quarta-feira, 29 de março de 2023

Sete anos de pastor Jacob servia (Camões)


 

 






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Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida,

começa de servir outros sete anos,
dizendo: – Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.

Luís de Camões, Rimas, ed. Álvaro J. da Costa Pimpão, Coimbra, Almedina, 1994, p. 131.

 

Questionário sobre o poema “Sete anos de pastor Jacob servia”, de Camões.

1. O tema central deste soneto é a fidelidade amorosa.

    Justifique esta afirmação, ilustrando a resposta com citações do poema.

2. Indique quatro das características que compõem o retrato psicológico de Jacob. Fundamente a resposta em elementos do texto.

3. Explicite o sentido do quinto e do sexto versos: «Os dias, na esperança de um só dia, / passava, contentando-se com vê-la».

4. Refira a importância que a fala de Jacob assume no soneto, salientando dois aspetos que considere relevantes.

 

Explicitação de cenários de resposta:

1. O tema central do soneto é o da fidelidade amorosa, na medida em que:

− Jacob servira Labão como pastor, durante sete anos, na expectativa de que este lhe desse como «prémio» (v. 4) a sua filha Raquel, provando assim a sua devoção amorosa pela jovem;

− ludibriado pelo pai da amada, que lha negou, dando-lhe outra filha («em lugar de Raquel lhe dava Lia» – v. 8; «como se a não tivera merecida» – v. 11), o pastor, fiel à sua amada, retoma com pertinácia novo período de servidão (v. 12);

− o serviço de amor é marcado pela utilização reiterada de formas do verbo «servir» (vv. 1, 3, 12 e 13), constituindo uma manifestação da fidelidade do amor de Jacob por Raquel.

2. Jacob é caracterizado como um homem:

− apaixonado, uma vez que aceita servir pacientemente o pai da sua amada, para assim a merecer;

− «triste» (v. 9), pelo facto de Labão, findo o ciclo de sete anos de trabalho, não lhe dar Raquel, mas a sua filha Lia (vv. 7-8);

− persistente, já que não perde a esperança («começa de servir outros sete anos» – v. 12);

− fiel, porque demonstra o seu amor excecional por Raquel, dispondo-se a esperar por ela quanto tempo for necessário (vv. 13-14);

− nobre, porque revela a elevação do seu sentimento amoroso pela jovem (vv. 13-14).

3. O quinto e o sexto versos salientam a devoção amorosa do pastor que, durante os dias de longa espera, se limita a amar, contemplativamente, Raquel («contentando-se com vê-la» – v. 6), sempre na «esperança de um só dia» (v. 5), ou seja, o do momento, tão desejado, em que terá a sua amada.

4. A fala de Jacob (vv. 13-14) assume uma importância crucial no soneto, na medida em que:

− cria um intenso efeito dramático, ao apresentar, na primeira pessoa, emoções e sentimentos;

− define o amor como sendo puro, sublime e intemporal;

− acentua a exemplaridade da história, evidenciando o facto de ser o amor por Raquel o único propósito da sua vida;

− sublinha a vivência do tempo, marcada pela antítese presente nos adjetivos «longo» e «curta» (v. 14).

 

Fonte: Exame Final Nacional de Literatura Portuguesa. Prova 734 | 1.ª Fase | Ensino Secundário | 2017 | 11.º Ano de Escolaridade | Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de julho. República Portuguesa – Educação / IAVE-Instituto de Avaliação Educativa, I.P.

 

 

Texto de apoio

 

Sete anos de pastor Jacob servia — Génesis, Camões e António Sardinha

 

RAFFAELLO Sanzio – encontro de raquel com jacob 1518-19


 

SONETO de Jacob, pastor antigo,

— soneto de Rachel, serrana bela…

Oh quantas vezes o relembro e digo,

pensando em ti, como se foras ela!

 

Sirvo-me desta primeira quadra de um soneto de António Sardinha (1888-1925) para chegar às origens do relato do amor de homem por mulher na cultura ocidental, o que aconteceu por via do primeiro livro da Bíblia, Génesis. Não falo de Adão e Eva, pois essa é a história da necessidade biológica do sexo e do seu impulso irresistível quaisquer que sejam as consequências, mas da história de Jacob, e do que este aceita fazer para possuir a mulher que quer, neste caso a prima Raquel:

 

Para obter Raquel, Jacob trabalhou durante sete anos e, pelo amor que lhe tinha, aqueles sete anos pareceram-lhe apenas alguns dias.

 

Conta-se a história em Génesis, capítulo 29.

 

Génesis

29.15

Jacob já estava há um mês em casa de Labão, quando este lhe disse: “É certo que tu és meu parente. Mas até agora tens trabalhado para mim de graça. Diz-me que salário queres.”

29.16

Labão tinha duas filhas, a mais velha chamava-se Lia e a mais nova, Raquel.

29.17

Lia tinha uns olhos muito ternos. Mas Raquel era bonita e elegante.

29.18

Jacob gostava muito de Raquel e por isso respondeu: “Aceito trabalhar para ti, durante sete anos, para casar com Raquel a tua filha mais nova.”

29.19

Labão respondeu: “Está bem. É melhor casá-la contigo que casá-la com outro qualquer. Podes continuar em minha casa.”

29.20

Para obter Raquel, Jacob trabalhou durante sete anos e, pelo amor que lhe tinha, aqueles sete anos pareceram-lhe apenas alguns dias.

 

Camões sintetizou o caso num popular soneto:

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.
 
Os dias na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.
 
Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se a não tivesse merecida,
 
começa de servir outros sete anos,
dizendo: “Mais servira se não fora
para tão longo amor tão curta a vida”.

 

Como se vê pelo soneto, a coisa não correu como prometido, e o pai de Raquel começou por roer a corda.

Vejamos, pois, o que de facto aconteceu, com a continuação do relato bíblico:

 

29.21

Depois disse a Labão: “Dá-me a minha mulher, para eu casar com ela, pois já acabou o tempo combinado.”

29.22

Labão convidou toda a gente do lugar e ofereceu um banquete.

29.23

Mas à noite, em vez de Raquel, Labão levou Lia para o quarto dos noivos e foi com ela que Jacob dormiu.

29.24

Labão deu à sua filha Lia a escrava Zilpa, para ficar ao serviço dela.

29.25

Pela manhã, quando Jacob se deu conta de que era Lia foi reclamar a Labão: “Que é que me fizeste? Por amor de Raquel andei a trabalhar para ti. Porque é que me enganaste?”

29.26

Labão respondeu: “Cá na nossa terra não é costume casar a filha mais nova antes da mais velha.

29.27

Mas depois dos sete dias de lua de mel podemos dar-te também a outra em casamento, desde que te comprometas a trabalhar para mim outros sete anos mais.”

29.28

Jacob assim fez. Passaram os sete dias da lua de mel e Labão deu-lhe também a sua filha Raquel como esposa.

29.29

A Raquel, Labão deu Bilá, sua escrava, para ficar ao serviço dela.

29.30

Jacob dormiu também com Raquel e esta era a sua preferida. E durante mais sete anos Jacob ficou ao serviço de Labão.

 

Está assim elucidado o sucesso que levou ao soneto de Camões acima transcrito.

Aqui chegados talvez valha a pena conhecer a história desde o início, e como Jacob conheceu Raquel:

Génesis:

29.4

Jacob perguntou aos pastores: “Amigos, donde são?” E eles responderam: “Somos de Haran.”

29.5

Jacob perguntou de novo: “Por acaso conhecem Labão, descendente de Naor?” “Conhecemos, sim”, responderam eles.

29.6

Jacob perguntou ainda: “Ele está bem?” “Está sim. Olha! A filha dele, Raquel vem aí com o rebanho”, indicaram os pastores.

29.7

Jacob disse: “Ainda é bastante cedo. Ainda não é tempo de recolher o rebanho. Dêem-lhe de beber e levem-no outra vez a pastar,”

29.8

29.9

Enquanto estava a falar com eles, chegou Raquel com a ovelhas do seu pai, pois era ela a pastora

29.10

Ao ver Raquel filha do seu tio Labão, com o rebanho do seu tio, Jacob aproximou-se e retirou a pedra de cima do poço e deu água ao rebanho do seu tio Labão.

29.11

Depois saudou Raquel com um beijo e não pôde conter as lágrimas.

29.12

Jacob anunciou a Raquel que ele era parente do pai dela pois era filho de Rebeca. E ela foi a correr levar a notícia ao pai.

29.13

Labão ao ouvir falar do seu sobrinho, Jacob, correu ao encontro dele, abraçou-o, beijou-o e conduziu-o para sua casa. Jacob contou-lhe então tudo o que tinha acontecido.

29.14

E Labão exclamou: “Realmente tu és da minha própria familia.” E Jacob ficou em casa dele.

 

A imagem que abre o artigo mostra uma pintura de Rafael executada em 1518-19 dando conta do encontro entre Jacob e Raquel junto ao poço. Pela mesma época (1515-25) Palma Vecchio ilustrava como segue o beijo destes no poço (Génesis 29.11).


PALMA VECCHIO – O beijo de Raquel e Jacob 1515-25 a


Volto agora ao soneto de abertura onde António Sardinha (1888-1925), partindo de Camões, nos leva, não pela história bíblica, mas pelo desolado da sua existência na ausência da sua amada:

O que eu servira, p’ra viver contigo, / — tão doce, tão airosa e tão singela!

/ Assim, distante do teu rosto amigo, / em torturar-me a ausência se desvela!

E neste eterno retomar do já dito se tecem as voltas da poesia.

Deixo-o, leitor, com o soneto citado. À obra poética de António Sardinha volto outro dia.

 

Velho motivo

SONETO de Jacob, pastor antigo,
—soneto de Rachel, serrana bela…
Oh quantas vezes o relembro e digo,
pensando em ti, como se foras ela!
 
O que eu servira, p’ra viver contigo,
—tão doce, tão airosa e tão singela!
Assim, distante do teu rosto amigo,
em torturar-me a ausência se desvela!
 
E vou sofrendo a minha pena amarga,
—pena que não me deixa nem me larga,
bem mais cruel que a de Jacob pastor!
 
Rachel não era dele e sempre a via,
enquanto que eu não vejo, noite e dia
aquela que me tem por seu senhor!

 

Nota bibliográfica

A transcrição do episódio bíblico foi feita a partir de “a BÍBLIA para todos, edição literária“, editada por Temas e Debates e Círculo de Leitores, 2009.

Na transcrição do episódio bíblico introduzi o número dos versículos, os quais não aparecem na edição citada onde o texto é corrido, por forma a permitir o seu cotejo com outras edições do texto.

Luís de Camões, Lírica Completa II, edição de Maria de Lurdes Saraiva, INCM, Lisboa, 1980.

António Sardinha, Chuva da Tarde, sonetos de amor, Lvmen, Coimbra, 1923.

(Conservei a ortografia de Raquel e a maiúscula inicial em Soneto da edição original.)

Nota final

O relato bíblico da história de Jacob, Raquel e Lia mais as suas escravas, continua, fixando no texto sagrado uma situação poligâmica: decorrendo da incapacidade de Raquel para ter filhos por um lado, e dos ciúmes de Lia, por outro, Jacob acaba também por procriar com as escravas destas, Bilá e Zilpa.

Não sei como cristãos em geral, e António Sardinha, em particular, fervoroso católico que era, e certamente conhecedor do episódio bíblico, lidam com a legitimação da poligamia que o episódio explicitamente cauciona.

 

Carlos Fernandes, https://viciodapoesia.com/2016/01/20/sete-anos-de-pastor-jacob-servia-genesis-camoes-e-antonio-sardinha/

 

 


CARREIRO, José. “Sete anos de pastor Jacob servia (Camões)”. Portugal, Folha de Poesia: artes, ideias e o sentimento de si, 29-03-2023. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2023/03/sete-anos-de-pastor-jacob-servia-camoes.html


terça-feira, 28 de março de 2023

Quando o Sol encoberto vai mostrando, Camões

O Nascimento de Vénus (pormenor), Botticelli, 1483

 






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Quando o Sol encoberto vai mostrando
ao mundo a luz quieta e duvidosa,
ao longo d’ ũa praia deleitosa,
vou na minha inimiga imaginando.

Aqui a vi, os cabelos concertando;
ali, co a mão na face tão fermosa;
aqui, falando alegre, ali cuidosa1;
agora estando queda, agora andando.

Aqui esteve sentada, ali me viu,
erguendo aqueles olhos tão isentos2;
aqui movida um pouco, ali segura;

aqui se entristeceu, ali se riu;
enfim, nestes cansados pensamentos
passo esta vida vã3, que sempre dura.

 

Luís de Camões, Rimas, edição de Álvaro J. da Costa Pimpão, Coimbra, Almedina, 1994

 

__________
1 cuidosa (verso 7) – meditativa; pensativa.
2 isentos (verso 10) – puros.
3 vã (verso 14) – vazia.

 

Apresente, de forma bem estruturada, as suas respostas aos itens que se seguem.

1. Explicite a relação que se pode estabelecer entre o sujeito poético e o cenário físico.

2. Refira um dos valores expressivos da repetição de «aqui», «ali» e «agora» (versos 5-9 e 11-12).

3. Apresente quatro traços do retrato da figura feminina.

4. Comente o sentido que a conclusão do soneto produz (versos 13-14).

 

Explicitação de cenários de resposta:

1. É importante a relação entre o sujeito poético e o cenário físico na construção do sentido do soneto. Assim, o «Sol encoberto» (v. 1) e a «luz quieta e duvidosa» (v. 2) criam um ambiente propício ao devaneio e à rememoração, naquela «praia» (v. 3) que se torna «deleitosa» (v. 3) por ser o espaço em que o «eu» se move, «imaginando» a sua «inimiga» (v. 4).

2. A repetição de «aqui», «ali» e «agora» (vv. 5-9 e 11-12) tem, entre outros, os seguintes valores expressivos:

− criar uma atmosfera de grande tensão subjetiva, uma vez que está associada ao processo de rememoração, de reconstrução mental das imagens da sua «inimiga» (v. 4) por parte do sujeito poético;

− acentuar a diversidade das imagens que representam a figura feminina;

− realçar o modo de composição do retrato por traços contrastados par a par (vv. 5 e 6; vv. 6 e7; v. 8; vv. 9 e 11; v. 12);

− imprimir aos versos um ritmo cadenciado.

3. Traços do retrato que no poema é feito da «minha inimiga» (v. 4): a beleza («face tão fermosa», v. 6); a alegria («alegre», v. 7); a melancolia («cuidosa», v. 7); a candura («olhos tão isentos», v. 10); a instabilidade (quer «movida», ou inquieta, quer «segura», ou calma, v. 11; ora triste, ora risonha, v. 12). De notar também os gestos graciosos, vivos e espontâneos («os cabelos concertando» – v. 5; «a mão na face» – v. 6).

4. Os dois versos finais constituem uma meditação sobre a distância intransponível entre a ilusão que a memória é capaz de criar e a realidade da vida presente – sem perspetiva de mudança, porque «sempre dura» (v. 14) – do sujeito solitário, reduzido às suas imagens ou «pensamentos» (v. 13).

 

Fonte: Exame Nacional do Ensino Secundário n.º 734 - Prova Escrita de Literatura Portuguesa 10.º e 11.º Anos de Escolaridade (Decreto-Lei n.º 74/2004, de 26 de março). Lisboa, Governo de Portugal – Ministério da Educação e Ciência /GAVE-Gabinete de Avaliação Educacional, 2012, 1.ª Fase

 

 


CARREIRO, José. “Quando o Sol encoberto vai mostrando, Camões”. Portugal, Folha de Poesia: artes, ideias e o sentimento de si, 28-03-2023. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2023/03/quando-o-sol-encoberto-vai-mostrando.html


segunda-feira, 27 de março de 2023

Julga-me a gente toda por perdido, Camões


 






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Julga-me a gente toda por perdido,
vendo-me tão entregue a meu cuidado,
andar sempre dos homens apartado,
e dos tratos humanos esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
e quási que sobre ele ando dobrado,
tenho por baixo, rústico, enganado,
quem não é com meu mal engrandecido.

Vão revolvendo a terra, o mar e o vento,
busquem riquezas, honras a outra gente,
vencendo ferro, fogo, frio e calma;

que eu só em humilde estado me contento,
de trazer esculpido eternamente
vosso fermoso gesto dentro n’alma.

Luís de Camões, Rimas, ed. de Álvaro J. da Costa Pimpão, Coimbra, Almedina, 1994

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cuidado (v. 2): pensamento.
tratos (v. 4): convívio.
calma (v. 11): calor do sol.
gesto (v. 14): rosto.

 

Apresente, de forma estruturada, as suas respostas ao questionário.

1. Atente nas duas quadras do poema.

1.1. Com base na primeira quadra, indique três traços que caracterizam o modo como «a gente toda» vê o sujeito poético.

1.2. Analise as relações de sentido que aquelas duas estrofes estabelecem entre si.

2. Explicite um dos efeitos expressivos produzidos pela enumeração «a terra, o mar e o vento» (v. 9).

3. Comente o sentido do verso «que eu só em humilde estado me contento» (v. 12) no contexto dos dois tercetos.

 

Explicitação de cenários de resposta:

1.1. De acordo com a primeira estrofe, «a gente toda» (v. 1) vê o sujeito poético como um indivíduo:

– «perdido» (v. 1), ou louco;

– ensimesmado («tão entregue a meu cuidado» – v. 2);

– sempre à margem, evitando deliberadamente a convivência com as outras pessoas (v. 3);

– desprendido de todas as regras do convívio em sociedade (v. 4).

1.2. A adversativa «Mas» instaura uma contraposição de sentido entre as duas quadras. Assim:

– à representação, na primeira estrofe, da aparência do «eu», tal como é visto pela «gente toda», sucede-se, na segunda, a expressão de uma profunda autoconsciência do «eu», que lhe permite classificar como errada a visão dos outros sobre si e sobre o mundo (vv. 7-8);

– na segunda quadra, o que parece aos outros loucura é apresentado como uma opção consciente e deliberada do «eu» que, conhecendo (vv. 5-6) e desprezando (v. 7) o «mundo», afirma a vivência interior do seu «mal» como o único modo válido de engrandecimento pessoal (v. 8).

2. A enumeração, incidindo na busca dos outros, produz diversos efeitos expressivos, tais como:

– assinala o carácter global dessa busca (convocando três dos elementos, Terra, Água e Ar);

– define tal busca como incessante e sem limite que a detenha;

– atribui à referida busca um carácter insaciável e insano, pois pretende sair do espaço humanamente mais controlável (a Terra) para o mar;

– cria uma impressão de movimento, num crescendo de dinâmica ascensional (da Terra-Mar para o Vento);

– sugere uma grande agitação, um desmesurado dispêndio de energia;

– …

3. O verso «que eu só em humilde estado me contento» apresenta, na relação com o primeiro terceto, entre outros, os seguintes sentidos:

– constitui a afirmação, por parte do sujeito poético, de uma opção de vida simples («em humilde estado me contento»), oposta à daqueles que buscam, por todo o lado, «riquezas»;

– marca o desinteresse do «eu» pelos bens materiais, colocando-se acima dos que são movidos por tais objetivos;

– ...

Na articulação com os versos finais do soneto, o verso 12 apresenta, entre outros, os seguintes sentidos:

– produz uma clarificação do significado de «humilde estado», revelando-o como o sentimento de dedicação amorosa que domina o sujeito lírico;

– é expressão da autoconsciência do sujeito relativamente à grandiosidade do sentimento que o domina, de entrega total ao ser amado e à contemplação da beleza deste, inscrita para sempre dentro de si («me contento, / de trazer esculpido eternamente / vosso fermoso gesto dentro n’alma» – vv. 12-14);

– constitui a afirmação da vivência interior da beleza e do amor como os valores da vida do «eu»;

– contribui para a enfatização do desprendimento do «eu» face aos bens materiais e da sua opção por um bem simbólico perene;

– …

Nota – Para a atribuição do máximo da cotação referente aos aspetos de conteúdo, considera-se suficiente a explicitação de duas articulações de sentido do verso indicado, sendo obrigatoriamente uma delas relativa ao primeiro terceto e a outra aos versos finais do soneto.

 

Fonte: Exame Nacional do Ensino Secundário n.º 734. Prova Escrita de Literatura Portuguesa. 10.º/11.º anos ou 11.º/12.º anos de Escolaridade (Decreto-Lei n.º 74/2004, de 26 de março). Lisboa, GAVE-Gabinete de Avaliação Educacional, 2007, 2.ª Fase


 


CARREIRO, José. “Julga-me a gente toda por perdido, Camões”. Portugal, Folha de Poesia: artes, ideias e o sentimento de si, 27-03-2023. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2023/03/julga-me-gente-toda-por-perdido-camoes.html