sexta-feira, 28 de setembro de 2012

MORS LIBERATRIX (Antero de Quental)

  ANTERO DE QUENTAL
        
        
MORS LIBERATRIX1

Na tua mão, sombrio cavaleiro,
Cavaleiro vestido de armas pretas,
Brilha uma espada feita de cometas,
Que rasga a escuridão, como um luzeiro2.

Caminhas no teu curso aventureiro,
Todo envolto na noite que projectas...
Só o gládio3 de luz com fulvas betas
4Emerge do sinistro nevoeiro.

- «Se esta espada que empunho é coruscante5,
(Responde o negro cavaleiro-andante)
É porque esta é a espada da Verdade.

Firo mas salvo... Prostro6 e desbarato7,
Mas consolo... Subverto8, mas resgato...
E, sendo a Morte, sou a Liberdade.»
          
Antero de Quental
        
_________________
MORS LIBERATRIX (expressão latina): Morte Libertadora.
2 luzeiro: objeto que dá luz; clarão.
3 gládio: espada.
4 fuIvas betas: raios dourados.
5 coruscante: fulgurante; brilhante.
6 Prostro: lanço por terra; derrubo.
7 desbarato: faço dispersar; derroto.
8 Subverto: altero completamente (características, ideias ou valores).
        
        
El caballero de la muerte, Salvador Dalí



       
QUESTIONÁRIO INTERPRETATIVO
       
1. Há, neste soneto, dois sujeitos de enunciação, situando-se a mensagem de cada um deles numa das duas partes do poema. Delimite cada uma das duas partes, identificando o sujeito de enunciação de cada uma delas.
2. Na primeira parte do texto, o «sombrio cavaleiro» é-nos apresentado já como uma figura dupla, com duas facetas.
2.1. Transcreva duas expressões que o apresentam como figura escura e medonha.
2.2. Transcreva também três versos (ainda da primeira parte) que sugiram que algo de luminoso e de bom poderá surgir deste «sombrio cavaleiro».
3. Na segunda parte do poema é o próprio cavaleiro que revela a sua face positiva, partindo de uma expressão sinónima de outra que, já na primeira parte, sugere que dele poderá partir algo de luminoso. Transcreva essa expressão da segunda parte.
3.1 Transcreva também a expressão que, na primeira parte, sendo sinónima da que acabou de transcrever, sugere a mesma coisa.
4. «Este poema defende a legitimidade da revolução, tal como os poemas das Odes ModernasJustifique esta afirmação.
       
António Afonso Borregana, Antero de Quental. O Texto Em Análise - Ensino Secundário, Lisboa, Texto Editora, 1998
       
       


COMENTÁRIO DE TEXTO
        
Elabore um comentário do texto que integre o tratamento dos seguintes tópicos:

- estruturação do poema em partes lógicas;

- importância da oposição luz / sombra;

- aspetos formais e recursos estilísticos relevantes;

- valor simbólico do «negro cavaleiro-andante».


Cavaleiro da Morte, Salvador Dalí



        
EXPLICITAÇÃO DE CENÁRIOS DE RESPOSTA
        
Estruturação do poema em partes lógicas

A encenação de uma situação de diálogo (pergunta-resposta) entre o «eu» e o «cavaleiro» (figura especular do sujeito) transparece na forma como se estrutura o texto. Assim, este organiza-se em duas partes lógicas:
- duas quadras: o momento em que o sujeito interpela o cavaleiro e procede à sua caracterização, descrevendo os seus atributos e dando conta da sua caminhada na noite;
- dois tercetos: a resposta do «tu» à pergunta implícita do «eu», esclarecendo a sua função enquanto «cavaleiro-andante», bem como a razão de ser da luminosidade da espada que empunha.
       
Importância da oposição luz sombra

A oposição luz/ sombra marca todo o soneto, funcionando como uma caracterização da figura do cavaleiro e do seu emblema por excelência - a espada. As palavras e expressões que caracterizam a espada empunhada pelo cavaleiro sublinham a luminosidade («Brilha», «cometas», «rasga a escuridão», «Iuzeiro», «luz», «fulvas betas», «coruscante»), ao passo que as que contribuem para a definição da figura daquele acentuam o seu carácter noturno («sombrio cavaleiro», «armas pretas», «escuridão», «envolto na noite que projectas», «sinistro nevoeiro», «negro cavaleiro-andante»). Todos estes sentidos são retomados na oposição presente no último verso e no título: «Morte» / «Liberdade».
       
Aspetos formais e recursos estilísticos relevantes

Relativamente aos recursos estilísticos, destacam-se, entre outros, os seguintes:
- imagem alegórica do «cavaleiro-andante», representando simbolicamente a «Morte» e a «Liberdade»;
- comparação («Que rasga a escuridão, como um luzeiro» - v. 4), salientando a luminosidade que provém da «espada»;
- metáfora («sinistro nevoeiro» - v. 8), conotando o carácter misterioso e ameaçador da «noite»;
- adjetivação profusa, servindo a caracterização do cavaleiro, da sua espada emblemática, e a recriação cénica do ambiente;
- antíteses («Firo»/«salvo»; «Prostro e desbarato»/«consolo»; «Subverto»/«resgato»), revelando a natureza paradoxal do cavaleiro (a qual atinge o seu ponto culminante no oxímoro «E, sendo a
Morte, sou a Liberdade.» - v. 14);
- …
       
Quanto aos aspetos formais, salienta-se:
- estrutura de soneto;
- verso decassílabo;
- esquema rimático abba (nas quadras) e ccd/eed (nos tercetos);
- …
       
Nota - Para a atribuição da totalidade da cotação referente ao conteúdo deste tópico do comentário, é considerada suficiente a apresentação de quatro elementos, englobando obrigatoriamente recursos estilísticos e aspetos formais.
       

Valor simbólico do «negro cavaleiro-andante»

Simbolicamente, o «negro cavaleiro-andante» representa:
- uma figura de carácter dual e paradoxal, simultaneamente de conotação positiva («Verdade» e «Liberdade») e de conotação negativa («Morte»);
- o processo de busca do conhecimento e do bem, personificado pelo «cavaleiro-andante» que, sendo detentor do «gládio de luz»/«espada da Verdade», prossegue o seu «curso aventureiro», dando cumprimento à sua missão libertadora;
- o carácter ambivalente e doloroso do processo de conquista e de afirmação de um ideal;
- …
       
Exame Nacional do Ensino Secundário nº 138. Prova Escrita de Português A, 12º Ano 
(plano curricular correspondente ao Dec.-Lei nº 286/89, de 29 de Agosto)
Curso Geral – Agrupamento 4. 2002, 2ª fase
       

        

        
SUGESTÕES DE LEITURA
        


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/09/28/MORS.LIBERATRIX.aspx]

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

VELUT UMBRA (Antero de Quental)


    



          
          
VELUT UMBRA1

Fumo e cismo. Os castelos do horizonte
Erguem-se, 
à tarde, e crescem, de mil cores,
E ora espalham no céu vivos ardores,
Ora fumam, vulcões de estranho monte...

Depois, que formas vagas vêm defronte,
Que parecem sonhar loucos amores?
Almas que vão, por entre luz e horrores,
Passando a barca desse aéreo Aqueronte2

Apago o meu charuto quando apagas
Teu facho, oh sol... ficamos todos sós...
É nesta solidão que me consumo!

Oh nuvens do Ocidente, oh cousas vagas,
Bem vos entendo a cor, pois, como a vós,
Beleza e altura se me vão em fumo!
          
1863
Antero de Quental, Primaveras Românticas
          
__________________
VELUT UMBRA (expressão latina): como sombra.
Aqueronte: rio que as almas devem atravessar para chegarem ao reino dos mortos (mitologia grega).
          

          
COMENTÁRIO DE TEXTO
          
Elabore um comentário do poema que integre o tratamento dos seguintes tópicos:
- estruturação do texto em partes lógicas;
- marcas de subjetividade presentes na descrição do «céu»;
- recursos estilísticos e aspetos formais significativos;
- caracterização do estado de espírito do sujeito poético.
          
          
EXPLICITAÇÃO DE CENÁRIOS DE RESPOSTA
          
Estruturação do texto em partes lógicas

O poema pode estruturar-se em duas partes lógicas.
Na primeira, constituída pelas duas quadras, é descrito o espetáculo de cor e de movimento das nuvens num céu de poente, contemplado pelo sujeito poético que, fumando e cismando, nele projeta o seu mundo interior.
Na segunda, formada pelos dois tercetos, regista-se o apagar do charuto, em simultâneo com o desaparecer do «sol», e o comentário do «eu», que se entrega à solidão, assinalando a identificação entre os seus sonhos e a beleza do crepúsculo, pois ambos desaparecem, esfumando-se.
          
Nota - É admissível uma outra divisão do texto, desde que devidamente fundamentada.

          
Marcas de subjetividade presentes na descrição do «céu»

O céu é descrito segundo a perspetiva do sujeito poético que o contempla, cismando.
Na primeira quadra, as metáforas «castelos do horizonte» e «vulcões de estranho monte» evidenciam o carácter fantasmagórico que as formas das nuvens adquirem aos olhos do sujeito.
Na segunda quadra, a subjetividade acentua-se, pois as «formas vagas» que o «eu» contempla representam-se como materializações de sonhos de «loucos amores» e da própria morte.
Na verdade, à medida que a luz solar se desvanece, intensifica-se a perceção fantasmagórica e insinua-se uma visão negativa da realidade: o céu torna-se a imagem do rio («aéreo Aqueronte») por onde se efetua a travessia das «Almas» até ao reino dos mortos, «por entre luz e horrores». Em síntese, a descrição do céu constitui uma projeção dos desejos e medos mais profundos do «eu».

          
Recursos estilísticos e aspetos formais significativos

De entre os recursos estilísticos presentes no texto, destacam-se os seguintes:
- a homonímia entre a primeira e a última palavra do poema, produzindo um efeito de aparente circularidade que representa a própria situação do sujeito poético, partilhado entre o sonho e a realidade;
- as metáforas («castelos», «vulcões de estranho monte») e a acumulação de formas verbais («Erguem-se», «crescem», «espalham», «fumam», «vêm», «parecem sonhar», «vão», «passando»), descrevendo o céu, e dando conta do espetáculo das nuvens em movimento;
- a interrogação retórica (vv. 5-6), insinuando uma inquietação que anuncia a transição para um estado de espírito disfórico;
- as apóstrofes, conjugadas com a personificação («oh sol», «Oh nuvens do Ocidente, oh cousas vagas» - vv. 10 e 12), criando um efeito dialógico que aproxima o sujeito dos seus interlocutores imaginários, com os quais se identifica;
- …
          
Quanto aos aspetos formais significativos, salientam-se:
- a utilização da forma clássica do soneto, com versos decassílabos, rimas emparelhadas e interpoladas nas quadras (abba abba) e interpoladas nos tercetos (cde cde);
- o recurso a cesuras, marcadas em alguns versos (nomeadamente vv. 1 e 10), instaurando uma oscilação melódica (que reflete a inquietação íntima do «eu»);
- …
          
Nota - Para a atribuição da totalidade da cotação referente ao conteúdo deste tópico do comentário, é considerada suficiente a apresentação de quatro aspetos (estilísticos e/ou formais).

          
Caracterização do estado de espírito do sujeito poético

Entregue ao devaneio, o sujeito contempla, primeiro como que encantado, depois com progressiva inquietação, o espetáculo das nuvens.
Ao apagar o charuto, o «eu» anuncia o fim do seu devaneio, estabelecendo implicitamente uma relação entre este e a luz do Sol ao crepúsculo. A personificação do Sol - que apaga o seu «facho» - salienta a influência da luz crepuscular no estado de espírito do sujeito poético. Na ausência dessa luz, o «eu» entrega-se a um profundo sentimento de solidão, que é o da própria condição humana («ficamos todos sós» - v. 10), sentimento esse que o conduz à consciência infeliz de si mesmo («É nesta solidão que me consumo!» - v. 11).
De facto, tanto as formas etéreas das nuvens como o esfumar das mesmas, quando o «sol» desaparece no horizonte, constituem imagens do próprio sujeito que vive entre um sentimento exaltante de «Beleza e altura» e um estado de abatimento e de solidão.
          
Exame Nacional do Ensino Secundário nº 138. Prova Escrita de Português A, 12º Ano (plano curricular correspondente ao Dec.-Lei nº 286/89, de 29 de Agosto)Curso Geral – Agrupamento 4. 2000, 1ª fase, 2ª chamada.
          
        
        

SUGESTÕES DE LEITURA
        
 Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária de textos de Antero de Quental, por José Carreiro. In: Lusofonia – plataforma de apoio ao estudo da língua portuguesa no mundo, 2021 (3.ª edição) <https://sites.google.com/site/ciberlusofonia/PT/Lit-Acoriana/antero-de-quental>


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/09/27/VELUT.UMBRA.aspx]

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

ADORNOU O MEU QUARTO A FLOR DO CARDO (Antero de Quental)


  flor de cardo
             

             
VISITA

Adornou o meu quarto a flor do cardo,
Perfumei-o de almíscar1 recendente2;
Vesti-me com a púrpura3 fulgente4,
Ensaiando meus cantos, como um bardo5;

Ungi as mãos e a face com o nardo6 
Crescido nos jardins do Oriente,
A receber com pompa, dignamente,
Misteriosa visita a quem aguardo.

Mas que filha de reis, que anjo ou que fada
Era essa que assim a mim descia,
Do meu casebre à húmida pousada?...

Nem princesas, nem fadas. Era, flor,
Era a tua lembrança que batia
Às portas de ouro e luz do meu amor!

            
Antero de Quental
                 

___________________
1 Almíscar: substância utilizada em perfumaria.
2 Recendente: aromático.
3 Púrpura: cor vermelho-escura; veste régia com essa cor.
4 Fulgente: resplandecente.
5 Bardo: poeta trovador.
6 Nardo: óleo perfumado, feito de flores, citado 24 vezes na Bíblia (foi precisamente com um perfume de nardo que Maria Madalena ungiu os pés de Cristo). Até hoje é usado por perfumistas.




LINHAS DE LEITURA
           
Elabore um comentário do poema que integre o tratamento dos seguintes tópicos:
- divisão do texto nas suas partes lógicas;
- modos de caracterização do “eu”;
- recursos estilísticos relevantes;
- sentido da “misteriosa visita”.
           
           
EXPLICITAÇÃO DE CENÁRIOS DE RESPOSTA
           
Divisão do texto nas suas partes lógicas
O soneto divide-se em três partes:
- a primeira, constituída pelas duas quadras, consiste num discurso narrativo sobre o ritual de preparação do sujeito poético para receber condignamente a “visita”;
- a segunda, formada pelo primeiro terceto, corresponde a uma pausa reflexiva (marcada pelo uso da adversativa no início da estrofe e pela interrogação), revelando-se nela a qualidade disfórica do espaço e do “eu”.
- a terceira, constituída pelo segundo terceto, é a chave do soneto, que apresenta a situação referida, na 1ª e na 2ª quadras, como a metaforização do mundo interior do sujeito transfigurado pela lembrança da amada.
           
Modos de caracterização do “eu”
O sujeito lírico surge caracterizado como:
-uma figura que se apropria simbolicamente de atributos de rei e de bardo, associando-os a um cenário de exotismo oriental. Assim, prepara-se ‑ vestindo-se "com a púrpura fulgente" (v.3), "Ensaiando" os seus "cantos, como um bardo" (v.4), e ungindo "as mãos e a face com o nardo/Crescido nos jardins do Oriente" (vv. 5-6) ‑ e prepara o espaço envolvente para receber "com pompa" real uma "Misteriosa visita" (vv. 7-8);
- alguém cuja memória torna que presente a amada.
           
O sujeito é ainda caracterizado através das seguintes representações metafóricas:
- o "quarto" adornado e perfumado, metáfora do mundo interior do sujeito transfigurado pela "lembrança" da amada;
- o "casebre" e a "húmida pousada", expressando a consciência decetiva que o sujeito tem da sua solidão;
- as "portas de ouro e luz", imagem da nobreza e da plenitude do sentimento amoroso que, acordado pela memória da amada, adquire um valor transformador e iluminante da dimensão íntima do sujeito.
- …
           
Recursos estilísticos relevantes:
O poema caracteriza-se por uma linguagem metafórica:
- o "quarto", o "casebre", a "húmida pousada", as "portas de ouro e luz", são representações do sujeito poético, destacam-se como metáforas estruturantes do texto;
- as plantas ("cardo", "nardo"), as substâncias aromáticas ("almíscar"), a púrpura e os "jardins do Oriente", criando a sugestão de um ambiente envolvente, preparado para a sedução amorosa, metaforizam o efeito, no "eu", da força transfiguradora do amor;
- a "flor", simboliza a beleza do feminino, é uma metáfora da amada.
           
São ainda relevantes, entre outros, os seguintes recursos estilísticos:
- o hipérbato – “Adornou o meu quarto a flor do cardo” (v.1); “Do meu casebre à húmida pousada?...” (v.11) – que, no primeiro exemplo, põe em evidência o ato de adornar (com a flor de cardo) e, no segundo, destaca a negatividade de “casebre”, amplificando-a pela sua caracterização (“húmida pousada”);
- a repetição de valor enfático – “… que… que… que…” (v. 9); “Nem… nem…” (v. 12); “Era…/ Era…” (vv. 12-13) – marca, no primeiro caso, o tom interrogativo, e, nos segundo e terceiro, a resposta-revelação que dá sentido a todo o poema;
- …
           
Sentido da “misteriosa visita”
"Visita" assume, no contexto do poema, um carácter espiritual, uma vez que se trata de algo que se processa no íntimo do "eu". De facto, esta "visita" é a própria lembrança da amada que, acudindo ao espírito do escritor, o transforma, dando-lhe a possibilidade de se tornar outro, numa imagem de plenitude e fulgor. Os efeitos desta memória são de tal forma surpreendentes, e ocorrem a um nível tão profundo, que associam esta "visita" a uma força mágica ou "Misteriosa" ‑ a força transfiguradora do amor.
           
Exame Nacional do Ensino Secundário nº 138. Prova Escrita de Português A, 12º Ano(plano curricular correspondente ao Dec.-Lei nº 286/89, de 29 de Agosto).Curso Geral – Agrupamento 4. 1999, 1ª fase, 2ª chamada. 

           


        
SUGESTÕES DE LEITURA
        

 Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária de textos de Antero de Quental, por José Carreiro. In: Lusofonia – plataforma de apoio ao estudo da língua portuguesa no mundo, 2021 (3.ª edição) <https://sites.google.com/site/ciberlusofonia/PT/Lit-Acoriana/antero-de-quental>



[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/09/26/visita.aspx]

terça-feira, 25 de setembro de 2012

AQUELA QUE EU ADORO NÃO É FEITA DE LÍRIOS NEM DE ROSAS PURPURINAS (Antero de Quental)

  
Flor de Lotus (National Papyrus Center, Giza, Egipto)


          
A primeira fase [literária de Antero de Quental], ligada à produção da juventude, mostra que os ideais amorosos e outros são uma constante quando somos jovens. Sonhamos e idealizamos o ser amado e concebemos o amor como ideal perfeito. Tal como acontece ao comum dos mortais, também Antero Quental sonhou e idealizou a mulher e o amor. Como poeta e pensador conseguiu talvez fazer mais do que nós, exprimindo em verso esse sentimento profundo. Observe-se o que nos diz no soneto “Ideal”:
        
        
IDEAL

Aquela que eu adoro não é feita 
De lírios nem de rosas purpurinas,
Não tem as formas lânguidas, divinas,
Da antiga Vénus de cintura estreita...

Não é a Circe1, cuja mão suspeita
Compõe filtros mortais entre ruínas,
Nem a Amazona, que se agarra às crinas
Dum corcel e combate satisfeita...

A mim mesmo pergunto, e não atino
Com o nome que dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino...

É como uma miragem que entrevejo,
Ideal, que nasceu na solidão,
Nuvem, sonho impalpável do Desejo...
         
(entre 1860 e 1884)
Antero de Quental, Sonetos
        
_________________
Circe: feiticeira, filha da ninfa Perseia e de Hélio (sol). Vivia na ilha de Ea, onde Ulisses apartou. Circe, movida de grande paixão por Ulisses, transformou os seus homens em porcos.
        
                                                                            *
                  
Ao observarmos o título deste soneto, somos levados, provavelmente, a evocar o Romantismo, embora o conceito de "Ideal" nos possa remeter para a própria luta travada pela Geração de 70 na busca de novos ideais. Em qualquer dos casos, há uma sugestão de transcendência e de perfeição.
Ao longo do poema, alguns elementos semânticos - "que eu adoro", "visão", "como uma miragem", "Ideal", "nuvem", "sonho impalpável" - confirmam o titulo do soneto e mostram-nos uma mulher adorável, como uma "visão".
O tema é a mulher ideal, mas a sua descrição surge por antítese daquilo que "não é", Em confronto com figuras mitológicas, aparece como um ser divino e sublime, ideia pura: nem mulher sensual como a "Vénus de cintura estreita", com "formas lânguidas, divinas"; nem mulher fatal e traiçoeira como a Circe que "compõe filtros mortais entre ruínas"; nem mulher corajosa e dominadora como a Amazona, que "combate satisfeita…”.
Esta mulher, retratada à maneira petrarquista, é uma "visão" que "ora amostra ora esconde o meu·destino…", levando o sujeito lírico ao Desejo, ou seja, ao amor, à aspiração do Ideal. Apresenta-se como uma "miragem", "nuvem", "sonho impalpável do Desejo".
A busca do ideal não se confina ao amor. O homem e a mulher sempre ansiaram por ideais que permitissem que a sua vida tivesse sentido. Por isso, Antero de Quental, com a consciência do mundo em que vivemos, orientou a sua luta na busca dos ideais da justiça, da fraternidade e da liberdade. De forma diferente dos românticos, que sacralizaram o sentimento, procurou o apoio na Razão a que chamou "irmã do amor e da Justiça".
           
Português A e B: acesso ao ensino superior 2000, Vasco Moreira, Hilário Pimenta. Porto, Porto Editora, 2000. (Coleção: Acesso ao ensino superior: preparação para a prova de exame nacional - 12º ano)
           
           
Poderá também gostar de:
               
  Exposição oral sobre a análise do soneto "Ideal", de Antero de Quental, disponível na Escola Virtual.



 Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária de textos de Antero de Quental, por José Carreiro. In: Lusofonia – plataforma de apoio ao estudo da língua portuguesa no mundo, 2021 (3.ª edição) <https://sites.google.com/site/ciberlusofonia/PT/Lit-Acoriana/antero-de-quental>


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/09/25/ideal.aspx]