segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Casa branca, Sophia Andresen

Manuscrito do poema "Casa Branca", de Sophia

 

CASA BRANCA

 

Casa branca em frente ao mar enorme,

Com o teu jardim de areia e flores marinhas

E o teu silêncio intacto em que dorme

O milagre das coisas que eram minhas.

… … … … … … … … … … … … … … …

 

A ti eu voltarei após o incerto

Calor de tantos gestos recebidos

Passados os tumultos e o deserto

Beijados os fantasmas, percorridos

Os murmúrios da terra indefinida.

 

Em ti renascerei num mundo meu

E a redenção virá nas tuas linhas

Onde nenhuma coisa se perdeu

Do milagre das coisas que eram minhas.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

POESIA, 1.ª ed., 1944, Coimbra, Edição da Autora • 2.ª ed., 1959, Lisboa, Edições Ática • 3.ª ed., Poesia I, 1975, Lisboa, Edições Ática • 4.ª ed., revista, 2003, Lisboa, Editorial Caminho • 5.ª ed., revista, 2005, Lisboa, Editorial Caminho • 6.ª ed., 2007, Lisboa, Editorial Caminho • 1.ª edição na Assírio & Alvim (7.ª ed.), Lisboa, 2013, prefácio de Pedro Eiras.

 

Fotografia partilhada por Maria Andresen, no Facebook, em 2019-06-17, com a legenda “Casa branca, agora abandonada”.

*** 


Contributo para uma biografia poética, por Maria Andresen Sousa Tavares (dezembro 2014):

Numa entrevista a Miguel Serras Pereira, Sophia lembra a casa na duna, em frente do mar, na Praia da Granja, onde a família passava férias:

… é a casa que surge no poema «Casa branca em frente ao mar enorme», no conto «A Casa» e em A Menina do Mar. 

Mas sobre essa casa na duna dirá algo de mais central para a definição do que liga esta vida e esta poesia:

Há na casa algo de rude e elementar que nenhuma riqueza mundana pode corromper, e, apesar do seu halo de solidão e do seu isolamento na duna, a casa não é margem mas antes convergência, encontro, centro. 

A «casa branca» é uma referência à casa nas dunas da Praia da Granja, onde a família passava os verões. A história contada em A Menina do Mar centra-se nessa praia e nessa casa. Também o poema «Jardim do Mar» (Dia do Mar, p. 28) é sobre o jardim desta casa; em Histórias da Terra e do Mar, o conto «A Casa do Mar» é uma longa e minuciosa descrição desta casa; a história de «Era uma Vez uma Praia Atlântica», conto publicado em 1998 e depois recolhido em Quatro Contos Dispersos (2007), é, em grande parte, constituído por memórias da infância nesta praia.

 

Ler mais em: “Prefácio” in OBRA POÉTICA (edição de Carlos Mendes de Sousa). Lisboa, Assírio & Alvim, 2015

***


Elabore um comentário do poema “Casa branca” que integre o tratamento dos seguintes tópicos:

- traços definidores do «eu»;

- simbolismo da «casa branca»;

- recursos estilísticos mais importantes;

- integração no universo poético da autora.

 

Explicitação de cenários de resposta:

Traços definidores do «eu»

O sujeito do poema revela-se em íntima relação com a «casa branca», por nela estar guardado «O milagre das coisas que eram minhas», ou seja, imagens, experiências ou sentimentos com que se identifica. O regresso à «casa branca», assim, será para o «eu» um renascimento e uma «redenção», pois dar-se-á o seu reencontro com essa parte essencial da memória, que pode ser associável à infância, ou a um tempo de perfeita comunhão com o mar, na plena harmonia dos elementos.

A estrofe medial refere um tempo subjetivo que parece representar um longo período de vida, um tempo de «tumultos» e de desertos, habitado por «fantasmas», que para o «eu» reveste as características do «incerto», do múltiplo («tantos gestos»), do indefinido, do desencanto e da nostalgia - em suma, um tempo marcado como o polo negativo daquele que a «casa branca» representa.

 

Simbolismo da «casa branca»

A «casa branca» é, quanto ao seu aspeto exterior, situada «em frente ao mar» e representada com um «jardim de areia e flores marinhas», assim evocando a sua pertença a um espaço de transição entre a terra e o mar. O «silêncio intacto» que nela habita conjuga-se com as suas «linhas / Onde nenhuma coisa se perdeu» para marcar uma resistência à passagem do tempo, uma capacidade de conservação de um «milagre» que teve lugar no passado. À sua serenidade e inocência, que são assinaladas pela cor branca, junta-se a eternidade como efeito simbólico. Na última estrofe é, ainda, associado à «casa branca» um poder fundamental em relação ao sujeito do poema, que é o de tornar possível o seu renascimento ou «redenção»: ela é a sede simbólica da sua identidade. Este poder advém-lhe de ser um espaço que contém um tempo e uma memória, a do «milagre das coisas que eram minhas».

 

Recursos estilísticos mais importantes

Destacam-se os seguintes recursos estilísticos:

- metáfora: «O deserto», «Beijados os fantasmas», «renascerei»;

- personificação: «dorme/ O milagre das coisas», «Os murmúrios da terra»;

- apóstrofe: «Casa branca em frente ao mar enorme», «A ti eu voltarei», «Em ti renascerei»;

- metonímia: «tantos gestos recebidos», «os tumultos»;

 

Integração no universo poético da autora

A importância das imagens do mar é uma das características maiores da obra de Sophia de Mello Breyner Andresen, quer essas imagens refiram a orla litoral quer o mar alto ou, ainda, estejam ligadas à navegação. O próprio ambiente deste poema é típico de uma poesia assente na relação íntima com as coisas, quase sempre iluminadas por uma luz clara e nítida. Do mesmo modo, encontra-se aqui o exemplo perfeito de uma temática que privilegia a serenidade e o contacto com as coisas simples, fundadas na experiência dos sentidos, transfiguradas pela memória pessoal e por uma alquimia que revela a essência mítica sob a superfície das sensações.

 

Fonte: Exame Nacional do Ensino Secundário n.º 134. 12.º Ano de Escolaridade - Via de Ensino (4.º Curso). Prova Escrita de Literatura Portuguesa – 2.ª fase. Portugal, GAVE, 2001

 

Poderá também gostar de:

  

 


Casa branca, Sophia Andresen”, José Carreiro. Folha de Poesia, 2022-10-10. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/10/casa-branca-sophia-andresen.html


domingo, 9 de outubro de 2022

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas, Sophia Andresen


 

CIDADE

 

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,

Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,

Saber que existe o mar e as praias nuas,

Montanhas sem nome e planícies mais vastas

Que o mais vasto desejo,

E eu estou em ti fechada e apenas vejo

Os muros e as paredes, e não vejo

Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

 

Saber que tomas em ti a minha vida

E que arrastas pela sombra das paredes

A minha alma que fora prometida

Às ondas brancas e às florestas verdes.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

POESIA, 1.ª ed., 1944, Coimbra, Edição da Autora; 2.ª ed., 1959, Lisboa, Edições Ática; 3.ª ed., Poesia I, 1975, Lisboa, Edições Ática; 4.ª ed., revista, 2003, Lisboa, Editorial Caminho; 5.ª ed., revista, 2005, Lisboa, Editorial Caminho; 6.ª ed., 2007, Lisboa, Editorial Caminho. 1.ª edição na Assírio & Alvim (7.ª ed.), Lisboa, 2013, prefácio de Pedro Eiras.

 

POESIA, 1.ª ed., 1944, Coimbra, Edição da Autora 
https://purl.pt/19841/1/1940/galeria/f12/foto1.html

Dedicatória de Sophia Andresen à mãe. 
POESIA, 1.ª ed., 1944, Coimbra, Edição da Autora.
https://purl.pt/19841/1/1940/galeria/f12/foto2.html


 

Elabore um comentário do poema "Cidade" em que desenvolva os seguintes tópicos:

  • desejo de evasão no texto;
  • caracterização do espaço da cidade;
  • relação que o «eu» estabelece com o «tu» a quem se dirige;
  • integração no universo poético da autora.

 

 

Explicitação de cenários de resposta

Desejo de evasão expresso no texto

O desejo que transparece de forma mais evidente no texto é a aspiração a uma evasão libertadora através dos espaços e dos largos horizontes, esse «vasto desejo» (v. 5) que é citado em comparação com as paisagens abertas, que são ditas ainda mais vastas do que ele. A pulsão pela viagem no espaço exterior joga, de forma contrastada, com a visão que transforma os «muros e as paredes» (v. 7) da cidade nos estreitos limites de uma espécie de prisão.

 

Caracterização do espaço da cidade

A cidade é o «rumor e vaivém sem paz das ruas» (v. 1), o que marca a atividade constante e opressiva que a habita; é a «vida suja, hostil, inutilmente gasta» (v. 2), o que sugere a falta de sentido que parece afetar toda a agitação que a ocupa, e, ao mesmo tempo, aponta para a sujidade que parece ser-lhe própria; os «muros e as paredes» (v. 7) fecham o espaço, cortam a expansão do olhar para a vastidão da natureza e criam um mundo de sombras onde pena a «alma» do sujeito, habitado pela permanente aspiração ao mais puro, natural e primordial («A minha alma que fora prometida / Às ondas brancas e às florestas verdes» - vv. 11-12).

 

Relação que o «eu» estabelece com o «tu» a quem se dirige

O «eu» lírico dirige-se a um «tu» que é a cidade onde vive. De um modo de tratamento aparentemente distanciado, como se lê nos dois primeiros versos, passa-se para um modo de tratamento mais próximo, e até íntimo, que se evidencia na utilização da segunda pessoa do singular («E eu estou em ti fechada» – v. 6). A segunda estrofe contém até um elemento de passividade do «eu», submetido por completo ao «tu» («Saber que tomas em ti a minha vida / E que arrastas pela sombra das paredes / A minha alma» – vv. 9-11) e reduzido à simples imaginação ou à saudade das «ondas brancas» e das «florestas verdes» (v. 12).

 

Integração no universo poético da autora

Tal como se encontra com frequência na poesia de Sophia, há neste texto elementos de uma descritividade muito simples, e que ora figuram a cidade como «muros», «paredes» e «sombra», ora procuram dar o «mar», as «praias», as «montanhas», as «planícies», as «florestas» como traços essenciais de um espaço de liberdade. As imagens ligadas ao mar, ao seu ritmo e esplendor, são as mais frequentes, o que é evidente tanto neste poema como em toda a obra da autora. E há, ainda, a luminosidade e a nitidez como temas centrais, neste poema sublinhados, por contraste, pela imagem da «sombra das paredes» que cerca o «eu».

 

Fonte: Exame Nacional do Ensino Secundário n.º 134. 12.º Ano de Escolaridade - Via de Ensino (4.º Curso). Prova Escrita de Literatura Portuguesa – 2.ª fase. Portugal, GAVE, 2000

 

 

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  • Ocorrência do termo “cidade” na Obra Poética de Sophia de Mello Breyner Andresen - Compilação de textos.

 

 

 


Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas, Sophia Andresen”, José Carreiro. Folha de Poesia, 2022-10-09. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/10/cidade-rumor-e-vaivem-sem-paz-das-ruas.html



sábado, 8 de outubro de 2022

A forma justa, Sophia Andresen


 

A FORMA JUSTA

 

Sei que seria possível construir o mundo justo

As cidades poderiam ser claras e lavadas

Pelo canto dos espaços e das fontes

O céu o mar e a terra estão prontos

A saciar a nossa fome do terrestre

A terra onde estamos – se ninguém atraiçoasse – proporia

Cada dia a cada um a liberdade e o reino

– Na concha na flor no homem e no fruto

Se nada adoecer a própria forma é justa

E no todo se integra como palavra em verso

Sei que seria possível construir a forma justa

De uma cidade humana que fosse

Fiel à perfeição do universo

 

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco

E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

O NOME DAS COISAS, 1.ª ed., 1977, Lisboa, Moraes Editores; 2.ª ed., 1986, Lisboa, Edições Salamandra; 3.ª ed., revista, 2004, Lisboa, Editorial Caminho; 4.ª ed., revista, 2006, Lisboa, Editorial Caminho.

 



 

Apresente, de forma bem estruturada, as suas respostas ao questionário.

1. Transcreva os elementos do texto em que se prefigura o «mundo justo».

2. Explicite os sentidos produzidos pelas formas verbais «seria» (vv. 1 e 11), «poderiam ser» (v. 2) e «proporia» (v. 6).

3. Indique uma interpretação possível para a frase: «se ninguém atraiçoasse» (v. 6).

4. Explique em que se fundamenta a convicção do sujeito poético de que «seria possível construir o mundo justo».

5. Caracterize o papel que o «eu» atribui a si próprio «para a reconstrução do mundo».

 

 

Explicitação de cenários de resposta

1. Os elementos do texto pelos quais se prefigura o «mundo justo» a «construir» são os seguintes:

– «cidades [...] claras e lavadas/ Pelo canto dos espaços e das fontes» (vv. 2-3);

– «O céu o mar e a terra estão prontos/ A saciar a nossa fome do terrestre» (vv. 4-5);

– «A terra onde estamos [...] proporia / Cada dia a cada um a liberdade e o reino» (vv. 6-7);

– «uma cidade humana [...]/ Fiel à perfeição do universo» (vv. 12-13).

– ...

 

2. As formas verbais – «seria», «poderiam ser», «proporia» – encontram-se no condicional e, em correlação com a oração condicional «se ninguém atraiçoasse», bem como com a afirmação reiterada «sei» (vv. 1 e 11), produzem no poema um duplo efeito de sentido: por um lado, exprimem a convicção do «eu» de que o «mundo justo» é uma possibilidade ao alcance do homem; por outro, atribuem a esse «mundo justo» um carácter utópico, talvez inelutável, pois a sua construção depende de uma condição radical («se ninguém atraiçoasse»).

 

3. A frase «se ninguém atraiçoasse» pode ser interpretada dos seguintes modos:

– se ninguém pervertesse a harmonia primordial da natureza;

– se ninguém alienasse a verdadeira natureza;

– se ninguém quebrasse a ligação com a natureza, com a harmonia, evidente na «forma justa»

das coisas e dos seres;

– ...

 

4. A convicção, expressa na anáfora «Sei que seria possível» (vv. 1 e 11), fundamenta-se na perceção lúcida que o «eu» tem da natureza. Assim, o sujeito poético sabe que a natureza está pronta «A saciar a nossa fome do terrestre» e a proporcionar diariamente «a cada um» a liberdade e a plena realização; sabe que a forma primordial das coisas e dos seres é «justa» e harmoniosamente se integra no «todo», desde que a traição ou a doença não afetem essa comunhão e essa «forma justa». Por isso, «o mundo justo» seria possível com o regresso do homem à sua forma primordial de ser da natureza, com a construção de uma «cidade humana» segundo a harmonia que rege a «perfeição do universo».

 

5. O papel do sujeito poético «para a reconstrução do mundo» cumpre-se no seu «ofício de poeta». O «verso» é parte do «universo», é a imagem da ordem primordial (cf. v. 10). Ao construí-lo incessantemente na «página em branco», o «eu» recria a harmonia do universo. Pelo seu «ofício de poeta», o sujeito lírico é, assim, o incessante mediador entre a natureza e o homem, mantendo viva a ideia do regresso deste à pureza das origens, à «perfeição do universo».

Fonte: Exame Nacional do Ensino Secundário n.º 139. 12.º Ano de Escolaridade (Decreto-Lei n.º 286/89, de 29 de agosto). Cursos Gerais e Cursos Tecnológicos. Prova Escrita de Português B. Prova modelo. Portugal, GAVE, 2001

 

"A Forma Justa", de Sophia Andresen, por Pedro Lamares. RTP2, 2018-03-21


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A forma justa, Sophia Andresen”, José Carreiro. Folha de Poesia, 2022-10-08. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/10/a-forma-justa-sophia-andresen.html


sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal, Sophia Andresen

 


 

MEDITAÇÃO DO DUQUE DE GANDIA

SOBRE A MORTE DE ISABEL DE PORTUGAL

 

Nunca mais

A tua face será pura limpa e viva

Nem o teu andar como onda fugitiva

Se poderá nos passos do tempo tecer.

E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

 

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

A luz da tarde mostra-me os destroços

Do teu ser. Em breve a podridão

Beberá os teus olhos e os teus ossos

Tomando a tua mão na sua mão.

 

Nunca mais amarei quem não possa viver

Sempre,

Porque eu amei como se fossem eternos

A glória, a luz e o brilho do teu ser,

Amei-te em verdade e transparência

E nem sequer me resta a tua ausência,

És um rosto de nojo e negação

E eu fecho os olhos para não te ver.

 

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

MAR NOVO, 1.ª ed., 1958, Lisboa, Guimarães Editores; 2.ª ed., 1985, in No Tempo Dividido e Mar Novo, Lisboa, Edições Salamandra, ilustração de Arpad Szenes; 3.ª ed., revista, 2003, Lisboa, Editorial Caminho; 4.ª ed., revista, 2005, Lisboa, Editorial Caminho. 1.ª edição na Assírio & Alvim (5.ª ed.), Lisboa, 2013, prefácio de Fernando J.B. Martinho.

 




Textos de apoio

Este poema lembra um acontecimento histórico: Isabel de Portugal, rainha de Espanha e Imperatriz do Sacro Império Romano-Germânico, casada com o Imperador Carlos V, faleceu em 1 de maio de 1539, ainda nova, deixando o imperador mergulhado em profundo desgosto. Era mulher de extraordinária beleza.

«Com a sua morte está ligado o célebre episódio do marquês de Lombay, futuro duque de Gandía e futuro S. Francisco de Borja, que acompanhou o seu corpo de Toledo a Granada e terá exclamado, ante a horrível decomposição de cadáver desfigurado: 'Nunca mas, nunca mas servir a Senor que se me pueda morir!'. Verdadeira ou lendária, a exclamação continua a dar a medida da beleza da imperatriz e já vem implícita em Sandoval, que escreve antes de Ribadeneyra e de Cienfuegos […].

O pungente poema de Sofia de Mello Breyner Andresen, "Meditação do Duque de Gandía sobre a morte de Isabel de Portugal", em Mar Novo, não assenta em base histórica quanto à relação sentimental que deixa entrever entre Francisco de Borja e a imperatriz.» (Vasco Graça Moura, "Retratos de Isabel- Imagens de uma Imperatriz", Oceanos, n.º 3, março de 1990, p. 36. O ensaio foi recolhido com muito ligeiras alterações e agora com notas de rodapé no volume Retratos de Isabel e outras tentativas, Lisboa, Quetzal, 1994, pp. 147-180).

Retratos de Isabel e outras tentativas


***

«A Lenda, sempre mais indiscreta, mas muitas vezes mais humana do que a História […] encarregou-se de romancear a memória da […] Isabel, outra Imperatriz e filha de D. Manuel, cuja formosura, num só dia, cadavericamente decomposta em ascorosa podridão, transformou um Duque de Gandia em asceta e santo […]» (Carolina Michaelis de Vasconcelos, A Infanta D. Maria de Portugal (1521-1577) e as suas Damas (ed. fac-similada), Lisboa, Biblioteca Nacional, 1994, p. 69).

***

«Ora, a ser assim, o verso-chave "E nunca mais darei ao tempo a minha vida" torna-se uma afirmação da revolta existencial que introduz a visão de um outro tempo do mundo e do ser humano nele, o lado de cá do tempo, o olhar do século XX sobre aquilo que ressoa na deixa que a lenda e a tradição fixaram, nas palavras onde ficou um pouco de experiência humana daquele momento em que a mundividência maneirista apontava já os abismos do barroco. Este outro olhar, ao fazer suas essas palavras, junta-lhes inevitavelmente alguma coisa que nem o pendor sentimental da visão romântica continha nem a visão religiosa esgota, mas que talvez se ligue ao que de mais radical o romantismo essencial legou à modernidade a partir dele gerada: a insubordinada recusa das evidências, dos limites, da pequenez dos pacatos equilíbrios. A voz que recusa a morte na "Meditação" pode muito bem ser, afinal, a mesma que, no poema "Biografia", sem máscara para o seu sujeito, afirma: “Odiei o que era fácil / Procurei-me na luz, no mar, no vento”.

Lida desta maneira, a "Meditação" torna-se uma das mais veementes manifestações daquele alto magistério que Sena leu, logo em 1958, na poesia de Sophia de Mello Breyner: “Entendamos, por sob a música dos seus versos, um apelo generoso, uma comunhão humana, um calor de vida, uma franqueza rude no amor, um clamor irredutível de liberdade - aos quais, como o poeta ensina, devemos erguer-nos sem compromissos nem vacilações." (Jorge de Sena, "Alguns poetas de 1958" in Estudos de Literatura Portuguesa II, Lisboa, Edições 70, 1988).

O "clamor irredutível de liberdade" de um Prometeu humano liberto, mais do que da lei da morte, da passiva aceitação da sua inevitabilidade. Um ser rebelde com causa justa, porque em torno de si o universo aí está, "na luz, no mar, no vento" a falar de um território em que deuses e homens se confundem, onde até "o tempo encontra a própria liberdade". Escravos da finitude e da morte, diz o poema, só o seremos se não fizermos do limite a nossa própria escolha, subvertendo o sentido do tempo no desafio de um nunca-sempre em que a vontade se afirma. A vontade de uma existência em estado puro, ideia ou deus ou tudo, sem princípio nem fim: “Nunca mais amarei quem não possa viver / Sempre.”

Por isso, quando o poema "Nunca mais" fala de "tempo puro", fala inevitavelmente de seres que não se confinam a uma só natureza: “Pois o tempo já não regressa a ti / E assim eu não regresso e não procuro / O deus que sem esperança te pedi.”

Este "deus" poderia não ser - e não era com certeza - o "senhor" que Francisco de Borja, Duque de Gandía, havia de servir ao longo dos anos que lhe coube viver depois daquele dia em que gravou em tempo as palavras que o poema de Sophia tornou nossas também.»

Ler mais em: «Senhores que podem morrer (meditação acerca de um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen)», Fátima Freitas Morna. In: Estudos em Homenagem a Sophia de Mello Breyner Andresen, Conselho Directivo da FLUP, Conselho Científico da FLUP (org.), Porto, Faculdade de Letras, 2005, pp. 9-30.

 




Questionário sobre o poema "Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal", de Sophia de Mello Breyner Andresen. 

1. Explicita o modo como o sujeito poético reafirma a decisão de mudar o curso da sua vida, referindo o recurso expressivo que ele utiliza para vincar bem essa decisão.

2. Identifica os versos nos quais o sujeito poético recorda a beleza de Isabel de Portugal.

2.1 Indica os dois recursos expressivos presentes nesses versos e explica a sua expressividade literária.

3. Atenta na segunda estrofe. Mostra como a morte («a podridão», verso 8) está personificada.

4. O sujeito poético decide servir, isto é, amar, alguém com características invulgares.

4.1 Identifica, justificando, esse alguém.

4.2 Explica o processo usado pelo sujeito poético para intensificar essa decisão.

5. Atenta na quarta estrofe. Justifica a ocorrência de um verso constituído por uma só palavra.

 

Entre Palavras 9 - Português 9.º Ano - Livro prático do professor, António Vilas-Boas e Manuel Vieira. Lisboa: Sebenta, 2013, pp. 101, 111

 

Respostas esperadas

1. O sujeito poético reafirma a decisão de mudar o curso da sua vida através da repetição anafórica “Nunca mais” presente na segunda estrofe, na terceira e na quarta.

2. Os versos nos quais o sujeito poético recorda a beleza de Isabel de Portugal são: “A tua face será pura, limpa e viva / Nem teu andar como onda fugitiva / Se poderá nos passos do tempo tecer.”, (vv. 2 a 4).

2.1 Estes versos apresentam muitos recursos expressivos. Assim, no v. 3 ocorre uma comparação entre o “andar” e uma “onda fugitiva” que sugere a elegância do “andar” e a rapidez com que desapareceu, morreu; no v. 4 ocorre a personificação do “tempo” e a metáfora “tecer”. A metáfora liga-se a “andar”: “tecer” é a metáfora do movimento, daqui em diante impossível de ocorrer no “tempo”.

3. A personificação da morte ocorre quando o poema diz que a morte tomará na sua mão a mão da morta.

4.1 Quem o sujeito poético decide amar é Deus, porque o poema diz que o sujeito poético só poderá amar no futuro alguém que não pode morrer: Deus é imortal.

4.2 O processo usado pelo sujeito poético para intensificar essa decisão é a repetição da ideia de que só amará quem nunca possa morrer (vv. 6, 11, 12 e 19).

5. Trata-se do v. 12 “Sempre”: ao isolar esta palavra / este advérbio num verso, o sujeito poético aponta para a imortalidade, a perenidade de Deus.

 



 

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Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal, Sophia Andresen”, José Carreiro. Folha de Poesia, 2022-10-07. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/10/meditacao-do-duque-de-gandia-sobre.html


quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Data: Tempo de solidão e de incerteza, Sophia Andresen

 


DATA

 

(à maneira d’Eustache Deschamps)

 

Tempo de solidão e de incerteza

Tempo de medo e tempo de traição

Tempo de injustiça e de vileza

Tempo de negação

 

Tempo de covardia e tempo de ira

Tempo de mascarada e de mentira

Tempo que mata quem o denuncia

Tempo de escravidão

 

Tempo dos coniventes sem cadastro

Tempo de silêncio e de mordaça

Tempo onde o sangue não tem rastro

Tempo de ameaça

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

LIVRO SEXTO, 1.ª ed., 1962, Lisboa, Livraria Morais Editora • 2.ª ed., 1964, Lisboa, Livraria Morais Editora • 3.ª ed., 1966, Lisboa, Livraria Morais Editora • 4.ª ed., 1972, Lisboa, Moraes Editores • 5.ª ed., 1976, Lisboa, Moraes Editores • 6.ª ed., 1985, Lisboa, Edições Salamandra • 7.ª ed., revista, 2003, Lisboa, Editorial Caminho • 8.ª ed., revista, 2006, Lisboa, Editorial Caminho. • 1.ª edição na Assírio & Alvim (9.ª ed.), Lisboa, 2014, prefácio de Gustavo Rubim.

 

 


 

Na década das maiores convulsões colonialistas, Sophia publica em Livro Sexto (1962) o mais representativo poema sobre o tempo político, "Data".

A metáfora do tempo é aqui baseada na técnica da substituição e da identidade: "tempo" é sempre uma palavra de código para substituir a proibida palavra "Regime" (subjugador e fascista), código que era reconhecido e utilizado por todos os poetas da época. Esta metáfora - que obedece a um esquema simples de construção: A = B, em que A = tempo e B = Regime - permite outras associações preposicionais, dando preferência a conceitos abstratos, o que só serve para reforçar a subtileza da metáfora: solidão, incerteza, medo, traição, injustiça, vileza, negação, covardia, ira, mascarada, mentira, escravidão, conivência, silêncio, ameaça. O tempo de tudo isto pretende ser aquilo a que Ovídio chamava Tempus edax rerum (Metamorphoses, 15, 234), o tempo devorador de todas as coisas, com a particularidade de o tempo político de Sophia apenas querer devorar as coisas que são coercitivas da liberdade individual dos cidadãos.

 

Carlos Ceia, “As Fracturas do Tempo Délfico na poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen”, Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas n.º 11. Lisboa, Edições Colibri, 1998

 

***

 

Vejamos o caso do poema “Data”. Seu título é, contraditoriamente, “Data” sem data, tempo indeterminado pairante sobre os homens. Sua presença quase fantasmagórica desse modo coloca em cena uma universalização da “Data” que intitula o poema: é uma data qualquer e é toda data que, no mundo contemporâneo, submete os homens aos desígnios da temporalidade assombrosa do “país ocupado”. Não se consegue precisá-la porque o tempo em que ocorre persegue os homens.

Eis um poema com três quartetos que obedecem rigidamente a um esquema de três decassílabos iniciais seguidos de um hexassílabo final. Os versos todos usam a anáfora inicial “Tempo de” ou “Tempo que”. Esse padrão rítmico e de conteúdo estabelece uma circularidade interna aos versos e que atravessa todo o poema. Constrói-se um tempo inescapável que justifica a perseguição assinalada anteriormente: o tempo do agora condiciona os homens aos horrores elencados através dos versos e, mesmo se houver horrores não listados, o poema termina com os potenciais horrores em aberto: “Tempo de ameaça”.

Ao contrário dos versos finais das estrofes anteriores, perfeitos hexassílabos, o último verso se baseia numa construção mais peculiar. Ele só será hexassílabo se separarmos “de” e o “a-” de “ameaça”, o que infringe a escansão mais estabelecida tradicionalmente. Assim, ou o lemos como pentassílabo (afrontando o padrão que o poema todo obedece), ou o lemos como hexassílabo (exigindo uma pausa mais longa e inusual em um momento chave do poema). A retração métrica do verso final ou a pausa entre sílabas fundíveis induzem em todo caso a um estranhamento que não é outra coisa senão, metaforicamente, a própria ameaça que o verso anuncia. Contribui para essa leitura as aliterações da consoante fricativa alveolar [s] em toda a última quadra, gerando ainda mais tensão.

Por fim, “à maneira de Eustache Deschamps”, na epígrafe, deslinda sutilmente no poema sua intencionalidade de teor testemunhal. Deschamps foi um poeta francês da Baixa Idade Média responsável por estabelecer algumas formas tradicionais do cancioneiro medieval. Faz sentido citá-lo em um poema cuja musicalidade tem marcadamente tom medieval, seja pelas repetições, seja pela métrica padronizada. Indo além dessa leitura, é preciso considerar que a produção lírica de Deschamps “testemunhava” os acontecimentos históricos que o escritor vivia (DRUCIAK, 2018). Citá-lo significa, para Andresen, reconhecer sua idêntica posição de testemunha perante os fatos que se desenrolavam, porém, tal qual Deschamps, testemunha ativa e partícipe em seu tempo, já que nossa poeta não se esquiva da política concreta nem de elementos políticos em sua escrita.

 

Samuel Pereira, O testemunho na poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen: aproximações entre ética e estética. Goiânia, UFG-FL, 2022

 

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O “tempo em que os homens renunciam” é marcado pela solidão, pela incerteza, pelo medo, pela opressão, pela violência e por diversos valores que podem ser reunidos em torno da ideia de injustiça. Assim como os chacais do poema anterior, temos a ameaça novamente neste poema, mas de forma clara e direta. A vileza se traduz nesse tempo por meio da traição, da violência, da falsidade, da escravidão. A opressão e o cerceamento do indivíduo aparecem pela imagem da mordaça, que cala a voz que deseja romper esse cenário e irromper esses dias de escuridão.

Os substantivos são listados quase em oposição às palavras que usamos para definir o projeto poético andreseniano. A busca pela verdade, clareza, justiça, inteireza e harmonia das coisas e do mundo aparece no poema pelo contraste apresentado pela voz poética na definição de seu tempo. A verdade arrefece entre a falsidade, as máscaras e a traição. A justiça não encontra pares na escravidão, no medo e na vileza. E a inteireza não se constitui na desarmonia da ameaça, da solidão e da incerteza. Esse tempo cantado pela voz poética é aquele em que o homem tira do homem sua humanidade.

O poema se constitui com frases simples, há apenas três orações em todo o poema: “Tempo que mata quem o denuncia” e “Tempo onde o sangue não tem rasto”. Mas os verbos não são necessários para que compreenda toda a imagem da repressão e ameaça, para que se entenda como o tempo se constitui de modo que a injustiça impera. E, onde há império, não há igualdade nem harmonia. A enumeração de substantivos aparece em gradação e eles são “repartidos por variados campos semânticos cujo denominador comum é a negação, o processo lento de aniquilamento” (SANTOS, H., 1982, p. 174). Assim: «a anáfora, sugestivamente encenada e gradativa, enumera de forma exaustiva uma longa lista de conceitos abstratos e poderosamente negativos para culminar de forma inequívoca na guerra, no aniquilamento e na morte» (MALHEIRO, H., 2008, p. 84).

Nesse sentido, o ritmo de gradação da enumeração pode ser visto do sentido passivo ao ativo, isto é, daquele que recebe a ação e daquele que a pratica. Como dissemos, não há quase verbos de ação no poema, mas as imagens trazidas dependem da ação humana e dessa ideia é possível depreender um aspeto passivo ou ativo. Na primeira estrofe, por exemplo, temos mais substantivos de caráter passivo, como a solidão, incerteza e medo. A partir da segunda estrofe, as imagens oferecem um sentido mais ativo, pois há a “ira”, a “mascarada”, a “mentira”, além do período composto por duas orações. Por fim, na terceira estrofe, chegamos àqueles que se silenciam, que são coniventes, que não deixam rastro. É o tempo da ameaça, isto é, aquele que consegue impor-se pela tensão e pelo medo.

O título “Data” reforça a ideia de que há uma relação com o tempo atual da voz poética, uma vez que o termo se configura como período de tempo definido. Por extensão de sentido, a palavra também se refere a “época”, como a época em que se vive. Esse significado encontra lugar no contexto em que Sophia Andresen publica Livro Sexto, pois a ditadura do Estado Novo estava já no poder há cerca de 35 anos. Essa perspetiva é intensificada pelo tempo verbal das três orações que se encontram no poema – “mata”, “denuncia”, “tem” –, o presente com aspeto durativo, ou seja, indica a continuidade da ação.

O tempo de ameaça citado no verso que finaliza o poema “Data” suscita também a ideia da censura, muito forte no período do Estado Novo. A ação da PIDE, a polícia política do governo salazarista, parece ser tematizada nos textos que trazem a ameaça como imagem do contexto de que fala a voz poética. Além de “Data”, temos no poema “Pranto pelo dia de hoje”, também extraído de Livro Sexto, uma voz poética que fala o pesar de assistir a criação e a luta serem impedidas e cerceadas […].

 

Nathália Macri Nahas, Grades: uma leitura do projeto po-ético de Sophia de Mello Breyner Andresen. São Paulo, USP-FFLCH, 2015

 

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Data: Tempo de solidão e de incerteza, Sophia Andresen”, José Carreiro. Folha de Poesia, 2022-10-06. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/10/data-tempo-de-solidao-e-de-incerteza.html