quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

O Desejado - terceiro símbolo na Mensagem, de Fernando Pessoa

 

Mensagem, de Fernando Pessoa

Terceira Parte: O Encoberto

Pax in excelsis

I - Os Símbolos


Terceiro

O DESEJADO

 

Onde quer que, entre sombras e dizeres,
Jazas, remoto, sente-te sonhado,
E ergue-te do fundo de não-seres
Para teu novo fado!

Vem, Galaaz1 com pátria, erguer de novo,
Mas no auge da suprema prova,
A alma penitente do teu povo
À Eucaristia2 Nova.

Mestre da Paz, ergue teu gládio3 ungido4,
Excalibur5 do Fim, em jeito tal
Que sua Luz ao mundo dividido
Revele o Santo Gral6!
 

18-1-1934

Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934

 

________________

(1) Galaaz: Galaaz é o herói da demanda do Santo Graal, o cavaleiro perfeito, eleito entre os melhores, predestinado a vencer. Tem a honra de ser o primeiro a aceder ao Santo Graal.

(2) Eucaristia: na teologia católica, sacramento que é Cristo sob as espécies do pão e do vinho consagrados;

ato litúrgico, com sentido de ação de graças e de sacrifício, durante o qual se realiza a consagração eucarística.

(3) Gládio: espada.

(4) Ungir: untar com óleo; dar posse ou investir de autoridade por meio de unção; sagrar.

(5) Excalibur: espada oferecida pelo Rei Artur a Galaaz para este ir em demanda do Santo Graal.

(6) Graal: copo ou cálice de que Jesus Cristo se teria servido na última ceia com os discípulos e no qual José de Arimateia teria recolhido o sangue e a água dimanados das chagas do Salvador na cruz; segundo lendas medievais bretãs, o Santo Graal teria sido levado para a Bretanha (atual Inglaterra) no ano 64 d. C. e depositado numa capela dentro de um bosque. A demanda (procura) do Santo Graal serviu de tema a uma série de lendas e romances do ciclo do rei Artur e dos seus cavaleiros da Távola Redonda.

 

 

I – Questionário sobre o poema “O Desejado”, de Fernando Pessoa

Apresente, de forma clara e bem estruturada, as suas respostas aos itens que se seguem.

1. Explique como, na primeira quadra, o sujeito poético perspetiva a figura de D. Sebastião.

2. Explicite o apelo a D. Sebastião, a partir da apóstrofe «Galaaz com pátria» (verso 5).

3. Interprete a figura do cavaleiro e a sua missão na estrofe final.

4. Considere o poema “O Desejado”, de Fernando Pessoa, e as estâncias 15-17 Do Canto I de Os Lusíadas, abaixo transcritas. Compare os dois textos, explicitando os significados neles construídos.

15

«E, enquanto eu estes canto, e a vós não posso,

Sublime Rei, que não me atrevo a tanto,

Tomai as rédeas vós do Reino vosso:

Dareis matéria a nunca ouvido canto.

Comecem a sentir o peso grosso

(Que polo mundo todo faça espanto)

De exércitos e feitos singulares

De África as terras e do Oriente os mares.

16

Em vós os olhos tem o Mouro frio,

Em quem vê seu exício afigurado;

Só com vos ver, o bárbaro Gentio

Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;

(...)

17

Em vós esperam ver-se renovada

Sua memória e obras valerosas;

E lá vos tem lugar, no fim da idade,

No templo da suprema Eternidade.»

CAMÕES, Luís Vaz de. Os Lusíadas – Canto I, est. 15-17

 

(Prova Escrita de Conhecimentos Específicos de Português, Instituto Politécnico de Leiria, 04-06-2016. Disponível em: https://www.ipleiria.pt/wp-content/uploads/2017/04/Portugu%C3%AAs_M23_2016.pdf)

 

https://purl.pt/13965/1/P111.html

 

II – Comentário de texto

Elabore um comentário global do poema “O Desejado”, de Fernando Pessoa, que integre os seguintes tópicos:

  • estrutura externa e interna do poema;
  • tom exortativo / apelativo
  • identificação e caracterização do invocado;
  • razões subjacentes à invocação;
  • integração do texto na estrutura da obra e sua justificação.

 

Proposta de correção:

O poema apresentado é constituído por três estrofes regulares de quatro versos cada (quadras), estendendo-se a regularidade à própria métrica, dado que os 3 primeiros versos de cada estrofe são decassílabos e os últimos hexassílabos (6 sílabas métricas).

A rima é cruzada, tal como se pelo esquema rimático (a b a b / c d c d / e f e f), pobre e consonântica.

A harmonia visível a nível formal perpassa a nível do conteúdo. Com efeito, o poema desenvolve-se de forma linear, dado que a primeira estrofe funciona como introdução, onde se inicia o apelo àquele que no momento jaz adormecido, inconsciente, ainda, do destino que lhe está reservado. Na segunda estrofe, o apelo continua e começam a desvendar-se as razões que subjazem ao pedido que é feito: a pátria espera queele” a venha erguer, isto é, o povo sofredor exige dele a “suprema prova”, que o fará atingir a “Eucaristia Nova”, ou seja, a glória de outrora, a projecção da nação. Na última estância, a exortação ao “Mestre da Paz” continua, mas aqui é perceptível a recompensa reservada ao “Galaaz” que usou a espada ungida, cujaluz” permitirá à nação revelar-se.

O tom exortativo estende-se por todo o poema, sugerindo a angústia e aflição do sujeito poético que, através das apóstrofes e do imperativo, reclama a presença do predestinado (D. Sebastião), de modo a que a glória do povo português possa ser restabelecida. Logo na primeira estrofe surge a forma verbal “ergue-te” que remete para o estado de inércia em que se encontrava o invocado; na segunda, temos novamente o uso do imperativo do verbo vir (“vem”) e o vocativo “Galaaz com pátria”; na terceira estrofe, apostrofa-se o “Mestre da Paz” e emprega-se, de novo, a forma verbal “ergue”, agora referindo-se à espada.

O apelo é, assim, sucessivamente feito a alguém que jaz “remoto” no “fundo do não-ser” e que vai, aos poucos, ser desvendado, ainda que metaforicamente, como sendo um “Galaaz com pátria”, o “Mestre da Paz”, caracterizado, primeiro, como alguém que foi esquecido, que deixou de ser, mas que ainda tem pátria e que, por isso, deve preparar-se para o seunovo fado”, o de ultrapassar a suprema prova. Para isso, pode contar com o “gládio ungido”, que na sua mão funcionará comoLuzpara o “mundo dividido”. Parece, pois, possível antever-se, neste Galaaz, a figura lendária de D. Sebastião, desaparecido em Alcácer-Quibir, mas em quem o povo depositava a sua , a sua esperança, vendo nele o salvador, o redentor da pátria adormecida, apenas envolta em glórias antigas que urgiam recuperar.

Se a nação portuguesa não se encontrasse num estado de marasmo e de estagnação, não teria havido a necessidade de ancoragem no mito sebastianista, vendo no rei desaparecido o guia, aquele que seria capaz de revitalizar a força espiritual dos portugueses, de modo a que a chama, que se ateara no tempo das descobertas, fosse novamente avivada e fizesse Portugal recuperar a fama outrora alcançada, através da construção do “Quinto Império”, que seria superior ao anterior, porque do domínio cultural e espiritual.

Pela temática que o poema encerra, é fácil ver-se aqui o mesmo tom que percorre os textos da terceira parte da Mensagem. Com efeito, é nesta parte (“O Encoberto”) que se refere o desfazer, a morte do império português, um império moribundo, que exige o lançamento do gérmen da ressurreição, ante- vendo-se, também, o nascimento, isto é, o despoletar para a vida, porque D. Sebastião viria, numa manhã de nevoeiro, comandar os portugueses, dando-lhes novo alento, fazendo-os acreditar na sua superioridade, na sua potencialidade para construir um novo império. 

(Dossier Exame ‑ Português A, 12º ano, Maria José Peixoto, Célia Fonseca, Edições ASA, 2003)

  

 

Poderá também gostar de:

Fernando Pessoa - Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária da obra de Fernando Pessoa, por José Carreiro. 

 


O Desejado - terceiro símbolo na Mensagem, de Fernando Pessoa” in Folha de Poesia, José Carreiro. Portugal, 29-12-2022. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/12/o-desejado-terceiro-simbolo-na-mensagem.html


quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

O Quinto Império (Mensagem, Fernando Pessoa)

Mensagem, Fernando Pessoa

Terceira Parte - O Encoberto

I - Os Símbolos

 



 

Segundo

O QUINTO IMPÉRIO

 





5





10





15





20





25

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz -
Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!

E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.

Grécia, Roma, Cristandade,
Europa - os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?

21-2-1933

Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).  - 82. Disponível em: http://arquivopessoa.net/textos/96

 

 

Linhas de leitura do poema “O Quinto Império”, de Fernando Pessoa:

Trata-se de um poema que afirma uma filosofia sobre o homem e o viver.

 

Da Terceira Parte/O Encoberto (D. Sebastião), este é o segundo símbolo, o do Quinto Império que iluminará a alma nacional revelando-lhe grandeza futura.

 

O poema divide-se em três partes:

1.ª parte, estrofes I e II (vv. 1-10) - Para o poeta, e retomando o que vinha dizendo desde a 1ª parte, a única coisa que faz sentido na vida é o sonho - «Triste de quem vive em casa/ Contente com o seu lar[reparaste, certamente, no oxímoro] / Sem que um sonho, no erguer de asa,/ Faça até mais rubra a brasa / Da lareira a abandonar.» Ou seja: sem o sonho, capaz de remover montanhas, a vida é triste, ainda que no conforto sensato do lar. Prosseguindo, nesta espécie de introdução, constituída pelas 2 primeiras quintilhas, o poeta reincide no oxímoro, ao afirmar: «Triste de quem é feliz!»

Naturalmente que tal afirmação paradoxal necessitaria de explicação: é que quem é feliz limita-se a viver por viver, «porque a vida dura» e enquanto dura - como se dizia no poema D. Sebastião (da 1ªparte-Brasão), «sem a loucura que é o homem / mais que a besta sadia /cadáver adiado que procria?» E nós já sabemos que para Pessoa, loucura é o sonho que impele a ir mais além. O que distingue o homem do animal é a capacidade de sonhar e de partir nas asas ou nas naus do sonho, para que a obra nasça. (Pais: 2001, 141-142)

 

Em síntese: o poeta faz a apologia do sonho, que evita a mediocridade de viver e favorece a grandeza da alma, que possibilita os grandes feitos. (Guerra: 1999)

 

2ª parte, estrofe III (vv. 11-15) - O poema prossegue, com uma breve visão da História e do que faz a História: «Eras sobre eras se somem /No tempo que em eras vem./ Ser descontente é ser homem.» A História faz-se de descontentes e ser descontente, como diz, é próprio do homem, capaz de ter como força condutora a «visão que a alma tem.» (Pais: 2001, 141-142)

 

Portanto, reflectindo sobre a História, a passagem do tempo, o poeta volta a salientar que a insatisfação constante é o motor do impulso que conduz à felicidade, entendida como uma vida plenamente realizada.

 

3ª parte, estrofes IV e V (vv. 16-25) - O poeta sonhador, que já leu a história do passado, volta-se para o futuro.  Assim, passando a antever o futuro - a profecia -, a partir do olhar sobre o passado dos quatro impérios /tempos – o grego, o romano, o cristão, o europeu, e em tempos de «erma noite»,– o poeta afirma que virá o dia em que «a terra será teatro / Do dia claro» – o dia em que alguém virá «viver a verdade /Que morreu D. Sebastião».[1]

 

Aqui a lição da História é a vitória do homem sobre o tempo:

«E assim» (v.16), conclui, «A terra será...», profetiza. Finalmente chama o ator a que venha ocupar o seu lugar, o lugar que o tempo domi­nado lhe destinou.

 

Passados os quatro impérios que a tradição estabeleceu, com base no sonho de Nabucodonosor, que se transcreve em texto próprio, e da qual Fernando Pessoa diverge, surgirá o Quinto Império: a Idade Perfeita, a Eterna Luz, a Paz Universal. É clara a influência da Bíblia sobre Fernando Pessoa.

 

O advento do Quinto Império apenas se concretizará com o regresso de D. Sebastião; qual Fénix, fará surgir das cinzas o Império Universal, cuja cabeça será a Pátria Lusitana. Retoma o poema "O dos Castelos", fortificando assim a unidade da obra.

 

Fernando Pessoa conhecia a Bíblia e, por isso, apresenta D. Sebastião como um símile de Cristo, morto e ressuscitado. (Guerra: 1999) 

Mas atenção ao seguinte equívoco sobre o Quinto Império:

Entre as leituras equívocas que o Quinto Império suscita, estão aquelas que o fazem convergir para um império ecuménico de inspiração cristã, no sentido estrito da profecia tradicional. Esse império, profetizado pelo Bandarra e trabalhado intelectualmente por António Vieira, inspira o de Pessoa, mas não é por este reproduzido nos mesmos termos. A cristianização do Quinto Império, na Mensagem, de todo, insustentável. (Artur Veríssimo, Dicionário da Mensagem. Porto, Areal Editores, 2000).

 

É da morte de D. Sebastião que nasce o «sonho» que faz a «brasa» «mais rubra».

 

Da visão profunda que, na escuridão, vê já a luz, brota a certeza profética de um novo domínio, de um quinto império: «[] o dia claro, que no atro/ Da erma noite começou.».

 

Desperta-se a evidência de estar no intervalo entre os impérios que já foram e o «quinto império» que há de vir e há de ser português, animado pelo «sonho» (3), pelo «erguer da asa» (3), «pela visão que a alma tem» (15), um império espiritual, «dia claro» (19) a inventar.

 

Formalmente o poema apresenta-se como uma despretensiosa série de quatro quintilhas, aparentemente simples, mas densas de significado, a fazer lembrar as quintilhas de Sá de Miranda ao seu rei D. João III. Fernando Pessoa não tem rei a quem as enviar. Escreve-as para fazer nascer um império. Lança um pregão, um desafio a um povo que tem de reencontrar o seu domínio: «Quem vem? [...] que morreu D. Sebastião.» O ritmo do verso, a tradicional redondilha maior, integra-se perfeitamente nesta intencionalidade.

 

A imagística («vive em casa»; «contente com o seu lar»; «a brasa da lareira»; «a lição da raiz») traduz a percepção da rusticidade, da domesticidade de um destinatário — povo, adormecido, domado, cego, imerso na «erma noite».

 

«quem»; «Quem?» — é o pronome que, no seu mistério, concentra o nome que não desvenda: ninguém e todos. Este é o sujeito que o enunciado encobre: não o escolhe e não o indica. Chamamento envolto em mistério, destinado a quem seja capaz do «sonho», do «erguer da asa».

 

O discurso, no seu tecido verbal, vai poetizando o pregão:

- «rubra a brasa», em que as sonoridades combinadas da labial e da vibrante sopram e explodem, acendendo plasticamente a imagem;

- «triste e feliz», em que o oxímoro, ao confundir, aviva o engano, desmascara a ilusão;

- a ordem sintática buscada na expressão popular: triste de mim, triste de ti, «triste de quem...», onde a implantação idiomática do «de» torna a toada lamentosa, afadistada, de cantiga da rua;

- as palavras repetem-se, enleiam-se em jogos que as sublinham («vive/vida/vida»; «eras/eras/eras»), ganham o recorte da expressão feita do falar popular: «eras sobre eras».

 

A linguagem é entretecida de jogos («ser é ser»; «o dia claro» e «erma noite») que, pelo seu poder encantatório, garantem verdade poética, atração, fascínio para os ouvidos para que preparam o repto final: «Quem vem...?» (Soares: 2000, 51-52)



[1] Nesta última quintilha e nos dois últimos versos, novo dizer diferentemente as coisas. Pessoa 'infringe' as normas sintácticas, considerando o verbo morrer como transitivo – assim, e em simetria com a expressão: viver a verdade –surge um: morrer a verdade.

O «que» de «Que morreu D. Sebastião» é, assim, pronome relativo, referindo-se a ' verdade' e desempenhando a função de complemento directo de «morreu». Se há infracção sintáctica em relação à norma, é evidente que tal vai trazer consigo um reforço da atitude, do modo como actuou D. Sebastião: morrer a verdade é bem mais, sentimo-lo, que viver a verdade. (Pais: 2001, 141-142) 

***

Homem enterrado vivo, Antoine Wiertz, 1838

***

 

Sugestãovisiona o Módulo de Português do 12.º Ano respeitante à análise e interpretação do poema “O Quinto Império”, de Fernando Pessoa: 





 

In: Projeto #ESTUDOEMCASA. O sebastianismo na Mensagem. Os poemas "O Quinto Império" e "Nevoeiro" -Aula 23 de Português do 12.º Ano, 08-02-2021. Disponível em: https://www.rtp.pt/play/estudoemcasa/p7907/e522879/portugues-12-ano

 

 

Poderá também gostar de:

  •  Texto & Pretexto – “O Quinto Império – Fernando Pessoa em linguagem matemática”, por João Ribeiro (colaboração na revisão e edição: professora de Matemática Fátima Delgado):

Na sequência de uma atividade realizada no âmbito do estudo da obra Mensagem de Fernando Pessoa, o aluno João Ribeiro, do 12.º F, turma da professora de Português Dulce Sousa, associou a proposição inscrita na imagem ao lado, sobre o conceito de Quinto Império, à linguagem matemática, da forma que abaixo se apresenta, com o intuito de representar uma afirmação de cariz literário sob a forma de um raciocínio lógico-matemático.

Biblioteca da Escola Secundária Daniel Sampaio. Disponível em: https://bibliblogue.wordpress.com/2015/05/29/texto-pretexto-o-quinto-imperio-fernando-pessoa-em-linguagem-matematica-por-joao-ribeiro/, 29-05-2015
 

 ***





O Quinto Império (Mensagem, Fernando Pessoa)” in Folha de Poesia, José Carreiro. Portugal, 28-12-2022. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/12/o-quinto-imperio-mensagem-fernando.html



terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Prece: Senhor, a noite veio e a alma é vil. (Mensagem, Fernando Pessoa)

Mensagem, Fernando Pessoa

Segunda Parte - Mar Português

 



 

XII

PRECE

 






5





10


Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem – ou desgraça ou ânsia –,
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistemos a Distância –
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

 

Fernando Pessoa, Mensagem. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).  - 73. Disponível em: http://arquivopessoa.net/textos/92

 

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Glossário:
remoça (verso 10) – rejuvenesce.
vil (verso 1) – desprezível, indigna.

  

Texto de apoio:

«Prece» é o título do poema com que a Segunda Parte da obra termina. O tom de súplica, que o atravessa, em consonância, aliás, com o próprio título, exprime a dor da incerteza em relação ao futuro de Portugal. Um Portugal caracterizado como «alma vil», «silêncio hostil», em suma, como o país decadente que o último poema da obra – «Nevoeiro» – há de pincelar com tintas ainda mais negras. Um Portugal indolente que contrasta com a «tormenta e a vontade» que foi o Portugal das Descobertas.

O empenhamento colectivo precisa do estímulo que a «desgraça» ou a «ânsia» da alma insatisfeita representam; precisa dessa perdida febre de navegar, dessa «busca de quem somos. Na distância / De nós», de que o poema «Noite» (Terceira Parte da Mensagem) faz a apologia.

Não resulta, por isso, indiferente que este poema de 12 versos seja o 12.° e último da Segunda Parte. Ao apelo à mobilização coletiva que o percorre não é alheio o ciclo completo (simbologia do número Doze) que se cumpriu com o mar, e que se apresenta como «a lição do ter sido». Falta-nos cumprir o poder vir a ser que essa lição do passado profeticamente anuncia, como fica explícito logo no primeiro dos poemas desta parte da obra: «Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. / Senhor, falta cumprir-se Portugal!» (Mensagem, «O Infante»)

Os versos que terminam o poema «Prece», numa esotérica circularidade do tempo e do espaço, reenviam-nos precisamente para a necessidade de cumprir esse futuro adivinhado do passado, que foi a posse dos mares: «E outra vez conquistemos a Distância – / Do mar ou outra, mas que seja nossa!»

(Dicionário da Mensagem, Artur Veríssimo, Porto, Areal Ed., 2000, pp. 113-114)





I - Questionário sobre o poema “Prece”, de Fernando Pessoa:

1. Enquadre o poema na estrutura da obra a que pertence.

2. Apresente marcas discursivas e lexicais que justifiquem o título do poema.

3. A quem dirige o sujeito poético (indiferenciado num nós) a sua prece?

4. Esclareça o sentido e o objetivo da prece.

5. Tendo em conta a sua significação no universo deste poema e da Mensagem, classifique, como disfóricas ou eufóricas, as palavras relevadas no seguinte levantamento: «noite»; «vil»; «tormenta»; «silêncio»; «hostil»; «mar universal»; «saudade»; «chama»; «vida»; «frio morto»; «cinzas»; «a mão do vento»; «erguê-la»; «sopro»; «aragem»; «esforço»; «remoça»; «Distância»; «mar».

6. Interprete o simbolismo de cada uma das duas linhas de força que as palavras relevadas na questão anterior desenvolvem.

7. Destaque, no poema, três momentos:

- o momento em que a «Prece» é confissão;

- o momento em que a «Prece» é esperança;

- o momento em que a «Prece» é apelo.

8. Identifique a tonalidade dada ao sentido pelo aspeto verbal (observe o modo e a pessoa) de «conquistemos».

9. Localize no poema duas conexões adversativas e clarifique a mudança que elas introduzem no desenvolvimento do tema.

10. Releve do poema uma palavra que exprime uma atitude típica finissecular, cultivada como postura ideológica e sentimental tipicamente portuguesa.

11. Selecione momentos em que se exprime dúvida.

12. Comente as seguintes imagens:

a) «O frio morto em cinzas a ocultou» (v.7)

b) «A mão do vento pode erguê-la ainda»

c) «O sopro, a aragem [...]/ Com que a chama do esforço se remoça»

 

 

Resolução do questionário:

1. Enquadramento do poema na estrutura da Mensagem:

Este poema constitui o desenvolvimento do tema que está nos dois últimos versos do 1.º poema («O Infante») da Segunda Parte (ciclo que se cumpriu) e faz a ligação à 3.ª parte (pressente a vinda do Encoberto).

2. Apresentação das marcas discursivas e lexicais que justificam o título do poema:

Apóstrofe inicial “Senhor”; noite, alma, vil (v.1), tormenta, vontade (2), chama (10), sopro, desgraça, ânsia (9).

3. O sujeito poético dirige a sua súplica ao «Senhor», cujo vocativo abre o poema e o seu sentido permanece ambíguo. Refere-se a Deus? ao Encoberto, que «o frio morto em cinzas ocultou»? (7)

4. Esclarecimento do sentido e do objetivo da prece:

O tom de súplica, em consonância com o título, exprime a dor da incerteza em relação ao futuro de Portugal. Por isso, o sujeito poético pede para que devolva à Pátria a chama oculta debaixo das cinzas, isto é, a glória.

5. Disforia: «noite»; «vil»; «tormenta»; «silêncio»; «hostil»; «saudade»; «frio morto»; «cinzas»

Euforia: «mar universal»; «chama»; «vida»; «a mão do vento»; «erguê-la»; «sopro»; «aragem»; «esforço»; «remoça»; «Distância»; «mar».

6. Interpretação do simbolismo de cada uma das duas linhas de força que as palavras relevadas na questão anterior desenvolvem:

O campo lexical disfórico aponta para a tristeza e nostalgia de um bem passado e para um estado de decadência do país.

O campo lexical eufórico aponta para a ressurreição (ressurgimento), um novo período áureo (de glória).

7. O poema pode ser dividido em três momentos:

(1) o momento em que a «Prece» é confissão: vv. 1-3

(2) o momento em que a «Prece» é esperança: vv. 4-8

(3) o momento em que a «Prece» é apelo: vv. 9-12

8. A forma verbal «conquistemos» está no presente do conjuntivo e tem valor imperativo, exprimindo desejo, incitação, persuasão.

9. Localização no poema de duas conexões adversativas e clarificação da mudança que ambas introduzem no desenvolvimento do tema:

- «Mas», v. 5: opõe um estado disfórico a um eufórico, um estado desalento a outro de esperança.

«mas», v. 12: inicia uma oração que vinca uma tomada de posição activa no sentido - de uma apropriação colectiva de um propósito - reforça o propósito coletivo.

10. Palavra do poema que exprime uma atitude típica finissecular, cultivada como postura ideológica e sentimental tipicamente portuguesa: «Saudade»

11. Momentos em que se exprime dúvida:

- v. 6: «Se ainda há vida ainda não é finda»;

- v. 9: ««ou desgraça ou ânsia».

12. Comentário das imagens contidas nos versos transcritos:

- v. 7, «O frio morto em cinzas a ocultou»: as cinzas simbolizam o estado de decadência do país, perpetuada desde o desaparecimento de D. Sebastião, de modo que está oculta a verdadeira vida, esperando o momento certo para o seu ressurgimento. É o Encoberto à espera do seu momento de desocultação.

- v. 8, «A mão do vento pode erguê-la ainda»: a expressão «mão do vento» faz lembrar uma outra: «mão de Deus», indicando que está nos desígnios do Alto o ressurgimento da vida pátria, havendo, portanto, ainda esperança para o caso português.

- «O sopro, a aragem [...]/ Com que a chama do esforço se remoça»: o sopro tem o sentido de princípio de vida. O espírito de Deus que paira sobre as águas primordiais do Génesis é o sopro. No homem o sopro de vida dado por Deus não é perecível. Na iconografia cristã podem ver-se cenas da criação pelo sopro de Deus, capaz de curar a doença ou expulsar a morte, insuflando a vida.

Note-se o impressionismo da imagem dado apenas com dois substantivos («chama do esforço»).

 

(Adaptado de: Para uma leitura de MENSAGEM de Fernando Pessoa, Maria Almira Soares. Lisboa, Editorial Presença, 2000, pp. 58-59)

  


***

 

II – Outro questionário sobre o poema “Prece”, de Fernando Pessoa:

Apresente, de forma clara e bem estruturada, as suas respostas aos itens que se seguem.

1. Caracterize o momento presente tal como é representado na primeira estrofe.

2. Explicite os efeitos de sentido produzidos pela exclamação «Tanta foi a tormenta e a vontade!» (verso 2).

3. Relacione a referência à «chama, que a vida em nós criou» (verso 5) com o sentimento sugerido no verso 8.

4. Interprete o sentido da última estrofe, tendo em conta o título e a apóstrofe presente no primeiro verso do poema.

 

Explicitação de cenários de resposta:

1. A resposta pode contemplar os tópicos que a seguir se enunciam, ou outros considerados relevantes.

Na primeira estrofe, o momento presente caracteriza-se pela frustração, pela saudade e pelo desalento evidenciados:

– pelas metáforas da «noite» e do «silêncio», que significam uma morte espiritual, bem como pelo sentido disfórico da associação de «alma» ao adjetivo «vil» e de «silêncio» ao adjetivo «hostil»;

– pela evocação de um passado glorioso, associado ao orgulho da conquista de um «mar universal».

2. A resposta pode contemplar os aspetos que a seguir se enunciam, ou outros considerados relevantes.

A exclamação presente no verso 2 exprime:

– o orgulho relativamente a um passado heroico que implicou sofrimento, mas em que os portugueses se moveram por um inabalável desejo de grandeza;

– a noção de um presente marcado pelo desânimo e pela falta de ambição.

3. A resposta pode contemplar os aspetos que a seguir se enunciam, ou outros considerados relevantes.

A «chama» que impulsionou os portugueses para a concretização de feitos gloriosos e que não se encontra morta, mas escondida no «frio morto em cinzas» (v. 7), alimenta o sentimento de esperança implícito no verso 8 e a possibilidade de Portugal voltar a erguer «a chama, que a vida em nós criou» (v. 5).

4. A resposta pode contemplar os aspetos que a seguir se enunciam, ou outros considerados relevantes.

Na última estrofe (através do recurso ao imperativo), o sujeito poético concretiza a súplica referida no título, pedindo ao «Senhor» (v. 1) que conceda ao povo português (identificado pelo uso da primeira pessoa do plural) «o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —» (v. 9) que permitam:

– reavivar a «chama do esforço» (v. 10);

– reconquistar a «Distância» (v. 11), ou seja, construir um novo Portugal.

Nota – Não é obrigatório o recurso a citações, ainda que estas figurem, a título ilustrativo, no cenário de resposta.

 

Fonte: Exame Nacional do Ensino Secundário n.º 639 (Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de julho). Prova Escrita de Português - 12.º Ano de Escolaridade. Governo de Portugal, Ministério da Educação e Ciência / GAVE-Gabinete de Avaliação Educacional, 2013, 1.ª Fase - Data Especial

 


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Prece: Senhor, a noite veio e a alma é vil. (Mensagem, Fernando Pessoa)” in Folha de Poesia, José Carreiro. Portugal, 27-12-2022. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/12/prece-senhor-noite-veio-e-alma-e-vil.html