terça-feira, 11 de junho de 2013

MADRIGAL (David Mourão-Ferreira)


 DAVID MOURÃO-FERREIRA (estátua do PARQUE DOS POETAS)
            
           
MADRIGAL

Se acrescentares a isto a labial de um istmo
península de lava entendes o que eu digo

Se vires como se alonga em minhas mãos a música
entendes o que eu digo acordeão da lua

Se puseres neste grito a gutural de um rito
Se te lembrar o circo entendes o que eu digo

península de lava acordeão da lua
turíbulo de amor trapézio da ternura
             
David Mourão-Ferreira, Do tempo ao coração, 1966
                   
             
ANÁLISE DO POEMA

Madrigal, do italiano madrigale, possivelmente derivado do latim tardiomatricalis, palavra que evoca a função matricial da mulher, é uma pequena composição poética, diz o dicionário, em que, engenhosa e galantemente, se celebra uma dama.
Muito em voga no Renascimento italiano, tal forma poética geralmente musicada, é revivescida pela pena neoclassicizante do poeta David Mourão-Ferreira, de modo particularmente belo e sugestivo.
Constituída por quatro dísticos alexandrinos (dodecassílabos), com acento na 6ª e 12ª sílabas, a composição desenvolve-se em ritmo binário, de acordo com a mensagem expressa pela sintaxe bimembre: à oração condicional, anaforicamente iniciada pela conjunção se (1º membro) corresponde a oração principal, de teor assertivo ou declarativo (2º membro), veiculadora da decodificação da mensagem pelo destinatário feminino ‑ «entendes o que eu digo».
A rima toante, de sabor arcaizante, tem uma estrutura igualmente binária (2 vozes): -io/-ua, sugerindo um efeito musical alternado, a que não é alheia uma mensagem laudatória e afetiva comum.
Ainda quanto à técnica de construção poética, atente-se em alguns artifícios paralelísticos, em lugares estróficos diversificados, como o efeito geométrico em ziguezague da oração principal:
............ entendes o que eu digo
entendes o que eu digo ............
............ entendes o que eu digo
ou o efeito trovadoresco do dobre em «península de lava» (início de verso) e «acordeão de lua» (fim de verso).
Do ponto de vista fónico, além das sonoridades da rima, saliente-se o recurso da aliteração da ápico-alveolar em labial, península, lava, alarga, lualembrar, turíbuloda gutural (digo, alarga, grito, gutural); e do efeito das nasais (em, in, ão).
Esta incidência em sons fortes como os guturais, em contraste com a leveza das líquidas, bem como o jogo entre sílabas orais e nasais cria uma linha melódica a que não são alheios outros contrastes, agora semânticos, entre masculino e feminino, força e elegância, convenção («rito») e imaginação («lua»).
As figuras geográficas de «istmo» e «península», bem como o gesto alargado das mãos, sugerem precisamente esse elemento masculino, bem pronunciado ao longo do poema, em contraste com as figuras geométricas curvilíneas («lua», «circo»), associáveis ao elemento feminino que se quer cantar.
O amor, tema fundamental do madrigal, é visivelmente notório tanto na carga simbólica dos vocábulos «lava», de origem vulcânica, e «turíbulo», instrumento de culto («rito»), um amor simultaneamente erótico e religioso, espiritual, quanto nos vocábulos abstratos, mas denotativos, «amor» e «ternura».
E porque é um amor cantado, ao mesmo tempo que usufruído, a referência ao elemento e à função comunicativos não pode faltar: os lábios da articulação fónica, o «grito», a «gutural de um rito»; a «música» do «acordeão da lua», e a causa instrumental das «mãos».
Assim, dirigida ao destinatário feminino, investido da função comunicativa de descodificar a mensagem (função apelativa da linguagem), a composição em causa é bem uma celebração engenhosa e galante do amor:
«península de lava                   acordeão de lua
turíbulo de amor                      trapézio da ternura».
                      
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Nota: Para além dos aspetos referidos, a propósito da estrutura, pode perguntar-se qual o valor significativo da construção sintática e da própria mancha do poema.
                 
António Moniz e Olegário Paz, Ler para ser. Percursos em Português B. 10º Ano
Lisboa, Editorial Presença, 1993, pp. 102-103
              



ACERCA DO AUTOR

David Mourão Ferreira (1927-1996), quando estudante

 David Mourão-Ferreira ‑ a Obra e o Homem, José Martins Garcia. Lisboa, Editora Arcádia, 1980.
            
  

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