domingo, 5 de março de 2017

As fases do amor



AS FASES

As fases do amor são uma:
a primeira, a primeira, a primeira.
Nada no amor vai além da primeira fase
‑ a voltagem do encontro ‑
com nenhum futuro além da primeira fase.
Arruma-se a casa, limpa-se a fuligem
do passado, todos os sóis são convocados
para a hora sem volta da primeira fase:
é ali onde o amor marca o encontro
da emboscada com o acaso.
É neste momento da primeira fase
que o tempo se alarga, e morre-se de amor
no eterno da primeira fase. Tudo, tudo é
tudo é convocado: o hálito com suas
aragens, o incêndio do corpo
exaurindo as margens, a chama do sopro
com suas linguagens. E não há conjeturas
sobre os limites da primeira fase, a não ser
o horror do fim, o abismo do fim que reside
no infinito da primeira fase.

Paulinho Assunção, Novos poemas


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O amor tem cinco fases. Mas a maioria das pessoas fica estagnada na terceira

Depois de 40 anos de pesquisa clínica, o famoso psicólogo Jed Diamond concluiu que a maioria das pessoas encontra, de facto, a sua ‘cara-metade’. Mas, para que o relacionamento funcione é preciso superar cinco fases inevitáveis da vida a dois. O problema é que, como o psicólogo aferiu, a maioria das pessoas fica-se pela terceira fase e termina a relação.
De acordo com Jed Diamond e como explica no seu site MenAlive para conseguir um amor verdadeiro e duradouro é preciso passar por estas fases:
1. Paixão. 
Fase em que se sente extasiado pelas hormonas da felicidade, em que projeta todas as suas expectativas no parceiro e em que não consegue ver nenhum defeito nessa pessoa.
2. Início oficial da relação. 
Quando se começa uma união estável ou se dá o casamento o amor torna-se mais forte. Começam a viver juntos, a conhecer-se melhor e a influenciar os aspetos da vida do outro. É um momento de união e de alegria.
3. Desilusão. 
Este é o momento em que todas as esperanças são destruídas. Parece que os sentimentos estão a desaparecer, a outra pessoa torna-se demasiado previsível e o seu comportamento começa a irritá-lo. Quer fazer afastar-se durante um tempo ou mesmo pôr fim à relação. E é aqui que muitas pessoas dão o amor como morto e deixam de se esforçar por uma relação que parece já não lhes trazer felicidade há muito.
4. Superação da crise e criação do amor verdadeiro e duradouro. 
Se conseguir ultrapassar a terceira fase com segurança chega esta em que as ilusões que estava a projetar no seu parceiro desaparecem e começa a ver a pessoa que está à sua frente e não a imagem que criou dela. Se a aceitar como ela é e compreender os seus pequenos defeitos conseguirão ajudar um ao outro e passar para a fase do amor verdadeiro e criar uma parceria real.
5. Utilizar o poder de ambos para mudar o mundo. 
Sabendo que conseguiram ultrapassar todas as vossas diferenças e mal-entendidos e de que encontraram uma ligação profunda e forte entre vocês, sentem que têm força para mudar o que quer que seja, são uma equipa imbatível. Mais do que viver juntos, vivem juntos por um propósito e trabalham e pensam como um só.
https://www.noticiasaominuto.com/lifestyle/671870/as-cinco-fases-do-amor-e-por-que-tanta-gente-se-fica-pela-3




A NEUROBIOLOGIA DO AMOR: As Fases e Emoções Envolvidas

Débora Sterzeck Cardoso, Laryssa H. E. Nishio, Soha Chabrawi, Silvia Honda Takada, Alexandre Hiroaki Kihara
Laboratório de Neurogenética / Núcleo de Cognição e Sistemas Complexos / Universidade Federal do ABC
Edição Vol. 2, N. 2, 20 de Outubro de 2014
DOI: http://dx.doi.org/10.15729/nanocellnews.2014.10.19.008

Nas últimas décadas, com o surgimento de técnicas como a tomografia computadorizada por emissão de pósitrons e a ressonância magnética funcional, os neurocientistas começaram a investigar assuntos como o amor, a atração e a monogamia; áreas que até então tinham prevalência de estudos psicológicos e sociológicos. Desta forma, eles foram à busca de respostas para perguntas como o porquê nos apaixonamos e o porquê escolhemos uma pessoa específica.
Psicólogos definiram três diferentes fases para um relacionamento amoroso: 1) paixão/romantismo, 2) amor passional e 3) companheirismo; além do rompimento, que pode ocorrer durante esse percurso, sendo que cada uma apresenta suas próprias características (Figura 1).
Figura 1: Esquema ilustrando as fases do amor e suas respectivas durações: 1) paixão/romantismo, 2) amor passional e 3) companheirismo. O rompimento, que pode ocorrer durante esse percurso, também está representado, sendo mais comum que ocorra entre as fases 2 (amor passional) e 3 (companheirismo).

A primeira fase, relativamente curta (aproximadamente 6 meses), apresenta grandes variações hormonais de oxitocina e vasopressina que são importantes hormônios que regulam áreas do sistema de recompensa do cérebro (Figura 2), complexa rede de neurônios que é ativada quando fazemos atividades que causam prazer.
Figura 2: Localização das principais áreas envolvidas no relacionamento amoroso: núcleo Accumbens; núcleo pálido ventral e área tegmental ventral.

Boer e colaboradores1, da Universidade de Groningen, na Holanda, publicaram em 2012 um artigo de revisão bastante interessante sobre as perspectivas neurobiológicas atuais do amor e afeição.
Os autores relatam diversos estudos realizados com o objetivo de elucidar a base neurobiológica da monogamia, a maioria deles comparando duas diferentes espécies de ratazanas (monogâmicas e promíscuas), em que estas áreas e regiões adjacentes demonstraram alterações em sua ativação durante a fase inicial do amor (romântica). Estas áreas estão intimamente ligadas à dopamina, outro importante neurotransmissor para o sistema de recompensa.
A relação entre a dopamina e a monogamia foi demonstrada no encéfalo destes animais em que, após infusão moderada deste hormônio no núcleo Accumbens da espécie promíscua, elas passaram a apresentar comportamento monogâmico. É como se seu companheiro ou companheira que é muito assanhado(a) passasse a ser a pessoal mais fiel à você!
Além do sistema de recompensa cerebral, foram observadas alterações na atividade de regiões corticais que se associam às experiências emocionais, principalmente o medo, sentimento que diminui quando estamos próximos às pessoas amadas; as experiências negativas e de julgamento, observado na incapacidade de julgarmos honestamente o caráter de quem amamos; e de percepção sobre a evolução dos sentimentos e intenções da outra pessoa.
A segunda fase, a fase passional, compreende até o primeiro ano de relacionamento.Nesta fase, a oxitocina e a vasopressina estão envolvidas na formação de um relacionamento sólido. Estas alterações geram os sentimentos de segurança, calma e equilíbrio.
Em 2013, Scheele e colaboradores2 avaliaram a ação da administração intranasal de oxitocina (OXT) no sistema de recompensa dopaminérgico, através da apresentação da foto da parceira em comparação com a de outras mulheres exemplificadas adiante.
Foram selecionados 40 participantes do sexo masculino, adultos, não fumantes que estavam em um relacionamento amoroso heterossexual por mais de 6 meses, solteiros e sem filhos que, portanto, estavam vivenciando a segunda fase do amor, o amor passional.
Foram realizados dois estudos, um de Descoberta (DSC) e um de Replicação (RPL) (Figura 3), cada um com 20 sujeitos. Trinta minutos antes de começar o teste, estes foram aleatoriamente selecionados para receberem OXT intranasal ou Placebo (PLC).
No DSC, foram apresentadas a foto da parceira, de uma mulher desconhecida (com igual grau de beleza) e a figura de uma casa como controle, pois esta não é considerada um estímulo facial.
Já no RPL, a figura da casa foi substituída pela foto de uma mulher familiar que conhecia o participante há, no mínimo, 30 meses.
Figura 3: Exemplificação da realização dos estudos, contendo o tipo de estudo (verde), imagens utilizadas (azul) e substância utilizada (laranja).

Ambos os estudos utilizaram a Ressonância Magnética Funcional (RMf) para visualizar o contraste de ativação cerebral quando cada uma das fotos foram apresentadas, além de ser avaliado o grau de atratividade e recompensa para cada foto.
O efeito da OXT foi evidenciado quando houve o aumento de ativação pela visualização da parceira e decréscimo de ativação pela visualização da foto da mulher desconhecida no núcleo Accumbens (NAcc) e na Área Tegmental Ventral (ATV), o que intensificou o sentimento de recompensa pela parceira quando a foto foi apresentada. Isto aumentou a ativação da área de recompensa, sendo ainda o ATV recentemente sugerido como área de ação da oxitocina para salientar os estímulos socialmente relevantes.
A ativação da ATV sofreu decréscimo, em ambos os estudos RPL e DSC, após o tratamento com OXT, o que pode contribuir para os relacionamentos duradouros, pois demais mulheres se tornam menos atrativas, porém não foram realizados estudos comportamentais para validação desta hipótese.
Quando comparado à casa, figura neutra, com a parceira no tratamento com placebo (PLC), notou-se ausência de forte resposta neural, pois a casa não é uma figura tão recompensadora quanto uma mulher desconhecida com igual grau de beleza que sua parceira.
Nos homens envolvidos em relacionamentos amorosos o aumento de oxitocina (OXT) sinaliza a proximidade, apoio social, contato íntimo ou sexo como atividades muito mais gratificantes se compartilhadas com sua parceira.
Através destes estudos, verificou-se a possível influência da OXT no aumento da atração facial, da comunicação entre o casal durante discussões e da fidelidade masculina através do distanciamento das demais mulheres.
Contudo, neste estudo não foram analisados os efeitos da OXT na ansiedade e no humor, sendo necessárias análises mais sensíveis que possam detectar alterações mais sutis. Podem também ter ocorrido alterações inconscientes de afetividade, pois não foram coletados dados psicológicos.
A terceira fase, companheirismo, é caracterizada pela diminuição da paixão e o aumento de comprometimento com o parceiro, o que se assemelha a um sentimento de amizade. A oxitocina e a vasopressina mantêm seu papel, sendo os hormônios dominantes para manter o relacionamento.
Contudo, não podemos classificar todas as relações amorosas desta maneira, pois um terço dos casamentos acaba em divórcio e outros relacionamentos chegam ao fim, ainda entre as primeiras etapas, sendo mais comum na transição da fase passional para o companheirismo. Neste período, a intimidade entre os casais decai e o compromisso é o maior laço entre o casal, tornando assim a relação frágil.
Ao avaliar a atividade cerebral de pessoas que haviam terminado seus relacionamentos recentemente, foi observada uma alta atividade em outras regiões do sistema de recompensa dopaminérgico que estão associadas a recompensas incertas e respostas tardias,caracterizando o sentimento de incertezas de futuro1.
Os estudos realizados na tentativa de elucidar as bases neurobiológicas do relacionamento amoroso ainda são escassos, apesar do interesse crescente de cientistas e pesquisadores da área de Neurociências e dos recentes avanços das técnicas de imagem. Muitos deles, realizados em animais, talvez não possam ser transpostos ao homem, mas com certeza ajudam a compreender este campo ainda tão pouco explorado. Embora seja um estudo bem complexo, o amor nos seres humanos é um interessante tópico que merece ser aprofundado no sentido neurobiológico, levando a novas descobertas nos próximos anos.
Referências
1. de Boer A, van Buel EM, Ter Horst GJ. Love Is More Than Just a Kiss: A Neurobiological Perspective on Love and Affection. Neuroscience. 2012 Jan 10;201:114-24. PubMed PMID: ISI:000299400700011. English.
2. Scheele D, Wille A, Kendrick KM, Stoffel-Wagner B, Becker B, Gunturkun O, et al. Oxytocin enhances brain reward system responses in men viewing the face of their female partner. P Natl Acad Sci USA. 2013 Dec 10;110(50):20308-13. PubMed PMID: ISI:000328061700077. English.



"O grande erro do século XX foi acharmos que o amor era só um sentimento, que vai e vem. Na realidade, é um ato de vontade 
e inteligência"


José Carlos Carvalho

Entrevista ao psiquiatra e escritor espanhol Enrique Rojas, o homem do momento em Espanha

O homem de quem se fala em Espanha, pelos seus livros de autoajuda, veio a Lisboa munido de mais um título que promete alargar os mais de três milhões de exemplares vendidos, desde que apostou na escrita sobre dirigida ao cidadão comum. SOS Ansiedade (Matéria Prima, 186 págs., €15) tem todos os ingredientes para seguir o caminho dos outros títulos editados em Portugal (Não te rendas! e Vive a tua vida). Aos 68 anos, o diretor do Instituto Espanhol de Investigação Psiquiátrica de Madrid conversou com a VISÃO sobre o que faz de nós pessoas menos ansiosas, mais felizes e capazes de amar com inteligência. Entre consultas e digressões, nuestro hermano preside ainda à Fundação Rojas-Estapé, que acompanha gratuitamente jovens com perturbações de personalidade e baixos recursos económicos.
A psiquiatria está-lhe no sangue?
O meu pai, o meu primo, a minha irmã são psiquiatras e a minha filha é psicóloga. “Rojas” é igual a “psiquiatria”.
E como é viver com isso?
Hoje podemos dizer que o psiquiatra vende paz, tranquilidade, ilusão e felicidade. Porém, contactar diariamente com situações pessoais duras, graves e complicadas produz erosão. Combatê-las passa por cultivar algo para relaxar. Eu faço pintura abstrata: quando me sinto esgotado vou para o estúdio e dedico-me a essa paixão. Além disso ouço música e faço desporto.
Doutorou-se com um trabalho sobre suicídio e perturbações de personalidade. Como as define?
São desequilíbrios psicológicos decorrentes de feridas passadas não saradas e de um baixo nível de autoestima. Na investigação que fiz, com o meu pai, numa amostra de pessoas que tentaram suicidar-se mas não o conseguiram, concluí que estas pessoas tinham também baixa confiança em si mesmas, oscilações de humor e não conseguiam desfrutar da vida, convertendo problemas em dramas. Se juntar a isso a depressão, que se faz acompanhar de sintomas como melancolia, sentimentos negativos, pessimismo e ansiedade, percebe-se como surge o desejo de se matar.
A ansiedade pode agravar essa predisposição?
O problema da ansiedade é a adrenalina em excesso a circular entre os neurónios, que se manifesta no plano físico: taquicardia, suores frios, excesso de suco gástrico, sensação de falta de ar, tremores nas mãos. As crises ansiosas são um tsunami de ansiedade que dura minutos em que estão presentes vários medos: de morrer, de enlouquecer, de perder o controlo. O último é o mais frequente.
Como se gere a ansiedade, de modo a que não tome conta da vida?
É preciso parar e perguntar-se três coisas que constituem a base de uma personalidade equilibrada: “Quem sou”, “para onde vou” e “com quem”. Tal implica saber o que se quer e ter ultrapassado as feridas do passado. Ajuda ter um projeto de vida realista, dar às coisas que acontecem a importância que de facto têm, com sentido de humor e resiliência. Isso é ser uma pessoa madura, que aprende com as derrotas e cresce como ser humano. A ansiedade pode ser positiva, criativa, mas também negativa, se impedir uma vida normal: a pessoa está sempre mal com o trabalho, os amigos, o cônjuge.
O que fazer quando se fica enredado nas malhas desta “aminimiga”?
Se for endógena, ou seja, resultar de um desequilíbrio bioquímico, combate-se com fármacos e psicoterapia. Caso seja exógena, com origem no exterior, a psicoterapia pode ajudar. Sabemos que a causa da ansiedade é externa quando se manifesta, entre outras coisas, na constante falta de tempo, no ritmo frenético e no vício do trabalho, do móvel ou da net. A solução para pôr termo a isto está em aprender a dizer “não”. Cortar as ambições excessivas também dá muita paz, tal como colocar ordem nos horários, na casa.
Os estudos mostram que a ansiedade é muito comum na meia--idade. Isso é um sintoma de que algo correu mal na vida daquela pessoa? Ou é uma questão social?
Na Europa avançou-se mais em 15 anos do que num século. A velocidade é muito grande. As coisas correrão melhor se nos lembrarmos de três coisas fundamentais, que são o amor, o trabalho, a cultura e a amizade. Não há felicidade sem amor nem amor sem renúncia. Se amarmos o que fazemos no trabalho sabemos que estamos na via certa. A cultura, que é conhecimento, liberta-nos. O problema começa quando deixa de haver tempo para isto, só o há para as redes sociais... De modo que não se sabe quem é Pessoa, Saramago. Quando perdemos a curiosidade ficamos mais pobres.
Saltamos de uma coisa para outra, fica tudo mais plano, ou digitalizado, por assim dizer.
Gosto muito dessa expressão. O “aplanar”. A cultura é a capacidade de ir contra a corrente e seguir a estética da inteligência. Quanto à amizade, Dom Quixote, mais importante que Cervantes, dizia que a felicidade não está no destino mas no meio do caminho. Sancho Pança, por seu turno, tinha esta máxima: “Amigo que não dá e faca que não corta, se se perder não importa.” Os verdadeiros amigos são poucos. A falta de tempo prejudica as amizades.
É possível cultivar a felicidade e prevenir a doença sozinho no frenesim em que vivemos?
Sim, mas é difícil na era do stresse, da depressão e do desamor. E da apatia, que é a indiferença perante a vida. Por isso é que os psiquiatras e psicólogos se converteram em conselheiros de cabeceira. Só quem está pouco informado é que pensa que ir ao psi é para quem é doente ou louco. Se a sociedade em que estamos é de fast food, a psicologia é uma espécie de slow food. A ideia é sermos capazes de nos encontrarmos a nós mesmos, sozinhos ou com a ajuda de alguém. Isso requer tempo.
O mindfulness ou a atenção plena, podem combater a trilogia da ansiedade depressão-desamor da sociedade atual?
Poder, pode, mas parece-me que necessitamos de uma visão mais abrangente, sobretudo no que se refere à gestão do amor. O grande erro do século XX foi acharmos que o amor era só um sentimento, que vai e vem. E que era um monólogo. Na realidade, o amor maduro é um ato de vontade e de inteligência.
Cultiva a inteligência amorosa na sua vida?
(Risos) Faço por isso, sou casado há 33 anos! Se eu fosse uma águia com duas cabeças direcionadas para o passado e para o futuro, a primeira diria que a felicidade é ter boa saúde e má memória; a segunda, que é ter ilusões. Ficamos velhos quando olhamos mais para trás do que para a frente e a memória toma o lugar da ilusão.
Mas se olhar muito para o futuro pode perder o chão, ou desiludir-se entretanto, certo?
Para que isso não suceda, há que distinguir entre metas, que são gerais, e objetivos, que são mensuráveis e concretos. Um exemplo. Meta: quero emagrecer. Objetivos: perder um quilo por semana, cortar nos hidratos de carbono e nas gorduras animais, andar uma hora diariamente.
Pode dar um exemplo que envolva as relações humanas?
Imagine uma crise conjugal. Meta: Resolver o problema com o parceiro. Objetivos: deixar para trás as queixas do passado, aprender a perdoar, evitar discussões desnecessárias, não converter um problema num drama, ter uma sexualidade partilhada e sem monotonia.
Esta lógica aplica-se às adversidades e à forma de evoluir com elas, sem se ir abaixo?
Sim. Os perdedores que assumem a derrota e começam de novo conseguem fazê-lo. Veja o caso de Steve Jobs, que se arruinou na vida por duas vezes e chegou a estar viciado em cocaína e heroína. Chama-se a isto resiliência. Tal como o caso do pescador mexicano que esteve perdido no Pacífico durante 438 dias, chegando a beber a sua urina e a comer as próprias unhas para sobreviver. Saiu da experiência cheio de amor. E Nelson Mandela, 28 anos de encarceramento e sujeito a tortura. Aí escreveu uma grande obra sobre a liberdade.
Impressiona e inspira, sem dúvida. Porém, a comparação pode ter o efeito contrário e puxar o outro para baixo… Algo do tipo “Se eles são tão bons, serei eu tão mau?”
A mensagem a reter é só esta: não dar o flanco e começar de novo. O autor espanhol Unamuno, em Diário Íntimo, diz: “Não te dês por vencido, nem a um vencido; não te mostres como um escravo, nem mesmo a um escravo”. Fui buscar a mensagem da campanha de Tony Blair, “não te rendas”, que por sua vez já tinha ido buscar a ideia a Churchill. Se não se consegue fazer isto sozinho, há que procurar alguém para que nos ajude a seguir em frente.
É possível desenvolver a resiliência com livros de autoajuda?
Em certos casos, a psicoterapia e a farmacologia são incontornáveis. Eu sigo um modelo de psicoterapia cognitivo e comportamental, que assenta na ideia de que podemos mudar o nosso comportamento se modificarmos as nossas crenças. Neste ponto da adversidade e da resiliência, creio que os leitores beneficiam de orientações específicas que os possam encaminhar em fases importantes da vida.
O que responde a quem lhe pergunta: “Porque me sinto tão mal se tudo me corre tão bem?”
O material não é tudo. Para estar bem tenho de estar bem comigo, saber o que quero e o que pretendo mudar na minha vida.
No seu livro afirma que a saúde é o silêncio da corporalidade e que cada corpo é um semáforo. O que quer dizer com isto?
A cara espelha aquilo que somos. A face e as mãos anunciam a vida como projeto. Voltando ao tema da ansiedade, ela manifesta-se por duas vias. O caminho do corpo expressa-se através de sintomas como a queda de cabelo (alopécia), problemas gástricos, musculares, respiratórios. O caminho da mente traduz-se em fobia ou em obsessões. Se uma pessoa tem crises de pânico num avião, apetece-lhe gritar e fica descontrolada, ao longo da semana é natural que desenvolva medo de voltar a voar. O pânico converte-se numa fobia, um medo intenso que a leva a evitar ou a adiar a viagem. Já as obsessões levam a pessoa a querer mudar o corpo de forma compulsiva, com tratamentos, cirurgias, em várias partes do corpo: hoje a cara, amanhã o peito, a perna.
A obsessão com a imagem revela um problema sério na mente, nos afetos, até?
Cuidar muito o que está fora e descuidar muito o que está dentro é um indicador que de que algo não está bem e isso leva a outras doenças como a vigorexia, a bulimia, a anorexia.
A questão psicossomática não é mais do que o corpo a revelar o que a mente não consegue processar?
Um conflito psicológico crónico manifesta-se no plano físico. Se não se resolve pode aparecer sob a forma de dispepsia, depois gastrite e, mais tarde, culminar numa úlcera.
Porque diz que os problemas psicossomáticos são mais comuns em personalidades fortes?
Quem se considera forte não gosta de mostrar o que sente. Guarda para si, esconde, mantém silêncio.
O que significa, para si, uma personalidade saudável e madura?
Na ultima revisão do DSM (Manual de Diagnóstico de Transtornos Mentais), as perturbações de personalidade aparecem classificadas como uma modalidade e já não uma doença. Os americanos, que mandam no mundo e lideraram esta revisão [associação Americana de Psiquiatria], entendem que é quase impossível diagnosticar alguém como imaturo porque, na população, a imaturidade está em todas as partes e nenhuma. De resto, a nova edição espanhola do livro de autoajuda de Wayne Dyer (As Suas Zonas Erróneas, na tradução portuguesa) cujo prefácio, escrito por mim, começa justamente assim: “O que é uma personalidade imatura?”

 Clara Soares, Visão, 2017-03-11

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