ao céu/paraíso)
PARA SABER SE EU MATO A SAUDADE
(fiz isso para tentar matar/alhear-me/libertar-me do sofrimento (causado
pela saudade extrema) que me traz a vida real)
OU QUEM MORRE SOU EU
(pois se não conseguir matar esse sofrimento/saudade quem morre sou eu,
pois não aguento a dor)
QUEM MATA QUEM
(Mas afinal quem mata quem? o telemóvel matara o sofrimento? o sofrimento
vai-me matar a mim? ou o próprio telemóvel mata-me a mim ao tornar-me alheado
da verdadeira vida real?)
QUEM MATA QUEM MATA?
(Quem mata o que me mata?: quem mata o meu sofrimento? quem mata o
telemóvel que me mata/alheia da vida?)
QUEM MATA QUEM?
(Será que eu tenho coragem para matar/deixar o telemóvel? se sim, depois
quem mata o meu sofrimento/saudade?)
NEM EU SEI
QUANDO EU SOUBER EU NÃO LIGO A MAIS NINGUÉM
(Quando souber como tudo isto funciona ai sim não precisarei mais de
telemóveis)
SE A VIDA LIGAR
SE A VIDA MANDAR MENSAGEM
SE ELA NÃO PARAR
E TU NÃO TIVERES CORAGEM DE ATENDER
TU JÁ SABES O QUE É QUE VAI ACONTECER
EU VOU DESCER À MINHA ESCADA
VOU ESTRAGAR O TELEMÓVEL
(Se a vida não parar e me trouxer mais problemas mais sofrimento, tenho de
me lembrar que não me posso refugiar no telemóvel, tenho de partir o telemóvel
para não ter a tentação de me refugiar nele)
O TELELE
EU VOU PARTIR O TELEMÓVEL
O TEU E O MEU
E EU VOU ESTRAGAR O TELEMÓVEL
QUERO VIVER E ESCANGALHAR O TELEMÓVEL
(Quero viver, quero libertar-me deste vício do telemóvel, que me prende e
não me deixar ter emoções reais, não me deixa viver, quero libertar-me, partir
todos os telemóveis, evitar que os outros caiam neste precipício também)
E SE EU PARTIR O TELEMÓVEL?
EU SÓ PARTO AQUILO QUE É MEU
(Se partir o telemóvel não vou magoar ninguém, não será nada dramático,
deveria ser algo simples de fazer, só me implica a mim, só depende de mim)
TOU PRA VER SE A SAUDADE MORRE
(Mas se o partir, a saudade/sofrimento que me levou a refugiar no telemóvel
será que não volta?)
VAI NA VOLTA QUEM MORRE SOU EU
(quem morre se calhar serei eu que já talvez não consiga viver sem o
telemóvel neste momento. Mesmo se conseguisse e se depois o sofrimento
voltasse? sei que não conseguia viver com a dor desse sofrimento)
QUEM MATA QUEM MATA?
(conseguirei eu destruir o telemóvel ou ele e que me vai acabar por matar a
mim?)
(Quem mata aquilo que me está a matar, alguem me ajuda?)
(conseguirei eu destruir o telemóvel ou sem ele eu é que morro?)
EU NEM SEI
A CHIBARIA NUNCA VIU NASCER NINGUÉM
(Se-calhar não conseguirei renascer, não saberei viver sem ele, por outro
lado por causa dele sei que não vou mais conseguir apreciar o que nasce à minha
volta na vida real da qual, por causa dele, estou alheado, a passar ao lado)
EU PARTIA TELEMÓVEIS
(antes, ria-me dos viciados, eu proprio partia telemoveis, dizia ter
coragem para sair deste tipo de vícios)
MAS EU NUNCA MAIS PARTO O MEU
(mas não estou a conseguir tomar essa decisão agora e partir o telemóvel,
não estou a conseguir sair do vício, que se tornou mais forte que eu)
EU SEI QUE A SAUDADE TÁ MORTA
(sei que a vida real, a vida com emoções reais, vida das memórias reais,
está morta para mim enquanto tiver este vício)
(sei que já não sinto sequer a saudade (ela realmente morreu), mas isso
aconteceu porque quem morreu já fui eu, vivo agora fechado numa ilusão e num
vício, apegado ao telemóvel)
QUEM MANDOU A FLECHA, FUI EU
(mas quem se auto destruiu fui eu)
QUEM MANDOU A FLECHA, FUI EU
(fui eu que me deixar chegar a este ponto, a culpa não é de mais ninguém)
-----------------------------------
Isto não se devia fazer cada um deveria fazer a sua viagem … mas pareceu-me
a forma mais simples de tentar explicar a minha posição perante ataques
cerrados…
Concluindo, não só a letra é rica, como a temática que a mesma pode
abordar.
Isto foi apenas um exemplo feito rapidamente, esta letra deixa espaço para
outras viagens com nuances diferentes e mais ou menos específicas como por
exemplo o sofrimento referido ser especificamente por causa de alguém que
morreu (daí o telefonar para o céu … para matar a saudade … de forma frustrada,
... partir o telemóvel), ou o sofrimento ser devido a um amor passado pelo que
no final das chamadas depois das discussões só lhe apetecia partir o
telemóvel …. deixo ideias para vocês fazerem a vossa própria história :), para
os menos criativos...
Conan Osiris tem nos seus textos várias camadas, que servem para os
superficiais que se contentam com utilização de palavras engraçadas, do dia a
dia, bem articuladas e encadeadas a um bom ritmo e ao mesmo tempo para os que
apreciam viagens e abordagem a problemáticas/temas ao mesmo tempo simples e
complexos da nossa humanidade/sociedade. Daí a sua arte ser (para alguns
inexplicavelmente) tão transversal...
“Quem afirma que falta talento a Conan Osiris pouco ou nada percebe de
artes performativas. O rapaz encontrou um estilo que não tínhamos visto até
agora em Portugal e conseguiu construí-lo e sublimá-lo a um ponto que toda a
imagética seja tão forte quanto a música”
A isto acrescento: igualmente para o seu texto/palavra … portanto o ARTISTA
COMPLETO
O telemóvel tem
vindo a ocupar um papel primordial na comunicação entre os homens. Todos procuramos
compreender o que acontece connosco, mas nem sempre somos bem sucedidos.
Algumas verdades e evidências estão dentro de nós, não nos sendo imediatamente
percetíveis, bem como a outros recetores. A saudade é, em meu
entender, algo cuja essência somente compreendemos após a morte de um ou mais
entes queridos. O seu poder é muito abrangente podendo "matar-nos".
Neste perspetiva, o compositor pode referir-se a algum ente querido, como é o
caso do pai, que praticamente não conheceu, fruto da morte precoce por
problemas de toxicodependência.
Na 2.ª e 3.ª estrofes deparamo-nos
com a incerteza de quem pode vencer a batalha entre a saudade e a vida. Com
receio do que pode resultar desta conexão, antevendo uma resposta que lhe
parece óbvia, a decisão de destruir o meio de comunicação, não querendo que a
saudade o e nos destrua, ainda que incerto a respeito desta possibilidade
("Tou pra ver se a saudade morre/ Vai na volta quem morre sou eu").
Mas acusar "nunca viu ninguém nascer". Como tal, na última estrofe, o
compositor conclui que foi capaz de matá-la, dada a sua iniciativa, evitando o
oposto. De tal, revela-se orgulhoso, como expressa nos dois últimos versos
"Quem mandou a flecha fui eu/ Fui eu". Assim, de nada adianta partir
outros telemóveis: de pouco adianta conhecer a saudade, mas sim saber como
destruí-la.
Adoro Bolos chegou de surpresa no final de 2017. Emoções fadistas, via Variações, Bollywood, pista de carrinhos de choque, funaná, hip hop. Romantismo trágico e tiradas de canastrão. Nunca ouvimos nada assim.
29 anos. Atrás do nome está Tiago Miranda, criador de música para a qual não se inventou designação. É omnívoro na estética (fado, Bollywood, tarraxinha, hip hop, metal) e é um romântico dado ao dramatismo com tiradas de humorista (Mário Lopes).
Alguma coisa aconteceu quando, no final de um álbum de paisagens sonoras ambientadas em electrónica ou hip hop, criadas para desfiles de moda de amigos, lhe saíram de chofre os versos. Aqueles versos, cantados assim: “Tu sabes que a saudade / bate forte, bate bem, mais forte que a sorte / Tu sabes que a saudade anda aos beijos com a morte”. Aqueles versos, que acabam assim: “Amália pega em mim, leva-me para o mar / sabes que eu só morro quando não te vir chorar”. Alguma coisa aconteceu, porque foi a primeira canção em que sentiu, como diz ao Ípsilon, “que talvez houvesse uma hipótese de não ter vergonha da minha voz”. Alguma coisa aconteceu porque, quando acabou de a cantar, quebrou e chorou. Não seria, dali para a frente, caso único. Mas é surpreendente pensar que Tiago Miranda, que assina Conan Osiris, tenha uma relação tão visceral, tão íntima, com os versos que canta. Afinal, ele é o músico que canta Borrego, Celulitite ou Adoro bolos, três das canções que, desde Dezembro, têm feito o seu caminho, chegando a cada vez mais ouvidos de gente surpreendida, intrigada e, acto contínuo, conquistada pela sua música – é oficial, nunca ouvimos nada assim. Canções em que emoções fadistas, via Variações, ou melismas de canto cigano passeiam sobre cordas à Bollywood, batida de pista de carrinhos de choque, acordeões de funaná, batida esquelética de hip hop, adufes sintéticos ou melodias do Médio Oriente (à vez ou tudo misturado). Canções em que se mistura poética de um romantismo trágico com expressões em calão, com jogos fonéticos, com expressões populares e tiradas de canastrão (à vez ou tudo misturado). Ele adora bolos – “mas adoro-te mais a ti”. Ele está a espera de um beijo “até que a terra acabe”, está à espera de um anjo - “‘pa' me levar ao kebab”.
As coisas mais bonitas e mais alegres não têm que estar distantes de um cemitério. É tudo a mesma coisa.
Tiago Miranda
“A tua vida permite-te tudo isto. Por vezes, deparas-te com pensamentos que ‘nem a noite, nem Deus, nem diabos, nem ateus’, conseguem resolver. E a vida também te dá bolos, que eu adoro”, diz ao Ípsilon. “As coisas mais bonitas e mais alegres não têm que estar distantes de um cemitério. É tudo a mesma coisa”. Na sua música, não é tudo a mesma coisa, mas tudo se conjuga e mistura de forma desconcertante: o humor inesperado e a desolação sentimental, polaroids de quotidiano e introspecção. Foi isto que descobrimos quando, aparentemente do nada, dia 30 de Dezembro, nos surgiu Adoro Bolos, editado na AVNL Records. Havia um passado feito de Silk, o álbum que terminava com Amália, e do poliglota Música, Normal, editado em 2016, mas Adoro Bolos é toda uma outra coisa. É o álbum em que uma voz se descobre e se revela verdadeiramente. A surpresa que provocou foi passando de ouvido em ouvido, o espanto foi amplificado online, a televisão já o mostrou e há um concerto na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, esta sexta-feira, abrindo a noite em que veremos a brasileira Linn da Quebrada, com lotação esgotadíssima. Parece inevitável: 2018 será o ano em que descobrimos Conan Osiris. Estamos à beira Tejo num dia invernoso de céu pesado, cinzento carregado. Tiago Miranda está lá longe, no fundo do pontão. Olha a câmara que o fotografa: põe-se de cócoras como em crew de hip hop dos idos de 1990, abre os braços em pose beatífica, franze o sobrolho como um Raging Bull, vira-se de perfil e observa a distância, melancólico, muito de acordo com o tom deste início de tarde. Enquanto decorre a sessão fotográfica para o Ípsilon, Ruben Osório, amigo dos tempos de escola, agora também stylist de Conan Osiris, diz-nos que o seu trabalho, ao contrário do que faz habitualmente, criar uma imagem de raiz, é oferecer algo que realce aquilo que Osiris já é. E isso tanto pode ser o fato-de-treino, b-boy elevado à quinta potência, em que o vimos interpretar Borrego no programa da RTP Cinco para a Meia Noite, como este casaco de formas largas, em látex rosa, que veste agora, criação do designer de moda Ricardo Andrez. “Posso estar a cantar sobre um trampolim novo que comprei e ter uma base techno que vou ter que colar as duas coisas”, diz mais tarde, já recolhido num sofá protegido da chuva que se abateu sobre a cidade. “Posso fazer amanhã uma música tribal com sons açorianos cantados em crioulo de Cabo Verde. Podem ser totalmente diferentes, mas vão encaixar. Isso está no meu poder e é a minha responsabilidade. Se faz parte de mim, vou conseguir coser de alguma forma”. Fala de música, fala de si mesmo – uma coisa é a outra, de resto. Respeitar a imaginação Tiago Miranda nasceu em Lisboa, viveu no Cacém e habita Lisboa novamente, onde trabalha numa sex-shop. Cresceu acompanhado do eclectismo total da mãe. “Ouvia fado, passava para kizomba, mudava para bachata. Ouvia os grandes cantores românticos, ouvia o Leandro & Leonardo e o Chitãozinho & Xororó”. Continuou a crescer mantendo-se ecléctico: “No Cacém chegou ainda mais kizomba, kuduro e funaná. Descobri Missy Elliott, mas tinha amigas góticas e ouvia também Evanescence, Linkin Park e coisas mais metal. Quando chegou a Sic Radical, Björk ou Sigur Rós”. Nunca foi uma coisa só, fiel a um som, a uma identidade estanque. Por isso no seu discurso misturam-se referências inesperadas. Ei-lo, por exemplo, a fazer a seguinte analogia ao explicar como descobriu a sua voz e como descobriu que havia algo que nele se libertava, algo vindo das entranhas, incontrolável, quando o fazia em português: “Há uma cena agora no [vídeo-jogo] Pokémon Oras que é o Primal Kyogre. É o mesmo Pokémon, mas fica no seu modo primordial, mais cru, mais poderoso, mais fodido”. Assim se descobriu Conan Osiris quando gravou Amália de chofre – e Amália Rodrigues é, de resto, uma figura importante nesta história. Em Janeiro, em entrevista ao site Rimas e Batidas, defendia que, sendo “um bocado ignorante em termos de liricismo português”, tinha o Sr. Extraterrestre que Carlos Paião compôs e que Amália cantou em 1982 como “uma das obras mais necessárias”. Explica-nos agora que, de certa forma, viu ali como que uma legitimação do que tenta fazer com o seu cruzamento de contraditórios aparentes: “Ela canta à maneira dela. Canta um fado que, ao mesmo tempo, é uma música sobre um extraterrestre a quem ela pede bacalhau. Se o Carlos Paião imaginou aquela cena, não pode ser assim tão esquisito. Há milhões de pessoas no mundo e milhões de pessoas que têm sonhos estranhos. Podem não os contar, mas não quer dizer que não existam. Eles [Paião e Amália] respeitaram a imaginação e isso tem muito valor para mim” – António Variações, nome habitualmente citado quando se fala de Conan Osiris, é outra figura que lhe desperta profunda admiração: “É um dos maiores artistas de sempre e é super honroso ser comparado com uma pessoa assim”. Em Adoro Bolos, álbum onde há um homem caricatura à beira da loucura, tudo por ciúme – “Eu vou-me amandar do Titanique, se tu não vieres”, lacrimeja ele –, álbum onde há requebro bem doseado – “Quem quer saber da celulite?”, exorta-se –, ouvem-se os versos da canção título: “às vezes nem o dia, nem a luz / Nem o sangue, nem o pus / nem o fogo nem a cruz querem resolver / o meu problema / E o problema é / eu adoro bolos” – é uma canção de amor, assinale-se, e é provável que Carlos Paião aprovasse a letra. “Chorar e dançar ao mesmo tempo é muito atractivo para mim. Não se tira uma coisa da outra”, diz Conan Osiris.