segunda-feira, 20 de julho de 2015

O meu tio Fernando Pessoa




Quando era pequena, Maria Manuela gostava de acompanhar o seu tio Fernando até ao Manassés, que era o barbeiro do bairro de Campo de Ourique. "Íamos de mão dada, pela Coelho da Rocha. Depois eu ficava a olhar, muito atenta, e a ouvir as conversas deles", recorda. Outras vezes, pedia ao tio para ser ela a fazer-lhe a barba. Ele sentava-se no sofá azul-escuro, ela ia buscar a cadeirinha de madeira, uma tolha, o pincel e o sabão. "Quando ele tinha paciência fazia-lhe também as unhas, com o polidor da minha mãe. Lembro-me que ele tinha os dedos amarelos, por causa do tabaco. "No final, o tio Fernando dava-lhe uma moeda pela barba e outra moeda pelas unhas. Manuela, ou Mimi, como lhe chamavam nessa altura os familiares, corria para a cozinha e pedia à empregada que a acompanhasse à leitaria do senhor Trindade para comprar chocolates. "Se calhar, foi daí que veio o "come chocolates, pequena, come chocolates", do Álvaro de Campos", ri-se Manuela, a sobrinha de Fernando Pessoa, ao partilhar estas memórias. "Quem sabe?"
São memórias como estas que tem Manuela Nogueira, autora do livro O Meu Tio Fernando Pessoa, que é hoje lançado, um dia antes do aniversário do poeta (1888-1935). Esta é uma edição revista e aumentada de O Melhor do Mundo São as Crianças, que Manuela Nogueira lançou, em 1998, e que neste momentonão possível encontrar no mercado. Aqui já se reunia uma série de textos de Pessoa, ou sobre ele, em torno da infância. Nesta nova edição há mais documentos e mais comentários da sobrinha que revelam um pouco mais da infância de Pessoa mas também do modo como ele se relacionava com a família. "Este é um livro de comentários. Mas tudo o que eu digo é baseado em documentos. Invenções já há muitas", diz Manuela Nogueira, deixando no ar uma crítica ao muito que se tem dito e escrito sobre o poeta.
Manuela morou com os pais e o tio Fernando (ou Fernandinho, como lhe chamavam em casa), irmão da sua mãe, durante alguns anos, naquela que é hoje a Casa Fernando Pessoa, em Lisboa. Tinha 10 anos quando ele morreu e, nessa altura, não sabia que ele era um poeta famoso. "Ele era um indisciplinador”, lembra. Era aquele tio que quebrava as regras dos adultos, que sempre gostou de pregar partidas e fazia rir os mais pequenos. "Aquele homem de ar severo de que as pessoas falam não tem nada que ver com o meu tio”, diz Manuela. Esse Fernando Pessoa ela só o "vislumbrava" em certos dias, quando o via, na sua camisa branca, mãos atrás das costas, a andar para trás e para a frente, no longo corredor de casa. "Nessas alturas eu sabia que não o podia interromper porque ele estava a pensar nas coisas dele."
Manuela Nogueira, também ela autora, embora mais de contos e romances do que de poesia, cresceu com a “nuvem" de Fernando Pessoa sobre a sua cabeça. É bom ser sobrinha de um génio, mas é mau ser alvo de comparações "sem sentido”. Hoje, já ultrapassou isso. É a única familiar viva que ainda conheceu Pessoa e gosta de partilhar as suas memórias. No livro incluiu documentos preciosos, como as cartas do tio Taco (Manuel Gualdino da Cunha), outras cartas que a mãe lhe escrevia quando estava em Durban e o filho já estava em Lisboa, poesias que Pessoa escreveu para os sobrinhos e afilhados, e outros textos que mostram como Fernando Pessoa era, ao mesmo tempo, um miúdo especial, que lia muito desde muito cedo e que adorava música, como era também uma criança imaginativa e bastante traquinas. E um tio que era um ótimo contador de histórias.

“O tio poeta a quem Mimi fazia a barba no sofá da sala”, por Maria João Caetano. In: Diário de Notícias – Artes, 2015-06-12.






A Manuela Nogueira é uma escritora ao pé dos noventa anos que tem a particularidade de ser sobrinha de Fernando Pessoa e com ele haver convivido durante os seus primeiros dez anos de vida. Vejo-a na televisão a explicar-se acerca dessa memória e não posso deixar de ficar incrédulo. Parece uma coisa meio louca, como alguém vir contar que conversou e brincou com Camões, Cervantes, Bach, Vivaldi, Goya ou Van Gogh.
Há gente que só é credível no passado, quero dizer, gente que existe como memória do absoluto colectivo, algo liberto na história da humanidade como um conceito a que se deu um nome e apelido. Fernando Pessoa é assim, um conceito com nome e apelido, liberto no tesouro universal humano. É uma fortuna de todos, não se compadece com a estreiteza da pertença a uma família. Por isso soa a loucura que a digníssima Manuela Nogueira diga “tio” acerca de Pessoa. Conte sobre a sopa, a barba, a paciência e o sorriso, o saibro à porta de casa, a loja onde comprava chocolates. Comia chocolates na metafísica descomplicada das crianças. A metafísica mais invejável.
Perdemos as pessoas sempre absurdamente. Há uma explicação insuportável para a morte e o jugo do tempo é demasiado sem diálogo. Somos manifestamente à deriva, o problema é amar e o amor ser modo de agarrar. Assim, tornam-se de uma mitologia retumbante as pessoas que nos morreram. Relembramos cada gesto como se fosse até impossível lembrar. Há uma espécie de vitória que também nos humilha na possibilidade de ainda lembrarmos. De qualquer maneira, sem a memória somos roubados do amor. A memória é o amor que perdura.
Pensar Fernando Pessoa, por outro lado, é um amor de toda a gente, uma espécie de memória que já é sobretudo a ideia de património colectivo, uma ideia de sociedade. Pensamos Pessoa como quem comprova a existência de uma determinada sociedade. Somos estes, os do Pessoa. Interferir nessa concepção uma efectiva relação de memória é da ordem do divino. Como se alguém viesse com notícias de um olimpo, porque o passado cristaliza e eleva à mitologia. Manuela Nogueira é uma máquina do tempo capaz de aludir ao que havia antes do cristal definitivo. É como um empecilho à própria ideia de definição, porque ela observou directamente o que os conceitos se obstinam por definir, que é como quem diz, por parar. Enquanto esta senhora testemunhar, Pessoa é um movimento e há uma porta toda subjectiva e vibrante entre o lugar dos deuses e o lugar dos homens.
Era o programade Fátima Lopes, as conversas são tidas com uma simpatia e descontracção bastantes, é mais comum que as figuras ali vão discutir telenovelas ou aflições para uma piedade nem sempre muito salvadora. Evocar-se Fernando Pessoa na tarde de entretenimento da televisão significa importantemente o que dizia acima, que ele transpôs a individualidade e se disseminou em quem somos, como ingrediente do ser-se português. Passa a dizer respeito aos assuntos todos. É uma pergunta colocada a cada cidadão à qual apenas vida inteira servirá de resposta.
A lucidez de Manuela Nogueira, a capacidade de contar, o impressionante e impressionado detalhe com que fala da sua infância, é um meio de transporte. Pousamos em cada palavra a caminho dos anos de 1930. Eu sei que os livros são gente e eles operam exactamente assim. Mas gente ser um livro é mais raro, especialmente se a história que nos conta vem de um tempo, ou de uma realidade, que julgávamos esgotadade discurso directo. Subitamente, alguém está verdadeiramente dentro de um segredo. Uma coisa de conhecer e sentir. Um observador que lida ainda com a sua própria estupefacção, como todos quantos viram uma demasia.

Valter Hugo Mãe, “Casa de papel – Manuela Nogueira” in Público – Revista 2, 2015-07-19.´
http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/manuela-nogueira-1702270





“O meu tio Fernando era a pessoa a que eu achava mais graça no mundo”

Fernando Pessoa morreu há 80 anos, a 30 de novembro de 1935. Manuela Nogueira tinha dez anos, mas nunca se esqueceu da figura do tio "muito especial" nem das brincadeiras de faz-de-conta.

Mimi tinha dez anos quando o tio Fernando morreu. O tio Fernando dos presentinhos, dos poemas engraçados e das moedinhas para comprar chocolates. “Foi a minha primeira morte”, lembra. Oitenta anos depois, os seus olhos, muito azuis, ainda brilham quando fala daquele tio tão querido, que a mimou “muito”. Um tio “muito especial”, que haveria de ser motivo de romarias à casa dos pais na Lapa, para onde foi levada a famosa arca de madeira. O tio Fernando Pessoa.
Da arca já não há sinal, mas a casa de Mimi, que já não é Mimi, tem o nome de Fernando Pessoa escrito por todo o lado. Nas capas dos livros e até nas almofadas. “Deram-me estas almofadas do Fernando Pessoa”, diz Manuela Nogueira enquanto arranja espaço no sofá. Por cima, pendurado na parede, está um boneco do poeta que oferece chocolates a uma criança.
— É a pequena do Come chocolates pequena, come chocolates! Não há mais metafísica no mundo senão chocolates… — diz, olhando para a figura.
— Da Tabacaria.
— Sim, da Tabacaria.
— Talvez seja a pequena do poema.
Enquanto se senta no sofá, Manuela Nogueira olha para nós, sorridente. “Talvez seja.”

"É assim que eu me lembro dele", disse Manuela enquanto olhava para a fotografia. "Este é o meu Fernando Pessoa." HUGO AMARAL/OBSERVADOR
Que memórias é que tem do seu tio Fernando? Conviveu com ele desde muito cedo.
Vivi com ele desde que abri o olho. Exceto numa altura em que o meu pai, que era militar, esteve situado em Évora. Nessa altura, o meu pai, a minha mãe e eu fomos para Évora, e ele aproveitava todos os bocadinhos para nos ir visitar. Todos os que podia! Foi só nessa altura que estivemos mais separados. E isto que eu estou a dizer não é da minha cabeça, porque nunca digo nada da minha cabeça. Já se diz tanta mentira sobre o Fernando Pessoa — tanta, tanta, tanta — que eu não colaboro com isso. Vem escrito nas cartas da Ophélia. Está lá escrito: “Lá foste tu ter com a tua irmã, o teu cunhado e a tua Mimi, em vez de ficares aqui comigo”. Eu na altura era a Mimi.
Quanto tempo é que estiveram em Évora?
Dois anos e meio, talvez. Não tenho bem a certeza. É engraçado, eu era tão pequenina mas tenho uma vaga ideia de haver uma mesa com uma braseira de camilha e de ouvir o meu pai a conversar com a minha mãe e com ele, e de eu estar escondida debaixo da mesa a fazer graças. A única coisa de que me lembro de lá é justamente isso — é a figura dele, a aparecer na sala. Porque do resto não me lembro. Só me lembro depois.
Lembra-se melhor dele em Lisboa?
Sim, sim. Quando voltámos para a Rua Coelho da Rocha, onde vivemos. No ano em que ele morreu estávamos a estrear uma casa que os meus pais construíram em São João do Estoril, que ainda lá está e que é minha hoje em dia. Foi nessa casa que recebemos a notícia — horrível — da morte dele, e que ninguém esperava. Morreu em três dias.
"As coisas que inventam agora — que foi do vinho, que foi daquilo — é tudo mentira. Não foi nada disso. Ele teve uma coisa que se chama 'volvo', que é um nó no intestino. Se fosse hoje em dia, era operado e ficava ótimo. "
Foi uma morte repentina? Ele não estava doente?
Não. As coisas que inventam agora — que foi do vinho, que foi daquilo — é tudo mentira. Não foi nada disso. Ele teve uma coisa que se chama “volvo”, que é um nó no intestino. Se fosse hoje em dia, era operado e ficava ótimo. Naquela altura não havia meios de diagnóstico, não se percebeu de onde vinham as dores que ele tinha. Deram-lhe remédios para as dores no hospital.
Como é que souberam que ele tinha sido internado? Foi no aniversário da sua mãe. 
Foi num dia em que tinha havido um grande temporal e não havia telefone em parte nenhuma. Ele era uma pessoa que preservava muito os aniversários. Estava sempre presente nessas alturas, até com os primos direitos. Para ele era muito importante. E a minha mãe, que era a irmã com quem ele vivia, achava que ele ia aparecer. Mas apareceu só um telegrama a dar os parabéns, e a minha mãe disse logo ao meu pai: “Ó Chico, não pode ser! Aconteceu alguma coisa! O Fernando não aparece e manda um telegrama? Aconteceu alguma coisa!”
Nessa altura, a minha mãe estava de cama porque tinha acabado de partir uma perna. Naquele tempo não havia os aparelhos que há agora — eram umas talas. Lembro-me perfeitamente de ela dizer isso e de o meu pai dizer “eu vou já a correr para Lisboa”. E foi. Foi de comboio, porque naquela altura também não havia a avalanche de carros que há agora! [risos]
Bateu à porta, mas ninguém respondeu. Então bateu à porta das Donas Virgínias Sena Pereira (que eram mãe e filha), tias do escritor Jorge de Sena. E elas disseram-lhe: “O seu cunhado não se sentiu bem e saiu acompanhado. Penso que até foi com o seu primo”, o Jaime de Andrade Neves, que era médico. Era o único médico da família. O meu pai foi ao Hospital de São Luís e achou que ele não estava, aparentemente, a morrer. Não parecia muito mal.
Quando apareceu no Estoril, assim mais à tarde, disse à minha mãe: “Sossega que ele não está assim tão mal, não está com mau aspeto. Deve ter sido alguma cólica renal”. E, depois, morreu no dia 30. O espaço de tempo foi curtíssimo, e para mim foi um choque. Foi a primeira pessoa que morreu na minha família. Até àquela data não tinha havido mortes.
Quando eu nasci, houve muitos mortos. Eu nasci no ano dos mortos [risos]. Morreram várias pessoas íntimas da família no mês em que nasci — morreu a minha irmã, um bebé pequenino, amoroso; morreu a mãe do Fernando Pessoa, a minha avó; e morreu o tio-general, que era meu tio-avô e irmão do padrasto do Fernando Pessoa. Era um homem muito engraçado e muito especial. Quer dizer, de engraçado não tinha nada! Tinha uns bigodes, uns olhos azuis enormes! Metia medo a toda a gente. Era muito culto, trabalhou num jornal durante muitos anos — o Pimpão, que tinha umas crónicas muito brejeiras sobre senhoras despidas. E ele, que era general, assinava com o nome ao contrário. Chama-se Santos Roza e assinava “Azor”, que era para esconder aquelas indecências e parvoíces todas.
Então afinal sempre tinha alguma graça!
Tinha, tinha bastante graça! [risos] O meu tio Fernando colaborou nesse jornal com o nome “Diabo Azul”, que já existia no jornal quando ele pediu ao “tio” para colaborar, para ganhar umas massas. Lendo as histórias do “Diabo Azul” percebe-se que umas não podem ter sido escritas pelo meu tio e que outras, pelas graças, tinham mesmo de ser dele. Ainda ninguém se debruçou sobre esse problema, que é muito engraçado. Ele ali ganhava algum dinheiro a fazer charadas. As cartas da Ophélia falam do dinheiro que ele ganhou, mais tarde, a fazer charadas para jornais ingleses. Ele andava sempre preocupado com ganhar dinheiro para casar. Mas o problema não era não ter dinheiro, eram outras coisas.
Acha que ele não queria casar?
Não, ele não era casável, porque ele queria era construir a sua obra. Ele tinha aquela obra enorme na cabeça para deitar cá para fora, e como é que ele se podia estar a preocupar com contas de eletricidade, do telefone, escolas para crianças? Ele gostava daquela mulher — gostava mesmo –, mas não era casável por causa disso. Era uma responsabilidade enorme. Assim estava livre, sem horas. Quer dizer, nem os patrões observavam sempre os horários dele. Ele entrava, fazia aquilo que tinha para fazer e, como era rapidíssimo, eficientíssimo e escrevia inglês e francês como em português, despachava as coisas que tinha para fazer e acabou. Ele nunca teve muito dinheiro porque não estava disposto a cumprir horários.
Não era isso que o preocupava.
Não, não era isso que o preocupava. Eram outras coisas, tão diferentes… Ninguém aprecia as personagens quando elas cá estão.
    
Fernando Pessoa e os sobrinhos, Maria Manuela e Luís Miguel, na casa do Estoril
Lembra-se de quando lhe disseram que ele tinha morrido?
Sim, sim. Isso foi um horror. Eu estava no jardim e a minha mãe estava na cama. O meu pai tinha ido para Lisboa. Lembro-me que estava em casa, no Estoril, a jogar à macaca no jardim. Lembro-me perfeitamente. E a empregada, que era assim muito gorda, veio-me dizer que o meu tio tinha morrido. Fiquei sem saber o que fazer. Nunca tinha visto a morte ao pé, nunca ninguém me tinha falhado por morte. Foi a primeira morte, a primeira de um tio que eu adorava. Porque eu não tinha outro. Os outros estavam em Inglaterra, vinham cá pouquíssimo. E o outro tio — o meu tio Artur, irmão do meu pai –, era oficial da Marinha e era chamado para muitas coisas em África. Estava cá muito pouco. Por acaso também era muito divertido, como o tio Fernando era.
O meu tio Fernando era a pessoa a que eu achava mais graça no mundo. Que me divertia, que me dava carinho. Era rara a semana em que eu levantava o guardanapo, à hora de jantar, e não tinha lá de baixo um presente. E a emoção dele a olhar para mim ao ver-me radiante ao descobrir que estava lá um brinquedo — uma coisa qualquer — naquele guardanapo. A morte dele foi um choque porque nunca ninguém tinha morrido, mas também porque era um tio especial.
Era um tio que a mimava muito. 
Muito, muito. Não houve ninguém que me mimasse tanto.
E brincavam muito os dois. A Manuela costumava “fazer-lhe” a barba, limar-lhe as unhas…
Já contei isso da barba tantas vezes! E pagava-me em dinheiro. Depois arranjava-lhe as unhas e dava-me mais um suplemento. Era muito divertido! Hoje em dia toda a gente tem assim uns dinheiros, mas, naquela altura, não havia miúdos pequenos com dinheiro. Nunca tive uma mesada na vida, nós tínhamos o que os pais nos davam. Era divertido ter aquele dinheiro para ir comprar chocolates ao senhor Trindade, que era lá da rua.
Quando é que se apercebeu que o seu tio não era um tio qualquer?
Foi gradual. Primeiro comecei a ver muita gente a aparecer lá em casa para conversar com os meus pais sobre o que estava dentro da arca. Já morávamos na Lapa e o célebre baú foi para aí. Lembro-me perfeitamente do Gaspar Simões e até do Montalvor, aquele que se suicidou [de carro] com a família toda lá dentro. Lembro-me bem dele, e até vagamente da mulher e do filho. Foi um suicídio coletivo, uma coisa pavorosa. Nova como era, aquilo chocou-me doidamente. Recordo-me de muita gente que ia lá a nossa casa para falar especialmente com a minha mãe. Ela tinha uma memória extraordinária.
Que a Manuela herdou. 
Que eu herdei! [risos] A minha mãe era uma pessoa muito inteligente, muito espontânea, e lembrava-se perfeitamente daqueles tempos da África do Sul, do que se passou por lá, das brincadeiras que existiam, engraçadíssimas, que ela contava até à exaustão. Especialmente a mim, que estava mais em casa, mas o meu irmão também ouviu algumas coisas.
Não tínhamos conhecido nada da vida passada porque, quando nós nascemos, já os meus avós tinham morrido. E aquela vida, para ela, era a mais importante — a vida com o pai, com a mãe, com os amigos estrangeiros. Ela veio para cá com 18 anos, portanto a vida principal foi passada em Durban e em Pretória. Por isso, os amigos deixou-os todos lá. Muitos eram portugueses, mas a maioria eram estrangeiros, holandeses e ingleses, que habitavam ali naquela altura e que eram amigos de escolha.
Ela falava, falava — como se fosse uma história. E eu adorava, porque era uma espécie de história do passado, da tal minha avó e do meu avô. Eu sou uma pessoa que reza e, ainda hoje, rezo pela alma deles porque, de facto, os avós que não conheci ficaram muito vincados em mim. Pelas coisas que eles diziam, faziam, como recebiam em casa. Enfim, eram pessoas muito especiais para mim, através da boca da minha mãe.
"Pois, ele previu que ia morrer mais ou menos naquela altura. Mas sabe, dessas coisas dos horóscopos eu não percebo nada."
Chegou a visitar a África do Sul?
Nunca. Uma das minhas filhas, a Inês, foi lá, mas nunca calhou eu ir. Mas também a África do Sul de hoje não é aquela.
É uma realidade completamente diferente. 
Completamente diferente. O passado é o passado e as coisas evoluem rapidamente. A África do Sul de agora é outra. E ainda bem! Sou uma mulher moderna, que gosta das coisas como elas são.
Quando é que decidiu pegar na obra do seu tio e começar a estudá-la?
Fui estudando aos soluços. Nunca foi uma coisa ordenada porque não fui obrigada por escola nenhuma. Eu tinha umas papeladas em casa. Naquela altura não se dava Fernando Pessoa no liceu. Nem as minhas filhas estudaram Fernando Pessoa. Depois os meus netos já deram todos.
Chegou a mexer na arca?
Nunca mexi. Para a minha mãe, era sagrada. Depois vieram do Ministério da Educação estragar o que lá estava e baralharam tudo. Mas eram pessoas de fora, que o podiam fazer. Os de casa nunca lhe tocaram. O respeito que a minha mãe tinha pela obra dele era tanto que não queria que ninguém tocasse em pacote nenhum. Durante três anos, vieram aquelas três senhoras [do Ministério] fazer uma espécie de seleção, mas a minha mãe nunca me deixou  mim ou ao meu irmão (que tem menos cinco anos do que eu) mexer em nada, porque achava que aquilo era sagrado e que só era para intelectuais mexerem.
Mas, de qualquer maneira, mexi em muita papelada solta. Isso sim. Ele tinha uma malinha velha que, quando a minha mãe morreu e eu tive de vagar a casa dela, trouxe para aqui. Mas eram papéis que não estavam na arca principal. Nisso mexi porque já era adulta. Ele nunca arrumou nada, nem teve tempo para isso. Acho que com 47 anos nunca pensou que ia morrer tão cedo.

Manuela Nogueira era chamada de "Mimi" pelos familiares mais próximos. HUGO AMARAL/OBSERVADOR
Mas fez um horóscopo em que previu a sua própria morte. 
Pois, ele previu que ia morrer mais ou menos naquela altura. Mas sabe, dessas coisas dos horóscopos eu não percebo nada. É uma parte da ciência dele que eu nunca compreendi e à qual nunca dei muita importância. Mas, de facto, aprendi mais com aquilo que certas pessoas escreveram sobre ele. Tenho aprendido verdadeiramente com livros, já organizados, que pessoanos escreveram sobre ele. Há alguns trabalhos com que estou mais de acordo, outros menos, mas de facto houve muita gente a debruçar-se sobre a obra dele, com imenso interesse. Este Richard Zenith tem feito um trabalho bastante interessante. Esteve agora também comigo em Olinda.
Na Festa Literária de Pernambuco, onde a Manuela participou como oradora. Como é que foi essa experiência?
Foi muito interessante porque foi no Convento de São Bento — lindíssimo — que tem um altar todo em talha dourada. É tão bonito que esteve no Guggenheim da América em exposição. Fui eu que abri o congresso naquele sítio e tinha uma multidão à minha espera, para tirar fotografias. Uma coisa louca, que eu devo ao Fernando Pessoa. Porque não foi por mim. Eu também sou escritora, escrevi muitos livros, mas ainda não morri há tempo suficiente! [risos] Talvez se lembrem de algumas coisas para dizer de mim quando eu morrer. Tive de ter muita coragem para ir, porque não há nenhuma mulher de 90 anos que se meta num avião para ir a Olinda e estar ali todos os dias com coisas para fazer. Acho que, talvez, fui inconsciente por ter ido até lá.
Mas nota-se que gostou de lá ir. 
Gostei muito, valeu muito a pena. Encontrei pessoas interessantíssimas lá, pessoas muito simples que não eram só do mundo cultural — eram pessoas que amavam a obra dele e que queriam estar ao pé de mim porque pensavam “esta senhora é da família, esteve com ele, portanto é muito importante para mim, porque é uma pessoa que foi amada por ele”.
A maioria eram pessoas simples, que o adoravam. Na pousada onde fiquei não me largaram um segundo. Jornalistas e tudo o que havia. Mas a coisa mais importante é pensar que a obra dele fala tanto à intimidade das pessoas que pessoas tão simples, que nos pareciam desconhecer a obra dele, queriam estar ao pé de mim só porque tinha tido contacto com ele. É formidável pensar onde é que o nome dele vai. Em Portugal também há muita gente interessada, mas eles são mais abertos.
Já afirmei em três ou quatro sítios públicos que o Fernando Pessoa começou a ser verdadeiramente notado e apreciado no Brasil. Isto muito antes de eu lá ir. O povo português é muito contido — somos todos muito contidos e temos uma grande dificuldade em nos apreciarmos uns aos outros. Quando morremos, ficamos um bocadinho mais considerados [risos]. Mas, até lá, há qualquer coisa que se passa na maneira de ser do português que o impede de reconhecer o próximo.
Acha que no Brasil há outro entusiasmo em relação à obra de Fernando Pessoa?
Talvez haja mais abertura, afetividade. Eu hoje em dia não vejo novelas — não tenho muita paciência –, mas as primeiras que vi era raro não citarem Fernando Pessoa. Até quem escrevia as novelas lembrava-se de pôr uma frase.
A Manuela também é escritora. Acha que herdou do seu tio o gosto pela escrita?
Perguntam-me sempre isso, mas eu acho que não. Primeiro, a figura do meu tio é de tal maneira enorme que querer copiá-lo era uma coisa impossível. Depois, eu tenho jeito para escrever por natureza. A minha avó, a mãe do Fernando Pessoa, escrevia muita poesia, o irmão dele, o Luís (que nós tratávamos por Mike), também. Aquele tio Roza, que não tem nada a ver com a família do Fernando Pessoa, também escrevia — e muito. Deixou uma grande quantidade de poesia escrita.
Eu acho que, desde muito nova, sempre tive muita imaginação. Por exemplo, na escola, quando me pediam para escrever uma redação, tinha vinte ideias. Nunca sabia qual é que havia de escolher, porque eram tantas! Às vezes as minhas amigas diziam-me “dá-me ideias, dá-me ideias!”, porque eu tinha muitas.
Hoje em dia podia continuar a escrever — não vou, mas podia — porque as ideias não acabam. É uma coisa natural em mim. Nunca tive muito jeito para a matemática. Tinha boas notas porque era obrigada a estudar, mas não gostava assim muito. E, realmente, para escrever sempre tive muitas ideias, sempre fui muito criativa. Mas acho que isso estava no sangue de várias pessoas.
"O que ele gostaria de ver que eu também gosto de escrever, o que ele gostaria de ver as pessoas da família interessadas. O que ele gostaria de ver tanta coisa que não viu. E a falta que fez."
É de família.
Deve ser, porque do lado dos Santos Roza também havia. E gosto de desenhar, tenho um certo jeito para pintar. Quando não me apetece escrever nem fazer mais nada, e se tenho tempo, desenho. A única coisa que me dói é que, se tivesse tido a sorte de a ciência estar mais adiantada na altura, não teria morrido com 47 anos. Não era uma doença mortal, era operável. Podia ter vivido. Mas na altura não havia diagnósticos, não havia nada.
Não havia meios.
Não havia. Foi tão triste. O que ele gostaria de ver que eu também gosto de escrever, o que ele gostaria de ver as pessoas da família interessadas. O que ele gostaria de ver tanta coisa que não viu. E a falta que fez. O meu marido — eu casei muito cedo — diz muitas vezes: “Que pena, gostaria de ter conhecido o teu tio”. Porque ele era realmente uma pessoa notável e muito delicada.
O dono do prédio da Coelho da Rocha tinha uma filha, a Dona Sílvia, que mora aqui perto. Ela encontrou-me aqui há tempos e disse-me: “Lembra-se daquela criada antiga, que a minha mãe tinha? Dizia sempre que nunca tinha visto um senhor tão delicado”. Quando ela vinha carregada das compras e ele estava à porta, ele esperava que ela viesse para lhe segurar a porta para ela entrar. Ela dizia sempre: “Ai, é o senhor mais bem-educado que eu já vi!”
Isso fazia parte da maneira de ser dele. Era bem-educado com toda a gente. Nunca o vi ser, nem nunca ouvi dizer que ele fosse, mal-educado para quem quer que fosse. Naturalmente, havia pessoas de quem ele não gostava tanto, mas que punha à parte sem ser mal-educado. Era sempre uma pessoa que prezava os outros. A minha mãe dizia sempre: “O meu irmão Fernando é um gentleman!”. Aliás, eram todos. Aqueles de Inglaterra também eram, o Luís e o João. O João ainda mais. A gente olhava para ele e via logo: era um gentleman. As pessoas quando são assim, muito bem-educadas, tratam sempre as pessoas que estão abaixo como se estivessem ao nível. Nunca há distâncias.
Texto de Rita Cipriano, fotografia de Hugo Amaral, 23/11/2015.
http://observador.pt/especiais/pessoa-o-meu-tio-fernando-era-a-pessoa-a-que-eu-achava-mais-graca-no-mundo/


Manuela Nogueira na porta da casa que ostenta a informação de que lá também vivera Fernando Pessoa, poeta e tio de Manuela. Foto: Rita Ansone, 2022


Manuela Nogueira, a sobrinha lisboeta de Fernando Pessoa que também é poeta

Há 96 anos, Manuela Nogueira nasceu na casa onde Fernando Pessoa vivia, em Campo de Ourique. Sem temer comparações com o tio, escreveu 23 livros – três de poesias – e diz divertir-se com as “fantasias” que os biógrafos costumam escrever sobre o poeta.

 

Manuela Nogueira na sala da casa no Estoril onde o tio Fernando Pessoa costumava ir para dar um passeio na praia. Foto: Rita Ansone, 2022


Se fosse um poema, a rua Fernando Pessoa só teria uma estrofe. A curta via em São João do Estoril não chega a ter 200 metros, mas o que lhe falta em extensão, sobra-lhe em relevância. É por ela que se alcança o número 331 da rua de Santa Rita, onde um marco fixado ao muro da casa lembra que viveu lá o maior poeta português.

Ou quase isso.

“A verdade é que o meu tio dormia cá muito de vez em quando. Ele gostava mesmo era de dormir na casa dele em Lisboa”, revela Manuela Nogueira, abrindo um sorriso e a porta da casa. E Manuela sabe muito bem o que diz, afinal, não há outra pessoa no mundo que ainda goze do privilégio de chamar Fernando Pessoa de “tio”.

Tio ou o igualmente íntimo “Fernando”, a referência a variar de acordo com o teor das memórias que a sobrinha do poeta, aos 96 anos, reaviva com impressionante lucidez. Memórias de uma lisboeta nascida em 1925, no segundo direito do número 16 da Rua Coelho da Rocha, em Campo de Ourique, hoje sede do museu Casa Fernando Pessoa.

Manuela viveu nessa casa, na companhia do tio, do pai Francisco Caetano, da mãe Henriqueta, irmã de Pessoa, e da avó, Maria Madalena, a mãe do poeta, até mudar com os pais para o Estoril, no fim dos anos vinte do século passado. “A minha mãe gostou da vista para o mar e o meu pai comprou a casa”, conta.

Uma casa no Estoril com vista para o mar onde Fernando Pessoa tinha um quarto à sua espera, para o caso de decidir pernoitar.

 

Um dia de praia com Fernando Pessoa

A sobrinha do poeta avança por entre a sala e as memórias em direção a uma pequena divisão, com ares de escritório. “Antes, havia aqui uma caminha onde o meu tio dormia”, diz, apontando para as duas grandes estantes cheias de livros e o discreto armário que hoje compõem o ambiente do antigo quarto de Fernando Pessoa no Estoril.

A sobrinha aponta para as fotografias do tio impressas
numa das tantas edições dedicadas ao famoso poeta. 
Foto: Rita Ansone


“O meu tio vinha quase sempre apenas para passar o dia. Chegava até a ir à praia, mas todo vestidinho, com aquelas roupas que se vê nas fotografias, de sapatos e meias, na areia”, recorda entre sorrisos, diante da lembrança de um paramentado Fernando Pessoa sob o sol de São João do Estoril. “Só não usava o chapéu”, ressalva.

A memória irreverente contrasta com a fama de figura séria que costuma acompanhar Fernando Pessoa, uma ideia que a sobrinha não partilha. “Dizem que ele era macambuzio, mas eu achava-o um palhaço, a pessoa mais divertida que conheci. Pelo menos, com as crianças era assim. Fazia imensas coisas para me fazer rir”, conta.

Manuela lembra-se que, do alto do segundo direito da Rua Coelho da Rocha, acompanhava a chegada do tio. E Fernando Pessoa, num inimaginável número clown, ao perceber-se observado pela sobrinha, mirava em direção à janela e acenava, enquanto fingia chocar com o poste da luz.


Pessoa, Pessoa, Pessoa em toda parte na casa da sobrinha Manuela Nogueira, em São João do Estoril. Fotos: Rita Ansone, 2022.


Um Pessoa “macambuzio” é apenas uma das “fantasias” que Manuela já se cansou de ler nas inúmeras biografias sobre o tio. “Isso de escrever em pé apoiado numa cómoda é outro exagero dos biógrafos. O Fernando escrevia muito. Não digo que não tivesse escrito ali, mas horas a escrever em pé, às tantas, iria doer-lhe as costas.”

Sobre a mesa de centro da sala repousa a última das biografias, Pessoa: uma biografia (Quetzal), escrita pelo luso-norte-americano Richard Zenith. Um calhamaço de 1 184 páginas que Manuela começou a ler ainda na versão original, em inglês, idioma que aprendeu na infância, aluna do Saint Julian’s School, em Carcavelos.

A elogiada biografia não passou incólume pelo crivo da sobrinha, incomodada com as especulações do autor sobre uma possível homossexualidade de Fernando Pessoa. “O Richard Zenith vai buscar esse assunto de vez em quando, pois realmente a poesia dele é cheia de ambiguidades, feminina e masculina”, pontua, para ressalvar em seguida:

“Mas o Fernando não era homossexual. O meu tio tinha interesse em mulheres, apenas não se realizou no casamento. Teve aquela namorada (Ofélia), com quem, dizem, dividiu algumas intimidades, mas não havia espaço nem tempo na cabeça dele para um relacionamento, diante de tudo o que pretendia escrever”, explica.

A sobrinha via no tio uma “avidez” pelo universo da cultura. “O Fernando comprava montes de revistas e livros, só nisto gastava muito tempo e dinheiro. Leu muito, escreveu muito, ficou um bocado metido nesse caldo cultural e daí surgiu a ideia do movimento a que deu azo, o Modernismo”, lembra.

Mesmo assim, segundo a sobrinha, nem mesmo o Modernismo foi capaz de saciar a avidez pelas coisas da cultura do tio. “O Modernismo foi um movimento pequeno por aqui. Havia poucas pessoas capazes de percebê-lo. O meu tio sabia disso, sabia que Portugal era um país pequeno, onde tudo é sempre curto”, remata.

 

Um tio que não estava para “chatices”

Manuela aponta para um dos quadros que adornam a sala da casa no Estoril. “Este quadro foi feito por um dos grandes, veja a assinatura”, sugere, em relação a um desenho de um busto de Fernando Pessoa, pintado por outro ícone da cultura portuguesa, o também modernista Almada Negreiros.


Fernando Pessoa no porta-retrato sobre o aparador da casa de Manuela Nogueira. Foto: Rita Ansone, 2022


Quem igualmente percebia de cultura na opinião dela era Henriqueta, a sua mãe, irmã de Pessoa. “Era uma mulher muito culta, falava inglês, francês, sabia pintar e tocar piano. Tinha frequentado escolas muito boas na África do Sul. Naquela época, Lisboa era uma cidade atrasadíssima comparada a Durban”, diz.

A sensação de uma Lisboa “atrasadíssima” levou Pessoa a contrariar, pelo menos por uma única vez, outras das características apontadas pelos biógrafos. “Diziam que o meu tio não tinha sentido prático, mas assim que os irmãos mais novos, Luís e João, voltaram de Durban, ele decidiu que ambos deveriam estudar fora”, conta.

Manuela conta que o tio Fernando sentenciou: “Não vale a pena inscreverem os rapazes numa faculdade aqui. Não vão dar em nada. Há de aproveitar-se que falem inglês lindamente”. O destino escolhido por Pessoa para os dois irmãos mais novos, portanto, foi Londres.


Foto: Rita Ansone, 2022


“O meu tio era o irmão mais velho e achou que o estudo deles aqui em Portugal não ia dar em nada. A mãe, embora não fosse rica, era viúva de um diplomata e tinha algum dinheiro e concordou. A decisão provou-se acertada e tanto Luís como João foram profissionais muito bem-sucedidos”, relata.

Com a exceção do episódio acima, Manuela vê-se obrigada a concordar com a impressão de uma certa falta de sentido prático do tio. Diz que a mãe, Henriqueta, sentia “pena” pelo irmão Fernando Pessoa não ser organizado. “Ela sabia que ele era extraordinário, mas que não usufruía de ser assim”, recorda a sobrinha.

Manuela acredita que o tio “não estava para chatices” e que acabou por ser vítima da torrente de ideias que lhe vinham à mente. “O Fernando podia ser pago por grandes traduções, mas começava e não acabava. Projetava e ficava por fazer. Era trabalhador, mas em certo aspeto, a cabeça dele não parava”, analisa.

A consciência da mãe de Manuela, Henriqueta, a respeito da genialidade do irmão advinha das leituras em voz alta que Pessoa fazia dos poemas que escrevia diante da família, na sala do segundo direito da Rua Coelho da Rocha, contrariando outra fama do poeta, de ser um escritor recluso e desorganizado.

“Ele lia muito à minha mãe e ao meu pai. Lia muitíssimo, queria ouvir a opinião dos outros”, conta. Depois de escrito, lembra-se a sobrinha, o tio deixava tudo bem organizado, no interior da famosa arca. “Escrevia, metia para o envelope e guardava, o que não era mal. Só não deixava depois tocarem na arca. Nem a minha mãe”, lembra.

A sobrinha reconhece que se o tio não via problema em ler em voz alta os poemas, já publicá-los era uma outra história. Sobre o único livro de Fernando Pessoa lançado em vida, Mensagem – que dá nome a este jornal – Manuela lembra que o poeta foi praticamente obrigado a torná-lo público.

“A coletânea ganhou um galardão (o Prémio Antero de Quental) mas não tinha o tamanho dentro do cânone para ser publicado”, conta. Como os 44 poemas não cumpriram o número mínimo de páginas dos requisitos da época, foi preciso o então responsável pelo Secretariado Nacional de Informação, António Ferro, “passar por cima das regras”.

“O António Ferro percebeu a qualidade da obra e decidiu que Mensagem seria impresso mesmo assim”, continua. Há de ressaltar que Ferro tinha sido editor da revista Orpheu, de que Fernando Pessoa foi um dos mais importantes colaboradores.

Nem o poeta nem os amigos teriam tempo de ver os outros livros de Pessoa publicados. Um ano depois de a Mensagem ser lançado, em 1934, pela casa editorial Parceria, pertencente à Livraria António Maria Pereira, a mais antiga editora de Portugal, Fernando Pessoa encontraria o ponto-final de sua vida.

 

Os 23 livros da escritora Manuela Nogueira

Manuela Nogueira passeia o dedo por entre as inúmeras fotografias em preto e branco nos álbuns sobre o aparador da sala. “Pessoa, Pessoa, Pessoa, Pessoa”, enumera, deslizando o indicador pelas imagens do poeta. Apesar de Pessoa ser um nome recorrente na ensolarada casa, curiosamente a sobrinha não tem Pessoa no nome.


Manuela Nogueira na sua versão escritora e poeta, assinando um exemplar para presentear a reportagem da MensagemFoto: Rita Ansone


Manuela Nogueira é filha da irmã mais velha do poeta, irmã nascida do segundo casamento da mãe, Maria Madalena. Como Pessoa escolheu assinar a sua obra com o apelido do pai, Joaquim Seabra Pessoa, morto precocemente, tio e sobrinha dividem apenas o apelido Nogueira, herdado da avó, Maria Madalena.

Apesar do detalhe semântico-genealógico, coube à sobrinha de Fernando Pessoa dar continuidade ao lado literário da família. Prestes a completar 97 anos em novembro, Manuela Nogueira começou a escrever aos 20 e, desde então, publicou 23 livros, os últimos três, pese uma eventual pressão, na seara do tio, a poesia.


Manuela Nogueira com um dos 23 livros que escreveu. Foto: Rita Ansone, 2022


A também poeta retira do pequeno armário do antigo quarto de Pessoa no Estoril um exemplar de Ritual sem Palco (Manufactura), um dos livros de poesia publicado, ao lado de Quarteto a Solo e Rosas e Dinamite. Pergunto se nunca sentiu a pressão de seguir os passos de Fernando Pessoa na literatura.

“Não, tenho muita coragem. Nunca me aborreci com isso”, responde, serena, enquanto autografa um dos seus livros para a reportagem da Mensagem. “Não me importa a comparação, pois ninguém é comparável. Se vão comparar, são estúpidos. Aquilo que digo, o Fernando Pessoa não diz e vice-versa. A vivência de cada um é de cada um”, diz a escritora.

O primeiro livro com o nome de Manuela Nogueira na capa foi O Dedo Indicador, publicado em 1962, uma coletânea de contos, o género de eleição afetiva da sobrinha do poeta, uma mulher culta, como a mãe. Além do inglês, aprendeu francês durante o liceu no collège féminin na rua do Salitre, também sabe pintar e, claro, escrever.

Uma mulher de outros tempos, uma senhora elegante, bem-disposta e sorridente, que permaneceu casada 71 anos – após quatro anos de namoro – com o mesmo homem, o catedrático Bento José Ferreira Murteira, que morreu em 2018. Uma relação que lhe deu quatro filhos, oito netos e 16 bisnetos, nenhum chamado Fernando.

Uma mulher livre, que não se deixou constranger em dar vazão à veia literária apesar de ser sobrinha de quem é. Pelo contrário. Do tio Fernando Pessoa em relação aos livros que ela escreveu, a sobrinha Manuela Nogueira só tem uma única ressalva. “Tenho tanta pena de já não poder falar com o meu tio”, diz, baixando os vívidos olhos.

“Acho que ele ia adorar ler o que escrevi.”

 

Álvaro Filho, https://amensagem.pt/2022/08/09/manuela-nogueira-sobrinha-lisboeta-fernando-pessoa-lisboa-casa-museu-poeta-livros

 

Manuela Nogueira, sobrinha de Fernando Pessoa. Foto: Rita Ansone, 2022


 

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Fernando Pessoa - Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária da obra de Fernando Pessoa, por José Carreiro. In: Lusofonia, https://sites.google.com/site/ciberlusofonia/PT/literatura-portuguesa/fernando_pessoa, 2021 (3.ª edição) e Folha de Poesia, 17-05-2018. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2018/05/fernando-pessoa-13061888-30111935.html

  

[Última atualização: 2022-08-14]

quarta-feira, 15 de julho de 2015

POEMAS QUE CIRCULAVAM CONTRA A DITADURA



Alma ruim e cruel que enfim partiste
Tão tarde -  diz o povo descontente
Descansa no inferno eternamente
Que nenhum português ficará triste.

E se de lá do fundo inferno onde desceste
Memória deste mundo se consente
Que não esqueças a Lusa Gente
A quem tão maus tratos infligiste.

E se vires que te é dado compensar
De alguma forma a dor que nos deixaste
Nestes quarenta anos de pesar

Roga a Deus em quem sempre acreditaste
Que bem cedo te mande acompanhar
Da corja de bandidos que criaste.

(outubro 1968)







quinta-feira, 9 de julho de 2015

Avieiros, pescadores do Tejo


“Soubesse de outro ofício e bem lhe dava de abalar terra dentro à cata de trabalho. Porém, deixar o rio era coisa reparada. Quebrar tradições era traição ao seu povo.” (Alves Redol)






Pescador da Borda d' Água,
ao cimo d'água salgada;
passa fome, passa frio,
junto do seu camarada.
Vila Franca de Xira

Quem tem um homem do mar,
julga que tem algum duque:
tem um pastel de dez reis
c’uma pitada d’açucre.
Alcochete

Está nevoeiro no sol,
debaixo da proa deita fumo;
vai o ferro para o mar
e a caldeira para o lume.
Alcochete

O meu amor é do mar,
é do mar, é marinheiro;
se ele não fosse do mar,
não me ganhava dinheiro.
Alcochete

Vale mais um homem no mar,
sem botão no colarinho,
que valem trinta manatas
de bengala e chapéu fino.
Alcochete

Que linda maré que leva
o barco do meu irmão;
debaixo da proa tem
Senhora da Conceição.
Alcochete

O barqueiro leva a barca,
leva também a barquinha;
meu amor namora duas,
mas a fama é sempre minha.
Alcochete

Ó Senhora d'Atalaia,
atalaia dos pinheiros;
és mãe dos homens do mar,
madrinha dos carreteiros.
Alcochete

Adeus ó rua do Rato
e rua das Calçadinhas,
onde passa o meu amor
quando vai para as marinhas.
Alcochete

Ó loureiro, ó loureiro,
ó loureiro ramalhudo;
quem tem um amor barqueiro
tem passagem, passa tudo.
Chamusca

Ó senhor arrais do barco
pelo amor de Deus me leve;
as tranças do meu cabelo
servem de cordas de leme.
Chamusca

Quem tem um amor marujo,
pensa que tem algum duque;
é um pastel de tostão
c’uma pitada d’açucre.
Ereira

O meu amor é do mar,
anda a aprender a marujo;
s’inda me der na cabeça,
abalo com ele e fujo.
Palhota

O meu amor é do mar
e vai a Lisboa e vem;
Nossa Senhora mo guarde
das ondas que o lar lá tem.
Samora Correia

A sorte do marinheiro,
é uma verdade pura;
anda sempre a trabalhar
em cima da sepultura.
Samora Correia

Ó barqueiro arreia a vela,
ó barqueiro arreia o pano;
quem casa com mulher magra,
tem bacalhau todo o ano.
Vila Franca de Xira

Rapaz vê lá se descobres
num cantinho do mercado,
uma peixeira magrinha,
com o peixe perfumado.
Vila Franca de Xira

Uma gaivota voando,
no bico leva um letreiro,
com letras d’oiro que dizem:
meu amor é marinheiro.
Vila Franca de Xira

Lá vem o barquinho à vela,
lá vem a sardinha boa,
lá vem o meu amorzinho
assentadinho na proa.
Vila Franca de Xira

O meu amor é barqueiro,
tem a lancha presa no cais;
este ano é camarada,
para o ano é arrais.
Vila Franca de Xira

Já lá vai a embarcação,
toca não toca no cais;
é da minha obrigação
ajudar o meu arrais.
Vila Franca de Xira

No verão, cheio de calor,
muito pescador se passa:
lá vão uns para o melão,
outros ficam à fataça.
Palhota


PESCADORES VS CAMPINOS

Andas tola, andas vaidosa
por namorar um varino;
também eu ando vaidosa
por namorar um campino.
Vila Franca de Xira

PESCADORES
Vale mais um homem do mar
co'as mãos sujas d’alcatrão;
que valem trinta da terra
com as enxadas na mão.
Alcochete

Anda lá rapaz do mar,
ao leme dessa fragata;
manda lá o terreano
p’ra vinha sachar batata.
Alcochete

O meu amor é do mar,
é do mar e é varino,
e se não fosse do mar,
era do campo e campino.
Alhandra

Eu não quero ir ao campo
que lá faz muito calor;
eu não quero ser campina
que o meu bem é pescador.
Palhota

Eu hei de ir ao Alegrete
namorar uma varinha,
por que são flores viçosas,
não se encontram na campina.
Vila Franca de Xira

CAMPINOS
Homens do mar não são homens,
varinos homens não são;
onde chegam valadores,
abre a terra, treme o chão.
Vila Franca de Xira


Cancioneiro do Ribatejo, org. e prefácio de Alves Redol.
Vila Franca de Xira, Centro Bibliográfico, 1950


Obra integral disponível para leitura.



Há mais de cem anos, os avieiros, eternizados por Alves Redol, começaram a trocar o quezilento mar invernal de Vieira de Leiria pelo amável estuário do Tejo. Depois, trouxeram as famílias, e pelo rio ficaram.

“Eu não quero ir para o campo / que lá faz muito calor / eu não quero ser campina / que o meu bem é pescador." No seu Cancioneiro do Ribatejo, António Alves Redol pincela uma das rugas mais vincadas dos avieiros: o seu caráter reservado, isolado no rio, de costas para o vizinho mundo das lezírias e fechado aos camponeses que as habitam e trabalham. Esse lado recluso, que os leva a casar sempre dentro da própria comunidade, é uma das razões para o escritor neorrealista os apelidar de “ciganos do rio”, no livro Avieiros, publicado em 1942. Outra justificação, porventura mais forte, é o seu lado nómada ‑ os avieiros vieram de longe, de Vieira de Leiria, e durante muito tempo andavam de trás para a frente de barco às costas a fazer-lhes de casa.
O século XIX não foi um bom século para Vieira de Leiria. Começou logo mal, com o exército das invasões napoleónicas a saquear e arrasar a eito a vila piscatória, no seu caminho para Lisboa. O saldo só não foi pior porque a maioria da população fugiu antes para o pinhal de Leiria, levando consigo tudo o que conseguia carregar. Mesmo assim, nos anos seguintes, metade da população sucumbiu às epidemias, consequência da fome e de muitos terem encontrado as suas casas destruídas pelos franceses.
A arrasadora passagem das tropas inimigas tornou ainda mais difícil uma vida já de si duríssima. Os pescadores enfrentavam todos os anos invernos cruéis, de mar frio e bravo, em barcos demasiado pequenos e frágeis para encararem olhos nos olhos as descomunais ondas. Porém, ver os filhos a passar fome dá coragem ao mais poltrão dos homens. Muitas vezes, os pescadores da Vieira de Leiria arriscavam sair para o Atlântico debaixo de tempestade. Bastas vezes não regressavam. A alternativa era empregarem-se nas serrações, à jorna, mas o bom pescador enjoa longe do mar.
Até que, no final do século XIX, um deles aventurou-se a descer a costa até Lisboa e a entrar no Tejo. O pioneiro encontrou um mar dentro do rio - mas um mar de ondas suaves e peixe gordo. Palavra puxa palavra e o estuário foi-se enchendo de homens de Vieira de Leiria nos meses frios. No verão, continuavam a lançar a rede à sardinha, na terra natal; no inverno, faziam do Tejo casa, à cata de sável, enguia, robalo, lampreia, fataça. O povo que há séculos habitava as margens do rio imediatamente os batizou: avieiros, à conta da longínqua vila que lhes serviu de berço.


Duas bateiras com toldo à proa.

A bateira como abrigo.

Ao princípio, os homens vinham sozinhos, com o colorido barco a servir-lhes de casa e local de trabalho. A ré era a oficina, de onde lançavam as redes e guardavam o peixe. A barriga da embarcação fazia de cozinha, apetrechada com fogareiro a petróleo e um armário para guardar alguidares, comida e o material de costura, para consertar as redes. A proa empinada transmutava-se de quarto, separado da cozinha por uma taipa, chamada “emparedeira", que também servia para apoiar os pés no momento de dar uso ao remo. dormiam, embalados permanentemente pelo ondular das águas e mal protegidos da chuva por uma pobre e precária cobertura de lona. Nestes seis ou sete metros de comprimento por metro e meio de largura viviam os avieiros uma boa parte do ano.
Cinco meses parecem cinco anos quando se está sozinho. A temporada longe das mulheres e dos filhos alongava-se, cada vez mais penosa, e a saudade esmagava espíritos, mas o peixe deixava-se apanhar e no Tejo raramente se morria. Já com o século XX mais do que inaugurado, alguns avieiros começaram a trazer as famílias com eles e deixaram de regressar a Vieira de Leiria. Lentamente, os nómadas sedentarizaram-se, e passaram a ter como viagem maior as excursões até Lisboa para vender o pescado.
A grande migração aconteceu entre 1919 e a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Assentar raízes no concorrido rio, no entanto, não foi fácil. Incontáveis centenas de pescadores abarrotavam já as águas, e os avieiros nem sequer tinham sido os primeiros forasteiros a chegar. Era constante o choque com os varinos, naturais de Ovar, os murtoseiros, da Murtosa, e os ílhavos, de Ílhavo, que haviam descoberto o Tejo nos séculos XVIII e XIX. Também os homens e as mulheres dos campos olhavam com desconfiança para estas gentes de estranhos hábitos, que acampavam nas praias, para ficarem mais perto do peixe, às vezes erguendo casitas feitas de caniços, não ousavam dar dez passos terra adentro e se tratavam uns aos outros pelas mais estrambólicas alcunhas: o Diabo Coxo, o Boga, o Malho, o Tubarão, o Japão, o Picareta, o Cientista, o Póri, o Botas, o Cosminha...
A estabilidade e o generoso número de filhos com que os pescadores eram agraciados obrigaram-nos a procurar habitação mais condigna. Tábua a tábua, o rio ia sendo ladeado por barracos de madeira, iguais aos palheiros das praias de Vieira de Leiria mas assentes em estacas cravadas no leito ou nas margens, para escaparem às copiosas inundações e não se afastarem do barco, seu único sustento. É por esta altura, nos anos 20 e 30, que o Tejo ganha cor: ao invés da monotonia alva que rodeia o estuário, as casas de palafita dos avieiros são pintadas de vermelho, azul e verde.


No apogeu da migração de Vieira de Leiria, chegaram a "fundar-se" 80 lugarejos avieiros. Escaroupim, Palhota, Caneiras, Carrasqueira, Barreira da Bica, Lezirão, Muge, Valada, Carregado, Vila Franca de Xira, Alhandra, Póvoa de Santa Iria... Por todo o lado, quase até Santarém, assomavam pequenas aldeias berrantes, que ao longe pareciam flutuar nas águas. Habitações trôpegas e modestas – “pequenas, talvez para que as não vissem; tímidas, para que não as mandassem destruir", no dizer de Alves Redol - com cozinha, uma salinha e um ou dois minúsculos quartos. Por cima das camas, apetrechadas com singelos colchões de palha e velhas mantas, ficavam penduradas as redes. A entrada fazia-se por umas escadas que desciam para o rio.
Não eram só as casas a pintalgar o Tejo. Também os naturais de Vieira de Leiria se vestiam com roupas garridas. As mulheres envergavam blusas com pregas, saias de xadrez preto ou castanho e amarelo (ou vermelho, ou azul), casacos rematados por rendas, lenço na cabeça e um omnipresente avental - fosse no labor mais árduo, ajudando o marido a puxar as redes, fosse na festa mais catita. Os homens usavam calças de fazenda, sempre arregaçadas na bainha, e camisas de flanela aos quadrados, com um barrete preto ou uma boina vermelha.
Vasco Loubet
http://www.vascoloubet.eu/portfolio_page/rancho-ceifeiras/

Com o tempo, a comunidade abriu-se mais. Aqui e ali, um ou outro pescador oferecia-se aos campos, quando o peixe, a crescer de esperteza ou a mingar de tamanho, fintava as redes ou as atravessava sem mácula. Empurrados para fora do rio, desempregados e puxados pelas fábricas que lhes invadiram o espaço, os netos e os bisnetos dos avieiros largaram paulatinamente a vida no Tejo.
Hoje, pode dizer-se que o tempo dos avieiros já lá vai. A modernidade encarregou-se de os extinguir, pescador por pescador. Restam apenas algumas casas, abandonadas ou a servir de barracão, entretanto empalidecidas, desbotadas pelo sol e pela água, apoiadas em apodrecidas e débeis escoras de madeira. As poucas casitas originais que ainda se mantêm de pé estão agora entre as últimas habitações típicas de palafita da Europa. Em Escaroupim, no concelho de Salvaterra de Magos, um antigo lar avieiro foi remodelado e convertido em museu.
A história dos pescadores que fizeram da aventura rotina, essa, não morrerá nunca. Alves Redol deixou-a contada no romance Avieiros, um dos pilares do neorrealismo português. O livro foi editado em 1942, mas começou a ser escrito na cabeça do vila-franquense quando ele era ainda uma criança: Alves Redol, que crescera ao lado dos filhos dos varinos, seus companheiros de escola e de brincadeiras, ficou certo dia embasbacado a olhar para o singular e rude desconhecido que viu entrar numa taberna, encher um garrafão de tinto e abalar sem uma palavra; um amigo disse-lhe que o homem era um avieiro, que vivia da apanha do sável, e a curiosidade transformou-se em obsessão por conhecer melhor aquele povo.
Três décadas depois deste episódio, e ao fim de quatro anos a tentar convencê-los, Alves Redol conseguiu que o deixassem viver com eles, na aldeia de Palhota, durante a época do sável, para os acompanhar nas pescarias, entrar-lhes na alma e imortalizar-lhes o legado. Com uma condição ‑ tinha de levar a mulher com ele, não fosse o escritor roubar-lhes mais do que a história.
“Ciganos do rio”, L.R./A.R.. Super Interessante nº 207, julho 2015
Este artigo é uma adaptação de um dos capítulos do livro Histórias do Tejo, do jornalista Luís Ribeiro (A Esfera dos Livros, 2013)






Barcos de Portugal