terça-feira, 31 de dezembro de 2013

CREPUSCULAR (Camilo Pessanha)









CREPUSCULAR

Há no ambiente um murmúrio de queixume,
De desejos d’amor, d’ais comprimidos…
Uma ternura esparsa de balidos
Sente-se esmorecer como um perfume.

Às madre-silvas murcham nos silvados
E o aroma que exhalam pelo espaço
Tem delíquios de gozo e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados.

Sentem-se espasmos, agonias d’ave,
Inapreensíveis, mínimas, serenas...
Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos tão brancas d’anemia...
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
É este enlanguecer da natureza,
Este vago soffrer do fim do dia.
   
    
        
Camilo Pessanha. Clepsydra; poemas de Camilo Pessanha. Estabelecimento de texto, introdução, crítica, notas e comentários por Paulo Franchetti.
Campinhas: Editora da Unicamp, 1994, pp. 89-90.
        
        
        

TEXTOS DE APOIO
        

Aspetos estilísticos da obra de Pessanha: a musicalidade, Barbara Spaggiari (1982)

Pseudo-ápice, Gilda Santos e Izabela Leal (2007)

Uma poética do signo, da imagem e da sugestão, Fernanda Maria Romano (2013)
        
        


 Melencoliah
        
        
        

ASPETOS ESTILÍSTICOS DA OBRA DE PESSANHA: A MUSICALIDADE

Em «Crepuscular», o tom da poesia é atenuado, como um instrumento que toca em surdina. A atmosfera é abafada e submissa, mas também um pouco triste e banhada de inquietude. Nas primeiras duas estrofes domina entre vogais tónicas o u (murmúrio, queixume, ternura, murcham). E a murmúrio ―onomatopaico ― corresponde no início da segunda estrofe o aliterante murcham, que indica a percentagem de decomposição inerente ao ambiente descrito.

O simbolismo na obra de Camilo Pessanha,
Barbara Spaggiari. Lisboa, ICALP, 1982. Colecção Biblioteca Breve - Volume 66, p. 68.

          

          

*

          

          

PSEUDO-ÁPICE

Em “Crepuscular” finalmente tem-se um eu e um tu reunidos […]

Eu e tu surgem cercados de “murmúrio de queixume”, “desejos de amor”, “ais comprimidos”, “aroma” com “delíquios de gozo e de cansaço”, “espasmos”, mãos entre mãos e olhos nos olhos... Isto nas três primeiras estrofes. Mas, quando se pensa tratar-se do encontro amoroso entre homem e mulher, logo surge a suspeita de que aqueles dados sensuais não existam senão “no ambiente”, na natureza tão envolvente que é capaz de motivar os arroubos humanos. E passa-se à última estrofe, que caracteriza a mulher com mãos anémicas e olhos tristes, num “enlanguescer da natureza” e “vago sofrer do fim do dia” (observem-se os clichés da estética romântica), confirmando uma atmosfera de melancolia e fenecimento já prenunciada em madressilvas que murcham e agonias de aves. Recupera-se, pois, o título do poema: tudo se passa ao crepúsculo. Mas que crepúsculo? Só o agonizar do dia? Não será também o crepúsculo de uma relação a dois, de um amor? E este amor existiria mesmo fora da atmosfera lânguida e onírica suscitada pelo crepúsculo?

Ao que tudo indica, mais uma ilusão a desfazer-se… Como no soneto “Floriram por engano as rosas bravas”.

Camilo Pessanha em dois tempos, Gilda Santos e Izabela Leal,
Rio de Janeiro, 7Letras, 2007, pp. 51-52.

          

          

*

          

          

UMA POÉTICA DO SIGNO, DA IMAGEM E DA SUGESTÃO

Já em “Crepuscular”, outro poema de Pessanha, há toda uma expressão sinestésica da hora do ocaso em imagens fortalecidas pelos signos que as constituem.

Logo, na primeira estrofe, a audição mescla-se ao olfato. O sujeito percebe que “há no ambiente um murmúrio de queixume”. Esse rumor que parece ser contínuo e sussurrante, “de ais comprimidos”, sente-se esmorecer como um perfume”. Tal sensibilidade olfativa permanece na segunda estrofe pelas “madre-silvas” e “o aroma que exalam pelo espaço”. Na terceira estrofe, o toque físico parece simultâneo à troca de olhares na declaração do sujeito: “tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas / o meu olhar no teu olhar suave”. Notamos, nesse poema, também, um jogo de signos e imagens que culminam nos dois últimos versos da quadra final, onde temos uma grande metáfora para expressar a intensa significação que o poeta dá ao crepúsculo: “é este enlanguecer da natureza,/ este vago soffrer do fim do dia”.

Assim como o ocaso sugere a passagem do dia para noite, fazendo dele um momento efémero, o outono, também presente na obra desse nosso poeta, indica um período de transição entre o verão e o inverno. Se tomarmos, por exemplo, o primeiro quarteto do soneto “Passou o outono já, já torna o frio”, perceberemos que são reveladas, nesse poema da Clepsydra, as imagens de um outono que se rende ao inverno e de um Sol que perde sua intensidade, na mesma transitoriedade das águas límpidas dos rios. Vejamos:

Passou o outomno já, já torna o frio...
— Outomno de seu riso maguado.
Algido Inverno! Oblíquo o Sol, gelado...
— O Sol, e as águas límpidas do rio.



Tese de doutorado apresentada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da
Universidade de São Paulo, 2013, pp. 114-116.

        
        
        
QUESTIONÁRIOS
        

I

Camilo Pessanha é considerado o expoente máximo da poesia simbolista portuguesa. Os seus versos reúnem o que há de mais marcante nesse estilo de época por traduzirem sugestões, imagens visuais, sonoras e estados de alma, além de notória ausência de elementos que se detenham em descrição ou em referência objetiva.

É correto afirmar que os versos do soneto “Crepuscular” transcritos nas opções, a seguir, traduzem as considerações postas nesses comentários, com exceção de:

(A) “Uma ternura esparsa de balidos,”
(B) “As madressilvas murcham nos silvados”
(C) “É este enlanguescer da natureza,”
(D) “Há no ambiente um murmúrio de queixume,”
(E) “Este vago sofrer do fim do dia.”



        
        

II

Tempo e espaço diluem-se na poesia de Camilo Pessanha, como índice de duração e de impressões confusas. Observa-se, então, em seus versos, uma espécie de nostalgia e de dolorosa sensação de não pertencer a lugar nenhum, sem qualquer possibilidade de assegurar futuro e sucesso. Destaque e comente dois versos que justifiquem essa afirmativa.

“Há no ambiente um murmúrio de queixume,
De desejos de amor, d´ais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos,
Sente-se esmorecer como um perfume.
……………………………………………
Sentem-se espasmos, agonias d´ave,
Inapreensíveis, mínimas, serenas...
‑ Tenho entre as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave

As tuas mãos tão brancas d´anemia...
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
É este enlanguescer da natureza,
Este vago sofrer do fim do dia.”


PESSANHA, Camilo. Clepsidra . Lisboa, Ática, 1975.

        
            
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