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segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Poema inspirado nos painéis que Júlio Resende desenhou para o monumento que devia ser construído em Sagres


Poema inspirado nos painéis que Júlio Resende desenhou para o monumento que devia ser construído em Sagres

I
Nenhuma ausência em ti cais da partida.
Movimento ritual, surdo rumor de búzios,
Alegria de ir ver o êxtase do mar
Com suas ondas-cães, seus cavalos,
Suas crinas de vento, seus colares de espuma,
Seus gritos, seus perigos, seus abismos de fogo.

Nenhuma ausência em ti cais da partida.
Impetuosas velas, plenitude do tempo,
Euforia desdobrando os seus gestos na hora luminosa
Do Lusíada que parte para o universo puro
Sem nenhum peso morto, sem nenhum obscuro
Prenúncio de traição sob os seus passos.

II
Regresso
Quem cantará vosso regresso morto
Que lágrimas, que grito, hão-de dizer
A desilusão e o peso em vosso corpo?

Portugal tão cansado de morrer
Ininterruptamente e devagar
Enquanto o vento vivo vem do mar

Quem são os vencedores desta agonia?
Quem os senhores sombrios desta noite
Onde se perde morre e se desvia
A antiga linha clara e criadora
Do nosso rosto voltado para o dia?

Sophia de Mello Breyner Andresen
Mar Novo, Guimarães Editores, Lisboa, 1958





Um “mar novo” nunca navegado

Faculdade de Belas Artes do Porto mostra projecto com que Barata Feyo, João Andresen e Júlio Resende venceram em 1956 o concurso para o Monumento ao Infante, em Sagres. Um projecto que não chegou a sair do estirador e que seria substituído pelo Padrão dos Descobrimentos… em Lisboa.

 
Público, 2 de Dezembro de 2017, 9:00

“Nenhuma ausência em ti cais da partida./ Movimento ritual, surdo rumor de búzios,/ Alegria de ir ver o êxtase do mar/ Com suas ondas-cães, seus cavalos,/ Suas crinas de vento, seus colares de espuma,/ Seus gritos, seus perigos, seus abismos de fogo.”
Sophia de Mello Breyner Andresen


Até agora, só conhecíamos aquilo que poderia ter sido uma das mais marcantes peças de arte pública do país por documentação dispersa, uma ou outra peça mostrada aqui e ali, e por estes versos de Sophia. Hoje podemos ver mais de perto aquilo que seria o grande monumento dedicado ao Infante D. Henrique (1394-1460) e projectado para o promontório de Sagres em meados do século XX numa exposição na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP).
Intitulada Mar Novo, a exposição, que estará patente até 3 de Março, repete o nome do projecto apresentado a concurso em 1956, e que foi também o nome do livro onde Sophia incluiu a sua leitura de um sonho que fora projectado pelo seu irmão João Andresen (1920-1967), arquitecto, pelo escultor Salvador Barata Feyo (1899-1990) e pelo pintor Júlio Resende (1917-2011).
Os três artistas da Escola do Porto, com o apoio de engenheiros do LNEC, constituíram uma das 49 equipas participantes no concurso internacional lançado em 1954 pelo Estado Novo tendo em vista a construção de um Monumento ao Infante, que abrilhantasse, no lugar mítico de Sagres, as comemorações do V Centenário da Morte de D. Henrique, em 1960.
Sem que se conheçam as razões da decisão, o Governo de Salazar deixou cair esse projecto, e substituiu-o pela recuperação e transformação em pedra da escultura efémera que Leopoldo de Almeida tinha desenhado, duas décadas antes, para a Exposição do Mundo Português (1940), em Lisboa – o Padrão dos Descobrimentos.
Foi em reacção a esta decisão, nunca verdadeiramente explicada, que o historiador e crítico de arte José-Augusto França, num artigo de jornal em Março de 1957, lamentou a perda dessa "primeira oportunidade de haver em Portugal uma amostra de arquitectura viva, honrada e actual", e que Sophia escreveu o Poema inspirado nos painéis que Júlio Resende desenhou para o monumento que devia ser construído em Sagres.
“Não se conhecendo as razões oficiais para a desistência, creio que elas terão estado relacionadas tanto com as pressões centralistas para se investir num monumento em Lisboa como com a difícil relação custo-benefício que a construção do projecto Mar Novo num lugar tão recôndito como Sagres então teria”, diz ao PÚBLICO Lúcia Almeida Matos, curadora da exposição na FBAUP, integrada nas comemorações do centenário de Júlio Resende.
A mostra Mar Novo concretiza um projecto já antigo desta historiadora de arte, que teve conhecimento dos sucessivos episódios em volta da construção de um Monumento ao Infante quando fez a sua tese de doutoramento sobre a Escultura em Portugal no Século XX (1910-1969), posteriormente publicada pela Fundação Gulbenkian e pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (2007).
Neste trabalho, Lúcia Almeida Matos recorda que o concurso de 1954 era já o terceiro que o Estado Novo lançava com o mesmo objectivo, depois dos realizados na década de 30: o primeiro fora vencido por Rebelo de Andrade (arquitecto) e Rui Gameiro (escultor); o segundo, pelo arquitecto Carlos Ramos, Almada Negreiros e o já citado Leopoldo de Almeida. Nenhum deles passara também do papel e do estirador.


Colaboração das artes

Ainda que seguindo algumas linhas que já então pontuavam as encomendas escultóricas de grande ambição no país, Mar Novo é de algum modo um projecto pioneiro na “colaboração das três artes – arquitectura, escultura, pintura – como um esforço consciente para atingir um efeito visual coerente”, nota Lúcia Almeida Matos, directora do museu da FBAUP.
Curiosidade histórica é também o facto de a presente exposição ser apresentada na mesma sala onde em 1956, na 5.ª Exposição Magna das Belas Artes do Porto, foi mostrado o projecto vencedor do concurso, e que na altura foi também visto, disse João Andresen, como “uma grande vitória para a [nossa] Escola”.
“Além desta feliz circunstância simbólica, quisemos na exposição criar um ambiente sugestivo, que se aproximasse da situação de uma obra em processo, e que respondesse também à memória descritiva do projecto, mesmo se ele tem um carácter um pouco hiperbólico”, nota a curadora.
A disposição cénica das peças, as cores, a luz e as projecções que agora reconstituem Mar Novo remetem-nos, de facto, para essa “história de pasmar” com que os autores do projecto conquistaram o júri do concurso de 1956. À entrada, uma fotografia de Teófilo Rego (1914-1993) documenta a exposição realizada nesse ano na Exposição Magna promovida por Carlos Ramos, o grande artífice das medidas que, nessa década de 50, criaram a fama da Escola do Porto.
Ao longo das paredes, novas fotografias de Rego – cujo espólio, reunido na Casa da Imagem, em Gaia, foi fundamental para a reconstituição do projecto – e fotomontagens feitas a partir dos estudos originais dos três artistas dão a conhecer as várias fases e faces do monumento.
Organizado em três praças e distendido por um percurso de cerca de um quilómetro ao longo do promontório, Mar Novo começava com uma caravela numa rosa-dos-ventos a evocar a História Trágico-Marítima e terminava com “o vulto grandioso do Infante” (16 metros de altura) esculpido por Barata Feyo. Mas o núcleo central do monumento era uma cripta escavada no solo, que acolheria um museu com uma sala do Mundo Revelado pelos Descobrimentos portugueses, e também um altar e uma biblioteca.
Foi para este espaço que Júlio Resende criou “uma das maiores decorações murais [então] existentes no mundo”, com um mosaico vidrado com 1600 m2, como se pode ler na memória descritiva.
Nesta exposição, cortesia do Lugar do Desenho/Fundação Júlio Resende, e também de coleccionadores privados, além de instituições como o LNEC – e a amostragem das máquinas e testes então realizados por este laboratório será uma das sua principais mais-valias –, podem admirar-se os estudos, em originais e reproduções fotográficas, realizados pelo pintor da Ribeira Negra. E também uma maqueta em bronze (escala 1/1000) da estátua do Infante – da qual, após ter fracassado o projecto Mar Novo, Barata Feyo fez uma versão adaptada para uma praça de Brasília.
Projectada num dos cantos da sala encontra-se o estudo para a decoração da abóbada, com o mural a evocar a epopeia dos portugueses neste monumento que, segundo os seus autores, teria o valor de “uma síntese plástica das Descobertas (…), um gesto circular e ascensional, que nascendo da Terra tão portuguesa de Sagres desaparece no Céu”.




“Poema inspirado nos painéis que Júlio Resende desenhou para o monumento que devia ser construído em Sagres”, Por Nathália Nahas

Grades apresenta também um questionamento sobre um dos símbolos políticos de Portugal: as grandes navegações. Isso ocorre especialmente em três poemas: “Poema inspirado nos painéis que Júlio Resende desenhou para o monumento que devia ser construído em Sagres”, “Regresso” e “Lusitânia”.
O poema “Regresso” é publicado originalmente no livro Mar Novo (1958) como a segunda parte de um poema maior composto em duas partes, “Poema inspirado nos painéis que Júlio Resende desenhou para o monumento que devia ser construído em Sagres”, apresentando o título “Regresso”239.
Em Grades, “Poema inspirado...” aparece dividido em dois textos distintos, assim os poemas aparecem seguidos um do outro, mas desvinculados.
Temos “Poema inspirado nos painéis que Júlio Resende desenhou para o monumento que devia ser construído em Sagres”:

Nenhuma ausência em ti cais de partida.
Movimento ritual. surdo rumor de búzios,
Alegria de ir ver o êxtase do mar
Com suas ondas-cães, seus cavalos,
Suas crinas de vento, seus colares de espuma,
Seus gritos, seus perigos, seus abismos de fogo.
Nenhuma ausência em ti cais da partida.
Impetuosas velas, plenitude do tempo,
Euforia desdobrando os seus gestos na hora livre e clara240
Do Lusíada que parte para o universo puro
Sem nenhum peso morto, sem nenhum obscuro
Prenúncio de traição sob os seus passos.241

E “Regresso”:

Quem cantará vosso regresso morto
Que lágrimas, que grito hão de dizer
A desilusão e o peso em vosso corpo?

Portugal tão cansado de morrer
Ininterruptamente e devagar
Enquanto o vento vivo vem do mar

Quem são os vencedores desta agonia?
Quem os senhores sombrios desta noite?
Onde se perde morre e se desvia
A antiga linha clara e criadora
Do nosso rosto voltado para o dia?242



Os painéis de Júlio Resende eram parte do seu projeto “Mar Novo”, que trazia o plano de um monumento ao Infante Dom Henrique à cidade de Sagres, no sul de Portugal. Para a escolha da obra de arte que faria homenagem ao Infante, foi criado um concurso que reuniu diversos artistas. Elaborado em 1956, o projeto “Mar Novo”, homônimo ao livro de Sophia Andresen, era resultado do trabalho de Resende em conjunto com o arquiteto João Andresen, irmão da autora, e o escultor Barata Feio e foi escolhido como o plano vencedor. No entanto, o monumento e os painéis não foram construídos, uma vez que Salazar não teria simpatizado com os desenhos.
Desde o início do Estado Novo, a cidade de Sagres já tinha sido centro de outros dois concursos de intervenções artísticas e arquitetônicas que visavam homenagear a cidade e o Infante Dom Henrique de Avis, conhecido como Infante de Sagres ou O Navegador. A partir desses projetos, o governo buscava fortalecer um dos principais temas da história portuguesa, as navegações, as quais tinham nessa cidade seu mais importante centro entre os séculos XV e XVI.


Considerando-se que “Regresso” é, originalmente, a segunda parte de um poema que tematiza as navegações, é necessária a leitura em conjunto com a parte I do poema, o qual mostra a questão das navegações vista de duas perspectivas distintas. Em um primeiro momento (parte I), a voz poética exalta o instante da partida, ressaltando o “êxtase do mar” e a expectativa dos homens que o desbravarão.
O poema I traz adjetivações ao momento da partida comuns à escrita de Sophia Andresen. A hora é livre e clara, o universo, puro; e o tempo é marcado por sua plenitude. As naus são descritas por meio de suas “impetuosas velas”, termo que nos permite compreender tanto a força quanto a paixão da obstinada missão dos navegantes lusitanos. O texto traz duas estrofes de verso livre, totalizando doze versos, seis em cada trecho.
A primeira estrofe inicia-se com a imagem do cais de partida, o qual é o interlocutor da voz poética. Nele não há nenhuma ausência, e o movimento dos homens que carregam o barco é descrito como um ritual. Os búzios, tipo de conchas usadas para produzir instrumentos de som, como uma espécie de buzina, fazem um “surdo rumor”. É nesse ambiente que os marinheiros se reúnem para partir com alegria e entusiasmo em direção ao mar e suas ondas. A presença desses homens no cais une-se à alegria de “ir ver o êxtase do mar”, cujos elementos são trazidos a partir de metáforas de animais: as ondas são cães e cavalos.
Os “cães” podem ser lidos como ondas que avançam, e o cavalo é uma imagem ligada às ondas pelo seu movimento ao se levantarem movidas pelo vento e pela maré. O cavalo, assim como o cão, dá à onda uma imagem robusta e forte, um pouco selvagem, onde há gritos e perigos. O mar atrai os marinheiros, mas é também um desconhecido. Suas ondas tornam-se crinas e sua espuma um colar que adorna esse selvagem elemento.
O diálogo com o cais continua na segunda estrofe, na qual a voz poética descreve as velas das embarcações como impetuosas, elas unem em si, ao mesmo tempo, a rapidez e a violência. São as velas que rasgam as ondas no mar no movimento do desbravar. O momento de partir é o da plenitude, é quando os homens estão completos pela euforia e pelo desejo de descobrir e de conquistar. A hora da partida é livre e clara, termos recorrentes na obra Sophia Andresen. O tempo é o da liberdade, que se acentua pela clareza, a qual pode ser lida como a luminosidade do momento da partida, geralmente o dia, ou como a clareza da determinação, da certeza daquilo que motiva os marinheiros, ou seja, sua força desbravadora.
Os últimos versos encerram-se na imagem do Lusíada “que parte para o universo puro”, ou seja, o mar selvagem e a terra indômita, puros como a natureza os definiu. Na partida, os marinheiros saem leves e eufóricos, não tocados pelo medo ou pela morte, acreditando em seu predestinado caminho de desbravar o mar. Sua alegria não cede à desconfiança da traição que os perigos do mar e da terra revelam, mas eles não desconfiam também da extensão que as grandes navegações teriam no futuro. São marinheiros puros que ainda não sabem da grandeza que conquistarão para sua nação lusitana. Por isso, eles partem “Sem nenhum peso morto, sem nenhum obscuro/ Prenúncio de traição sob os seus passos”.
O caráter de esperança e veemência das navegações que aparece no “Poema inspirado...” contrasta com a perspectiva sombria do poema “Regresso”, o qual opõe
o luminoso tempo das descobertas ao presente sombrio e moribundo do regresso dos soldados vindos da guerra do ultramar, náufragos recém-chegados de uma batalha que ninguém vence: “Portugal tão cansado de morrer”.243
Assim, o grande símbolo das navegações tem nos poemas a imagem da partida, cheia de ilusões e esperança, e o regresso, que aparece desesperançoso e agônico.
Esse poema estrutura-se na forma de um longo questionamento, quase um diálogo, entre a voz poética e interlocutor grandioso, a nação portuguesa, cuja referência aparece por meio do pronome possessivo “vosso”. A voz poética pergunta a seu interlocutor quem cantará o regresso, mas essa volta não é algo alegre, é o regresso morto. Aquele que foi regressou morto, e o seu corpo pesa pela desilusão e pela própria morte. Que honra há nessa morte para que ela seja cantada?


A morte é cantada como glorificação do sacrifício dos navegadores que morrem e nunca voltam à sua terra em nome da conquista de novos territórios. O canto à morte desses homens é parte essencial da literatura portuguesa, sobretudo no épico Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, e na obra Mensagem, de Fernando Pessoa. No entanto, em “Regresso”, a voz poética promove uma reflexão incisiva: quem cantará o retorno da morte? Que honra há nesse canto? Como observa Helena Malheiro244, “Regresso” pode ser lido como eco do poema “Nevoeiro”, de Mensagem:
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer245

Portugal, em “Regresso”, aparece por meio de seu retorno morto e de seu corpo, que pesa pela morte e pela desilusão. Na leitura em conjunto com o poema I, podemos ler esse corpo como a pessoa coletiva dos desbravadores que representam Portugal: o êxtase de outrora tornou-se morte e desilusão.
Esse sentimento incita uma ampla reflexão: se pensarmos nos marinheiros de “Poema inspirado...”, temos a ilusão daqueles que se lançaram ao mar cheios de expectativas, tomados pela “alegria de ir ver o êxtase do mar”. A euforia das navegações – pelo desbravar de novas regiões e pela fama dessa conquista – levou muitos portugueses a essa missão, consolidando o passado glorioso e rico do país, o qual se baseou, durante muitos séculos, em seu poderio marítimo e na construção de um império.
Os agentes desses trabalhos têm suas mortes cantadas, a agonia de morrer transforma-se na imortalidade da honra. O medo dos perigos do mar, das tormentas e de ambientes desconhecidos engrandecem o feito da descoberta, e os riscos enfrentados e superados em nome do país, por meio de muitas mortes, fazem das navegações e das descobertas um dos maiores símbolos da identidade portuguesa, como afirma a voz poética de Pessoa no poema “Primeiro / D. Sebastião”246:
Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.

Mas, em “Regresso”, o arquétipo das navegações aparece por meio do questionamento sobre a grandeza desse símbolo, na medida em que ocorre uma “quebra” do ideal de gloria promovido historicamente pelas conquistas e pelo império estabelecido por Portugal. Assim, os navegadores são ao mesmo tempo a força e a morte, a coragem e a tristeza. E, se eles representam a nação portuguesa, o próprio país apresenta-se por essa antítese. Nesse sentido, o aspecto dúbio da figura dos desbravadores se estende à glorificação das navegações que representam a força e a grandeza de uma nação que se torna morte.
Essa ideia é mais bem explicada na segunda estrofe, na qual temos um Portugal que foi, mas regressa morto e desiludido, o que é reforçado pela questão temporal marcada: “Portugal tão cansado de morrer / Ininterruptamente e devagar / Enquanto o vento vivo vem do mar”. É possível fazer um paralelo, a partir de “tão cansado de morrer”, com uma ideia de linearidade temporal: a nação morre aos poucos, mas progressivamente. A que mortes fazem referência esses versos? Podemos pensar nas mortes causadas pelas Navegações, os valentes desbravadores que morreram no mar, nas terras novas, nos caminhos e lutas para a sua conquista. Afinal, esse era o destino sagrado do português, unir toda a terra separada pelo mar, como diz a voz poética pessoana:
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.247

Este era o fado português: a conquista das terras e a criação de um império formaram o ideal de seu povo. Mas essa consagração veio à custa de muitas mortes. E outras tantas causou. O Império Português e a morte caminham juntos: muitos homens morreram para que a conquista nascesse e vivesse, mas agora a voz poética andreseniana questiona: o ideal vive ou ele vem morrendo, uma vez que a nação está cansada de tantas mortes?


Tal ideia nos leva a pensar a morte de Portugal como uma metáfora para a estagnação do país no contexto em que Sophia Andresen elabora seu poema: a ditadura militar. Portugal, seguido da Espanha, apresenta seu passado glorioso e um feito que modificou toda a estruturação mundial, e não conseguiu manter essa grandiosidade em seu desenvolvimento. O triunfo do passado, porém, desvanece morrendo aos poucos, enquanto o mar continua a soprar seus ventos. A glória cantada no presente é a grande conquista de outrora, pois o país há, tempos estagnado, tem sua imagem pautada em um feito que não se aplica mais à realidade lusitana, algo já cantado por Fernando Pessoa no poema “I. O infante”:
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal.248

A voz poética de Pessoa afirma que faltou a Portugal cumprir-se. E essa ideia é resgatada por Sophia Andresen na morte contínua expressa no verso “Portugal tão cansado de morrer”. É a decadência do país presente na fala da voz poética. É um povo que foi “farol dos mundos”, como observa Eduardo Lourenço, e está “agora convertido na ‘lanterna vermelha das nações civilizadas’”.249 O presente não apresenta mais a grandeza do passado, pois o seu trunfo não foi sustentado, foi se perdendo aos poucos.
Essa imagem da morte lenta da nação lusitana torna-se ainda mais forte se considerarmos que Portugal, no final do século XIX250 volta a ser visto como uma nação colonizadora, dessa vez no continente africano. No século XX, a relação de Portugal com os territórios de Moçambique e Angola é extremamente intensificada, o que leva a movimentos de resistência e combate nesses locais. No final da década de 1950, na qual Mar Novo é publicado, as Forças Armadas de Portugal passam a enfrentar uma série de conflitos ligados à manutenção dessas terras, levando à morte de muitos portugueses e africanos.
Essa tensão também pode ser recuperada pela imagem de “Portugal tão cansado de morrer”. O império português é uma antítese da glória à custa de vidas, e esse modelo não traz mais o triunfo à nação, e sim a perda da vida de muitos homens, estagnação política e econômica, analfabetismo e miséria. Na segunda metade do século XX, as antigas colônias europeias vêm lutando por sua independência. Não há mais força no papel da metrópole colonizadora. Porém, Portugal mantém-se nessa posição, acreditando na grandiosidade de um império que não mais existe. Temos, assim, a morte denotativa de homens, e o símbolo de grandeza e glória se desfaz.
O vulto do Império, de sua grandiosidade e de sua influência marca a importância histórica de Portugal, no entanto ela não é o presente, e sim o passado. Como observa Eduardo Lourenço,
Das duas componentes originais de nossa existência histórica – desafio triunfante e dificuldade de assumir tranquilamente esse triunfo – aprofundámos então, sobretudo, a nossa “dificuldade de ser” [...], a histórica dificuldade de subsistir com plenitude política. Tornou-se então claro que a consciência nacional [...], a nossa razão de ser, a raiz de toda a esperança, era o “termos sido”.251

É este o questionamento de “Regresso”: quem há de cantar essa morte sem glória, envolta em lágrimas e desilusão? A antítese da segunda estrofe reforça o peso dessa morte: a vida vem do mar, através dos ventos. O mar, grande símbolo do império português, vive. A nação é que morre lentamente. A lentidão desse processo contrasta com o movimento vivo do mar e do vento. Esse conflito intensifica a estagnação e a decadência se estende em Portugal.
Tal indagação torna-se mais intensa se pensarmos que ela ocorre durante a ditadura salazarista, ou seja, momento em que os símbolos nacionais portugueses são enaltecidos como forma de fortalecimento do nacionalismo. O governo de Salazar baseava-se na exaltação dos valores “Deus, pátria e família”. Como em muitos outros governos autoritaristas, Salazar e o Estado Novo “apostavam na educação para manipular opiniões para uma ação e comportamento dentro da ideologia que se pretendia implementar e desenvolver na sociedade portuguesa”252. Além disso, o governo salazarista buscou moldar a imagem do bom português recuperando a figura do homem da época das grandes navegações, como observa Paula Morais:
Ao longo de cerca de quarenta anos, o regime ditatorial português procurou implementar uma imagem ideológica do país que funcionasse como um meio de congregar toda a população, na medida em que cada português se identificaria com esse retrato. Se a partir de meados do século XIX se criou a consciência de que cada povo teria traços identitários que os distinguiriam de todos os outros, emergindo as chamadas identidades nacionais, no Portugal salazarista vai implementar-se a construção de discursos sobre o país e os seus habitantes que vão privilegiar um conjunto de características reveladas nos portugueses de épocas anteriores, mais concretamente a dos Descobrimentos. Recuperando uma imagem de Portugal que, desde sempre, tem acompanhado o percurso evolutivo deste país, o Estado Novo difunde-o como algo novo e impossível de ser questionado ou refutado, uma vez que esse construto emana dos detentores do poder e, por isso mesmo, ele é visto como legítimo.253

O culto à pátria e a seus símbolos históricos funciona como um mecanismo de aparência agregadora e integradora, mas, na prática, é um instrumento de manipulação ideológica para a manutenção da ordem e do poder autoritário. Assim, a morte na segunda estrofe também pode simbolizar o cerceamento do pensamento e a controle ideológico que esse regime impunha a seu povo.
Nesse contexto, podemos pensar numa relação temporal que contempla passado, presente e futuro. O passado refere-se às conquistas marítimas e às gloriosas navegações que modelam o povo português, construindo sua cultura, seu reconhecimento e seu território. O presente relaciona-se ao questionamento desses símbolos e ao significado da ruptura do povo com sua terra causado pela ditadura. O futuro pode ser entendido a partir da continuidade da morte dada pelos versos “Portugal tão cansado de morrer / Ininterruptamente e Devagar”. O povo parece agonizar na repetição de estruturas já condenadas por outras nações europeias, como a colonização. A sua força criadora, “A antiga linha clara e criadora / Do nosso rosto voltado para o dia”, é abafada pela imagem trágica de Portugal por meio dos “senhores sombrios desta noite”. A grandeza de Portugal se arrefece continuamente nesse momento obscuro e de agonia que a ditadura instaura no país.
O porvir aparece pelo olhar de descrença da voz poética, a qual mostra que o caráter de força e conquista do povo português, denotado pela imagem da “antiga linha clara e criadora / Do nosso rosto voltado para o dia” está assombrado pela agonia do presente e desviado pela morte que parece ser o destino de sempre da nação. A imagem de “nosso rosto voltado para o dia” é uma metáfora para o povo português. Os dois últimos versos do poema falam da força de um povo criador que está abafada pela agonia do presente. Essa ideia pode ser relacionada ao poema “Os castelos”, de Fernando Pessoa, em que Portugal aparece como o rosto da Europa:
[...]
Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.254

Através do olhar português, a Europa olha para o Ocidente, a América, que representa o “futuro do passado”, isto é, o Novo Mundo em relação ao Velho. O pequeno país redimensiona o continente europeu, trazendo-lhe novos domínios e novas conquistas. Portugal projeta no Ocidente um futuro resultante dos seus grandiosos planos de conquista, a partir de um olhar “esfíngico e fatal”.
Esse olhar pode ser lido a partir da noção enigmática que o termo “esfinge” suscita, pois se refere a um “monstro fabuloso com corpo, garras e cauda de leão, cabeça de mulher, asas de águia e unhas de harpia, que propunha enigmas aos viandantes e devorava quem não conseguisse decifrá-los”.255 Assim, o adjetivo sugere, ao mesmo tempo, a ideia de mistério e de voracidade, o que é intensificado pelo adjetivo “fatal”. É dessa maneira que a voz poética pessoana descreve Portugal, já que a nação é o rosto que observa o Ocidente.
No poema andreseniano, Portugal também aparece a partir da ideia do rosto, cuja linha clara e criadora está voltada para o dia, porém é antiga. A linha pode ser lida como a força motivadora e transformadora que levou os homens portugueses a aventurar-se e a desbravar o mundo, trazendo triunfos essenciais para a sua nação. No entanto, esse caráter é marcado pelo adjetivo “antiga”, pois no presente o povo está oprimido e subjugado pelos “senhores sombrios desta noite”. O termo “desta” reforça uma noção de presente no poema, mostrando que o momento atual é assombrado pela agonia, colocando também em dúvida o futuro. O “nós” – de o “nosso rosto” – parece agonizar na sua força de criar o futuro – compreendido pela imagem do dia, ou seja, do novo começo. Assim, a voz poética questiona o porvir de uma nação em que o presente está tomado pela agonia, pela noite e pela morte.
Regresso” é elaborado a partir de imagens em tensão – a vida e a morte, o dia e a noite e a claridade e a sombra – as quais fortalecem o questionamento sobre o futuro a partir de um presente desolador. Esse conflito também aparece na estrutura do poema de uma forma mais abrangente. Observamos duas estrofes formadas por três versos e, ao fim, uma formada por cinco versos. O esquema rímico não é regular, mas os versos são decassílabos. No entanto, o último verso rompe com essa estrutura, pois apresenta onze sílabas métricas.
Os decassílabos de “Regresso” nos lembram dos versos de Os Lusíadas, mas apresenta uma quebra do esquema métrico, justamente porque não é mais possível cantar a grandeza de Portugal na mesma forma que outrora. Os versos em dez sílabas métricas trazem todo o questionamento sobre o passado e o presente de Portugal em conflito com um futuro de desesperança. O único momento256 em que o verso afasta-se da forma, assumindo onze sílabas, é quando aparece um traço positivo do texto: o povo português: “a antiga linha clara e criadora / Do nosso rosto voltado para o dia”. Assim, o desequilíbrio formal ao fim do poema sugere a desarmonia que assola a nação.
Regresso” nos apresenta o canto trágico de uma voz poética que apresenta sua nação esmagada pelas lágrimas e pela desilusão de um contexto assombrado pela agonia e pela opressão. É o questionamento de um presente que se pauta pela grandeza de um passado que não se manteve, que foi, aos poucos, morrendo. É o canto de angústia de alguém que vê sua nação estagnada e decadente em razão de um regime que transformou tudo em noite. As questões levantadas pelo poema dialogam com outros dois textos inseridos em Grades: “Lusitânia” e “Soldado Morto”. Sobre o passado de conquistas das navegações, temos no primeiro poema a condição dos desbravadores que sobrevivem com pouco, mas avançam mar adentro:
Os que avançam de frente para o mar
E nele enterram como uma aguda faca
A proa negra dos seus barcos
Vivem de pouco pão e de luar257.

A quadra, também retirada de Mar Novo, traz a imagem dos navegadores a partir de seu movimento de lançar-se ao mar. Aparecem no primeiro verso pela sua coragem ao avançar “de frente para o mar”, desafiando seus perigos e impondo o seu ímpeto desbravador. Esse impulso é, porém, marcado pela violência do segundo e terceiro versos, nos quais os barcos dos bravos marinheiros aparecem como uma “aguda faca” que é enterrada nos mares. A coragem de jogar-se ao mar é intensificada e torna-se mais agressiva com a comparação feita a partir da imagem “aguda faca”, promovendo, assim, uma noção dupla do desbravamento: ele representa ao mesmo tempo a coragem da nação, mas a sua violência desse processo.
Esse caráter dúbio também aparece na antítese do verso final: esses navegadores vivem de “pouco pão e de luar”. A pouca quantidade do alimento contrasta com a grandiosidade da luz da lua, que, em noites escuras no mar, toma uma extensa dimensão. O luar também é uma imagem lírica que abranda o caráter violento das navegações, e “pouco pão” também ameniza a agressividade dos homens que enterram seus barcos no mar, dando a eles uma leitura mais humanizada. Apesar desse abrandamento, temos na simples quadra uma intensa reflexão sobre a imagem das navegações que promove o questionamento sobre a que custo o grande símbolo português se consolidou.
Tal questionamento mantém-se em Grades a partir de uma imagem posterior às navegações: o Império Português. Temos, além de “Regresso”, o poema “O Soldado Morto”, também extraído de Mar Novo, que se relaciona aos conflitos armados já citados que ocorriam entre Portugal e suas colônias africanas no final da década de 1950:
Os infinitos céus fitam seu rosto
Absoluto e cego
E a brisa agora beija a sua boca
Que nunca mais há-de beijar ninguém.

Tem as duas mãos côncavas ainda
De possessão de impulso de promessa.
Dos seus ombros desprende-se uma espera
Que dividida na tarde se dispersa.

E a luz as horas as colinas
São como pranto, em volta do seu rosto
Porque ele foi jogado e foi perdido
E no céu passam aves repentinas.258

A morte dos navegadores mantém-se naquela dos soldados que lutam pelo controle dos territórios ultramarinos portugueses. Na primeira estrofe, observamos uma antítese entre a infinitude do céu e a finitude da vida do homem. Os seus olhos não mais veem e sua boca não mais beijará, somente a brisa agora tocara seus lábios. Os versos nos remetem à imagem de um corpo estendido e inerte no chão ao vento, a qual é reforçada pela antítese da passividade do homem e da ação do vento – a brisa que o beija.
Na segunda estrofe, as mãos do soldado inerte apresentam-se ainda côncavas “De possessão de impulso de promessa”, ou seja, estão curvadas ainda na forma da arma que segurava. As promessas se referem aos discursos de glória que o poder e a vitória em uma batalha podem oferecer a um guerreiro, mas ao soldado só ofereceu a morte. Sua vida interrompida enche-se de promessas que nunca poderão ser cumpridas. E é essa espera que se solta dos ombros do homem já caído no chão, enquanto a tarde passa.
Somente a natureza vela seu cadáver, que parece abandonado na terra em que caiu. A voz poética apresenta um corpo que não mais possui nada. Nem pessoas que choram ao seu redor. A morte aproxima o homem da natureza, cujos ensejos dispersam-se na tarde, e apenas o tempo e a natureza rodeiam seu corpo, que foi “jogado e foi perdido”. De vida, há somente as aves que passam rapidamente pelo céu. Assim, em “Regresso” e em “O soldado morto” a agonia da morte aparece de forma antitética à vida da natureza e podemos aproximar a morte tanto dos navegantes como dos soldados como um questionamento do símbolo português do império.
Essas reflexões dialogam com o instável período que Portugal enfrentava na época da publicação de Mar Novo. O Exército português, por um lado, preparava-se para um possível conflito armado entre Europa e os soviéticos, por outro, mantinha alguns soldados na África (cerca de sete mil para cada território ultramarino), justamente para tentar controlar possíveis guerrilhas. Entretanto, como já observamos no capítulo 2 deste trabalho, o Exército português não estava bem preparado nem para um combate em suas colônias, nem para um conflito mundial. Haviam ainda ocorrido na mesma década massacres contra os nativos de São Tomé (Massacre de Batepá), em 1953 e de Guiné, em 1959. A situação era pouco estável, e os soldados e nativos enfrentavam a presença constante do conflito.
Podemos estender as antíteses entre vida e morte e entre conquista e perda dadas por Sophia Andresen às navegações, em “Regresso”, para os soldados responsáveis pela manutenção do império português, em “O Soldado Morto”, situação que causou muitas perdas e angústia às nações envolvidas:
Portugal manteve com as suas então colónias de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau uma Guerra Colonial, mobilizando perto de um milhão de homens e tocando praticamente todas as famílias portuguesas. A experiência da participação portuguesa neste evento de indefinida colocação historiográfica, quer pela denegação que oficialmente o caracterizou, quer pela radical reformulação geopolítica do país que a partir dele se engendrou com a descolonização, tornou este acontecimento um dos mais complexos, mas também um dos mais trágicos eventos da contemporaneidade portuguesa.259

Assim, Portugal é inserido em Grades a partir de um questionamento sobre o amplo processo político-econômico das grandes navegações e sobre as consequências da colonização portuguesa, tanto para o país como para os seus homens.
Os poemas do primeiro eixo da coletânea aparecem por meio de referências que denunciam e questionam o aspecto político de importantes culturas que formaram o pensamento ocidental. Temos vultos históricos – como Catilina – que apresentam sua política comprometida pela injustiça, pela degradação causada pelo poder, pela corrupção e pela mentira, aspectos desempenhados por grupos ideologicamente fortalecidos como os fariseus. As sociedades em que esses vultos estão inseridos, Roma e Jerusalém, representam elementos fundamentais para o desenvolvimento da Europa e, consequentemente, do Novo Mundo, como o Direito Romano e a religião cristã. Nesse sentido, questionar a política dessas culturas é apontar uma reflexão direta à política do Ocidente, sobretudo a portuguesa.
Portugal, que também se consolida historicamente como uma sociedade importante para a formação do Ocidente, aparece nesse contexto em reflexão. Sophia Andresen retoma o feito histórico e de construção da nação portuguesa para, a partir disso, recolocar Portugal do seu tempo, um país que se mantém na angústia, sendo destruído aos poucos nas mãos de um governo ditatorial que sustenta seu poder por meio da violência e da opressão, abalando, portanto, a possibilidade de construção de um futuro.

Grades: uma leitura do projeto po-ético de Sophia de Mello Breyner Andresen, Nathália Nahas. Dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2015

_________________
239 Segundo consta na Obra Poética, edição de Carlos Mendes de Sousa, 2.ª ed. Alfragide: Editorial Caminho, 2011, p. 346.
240 No livro Mar Novo, esse verso aparece de forma diferente: “Euforia desdobrando os seus gestos na hora luminosa”. A maneira como aparece em Grades é uma forma de enfatizar, além da luz e da clareza, a liberdade.
241 ANDRESEN, S., Grades. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1970, 17-18.
242 ANDRESEN, S., 1970, 19.
243 MALHEIRO, Helena, O Enigma de Sophia: da sombra à claridade. Alfragide: Oficina do Livro, 2008, p. 106.
244 Ibidem.
245 PESSOA, Fernando. Mensagem. Lisboa: Edições Ática, 1972, p. 104. In: MALHEIRO, 2008, p. 369.
246 PESSOA, F., Mensagem. São Paulo: Martin Claret, 2006, p.51.
247 PESSOA, F., 2006, p. 39.
248 Ibidem..
249 LOURENÇO, Eduardo, Labirinto da Saudade. 7. ed. Lisboa: Gradiva, 2010, p. 91.
250 Em 19 de novembro de 1884 e 26 de fevereiro de 1885, houve a Conferência de Berlim, a qual tinha como objetivo organizar a ocupação da África pelas nações europeias. Portugal apresenta, durante a Conferência, uma proposta de unir os territórios de Moçambique e Angola, para facilitar o comércio nas colônias e fortalecer seu controle, mas o plano não se concretiza, pois a Inglaterra, contrária ao projeto, pressiona-o. Como resultado da Conferência, o processo de ocupação militar das colônias africanas de Moçambique e Angola é intensificado e as relações coloniais são fortalecidas.
251 LOURENÇO, E., 2010, p. 28.
252 CAMPINA, 2013, p.297.
253 MORAIS, P., 2005, p. 04.
254 PESSOA, F., 2006, p. 19.
255 Dicionário Eletrônico Houaiss.
256 O verso “Quem são os vencedores desta agonia” é considerado decassílabo a partir da licença poética da autora que une, na separação, “são” a “os”, formando uma única sílaba métrica.
257 ANDRESEN, S., 1970, p. 23.
258 ANDRESEN, S., 1970, p. 15.

259 RIBEIRO, M.; VECCHI, R., 2012, p. 28. 


quinta-feira, 11 de julho de 2019

A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo



A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,

A guerra, que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.

A guerra, como tudo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.

Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer-alterar.

Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.

Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.

A química direta da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.

A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.

Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem,
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!

24-10-1917
“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).
  - 96.


[…] refira-se que Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro escreveram um número indeterminado de poemas, talvez duas dezenas, sobre o tema da guerra, parte deles em 1915-1917. Neles o autor aparece sempre não como um ideólogo ou um pensador político, mas como alguém imparcial e “comovido com os sofrimentos inúteis dos povos e dos indivíduos”. Esta apreciação é de Georg Rudolf Lind, no seu já aqui citado artigo de 1972 em que se debruçou sobre apenas oito desses poemas (1981: 445‑447). Desde esse estudo pioneiro, outros poemas e fragmentos de poemas sobre a guerra surgiram da arca pessoana, com matéria suficiente para novos estudos sobre o mesmo tema. Não nos ocupamos deste assunto aqui, mas sim do pensamento político ou sociológico de Fernando Pessoa sobre a guerra. Foi, no entanto, com alguma surpresa que cotejámos essa poesia com as prosas pessoanas sobre a Grande Guerra. O poeta Fernando Pessoa preocupa-se com a dor humana, com as vítimas inocentes que a guerra faz, com o absurdo das mortes vãs e com a monstruosa desumanidade que a guerra desperta nos homens. Tenhamos em mente trechos da “Ode Marcial” de Álvaro de Campos ou os poemas do ortónimo como “O menino de sua mãe” e “Tomámos a vila depois de um intenso bombardeamento”.16 Alberto Caeiro, por sua vez, condena expressamente a guerra, todas as guerras, num poema caracteristicamente pacifista, “A guerra, que aflige com seus esquadrões o mundo...” (Pessoa, 1994: 142)17. Ora o pensador e ensaísta Fernando Pessoa nunca se preocupa com esses aspetos. Defende o direito da força, porque diz não nem pode haver um tribunal que julgue as nações ou os Estados.18 A Bélgica mártir não lhe inspira compaixão, porque a Bélgica seria “um Estado absurdo”, sem razões para existir.19 Quanto aos gases asfixiantes usados pelos alemães, justifica-os: “Repare-se que a Alemanha luta pela vida, com tudo contra si...” (in Pizarro, 2006: 107).20 Num texto a que adiante voltaremos, Pessoa chama mesmo à Alemanha “glorioso império construído a sangue e fogo, glorioso de dureza e impassibilidade”. Para o pensador Pessoa, a guerra é matéria de reflexão racional, que ele diz pretender analisar com a frieza de um sociólogo, sem cedências a sentimentos humanitários nem partis pris patrióticos. “Escrevo como se não tivesse alma, mas apenas pensamento” faz dizer Pessoa a António Mora na “Dissertação a favor da Alemanha” (BNP/E3, 28-­18r, ver aqui Fig. 3). Nesse quadro, os sentimentos, as ideias humanitárias ou o pacifismo desinteressam a Pessoa, que os considera, eventualmente, como objetos de análise crítica. À diferença de outros poetas modernistas europeus, Pessoa nunca fez poesia belicista ou exaltadora da guerra21, mas na prosa ensaística que produziu durante a Grande Guerra assumiu uma clara insensibilidade aos horrores da guerra.

Notas:
16 A “Ode Marcial”, atribuída a Álvaro de Campos e deixada inédita, é datável de 1914-­‐‑1915 ver Pessoa (2014: 152-­163 e 620-­625). Os outros dois poemas foram publicados apenas na década de 1920 (Pessoa, 1926 e 1929), mas Lind (1981: 440) sustenta que  foram  escritos  durante  a  Grande Guerra. Tal hipótese não se confirma, que pelo menos o poema “Tomámos a vila depois de um intenso bombardeamento” está datado no original manuscrito de 21‑6‑1929 (BNP/E3, 118-­57r).

17 Datado de 24 de Outubro de 1917.

18 Num acrescento manuscrito à segunda versão da resposta a João de Barros (BNP/E3, 135-­20r).

19 Ver “Argumentos a favor da germanofilia” (BNP/E3, 144X-­12v a 14v), publicado em Pizarro (2006: 105‑107).

20 Opinião semelhante foi então expressa por Júlio Dantas. Falando sobre os gases de cloro usados como arma pelos alemães, escreveu: “Um povo como o alemão, quando joga, numa cartada suprema, o seu destino e a sua vida, não pode escolher, generosamente, os processos de extermínio que adopta. [...] Devemos concluir, por isso, que é ignóbil a Alemanha? Não. O que é ignóbil é a guerra” (Dantas, 1915: 609).

21  Dúvidas sobre esta afirmação poderão surgir lendo o poema “Na ponta de cada baioneta luzem os  olhos  de  Kant..."ʺ  (BNP/E3,  144X‑66r),  publicado  em  Pizarro  (2006:  104),  e  certos  trechos  de rascunho para a  “Ode Marcial”, como  “Ave guerra, som  da luz  e do fogo...”  (BNP/E3, 64-­‐‑42r), publicado em Pessoa (2014: 359), mas não são, a nosso ver, casos claros de poesia exaltadora da guerra.

José Barreto, “Fernando Pessoa ‒ germanófilo ou aliadófilo? - Um debate com João de Barros que não veio a público” in Pessoa Plural: 6 (O./Fall 2014). Disponível em: https://www.ics.ulisboa.pt/file/5346/download?token=F6Cr8bAX

Niclas Hammarström, 2013


ODE MARCIAL

Inúmero rio sem água — só gente e coisas,
Pavorosamente sem água!

Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!

Helahoho! helahoho!

A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta...
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,

Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.

Helahoho! helahoho!

Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração.

Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles
Que matou, violou, queimou e quebrou.
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso com uma sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito.

E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente.

Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar
E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.

Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe.
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos.

Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o.
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.
Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.

Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviuve e a quem aconteça isto?

Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo.
Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém!

s.d.
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
  - 304.


Os problemas políticos do tempo de Fernando Pessoa também o interessaram muito, pois conforme ele próprio afirma, “todas as questões sociais , todas as perturbações políticas, por pouco que com elas nos preocupemos, entram no nosso organismo psíquico, no ar que respiramos psiquicamente, passam para o nosso sangue espiritual, passam a ser, inquietamente, nossas como qualquer coisa que seja nossa”.1 Por isso, Fernando Pessoa escreveu muitos textos sobre várias questões sociais e perturbações políticas, e de que ele fala e critica também nos seus textos literários,  que estão reunidos neste livro : a nível internacional, por exemplo o colonialismo inglês, a escravização da Etiópia pela Itália, a Primeira Guerra Mundial,  a Revolução Russa de 1917, e o fascismo de Mussolini. A nível nacional, a crise final da Monarquia, a instauração da República, os Governos saídos da República, o consulado do Presidente Sidónio Pais, o seu assassinato e o período subsequente, a intentona militar de 18 de Abril de 1925, a agonia da Primeira República, a Ditadura Militar, o Estado Novo, Salazar, e outras personalidades políticas portuguesas (João Franco, Afonso Costa, etc.).
Além de literatura sobre política, Fernando Pessoa também escreveu ensaios sobre política (já publicados). No entanto, nem mesmo nos seus ensaios sobre política (como aliás sobre qualquer outro tema), existe um pensamento sistematizado, mas antes uma mistura de assuntos, muito dispersos, sem sequência lógica, e por vezes contraditórios. Fernando Pessoa tem textos que revelam ser um nacionalista, e outros um internacionalista, uns em que mostra simpatia pelo liberalismo, e outros em que o critica, e até mesmo em relação ao comunismo, que ele critica em alguns dos seus textos, diz o seguinte : “Serve melhor à pátria um grande poeta comunista ou imoral, que um pobre diabo que escreve poemas elogiosos sobre a batalha de Aljubarrota” (apesar de Fernando Pessoa ser um nacionalista). Nenhum dos seus textos sobre política permite extrair a conclusão de que ele era desta ou daquela ideologia política, pois tanto pode falar bem como mal de determinados assuntos políticos, como sucedeu por exemplo em relação ao liberalismo. Conforme o próprio Fernando Pessoa afirma, um escritor ao ocupar-se de política “deve fazer o possível, se quer estar de acordo com o seu mister, por compensar a oscilação num sentido por uma oscilação no oposto. O ideal de um escritor consciente do seu mister, e que porventura escreva sobre política, é apresentar um dia os aspetos positivos, ou negativos, de uma doutrina, no outro dia os aspetos positivos, ou negativos, da doutrina oposta. Aos políticos pertence o estarem fixos num ou outro polo do assunto. É este o mister deles, políticos.”2
Em todo o caso, após mergulharmos a fundo na sua vasta obra, conseguimos extrair algumas conclusões,  bastando ler aliás a sua obra literária: era contra as tiranias políticas, o totalitarismo, as guerras, o comunismo, o fascismo, o salazarismo, o colonialismo, e o imperialismo,  e apesar da sua educação inglesa, criticou também o imperialismo britânico (por exemplo  nos poemas reunidos neste livro). Mesmo quase no final da sua vida, quando a invasão da Etiópia era anunciada pelo regime de Mussolini, com o argumento da existência de escravatura naquele país, escondendo esse argumento os interesses económicos e políticos do imperialismo italiano, invasão essa que que de facto chegou a acontecer, Fernando Pessoa criticou a Itália, conforme se pode ver no seu poema Dizem que vão apresentar, incluído no presente livro.
 Inicialmente  Fernando Pessoa simpatizou com o período político autoritário que deu origem ao Estado Novo em Portugal, cuja defesa fez no seu texto O Interregno, mas nele fazia a defesa de um “Estado de transição”, como a própria palavra indica, interregno esse para serenar os ânimos, necessário para acalmar as lutas existentes em Portugal entre Monárquicos e Republicanos, e as sucessivas quedas de Governos, e para fazer face à onda de estrangeirismo e à quebra do orgulho nacional, mas que conduzisse a um regime político que não se poderia basear na força nem na autoridade, mas sim na opinião.  Porém, ao verificar que o Estado Novo continuava, Fernando Pessoa escreveu que “O Interregno devia ser considerado como não existente”, e que “há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito”, e noutro texto disse sobre o texto O Interregno: “Dou esse escrito por não escrito”.   Ao ir conhecendo melhor aquilo que era o Estado Novo, tornou-se um crítico severo desse regime político, e de Salazar, assim com das ditaduras fascistas na Europa, como a de Mussolini, e de Hitler. Um dos melhores exemplos foi o seu empenho em criticar a proibição das Associações Secretas, feita pelo Estado Novo, sobre a qual escreveu e polemizou, e que rompeu definitivamente com o Estado Novo.

Notas:
1 Sensacionismo e outros ismos, Lisboa, Ed. Imprensa Nacional Casa a Moeda, 2009, p. 187.
2 BNP/E3, 92A – 7r

Fernando Pessoa, Obra literária sobre política (org. de Victor Correia), Lisboa, Ed. Sinapis, 2019.




Prefiro rosas, meu amor, à pátria,

Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.

Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.

Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,

Se cada ano com a Primavera
As folhas aparecem
E com o Outono cessam?

E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?

Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.

1-6-1916
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). 
 - 64.

Ainda que o assunto da ode não seja imediatamente percetível, é importante estabelecer desde logo que aquilo a que Reis renuncia logo no primeiro terceto, preferindo-lhes rosas e magnólias, é à guerra. Ao contrário do que acontece noutros momentos da sua obra, a fama em causa não é aqui a fama que resulta da atividade poética mas antes, como o comprova a proximidade com as outras duas coisas que não interessam a Reis (a pátria e a virtude), a fama que resulta das virtudes militares demonstradas em defesa da pátria. Se lida, aliás, lado a lado com a outra ode em questão, uma ode em que os dois  protagonistas preferem manter a concentração num jogo de xadrez mesmo quando a pátria  que supostamente deveriam defender é invadida por um agressor estrangeiro, essa circunstância parece adquirir plausibilidade. Vendo ainda que, na terceira estrofe, Reis defende que não importa “que um perca e outro vença”, tal plausibilidade passa a certeza.
A ode é, de resto, mais uma invectiva dirigida a Horácio, neste caso à exortação marcial à maneira de Tirteu que é a ode III.2 e, muito concretamente,  ao  famosíssimo  décimo terceiro verso dessa ode: “doce e belo é morrer pela pátria” [dulce et decorum pro patria mori] (Od., III.2). As duas odes de Reis, aliás, evidenciam uma aversão à atitude bélica celebrada por Horácio nessa ode que ganha em ser compreendida à luz de um acontecimento recentíssimo aquando da produção delas, a 1 de Junho de 1916: menos de três meses antes, a 9 de Março, a Alemanha declarara oficialmente guerra a Portugal. Ao contrário de Horácio, Reis não está interessado em exibir o seu patriotismo, não pretende alcançar a fama que se segue a essa exibição e encontra menos virtudes em proceder desse modo do que em colher flores. A guerra é inútil, pois a vida continua qualquer que seja o seu desfecho. Assim sendo, é preferível deixar que a vida (e a guerra) o não canse, passando por ele sem o modificar. A única coisa de que Reis não abdica, como se no final da ode, é o desejo de indiferença e a “confiança molle” (RR 133) na passagem do tempo, aquilo que, justamente,  constitui  a atitude que António Mora repudia e aquilo que sobressai do lazer  a  que  os  jogadores  de xadrez, na segunda ode que importa discutir, se consagram com indefectível devoção.
Ora, “Os Jogadores de Xadrez” (BNP 51-25r a 26r) é diferente de todas as outras odes de Reis na medida em que não é bem uma ode: além de não dialogar com uma segunda pessoa, como é hábito, Reis abusa invulgarmente da descrição, contrariando a  tendência normal na sua obra, talvez adquirida por Pessoa o  ter  feito  médico,  para  a  prescrição.  O epodo é assim que Mora se refere ao poema começa com uma estrofe que mais não é do que o mote das restantes, na medida em que anuncia de modo muito abreviado o que depois será descrito em pormenor. Nessa estrofe, Reis diz ter ouvido contar uma história antiga, “quando a Pérsia / tinha não sei qual guerra” (RR 129), sobre “dois jogadores de xadrez” que “jogavam / o seu jogo contínuo” enquanto “a invasão ardia na Cidade / e as mulheres gritavam” (RR 130). As três estrofes seguintes são exclusivamente descritivas, e apresentam a diferença radical entre a tranquilidade do jogo de xadrez (e dos jogadores que nele permanecem concentrados) e o tumulto do que se passava à volta. Assim, em contraste com as atrocidades que iam acontecendo (“ardiam casas, saqueadas eram / as arcas e as parêdes, / violadas, as mulheres eram postas / contra os muros cahidos, / trespassadas de lanças, as creanças / eram sangues nas ruas”), os jogadores permaneciam folgadamente à “sombra de
ampla arvore” fitando “o taboleiro antigo” e refrescando “a sua sóbria sede” com “um pucaro de vinho”. E mesmo que o massacre lhes desviasse a atenção do jogo, mesmo que “nas mensagens do ermo vento / lhes viessem os gritos, / e, ao reflectir, soubessem com acerto / que por certo as mulheres / e as tenras filhas violadas eram / nessa distancia proxima”, os jogadores de xadrez rapidamente “volviam  sua attenta confiança / ao taboleiro velho” (RR
130).
Note-se que fazer suceder à indiferença com que se lida com que o que nos é exterior
uma “attenta confiança” a outra coisa qualquer é exactamente igual a fazer suceder-lhe uma “confiança molle” (RR 133), que é o que Reis lhe faz suceder na última estrofe da ode que comentei antes desta. Significa isto que  a indiferença dos jogadores de xadrez, como  a de Reis em geral, não é propriamente a indiferença estóica; à atitude da indiferença soma-se a atitude da confiança, seja ela atenta ou mole, numa  outra  coisa.  E,  tanto  na  ode  “Prefiro rosas, meu amor, á patria” como em Os Jogadores de Xadrez”, essa outra coisa em que se deposita a confiança pertence a um tempo diferente. Se a indiferença que Reis e os jogadores de xadrez manifestam diz respeito a um presente que lhes solicita as virtudes marciais, a confiança que  se  segue  a  essa indiferença é  direccionada para um  passado  qualquer, para uma “hora fugitiva” (RR 133) ou para um tabuleiro de xadrez que se  distingue  por  ser “antigo” ou “velho” (RR 130). As três estrofes que se seguem representam, de certo modo, essa passagem da indiferença à confiança, e nelas parece ser sugerido que o dever de cada um é para com o jogo que joga e nada mais:

Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das creanças?
Quando a torre não cobre
A retirada da rainha branca,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada leva o cheque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que longe
Estejam morrendo filhos.

Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
D’um guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue alli cahir
O jogador solemne de xadrez,
O momento antes d’esse
É ainda entregue ao jogo predilecto
Dos grandes indiff’rentes.

Caiam cidades, soffram povos, cesse
A liberdade e a vida,
Os haveres tranquillos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem cheque,
E o de marfim peão mais avançado
Prompto a comprar a torre. (RR 131)

O que realmente é aflitivo, para um jogador de xadrez, não é saber que as irmãs, as mães e as crianças estão em perigo, que “lá longe / estejam morrendo filhos” ou que a cidade esteja a ser saqueada, mas ter o rei em xeque, não poder proteger a retirada da rainha com a torre ou não ter peça com que ameaçar o rei adversário. A própria vida do jogador de xadrez, mesmo que a poucos instantes de findar, não é nada em comparação com a solenidade do “jogo predilecto / dos grandes indiff’rentes” a que se deve entregar.

Nuno Amado, Ricardo Reis (1887-1936), Lisboa, FLUL, 2016. Tese de doutoramento disponível em: https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/26299/1/ulfl218787_td.pdf



Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia

Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.

À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário,
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.

Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra os muros caídos,
Traspassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo do xadrez.

Inda que nas mensagens do ermo vento
Lhes viessem os gritos,
E, ao reflectir, soubessem desde a alma
Que por certo as mulheres
E as tenras filhas violadas eram
Nessa distância próxima,
Inda que, no momento que o pensavam,
Uma sombra ligeira
Lhes passasse na fronte alheada e vaga,
Breve seus olhos calmos
Volviam sua atenta confiança
Ao tabuleiro velho.

Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das crianças?

Quando a torre não cobre
A retirada da rainha branca,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada leva o xeque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.

Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
(É ainda dado ao cálculo dum lance
Pra a efeito horas depois)
É ainda entregue ao jogo predilecto
Dos grandes indiferentes.

Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida,
Os haveres tranquilos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre.

Meus irmãos em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós-próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.

Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulsa dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranquila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.

O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória; a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.

A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...

O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.

Ah! sob as sombras que sem querer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo do xadrez,
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá por fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.

1-6-1916
Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). 
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