quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O PORTUGAL FUTURO (Ruy Belo)


         RUY BELO
             
              
O PORTUGAL FUTURO

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro
                 
Ruy Belo (1933-1978), Homem de Palavra(s), 1970
                 
                 
AUDIÇÃO DO POEMA
Pode escutar o poema «O portugal futuro», de Ruy Belo, nas seguintes versões:




               
INTERPRETAÇÃO DO TEXTO
               
Escrito em 1970, este é um poema que expressa a esperança.
1. O que é possível no "portugal futuro"? Repara no valor simbólico dos elementos "pássaro" e "criança".
1.1 E as crianças fazem um desenho. Que forma tem? O que representa?
1.2 E o asfalto negro sobre o qual desenham que representará?
2. O "portugal futuro" terá a mesma dimensão e as mesmas fronteiras que "este". O que será diferente, então?
3. Nesse país futuro, o sujeito poético gostaria de ouvir as badaladas do relógio da igreja, mas um receio assalta-o. Que receia ele?
4. Mostra como a musicalidade deste poema se constrói através de uma rima muito livre e de outros jogos de sons como a aliteração e outras repetições.
             
(In Plural – Português 10º ano / Ensino Secundário, Elsa Pinto, Paula Fonseca, Vera Baptista, Lisboa Editora, 2007, p. 243.)
                
                  
TEXTOS DE APOIO
I
O título do segundo poema de Ruy Belo – “O portugal futuro” - remete, desde logo, para o facto de a imagem de Portugal que vai ser apresentada não corresponder ao país real, mas ao que ele poderá vir a ser. Decorrente desse facto é possível constatar que as características apresentadas não existem no país da época.
Ao longo do poema é notória a referência a elementos constitutivos do imaginário coletivo português que permitiram ao Estado impor uma identidade e silenciar as vozes discordantes, mantendo a população incapacitada do uso da fala. Tal estratégia pode ser encarada como um recurso usado pelo aparelho de Estado de forma a manter o seu poder.
Para acentuar esse carácter de abstração, de possibilidade que urge edificar, o substantivo “portugal” nunca aparece maiusculado, retirando-se-lhe, assim, as suas propriedades específicas. A própria construção do poema é feita a partir da alternância entre o presente do indicativo (muito embora com carácter de probabilidade) e o futuro do indicativo e, com exceção do ponto final a encerrar o poema, não há sinais de pontuação; eis a razão pela qual a única estrofe existente corresponde a um cumular gradual de todos os versos balizados pela repetição do próprio título no início do primeiro verso e no fim do último verso, criando uma circularidade.
Neste país futuro, o “puro pássaro”, metáfora da liberdade, será possível; essa metáfora é, de imediato, associada à simbologia do vocábulo “crianças” (a ausência de limites, o inconformismo e insubmissão). É delas que depende “a forma do [seu] país” já que elas “desenharão a giz” esse formato sobre “o leito negro do asfalto”. Será, nesse espaço a edificar, que o sujeito poético encontrará o seu “portugal” e “lá [será] feliz”. Ele poderá ter características do Portugal seu contemporâneo, ao nível geográfico – “Poderá ser pequeno como este/ter a oeste o mar e a espanha a leste” -, mas “tudo nele será novo”: esse país a haver distinguir-se-á do Portugal presente ao nível do sistema político, das relações interpessoais e, principalmente, por nele poder existir a liberdade. Ao contrário do que sucede no presente, nesse país futuro, o sujeito poético antevê os novos comportamentos desses futuros cidadãos e construtores do país: as crianças. Elas poderão não só desenhar, como dançar “na avenida que houver à beira-mar” e também o “pode o tempo mudar será verão”. A selecção desta estação do ano, representativa da época das colheitas, do estado adulto, do amadurecimento, tem como condicionante um pressuposto positivo1: será no Verão que as “profundas crianças” assumirão todas as suas potencialidades e poderão contribuir para edificar ativamente esse Portugal que corresponda às expectativas do sujeito poético. 
Apesar dessa consciência de que o país presente não corresponde ao país idealizado, o sujeito poético deteta alguns elementos positivos, como é o caso do “ouvir as horas do relógio da matriz”. No entanto, se o relógio/sino delimita os momentos do dia, organiza o quotidiano dos seres humanos e, dessa perspetiva, seria algo positivo; assim o relógio/sino está intimamente associado aos ditames do estado opressor que o usava para controlar as pessoas. Por isso mesmo, apesar de gostar da sua sonoridade, o sujeito poético constata que ele é também um símbolo do “passado” e que não seria viável construir um país novo sobre marcas de um passado tão presente e doloroso. Decorrente desse facto, o que urge fazer é “edificar” esse Portugal rasurando completamente o passado, esquecendo o que nele havia de negativo e positivo. Desta perspetiva, o autor opõe-se às teorias providencialistas portuguesas que consideravam que só se podia construir o futuro de Portugal resgatando o seu passado.
                 
Portugal sob a égide da ditadura: o rosto metamorfoseado das palavrasTese de mestrado de Paula Fernanda da Silva Morais. Universidade do Minho – Instituto de Letras e Ciências Humanas, julho de 2005, pp. 85-87.
                 
_______________________
(1) Esta perspetiva positiva do Verão surge em contraste com a que Jorge de Sena irá utilizar no poemaL’Été au Portugal”; nele o Verão é a antecipação da morte, o símbolo do conformismo.
                 
              
II
Na obra Homem de Palavra(s) de Ruy Belo, o próprio poeta menciona qual a função da poesia desta época que foi denominada de poesia de intervenção: “Em [seu]entender, a poesia de intervenção tem de partir de um grande sentido de justiça ou de revolta que o poeta fez seus, como o amor num poema de amor, e tem de ser discreta se não quer ser demagógica. Era assim quando havia censura (ou o eufemístico ‘exame prévio’) (…)” (Cf. BELO, Ruy - Homem de Palavra(s) (1970) in Todos Os Poemas, Lisboa: Assírio & Alvim, 2000, pág. 184). Com a palavra poética procura-se uma forma de intervir no real que, discreta ou simbolicamente, revele as fraquezas do presente para que elas sejam colmatadas pacificamente. Esta forma de tecer as palavras e as imagens poéticas é evidente nos dois poemas de Ruy Belo por nós selecionados: “Portugal Sacro-Profano” e “O Portugal Futuro”. Em ambos surge a não aceitação da representação de Portugal imposta pelo regime e o segundo funciona como uma espécie de projeto de Portugal que se assume como um início de busca de uma outra identidade ou, pelo menos, da parte dela que foi rasurada da imagem oficial. Desta perspetiva, o poeta procura encontrar a entidade Portugal não desvirtuada e não mutilada através da escrita […].
Nestes dois poemas de Ruy Belo torna-se evidente a consciência que o poeta tem da sua pátria e dos valores, das situações que necessitavam ser alteradas bem como das vivências que, hipoteticamente, poderiam ser reutilizadas no futuro. Por comparação com o país real, constata-se que nele nada do que o poeta deseja e antevê existe, há apenas fragmentos de esperança. No primeiro poema, o comboio e o seu circuito contínuo na ânsia de reintegrar as pessoas noutras comunidades; no segundo, as crianças que, como no poema de Mário Cesariny, aguardam o momento de agir, de preencher os espaços em branco. Porém, Ruy Belo apreende que esse tempo de atuação não corresponde ao presente, mas a um futuro longínquo que está, acima de tudo, dependente do poder volitivo dessas crianças.
                 
Paula Fernanda da Silva Morais, op. cit., p. 83 e p. 88.
                 
                 
PODERÁ TAMBÉM GOSTAR DE LER:
           
► Leitura do poema “Portugal sacro-profano”, de Ruy Belo.


 Poesia útil e literatura de resistência” (A literatura como arma contra a ditadura e a guerra colonial portuguesas), José Carreiro


   
                

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/08/21/o.portugal.futuro.aspx]

terça-feira, 20 de agosto de 2013

PORTUGAL SACRO-PROFANO (Ruy Belo)


PROCISSÃO DA ALDEIA I  -TÉCNICA MISTA S TELA-80X




              
PORTUGAL SACRO-PROFANO ‑ LUGAR ONDE

Neste país sem olhos e sem boca
hábito dos rios castanheiros costumados
país palavra húmida e translúcida
palavra tensa e densa com certa espessura
(pátria de palavra apenas tem a superfície)
os comboios são mansos têm dorsos alvos
engolem povoados limpamente
tiram gente de aqui põem-na ali
retalham os campos congregam-se
dividem-se nas várias direcções
e os homens dão-lhes boas digestões:
cordeiros de metal ou talvez grilos
que mãe aperta ao peito os filhos ao ouvi-los?
Neste país do espaço raso do silêncio e solidão
Solidão da vidraça solidão da chuva
país natal dos barcos e do mar
do preto como cor profissional
dos templos onde a devoção se multiplica em luzes
do natal que há no mar da póvoa de varzim
país do sino objecto inútil
única coisa a mais sobre estes dias
Aqui é que eu coisa feita de dias única razão
vou polindo o poema sensação de segurança
com a saúde de um grito ao sol
combalido tirito imito a dor
de se poder estar só e haver casas
cuidados mastigados coisas sérias
o bafo sobre o aço como o vento na água
País poema homem
matéria para mais esquecimento
do fundo deste dia solitário e triste
após as sucessivas quebras de calor
antes da morte pequenina celular e muito pessoal
natural como descer da camioneta ao fim da rua
neste país sem olhos e sem boca
                 
Ruy Belo (1933-1978), Homem de Palavra(s), 1970
                 
                 

TEXTOS DE APOIO

I

Em “Portugal Sacro-Profano” evidencia-se a faceta mais característica do quadro do país que vai ser revelado: a indistinção, a interpenetração entre o mundo religioso e o quotidiano. Dessa fusão (incentivada e manipulada pelo Estado) resultou um país cego e mudo bem evidenciado por essa personificação do país: “Neste país sem olhos e sem boca”. Ruy Belo procura tornar claro que o discurso religioso foi usado para legitimar a ordem estabelecida, impondo como natural ou pelo menos como fruto da vontade divina o cumprimento dos princípios e valores do Estado Novo.
O conformismo e a passividade surgem ao longo da imensa estrofe que compõe o poema (trinta e cinco versos) intercalados com o único elemento ativo, o comboio. A partir da ironia subjacente à alusão aos comboios – “mansos têm dorsos alvos” – que contrasta não só com o próprio conceito de comboio como com as tarefas que lhe são atribuídas: “engolem povoados” (nesta hipérbole visual), “tiram gente de aqui e põem-na ali”, “retalham campos”. Desmistifica-se a ideia do país rural, marítimo e progressista. O imenso espaço dos campos, o “espaço raso do silêncio e solidão”, foi abandonado à sua sorte; as casas estão vazias assim como os campos (“solidão da vidraça solidão da chuva”). De igual forma, os valores pátrios são equacionados, este é um país de “barcos e do mar” (na intrínseca relação com os Descobrimentos), “do preto como cor profissional” (a clara alusão às perdas humanas e materiais que sempre estiveram associadas à evolução da nação portuguesa), “dos templos onde a devoção se multiplica em luzes”. Porém, a religião não é aqui encarada como um pólo de rebelião ou de conforto já que nela todos se refugiam para justificar o seu conformismo. Por isso, Portugal é o “país do sino”, esse objeto religioso que, para além de estar associado à divulgação da morte, se tornou também no símbolo da imposição de regras e de princípios, daí ser um “objecto inútil”.
É neste ambiente de beatas e desertificação que o sujeito poético vai “polindo o poema” e é apenas nele que adquire a perene “sensação de segurança”. Durante esse processo de produção poética, finge viver num país povoado – “imito a dor/de se poder estar só e haver casas” – e torna-se consciente da união “País poema homem” que, nesse destino comum, são “matéria para mais esquecimento”. Decorrente deste cada vez maior isolamento, o sujeito poético, à semelhança de todos os outros portugueses, espera silenciosa e pacificamente a morte que surgirá tão “natural como descer da camioneta ao fim da rua”.
Também neste poema, Ruy Belo deixa bem marcada a sua distinção entre país e pátria, quando aplicados a Portugal. O primeiro é uma “palavra húmida e translúcida/palavra tensa e densa com certa espessura”, a segunda “de palavra apenas tem a superfície”. 
                 
Tese de mestrado de Paula Fernanda da Silva Morais. 
Universidade do Minho – Instituto de Letras e Ciências Humanas, julho de 2005, pp. 84-85.
              

II

Na obra Homem de Palavra(s) de Ruy Belo, o próprio poeta menciona qual a função da poesia desta época que foi denominada de poesia de intervenção: “Em [seu]entender, a poesia de intervenção tem de partir de um grande sentido de justiça ou de revolta que o poeta fez seus, como o amor num poema de amor, e tem de ser discreta se não quer ser demagógica. Era assim quando havia censura (ou o eufemístico ‘exame prévio’) (…)” (Cf. BELO, Ruy - Homem de Palavra(s) (1970) in Todos Os Poemas, Lisboa: Assírio & Alvim, 2000, pág. 184). Com a palavra poética procura-se uma forma de intervir no real que, discreta ou simbolicamente, revele as fraquezas do presente para que elas sejam colmatadas pacificamente. Esta forma de tecer as palavras e as imagens poéticas é evidente nos dois poemas de Ruy Belo por nós selecionados: “Portugal Sacro-Profano” e “O Portugal Futuro”. Em ambos surge a não aceitação da representação de Portugal imposta pelo regime e o segundo funciona como uma espécie de projeto de Portugal que se assume como um início de busca de uma outra identidade ou, pelo menos, da parte dela que foi rasurada da imagem oficial. Desta perspetiva, o poeta procura encontrar a entidade Portugal não desvirtuada e não mutilada através da escrita […].
Nestes dois poemas de Ruy Belo torna-se evidente a consciência que o poeta tem da sua pátria e dos valores, das situações que necessitavam ser alteradas bem como das vivências que, hipoteticamente, poderiam ser reutilizadas no futuro. Por comparação com o país real, constata-se que nele nada do que o poeta deseja e antevê existe, há apenas fragmentos de esperança. No primeiro poema, o comboio e o seu circuito contínuo na ânsia de reintegrar as pessoas noutras comunidades; no segundo, as crianças que, como no poema de Mário Cesariny, aguardam o momento de agir, de preencher os espaços em branco. Porém, Ruy Belo apreende que esse tempo de atuação não corresponde ao presente, mas a um futuro longínquo que está, acima de tudo, dependente do poder volitivo dessas crianças.
                 
Paula Fernanda da Silva Morais, op. cit., p. 83 e p. 88.
                 
                 
   
                 
                 
PORTUGAL SACRO-PROFANO – VILA DO CONDE

O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é vila do conde
Ruy Belo (1933-1978), Homem de Palavra(s), 1970
                    
                

AUDIÇÃO DO POEMA
«Portugal, sacro-profano lugar Vila do Conde», de Ruy Belo,  na voz de Luís Miguel Cintra:


               
INTERPRETAÇÃO DO TEXTO
1. Parece-lhe que o poema representa um lugar concreto, situado numa certa geografia, ou representa um tempo? Justifique com elementos do texto.
2. Localize todas as ocorrências do verso: «o lugar onde o coração se esconde». Procure definir os efeitos rítmicos e semânticos que resultam da sua repetição.
3. Analise o modo como o poema convoca e transfigura os elementos do real representados.
                
OFICINA DE ESCRITA
À semelhança do sujeito lírico do poema de Ruy Belo, descreva o lugar onde o seu coração se esconde.
(cf. Antologia Português 10.º Ano / Ensino Secundário, 
Ana Garrido, Cristina Duarte, Fátima Rodrigues, Fernanda Afonso, Lúcia Lemos,
 Lisboa Editora, 2007, p. 169)
               
                
PODERÁ TAMBÉM GOSTAR DE LER:
           

 Leitura do poema “O portugal futuro”, de Ruy Belo.

 

 Poesia útil e literatura de resistência” (A literatura como arma contra a ditadura e a guerra colonial portuguesas), José Carreiro

   
                

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/08/20/portugal.sacro.profano.aspx]

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

É PRECISO DIZER-SE O QUE ACONTECE NO MEU PAÍS DE SAL (Ary dos Santos)


              
OS SAPATOS
1
               
Enfio os mocassinos do meu tempo nos pés
e piso a senda lenda dos meus antepassados.
Hoje, sou eu que passo o cabo das tormentas nos cafés
quando vomito a Índia nos lavabos.

Se Egas Moniz foi herói
duma bravata bonita
eu sou quem paga o resgate
da história que me limita.

A linda Inês dos meus olhos
foi reposta em seu sossego
não há hidroenergia
que ressuscite o Mondego
não há barragem que estanque
o sonho que é hoje infante
na ponta de um pesadelo.

Ai flores Ai flores de lapela
flores de plástico e de feltro
filigrana caravela
que estás cada vez mais perto
filha de Vasco da Gama
dado como pai incerto.

Partem tão tristes os pés
de quem te arrasta consigo
tão andados      tão modernos
tão vazios de sentido
tão queimados deste inferno
que têm as solas gastas
e o caminho puído.

Partem tão tristes os pés
de quem te arrasta consigo
passeiam
     andam
          desandam
                  param
                    Perseguem
                         persistem
                              caminham
                                      calculam
                                             correm
doem      detêm      desistem.
Partem tão tristes os tristes
tão fora de chegar bem
            
José Carlos Ary dos Santos, “Adereços, Endereços” (1965)
in Obra Poética, 2.ª ed. Lisboa: Edições Avante, 1995, pp. 158-159.
             


           
Ao elaborar os poemas “Os Sapatos” (1965) e “A Cortiça” (1969), Ary dos Santosaborda, aparentemente, um tema prosaico do quotidiano; no entanto, desde os primeiros versos do primeiro poema, deteta-se a crítica a um país estagnado, apático que procura transmitir a imagem do progresso tornando visíveis as conquistas da ciência.
Assumindo esse sujeito poético singular no primeiro vocábulo – “Enfio” -, o Eu leva-nos a efetuar uma viagem pelo Portugal seu contemporâneo, uma vez que “os mocassinos” que calça são “do [seu] tempo”, e percorrer a “senda lenda dos [seus] antepassados”. É com base em temas, situações e personagens do Portugal de antigas idades – as gloriosas – que o sujeito poético destrói ou desconstrói a falsa visão do progresso do país. Ary dos Santos recorre às memórias, às crenças e aos aspectos histórico-sociais que permitiram erigir a identidade social dos portugueses para, de imediato, realçar o quão limitador tem sido a manutenção desse discurso identitário que mais não é do que a manifestação da dominação e do poder por parte de quem o construiu. Neste Portugal, todos os dias há um “cabo das tormentas” (uma perseguição, uma difamação, a própria luta pela liberdade) para passar e o Eu alude concretamente à sordidez do conflito na Índia que ele “[vomita] (…) nos lavabos”. Esta tentativa para manter as colónias portuguesas e o preço humano que acarretava, leva-o a concluir que esse é “o resgate” que ele tem que pagar, só que tal facto decorre de uma “história que[ o] limita”, ao contrário do que sucedera na época da construção do Império Português. De igual forma, a “hidroenergia” não ressuscitará o Mondego, nem as barragens sustentarão o “sonho” tornado “pesadelo”. Nenhum dos progressos técnicos (como as “flores de plástico e de feltro”) permite diminuir a frustração e desespero de Portugal se ver sem pai já que “Vasco da Gama/[é] dado como pai incerto”.
Ao reutilizar um fragmento de uma cantiga de amigo de D. Dinis – “Ai flores, ai flores de verde pino” -, transporta para o momento presente o desespero da donzela gerado pela ausência de notícias do amigo, tão semelhante ao vivido pelas famílias dos militares que combatiam pela defesa das fronteiras do Império Português. Numa nova colagem de textos da lírica medieval (neste caso do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, numa cantiga de Juan Ruiz Castell-Branco em que o sujeito poético realça todo o seu sofrimento por a sua “Senhor” não lhe retribuir o amor), para além de atualizar a própria cantiga (Portugal seria essa senhora incompreensiva e indiferente ao sofrimento por ela gerado), faz-se alusão ao novo contexto: “os pés”, o povo português, são obrigados a seguir um conjunto de valores impostos por “quem [os] arrasta consigo”. Esses valores pretendem ser “modernos”, mas são “tão vazios de sentido” que são uma imposição não negociável nem reformulável. Estes “pés” percorrem longos caminhos para tentar fugir ao “inferno” que os queima1.
Num entrecruzar de lírica medieval com poesia visual, na última estrofe do poema, misturam-se dois tipos de passos – as duas realidades que dominavam Portugal: a fuga à repressão e a perseguição efetuada pelo Estado. Alternadamente, surge a menção às duas atitudes; os passos que “andam”, “param”, “persistem”, “caminham”, “correm”, “desistem” e os que “desandam”, “perseguem”, “calculam” e “detêm”. Neste Portugal controlador não é possível haver esperança, os pés “Partem tão tristes os tristes”, a única certeza é a de que eles estão “tão fora de chegar bem”. Nesta parte final do poema, a própria mancha gráfica permite visualizar um “n” deitado (o não da recusa deste Portugal) ou um “v” duplo (a referência à vitória da liberdade).
‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑
(1) Esta alusão ao “inferno” em que viviam os portugueses assemelha-se ao processo de depuração das palavras denunciado por Natália Correia no excerto de “Comunicação” (1959): «Tudo chegava pelo lado da sombra, do terror, da pegajosa ignomínia. Os esbirros amordaçavam a luz. Com as mãos mergulhadas nas estrelas que escondia nos bolsos o poeta assobiava uma pátria de brancura e paz. (...) O poema foi arrastado para a treva onde os estranguladores das palavras constroem o silêncio da sala de espelhos onde o tirano se masturba. O poema atravessou o inferno e alguns dos seus sons ficaram queimados.» | Natália Correia, “Comunicação” (1959) in Poesia Completa, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999, pág. 173.
             
                                              
 

            

De igual forma em “A Cortiça”, Ary dos Santos traça o retrato de Portugal dominado pela treva, desistência, sofrimento físico e moral, censura à palavra e obrigatoriedade de cumprir os ditames do poder político. 

               
               
A CORTIÇA

É preciso dizer-se o que acontece
no meu país de sal
há gente que arrefece      que arrefece
de sol a sol
de mal a mal.
É preciso dizer-se o que acontece
no meu país de sal.

Passando o Tejo       para além da ponte
que não nos liga a nada
só se vê horizonte
horizonte
e tristeza queimada.

É preciso dizer-se o que se passa
no meu país de treva:
uma fome tão grande que trespassa
o ventre de quem a leva.
É preciso dizer-se o que se passa
no meu país de treva:
mal finda a noite       escurece logo o dia
e uma espessa energia
feita de pus no sangue
de lama na barriga
nasce da terra exangue e inimiga

É o vapor da sede       é o calor do medo.
a cama do ganhão
a casca do sobredo.
É o suor com pão que se come em segredo.

É preciso dizer-se o que nos dão
no meu país de boa lavra
aonde um homem morre como um cão
à míngua de palavra:

Por cada tronco desnudado       um lado
do nosso orgulho ferido
e por cada sobreiro despojado
um homem esfomeado e mal parido.

Ah não, filhos da mãe!
Ah não, filhos da terra!
Os enjeitados também vão à guerra.
                         

José Carlos Ary dos Santos, “Insofrimento in Sofrimento” (1969)
in Op. Cit., pág. 243-244.

              
 *
                 
No “[seu] país de sal”, a população “arrefece”, a fome é “tão grande que trespassa/ o ventre de quem a leva” e “por cada sobreiro despojado/um homem esfomeado e mal parido”. Para além das dificuldades económicas e sociais, as pessoas estão impossibilitadas de pensar ou trocar opiniões; por isso, ao longe, só há “tristeza queimada”, à noite sucede o dia escuro e o “homem morre como um cão/à míngua de palavra”. Este cenário de um Portugal empobrecido e embrutecido, torna-se ainda mais degradante com a insistência no facto de se nascer numa “terra exangue e inimiga”, onde até “o suor com pão” é necessário comer “em segredo”. A ocultação, a incomunicabilidade parecem ser as únicas qualidades exigidas a estes portugueses que aceitam inclusivamente que “Os enjeitados também vão à guerra”. Daí o repúdio final do sujeito poético que, por analogia com a expressão popular, funciona como um duplo insulto a este Portugal controlador, corrosivo e estéril: “Ah não, filhos da mãe!/Ah não, filhos da terra!”

Portugal sob a égide da ditadura: o rosto metamorfoseado das palavrasTese de mestrado de Paula Fernanda da Silva Morais. Universidade do Minho – Instituto de Letras e Ciências Humanas, julho de 2005, pp. 78-83.


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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/08/19/os.sapatos.a.cortica.aspx]