sábado, 23 de julho de 2022

Dizia la bem talhada, Pedro Anes Solaz (Pedr'Eanes Solaz)

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Dizia la ben talhada:

“Agor’ a viss’ eu penada

ond’ eu amor ei”

 

A ben talhada dizia:

“Penad’ a viss’ eu un dia

ond’ eu amor ei

 

Ca, se a viss’ eu penada,

non seria tan coitada

ond’ eu amor ei

 

Penada se a eu visse,

non á mal que eu sentisse

ond’ eu amor ei

 

Quen lh’ oje por mi dissesse

que non tardass’ e veesse

ond’ eu amor ei

 

Quen lh’ oje por mi rogasse

que non tardass’ e chegasse

ond’ eu amor ei”

 

Pedr'Eanes Solaz/ Pedro Anes Solaz

“Pedr’ Eanes Solaz –1” in 500 Cantigas d’Amigo: Edição Crítica / Critical Edition, Rip Cohen. Porto: Campo das Letras, 2003, p. 285

 

 

MANUSCRITOS (PRESENÇA DA CANTIGA NOS CANCIONEIROS): BN 828, V 414

Dizia la bem talhada, BN_381_175_828


Dizia la bem talhada, V_140_066_0414


As estrofes V-VI aparecem em ordem inversa no Cancioneiro da Biblioteca Nacional, sendo que Rip Cohen seguiu a lição do Cancioneiro da Biblioteca Vaticana.

 

 

NOTAS:

A interpretación desta cantiga admite dúas direccións conforme se considerar que a amiga fala de unha rival, ou, contrariamente, que a voz feminina se dirixe a outra amiga, isto é, que se trate dunha cantiga lésbica (véxase Callón Torres 2017: II, 31; 2018; 2020).

 

1-4

Ao longo do corpus nunca se rexistra ningunha forma de artigo arcaico (lo, la) en inicio de período e/ou de verso. É por isto que nesta cantiga se percibe con clareza o notorio contraste que marca o emprego da forma la do artigo, en contexto posvocálico, na primera cobra, e o uso da forma normal a no inicio da segunda, no verso reflexo (Dizia la ben-talhada vs. A ben-talhada dizia). A manutención de /l/ na forma do artigo indica a procura dunha retórica arcaizante na elaboración de cantigas de amigo (véxase Ferreiro 2008b, 2013), igual que acontece noutras cantigas (587, 609, 704, 735, 781, 864, 891, 892, 903, 969, 1130, 1166, 1167, 1169, 1201, 1206, 1281, 1294, 1297, 1299, 1304 e 1314) e do mesmo xeito que acontece coas correspondentes formas pronominais (véxase nota a 586.5).


"Penada se a eu visse", verso 7, BN

"Penada se a eu visse", verso 7, V


O incipit desta cantiga de Pedr’Eanes Solaz foi aproveitado por Afonso Sanchez noutra cantiga de amigo, cunha intertextualidade reforzada pola aparición da forma la do artigo (véxase 781.5).

 

2-5

Nestes dous versos, na dirección que marcou a edición de Machado, Cohen consolidou a segmentación do pronome feminino en Agor’a e Penad’a, respectivamente, fornecendo fluidez discursiva a un texto que ficaba deficiente na tradicional edición de Nunes (e de Reali e mais de Littera).

 

7-10

Nótese a emenda no pronome feminino que Nunes (nos dous versos), Reali (só no v. 10) e Littera realizaron, inxustificadamente, no texto, talvez para procurar unha presenza masculina que non existe na cantiga (se a eu visse penada, v. 7; Penada se a eu...).

 

13-18

A troca de lugar das estrofas V-VI en Littera carece, en aparencia, de xustificación.

 

Universo Cantigas. Edición crítica da poesia medieval galego-portuguesa, org. Manuel Ferreiro. A Coruña, Universidade da Coruña, https://www.universocantigas.gal/cantigas/dizia-la-ben-talhada [Consulta em: 2022-07-22].

 

PARÁFRASE(S):

vv. 3, 6, 9, 12, 15, 18:

Nas estrofes I e II a construção pode ser assim parafraseada: “Quem me dera vê-la sofrer por quem eu sinto amor.”

Na estrofe III: “Porque se eu a visse sofrer, eu não estaria tão infeliz por quem eu sinto amor...”.

Na estrofe IV: “Não há dor que eu sentisse por quem eu sinto amor...”.

Nas estrofes V-VI: “Queria que alguém dissesse àquele por quem sinto amor que ele (por quem sinto amor) não se atrasasse mas chegasse…” – e aqui ond’ eu amor ei funciona como oração relativa dependente de lh’ e, juntamente com o seu antecedente omitido, constitui o sujeito gramatical de veesse, chegasse e non tardasse (e pode suplementarmente significar “ao lugar de onde”; cf. CSM 26.93-94 que fosse tornar / a alma onde a trouxeron).

 

“Pedr’ Eanes Solaz –1” in 500 Cantigas d’Amigo: Edição Crítica / Critical Edition, Rip Cohen. Porto: Campo das Letras, 2003, p. 285

 

(I) Dicía a amiga fermosa: «Oxalá agora a vise penada alí onde teño amor!».
(II) A amiga fermosa dicía: «Oxalá penada a vise eu un día alí onde teño amor, (III) pois, se a vise penada, non sufría tanto alí onde teño amor!».
(IV) Se a eu vise penada, non sentiría ningún mal, alí onde teño amor!».
(V) Quen hoxe por min lle dixese que non tardase e que viñese alí onde teño amor!».
(VI) Quen hoxe por min lle rogase que non tardase e que chegase alí onde teño amor!».

 

Universo Cantigas. Edición crítica da poesia medieval galego-portuguesa, org. Manuel Ferreiro. A Coruña, Universidade da Coruña, https://www.universocantigas.gal/cantigas/dizia-la-ben-talhada [Consulta em: 2022-07-22].

 

A cantiga comeza cunha enunciación sen identificar (quizais o quen dos vv. 13 e 16?), que é testemuña do que ouviu dicirlle á ben-talhada, á bela, a quen se lle transfire a voz a continuación. A muller expresa o seu desexo de ver penada unha outra figura feminina, no lugar onde ela ten agora amor. No segundo par de cobras, a ben-talhada sinala que se vise que esa figura feminina está triste, ela non estaría tan mal. Xa nas derradeiras estrofas, desexa que alguén lle dixese (suponse que á figura feminina até aí referida) que fose ao seu encontro. O refrán marca o amor topograficamente: o desexo é ver a tristura e o reencontro nun espazo concreto. Transmítesenos ademais o movemento desde o despeito até o desexo da reconciliación, mais sempre a dependencia afectiva.

 

Unha cantiga lésbica amatoria no trobadorismo galego-portugués”, Carlos Callón. SCRIPTA, Revista internacional de literatura i cultura medieval i moderna, núm. 15 / juny 2020 / pp. 1 – 15 ISSN: 2340-4841· doi:10.7203/SCRIPTA.15.17551



   Poderá também gostar de:

 

  


 


CARREIRO, José. “Dizia la bem talhada, Pedro Anes Solaz (Pedr'Eanes Solaz)”. Portugal, Folha de Poesia, 23-07-2022. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/07/dizia-la-bem-talhada-pedro-anes.html



sexta-feira, 22 de julho de 2022

Eu velida nom dormia, Pedro Anes Solaz (Pedr’Eanes Solaz)

 



            Eu velida1 nom dormia

                   lelia doura2

            e meu amigo venia

                   edoi3 lelia doura.

           

5          Nom dormia e cuidava

                   lelia doura

            e meu amigo chegava

                   edoi lelia doura.

           

            O meu amigo venia

10               lelia doura

            e d'amor tam bem dizia

                   edoi lelia doura.

           

            O meu amigo chegava

                   lelia doura

15        e d'amor tam bem cantava

                   edoi lelia doura.

           

            Muito desejei, amigo,

                   lelia doura

            que vos tevesse comigo

20              edoi lelia doura.

           

            Muito desejei, amado,

                   lelia doura

            que vos tevess'a meu lado

                   edoi lelia doura.

           

25        Leli, leli, par Deus, leli4

                   lelia doura

            bem sei eu que[m] nom diz leli

                   edoi lelia doura.

           

            Bem sei eu que[m] nom diz leli

30              lelia doura

            demo x'é5 quem nom diz leli

                   edoi lelia doura.

Pedro Anes Solaz / Pedr’Eanes Solaz

(trovador ou jogral medieval)

 

AUTOR:

Trovador ativo em meados do século XIII, muito provavelmente natural da região de Pontevedra, Galiza, onde, em Meis, se situava o mosteiro de Nogueira, referido numa das suas composições1. No verdade, o seu apelido, ao contrário do que pensava D. Carolina Michaëlis (que o explicava como alcunha e supunha Pedro Anes jogral)2, deverá ter origem num topónimo atestado na Galiza, indicando a sua eventual pertença a uma família da pequena nobreza da região, estatuto social talvez mais conforme com a colocação das suas composições nos cancioneiros (numa zona de autores nobres). De resto, Ron Fernández3 localizou um indivíduo com o mesmo apelido, um João Solaz, na documentação de Lugo (atestado em 1304). À exceção destes dados indiretos, não possuímos, no entanto, qualquer outro dado que nos permita traçar a biografia mínima do trovador.

 

Referências

1 Oliveira, António Resende de (2001), O trovador galego-português e o seu mundo, Lisboa, Editorial Notícias, p. 200.

2 Vasconcelos, Carolina Michaëlis de (1990), Cancioneiro da Ajuda, vol. II, Lisboa, Imprensa nacional - Casa da Moeda (reimpressão da edição de Halle, 1904), p. 450.

3 Ron Fernández, Xavier (2005), “Carolina Michaelis e os trobadores representados no Cancioneiro da Ajuda”, in Carolina Michaelis e o Cancioneira da Ajuda hoxe, Santiago de Compostela, Xunta de Galicia.
     
 Aceder à página Web

 

Fonte: Lopes, Graça Videira; Ferreira, Manuel Pedro et al. (2011-), Cantigas Medievais Galego Portuguesas [base de dados online]. Lisboa: Instituto de Estudos Medievais, FCSH/NOVA. [Consulta em 2022-07-22] Disponível em: <https://cantigas.fcsh.unl.pt/autor.asp?pv=sim&cdaut=118>.

 

 

PRESENÇA DA CANTIGA NOS CANCIONEIROS: CBN 829, CV 415

 

Cancioneiro da Biblioteca Nacional – manuscrito B 829

Cancioneiro da Vaticana – manuscrito V 415


 

LÉXICO:

1. velida - bela, formosa.

 

2. Na interpretação recente de Rip Cohen e Federico Corriente ("Lelia Doura revisited", in La Corónica: a Journal of Medieval Hispanic Languages, Literatures and Cultures, 2002, vol. 31, n.º 1.), a expressão árabe significará "é a minha vez" ("a noite roda" ou "é longa" eram anteriores propostas de tradução).

Nota de Rip Cohen em 500 Cantigas d’Amigo: Edição Crítica / Critical Edition. Porto: Campo das Letras, 2003, p. 288: «vv. 2, 4, etc.: lelia doura pode ser lido como líya ddáwra “a mim a vez (= é a minha vez)” em árabe andaluz. líya, um alomorfe de li ‘a mim,’ ‘para mim’, é foneticamente /leia/, e lelia pode ser ou um erro por leiia ou, mais plausivelmente, uma transcrição de líya (cinco vezes em Martin Giinzo devemos pronunciar Cecilia como /sesia/ em rima, sendo todas as rimas perfeitas). Ed oi é romance ibérico arcaico < et hodie com vocalização do -t- intervocálico no interior da expressão. Assim ed oi / MUDANÇA DE CÓDIGO / líya ddáwra = “E hoje / MUDANÇA DE CÓDIGO / é a minha vez” – um verso bilingue, como ocorre em tantas kharajat

 

3. "e hoje", ainda segundo Cohen e Corriente, que entendem o termo não como árabe, mas como uma expressão em antiga língua romance, proveniente do Latim "et hodie" – já na anterior interpretação de Brian Dutton("Lelia doura, edoy lelia doura, na arabic refrain in a thirteenth-century galician poem?", in Bulletin of Hispanic Studies, 1964, XLI), tratar-se-ia de um termo árabe, cujo sentido seria "esmoreço".

 

4. Nota de Rip Cohen em 500 Cantigas d’Amigo: Edição Crítica / Critical Edition. Porto: Campo das Letras, 2003, p. 288: «vv. 25, 27, 29, 31: leli pode ser lido em árabe andaluz como layli, o substantivo layl ‘noite’ com sufixo pronominal da primeira pessoa (cf. Dutton 1964, mas o nome é colectivo, não o nomen unitatis, que seria laylati). ya layli é uma expressão comum que significa qualquer coisa como “que noite eu tive”. O primeiro elemento pode ser omitido por razões métricas ou para exprimir emoção intensa.»

 

5. Equivalente ao atual "diabos levem".

 

NOTA GERAL:

Durante muito tempo esta notável cantiga de amigo de Pedro Anes Solaz não encontrou uma explicação cabal, dada a estranheza do seu duplo refrão, que era entendido como puramente onomatopaico (ou seja, como um mero conjunto de sons exclamativos). A sugestão de Brian Dutton (19641) e Firmino Crespo (19672), de que se trataria, na verdade, de um refrão em língua árabe, significando "e a noite roda" ou "a noite é longa" (o que se enquadraria bastante bem na voz da donzela que não consegue dormir), veio trazer mais alguma luz à composição. Já mais recentemente, Rip Choen e Federico Corriente3 interpretaram de forma diferente os versos do refrão, propondo a tradução "é a minha vez" (v. 2), "e hoje é a minha vez" (v. 4) e ainda, quanto a leli (v. 25), a exclamação "A minha noite!".
Por explicar fica esta utilização da língua árabe no refrão, caso único em toda a poesia galego-portuguesa. Este facto, juntamente com as alterações algo bruscas no paralelismo (nas estrofes 5 e 6, e nas estrofes finais), alterações que parecem introduzir inesperados desvios de sentido na voz da donzela, continuam a dificultar uma interpretação cabal da cantiga. Lamento? Canto de júbilo? Original sátira indireta? (nesta última interpretação, o trovador poderia aludir aqui aos amores proibidos entre uma donzela e um muçulmano, talvez um músico, dentre os que sabemos terem estado ao serviço dos soberanos peninsulares). Seja como for, sublinhe-se o facto de estarmos perante uma cantiga de amigo que, sem nada perder do seu notável lirismo, é, na sua originalidade, de difícil classificação.

Referências

1 Dutton, Brian (1964), "Lelia doura, edoy lelia doura, na arabic refrain in a thirteenth-century galician poem?", in Bulletin of Hispanic Studies, XLI.

2 Crespo, Firmino (1967), "Lelia Doura ou o estranho refrão de uma cantiga trovadoresca", in Colóquio, 42, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian.
     
 Aceder à página Web

3 Cohen, Rip e Corriente, Federico (2002), "Lelia Doura revisited", in La Corónica: a Journal of Medieval Hispanic Languages, Literatures and Cultures, vol. 31, nº 1.
     
 Aceder à página Web

 

 

VERSÕES MUSICAIS:

 

Originais: Desconhecidas

 

Contrafactum:

Eu velida no dormia 

Versão de José Augusto Alegria

 

Composição/Recriação moderna:

Cantar d’amigo (Cantares: op. 28, nº 4-2)      

Versão de Cláudio Carneyro

 

Lelia Doura      

Versões de Amancio Prada

 

Eu belida non durmia       

Versão de X. Paz Antón, Uxía

 

Lelia doura      

Versão de José Mário Branco

  

Fonte: Lopes, Graça Videira; Ferreira, Manuel Pedro et al. (2011-), Cantigas Medievais Galego Portuguesas [base de dados online]. Lisboa: Instituto de Estudos Medievais, FCSH/NOVA. [Consulta em 2022-07-22] Disponível em: <https://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?ling=por&cdcant=838>.

 



 

   Poderá também gostar de:

 

Edição crítica da cantiga medieval “Eu velida nom dormia”, disponível em https://www.universocantigas.gal/cantigas/eu-velida-non-dormia, Coruña, Facultade de Filoloxía, © 2022

 

“Pedro Eanes Solaz”, verbete de http://xacopedia.com/Pedro_Eanes_Solaz. Copyright 2015 © Bolanda.

 

 

Poesia trovadoresca galego-portuguesasíntese didática

 

Sedução e drama nos cantares de amigo.

 

INTERTEXTUALIDADE:

 

  • O verso “edoi lelia doura” serve de título à Antologia das Vozes Comunicantes da Moderna Poesia Portuguesa organizada por Herberto Helder (Lisboa: Assírio & Alvim,1985).

 


CARREIRO, José. “Eu velida nom dormia, Pedro Anes Solaz (Pedr'Eanes Solaz)”. Portugal, Folha de Poesia, 22-07-2022. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/07/eu-velida-nom-dormia-pedro-anes-solaz.html


quinta-feira, 21 de julho de 2022

O vagabundo do mar, Manuel da Fonseca

Ilustração de "O vagabundo do mar", por Sónia Oliveira (in Contos & Recontos 7, 2011)

 

O VAGABUNDO DO MAR

 

Sou barco de vela e remo

sou vagabundo1 do mar.

Não tenho escala2 marcada

nem hora para chegar:

é tudo conforme o vento,

tudo conforme a maré...

Muitas vezes acontece

largar o rumo tomado

da praia para onde ia...

Foi o vento que virou?

foi o mar que enraiveceu

e não há porto de abrigo?

ou foi a minha vontade

de vagabundo do mar?

Sei lá.

Fosse o que fosse

não tenho rota marcada

ando ao sabor da maré.

É por isso, meus amigos,

que a tempestade da Vida

me apanhou no alto mar.

E agora

queira ou não queira,

cara alegre e braço forte:

estou no meu posto a lutar!

Se for ao fundo acabou-se.

Estas coisas acontecem

aos vagabundos do mar.

 

Manuel da Fonseca, Rosa dos Ventos. Lisboa, ed. do autor, 1940

 



 

Vocabulário:

1. vagabundo: nómada, que está em permanente deslocação.

2. escala: porto de embarque e desembarque.

 

Texto de apoio:

O poema “O vagabundo do mar”, de Manuel da Fonseca, mostra o barco de vela e remo, no papel de protagonista, sem rumo delineado, navegando ao sabor das marés, sujeito aos ventos e aos perigos. Apanhado pela “tempestade” da vida, resiste estoicamente, sem abandonar o seu posto. Neste caso, a embarcação é sinónima de evasão, de fuga, de encontro de um destino superior, no entanto, o texto de Manuel da Fonseca mostra a luta e a resistência como fatores determinantes da vida de um “vagabundo do mar”, que não obedece às leis dos homens, prevalecendo as leis da natureza, (o vento, a maré) numa atitude de algum desprendimento e cumplicidade com um destinatário, visível na apóstrofe “Meus amigos”, de acento popular. Este chamamento acentua a relação de fraternidade numa jornada de luta e incerteza, manifestando uma possível ligação entre a estética neorrealista e a tónica numa escrita comprometida socialmente, a que não parece alheia a necessidade de resistir às adversidades. Este motivo volta a surgir noutros poemas do autor: “Amigo / tu que choras uma angústia qualquer / e falas de coisas mansas como o luar / e paradas / como as águas de um lago adormecido / acorda!”. (1984: 152) 

A poesia e alguns dos seus caminhos: uma perspetiva comparatista para a formação de leitores na aula de português língua materna, Maria Mestre. Lisboa: Universidade Aberta, 2015.



I - Para responder a cada item, seleciona a opção que melhor completa o sentido do poema "O vagabundo do mar", de Manuel da Fonseca.

1. A identificação do sujeito poético com um «barco de vela e remo» sugere a sua

(A) condição de marinheiro aventureiro.

(B) consciência das fragilidades da vida humana.

(C) caraterização como vagabundo, indivíduo ocioso.

 

2. O interlocutor do «eu» surge no poema identificado na expressão

(A) «o vento» (linha 10).

(B) «o mar» (linha 11).

(C) «meus amigos» (linha 19).

 

3. As interrogações presentes no poema realçam

(A) a necessidade de o sujeito poético interpelar alguém.

(B) as dúvidas de caráter existencialista do sujeito poético.

(C) os perigos da vida marítima.

 

4. O verso «estou no meu posto a lutar!» (linha 25) sugere um sujeito poético

(A) persistente.

(B) desistente.

(C) desiludido.

 

5. A figura de estilo que está na base da construção do poema é

(A) a comparação.

(B) a metáfora.

(C) a imagem.

 

6. No verso «É por isso, meus amigos» (linha 19), a expressão «meus amigos» exerce a função sintática de

(A) sujeito.

(B) complemento direto.

(C) vocativo.

 

Chave de correção: 1. (B) 2. (C) 3. (B) 4. (A) 5. (C) 6. (C)

Fonte: Olimpíadas da Língua Portuguesa. Ensino Secundário. 1.ª Fase. Portugal, Direção-Geral da Educação, 2013-05-09 <https://www.dge.mec.pt/olimpiadas-da-lingua-portuguesa>

 

 

II – Ainda sobre a leitura do poema "O vagabundo do mar", responde, agora, às perguntas que se seguem.

1. Transcreve do poema expressões que comprovem o abandono do sujeito poético às circunstâncias envolventes.

 

2. Caracteriza o sujeito poético tendo em conta a forma como encara a vida e as dificuldades que vão surgindo.

 

Fonte: lição n.º 61 de Português – 7.º e 8.º anos (Projeto #EstudoEmCasa), sobre "O sol é grande, caem co´a calmas as aves", de Sá de Miranda. "O vagabundo do mar", de Manuel da Fonseca, 2021-06-22.

 







 

Poderá também gostar de:

 


Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária de textos de Manuel da Fonseca, por José Carreiro. In: Folha de Poesia, 2018-05-04, disponível em https://folhadepoesia.blogspot.com/2018/05/manuel-da-fonseca.html

 



CARREIRO, José. “O vagabundo do mar, Manuel da Fonseca”. Portugal, Folha de Poesia, 21-07-2022. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/07/o-vagabundo-do-mar-manuel-da-fonseca.html