sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Olímpia: Ele emergiu do poente como se fosse um deus, Sophia Andresen

Sophia na Grécia, em 1963, https://purl.pt/19841/1/1960/1960-1.html

 

OLÍMPIA1

 

Ele emergiu2 do poente como se fosse um deus

A luz brilhava de mais no obscuro loiro do seu cabelo

 

Era o hóspede do acaso

Reunia mal as palavras

Foram juntos a Olímpia lugar de atletas

Terra à qual pertenciam

Os seus largos ombros as ancas estreitas

A sua força esguia espessa e baloiçada

E a sua testa baixa de novilho3

Jantaram ao ar livre num rumor de verão e de turistas

Uma leve brisa passava entre diversos rostos

 

Ela viu-o depois ficar sozinho em plena rua

Subitamente jovem de mais e como expulso e perdido

 

Porém na manhã seguinte

Entre as espalhadas ruínas da palestra4

Ela viu como o corpo dele rimava bem com as colunas

Dóricas5

 

De qualquer forma em Patras6 poeirenta

No abafado subir da noite

Tomaram barcos diferentes

 

De muito longe ainda se via

No cais o vulto espesso baloiçado esguio

Que entre luzes com as sombras se fundia

 

Sob a desprezível indiferença

Não dela mas dos deuses

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

ILHAS, 1.ª ed., 1989, Lisboa, Texto Editora, ilustração de Xavier Sousa Tavares • 2.ª ed., 1990, Lisboa, Texto Editora • 3.ª ed., 1992, Lisboa, Texto Editora, ilustração de Xavier Sousa Tavares • 4.ª ed., 2001, Lisboa, Texto Editora • 5.ª ed., revista, 2004, Lisboa, Editorial Caminho.

 

__________

1 Olímpia: santuário da antiga Grécia onde se celebravam os Jogos Olímpicos; atualmente, um importante centro arqueológico grego.

2 emergiu: saiu; surgiu.

3 novilho: toiro jovem.

4 palestra: lugar onde os jovens gregos se exercitavam em ginástica.

5 Dóricas: pertencentes ao estilo dórico (estilo arquitectónico da Grécia Antiga).

6 Patras: cidade e porto da Grécia.

 

John Tarantola, 2021-03-26


Apresente, de forma bem estruturada, as suas respostas ao questionário sobre o poema “Olímpia”, de Sophia de Mello Breyner Andresen.

1. O poema constrói-se em torno do encontro entre «Ele» e «Ela», tendo como cenário lugares da Grécia.

1.1. Defina a sequência de momentos desse encontro.

1.2. Identifique os valores simbólicos que os lugares de «Olímpia» e de «Patras» adquirem no texto.

2. A figura masculina («Ele») revela-se através do olhar da figura feminina («Ela»).

2.1. Descreva as sucessivas imagens da figura masculina registadas ao longo do poema.

2.2. Atribua um significado à expressão «hóspede do acaso» (v. 3).

3. Comente o sentido da última estrofe, tendo em conta a sua ligação com o terceto anterior.

 

 

Explicitação de cenários de resposta

1.1. A sequência de momentos é a seguinte:

- encontro à hora do «poente»;

- ida em conjunto a «Olímpia» e jantar sob «Uma leve brisa» de «verão», no meio de muitos turistas;

- primeira separação;

- reencontro «na manhã seguinte» e visita à «palestra»;

- separação definitiva, de noite, no cais de «Patras».

 

1.2. «Olímpia» é «lugar de atletas» da Grécia Antiga, que «Ele» e «Ela» visitam juntos. Este espaço faz sobressair a beleza física da figura masculina e nele decorre o encontro mais intenso entre «Ele» e «Ela». É, em suma, o lugar marcado positivamente que, de forma significativa, dá o título ao poema. «Patras» é o lugar marcado negativamente: «poeirenta», associada à noite e ao ar abafado, é o local da separação.

 

2.1. A figura masculina, resultando de uma sobreposição de imagens registadas pelo olhar feminino em momentos e locais diferentes, é sucessivamente apresentada como:

- alguém que surge «como se fosse um deus», com o cabelo «loiro» envolvido pela luz do poente;

- «o hóspede do acaso» e expressando-se com dificuldade («Reunia mal as palavras»);

- um homem com características atléticas («largos ombros», «ancas estreitas», «força esguia espessa e baloiçada», «testa baixa de novilho»);

- um indivíduo «Subitamente jovem de mais e como expulso e perdido»;

- um modelo de beleza masculina em perfeita harmonia com as «colunas / / Dóricas» da «palestra»;

- um «vulto» que se funde com as sombras da noite, no cais de «Patras poeirenta».

 

2.2. Exemplos de interpretações possíveis da expressão «hóspede do acaso» (v. 3):

- aquele que corporizou um momento inesperado;

- alguém que o acaso trouxera àquele lugar;

- aquele que estava de passagem, sem rumo definido;

- ...

 

3. A penúltima estrofe descreve o que «Ela» vê do barco, ao afastar-se de «Patras»: o «vulto» dele desaparecendo nas «sombras» do «cais». É o adeus definitivo. A persistência do olhar dela, fixando esse vulto até o perder de vista («De muito longe ainda se via»), é expressiva do sentimento de perda que a domina na hora da separação. Explicitando a atitude dela como sendo de não indiferença, a estrofe final denuncia, porém, «a desprezível indiferença» «dos deuses» perante os encontros e os desencontros dos homens.

    O poema termina, assim, opondo o humano, dotado de sentimentos mas impotente, ao divino, de uma omnipotência distante e insensível. 

(In: Português B: questões de exame do 12.º ano: 1998-2003. volume 1. Lisboa, GAVE, 2004)


Poderá também gostar de:

 


Olímpia: Ele emergiu do poente como se fosse um deus, Sophia Andresen”, José Carreiro. Folha de Poesia, 2022-10-21. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/10/olimpia-ele-emergiu-do-poente-como-se.html


quinta-feira, 20 de outubro de 2022

As Nereides, Sophia Andresen

Nereida reclinada nas costas de um cavalo-marinho, fresco de Pompéia

 

AS NEREIDES1

 

Pudesse eu reter o teu fluir, ó quarto

Reter para sempre o teu quadrado branco

Denso de silêncio puro

E vida atenta

 

Reter o brilho

Da Cassiopeia2 em frente da janela

Reter a queda

Das ondas sobre a areia

E habitar para sempre o teu espelho

 

Que dos meus ombros jamais tombasse o tempo

Marinho misterioso e antigo

Assim como as nereides

Não perderão jamais seu manto de água

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

NAVEGAÇÕES, 1ª ed., versão inglesa de Ruth Fainlight, versão francesa de Joaquim Vital, 1983, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, «Musarum officia», com um disco gravado pela Autora • 2.ª ed., 1996, Lisboa, Editorial Caminho • 3.ª ed., 1996, Lisboa, Editorial Caminho • 4.ª ed., revista, 2004, Lisboa, Editorial Caminho.

 

__________

Notas:

1 Nereides: Ninfas do mar. Filhas de Nereu, um dos "Velhos do Mar", e de Dóris, uma Oceânide, e netas de Oceano (pai de Dóris), eram divindades marinhas por excelência, de grande beleza. Eram para muitos a personificação das ondas do mar e do aspeto jovial do mar. Seriam mais de cinquenta e, para alguns, mesmo cem. Entre elas, são bastante conhecidas Anfitrite, Calipso, Dione, Galateia, Janira, Orítia, Proto, Tétis, entre outras. Tétis ficou famosa também por ser mãe de Aquiles, Anfitrite por ser esposa de Poseidon, deus do mar - o mais volúvel dos deuses em questões amorosas, deixando o maior número de filhos extraconjugais, superando mesmo Zeus - ou Orítia, tida como filha de Erecteu, rei de Atenas. As Nereides faziam parte, com os Tritões, do agitado cortejo de divindades do Mar. As Nereides viviam no fundo do mar, de acordo com a tradição, num palácio do pai, sentando-se num trono de ouro. O seu tempo era ocupado a fiar, a tecer e a cantar, para além de se divertirem a cavalgar golfinhos ou cavalos-marinhos nas ondas, como diziam os poetas gregos e os posteriores, com os seus longos cabelos a boiar nas águas e alegremente a nadar e saltar por entre golfinhos e tritões. A sua postura nos episódios fabulosos da mitologia grega era quase sempre a de meras espectadoras, observando ou surgindo como meras figurantes, raramente como atuantes ou decisivas em acontecimentos maiores. Por exemplo, limitaram-se a consolar sua irmã Tétis, chorando com ela a morte de Aquiles e de Pátroclo. Quando intervinham, era sempre de forma subalterna ou discreta, como sucedeu quando ajudaram Hércules (Héracles) a obter de Nereu, seu pai, indicações seguras para que o herói encontrasse o caminho para o país das Hespérides. Entre outros episódios, as Nereides também estiveram presentes quando Perseu libertou Andrómeda. (Nereide na Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora. Disponível em https://www.infopedia.pt/$nereide)

2 Cassiopeia: Constelação Boreal - constelação vizinha do Polo Norte, com cinco estrelas muito visíveis, em forma de W, e outras menos visíveis, algumas variáveis e múltiplas.

 

 

I – Comentário de texto

Elabore um comentário do poema “As Nereides” que integre o tratamento dos seguintes tópicos:

- tema e desenvolvimento;

- tempos verbais e sua dimensão semântica;

- identificação e descodificação dos elementos simbólicos;

- alusões ao mundo antigo e sua exemplificação.

 

 

II – Texto expositivo-argumentativo

Fazendo apelo à sua experiência de leitura, comente o excert0 que se segue, num texto expositivo-argumentativo bem estruturado, de 200 a 300 palavras, tendo em conta a obra poética de Sophia de Mello Breyner Andresen. 

Como ela própria o diz: "O poema não fala de uma vida ideal, mas de uma vida concreta". E nesse seu falar a transfigura. É a busca de uma "relação justa com a pedra. com o rio, com a árvore". E quem procura uma relação justa com as coisas procura necessariamente "uma relação justa com o homem".

Manuel Alegre, Arte de Marear

 

 

I – Proposta de correção do comentário de texto

O poema “As Nereides”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, é perfeitamente exemplificativo do desejo da poetisa em adquirir um tempo absoluto. Para tal, no presente da escrita, manifesta o desejo de fixar o tempo que se reporta ao passado, provavelmente ao da sua infância, passada na (mágica) casa de praia. Logicamente que é um tempo que se desliga do seu normal fluir, portanto é um "tempo fora do tempo". A referência ao "quarto", ao "quadrado branco", à "janela", ao “espelho", às "ondas" e à "areia" remete para um espaço no qual pôde encontrar felicidade e harmonia. Assim, surge um tempo e um espaço associados semanticamente pela ideia de felicidade e harmonia.

O desejo do sujeito poético manifesta-se indubitavelmente através do imperfeito do conjuntivo ("Pudesse" e "jamais tombasse") associado ao infinitivo dos verbos "reter" e "habitar", indiciador de ações e de continuidade. Em oposição ao modo conjuntivo, surge o futuro do indicativo, no último verso, ("Não perderão jamais") a traduzir a certeza de que as "nereides", pelo facto de serem ninfas, divindades, possuirão para sempre aquilo que lhes pertence, independentemente da passagem do tempo. De realçar aqui o facto de o verbo "perder" vir na forma negativa, sinónimo, portanto, de "reter para sempre" (v. 2), ação que o sujeito de enunciação gostaria de empreender, mas que não consegue devido à efemeridade da vida humana.

A palavra poética de Sophia de Mello Breyner Andresen reveste-se de uma simbologia própria, como é exemplo este poema. Assim, ao invocar o "quarto" (v. 1), procura reconquistar um mundo perdido. Pelo espaço que representa, o "quarto" transmite conforto, intimidade, silêncio, favorecendo o contacto com o interior - introspeção. O elemento que permite a ligação com o exterior será a "janela", portanto, o meio que permite alcançar a liberdade, pois favorece o contacto com o espaço natural - a praia. O "branco" do quarto ("quadrado branco") liga-se à ideia de pureza e tranquilidade, assim como o "espelho" retrata pureza e brilho, pois os espelhos nunca são baços, isto é, dão sempre conta da verdade do mundo, tal como o refere no poema "Os Espelhos". O "brilho" associa-se à luz, portanto, à harmonia, ao mundo cósmico. A referência ao "manto de água" liga-se também à ideia de pureza, visto ser símbolo da vida e da sua dinâmica.

Ao longo do texto, facilmente se deteta a ausência de referências a figuras humanas, evidenciando-se, porém, a recorrência a divindades mitológicas, para as quais aponta o título ("As Nereides"). Pelo facto de pertencerem a um plano "superior" ao dos homens, o sujeito poético pretende fazer realçar a ideia de perfeição desses seres "fora do tempo", em oposição ao homem, ser que caminha para o caos. Ora, ao fazer alusão ao mundo antigo, o que a poetisa pretende é tornar os homens mais divinos, mais capazes de avançar para o Bem e para a Verdade.

Em jeito de conclusão, este é mais um dos textos poéticos de Sophia de Mello Breyner Andresen, onde se evidencia a procura de um tempo perfeito, equilibrado e harmonioso, ideais típicos da antiguidade, tão prezada pela poetisa. Por outro lado, o poema revela também uma tomada de consciência de que o ser humano é dominado pelo tempo, contrariamente aos deuses, fator que poderá dar energias ao homem para passar do caos ao cosmos.

 

II – Proposta de correção do texto expositivo-argumentativo

A “relação justa com as coisas" e “com o homem" apresenta-se como a preocupação primordial da poetisa, enquanto medianeira do Absoluto, de um mundo mais autêntico.

Sophia de Mello Breyner Andresen recorre frequentemente à antiguidade clássica, retirando-lhe o que de cósmico a caracteriza, nomeadamente os valores de harmonia, ordem, equilíbrio e sossego. São, no fundo, estes valores que ela gostaria de encontrar entre os homens, porém, a realidade do mundo em que vivemos diz-lhe que a injustiça reina, pois ainda há os que ganham "o pão com o suor do (teu) rosto" e os que "com o suor dos outros" ganham "o pão" ("As pessoas sensíveis").

É o mundo real, objetivo que perpassa nos seus poemas, magicamente transformado pela palavra poética, capaz de denunciar a sociedade caótica, através da intersecção dos quatro elementos primordiais (ar, água, terra e fogo), tal como testemunha o poema "Praia".

Revela-se um jogo dialético entre a perfeição e o declínio na busca de uma outra plenitude, daí surgir o carácter moral da sua poesia.

A sua obra poética, que parte sempre do mundo real, revela uma preocupação com a procura da justiça, o que a leva a denunciar situações que se ligam a atos repreensíveis, tais como a corrupção e a marginalização de quem é coerente e procura a justiça e a verdade. A este propósito, citam-se os poemas "Porque" (1958) e "Data" (1962), reveladores de uma pura consciência relativamente à repressão existente durante a ditadura salazarista.

Ora, todos os aspetos mencionados relativamente à obra poética de Sophia de Mello Breyner Andresen surgem através de uma linguagem simbólica e alegórica, capaz de captar magicamente pela forma corno evoca o mundo concreto. 

(Fonte: Dossier Exame ‑ Português A, 12.º ano, Maria José Peixoto, Célia Fonseca, Edições ASA, 2003)

 

The Nereid Monument. From Xanthos (Lycia), modern-day Antalya Province, Turkey. 390–380 BC.
Room 17, the British Museum, London


Texto de apoio

O desejo de comungar com os deuses, de respirar os locais e jardins límpidos e de, com os deuses, ser capaz de viver céu e mar introduz na obra Sophia a nostalgia do passado e obriga a esforço para cristalizar na poesia esse tempo mítico. Assim acontece em “No tempo dividido” – poema do livro homónimo (p. 38) –, em que o esquecimento dos deuses arrasta a uma vida monótona, sem memória, na qual o tempo «a si próprio se devora». A aspiração de reter o tempo aparece bem explícita em “As Nereides”, de Geografia (p. 52). É o anseio de apreender e segurar cada coisa, como permanente presença – o «denso silêncio puro», a «vida atenta» do quarto, o brilho da Cassiopeia, «a queda / Das ondas sobre a areia –, para que o tempo não passasse e pudesse ser como as Nereides que nunca perderão «seu manto de água».

A tentativa de tornar permanente o momento e as coisas, num desejo de com elas se identificar e desse modo evitar que o «tempo / marinho misterioso e antigo» tombe dos ombros, é reiteradamente sublinhada pela repetição anafórica de ‘reter’ nas duas primeiras estrofes e pelas aliterações dos dois primeiros versos da terceira estância.

 

José Ribeiro Ferreira, “Nostalgia do passado em Sophia: o fascínio da Grécia”, in MÁTHESIS 15 2006 197-210.

 

 

Poderá também gostar de:

 


As Nereides, Sophia Andresen”, José Carreiro. Folha de Poesia, 2022-10-20. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/10/as-nereides-sophia-andresen.html


quarta-feira, 19 de outubro de 2022

As Fontes: Um dia quebrarei todas as pontes, Sophia Andresen


 

AS FONTES

 

Um dia quebrarei todas as pontes

Que ligam o meu ser, vivo e total,

À agitação do mundo do irreal,

E calma subirei até às fontes.

 

Irei até às fontes onde mora

A plenitude, o límpido esplendor

Que me foi prometido em cada hora,

E na face incompleta do amor.

 

Irei beber a luz e o amanhecer,

Irei beber a voz dessa promessa

Que às vezes como um voo me atravessa,

E nela cumprirei todo o meu ser.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen
POESIA, 1.ª ed., 1944, Coimbra, Edição da Autora; 2.ª ed., 1959, Lisboa, Edições Ática; 3.ª ed., Poesia I, 1975, Lisboa, Edições Ática; 4.ª ed., revista, 2003, Lisboa, Editorial Caminho; 5.ª ed., revista, 2005, Lisboa, Editorial Caminho; 6.ª ed., 2007, Lisboa, Editorial Caminho. 1.ª edição na Assírio & Alvim (7.ª ed.), Lisboa, 2013, prefácio de Pedro Eiras.

 

POESIA, 1.ª ed., 1944, Coimbra, Edição da Autora 
https://purl.pt/19841/1/1940/galeria/f12/foto1.html

Dedicatória de Sophia Andresen à mãe. 
POESIA, 1.ª ed., 1944, Coimbra, Edição da Autora.
https://purl.pt/19841/1/1940/galeria/f12/foto2.html



Elabore um comentário do poema que integre o tratamento dos seguintes tópicos:

- importância do campo lexical relativo à ideia de totalidade;

- valor simbólico de «fontes»;

- aspetos formais e recursos estilísticos relevantes;

- traços caracterizadores do sujeito poético.

 

Explicitação de cenários de resposta

Importância do campo lexical relativo à ideia de totalidade

- O campo lexical relativo à ideia de totalidade é constituído pelas seguintes palavras e expressões: «todas as pontes» (v. 1), «meu ser, vivo e total» (v. 2), «A plenitude, o límpido esplendor» (v. 6), «em cada hora» (v. 7) e «todo o meu ser» (v. 12);

- presente em todas as estrofes, este campo lexical contribui para a definição do tema central do poema, isto é, a busca do absoluto, da realização plena.

 

Valor simbólico de «fontes»

Simbolicamente as «fontes» representam o lugar:

- da origem e da «plenitude», da pureza e harmonia primordiais («onde mora / [...] o límpido esplendor», «a luz e o amanhecer» - vv. 5-6, 9);

- da verdade, do real que o «eu» procura, como alternativa «À agitação do mundo do irreal» ao qual ainda está ligado;

- da revelação e da consumação da «promessa» do «límpido esplendor» («Irei beber a voz dessa promessa» - v. 10);

- da realização suprema do ser que se cumpre num percurso de elevação («subirei até às fontes», «E nela cumprirei todo o meu ser» - vv. 4, 12);

- …

 

Aspetos formais e recursos estilísticos relevantes

Relativamente aos recursos estilísticos, destacam-se:

- as metáforas («luz», «VOZ», «fontes»), imagens simbólicas da harmonia primordial («mora /A plenitude»);

- as sinestesias («beber a luz e o amanhecer/[...] beber a voz»), cruzando sensações gustativas, visuais e auditivas;

- a personificação («face incompleta do amor»), conferindo um rosto ao «amor», salienta a sua incompletude humana;

- a comparação (v. 11), revelando a imaterialidade da «promessa» e o seu carácter vertiginoso e ascensional;

- a anáfora (vv. 5, 9, 10), reiterando a determinação do sujeito poético em aceder à plenitude;

- a adjetivação dupla («vivo e total») e simples («calma», «límpido esplendor», «face incompleta»);

 

Quanto aos aspetos formais, salienta-se:

- poema composto por três quadras, com versos decassílabos;

- rima interpolada (ABBA) na primeira e terceira estrofes e cruzada (CDCD) na segunda quadra;

- …

 

Nota - Para a atribuição da totalidade da cotação referente ao conteúdo deste tópico do comentário, é considerada suficiente a apresentação de quatro elementos, englobando obrigatoriamente recursos estilísticos e aspetos formais.

 

Traços caracterizadores do sujeito poético

O sujeito poético caracteriza-se por ser alguém:

- lúcido, consciente de que vive num mundo de imperfeição, com o qual entrará «Um dia» em rutura;

- determinado e sereno, na sua busca da «plenitude»;

- movido pela expectativa de alcançar «O límpido esplendor», prometido «em cada hora,/ E na face incompleta do amor»;

- insatisfeito diante do amor, vendo-o como um mediador incompleto da plenitude («face incompleta do amor»);

- sedento da plenitude prometida, por vezes vislumbrada no «voo» que o «atravessa»;

- predestinado a cumprir-se como «ser» total;

- …

 

(Fonte: Exame Nacional do Ensino Secundário. 12.º Ano de Escolaridade (Dec.-Lei nº 286/89, de 29 de agosto). Curso Geral – Agrupamento 4. Prova Escrita de Português A nº 138 e respetivos critérios de classificação. Portugal, GAVE [IAVE], 2001, 1.ª fase, 1.ª chamada)

 

Sophia fotografada por Fernando Lemos, no jardim da casa  da Travessa das Mónicas, anos 50


Análise do poema:

 

O poema “As Fontes”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, é constituído por três quartetos, compostos por versos decassílabos heroicos. O poema tem um ritmo regular, com acentos sempre caindo na sexta e na última sílaba poéticas, o que lhe confere sonoridade e fluência:

Um dia quebraREI todas as PONtes

Que ligam o meu SER, vivo e toTAL,

À agitação do MUNdo do iRREAL,

E calma subiREI até às FONtes. 

 

No que diz respeito ao nível fonológico do poema, há a constante presença de sons nasais, tanto vogais nasalizadas quanto consoantes, o que confere um certo abrandamento na articulação dos versos, bem como um tom melancólico que se coaduna com os sentidos do poema no que diz respeito à rutura necessária para que se busque a plenitude das fontes, busca essa apenas hipotética.

Ressalta-se, também, a presença constante de bilabiais e de encontros consonantais /pr/ (“prometido”, “promessa”, “cumprirei”) e /pl/ (“plenitude”, “esplendor”, “incompleta”), o que acentua a ideia de rutura presente no sentido do poema, bem como de aliteração em alguns versos particulares, como aliteração de /p/ em “a plenitude, o límpido esplendor” e de /v/ em “que às vezes como um voo me atravessa”. No que diz respeito às vogais do poema, elas são geralmente mais fechadas, /e/ /i/ /u/, havendo poucas /a/ em posição tônica, o que lembraria o som contido das fontes representadas no poema.

Aliando-se à cadência rítmica do poema, formada por decassílabos heroicos, estão as rimas, cujo papel é criar uma memória sonora para o leitor/ouvinte do poema. Em “As Fontes”, é observado o seguinte padrão rítmico: ABBA na primeira estrofe (“pontes” com “fontes”; “total” com “irreal”); CDCD na segunda estrofe (“mora” com “hora”, “esplendor” com “amor”); e EFFE na terceira estrofe (“amanhecer” com “ser”, “promessa” com “atravessa”). Além das rimas externas, é observável a presença de rimas internas entre os verbos no futuro do presente (“quebrarei” e “subirei”, na primeira estrofe, “irei” e “cumprirei” na segunda e terceira estrofes).

As rimas criam uma relação de equivalência sémica entre as palavras rimadas que não existe em um discurso não-poético, o que intensifica o caráter de sistema modalizador secundário da criação poética. As relações estabelecidas entre as palavras que formam os pares rímicos “pontes” / ”fontes” e “total” / ”irreal”, na primeira estrofe, são de oposição: as pontes têm de ser quebradas para que se atinjam as fontes e o ser total está contraposto ao mundo irreal. Na segunda estrofe, a rima “mora” / “hora” opõe uma noção de permanência à reiteração de uma promessa não cumprida, enquanto a rima “esplendor” / ”amor” amplia o sentido transcendental desses dois vocábulos. Na terceira estrofe, as construções rímicas “amanhecer” / “ser” e “promessa” / “atravessa” fortalecem o tom transcendente do poema.

O poema remete ao descompasso entre um mundo do irreal, agitado, e um mundo de plenitude, almejado pelo sujeito lírico, que, para alcançar esse beber das fontes de límpido esplendor, deve quebrar as pontes que unem esses dois mundos. O título do poema já indica por um lado a noção de origem, de começo, e, por outro, uma ideia de natureza relativa à aceção de fonte como água nascente (aceção que encontra ressonância na terceira estrofe do poema, nos versos unidos por anáfora). Para poder procurar por esse mundo pleno, o sujeito lírico deve renunciar ao mundo agitado.

Esse descompasso entre um mundo real, pleno e esplendoroso e um mundo irreal, agitado e caótico tem um componente platônico, de distinção entre o mundo das ideias e o mundo sensível. O fato de o sujeito lírico subir até às fontes, depois de quebrar as pontes que ligam seu ser vivo e total ao mundo irreal e agitado, é um indicativo dessa idealização platônica da realidade. Subir, buscar os píncaros do mundo das ideias, onde as essências estão preservadas, onde as promessas de amor que não foram cumpridas no mundo caótico de que o sujeito lírico se desprende serão realizadas, traduz certo gosto platonizante da realidade, em que o idealismo recobre os fatos, coisas e seres, tornando-os alvo de uma exigência de perfeição, de retidão e de pureza. Esta exigência se manifesta pelo uso de substantivos e adjetivos inseridos em campos semânticos afins ao da pureza e da perfeição, tais como “total”, “plenitude”, “límpido esplendor”, “luz”, “amanhecer”. Nessa busca da totalidade, figura a procura por um amor real e completo, que, diferentemente da face incompleta do amor, o qual lhe foi prometido reiteradamente, relacionada ao mundo caótico de que o sujeito lírico quer evadir-se, ofereça a promessa aos lábios do eu lírico para que possa ser bebida, uma vez chegada às fontes.

Na terceira estrofe, é possível notar dois versos que estão relacionados por anáfora: “Irei beber a luz e o amanhecer,/ Irei beber a voz dessa promessa”. Esse recurso, ao reiterar estruturalmente os versos, torna-se mais um fator de semantização do texto poético. Reiterada a estrutura dos versos, pode-se perceber que o sentido de plenitude e a idealização platonizante também são reforçados: depois de ascender às fontes onde estão as promessas e a totalidade, o sujeito lírico receberá o conhecimento original – metaforizado por “beber a luz e o amanhecer” – e conhecerá o amor completo – metaforizado por “beber a voz dessa promessa”. A construção “irei beber” amplia, também, um dos sentidos de fonte: lugar onde brota água, nascente.

Há mais versos relacionados estruturalmente, marcados pelas palavras que os iniciam, que aparecem nas três estrofes. É o caso dos versos iniciados pela conjunção “que”: “Que ligam o meu ser, vivo e total” na primeira estrofe, “Que me foi prometido em cada hora”, na segunda, e “Que às vezes como um voo me atravessa” na terceira, que são orações subordinadas adjetivas dos versos anteriores.

Caso semelhante e mais significativo é o dos versos iniciados por “e” que encerram as estrofes: “E calma subirei até às fontes.”, “E na face incompleta do amor.” e “E nela cumprirei todo o meu ser.” Esses versos iconizam o completar de um ciclo: o último verso da primeira estrofe sugere o caminho de ascensão às origens (mundo inteligível platônico); o último verso da segunda estrofe mostra que na vida o sujeito lírico só encontrou “a face incompleta do amor”, ou seja, as sombras do verdadeiro amor que agora busca; e no verso final do poema o eu lírico completa o percurso para que o ser adquira a sua plenitude – o ser encerra o círculo da busca, cumprindo-se totalmente.

Entretanto, essa busca de um mundo total é apenas hipotética, fato que pode ser confirmado na análise dos tempos verbais utilizados ao longo do poema e que é apresentado no início do primeiro verso, mediante a expressão adverbial “Um dia”. Ao longo de “As Fontes”, os tempos verbais utilizados são o futuro do presente (“quebrarei”, “subirei”, “irei”, “cumprirei”), o presente (“ligam”, “atravessa”) e pretérito perfeito (“foi prometido”). O futuro do presente, como pode ser notado, predomina em relação aos verbos em outros tempos, o que dá ao poema essa aura de possibilidade ainda não concretizada. Some-se a isso o fato de os verbos em tal tempo estarem sempre ligados ao sujeito lírico e pode-se afirmar que essa projeção do futuro é individual. Os verbos no presente e no pretérito representam as situações que foram e são vivenciadas nesse mundo caótico do qual o eu lírico ainda não se desprendeu, mesmo que deseje subir até às fontes da plenitude, do conhecimento e do amor completo. Há, portanto, uma cisão entre os tempos verbais do poema semelhante à ruptura entre o mundo irreal e o mundo das fontes evidenciados pelo sentido dos versos, estando os dois mundos em contato pelas pontes da primeira estrofe e pela voz da promessa que o sujeito lírico deseja beber quando subir às fontes e que, ainda no mundo real, a atravessa como um voo (o sujeito lírico do poema é uma mulher, fato confirmado pelo adjetivo “calma”). A visão de um mundo essencial perpassa o eu lírico, mesmo que esteja no mundo irreal e agitado.

O poema “As Fontes” tem três cenas, limitadas pelos pontos finais que encerram cada estrofe. Cabe ressaltar que o poema segue uma pontuação canônica, sem muitas inversões ou indeterminações decorrentes de seu uso. Na primeira estrofe, o sujeito lírico afirma seu desejo de libertar-se do mundo caótico para que seu ser vivo e total possa subir calmamente até às fontes. Na segunda estrofe, as fontes têm seu sentido mais determinado – fontes onde mora a plenitude – e a experiência de amor vivida pelo eu lírico é delimitada como incompleta e relacionada ao esplendor que havia sido prometido reiteradamente. Essa é a estrofe que marca o trajeto hipotético desde a libertação do sujeito lírico até a ação que ele deseja efetuar uma vez que suba até às fontes, que é apresentada na terceira estrofe. Tendo em mente o que foi dito sobre o último verso de cada estrofe e sua característica de ciclo completo, pode-se pensar que tais versos iconizam o movimento de evasão do poema.

Encerrando a análise, parece relevante retomar alguns excertos de Arte Poética I, publicada por Sophia de Mello Breyner Andresen em 1962 na revista Távola Redonda, e ressaltar as convergências entre o que ela postula em tal texto e o que ela cria em “As Fontes” com vistas a justificar a análise baseada, em certa medida, em uma idealização platônica. Durante o cotejo entre poema e ars poética, pretende-se apontar convergências e divergências entre o observado na análise do poema e da reflexão sobre a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen e os ideais da modernidade presentes em outros poetas líricos.

 

“Entre a ânfora e as fontes, a poesia: traços da modernidade de Sophia de Mello Breyner Andresen em As Fontes e Arte Poética I”, Iarima Nunes Redü. Nau Literária, vol. 12, nº 1, jun. 2016. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/NauLiteraria/article/view/75349

 

 

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As Fontes: Um dia quebrarei todas as pontes, Sophia Andresen”, José Carreiro. Folha de Poesia, 2022-10-19. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/10/as-fontes-um-dia-quebrarei-todas-as.html


terça-feira, 18 de outubro de 2022

Horizonte vazio, Sophia Andresen

 

 

HORIZONTE VAZIO

 

Horizonte vazio em que nada resta

Dessa fabulosa festa

Que um dia te iluminou.

 

As tuas linhas outrora foram fundas e vastas,

Mas hoje estão vazias e gastas

E foi o meu desejo que as gastou.

 

Era do pinhal verde que descia

A noite bailando em silenciosos passos,

E naquele pedaço de mar ao longe ardia

O chamamento infinito dos espaços.

 

Nos areais cantava a claridade,

E cada pinheiro continha

No irreprimível subir da sua linha

A explicação de toda a heroicidade.

 

Horizonte vazio, esqueleto do meu sonho.

Árvore morta sem fruto,

Em teu redor deponho

A solidão, o caos e o luto.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

DIA DO MAR, 1.ª ed., 1947, Lisboa, Edições Ática; 2.ª ed., 1961, Lisboa, Edições Ática; 3.ª ed., 1974, Lisboa, Edições Ática; 4.ª ed., revista, 2003, Lisboa, Editorial Caminho; 5.ª ed., revista, 2005, Lisboa, Editorial Caminho; 6.ª ed., 2010, Alfragide, Editorial Caminho. 1.ª edição na Assírio & Alvim (7.ª ed.), Lisboa, 2014, prefácio de Gastão Cruz.

 

Elabore um comentário do texto que integre o tratamento dos seguintes tópicos:

- traços caracterizadores do espaço representado;

- importância do vocabulário relativo a «festa»;

- aspetos formais e recursos estilísticos relevantes;

- valor simbólico de «Horizonte vazio».

 

Explicitação de cenários de resposta

Traços caracterizadores do espaço representado

O espaço representado é o do «Horizonte» do sujeito poético, caracterizado fundamentalmente pelos seguintes traços:

- presença de elementos de uma paisagem de beira-mar («pinhal verde», «naquele pedaço de mar», «areais»);

- associação a dois momentos marcadamente distintos: o presente (dado pelos sentidos) e o passado (evocado pela memória);

- vazio, finitude e esterilidade («Horizonte vazio», «linhas [...] vazias e gastas», «Árvore morta sem fruto»), traços que marcam esse lugar no presente, na exata medida em que esse mesmo lugar fora, no passado, cenário de um tempo (irremediavelmente perdido) de festa e de sonho («esqueleto do meu sonho»);

- …

 

Importância do vocabulário relativo a «festa»

A terceira e a quarta estrofes evocam a «fabulosa festa» de que o «Horizonte» se apresenta «hoje» esvaziado. As palavras-chave dessa evocação pertencem ao léxico de «festa» - «bailando», «passos» de baile, «cantava» - e, referindo-se a «noite» e a «Claridade», encenam uma «festa» de luz e de movimento, de mágicos silêncios e de canto, que atinge a plenitude «naquele pedaço de mar ao longe», onde «ardia/ O chamamento infinito dos espaços».

A intensidade desta evocação, convocada desde a primeira estrofe e expandindo-se nas estrofes centrais do poema, confere ao passado perdido a dimensão de um tempo eufórico, de total positividade para o «eu».

 

Aspetos formais e recursos estilísticos relevantes

De entre os recursos estilísticos presentes no texto, destacam-se os seguintes:

- a repetição «Horizonte vazio» (vv. 1 e 15), presente no início da primeira e da última estrofes e, ainda, no título, constitui o esvaziamento do «Horizonte» em polo semântico do poema;

- a apóstrofe «Horizonte vazio» (v. 1), consagrando como um «tu» esse horizonte, marca a sua importância para o «eu»;

- as personificações de «noite» e de «claridade» - a «noite», descendo do «pinhal verde», «bailando em silenciosos passos»; a «claridade», cantando -, com um forte e sugestivo efeito descritivo, expressam a ideia de encantamento;

- a sinestesia do canto associado à «claridade» («cantava a claridade») intensifica, pelo carácter musical da luz, a própria ideia de «festa» luminosa;

- a antítese «noite» (v. 8) / «claridade» (v. 11) realça a intensidade da «festa» e o seu carácter de tempo pleno;

- as metáforas «esqueleto do meu sonho» e «Árvore morta sem fruto», referentes a «Horizonte vazio», acentuam a negatividade atual deste espaço, conotando-o com a morte e a esterilidade;

- …

 

Quanto aos aspetos formais, salientam-se:

- estrutura estrófica: dois tercetos e três quadras;

- estrutura rimática rica e variada, mas irregular: rimas emparelhadas, interpoladas e cruzadas, com o esquema A/A/B C/C/B D/E/D/E F/G/G/F H/l/H/I;

- estrutura métrica: versos irregulares ou livres (variando entre seis e catorze sílabas);

- …

Nota - Para a atribuição da totalidade da cotação referente ao conteúdo deste tópico do comentário, é considerada suficiente a apresentação de quatro elementos, distribuindo-se obrigatoriamente pelas duas categorias, recursos estilísticos e aspetos formais.

 

Valor simbólico de «Horizonte vazio»

O «Horizonte vazio» representa simbolicamente o presente decetivo do «eu», figurando-o como um cenário de devastação e de morte (cf. vv. 1, 5, 15, 16 e 18). Nos tempos de «outrora», esse mesmo «Horizonte» fora, pelo contrário, espaço de «festa», de música, de abertura, de «claridade» (cf. vv. 2-3, 8, 10, 11 ), e é ao convocar a memória de uma vida de plenitude, de harmonia e de «heroicidade» - vida hoje perdida - que o «Horizonte» se torna, no presente, a representação espacial do vazio e da ausência, da negatividade e da solidão.

 

(Fonte: Exame Nacional do Ensino Secundário. 12.º Ano de Escolaridade (Dec.-Lei nº 286/89, de 29 de agosto). Curso Geral – Agrupamento 4. Prova Escrita de Português A nº 138 e respetivos critérios de classificação. Portugal, GAVE [IAVE], 2003, 2.ª fase)

 



Análise do poema “Horizonte Vazio”, de Sophia Andresen

Vamos a “Horizonte Vazio”, um belo poema de Dia do mar que […] apresenta, a partir do título, uma decidida impressão de vacuidade.

Como o “Horizonte” significa uma perspetiva espacial infinita, ao defini-lo como “vazio”, Sophia aumenta de maneira considerável o sentimento de oco, de vazio. O próprio “infinito” é expressamente mencionado, na terceira estrofe, relacionado ao “mar”, que, por sua vez, não é visto como um todo, mas sim como “um pedaço de mar”, colocado num ponto de vista distante do sujeito, “ao longe”. Porém, mesmo “longe”, o “mar” se destaca, pois “ardia”, numa singular operação imagística, que combina a água ao fogo, sugerindo, talvez, o sol refletindo-se sobre a superfície do oceano.

O sujeito se dirige ao “Horizonte”, colocado no papel de interlocutor, quase como se estivesse frente a um espelho. Na verdade, a sensação do oco parece estar mais dentro do eu, já que, como lemos na última estrofe, o “Horizonte vazio” representa o “esqueleto do meu sonho”, ou seja, um “sonho” já consumido e morto, do qual só sobrou a ossatura.

Já na primeira estrofe, o “nada resta” evidencia o sentimento de falta, de algo irrecuperável, que se perdeu lá atrás, num passado longínquo, sublinhado por termos vagos, como “um dia” e “outrora”. O sentido da perda, da carência, é marcado, também, pelos adjetivos “vazias e gastas” da segunda estrofe, colocados em contraponto a “fundas e vastas”. Um dos adjetivos, inclusive, volta, em sua forma verbal, “gastou” (trata-se, a propósito, do mesmo verbo utilizado no poema anterior), no último verso da estrofe, no qual o sujeito assume um certo sentimento de culpa, por ter sido o causador, através do “meu desejo”, do desgaste das “linhas”. Essas “linhas” parecem referir-se ao “Horizonte”; no entanto, como estamos acostumados à linha do horizonte, no singular, o emprego do plural pode significar uma antropomorfização. Ou seja, as “linhas” seriam as linhas do rosto, talvez do próprio sujeito, agora envelhecidas, ou “gastas”, devido ao decorrer do tempo.

A memória do sujeito recorda um tempo que passou, sem dúvida mais bem-sucedido (nos poemas de Sophia, o passado surge sempre venturoso), pois ligado a uma “fabulosa festa”, cujos prováveis faustos são acentuados pela aliteração. Trata-se de um passado irrecuperável, com a irreversibilidade do tempo reforçada, na última estrofe, não só pelo “esqueleto”, como também pela “Árvore morta sem fruto”, que contrasta intensamente com o “pinhal verde” mencionado antes.

O último verso associa, de maneira dolorosa, a “solidão” vivida pelo sujeito ao “caos” e ao “luto”, ligando o estado de isolamento do sujeito aos sentimentos de confusão e perda, provocados pela sensação de finitude.

O passado teria sido uma época luminosa, plena, evocada por passagens como “um dia te iluminou” e “Nos areais cantava a claridade”. Mas uma ocasião do passado, que poderia ter apresentado um momento de coragem, a “heroicidade” referida na quarta estrofe, associa essa bravura ao “pinheiro”, árvore de porte altivo, mas usualmente encontrada nos cemitérios.

“Horizonte Vazio” insiste nas imagens inesperadas. A “noite” que, em outros poemas de Sophia, encontramos voltada para a tristeza, a escuridão, a morte, o fim, aqui desce “bailando em silenciosos passos”, numa passagem na qual o poema volta-se para ele mesmo, pois, através do “bailando”, reporta-se à “festa” da primeira estrofe.

 

AZEVEDO, Luiz Carlos de Moura. O quarto, figuração do intimismo na poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen [doi:10.11606/D.8.2007.tde-07022008-112137]. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2007. Dissertação de Mestrado em Literatura Portuguesa.

 

 

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Horizonte vazio, Sophia Andresen”, José Carreiro. Folha de Poesia, 2022-10-18. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/10/horizonte-vazio-sophia-andresen.html