quarta-feira, 19 de setembro de 2012

TOU CO A PESTE, MEU AMO!... (Vitorino Nemésio)

        
            
Parecia que a febre tinha pele...
     
Vitorino Nemésio, Mau Tempo no CanalCapítulo XXII
     
       
Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infeção!
[…]
E eu sonho o Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados;
[…]
Cesário Verde, “O sentimento dum ocidental”
            

Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre
E a Cólera também andaram na cidade,
Que esta população, com um terror de lebre,
Fugiu da capital como da tempestade.
[…]
Porém, lá fora, à solta, exageradamente,
Enquanto acontecia essa calamidade,
Toda a vegetação, pletórica, potente,
Ganhava imenso com a enorme mortandade!
          
Cesário Verde, “Nós”
            
                             
      ..................................

               

MAU TEMPO NO CANAL | Vitorino Nemésio

      
Texto
      
Outra vez interessados pela sombra maciça do Canal, ficaram à janela espiando. Mas o silêncio de tudo - casa e tempo parecia ganhá-los para alguma coisa de profundo e de recessivo que diminuía pouco a pouco a vivacidade e o sentido das palavras trocadas, esgotando aquela expectativa a dois, como os sobreviventes de uma equipa polar que a neve invade e resigna. Roberto retomara o passeio sem fim no soalho velho, sugara o cachimbo apagado, desaparecera para os lados do seu quarto. Margarida, à luz do candeeiro americano, marcava o ritmo do petróleo com o pique da agulha no bordado. Uma pomba de filosel repetia o seu corpo esquemático e o seu raminho no bico ao largo de uma tira de pano riscada a papel químico.
Deu meia-noite... Deu uma hora... Os passos de Roberto descreveram a volta toda do fundo da casa deserta; um gemido remoto obrigou Margarida a abafar o ruído do papel de seda nos dedos e a apurar bem o ouvido. - O Manuel Bana, que acordava. Margarida atravessou o quarto da Mariana, desceu os degraus que davam para a adega.
A vivenda dos Clarks, conhecida pela Pedra da Burra, no sítio de Campo Raso, era a casa tradicional das vinhas queimadas do Pico. Um piso alto, com mirante na empena, flanqueava a adega funda e metida em casa. Em regra, seguia-se à adega uma cozinha com as paredes em osso. Mas o Sr. Roberto velho,british subject, sem alterar o castiço da arquitectura picarota, acumulara por trás e aos lados da adega os quartos e esconsos exigidos pelo crescimento da família e pelo seu amor ao conforto. Do todo resultara uma impressão de polipeiro, como se o capitão de um navio retido indefinidamente num porto estrangeiro e de alfândegas desconfiadas resolvesse reforçar os camarotes para a tripulação e reacomodar a carga. A adega, com o seu lagar profundo, a madre imensa, o peso de pedra chumbado à finura do fuso de rosca até ao tecto, e os vastos canteiros de pipas irremovíveis e de tamanhos descrentes, era o porão. Margarida atravessava sempre à noite aquela arca de bafio com uma sensação de mistério. A escada era fraca e parecia descer de um portaló. Ela apanhava a saia numa mão, empunhava uma vela na outra; o seu passo furtivo agitava os ratos na falsa. E as sombras das pipas e dos madeiros velhos dançavam na parede tracejada da conta de milhares de canadas de vinho, embebidas no tempo como numa esponja oculta.
- Então, Manuel... Sentes-te melhorzinho?
Responderam a Margarida dois olhos vermelhos e encovados. Roberto deu mais força ao candeeiro. Manuel Bana; inquieto e a arder em febre, gemia. Queixou-se da cabeça e das "cruzes"; queria andar. E, descendo o braço ao longo da pilha de cobertores, parou a mão a medo:
- O pior é o matulo... - E, para Roberto, em voz baixa, aproveitando o movimento de distracção voluntária que Margarida fizera em direcção ao avarandado interior que dava do quarto sobre a adega: - Aqui, meu amo; caise im riba das partes...
Margarida desabafou o bule pousado num tinote, e, enchendo de alto uma grande caneca vidrada, enquanto Roberto o amparava pelos ombros, deu-lhe a beber. Manuel Bana estava realmente trémulo. Parecia que a febre tinha pele e que, como um anelídeo invisível, se lhe enroscara aos tendões, ao peito, ao corpo todo. Por cima da maçã-de-adão, que subia e descia como um êmbolo, a borda do bigode molhava-lhe de chá forte os beiços secos.
- Im o sinhor dòtor chigando, a menina ajunte a sua roipinha e vaia e mais ele. Mandaro recado a minha irmã pró Capelo, como ê disse? Ela é que tem obrigação de ficar aqui a pé de mim. São doenças mum ruins...
- Qual! - disse Roberto. - Apanhaste um resfriamento, é o que foi... Uma madrugada daquelas, na subida do Pico... Não era de esperar outra coisa. Se não fosse o senhor Diogo teimar para teres a vaca descansada e mugi-la ao romper do Sol, nada disto acontecia...
- Tou co a peste, meu amo!...
               
Vitorino Nemésio, Mau Tempo no CanalCapítulo XXII – 4º Nocturno (Lento)
      
      


ANÁLISE DO EXCERTO DE MAU TEMPO NO CANAL
      
      
O excerto desenvolve-se em dois momentos distintos, cada um deles estando dependente da mudança da temporalidade e de espacialidade. Como elo entre estes dois momentos destacam-se duas personagens que percorrem os espaços e os tempos, unidas por uma preocupação: a doença de uma terceira personagem.
primeiro destes momentos é determinado pela utilização preferencial de dois modos de representação: a descrição e a narração. A ausência de diálogo é explicada logo no início:
«Mas silêncio de tudo casa tempo - parecia ganhá-los para alguma coisa de profundo de recessivo que diminuía pouco a pouco a vivacidade e o sentido das palavras trocadas, esgotando aquela expectativa a dois, como os sobreviventes de uma equipa polar que a neve invade resigna."
Deste pedaço ressalta um tempo e um espaço ilusórios, que transcendem as personagens, remetendo-as, através do silêncio, para um outro silêncio profundo onde elas (onde o Homem) encontra razão de existência na reflexão sobre a condição humana.
Mas de tempo e espaço «reais» nos dá conta este excerto. O espaço da permanência - «a vivenda dos Clarks, conhecida pela Pedra da Burra, no sítio de Campo Raso, era a casa tradicional das vinhas queimadas do Pico" - e um espaço de passagem, do para além de... - «a sombra maciça do Canal". ,
A descrição do espaço físico é pormenorizada, minuciosa, ultrapassando as características meramente materiais para invadir o afetivo e o psicológico: «Margarida atravessava sempre à noite aquela arca de bafio com uma sensação de mistério.»
Como é comum na escrita nemesiana surgem-nos variadas comparações, algumas delas enquadradas no momento descritivo: «Do todo resultara uma impressão de polipeiro, como se o capitão de um navio retido indefinidamente num porto estrangeiro..»; «E as sombras das pipas dos madeiros velhos dançavam na parede tracejada da conta de milhares de canadas de vinho, embebidas no tempo como numa esponja oculta.»
Neste espaço profundo (a adega funda, o lagar profundo) ressalta o tempo que, apesar de pontualizado (Deu meia-noite... Deu uma hora...) se assume como um tempo psicológico, face à situação que se vive. Notem-se expressões como «parecia ganhá-los para alguma coisa de profundo de recessivo», ou «esgotando aquela expectativa a dois como os sobreviventes de uma equipa polar que a neve invade resigna».
Nesta última frase sublinhou-se ainda uma comparação, recurso que, como vimos anteriormente, é utilizado frequentemente por Nemésio.
E deste primeiro momento resta-nos as personagens: vivendo um momento que os faz estar presos a uma terceira personagem que está ausente «de cena» neste passo do texto, mostram-se nervosas, inquietas, fechadas no espaço e no tempo. Deste tempo é deste espaço só conseguem fugir através da mente, da memória das coisas por viver e do altruísmo das pequenas coisas vividas.
Enquanto Roberto Clark apresenta a sua inquietude andando de um lado para o outro e sugando o cachimbo apagado, Margarida vai preenchendo o seu bordado, uma pomba de filosel, símbolo - quem sabe? - de liberdade, de voo, de esperança, embora fixa na tira de pano riscada a papel químico.
Finalmente, o som do pretexto de mudança de espaço: um gemido remoto - Manuel Bana acordava. Repare-se no adjetivo remoto, a lembrar que ele se encontrava num local que dista deste outro e que só é alcançado devido à passagem pelo interior de toda a vivenda dos Clark, que, como foi referido anteriormente, é descrita ao pormenor à medida que as personagens a atravessam.
E assim chegamos à adega, perto do doente Manuel Bana, e assim inicia o nosso segundo momento, pautado pela descrição e pelo diálogo. Quer num, quer noutro se realça a doença pela qual a personagem foi acometida: «Responderam a Margarida dois olhos vermelhos e encovados»; «…inquieto a arder em febre, gemia. Queixou-se da cabeça das 'cruzes'...»; «Manuel Bana estava realmente trémulo».
Também nesta descrição, Nemésio não foge à comparação como recurso para melhor determinar os factos que quer sublinhar. Repare-se: «Parecia que a febre tinha pele... »; «Por cima da maçã-de-adão, que subia descia como um êmbolo...»
No diálogo destacaremos também dois momentos distintos: um, reporta-se à conversa normal entre Margarida e Manuel Bana ou Roberto e Manuel Bana. No entanto, um excerto da conversa entre as personagens masculinas não é ouvido pela personagem feminina, o que prova que, além do respeito que poderia parecer lógico entre a patroa e criado, um estatuto da mulher que a remete para o tabu de certos assuntos: «pior é o matulo... Aqui, meu amo; caise im riba das partes...»
Deste modo, fica-nos também a perícia com que Nemésio maneja o falar açoriano, bem dele conhecido, por experiência vivida. Efetivamente, da boca de Manuel Bana só pode sair a linguagem que conhece, do povo, e com a pronúncia que é característica do açoriano. Esta utilização marca, portanto, o estatuto social, visto que nem Roberto nem Margarida, embora vivendo no mesmo espaço mostram a cultura erudita a que tiveram acesso pelo seu nível social e económico.
A parte final do diálogo é marcada pelas frases reticentes utilizadas por Roberto Clark, provavelmente a denotar uma certa ambiguidade e a vontade de esconder a evidência ao empregado da família. Mas como sabemos da vida real, comprova-se que o doente é habitualmente lúcido da doença que o mina e, por conseguinte, e espantosamente, o excerto termina com a revelação da doença «Tou co a peste, meu amo...», pronunciada por Manuel Bana, por contraste com a indecisão que se tinha verificado latente em Roberto Clark.
      
Maria da Conceição Coelho e Maria Teresa Azinheira, Apontamentos Europa-América explicam Vitorino Nemésio – Mau Tempo no Canal, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1995.
       


       
SUGESTÃO
      





http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/09/19/Manuel.Bana.aspx]
[Post original: 

terça-feira, 18 de setembro de 2012

CÂNDIA FUROA (Vitorino Nemésio)

          
          
Toca-se as grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de "dom"!
         
Cesário Verde, O sentimento dum ocidental
       
                       
                         

                            
           
MAU TEMPO NO CANAL | Vitorino Nemésio
          
Texto
                  
Os olhos da Cândia Furoa estavam rasos de lágrimas. Limpou a um trapo a blusa e a saia de Margarida, que lhe passou, comovida, a mão pelo cabelo.
Mas, arrumado o incidente daquele primeiro amor, que parecia teimar no fundo da rapariga como brasa em borralho, foi quase com orgulho que a Cândia Furoa explicou a origem dos seus quatro filhos e a sua situação social no povo da Urzelina e das Velas. A Liberdade era filha de um fiscal dos impostos, um prosa que chegara do continente e fora corrido da ilha por escarnecer da religião e não pagar a quem devia. Tinha oito anos; estava no Asilo há dois. Se não fosse o poder do barão e a caridade da senhora baronesa, não a tinham aceitado lá com aquela idade.
Abaixo da Liberdade era o Simão, filho do Dr. Feraústo. Esse sim! Era do Registo Civil; tratava-a muito bem. Aquela malandragem das Velas dizia: "Ele faz(i)-os e baptiza-os!" Deixá-los dizer... Pôs-lhe casa na Fajãzinha; enchia-a de tudo quanto havia. Dos melhores padrões de chitas que chegavam no vapor à loja do Sr. Francisquinho, era logo: "Corte lá um vistido prà Cândia!" E uns sapatos de cordovão... Um xaile de merino... Mas tinha sido mandado chamar pelo Governo; o pai estava na costa de África por ter matado um cunhado:
- Quistã de partilhas... Olhe a sinhóra: ainda me mandou vinte mel-réis! A indirecção era: "Inlustríssemo Senhor Doutor Oscre Fraústo, Dingníssemo Ofecial do Cevil, Paredes de Coira"... Nunca mais m'iscreveu! A gente só vem a este mũindo pra penar...
Enfim: ali estava a Vitória, à porta do frontal, em camisinha, com o ranho a cair. Essa era filha do padre Picanço, um servo de Cristo de fora da terra, que o senhor deão mandara para não envergonhar os padres velhos e sérios da ilha. Parece que não lhe chegara a tirar a esmola da missa, com dó dele... Era a afilhada da Srª Domitília Rezisto, a criada grave de casa do senhor barão. E o menino, o indês, era Joaquim. Era o filho do guarda-fiscal:
- As más-línguas inté pusérum a boca no senhor Andrezinho... Tal aleive! O filho do senhor barão!... Credo Dês me livre!
             
Vitorino Nemésio, Mau Tempo no CanalCapítulo XXXIII – Canção de Embalar
       
       
             

                   
ANÁLISE DO EXCERTO DE MAU TEMPO NO CANAL
       
[Cândia Furoa]
       
Eis um excerto, onde uma figura feminina é retratada sob o olhar profundamente humano com que Vitorino Nemésio se debruça sobre toda a gente, mas talvez em particular sobre aqueles que, de uma forma ou de outra, são subjugados por uma sociedade impiedosa, fechada, que não permite caminhos escolhidos por cada um. Neste caso, com efeito, é Cândia Furoa «escanzelada, […] e torta do grande cesto de roupa encostado à vazia, com as mãos gretadas do frio da água da potassa do sabão», em quem «só lume dos olhos vivos atrevidos […] falavam de uma mocidade desperdiçada·e teimosa».
Lendo, portanto, o texto acima transcrito, sente-se que o autor não formula juízos de valor sobre a rapariga, como se, mesmo assim, a absolvesse implicitamente dos «pecados» que levam a sociedade a desprezá-la. E de um ser humano que, aos baldões, consoante o homem que lhe aparece, Nemésio fala, retratando-a como uma mulher digna, apesar dos «maus passos». E isto leva-nos a pensar que há no coração e no cérebro de Vitorino Nemésio um profundo respeito pela sua gente, pela mulher em especial, mesmo aquela que os outros consideram a mais degradada. De resto, analisemos a galeria dos amantes da Furoa: um fiscal de impostos, «um prosa... que fora corrido da ilha por escarnecer da religião e não pagar a quem devia»; um doutor do Registo Civil, «Esse sim!... tratava-a muito bem»; um padre sem préstimos, «que Sr. Deão mandara embora para não envergonhar os padres velhos e sérios da ilha»; um guarda-fiscal que a Cândia não chega a caracterizar, mas sabemos ser o pai do bebé que encantara Margarida quando o vira, o tal Joaquim que «as más-línguas inté puseram a boca no Sr. Andrezinho...»
Neste conjunto, repare-se que o autor indicou os principais agentes da «colonização» dos Açores feita pelo Continente. E aí fica a sua forma de pensar sobre as Ilhas que, suspeitas à colonização real de flamengos, ingleses e portugueses, continuam a ser subjugados por «colonizações» particulares, de que uma vítima bem visível é esta pobre mulher de São Jorge, uma serva do barão da Urzelina. É que nobres e burgueses não sentem verdadeiramente nenhuma colonização, pois têm interesses de classe que os colocam fora da alçada do Continente, no entanto, envia para as ilhas os seus fiscais e conservadores do Registo Civil, funcionalismo que, sendo na maior parte das vezes sozinho, procuram a fêmea onde ela estiver à mão... E é sempre o povo quem paga a opressão, quer externa, quer interna.
Analisando esta prosa escorreita, embora nem sempre fácil, encontramos bem destacados dois tipos de discurso no texto que vimos observando: a narração e a descrição; modos de representação que constituem o discurso do narrador omnisciente entrelaçados· com o discurso indireto livre com que Cândia informa, com ternura e uma certa dignidade, a interlocutora da origem dos filhos e do homem que mais a encantou, o Dr. «Feraústo» «[…] uns sapatos de cordovão... um xaile de merino…»; o discurso direto irrompe também desta contadora de «estória», numa linguagem «vivida», sem enfeites, resultado de nesciência ingénua e da própria fonética da ilha: quistã, sinhóra, muindo a par de "inlustrissemo», «indirecção», «Rezisto Cevil».
No meio do acervo de informações que Cândia Furoa fornece a Margarida (testemunha calada), parece espelhar-se a necessidade de contar, de falar, de explicar uma alma que vive dentro de um corpo estragado, mas que teima em sobreviver num registo de resignação feito voz em «A gente só vem a este muindo pra penar...»
Por último, note-se a dignidade da personagem que parece saber medir distâncias mesmo em coisas do sexo: «Tal aleive! […] Credo, Dês me livre!» Afinal, esta mulher, que é do homem que lhe calha, reconhece que  por má-língua se pode falar do filho do senhor barão; e é, afinal, ainda a sua vontade que aqui prevalece, conferindo-lhe a tal dignidade de que Nemésio se faz arauto ‑ «Dês me livre!»
       
Maria da Conceição Coelho e Maria Teresa Azinheira, Apontamentos Europa-América explicam Vitorino Nemésio – Mau Tempo no Canal, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1995.
       
       
   

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/09/18/Candia.Furoa.aspx]

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A SERPENTE CEGA (Victor Rui Dores/Vitorino Nemésio)

Detalhe de Cleópatra, por giampietrino ~ Ca. 1526
galeria de arte da Universidade de bucknell, lewisburg, Pensilvânia




          
SERPENTE CEGA

Ondas do mar
Sepultei a serpente cega
À luz do luar
Levai a flor do sentir

Ondas do mar
Gaivota voando a lembrança
Anel de sonhar
A teia desta vida mansa

Serpente do pranto salgado
Nos abismos fundos do mar
Vai naufragar
O meu viver, cinzas do mar
Sonho que acabou
No meu olhar

Serpente do amor secreto
Trancado na prisão de mim
Raiz de ser
Barco no cais
Não há de haver mais
Amor assim
          
Victor Rui Dores




         
MAU TEMPO NO CANAL | Vitorino Nemésio
     
    
Texto
         
Na linha do horizonte, Angra ficara pouco a pouco reduzida a uma fiada de luzes rasas, que mal se via. A meio do avarandado, por trás dos inúteis volantes do leme, prendeu-lhe a atenção um mostradorzinho metálico e giratório, preso a uma corda tensa e oblíqua à superfície do mar. Era o conta-milhas. A agulha marcava apenas por enquanto uns cinco ou seis mil metros; e Margarida, sem nenhum pensamento preciso, pegou maquinalmente na corda. Aquele seu gesto parecia travar a torção da barquinha que, por um sábio mecanismo, pulsando lá muito ao longe, tirava às águas revoltas o segredo da distância. Mas, largando-se a corda, o calmo corropio de há pouco recobrava o seu ritmo estrangulado. Depois, progressivamente, acalmava-se, e o San Miguel parecia só então retomar a sua rota de peixe que se desloca procurando por instinto a densidade e o calor das águas que lhe convêm. Repetindo aquela experiência, Margarida foi naturalmente levada a olhar para a sua própria mão, que parecia entretida com um boneco de corda ou a corrigir um rumo. E viu o seu querido anel, a serpente de ouro e esmeraldas que herdara directamente da avó Margarida Terra, sem chegar a passar pelo dedo da mãe. Perdera há muitos anos uma das esmeraldas que serviam de olhos ao bicho; com o anel assim mutilado falara de um muro a João Garcia, deixara-lho ver na mão abandonada e alta, sentado na banqueta da quinta numa noite de temporal, depois de ter consentido que ele lhe tocasse no cabelo e examinasse a cicatriz do grande trambolhão da sua infância. E Margarida sorriu amargamente, riu com os nervos todos. Sim... João Garcia não chegara a entrar no Seminário, como o poeta Pragana. Ela, sim! Ela é que tinha tonsura, e uma castidade astral, de serpe cega, esmagada no dedo por uma maculada conceição! Por isso a mãe dizia às pessoas que davam por aquela mossa indelével, asua "pancada de veneta": "Vê?... Ficou assinalada!
Com o anel no mesmo estado conversava vezes sem conta com o tio Roberto no torreão da Poça. Uma tarde, ele dissera, sempre calmo e enigmático, pegando-lhe nas pontas dos dedos: "Essa tua serpente é um segundo Camões!" Depois, já perto de casar, o barão da Urzelina, chegando à Horta para fazer o pedido oficial à família (pedir ao pai a mão que ali estava na corda...), lamentara que jóia tão bonita estivesse assim desvalorizada. E, como Margarida se recusasse a mandar consertá-la, André teve artes de lha pedir por uns tempos para servir de modelo a um anel que uma amiga de Clarinha encomendara no Porto. Veio de lá com duas esmeraldas novas e com a pedrinha antiga sepulta num pouco de algodão, no estojo dopendantif de rubis e brilhantes, presente de núpcias dos sogros. Margarida tivera um desgosto tão grande que levara a chorar dias e dias... E agora, vendo as esmeraldas bicudas e trabalhadas à lupa na cabeça da serpente, enroscada ali no seu dedo como se o bicho bífido enbugalhasse os olhos, Margarida abriu desmedidamente os seus, e, abanando três vezes a cabeça, calçando e descalçando um dos sapatos com a flexão sinuosa e rápida do próprio pé, tomou-se de um furor irreprimível, cheio de rubor e de lágrimas. Carregou com brutalidade o anel contra a trança da corda e fez-lhe saltar sucessiva e inexoravelmente as duas pedras. Depois, tomada de um terror supersticioso e sem saber como explicar aos sogros e ao marido o triste estado da jóia, separou-a cuidadosamente da sua aliança de casamento com os dedos da outra mão. E, considerando um segundo a espuma que saía das hélices daquela serpe enroscada e mesquinha como uma minhoca seca, atirou o anel ao mar.
Com o olhar ainda preso à esteira do navio, Margarida sentiu uma mão suave no ombro e teve um pequeno sobressalto.
- Estavas aqui, minha filha?... Tenho-te procurado por toda a parte... Dei a volta ao navio. São horas de descansar... Vê?... como tens esses olhos pisados! Foi daquele espectáculo do toureiro... São saudades da Horta?... Fala! Não queres descer?...
Margarida deixou-se beijar na testa e disse baixinho:
- Pois sim... Vamos, André! Dá-me o braço...
André pegou-lhe carinhosamente na mão esquerda; e, fazendo rodar com ternura a aliança de casamento, disse, muito espantado:
- Quê?! Perdeste o anel?...
- Estava debruçada na borda e, distraidamente, tirei-o do dedo... Caiu ao mar.
André beijou-a de novo:
- Não te aflijas... Manda-se fazer outro.
E, pegando-lhe no braço, como quem leva um doente, os passos desiguais de ambos, a caminho do camarote, soavam pausadamente nos degraus impermeáveis e percintados de metal.
Enquanto Margarida se deitava, André foi ao camarote dos pais dar-lhes a boa-noite; e, com a ideia fixa no desgosto de sua mulher, não se pôde conter que lhes não desse a novidade. Depois, voltando ao seu camarote, cerrou mais a cortina do beliche inferior, da mulher, supondo-a adormecida e para se despir com recato, trepou ao beliche de cima e apagou a luz mais forte.
              
Vitorino Nemésio, Mau Tempo no CanalCapítulo XXXVII – Epílogo (Andante; Poi Allegro, Non Troppo)





"A morte de Cleópatra" (pormenor), Giampietrino (1500)
       
                               

ANÁLISE DO EXCERTO DE MAU TEMPO NO CANAL
                
         
[A serpente cega]
         
No excerto transcrito movimentam-se duas personagens - Margarida e André - recém-casados em viagem de núpcias no paquete San Miguel. É, no entanto, a personagem feminina que preenche todo o texto, pois o narrador segue-lhe os passos, os gestos e as atitudes.
Tratando-se de um barco, o espaço onde decorre a ação apresenta-se em movimento. Não é ele, aliás, determinante para o desenrolar da intriga mas tudo o que está para além dele. «Na linha do horizonte, Angra ficara pouco a pouco reduzida a uma fiada de luzes rosas, que mal se via.»
É convicção de que esta viagem seria para Margarida a libertação de um espaço que a pressiona, fechado e sufocante, imbuído de uma mentalidade «pequena» e retrógrada, pautada pelo conservadorismo. A consciência, por parte da personagem, da impossibilidade de fuga suscita esta parte do epílogo onde se valoriza um objeto, o anel em forma de serpente com duas esmeraldas. Trata-se de um objeto elevado à categoria de símbolo, objeto esse que surge logo no início da obra, insinuado até no título do Capítulo I - A Serpente Cega.
Ainda nesse capítulo podemos encontrar várias alusões à dita serpente:«Margarida, agora entretida a rolar a serpente do anel...»; «Queres ver o anel?... É uma serpente. João Garcia procurava a cabeça da serpente com o polegar comovido nos dedos de Margarida. Os olhos são verdes... Não vês, não; falta-lhe uma esmeralda...»
Neste excerto que é alvo de análise retoma-se a informação e faz-se a ligação ao Capítulo I: «Perdera há muitos anos uma das esmeraldas que serviam.de olhos ao bicho; com anel assim mutilado falara de um muro a João Garcia, deixara-lhe ver na mão abandonada alta, sentado na banqueta da quinta numa ,noite de temporal...»
O anel de serpente provoca uma catadupa de memória. Com efeito, para além desta recordação relacionada com João Garcia, surge também a lembrança do tio Roberto Clark («Com o anel no mesmo estado conversava vezes sem conta com tio Roberto no torreão da Poça.» [...] «Essa tua serpente é um segundo Camões!») e, por último, a da sua ligação com André: «Veio de lá com duas esmeraldas novas com a pedrinha antiga sepulta num pouco de algodão, no estojo do pendantif de rubis e brilhantes, presente de núpcias dos sogros.»
Por fim, a memória de um passado próximo, anterior ao seu casamento e a esta viagem: «Margarida tivera um desgosto tão grande, que levara a chorar dias dias...»
O desfiar destas memórias culmina na situação atual de Margarida, debruçada no varandim do navio em confronto com o seu próprio presente e as suas aspirações passadas assim organizadas no conserto de uma jóia. O anel fá-la confrontar-se com um sonho perdido, com a sua espontaneidade mal interpretada, com, enfim, uma «viagem» sem rumo definido. Essa «viagem» pessoal é equiparada, aliás, à viagem física que a personagem realiza - viagem essa que nunca chega ao fim, que não passa de uma passagem onde se dá conta dos objetivos perdidos.
Daí o gesto simbólico de Margarida: «E, considerando um segundo a espuma que saía das hélices daquela serpe enroscada mesquinha como uma minhoca seca, atirouanel ao mar.»
Note-se a comparação depreciativa utilizada pelo autor para desmistificar a magia daquele objeto - como uma minhoca seca é a ausência de vida e de mito, base de um tempo irreversível e sem esperança que é, por extensão, o tempo da vivência da personagem. Neste contexto, é de assinalar a forma como André remedeia a perda da jóia, aventando a hipótese de comprar outra. A André falta a sensibilidade para descobrir na mulher a feminilidade vexada e impotente para se assumir numa sociedade machista e castradora. A materialidade da sua resposta é antagónica ao sentir de Margarida, o que se reflete na sua relação - «E, pegando-lhe no braço, como quem leva um doente, os passos desiguais de ambos...»
Esta relação entre as duas personagens é supostamente pacífica, mas bem elucidativa de um modo de estar e de um modo de ser genéricos. André cumpre o seu dever de marido afetuoso cioso do seu estatuto, assim como os pais, embora de outra geração, cumprem o que é suposto socialmente cumprir. Repare-se como André, antes de se deitar, vai cumprimentar os pais e, de volta, «supondo-a adormecida para se despir com recato, trepou ao beliche de cima apagou a luz mais forte!».
No excerto de texto final que se segue a este podemos verificar que um relacionamento idêntico acontece entre o barão da Urzelina e a mulher:
«-Já dormes, Angélica?
»-Não. Ainda estou a rezar... Faltam-me só dez avé-marias para acabar meu terço. Não te prendas comigo!»
E é mesmo no momento final do livro que entendemos a simbologia da serpente cega. Afinal, agora, estendida no camarote, no meio de uma viagem que é, ao fim e ao cabo, um círculo vicioso, donde se quer sair e onde sempre se regressa, é Margarida que se sente cega, perdida numa escuridão onde nenhum pedaço de luz se vislumbra.
Esta circularidade comprova uma certa derrota e frustração da personagem feminina, a quem o sogro apelida de «levantada», pelo seu comportamento fora dos parâmetros que a sociedade açoriana achava próprios de uma mulher.
Num universo assim fechado e tendo, por razões exteriores a ela, perdido as hipóteses de fugir às regras sociais que a oprimem, nada mais resta a Margarida que permanecer cega e, quem sabe?, entregar-se nas «águas» turvas desse universo que não é possível evitar e muito menos combater.
         
Maria da Conceição Coelho e Maria Teresa Azinheira, Apontamentos Europa-América explicam Vitorino Nemésio – Mau Tempo no Canal, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1995.


Bracelete dourada representando cobra de duas cabeças com olhos de vidro 
segurando um medalhão da deusa Diana. Pompeia, séc. I
         
    
  SUGESTÕES DE LEITURA

      

Apresentação crítica, seleção, notas e linhas de leitura de textos de Vitorino Nemésio


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/09/17/serpente.cega.aspx]