sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A UM POETA (Antero de Quental)


  



        
A UM POETA
     
Surge et ambula!
    

Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,

Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! São canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate.
          
Antero de Quental, Sonetos
      



TEXTO DE APOIO
        
Neste soneto, o termo "Poeta" poderá remeter para a figura de um idealista, possivelmente em consonância com o espírito da época. A referência ao espírito do mundo romântico, lúgubre e sombrio, percebe-se quando, personificando o sol, usa a metáfora em "Afugentou as larvas tumulares" (v. 6) e "Um mundo novo espera só um aceno" (v. 8). Mas o que interessa, sobretudo, é perceber que o sujeito lírico faz um apelo a todo aquele que é capaz de sonhar, mas vive alheado e num estado de inércia quando é necessária a luta revolucionária ao lado de um povo que sofre e que busca a liberdade.

Na primeira quadra (que constitui uma tese argumentativa) encontramos a estagnação, a passividade e o alheamento do poeta em relação à realidade social e política do mundo, "Longe da luta e do fragor terreno" (v. 4); na segunda quadra e no primeiro terceto (antítese, com a explanação e confirmação da tese), surge o apelo à consciencialização do poeta para a necessidade de mudar de atitude pois está em causa um povo que precisa da solidariedade, "Escuta! é a grande voz das multidões! I São teus irmãos" vv. 9, 10); no último terceto (síntese conclusiva), irrompe o apelo para a ação - "Ergue-te" (v. 12) - destacando a importância da poesia como arma de combate, como voz da revolução, apelidando o Poeta de "soldado do Futuro" (v. 12) e "Sonhador" (v. 14).

Em todo o soneto se encontra um apelo para a necessidade de agir e que está bem expressa na gradação verbal: "Tu, que dormes", "Acorda!", “Escuta!”, "Ergue-te", "Faze". Este poema mostra bem a sua aposta na poesia como "voz da revolução".
        
Antero de Quental foi um verdadeiro apóstolo social, solidário e defensor da justiça, da fraternidade e da liberdade. Mas as preocupações nunca o deixaram desde que entrou nos meios universitários de Coimbra e se tornou líder da Geração de 70 que, em Lisboa, continuou a sua luta. É o próprio que, numa carta autobiográfica, de 14 de Maio de 1887, dirigida a Wilhelm Storck, afirma que:
        
"O facto importante da minha vida, durante aqueles anos, e provavelmente o mais decisivo dela, foi a espécie de revolução intelectual e moral que em mim se deu ao sair, pobre criança arrancada do viver quase patriarcal de uma província remota e imersa no seu plácido sono histórico, para o meio da irrespeitosa agitação intelectual de um centro, onde, mais ou menos vinham repercutir-se as encontradas correntes do espírito moderno. Varrida num instante toda a minha educação católica e tradicional, caí num estado de dúvida e incerteza, tanto mais pungentes quanto, espírito naturalmente religioso, tinha nascido para crer placidamente e obedecer sem esforço a uma regra reconhecida. Achei-me sem direção, estado terrível de espírito, partilhado mais ou menos por quase todos os da minha geração, a primeira em Portugal que saiu decididamente e conscientemente da velha estrada da tradição.”
        
Português A e B: acesso ao ensino superior 2000, Vasco Moreira,
Hilário Pimenta. Porto, Porto Editora, 2000.
(Coleção: Acesso ao ensino superior: preparação para a prova de exame nacional - 12º ano)
        
        


TESTE DE ESCOLHA MÚLTIPLA
        


Das hipóteses apresentadas (A, B, C e D), assinala a correta.

1 - 
O que designa a expressão Geração de 70?
A) Uma geração de políticos célebres.
B) Uma família de nobres ilustres.
C) Um grupo de intelectuais.
D) Um movimento artístico.

2 - 
Que causa defendia essa geração?
A) Os valores nacionais.
B) O regresso ao passado.
C) A apologia dos ideais monárquicos.
D) A ligação de Portugal à Europa.

3 - 
Qual destes filósofos influenciou decisivamente esta geração?
A) Descartes.
B) Proudhon.
C) Platão.
D) Rousseau.

4 - 
Que adjetivo poderá caracterizar a atitude intelectual dessa geração?
A) Provinciana.
B) Cosmopolita.
C) Saudosista.
D) Materialista.

5 - 
Questão Coimbrã colocou frente a frente quem?
A) Antero de Quental/Eça de Queirós.
B) Eça de Queirós/Ramalho Ortigão.
C) Feliciano de Castilho/Antero de Quental.
D) Feliciano de Castilho/Camilo Castelo Branco.

6 - 
questão entre os dois opositores pode resumir-se a um entendimento divergente relativo a quê?
A) À função da literatura.
B) Ao valor da filosofia.
C) Às responsabilidades dos políticos.
D) À função docente.

7 - 
Quem idealizou as Conferências do Casino?
A) Eça de Queirós.
B) Teófilo Braga.
C) Antero de Quental.
D) Adolfo Coelho.

8 - 
Do programa dessas conferências sobressaía que propósito?
A) Estudar os valores nacionais.
B) Recuperar as tradições perdidas.
C) Reabilitar a literatura romântica.
D) Ligar Portugal ao movimento moderno.

9 - 
As Conferências do Casino tiveram uma vida efémera. Porquê?
A) Porque Antero de Quental se desinteressou.
B) Porque o Governo proibiu a sua realização.
C) Porque os conferencistas convidados não apresentaram os temas.
D) Porque o público não correspondeu às expectativas dos organizadores.

10 - 
Em que fase da evolução poética de Antero situa o soneto transcrito?
A) Do apostolado social.
B) Da crise amorosa.
C) Do pessimismo.
D) Da superação mística.

11 - 
O que marca, na 1.ª quadra, a presença do recetor?
A) A comparação.
B) O aposto.
C) A presença da 2.ª pessoa gramatical.
D) O pronome relativo que.

12 - 
Na 1.ª quadra, como é caracterizado o recetor?
A) Pessimista.
B) Incoerente.
C) Indiferente.
D) Empenhado.

13 - 
Que função sintática exerce o sintagma espírito sereno?
A) Sujeito.
B) Aposto.
C) Complemento direto.
D) Vocativo.

14 - 
Qual é o significado da palavra levita?
A) Crente.
B) Pregador.
C) Sacerdote.
D) Ateu.

15 - 
Em que modo se encontram as formas verbais que iniciam as três estrofes seguintes?
A) Conjuntivo.
B) Indicativo.
C) Condicional.
D) Imperativo.

16 - 
Através dessas formas verbais, que atitude manifesta o sujeito lírico?
A) Revolta.
B) Indiferença.
C) Sensatez.
D) Empenhamento.

17 - 
"O sol já alto...tumulares". Com esta imagem, o que é que o poeta pretende significar?
A) O passado será reabilitado.
B) A força do conhecimento venceu.
C) A morte será vencida.
D) O sol brilhará para todos.

18 - 
Quem serão os irmãos que o poeta refere?
A) Os poetas contemporâneos.
B) Os poetas românticos.
C) O povo.
D) Os intelectuais.

19 - 
Qual destas frases traduz o conceito de poesia defendido pelo sujeito poético?
A) A poesia deve expressar apenas sentimentos individuais.
B) A poesia deve estar ao serviço das grandes causas humanitárias.
C) A poesia vive apenas pela forma.
D) A poesia tem uma função essencialmente moralista.

20 - 
Qual o sentido da metáfora soldado do futuro?
A) Poeta empenhado.
B) Poeta alienado.
C) Poeta sentimental.
D) Poeta satírico.
        

CHAVE DE CORREÇÃO
        
1C ‑ 2D – 3B – 4B – 5C – 6A – 7C – 8D – 9B – 10A – 11C – 12C – 13B – 14C – 15D – 16D – 17B – 18C – 19B – 20A
        
Disponível em http://www.profareal.pt/testes/doc.asp?tema_id=762, consultado em 2006-05-10
        



        
LINHAS DE LEITURA PARA UM COMENTÁRIO DE TEXTO
        
Redija o comentário global do texto transcrito, desenvolvendo, com clareza e correção, os seguintes tópicos:

- tema/assunto e seu desenvolvimento

- inserção da frase bíblica "Surge et ambula" (Ergue-te e caminha) no frontispício do poema

- relação sujeito poético/destinatário

- aspetos estilísticos relevantes

- enquadramento na época da sua produção
        
        

CRITÉRIOS SUGESTÕES DE CORREÇÃO
        
Na produção e correção do comentário de texto deverão ser tidos em conta os seguintes objetivos:
- Reconhecer elementos estruturadores do poema
- Deduzir sentidos implícitos
- Contextualizar um autor obra / movimento cultural
- Estabelecer relações
- Documentar afirmações
- Avaliar a intencionalidade
- Redigir com clareza e correção

        
Considerem-se as seguintes sugestões:
        
• Apelo do poeta (eu) a outro poeta (tu).
        
• Constatação da passividade do tu ("que dormes") e urgência da luta-atitude ativa ("faze espada de combate").
        
• Distinção de dois tempos / espaços. O 1º corresponde à 1ª quadra: estático, obscuro e bem definido; o 2º corresponde à 2ª quadra e tercetos: a mudança e a perspetiva futura.
        
• Incitamento à luta pela construção do mundo novo através de uma frase bíblica que remete para o Cristianismo (Cristo Lázaro) - tempo da Revolução primeira do mundo Antigo. Deslocação do significado da frase para um aqui e agora - atualização da força e veemência do apelo-mágico.
        
• Relação baseada no apelo do sujeito poético ao destinatário de forma a fazê-lo sair do marasmo a que se votou
- importância do título/dedicatória.
        
• Recursos que realçam a urgência de uma nova atitude:
- vocativos
- imperativos
- frases exclamativas e reticentes
- gradação verbal
        
• Soneto pertencente à fase mais combativa de Antero, reflete sobre a condição humana, sobretudo no papel do poeta enquanto força vital das mudanças operadas nas consciências e na sociedade
- Antero e a Geração de 70
- A Geração de 70 e o seu posicionamento anti-Romantismo.
        
Prova de Aferição de Português A. 12ºano de escolaridade
(plano curricular correspondente ao Dec.-Lei nº 286/89, de 29 de Agosto). Ponto 708, 1995, época normal.
        
        
      
COMENTÁRIO DE TEXTO
   
            
Antero de Quental, autor das Odes Modernas, é quem desencadeia as irritações e tempestades do meio literário português do seu tempo, conhecidas por "Questão Coimbrã". Com efeito, Antero, ainda estudante de Coimbra, rebela-se contra a poesia oficial de Castilho e seus protegidos, e proclama a independência e combatividade dos poetas. Este acto de rebeldia surge como consequência, não só do seu temperamento e desejo de justiça, mas duma forte reacção ao Romantismo que, entre nós, degenerara num Ultra-romantismo vazio e convencional.
Este soneto, publicado na 3ª parte dos Sonetos Completos, traduz o carácter combativo e revolucionário que o poeta deveria assumir, o que já havia dado origem às Odes Modernas, onde Antero, numa nota da 1ª edição, afirma : "a Poesia moderna é a voz da Revolução".
A estrutura deste soneto é contínua, formada por duas partes sintáctica e semanticamente complementares: na 1ª estrofe, descreve-se a atitude do poeta perante o mundo; nas estrofes seguintes, essa descrição desaparece para dar lugar a uma série de apelos dirigidos ao Tu do início do poema.
Esta estrutura é progressiva, já que estes apelos, dados pelos imperativos, estão organizados de forma crescente de intensidade, redobrando-se na última estrofe.
O poema começa com o pronome tu apontando-nos de imediato para uma situação de comunicação directa, própria do estilo coloquial.
A oração relativa restritiva e a sinédoque que se lhe seguem desfazem a indefinição referida no título. Temos, então, não um poeta qualquer, mas aquele que dorme, isto é, aquele que é só espírito porque está morto há muito ("à sombra dos cedros seculares"). E está morto porque alheio, arredado da vida ("longe da luta e do fragor terreno"). O particípio passado "posto" e o adjectivo "sereno" sublinham esta passividade e alheamento.
A comparação entre o poeta e um sacerdote desvenda-nos a metáfora do 2º verso: o sacerdote "à sombra dos altares" dá lugar a um ritual, sempre o mesmo, de todos já sabido; o poeta, "à sombra dos cedros seculares", oficia o ritual de uma mesma poesia: velha, por todos já conhecida.
As aliterações em /s/ dos dois primeiros versos e em /l/ dos dois últimos delimitam os dois termos da comparação.
A rima interpolada entre dois adjectivos que, pelo contexto semântico se opõem, e o quiasmo existente entre os dois últimos termos dos 1º e 4º versos, realçam e ampliam o divórcio entre o poeta de que se fala e a vida real.
A rima emparelhada sublinha a igualdade de posições entre o poeta e o sacerdote, dada pela comparação entre as duas metáforas em que a repetição do complemento de lugar "à sombra" expressa uma atitude de refúgio na passividade do ritual.
A 2º parte é iniciada pelo imperativo "Acorda!" que é, por um lado, a articulação sintáctica com a 1º estrofe e, por outro, o começo de um estilo mais emotivo e apelativo que caracteriza o resto do poema. Segue-se-lhe uma justificação ("é tempo!") que, por sua vez, é também explicada: o sol, pela sua posição no céu, indica o momento do dia em que as sombras desaparecem e tudo se torna mais nítido e brilhante.
O advérbio de tempo "já" reforça e actualiza este momento em que já não há condições para que as larvas tumulares sobrevivam porque são o produto da decomposição dos corpos mortos e, portanto, imagem da poesia velha, caduca, criada por aquele poeta.
No verso 7, o termo "seio" revela-nos, no seu sentido etimológico, a profundidade dos mares que o deítico "esses" indica serem a luta e o fragor terrenos.
Para que dessa profundeza nasça um mundo novo, o poeta terá apenas que dar o seu "aceno", o seu sinal que será uma poesia nova, diferente.
O 1º terceto funciona como nexo do último verso da 1ª parte. É um novo apelo ao poeta que, depois de ter acordado, deve ouvir com atenção ("Escuta!") o que as multidões em uníssono clamam ("a grande voz").
No 2º verso desta estrofe, definem-se os nomes presentes no verso anterior: as multidões são irmãos do poeta; a voz são canções.
No verso seguinte, a adversativa mas explicita qualquer ideia que possa ter surgido com as reticências: as canções são de alerta e de guerra, isto é, de revolução.
Na última estrofe, temos a conclusão, desaparecendo, por isso, todas as reticências.
Depois de ter acordado por ser pleno dia e de ter escutado o clamor das multidões, o poeta deve erguer-se, tal como os seus irmãos, transformado já em "soldado do Futuro". Soldado, porque integrado nas multidões que se preparam para a revolução; do Futuro, porque se opõe ao poeta do presente que dorme, longe desta luta que deflagra com canções de uma nova poesia.
O termo Futuro surge como símbolo do mundo novo. O poeta ("sonhador") terá como missão o combate, feito de sonho e desinteresse ("sonho puro"), através da sua poesia ("espada") que será a porta-voz, a luz da revolução anunciada.
Temos, portanto, um poema de empenho social e de cariz revolucionário.
Antero de Quental assume-se como o profeta, tal como o da Bíblia que diz "Surge et ambula!", que anuncia um mundo novo, do qual o poeta deve ser o arauto e aquele que indica o caminho a seguir pelas multidões.
                 
Maria José Santoshttp://almanaque.extar.net/autores/mjs.html, Fevereiro de 2004
              
            
        
        
SUGESTÕES DE LEITURA
        
 Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária de textos de Antero de Quental, por José Carreiro. In: Lusofonia – plataforma de apoio ao estudo da língua portuguesa no mundo, 2021 (3.ª edição) <https://sites.google.com/site/ciberlusofonia/PT/Lit-Acoriana/antero-de-quental>


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/09/21/a.um.poeta.aspx]

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

NO TEMPO DA FROR (Vitorino Nemésio)

           
              
Proençaes soen mui ben trobar
e dizen eles que é con amor;
mais os que troban no tempo da frol
e non en outro, sei eu ben que non
an tan gran coita no seu coraçon
qual m'eu por mha senhor vejo levar.
       
Versos de uma cantiga de amor e simultaneamente sátira literária composta pelo Rei Dom Dinis
       
                
Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
           Ai Deus, e u é?
       
Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
           Ai Deus, e u é?
       
Versos de uma cantiga de amigo composta pelo Rei Dom Dinis
                                      

            
       
 
       
       
       
     
       
       
«NO TEMPO DA FROR»
      
O baile, enfim, ali armado a rigor, e os senhores da cidade sem virem! Ouviu-se rodar um trem. Manuel Bana furou por entre os convidados, como se estivesse numa venda e fosse apartar uma briga. Mas entrou meio murcho, seguido de Damião Serpa e do tenente Espínola à paisana. João Garcia mostrara muita pena, mas estava de serviço: tinha de pagar uma troca ao capitão Soares; pedia desculpa...
A Rosa Bana fora buscar Margarida à cadeira do pé do altar, que era o lugar de respeito. Margarida abria os braços escusando-se, como quem não tem consigo a prenda que procuram; alegava um começo de rouquidão que apanhara na tarde do bezerro, quente das papas de milho.
‑ Não se faça rogada, Bidinha!
Aquele argumento venceu-a; encostou a cadeira, tomou o lugar da namorada de Chico Bana em frente dele. Damião Serpa substituíra um rapaz das Funduras por baixo do braço da viola, e deitou cantiga a propósito, que agradou logo muito:
     
         Boa noite digo a todos,
         Que eu tive ensino de mãe:
         Viva a dona desta casa
         E estas meninas também.
       
Então Margarida, aproveitando a pausa que o Feijão fizera no baile para apertar as cravelhas da viola, agarrou Manuel Bana, que se fora plantar desconsolado e de mão no batente de forro; trouxe-o para o terreiro entre risos, quase arrastado, e encaixou-o no lugar do sobrinho, no meio das palmas e dos vivas dos convidados divertidos. O Feijão mandou "rasgar":
      
         Eu trago terra de longe
         Para fazer um jardim,
         Para plantar este cravo
         Que está longe de mim.
     
         A voz de Margarida tinha um timbre claro naquela ironia do "jardim", do "cravo" que parecia crescer do bigode de Manuel Bana e florir-lhe os olhos velhos, rodeados de preguinhas velhacas. Todo ele ria, fazia "que não" com a cabeça, parecia procurar caminho para se esgueirar dali:
‑ Ora a alembrança da menina! Fazer pouco de um home... Um velho, cos dentes escabaçados! ‑ E alargava a mão na cara encovada, no seu gesto manhoso.
Mas o seu olhar fino e doce interrogava a cabeça de Margarida, meio pendida no ombro, a expressão longínqua e iluminada da testa e do cabelo um pouco desmanchado, que parecia seguir o rasto da cavalgada que se perde no pó e deixa os campos conforme a noite desenha as árvores e as lavas, por cima dos buracos dos grilos.
         
                                                   Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal, Capítulo XVIII.
       


       
LINHAS DE LEITURA
         
1. Decifre o simbolismo do título do capítulo, atendendo ao facto de “No tempo da fror” ser uma perífrase muito usada nas cantigas de amigo da lírica trovadoresca (Idade Média).
2. Localize a ação no tempo nespaço.
3. Dque forma profano e o sagrado se misturam no texto?
4. Recolha exemplos dos registos de língua populacuidado.
5. Caracterize Margarida e Manuel Bana.


       
CHAVE DE CORREÇÃO
    
1. “No tempo da fror” é uma perífrase muito usada na lírica trovadoresca galego-portuguesa para designar a Primavera e o incitamento ao amor que esta estação supostamente provoca.
2. Para responder a este item é necessário ser capaz de associar o títulao mês de Maioe o espaçum ambientruralna casa de ManueBana: «O baileenfim, ali armado arigor e osenhoreda cidade sem virem!»
3. Importrealçar que religioso coexiste com o profano de forma naturalMargarida sai do pé daltar (erigido em honra do Espírito Santo) para ir participar nas cantigas aodesafio.
4. 
5. 
Novo Ser em Português 10, coord. A. Veríssimo, Porto, Areal Editores, 2007.
      
       




[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/09/20/no.tempo.da.fror.aspx]