sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Viagem: Aparelhei o barco da ilusão, Miguel Torga


 

VIAGEM

 

Aparelhei o barco da ilusão

E reforcei a fé de marinheiro,

Era longe o meu sonho, e traiçoeiro

O mar...

(Só nos é concedida

Esta vida

Que temos;

E é nela que é preciso

Procurar

O velho paraíso

Que perdemos.)

 

Prestes1, larguei a vela

E disse adeus ao cais, à paz tolhida,

Desmedida,

A revolta imensidão

Transforma dia a dia a embarcação

Numa errante2 e alada3 sepultura...

Mas corto as ondas sem desanimar.

Em qualquer aventura,

O que importa é partir, não é chegar.

 

Miguel Torga, Antologia Poética, 5.ª ed., Lisboa, Dom Quixote, 1999

 

__________

[1] Prestes: (adj.) pronto; preparado; (adv.) depressa.

[2] errante: que muda continuamente de lugar.

[3] alada: com asas.

 

Apresente, de forma bem estruturada, as suas respostas ao questionário.

1. A «Viagem» representada no poema tem um carácter metafórico.

1.1. Identifique os diferentes momentos dessa «Viagem».

1.2. Interprete o valor simbólico que os elementos «barco» e «marinheiro» adquirem no texto.

2. Indique os traços caracterizadores do sujeito poético.

3. Analise os efeitos de sentido resultantes da utilização de parêntesis na primeira estrofe.

4. Comente a importância dos dois últimos versos na construção do sentido do poema.

 

 

Explicitação de cenários de resposta

1.1. A «Viagem» representa metaforicamente a vida do homem e constitui-se nos seguintes momentos:

- preparativos de embarque, com lançamento da «vela» e partida apressada do «cais» (cf. vv. 1-2 e 12-13), ou seja, tomada de decisão por parte do «eu» de enfrentar a «aventura» da vida;

- navegação em pleno mar (cf. vv. 14-18), enfrentando o sujeito as «ondas», ou seja, lutando com determinação pela concretização do seu percurso pessoal.

 

1.2. Os elementos «barco» e «marinheiro» representam simbolicamente o sujeito e metaforizam o seu pensamento sonhador («barco da ilusão»), a crença em si mesmo («fé de marinheiro») e a vontade de enfrentar a vida («Viagem», «mar», «aventura»), comandando o seu destino pessoal, isto é, traçando-lhe um rumo, tal como o «marinheiro» no comando do seu «barco».

    Este par simbólico representa, assim, a luta incessante do homem pela conquista da felicidade, única forma de enfrentar e ultrapassar a angústia existencial provocada pela certeza da morte (cf. vv. 14-17).

 

2. O sujeito poético caracteriza-se por ser:

- sonhador, acreditando no «sonho» de uma vida marcada pela busca da felicidade plena, na procura do «velho paraíso» perdido (cf. vv. 1-3 e 5-11);

- insatisfeito, rejeitando um modelo de vida limitado (cf. v. 13);

- determinado, persistindo na concretização do seu objetivo, apesar das adversidades a enfrentar (cf. v. 3 e vv. 15-18);

- lúcido, consciente de que nem mesmo a «ilusão» pode alterar a precariedade da existência humana (cf. vv. 14-17);

- aventureiro, enfrentando a incerteza e o risco próprios da «aventura» (cf. vv. 19-20).

Nota - A apresentação de quatro traços caracterizadores é considerada suficiente para a atribuição da totalidade da cotação referente aos aspetos de conteúdo.

 

3. A utilização de parêntesis introduz uma pausa discursiva que suspende o relato da «Viagem» e instaura um momento de reflexão em que o sujeito explicita (em cumplicidade com o leitor) os fundamentos da sua atitude, apresentando-os como uma regra de vida que propõe a toda a humanidade: o homem, no curto espaço da sua existência terrena a única que «nos» é «concedida» -, deve ter como ideal a busca e a (re)conquista da felicidade edénica. Os parêntesis evidenciam a importância desta tese no poema, isolando-a e conferindo-lhe unidade e autonomia.

 

4. Colocados no final do poema e apresentados sob a forma de uma máxima, estes versos ganham particular importância, pois neles se põe em evidência uma espécie de chave interpretativa. Na verdade, ao salientar a noção de que o princípio motor de «qualquer aventura» é a própria busca, e não o objetivo a alcançar, o sujeito clarifica o modo como encara a vida.

    Assim se justifica que o «eu», embora certo de que a morte é o destino inevitável do homem (cf. vv. 15-17), não abdique da sua capacidade de busca e persista na concretização do «sonho» que conferirá sentido à existência humana - o da procura da felicidade na única «vida» («Esta», a terrena) que aos homens «é concedida».

 

Fonte: Exame Nacional do Ensino Secundário. 12.º Ano de Escolaridade (Decreto-Lei n.º 286/89, de 29 de agosto). Cursos Gerais - Agrupamentos 1, 2 e 3 e Cursos Tecnológicos. Prova Escrita de Português B n.º 139. Portugal, GAVE, 2000, 1.ª fase, 1.ª chamada

 

 

Poderá também gostar de:

 

 

 

  • A poética torguiana”, Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária da poesia de Miguel Torga, por José Carreiro. In Folha de Poesia, 09-08-2013

 

 



CARREIRO, José. “Viagem: Aparelhei o barco da ilusão, Miguel Torga”. Portugal, Folha de Poesia, 23-09-2022. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/09/viagem-aparelhei-o-barco-da-ilusao.html


quinta-feira, 22 de setembro de 2022

A um Negrilho, Miguel Torga

Foto: in Árvores Monumentais de Portugal, Ernesto Goes(1984)

 

A UM NEGRILHO1

 

Na terra onde nasci há um só poeta.

Os meus versos são folhas dos seus ramos.

Quando chego de longe e conversamos,

É ele que me revela o mundo visitado.

Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,

E a luz do sol aceso ou apagado

É nos seus olhos que se vê pousada.

 

Esse poeta és tu, mestre da inquietação

Serena!

Tu, imortal avena2

Que harmonizas o vento e adormeces o imenso

Redil3 de estrelas ao luar maninho4.

Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso

Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!

 

Miguel Torga, Antologia Poética, 5.ª ed. Lisboa, Dom Quixote, 1999. Poema publicado inicialmente em Diário, VII, 1957

 

________

1 Negrilho: árvore de grande porte que dá madeira escura, também designada por olmo ou ulmeiro.

2 Avena: flauta pastoril; símbolo do estilo simples, próprio dos versos pastoris.

3 Redil: local cercado onde se recolhe o gado, especialmente cabras e ovelhas.

4 Maninho: que não é fecundo; estéril.



 

Apresente, de forma bem estruturada, as suas respostas ao questionário.

1. Indique as características do «Negrilho» referidas no poema.

2. Explicite o efeito de sentido produzido pela mudança de pessoa verbal – «ele»/«tu» – da primeira para a segunda estrofe.

3. Refira as atitudes assumidas pelo «eu» no seu relacionamento com o «Negrilho».

4. Interprete o significado da metáfora «imenso/ Redil de estrelas» (vv. 11-12).

5. Caracterize o conceito de poesia simbolizado pelo «Negrilho».

 

Explicitação de cenários de resposta

1. De acordo com o poema, o «Negrilho» é:

- uma árvore («folhas dos seus ramos») imponente («gigante»), antiga (nela o «tempo» faz «ninho»), de copa abundante («bosque suspenso») e em cuja ramagem se refletem a «luz do sol» e a luminosidade noturna (cf. vv. 6-7);

- um espaço protetor, a que se acolhem o «eu», «os pássaros e o tempo»;

- um ser com estatuto humano, dotado quer de atributos físicos - a voz («conversamos») e os «olhos» -, quer de traços psicológicos, pois é definido como sábio («revela o mundo visitado») e sonhador;

- o único poeta da terra natal do «eu», e «mestre da inquietação/ Serena».

 

2. A alteração de pessoa verbal - de «ele» para «tu» - entre as duas estrofes faz ressaltar a proximidade entre o «eu» e o «Negrilho». Na primeira estrofe, o sujeito poético enfatiza o carácter excecional daquela árvore e da sua relação com ela, mas mantém. através do discurso de terceira pessoa, um tom contido de aparente distanciamento. Ao dirigir-se ao «Negrilho», na segunda estrofe, tratando-o por «tu», dá expressão dramática à sua relação com a árvore, revelando, em toda a sua intensidade, o envolvimento afetivo que a caracteriza.

 

3. No seu relacionamento com o «Negrilho», o sujeito poético assume atitudes de:

- identificação e respeito, tomando o «Negrilho» como origem dos seus próprios versos (cf. v. 2) e como «mestre» (cf. v. 8);

- aprendizagem («conversamos», «revela»), pois é o «Negrilho» quem decifra o «mundo», permitindo ao «eu» aceder ao sentido das coisas vistas;

- admiração, devido à capacidade suprema que o «Negrilho» tem de simbolizar a harmonia da natureza (cf. vv. 8-9 e 11-12).

 

4. Ao recorrer à metáfora «imenso/ Redil de estrelas», o sujeito poético estabelece uma analogia entre o gado miúdo e as «estrelas»: os minúsculos pontos luminosos distribuídos na imensidão do céu sugerem a imagem do gado que está reunido, para passar a noite, numa cerca (o «Redil»): assim, o sujeito poético expressa, por um lado, a valorização da realidade rural, terrena, que surge como que refletida no céu, e, por outro, uma vivência do Cosmos como uma realidade próxima e familiar.

 

5. O conceito de poesia simbolizado pelo «Negrilho» apresenta os seguintes traços:

- valorização da sabedoria da terra («É ele que me revela o mundo visitado»);

- simplicidade poética, inspirada na natureza («imortal avena»);

- ideal de harmonia e de serenidade («inquietação/ Serena»);

- valor da poesia como ordenadora mágica do Universo;

- expressão do sonho humano de elevação («gigante a sonhar») e de integração na ordem cósmica;

- …

Nota - A apresentação de três traços caracterizadores é considerada suficiente para a atribuição da totalidade da cotação referente aos aspetos de conteúdo.

 

Fonte: Exame Nacional do Ensino Secundário. 12.º Ano de Escolaridade (Decreto-Lei n.º 286/89, de 29 de agosto). Cursos Gerais e Cursos Tecnológicos. Prova Escrita de Português B n.º 139. Portugal, GAVE, 2001, 1.ª fase, 2.ª chamada


 


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  • A poética torguiana”, Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária da poesia de Miguel Torga, por José Carreiro. In Folha de Poesia, 09-08-2013

 

 



CARREIRO, José. “A um Negrilho, Miguel Torga”. Portugal, Folha de Poesia, 22-09-2022. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/09/a-um-negrilho-miguel-torga.html


quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Prospeção, Miguel Torga

Pascal Moreaux, Encontro marcado com Miguel Torga

 

PROSPEÇÃO

 

Não são pepitas de oiro que procuro.

Oiro dentro de mim, terra singela!

Busco apenas aquela

Universal riqueza

Do homem que revolve a solidão:

O tesoiro sagrado

De nenhuma certeza,

Soterrado

Por mil certezas de aluvião.

 

Cavo,

Lavo,

Peneiro,

Mas só quero a fortuna

De me encontrar.

Poeta antes dos versos

E sede antes da fonte.

Puro como um deserto.

Inteiramente nu e descoberto.

 

Miguel Torga, Antologia Poética, 5.ª ed., Lisboa, Dom Quixote, 1999

 

_________

Prospeção: pesquisa destinada a descobrir os filões ou jazigos de uma mina.

Aluvião: depósito de materiais provenientes da destruição das rochas e transportados pelas águas correntes.

 

 



 Elabore um comentário do poema “Prospeção”, de Miguel Torga, que integre o tratamento dos seguintes tópicos:

- adequação do título ao sentido geral do texto;

- caracterização da figura do «eu»;

- recursos estilísticos mais importantes;

- integração no universo poético de Miguel Torga.

 

 

Explicitação de cenários de resposta

Adequação do título ao sentido geral do texto

«Prospeção», significando uma atividade de procura de minério no interior da terra, torna-se, enquanto metáfora, sinónimo de «introspeção».

O poema descreve a atividade de busca interior de um «tesoiro», que é, por sua vez, metáfora do processo de identificação de uma verdade subjetiva, num espaço de despojamento e de pureza; o «tesoiro» procurado pela «Prospeção», que começa por ser associado a uma atitude de suspensão de toda e qualquer «certeza» - isto é, a uma atitude de abertura ao desconhecido e ao improvável -, é, na segunda estrofe, associado ao ser «Poeta antes dos versos»; esse «tesoiro» é um «eu» profundo que os versos pressupõem e, portanto, indica de forma direta a atividade poética em geral.

 

Caracterização da figura do «eu»

O «eu» lírico começa por se apresentar como uma «terra singela», ou seja, um homem igual a todos os homens que a si mesmos se procuram, e que nem encerra nenhuma fortuna especial nem possui nenhum privilégio da sorte; o «eu» traça, então, o seu autorretrato com base no facto de não ter «nenhuma certeza».

O «eu» autodefine-se, na segunda estrofe, como «Poeta antes dos versos», alguém que é constituído essencialmente por uma vontade de ser poeta, ou que vive um estado poético anterior ao concreto exercício da escrita.

A associação estabelecida nos vv. 15-16 entre ser «Poeta» e ter «sede» - antes mesmo de escrever «versos» e de procurar a «fonte» - implica destacar a dimensão do desejo, da ânsia, a presença de uma força interior aberta e inocente (o estar «Puro» e «nu e descoberto»).

 

Recursos estilísticos mais importantes

Todo o poema pode ser definido como uma alegoria da procura («Prospeção») interior, encontrando-se ainda como recursos estilísticos principais:

- metáforas: «pepitas de oiro», «terra singela», «Universal riqueza», «Cavo», «Lavo», «Peneiro», «a fortuna/ De me encontrar», «Inteiramente nu e descoberto»;

- comparação: «Puro como um deserto»;

- imagem: «O tesoiro sagrado/ De nenhuma certeza,/ Soterrado/ Por mil certezas de aluvião»;

- pleonasmo: «nu e descoberto»;

- …

 

Integração no universo poético de Miguel Torga

Este poema é representativo do modo de escrita próprio do seu autor, pela importância que nele tomam:

- as imagens ligadas à terra, e sobretudo à «terra singela», com as suas conotações de rudeza, sobriedade, força e beleza;

- os gestos de trabalho prático e duro, de que a «Prospeção» é um exemplo;

- os temas da pureza e da ânsia interiores, associáveis à temática mais geral da sinceridade, própria também da geração da presença;

- o tema da nudez interior, associável à temática da autenticidade;

- a figuração de uma imagem heroica do poeta;

- …

 

Fonte: Exame Nacional do Ensino Secundário. 12.º Ano de Escolaridade - Via de Ensino (4.º curso). Prova Escrita de Literatura Portuguesa n.º 134, 2001, 1.ª fase, 2.ª chamada.

 


Pascal Moreaux, Encontro marcado com Miguel Torga


Amar “o duro ofício de criar beleza” 

A metáfora da busca da poesia enquanto mineração, tanto em sentido metafísico como alquímico, encontra-se desenvolvida no poema «Prospeção», inserto em Orfeu Rebelde.

A duplicidade da natureza do trabalho é aqui evidente. Os sentidos inerentes ao uso das formas verbais «Cavo/Lavro/Peneiro» sugerem tanto uma pesquisa interior quanto uma pesquisa prática, organizadoras do trabalho poético.

Atrever-me-ia a afirmar, como Aníbal Pinto Castro, que se trata de um constante «labor limae» (2005: 83) que se consubstancia, segundo o mesmo autor, na preocupação em procurar atingir a senda da perfeição, por exemplo, também, quando o poeta emenda, compulsivamente, as versões manuscritas das suas obras.

O árduo labor sobre o verbo fica igualmente bem vincado no poema «Profissão» incluído na obra supracitada, que me inspirou o título para o item a que agora me dedico:

 

PROFISSÃO

 

Brilha o poema como um novo astro

No céu da eternidade…

Tenacidade

Humana!

Tanto fiz

E desfiz,

Que ninguém diz

Que já foi minha a luz que dele emana.

 

Amo

O duro ofício de criar beleza,

Sina igual à do ramo

Que desprende de si o gosto do seu fruto.

E lapido no torno da tristeza

As lágrimas em bruto

Que recolho dos olhos

Com secreta

Ironia.

Transfiguro o meu pranto, e sou poeta:

Começa a noite em mim quando amanhece o dia.

 

Aqui, o ato criativo é entendido como laboração e metamorfose da própria emoção. O sentimento é cavilha que modela «as lágrimas em bruto». Dá-se então a epifania, a fulguração, a erosfania.

Torga é, pois, o poeta que, numa entrega total, se dedica ao penoso ofício de criar beleza. Com rigor, mas também com uma paixão incontestada, que enriquece sobremaneira o seu processo criativo.

 

Ana Ferrão, O Pulsar de Eros na Criação Poética de Miguel Torga: Um Paradigma da Celebração da Vida, Universidade de Évora, 2010

 

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  • A poética torguiana”, Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária da poesia de Miguel Torga, por José Carreiro. In Folha de Poesia, 09-08-2013

 




CARREIRO, José. “Prospeção, Miguel Torga”. Portugal, Folha de Poesia, 21-09-2022. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/09/prospecao-miguel-torga.html



terça-feira, 20 de setembro de 2022

Depoimento: Nunca pisei um chão de segurança, Miguel Torga

Miguel Torga, por Isolino Vaz. Retrato a carvão, 1961

 

DEPOIMENTO

 

Foi na vida real como nos sonhos:

Nunca pisei um chão de segurança.

Procuro na lembrança

Um sólido caminho percorrido,

E vejo sempre um barco sacudido

Pelas ondas raivosas do destino.

Um barco inconsciente de menino,

Um barco temerário de rapaz,

E um barco de homem, que já não domino

Entre os rochedos onde se desfaz.

 

Mas o céu era belo

Quando à noite o seu dono o acendia;

E era belo o sorriso da poesia,

E belo o amor, dragão insatisfeito;

E era belo não ter dentro do peito

Nem medo, nem remorsos, nem vaidade.

Por isso digo que valeu a pena

A dura realidade

Desta viagem trágico-terrena

 

Sempre batida pela tempestade.

 

Miguel Torga, Orfeu Rebelde, 1958.
Antologia Poética, 2.ª edição, Coimbra, 1985

 

_________

VOCABULÁRIO:

Depoimento – ato ou efeito de depor; testemunho.

Temerário – ousado perante um perigo quase certo; imprudente, aventureiro.

 

 

I – Questionário sobre a leitura do poema “Depoimento”, de Miguel Torga.

1. O sujeito poético, ao fazer um balanço da sua vida, conclui: "Nunca pisei um chão de segurança” (v. 2). Este verso significa que ele

a) nunca se mostrou firme no andar.

b) nunca teve uma vida fácil.

c) nunca se integrou na Natureza.

d) nunca foi aceite pelos outros.

 

2. A primeira estrofe constrói-se com base na metáfora. Explicita o significado de "um barco sacudido pelas ondas raivosas do destino" (vv. 5 e 6)

 

3. Caracteriza as etapas fundamentais da vida do sujeito poético, partindo das expressões “barco inconsciente de menino", "barco temerário de rapaz", "barco de homem".

 

4. Relê atentamente a segunda estrofe. Aponta os aspetos positivos que preencheram a vida do poeta.

 

5. Explicita o balanço que o sujeito poético faz da sua vida no final do poema.

 

Fonte: Teste de Língua Portuguesa – 8.º ano de escolaridade. Professora Sónia Pinto, Externato João Alberto Faria Arruda dos Vinhos, abril de 2010. Disponível em: https://zdocx.com.br/doc/pg8ano-201112-reparado-r8p53wqv2x6q

***

 

II - Elabore um comentário global do poema “Depoimento”, de Miguel Torga, tendo em conta os níveis formal, fónico, morfossintático e semântico, de modo a evidenciar, entre outros, os seguintes aspetos:

- assunto e estrutura lógica da sua composição;

- valor do título e sua relação com o tom do discurso apresentado;

- jogo metafórico e o seu processo de desenvolvimento;

- sua relação com o universo temático fundamental de Miguel Torga.

 

Fonte: Exame Nacional do Ensino Secundário. 12.º Ano de Escolaridade - Via de Ensino (4.º curso). Prova Escrita de Literatura Portuguesa n.º 134, 1997, 1.ª fase, 1.ª chamada.

  

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  • A poética torguiana”, Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária da poesia de Miguel Torga, por José Carreiro. In Folha de Poesia, 09-08-2013

 




CARREIRO, José. “Depoimento: Nunca pisei um chão de segurança, Miguel Torga”. Portugal, Folha de Poesia, 20-09-2022. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/09/depoimento-nunca-pisei-um-chao-de.html



segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Visita: Fui ver o mar, Miguel Torga


Despair (1869),  Jean-Joseph Perraud


VISITA

 

Fui ver o mar.

Homem de polo a polo, vou

De vez em quando olhá-lo, enraizar

Em água este Marão1 que sou.

 

Da penedia triste

Pus-me a olhar aquele fundo

Dentro do qual existe

O coração do mundo.

 

E vi, horas a fio,

A sua angústia ser

Uma espécie de rio

Que não sabe correr.

 

Miguel Torga, Antologia Poética, 5.ª ed., Lisboa, Dom Quixote, 1999

___________

1 Marão: serra do Norte de Portugal.

 

 

Elabore um comentário do poema que integre o tratamento dos seguintes tópicos:

- traços caracterizadores do sujeito poético;

- importância das referências ao ato de ver;

- aspetos formais e recursos estilísticos relevantes;

- valor simbólico de «mar»;

[- inserção do poema «Visita» no universo poético de Miguel Torga.]

 

 

Explicitação de cenários de resposta

 

Traços caracterizadores do sujeito poético

O sujeito poético é:

- marcado pelas imagens da sua «Visita» ao «mar»;

- consciente da sua condição integralmente humana, da sua pertença ao mundo como um todo («Homem de polo a polo»);

- definido pela relação com a montanha («este Marão que sou»), mas também desejoso de se «enraizar» na água do mar;

- dotado da capacidade de decifrar o sentido oculto das coisas, refletindo sobre a condição humana (cf. 2.ª e 3.ª estrofes);

- contemplativo e melancólico;

- …

 

Importância das referências ao ato de ver

A presença recorrente, no poema, de referências ao ato de ver (cf. vv. 1, 2-3, 6 e 9) evidencia a centralidade desta linha temática e a diversidade de modos de realização do processo de visão. Assim:

- «Fui ver o mar» denota o exercício de uma visão meramente percetiva;

- «vou/ De vez em quando olhá-lo» dá conta da repetida necessidade de efetivar o ato de ver o «mar»;

- «Pus-me a olhar» implica uma atitude contemplativa, prolongada, indiciando, por isso, a passagem progressiva da visão externa para uma visão interior;

- «E vi, horas a fio» apresenta-se como a conclusão de um longo processo meditativo, em que o «eu» acede à revelação (visão interior);

- …

 

Aspetos formais e recursos estilísticos relevantes

De entre os recursos estilísticos presentes neste poema, salientam-se os seguintes:

- metáforas, umas marcando a dupla identidade do «eu» - a terra («este Marão que sou» - v. 4) e o mar (onde o «eu» pretende enraizar-se)-, outras representando a natureza do mar («aquele fundo» que encerra «0 coração do mundo», «rio/ Que não sabe correr» - vv. 6, 8 e 11-12);

- personificação («penedia triste», «A sua angústia ser» - vv. 5 e 10), pondo em evidência os sentimentos de tristeza e de «angústia» que a contemplação do «mar» desperta no sujeito poético;

- comparação («uma espécie de rio»), pela qual o conceito de «mar» se define em função do de «rio» (logo, da serra a que este se liga);

- imagem paradoxal («rio/ Que não sabe correr» - vv. 11-12), revelando a perplexidade do homem da serra relativamente ao mar e figurando a própria incapacidade humana;

- …

 

Relativamente a aspetos formais, temos, por exemplo:

- regularidade estrófica (três quadras);

- rima cruzada (ABAB / CDCD / EFEF);

- oscilação da métrica, com exceção da terceira estrofe, a qual apresenta em todos os versos seis silabas métricas;

- …

 

Nota - Para a atribuição da totalidade da cotação referente ao conteúdo deste tópico do comentário, é considerada suficiente a apresentação de quatro elementos, englobando obrigatoriamente recursos estilísticos e aspetos formais.

 

Valor simbólico de «mar»

O «mar» representa simbolicamente:

- um lugar de origem, quer enquanto espaço líquido de enraizamento do «eu»/ «Marão» («vou/[...] enraizar/ Em água este Marão que sou»), quer enquanto sede do «coração do mundo»;

- o enigma da existência humana («aquele fundo/ Dentro do qual existe/ O coração do mundo»);

- a angústia inerente à condição do homem («Uma espécie de rio/ Que não sabe correr»);

- …

(Fonte: Exame Nacional do Ensino Secundário. 12.º Ano de Escolaridade (Dec.-Lei nº 286/89, de 29 de agosto). Curso Geral – Agrupamento 4. Prova Escrita de Português A nº 138 e respetivos critérios de classificação. Portugal, GAVE [IAVE], 2001, 2ª fase)

 

Inserção do poema «Visita» no universo poético de Miguel Torga:

- as imagens ligadas à terra;

- o tema da ânsia interior (desespero humanista da incapacidade humana);

- a identificação com a terra onde nasceu e com a qual mantém raízes (sentimento telúrico);

- a solidão, o isolamento.

 

Miguel Torga, Arquivo RTP, 1995-01-17
https://arquivos.rtp.pt/conteudos/biografia-do-escritor-miguel-torga/

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  • A poética torguiana”, Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária da poesia de Miguel Torga, por José Carreiro. In Folha de Poesia, 09-08-2013

 

 



CARREIRO, José. “Visita: Fui ver o mar, Miguel Torga”. Portugal, Folha de Poesia, 19-09-2022. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/09/visita-fui-ver-o-mar-miguel-torga.html