quinta-feira, 13 de junho de 2013

NUM SONHO TODO FEITO DE INCERTEZA (Antero De Quental)


          


À VIRGEM SANTÍSSIMA

Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia.

Num sonho todo feito de incerteza, 
De nocturna e indizível ansiedade, 
É que eu vi teu olhar de piedade 
E (mais que piedade) de tristeza... 

Não era o vulgar brilho da beleza, 
Nem o ardor banal da mocidade... 
Era outra luz, era outra suavidade, 
Que até nem sei se as há na natureza... 

Um místico sofrer... uma ventura 
Feita só do perdão, só ternura 
E da paz da nossa hora derradeira... 

Ó visão, visão triste e piedosa! 
Fita-me assim calada, assim chorosa.
E deixa-me sonhar a vida inteira!
             
Antero de Quental
             


LINHAS DE LEITURA
      
• Mostrar que muito mais do que retratar a Virgem Santíssima o poeta reconstrói uma visão.
• Confrontar os atributos apresentados com os atributos tradicionalmente indicados aNossa Senhora.
• O sonho e a realidade são duas realidades antinómicas que perpassam muitos dos sonetos de Antero. Apontar causas dessa antinomia.
• Mostrar como o sentido dos 1º e 2º versos está repetido, embora de outra forma, no último verso.
• Salientar a importância do verbo ver e dos olhos.
• Inserir o texto na evolução poética e psicológica do poeta.
        
João Guerra e José Vieira, Aula Viva – Português A. 12º Ano, 1º vol, Porto Editora, 1999.
             

A REAÇÃO AO PESSIMISMO
           
Passaram anos em que não vi Antero, instalado então em Vila do Conde. Sabia que o meu amigo estava quase são, quase sereno. Mas foi uma preciosa surpresa, quando, ao fim dessa separação, chegando ao Porto e correndo com Oliveira Martins a Vila do Conde, avistei na estação um Antero gordo, róseo, reflorido, com as lapelas do casaco de alpaca atiradas para trás galhardamente, e meneando na mão a grossa bengala da índia que em Lisboa eu lhe dera para amparar a tristeza e a fadiga. Era uma regressão, quase o antigo Antero coimbrão, mais amadurecido, mais doce: ‑ apenas, no lugar da fulva grenha flamejante e romântica, alvejava um sereno começo de calva socrática. Era sobretudo uma restauração moral, à velha maneira de Lázaro uma miraculosa saída do túmulo pessimista e das sombras da negação. Findara a luta implacável, o seu grande coração, enfim, descansava em paz!
Como chegara Antero a esse repouso apetecido? Escutando com uma atenção mais grave, mais crente, aquela voz da Consciência, que tanto tempo desconhecera, eque apesar de todos os desenganos e sempre em segredo protesta e afirma o Bem.
Fora atendendo reverentemente essa doce voz; e conseguindo, por um desesperado esforço do pensamento, penetrar a sua significação; e refazendo, guiado por ela, a sua educação filosófica; e procurando depois a sua confirmação na história, nas doutrinas dos moralistas, nas confissões dos místicos, que ele chegara a descobrir, acompreender bem o fim último e verdadeiro de tudo, não só do homem moral, mas de toda a Natureza, mesmo na sua modalidade física. E essa descoberta é de inefável beleza e contentamento ‑ pois que o fim de tudo é o Bem! O Universo tem por fim osupremo Bem ‑ o Bem é o momento final e augusto de toda a evolução do Universo.
Possuía pois Antero, enfim, a "sua filosofia", essa filosofia que ele tantos anos perseguira como deusa esquiva entre selvas duvidosas. […] E a lei moral dessa filosofia […] consistia em renunciar a tudo quanto limita e escraviza o espírito ‑ egoísmo, paixões, vaidades, ambições, contingências, materialidades do mundo, ‑e em procurar a união do espírito, assim libertado e limpo de todo o pesado lodo terreno, com o seu tipo de perfeição que usualmente se chama "Deus".
Eça de Queirós, "Um Génio Que Era Um Santo",
in 
Notas Contemporâneas, pp. 273-274, Edição "Livros do Brasil"
          

   SUGESTÃO DE LEITURA:

à Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária de textos de Antero de Quental, por José Carreiro. In: Lusofonia – plataforma de apoio ao estudo da língua portuguesa no mundo, 2021 (3.ª edição) <https://sites.google.com/site/ciberlusofonia/PT/Lit-Acoriana/antero-de-quental>


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/06/13/a.virgem.santissima.aspx]

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