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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Manifesto Anti-Leitura, de José Fanha


José Fanha nasceu em Lisboa e licenciou-se em arquitetura. Porém, é muito mais conhecido como inspirado poeta e declamador, animador cultural por excelência, criativo por vocação, interventivo até dizer basta. É autor de contos e de poesias para crianças, dramaturgo e ator. Foi professor do ensino secundário, é mestre em Educação e Leitura e doutorando na área da História da Educação e da Cultura Escrita.
Tendo como modelo e inspiração o Manifesto Anti-Dantas, célebre texto de Almada Negreiros onde, pela mordaz ironia, este zurze o academismo e o tradicionalismo instalados, sobretudo na pessoa e na obra do escritor Júlio Dantas, José Fanha construiu o Manifesto Anti-Leitura, igualmente corrosivo e irreverente, sobretudo nestes tempos em que a crise serve de desculpa para oficialmente a cultura ser posta em causa.
Este texto foi publicamente apresentado sob o patrocínio da Rede de Bibliotecas Municipais de Lisboa, durante a II Arruada da Leitura, que teve lugar no dia 21 de abril de 2012. Na tarde desse dia, ao fundo da Rua do Carmo, em Lisboa, o ator Manuel Coelho, do Teatro Nacional D. Maria II, declamou o Manifesto Anti-Leitura.
Pelo seu óbvio interesse e oportunidade, e com a justa e devida vénia para com o seu autor, aqui se partilha esta magnífica criação de José Fanha.





ABAIXO A LEITURA, PIM!
Andam por aí elementos suspeitos que se escondem nas sombras das bibliotecas e chegam a ir às escolas para espalhar um vício terrível e abominável especialmente junto dos mais novos! Dos mais tenros! Dos mais ingénuos! Um vício que se chama
LEITURA!
Os passadores dessa droga dura, os dealers da leitura transformam simples cidadãos em leitores! Em mortos vivos! Em gente que entrega a sua vida aos livros, às histórias, aos romances, aos poemas, gente que se esquece de tudo o mais!
Abaixo a leitura, pim! Abaixo os leitores, pum!
O leitor é um doente!
O leitor é um viciado!
O leitor se esquece de tudo mais só para ler!
Cuidado com eles! Porque o pior de tudo é que a leitura pega-se! Cuidado com os leitores! Afastai-os de vós! Protegei os vossos filhos!

Morra a leitura, morra! EPim!

Uma geração que lê é uma geração que pensa!
Uma geração que lê é uma geração que duvida!
Uma geração que lê é uma geração que questiona!
Uma geração que lê é uma geração que critica!
Uma geração que pensa e duvida e questiona e critica não engole qualquer patranha que lhe queiram enfiar! Não obedece! Não se baixa! Não se cala! Uma geração que lê e pensa é um perigo para a civilização ocidental e para o país!

Abaixo os leitores! Morra a literatura! Morra! Pum!

Esta gentinha põe-se a ler em vez de trabalhar, de verter o seu suor a bem da nação, de aceitar paciente e responsavelmente que lhe retirem a assistência médica, o subsídio de doença, a reforma, o teatro, a música! As cuecas, se for preciso!
Esta gentinha que lê perde-se a interrogar as medidas necessárias e urgentes para o bem do mercado, dos bancos, dos acionistas que são quem faz andar o país!
Quem lê ainda por cima diverte-se! Entretém-se!
A ler, os leitores viajam! E aprendem! E refletem! E riem! Choram! E sonham!

Morra a leitura, pim! Pam! Pum!

A leitura faz conhecer personagens imorais como o débil Carlos da Maia e a desavergonhada Eduarda da Maia,
e bruxas repelentes como a Dama de Pé de Cabra do Alexandre Herculano ou a Blimunda do “Memorial do Convento”

Seres inúteis e irreais como o Gato Zorbas da “Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar”.
Criaturas atrevidas, desobedientes e revolucionárias como o João-Sem-Medo, o Pinóquio, o Tom Sawyer, o Oliver Twist!

E loucos como o cigano Melquíades e o coronel Buendía dos “Cem anos de Solidão”.

A leitura faz-nos viajar por lugares mal frequentados como a Ilha do Tesouro, o Beco das Sardinheiras do Mário de Carvalho, os Mares do “Mobby Dick”, a Buenos Aires de Borges, a Paris de Marcel Proust, a Londres de Oscar Wilde, a Moscovo de Tolstoi!

A leitura faz-nos rir de pessoas sérias como o Conde de Abranhos, o Sancho Pança ou o Escriturário Barthleby.

Já para não falar dos autores, meu Deus! Esses seres abjetos! Os escritores que escrevem livros e livros sem um pingo de vergonha! Deviam ser presos! Encerrados num jardim zoológico! Condenados aos trabalhos forçados! À morte! À cadeira elétrica!

Camões, por exemplo, era um marginal que andava sempre à espadeirada. E se fosse só isso, ainda podíamos perdoar. A luta, a pancadaria, a guerra não são reprováveis. Podem até ter uma função muito positiva na nossa sociedade!
Mas esse tal Camões escrevia entre espadeiradas!!! Escrevia estrofes e mais estrofes! Sonetos que enchem livros e que continuam a gastar papel que podia ser poupado para fazer pacotes de castanhas ou relatórios anuais da administração das empresas.
E o Bocage? Dizia impropérios! Palavrões! E até na poesia deixava a marca da sua pouca vergonha! Se escrevesse pornografia nós aceitávamos esses palavrões! Tinham uma função social! Mas poesia…!
E não esqueçamos essa histérica e louca Florbela Espanca, essa desavergonhada, essa grande doida, que queria amar! Deixai-nos rir! Se amasse o seu marido uma vez por semana cumpria a sua obrigação! Se fosse amante do chefe lá do escritório, estava a contribuir para uma gestão equilibrada do produto interno bruto! Mas não! Ela vertia nos versos o seu desejo de amar este, aquele, e mais o outro!
E lembremos Álvaro de Campos que é uma invenção torpe, um sujeito que nunca existiu de facto! Puro delírio! Personagem frágil e contraditória! E Ricardo Reis que também não existia! Nem Alberto Caeiro! Nem Bernardo Soares!
O Sr. Fernando Pessoa que escrevia cartas de amor devia ter tido vergonha e dedicar-se à sua profissão pobre mas honrada de escriturário! E de muitos mais escritores poderíamos falar! Gente horrível, que só gosta de mexer na miséria e na lama, gente carregada de maldade que nos fala da Queda dos Anjos e de Amores de Perdição, de Barrancos de Cegos, de Lobos que Uivam, de Versículos Satânicos!
E até quando escrevem sobre gente feliz, tem de ser gente feliz com lágrimas!

E há quem os leia! Quem sofra com eles! Quem os desfolhe carinhosamente sem saber que o veneno entra pelos olhos que leem e pelos dedos que folheiam! E depois da leitura de uma página, por vezes depois da leitura de um só parágrafo já não há remédio! Eles já são leitores! Estão apanhados irremediavelmente pelo canto de sereia da leitura! A possibilidade de salvação é extremamente diminuta!
Os livros deviam ser reciclados e transformados em lenços de papel! Em solas de sapatos! Em bolas de futebol! Mas livrai-vos de os ler! Ou melhor! Queimem-nos! Lembrem-se daqueles que ao longo da história tentaram salvar-nos queimando pilhas e pilhas de livros!

Abaixo os livros! Morra a leitura! Morra, E pim!

Os livros fazem-nos afastar da realidade, da economia! Do mercado! Do futuro!
Uma ponte é feita com ferro e cimento e não com livros!
No tribunal, o advogado não defende um criminoso com poesia!
Na sala de operações o cirurgião não abre os órgãos de um doente com um romance!
Ninguém se deixa corromper por um soneto!

Abaixo a prosa! E a poesia! E o ensaio!

Morra a leitura, morra! E Pim!

E temos de falar das bibliotecas, essas casas sombrias onde o vício é permitido! Pais! Protegei os vossos filhos! As bibliotecas são autênticas salas de chuto de porta aberta ao público! E estão carregadas e alto abaixo de livros! E os livros estão à vista! Pior ainda, os livros estão à mão de qualquer criança ingénua! E alguns até têm ilustrações, bonecos que tornam a leitura mais fácil e a perdição mais próxima! E o pior é que podem ser requisitados e levados para a casa, para o seio da família onde vão espalhar a sua ação desagregadora e malfazeja!

Morra a leitura! Abaixo as bibliotecas! Pum!

Mas há esperanças para o futuro!

Por alguma razão muitos dos nossos melhores e mais impolutos dirigentes só leem resumos! Ou extratos da conta bancária! Quanto ao resto, nada! Nem uma palavra! Nem uma linha!
E quando lhes perguntam o que andam a ler, muito perspicazmente, eles inventam títulos de livros que não existem para lançar o engano e, quiçá, salvar alguém dos terríveis vícios da leitura!

Sigamos o exemplo que muitos dos nossos dirigentes e gerentes e gestores nos apontam! Há que ter a coragem de dizer bem alto:

A leitura prejudica gravemente a ignorância!

E sem ignorância o país não progride! Não crescem os juros! Não se investe nas offshores! O estado não vende empresas abaixo do preço aos particulares! O preço da gasolina não sobe!

Acabemos de vez com a leitura! Abaixo a leitura! E Pim!

Se puserem um livro à vossa frente, caros amigos, cuidado! Desviem o olhar! Não abram nem uma página! Pode bastar um verso para vos contaminar! Um homem que lê pode desejar viver num mundo melhor! Pode de repente sentir as lágrimas correrem-lhe pela cara abaixo! Pode querer subitamente ajudar os aflitos! Pode abraçar estupidamente um amigo ou beijar os lábios de uma rapariga bela como um raio de sol a iluminar a mais bela rosa do jardim!

Por isso é preciso fechar as portas aos antros de leitura! Sabemos que pode parecer doloroso mas é fundamental arrancar de vez os livros das mãos dos viciados e impedi-los de ler uma linha sequer! Se for preciso tapai-lhes os olhos! É preciso preparar o futuro dos nossos filhos! Não lhes dar ilusões, nem sonhos, nem alegrias! Nem dúvidas, nem sabedoria, nem nada!

Abaixo as bibliotecas! Abaixo os livros! Morra a leitura! Morra!
Fim!
José Fanha
Poeta do séc. XXI
e
tudo











quinta-feira, 24 de maio de 2018

poema coletivo


Hoje cheguei a casa da escola e disse à minha mãe que gostava muito de escrever e ela disse que eu precisava porque dava muitos erros.
Eu disse-lhe que não era esse escrever, mas ela não percebeu.

Ensinar a Poesia, Teresa Guedes, Edições Asa, 1990.



SE EU FOSSE UM POEMA

Se eu fosse um poema
não poderia ter medo
nadaria em mar de memórias
seria lido sem parar.

A esperança reinava
viveria a vida sem arrependimento
seria um amor sem destino
doaria as minhas palavras.

Não me agarraria à solidão
estaria pleno de amor
brilharia sem parar
daria todo o meu tempo
vivendo a vida com sentimento.

Poema coletivo criado pela turma 8.º E da professora Graça Vaz

Alverca do Ribatejo, Escola Básica Pedro Jacques de Magalhães, maio de 2018




segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Felizmente há luar!



Felizmente Há Luar!
em versão rap


Na Escola Secundária D. Dinis, em Chelas, Lisboa, os alunos são incentivados de maneira original a interessarem-se pelo Português.

"Esta turma de 12º ano da Escola Secundária D. Dinis, em Chelas, Lisboa, transforma obras literárias em canções de rap. Foi a estratégia encontrada pela professora Carmo para combater a falta de interesse dos alunos pelas aulas de Português".
«RAP Literário» reportagem de Rita Fernandes para a Antena 1, 2017-05-24 https://www.rtp.pt/noticias/reportagem/rap-literario_a1003824


Poderá também gostar de:

Luís de Sttau Monteiro, "Hoje tive sorte" - Poema dactilogafado em papel timbrado de "Luiz de Sttau Monteiro", duas páginas., não assinado, nem datado. Desconhece-se se inédito e se o seu o autor foi o próprio Sttau Monteiro. À venda em http://www.doutrotempo.com/livros/poema---20%E2%82%AC/3712/ por Adelino Correia-Pires, Torres Novas.





segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Más Leituras


     Partindo de dois versos sugestivos de um dos poemas da obra Chuva de Época, «Escrever e ler/é escrever mal e ler mal», o título do projeto Más Leituras corresponde a uma subversão provocatória do significado de «mal»/«má»: aqui, uma «má leitura» consiste numa proposta de recriação apolínea de itinerários possíveis, suscitados pela receção de cada um dos seis textos selecionados. No conjunto, as «más leituras» deste projeto são experiências de apreensão daquilo que o poeta José Maria de Aguiar Carreiro designa por “riqueza multiplicada/ que sai esbaforida” dos textos e que se constitui como reduto privilegiado do/a leitor(a).

Eduarda Maria da Silva Ribeiro Mota, Más Leituras - Projeto Final do Seminário de Materialidades da Literatura II, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, julho de 2011.




DA RETICÊNCIA AO FACTO

Da reticência ao facto
tudo é repetição, segmento deposto,
correcção.

Escrever e ler
é escrever mal e ler mal.

O facto é sempre o que se vê:
letras de lua e de sol
gavião que sai de feridas e se interpreta

o primor da fala, a sabedoria poética.



praia da Ribeira Quente, ilha de São Miguel, Açores, 2006. José Carreiro



AUSÊNCIA 

À luz gelada do amanhecer
ele toma a direcção da praia
a força do mar arrima-o um pouco
ao imo prestado pelos elementos
observa a fúria da areia que voa
açoita a cara empurrando-o
a procurar abrigo.
Sim, que ausência.

Rolam tumultuosas mas lentamente
as letras para sua própria ordem
por imposição incendiária de montanhas
de rios e de cidades.
Sim, muitos deixam as ilhas
areias cristais e buscam continuamente
forma onde repousar.

– Sim, dir-me-ás tudo isso
mas eu não sei o que quero nem o que faço

para que tudo se represente igual sempre igual a si mesmo.




“Má Leitura” como processo (in)voluntário de colagem.


Pretende-se realçar que cada leitor(a) encerra em si mesmo(a) um conjunto quase infinito de potenciais atualizações de um arquivo individual em devir. Aqui a leitura é construída por meio da convergência de duas componentes do arquivo do/a leitor(a): a biblioteca e a música popular açoriana pós-autonomia.


INSULARIDADES

“Mãe-Ilha”, de Natália Correia
“Ilhas de Bruma”, de Manuel Medeiros Ferreira

à luz gelada do amanhecer
da ilha que me deram e eu não quis

toma a direção da praia
a tosca ilhoa
seu gesto, cãibra de garça interrompida

só o vento ecoa mundos na lonjura

sim, muitos deixam as ilhas
de bruma
onde as gaivotas vão beijar a terra

e buscam continuamente
forma onde repousar

parti p’rás índias do meu estranho caso
mas trago o mar imenso no meu peito

nas veias corre-me basalto negro
ao pasto e à onda me unirei sincera
para que tudo se represente igual
sempre igual a si mesmo

Eduarda Maria da Silva Ribeiro Mota, Más Leituras - Projeto Final do Seminário de Materialidades da Literatura II, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, julho de 2011.


praia do Porto Formoso, ilha de São Miguel, Açores, 2009. José Carreiro.



MÃE ILHA

I

Limão aceso na meia-noite ilhada,
O relógio na torre da Matriz
Põe o ponteiro na hora atraiçoada
Da ilha que me deram e eu não quis.

Mas, ó de alvos umbrais Ponta Delgada!
Meu prefixo de pastos, a raiz
É de calhau e de onda encabritada:
Um triz de hortênsia e estala-me o verniz.

Atamancada em fama a tosca ilhoa,
Só na praça e no prelo é de Lisboa,
Seu gesto, cãibra de garça interrompida.

No mais, o osso campesino e duro
É fervor, é fogo e fé que juro
Ao lume e às flores da Graça recebida.

II

No coração da ilha está um vaso
Cheio das pérolas que p’ra mim sonhaste,
Ó mãe completa da manhã ao ocaso,
Pastora dos meus sonhos, minha haste.

Parti p’rás Índias do meu estranho caso
– ó danos que dos versos sois o engaste! –
E com maus fados se entendem ao acaso
Lírios e feras do meu vão contraste.

Ave exausta, o retorno quem me dera,
Vou no canto dos órfãos soletrando
O âmbar da manhã que ali me espera.

Feridas asas, enfim ali fechando
Ao pasto e à onda me unirei sincera,
Ilha no manso azul de mãe esperando.

Natália Correia, Sonetos Românticos, 1990


Fotografia de José Carreiro. Ribeira Grande, 2014-01-04

ILHAS DE BRUMA

Ainda sinto os pés no terreiro
Que os meus avós bailavam o pezinho
É que nas veias corre-me basalto negro
E na lembrança vulcões e terramotos

Se no falar trago a dolência das ondas
O olhar é a doçura das lagoas
É que trago a ternura das hortênsias
E no coração a ardência das caldeiras

Trago o roxo a saudade esta amargura
Só o vento ecoa mundos na lonjura
Mas trago o mar imenso no meu peito
E tanto verde a indicar-me a esperança

É que nas veias corre-me basalto negro
No coração a ardência das caldeiras
O mar imenso me enche a alma
E tenho verde, tanto verde a indicar-me a esperança

Por isso é que eu sou das ilhas de bruma
Onde as gaivotas vão beijar a terra (Refrão)

Letra de Manuel Medeiros Ferreira



sexta-feira, 27 de maio de 2016

Fala! Alexandre O'Neill



Ilustração de Marta Madureira, 2012.


F A L A !

Fala a sério e fala no gozo
fá-la p’la calada e fala claro
fala deveras saboroso
fala barato e fala caro

Fala ao ouvido fala ao coração
falinhas mansas ou palavrão

Fala à miúda mas fá-la bem
Fala ao teu pai mas ouve a tua mãe

Fala franciú fala béu-béu

Fala fininho e fala grosso
desentulha a garganta levanta o pescoço

Fala como se falar fosse andar
fala com elegância muita e devagar.

Alexandre O'Neill, Abandono Vigiado. Lisboa, Guimarães Editores, 1960. Coleção “Poesia e Verdade”.

Audição do poema dito por Luís Gaspar (Estúdio Raposa, 2012-01-08).
Linhas de leitura:
- No poema “Fala!” de Alexandre O’Neill, o sujeito poético dirige, anaforicamente, sucessivos apelos ao destinatário, para que este atue através da palavra e faça da sua capacidade de falar uma ação tão natural como a capacidade de andar (“Fala como se falar fosse andar”).
- Identifica as palavras homófonas da primeira estrofe do poema “Fala!” de Alexandre O’Neill e procede à sua transcrição fonética.
- Repara na variedade de sentidos que envolvem o verbo “falar” nas seguintes expressões idiomáticas:
  • “fala claro”: falar de forma percetível sem deixar dúvidas sobre o que se diz (falar claro);
  • “fala barato e fala caro”: falar muito e despropositadamente (fala-barato) / falar com registo cuidado (falar caro);
  • “Fala ao ouvido fala ao coração”: falar baixinho com alguém para que mais ninguém ouça (falar ao ouvido) / falar tentando despertar sentimentos de boa vontade em alguém (falar ao coração);
  • “Fala fininho e fala grosso”: falar com medo ou muito respeito (falar fininho) / falar de forma agressiva (falar grosso).

(Adaptado de P8 Português – 8.º Ano, Ana Santiago e Sofia Paixão, Texto Editora, 2012)






A década de 60 pode ser considerada o momento mais produtivo da carreira literária do autor português. Neste período foram lançados livros de poesia, antologias de outros poetas e traduções. A partir da publicação de No reino da Dinamarca, a poesia de O’Neill assume um caráter político, recusando a ordem estabelecida por meio da provocação, da sátira, do escárnio, da blasfêmia e do divertimento poético. Suas poéticas são voltadas para a libertação do homem e da palavra.
[…] em Abandono vigiado, de 1960, uma contradição se faz evidenciar já no título, que constitui um paradoxo, e remete a um programa de escrita que é ao mesmo tempo abandonada e vigiada. Trata-se, aqui, da relação de Alexandre O’Neill com a poética surrealista e com uma poesia de outra ordem, voltada para a resistência política […].
[…]as atitudes do sujeito lírico são centradas na provocação e na blasfêmia, opondo-se ao amor e ao lirismo, assim como se nota o humor como meio de denúncia; a escrita é vista como uma forma de resistência. Essa postura poética não se centra apenas em uma perspectiva de crítica individual, mas, sim, na projeção de uma visão satírica de Portugal.

Graciele Batista Gonzaga, O pensar poético: Alexandre O’Neill em diálogo com João Cabral, Belo Horizonte, Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, 2015

quarta-feira, 25 de maio de 2016

O homem-mãe





Linhas de leitura:
- Pronuncia repetidamente em voz alta a frase seguinte: ‑ Ó mãe!
- Lê agora o título do poema de Mário Cesariny de Vasconcelos e explica as associações que se estabelecem entre as duas palavras que o compõem.
Apesar de serem palavras graficamente diferentes, a sua pronúncia aproxima-as.
- Observa o poema e verifica se essas palavras são recuperadas.
                As palavras são recuperadas na sua totalidade, ou aparecem divididas em sílabas e sons.
- Apresenta várias formas de ler este poema.
                A primeira estrofe pode ler-se horizontalmente, da esquerda para a direita. Já a segunda estrofe permite, por vezes, uma leitura horizontal e vertical (de baixo para cima e de cima para baixo).
- Que efeitos são conseguidos com a mudança do uso de letras minúsculas para letras maiúsculas?
                As letras maiúsculas sugerem a leitura do poema em voz mais alta do que no caso das minúsculas.
- Identifica as sensações que tens que associar para entenderes este texto.
                Visuais e auditivas.

Proposta de escrita recreativa, expressiva e lúdica:
Escreve um poema que ative um ou vários sentidos. Pode ser um poema:
- visual: por exemplo, jogos de palavras, experiências em vídeo, poemas tridimensionais;
- auditivo: por exemplo, jogos de sonoridades registadas em suporte áudio;
- comestível: por exemplo, poema feito de biscoitos.
Nota: sugere-se a visualização de exemplos de poesia experimental, particularmente a poesia animada por computador.

(P8 Português – 8.º Ano, Ana Santiago e Sofia Paixão, Texto Editora, 2012)