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quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Antero de Quental - in memoriam




No 11 de Setembro da sua morte.
in memoriam
para o antero de quental


Para os lados do campo de s. francisco
Pelo entardecer em que tudo está quedo
Acontece ocorrer-me ao pensamento
Ideias vagas e longínquas de suicídio
(é bem certo que tudo na vida é literário
e não o sendo de pouco vale)
Há lugares em que o destino
Espera pacientemente pela hora
Derradeiros gestos e solitários assombros
Confusas ideias sobre o que na vida se reservou
Amigos d’além mar e amores de mais para lá
Sonhos de mudar tudo
E o que mais não se verá
Sonhos vãos e anseios de nada
Encantamentos d’infância
Em azuis d’olhar
Esfria o dia e num banco de jardim
A que só em pensamento ouso sentar
Aconchego-me em sonetos de meditar
E um arrepio de vento trespassa a folhagem
De árvores com olhos de tempo
Uma âncora sustém-me o pensamento
E como folha que o outono faz sua
Deixo-me levar como coisa sem rumo
Num sonho de esperança que não finda jamais
Nem dos anjos se diz tal coisa
É que soçobrar assim é real como
Coisa a que não falta nada
Nem da vida nem da morte
Que tudo sendo pouco é
Já a noite se aproxima
Num sopro frio que tudo invade
Uma tristeza sem fim Uma agrura
Uma dor de ser Um lamento
Uma impossibilidade Uma vertigem
Uma anulação e Um nada querer ser
Subtilíssimos deuses agrilhoados
Irrompem pelas raízes das árvores
Todos
Confluem para aquele banco de jardim

Fernando Martinho Guimarães

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Antero de Quental ou o suicídio sem fim


A presença de Antero de Quental no panorama cultural português apresenta uma similitude, até certo ponto paradoxal, com a vida de Antero ele-mesmo. Com efeito, o Antero de Quental que a história registou é o de um intelectual profundamente envolvido nas grandes causas do seu tempo. Associa-se-lhe deste modo uma áurea de presença excessiva. Dele dizemos que é «uma figura que se impõe». Já os seus contemporâneos assinalavam nele essa qualidade de presença afirmativa. Por outro lado, nos momentos em que a vida lhe exigiu recolhimento, e mesmo alguma clausura face aos acontecimentos, a sua ausência nunca foi interpretada como demissão de intervenção na vida cultural; mesmo ausente, o pensamento e a personalidade de Antero – disso são muitos os testemunhos convocáveis –, irradia em excesso. Sabe-se que ele lidava mal com esse facto. 
Avesso ao que de mundano tem a intervenção social e cultural, pelo imediatismo que se lhe associa, Antero propõe-se recolocar o debate literário e filosófico no seu lugar certo: o pensamento. À voragem do acontecimento só raramente a paciência do pensar sabe responder sem cair na vertigem do imediato. A consequência desta impossibilidade foi, no poeta, motivo de desespero. Nele, o pensamento era ânsia de resolver, e nisso se debatia.
A tragicidade não está na morte ela-mesma, mas na sua confirmação previamente anunciada. A contradição, qual seja a forma com que ela se apresente, é o sinal dessa desesperança. Por mais que se insista na fórmula que acompanha o nome próprio – «Antero, o poeta-filósofo» –, nunca o traço será inclusivo.
A acreditar no próprio, a justeza da fórmula estará apenas na cronologia que ela indica. No entanto, o depois – o filósofo que ocupou o lugar do poeta –, não significa uma dicção contra o antes, apenas (e pouco não é), que a contradição mudou de lugar. 
A convocação da disciplina é, para o pensamento, a recentração do que lhe é essencial: o próprio pensar. O que está em jogo não é um mero conflito intra-psíquico de alguém que viveu atormentado; o que é biografável não pode obscurecer o que na grafia está para além – ou aquém –, do vivido. No poeta e no polemista há a consciência de ambas as coisas. Se o conflito, por exaltação da escrita, ou pela proximidade física e mental dos que na polémica se envolvem, deriva para a simples luta das influências, logo o pensador se enoja com a distância entre o que é e o que devia ser. Se a imposição do epíteto – apesar do Eça –, está condenada a abrir todos os «In Memoriam», também em Antero de Quental é justo lembrar que a santidade não é uma questão pessoal, mas a destinação do próprio universo.
Nisto, a procura da influência funciona por contágio. E Antero sofreu, assumidamente, contágios à velocidade vertiginosa do comboio do seu tempo. Os anos de aprendizagem na Coimbra que perdura como mito, revelam um Antero decidido a escapar ao atavismo cultural em que Portugal mergulhara.
Mas já aqui se vê o que, para o autor de «Bom Senso e Bom Gosto», é questão: não a fórmula literária, antes as ideias; não o autor do momento, antes as novas correntes de pensamento que ressoam pela Europa; não o imobilismo do elogio mútuo, antes a assumpção sofrida da incessante procura de respostas, ainda que impossíveis; não o seguidismo face a filosofias, mesmo que da grandeza das de Hegel, Proudhon, Comte ou Hartmann; antes a pessoal resolução das dicotomias que atravessavam o pensamento filosófico. 
Que a contradição prevaleça sobre o fixismo das ideias moldáveis para todas as ocasiões, não é motivo de espanto. Em Antero, no poeta como no filósofo, foi na aguda consciência das contradições que a pulsão para o pensamento encontrou o seu terreno. Como o chão da sua terra natal, também o seu pensamento e personalidade sofrem abalos que exigem refundações permanentes.
O mal-estar que o caso Antero imprimiu (para o futuro dele e passado nosso), reside na exemplaridade que nele se conjuga com o sentimento da irredutível distância entre o ser e o dever ser. Por isso a exigência da dinâmica evolução do cosmos e do homem era nele causa de sofrida preocupação. Com razão dizia Fernando Pessoa que, em Antero de Quental, o pessimismo era mais alegre que o seu optimismo, e a sua fé mais desoladora que a sua crença.
A confrontação com a exemplaridade tornou-se algo a que não mais podemos resistir. Mesmo que assobiemos para o lado, ou que nos deixemos enlevar pela avenidas do progresso sem fim, sempre a revisitação de Antero nos reconduz ao confronto com a sombra, que em nós tende para a felicidade auto-satisfeita.
Não é a Questão Coimbrã, os seus porquês e para quês, que merece o nosso espanto; é sim que ela tenha sido. Mais ainda: a frequência com que a ela regressamos faz crescer em nós o sentimento de torpor de ela hoje não ser. Nem o que nela estava em causa foi resolvido – por mais vitória que lhe consagremos nas literaturas passivas –, nem, por outro lado, a figura de Antero se dissolve no espírito da época. Essa época hoje já não é. Leia-se isto em toda a sua extensão. 
Das Conferências do Casino se pode dizer o mesmo às avessas. A sua proibição não provoca espanto – que tantas (mesmo que poucas) se tivessem realizado, sim. Eis um risco que hoje não corremos: os comissários da cultura estariam na primeira fila da assistência.
Sem Penélope que fie e desfie, sem regresso a uma Ítaca que nunca foi, nem inimigos visíveis com que se possa confrontar, o suicídio de Antero de Quental continua acontecendo.

Fernando Martinho Guimarães
Ponta Delgada, https://www.facebook.com/fernando.m.guimaraes/posts/10211122023440550, 2017-04-18




terça-feira, 18 de abril de 2017

OS CATIVOS (Antero de Quental)




OS CATIVOS

Encostados às grades da prisão,
Olham o céu os pálidos cativos.
Já com raios oblíquos, fugitivos,
Despede o sol um último clarão.

Entre sombras, ao longe, vagamente,
Morrem as vozes na extensão saudosa.
Cai do espaço, pesada, silenciosa,
A tristeza das coisas, lentamente.

E os cativos suspiram. Bandos de aves
Passam velozes, passam apressados,
Como absortos em íntimos cuidados,
Como absortos em pensamentos graves.

E dizem os cativos: Na amplidão
Jamais se extingue a eterna claridade...
A ave tem o voo e a liberdade...
O homem tem os muros da prisão!

Aonde ides? Qual é a vossa jornada?
À luz? à aurora? à imensidade? aonde?
– Porém o bando passa e mal responde:
À noite, à escuridão, ao abismo, ao nada! –

E os cativos suspiram. Surge o vento,
Surge e perpassa esquivo e inquieto,
Como quem traz algum pesar secreto,
Como quem sofre e cala algum tormento...

E dizem os cativos: Que tristezas,
Que segredos antigos, que desditas,
Caminheiro de estradas infinitas,
Te levam a gemer pelas devesas?

Tu que procuras? Que visão sagrada
Te acena da soidão onde se esconde?
– Porém o vento passa e mal responde:
a noite, a escuridão, o abismo, o nada! –

E os cativos suspiram novamente.
Como antigos pesares mal extintos,
Como vagos desejos indistintos,
Surgem do escuro os astros, lentamente...

E fitam-se, em silêncio indecifrável,
Contemplam-se de longe, misteriosos,
Como quem tem segredos dolorosos,
Como quem ama e vive inconsolável...

E dizem os cativos: Que problemas
Eternos, primitivos, vos atraem?
Que luz fitais no centro donde saem
A flux, em jorro, as intuições supremas?

Por que esperais? Nessa amplidão sagrada
Que soluções esplêndidas se escondem?
– Porém os astros tristes só respondem:
A noite, a escuridão, o abismo, o nada! –

Assim a noite passa. Rumorosos
Sussurram os pinhais meditativos.
Encostados às grades, os cativos
Olham o céu e choram silenciosos.

Antero de Quental, Poesia Completa.  Org. Fernando Pinto do Amaral.
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2001.


     Intertextualidade

ÀS GRADES DA PRISÃO

Às grades da prisão, olhos extasiados
Veem descer o Sol sobre o mar de metal.
Na tarde de âmbar há murmúrios espalhados
Como preces da Terra à estrela vesperal...


No horizonte rutilante, a toda a vela
Passa um navio; é todo de oiro e de rubis…
Onde vais, onde vais, brilhante caravela
Do rei poeta dum quimérico país?


É triste o alcácer, com salões frios e anosos,
Como as igrejas cheios de ecos cavernosos,
Com grossas portas de mosteiro medieval.


Mas desse interior taciturno, afastado,
Duma estreita janela, olhos extasiados
Veem descer o sol sobre o mar de metal...



Roberto de Mesquita (1876-1923), Almas Cativas


ANTERO LIDO POR MESQUITA*

Sinopse: É conhecida a  influência exercida por  Antero nas gerações seguintes, a sua presença em poetas particulares, como é o caso  de Roberto de Mesquita. Analisa-se aqui o modo como o seu poema «Às grades da prisão» reescreve «Os Cativos», de Antero.

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O poema «Os Cativos» constitui uma amostra muito sintomática daquilo que,  no início dos anos de 1880,  Antero declarava ser a sua «maneira definitiva» de poeta, aquilo que poderemos designar  uma poesia dramática, se levarmos em conta aquilo que ele mesmo afirma numa carta a António Feijó: «Mas, fora desta esfera restrita [da poesia analítica], a poesia, tornada mais complexa, parece-me que requer uma forma sintética, a acção objectiva, o drama (dando à palavra a sua acepção mais geral), poderosa pela sua mesma impessoalidade.» (Quental, 1989: 567). Repare-se nos termos de Antero  sobre o drama enquanto modo objectivo, isto é, representativo, capaz de configurar um mundo exterior ao sujeito poético, dele distanciado,  e também dinâmico,  com acção, implicando por isso a existência de espaço, temporalidade e personagens que entre si trocam falas  – traduzindo-se tudo isso, no final, pela impessoalidade, a tendencial ocultação (ainda que não total) do  enunciador, do sujeito poético,  neste caso. Sabemos  hoje como este desígnio de uma poética da impessoalidade vai desaguar no modernismo português e, em especial, no projecto poético pessoano
«Os Cativos» constituem um poema relativamente longo: treze quadras em decassílabos, com uma estrutura narrativo-dramática em que é possível delimitar  um Prólogo (2 quadras iniciais), seguido de três cenas (de 3+3+4 quadras, respectivamente, e tecnicamente delimitadas como no texto dramático propriamente dito) e de um curto Epílogo ou conclusão (última quadra).
As primeiras duas quadras apresentam a personagem dos cativos, sobre um cenário de fim de dia, descrito em termos de ambiente melancólico propício à contemplação, ao cismar e, finalmente, à interrogação; estamos em presença de uma descrição com certos traços simbolistas, que (juntamente com notórios aspectos rítmicos e melódicos) poderá ajudar a compreender  a projecção posterior do poema.
As três cenas têm uma estrutura interna idêntica e sequencial: a presença dos cativos («os cativos suspiram»), o aparecimento dos interlocutores (as aves, primeiro, e depois o vento e os astros), a introdução da(s) pergunta(s) que lhes é feita pelos cativos e a culminar uma reflexão por vezes formulada em modo interrogativo; finalmente, a resposta, linear e curta, que fecha  cada cena.
Ora, é este poema que surge recontextualizado  no  soneto «Às grades da prisão», de Roberto de Mesquita: em versos alexandrinos, ele recolhe para título e início do verso 1, um fragmento  do verso inicial de «Os cativos».
A sua  estrutura narrativo-dramática retoma a do  poema anteriano: uma  introdução (de idêntica natureza temporal), uma cena (apenas  uma) com  interrogação e uma conclusão –  numa condensação  de processos a que estava obrigada pela própria  brevidade formal  da composição, o soneto: a nível do  espaço descritivo,  do traço narrativo pontual («passa um navio»)  e do despojamento da pergunta, privada do envolvimento reflexivo, filosófico que em Antero a antecede. Aliás, em Mesquita, a pergunta não chega a suscitar  qualquer sinal de reacção por parte do seu (único) interlocutor, numa situação que acentua os sinais de uma solidão irremediável.
A já assinalada modulação simbolista do poema de Antero poderá explicar, em parte, a atracção que exerceu sobre o poeta florentino, num contexto em verbal em que são notórios os traços dessa corrente estética finissecular. Mas, para lá dessa afinidade (e  de outras),  um corte fundamental exercido por Mesquita consiste na mudança do cenário selecionado: o mar, com os seus signos correlativos, especialmente o navio, cuja passagem fugaz quase o transforma num elemento irreal, talvez mesmo uma  ilusão ou miragem fruto de um  êxtase do olhar  que se estende sobre  o mar (de metal) que é o prolongamento metonímico das grades (no soneto de Mesquita os «cativos» anterianos reduzem-se  a uma parte do todo: «olhos», o que introduz desde logo outra envolvência  semântica).
Aquilo que em Antero se exprimia  em termos de  uma interrogação cósmica  sobre a liberdade e o destino, torna-se em Mesquita uma questão mais circunstancial, mais individual, e sintomática de uma condição particular que o conjunto da sua poesia ajuda a confirmar, em termos de uma configuração do  mundo pensado e sentido como cárcere atlântico, metáfora  reformulada  noutros contextos. Deste modo, e numa impressiva representação simbólica, estão todos os contornos semânticos da palavra que o poeta não ousou escrever ao longo do  seu livro de poemas: ilha. Que isto tenha chegado através de Antero apenas acentua a dimensão da literatura como uma conversação (uma tresleitura) infinita, sucessivamente  desdobrada no tempo. Uma conversação que, no campo açoriano, se prolonga ainda na obra de poetas como Pedro da Silveira (anos 50) e J. H. Santos Barros  (anos 70) – numa literatura, já agora, em que deliberadamente se inscreve a insularidade atlântica, açoriana, ou tão simplesmente a açorianidade.
Urbano Bettencourt
(CIERL-UMa; CEHu-UAc)
*Versão (muito) sintética da comunicação que apresentei às Jornadas Anterianas (Ponta Delgada, 7 e 8 de Novembro de 2017)
……………………………………………………………….
MESQUITA, Roberto de (2016),  Almas Cativas e Poemas Dispersos, Prólogo e Organização de Carlos Bessa. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas,
QUENTAL, Antero de (1989),  Cartas I, org. de Ana Maria Almeida Martins. Ponta Delgada e  Lisboa: Universidade dos Açores e Editorial Comunicação.
QUENTAL, Antero de (2001), Poesia Completa, org. de Fernando Pinto do Amaral. Lisboa, Publicações Dom Quixote.


https://urbanobettencourt.wordpress.com/2018/06/05/antero-lido-por-mesquita/



domingo, 8 de maio de 2016

E a poesia das coisas se insinua



IDÍLIO

Quando nós vamos ambos, de mãos dadas,
Colher nos vales lírios e boninas,
E galgamos dum fôlego as colinas
Dos rocios da noite inda orvalhadas;

Ou, vendo o mar das ermas cumeadas
Contemplamos as nuvens vespertinas,
Que parecem fantásticas ruínas
Ao longo, no horizonte, amontoadas:

Quantas vezes, de súbito, emudeces!
Não sei que luz no teu olhar flutua;
Sinto tremer-te a mão e empalideces

O vento e o mar murmuram orações,
E a poesia das coisas se insinua
Lenta e amorosa em nossos corações.
Antero de Quental


Notas de leitura:
v. 1 e segs. António Sérgio (Antero de Quental, Sonetos, Lisboa [1967], pág. 40) considera este soneto uma maravilha de musicalidade expressiva, que analisa primorosamente. Faz notar o ritmo vivo, matinal, fresquíssimo das duas quadras, com a sua estrídula rapidez de ascenso e suas duas rimas em a e i - violinos, flautas; as três sílabas em on (cf. v. 8); a amplitude que se quebra a súbitas com um verso isolado (v. 9); o movimento afrouxa, ensurdece em uu, é soturno e fundo (v. 10); toda a orquestração vai descer aos baixos (com nasais e com uu), lembrando não sei quê de violoncelo e de fagote (vs. 12-14).
vv. 1-4. Repare-se nas representações de movimentos.
vv. 6-8. Na contemplação do céu, do horizonte, encontra expressão libertadora a imaginação visionária do poeta.
vv. 9-11. O amor revela-se pelos movimentos íntimos, indizíveis.
vv. 12-14. O amor abrange a natureza, santifica a paisagem, permite a identificação com o mistério que envolve o Homem. - Recorde-se o comentário de Ruy Galvão de Carvalho (Três Ensaios sobre Antero de Quental, Coimbra, 1934, pág. 29): «O mar e o vento são os dois elementos que melhor exprimem toda a ânsia libertadora da alma humana.» (Maria Ema Tarracha Ferreira, Antologia Literária Comentada. Século XIX. Do Romantismo ao Realismo. Poesia, Lisboa, Editora Ulisseia, 1985, 2ª edição.)
v. 13. Um poema, não sendo obviamente uma construção teórica, pode ter uma referencialidade que é a do pensamento, da reflexão, sempre que em relação a eles, como diria Antero de Quental, “a poesia das cousas se insinua”. Da poesia à filosofia e desta àquela pode estabelecer-se o mesmo “caminho da verdade”. Neste caso é o que vai ou ascende do particular para o geral, da palavra para a multiplicidade de sentidos. (Ser, um problema filosófico-poético?”, Fernando Guimarães.  Filosofia e Poesia - Congresso Internacional de Língua Portuguesa, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2016.)
*
Inserido na expressão do lirismo amoroso, Idílio retrata uma situação de amor ideal.
O soneto narra momentos de grande tranquilidade do poeta com uma mulher. Calmamente, os dois amantes vão conjugando o seu amor com o próprio cenário. Verifiquemos a importância dos verbos “vamos”, “galgamos”, “contemplamos” que transmitem a ação na primeira pessoa do plural, facto que inclui o próprio sujeito poético na felicidade comungada pelos dois, induzindo a uma união não só física “Quando vamos ambos, de mãos dadas,”, mas também espiritual “Contemplamos as nuvens vespertinas”.
As duas primeiras quadras são, não só narrativas, mas também extremamente descritivas, na medida em que predominam adjetivos bastante expressivos – “orvalhadas”, “ermas”, “vespertinas”, “fantásticas”, “amontoadas” – que contribuem para que o leitor visualize o cenário que os dois amantes desfrutam. Este cenário está carregado de misticismo e é, igualmente, um ambiente contemplativo: “ermas cumeadas”, “fantásticas ruínas”, “o vento e o mar murmuram orações”, fazendo-nos lembrar a natureza dos românticos.
Perante este espaço, a companheira do poeta reage de um modo sui géneris – “de súbito, emudeces!” / Não sei que luz no teu olhar flutua; / Sinto tremer-te a mão, e empalideces…”, perturbando o sujeito poético que não encontra explicação para o seu comportamento. Porém, no último terceto, a vivência romântica é retomada com a personificação do vento e do mar que “murmuram orações” e, deste modo, nos seus corações se insinua a poesia que mais não é do que a harmonia que colhem do espaço onde se encontram:
“E a poesia das coisas se insinua
Lenta e amorosa em nossos corações.”
A dupla adjetivação presente no último verso evidencia mais intensamente a sensação de amor e tranquilidade dos dois amantes. Este ambiente pacífico é também sugerido pela pontuação.
Cecília Sucena e Dalila Chumbinho, Sebenta de Português: Antero de Quental – introdução ao estudo da obra, Estoril, Edição da papelaria Bonanza, [Edição: 2006]

*
A geometria da razão opõe-se à lógica do coração, intuitiva do "fundo essencial da alma". Pergunta-se, se o conteúdo desta "deixará de ser (...) verdadeiro só por não ser rigorosamente lógico?" E afirma que "há muitas lógicas" e a do coração é onde se "sente a verdade eterna". Trata-se da lógica do sentimento que se manifesta na poesia, pois que "a poesia é também verdade [já que] é a evidência da alma". Devedor em certa medida do espírito romântico, reabilita Antero o carácter revelador e sublime da poesia, que brota da alma e que "prende as vontades e arrebata os corações”. É a poesia a palavra possível do silêncio em que a consciência se remete para si, pela sublimidade do momento em que a vontade é presa e o coração arrebatado. O real aí transfigura-se, pois que, enquanto o "contemplamos":
O vento e o mar murmuram orações,
E a poesia das cousas se insinua
Lenta e amorosa em nossos corações.
Todo o soneto "Idílio" ativa motivos naturais - o vento, o mar, as orvalhadas - a par de elementos humanos, que na sua combinação e relação sugerem e fazem conhecer pelo sentimento e pela intuição. A poesia nasce aí como a palavra própria de um silêncio "sobre-real", fruto de um pathos que premeia esse que a profere com "o batismo dos poetas".
A sabedoria oriental na obra poética de Antero de Quental e ensaística de Manuel da Silva Mendes, Carlos Miguel Botão Alves, Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve, 2014.


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segunda-feira, 7 de abril de 2014

ANTERO DE QUENTAL (1842-1891)






ANTERO DE QUENTAL 







 Leitura orientada da lírica anteriana:

A angústia existencial.
Figurações do poeta.
Diferentes configurações do Ideal.
Linguagem, estilo e estrutura:
‒ o discurso conceptual;
‒ o soneto;
‒ recursos expressivos: a apóstrofe, a metáfora, a personificação. 
 

(Programa e Metas Curriculares de Português. Ensino Secundário. Versão para discussão públicaNovembro de 2013.
Helena C. Buescu, Luís C. Maia, Maria Graciete Silva, Maria Regina Rocha. Governo de Portugal - Ministério da Educação e Ciência)



POEMAS
INCIPIT
Conquista, pois, sozinho o teu Futuro,
Se é lei, que rege o escuro pensamento,
Pôs-te Deus sobre a fronte a mão piedosa:
As fadas... eu creio nelas!
Há mil anos, bom Cristo, ergueste os magros braços
Não se perdeu teu sangue generoso,
Tu, que dormes, espírito sereno,
Num sonho todo feito de incerteza,
Chovam lírios e rosas no teu colo!
Em sonho, às vezes, se o sonhar quebranta
Renasço, amigos, vivo! Há pouco ainda
Em vão lutamos. Como névoa baça,
Depois que dia a dia, aos poucos desmaiando,
Sonho de olhos abertos, caminhando
Ó quimera, que passas embalada
Deixá-la ir, a ave, a quem roubaram
Pelo caminho estreito, aonde a custo
Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo,
Razão, irmã do Amor e da Justiça,
Aquela que eu adoro não é feita
Pelas rugas da fronte que medita
Noite, irmã da Razão e irmã da Morte,
Tu, que eu não vejo, e estás ao pé de mim
Mãe - que adormente este viver dorido.
Na tua mão, sombrio cavaleiro,
Esse negro corcel, cujas passadas
Na mão de Deus, na sua mão direita,
Homem! Homem! Mendigo do Infinito!
Para além do Universo luminoso,
O Povo há de inda um dia entrar dentro do Templo,
Ninguém o dia sabe ao certo: entanto, vemos
No meu sonho desfilam as visões,
Espírito que passas, quando o vento
Noite, vão para ti meus pensamentos,
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Junto do mar, que erguia gravemente
Há mil anos, e mais, que aqui estou morto,
Aspiração... desejo aberto todo
Visões! sonhos antigos!
Disse ao meu coração: Olha por quantos
Quando Cristo sentiu que a sua hora
Sonho-me às vezes rei, n'alguma ilha,
Já não sei o que vale a nova ideia,
Num céu intemerato e cristalino
Conheci a Beleza que não morre
Fumo e cismo. Os castelos do horizonte
Eu vi o Amor ‑ mas nos seus olhos baços
Adornou o meu quarto a flor do cardo,
Ouve tu, meu cansado coração,
Embebido num sonho doloroso,