segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Fúrias, Sophia Andresen

 

FÚRIAS

 

Escorraçadas do pecado e do sagrado

Habitam agora a mais íntima humildade

Do quotidiano. São

Torneira que se estraga atraso de autocarro

Sopa que transborda na panela

Caneta que se perde aspirador que não aspira

Táxi que não há recibo extraviado

Empurrão cotovelada espera

Burocrático desvario

 

Sem clamor sem olhar

Sem cabelos eriçados de serpentes

Com as meticulosas mãos do dia-a-dia

Elas nos desfiam

 

Elas são a peculiar maravilha do mundo moderno

Sem rosto e sem máscara

Sem nome e sem sopro

São as hidras de mil cabeças da eficácia que se avaria

 

Já não perseguem sacrílegos e parricidas

Preferem vítimas inocentes

Que de forma nenhuma as provocaram

Por elas o dia perde seus longos planos lisos

Seu sumo de fruta

Sua fragrância de flor

Seu marinho alvoroço

E o tempo é transformado

Em tarefa e pressa

A contra tempo

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

ILHAS, 1.ª ed., 1989, Lisboa, Texto Editora, ilustração de Xavier Sousa Tavares • 2.ª ed., 1990, Lisboa, Texto Editora • 3.ª ed., 1992, Lisboa, Texto Editora, ilustração de Xavier Sousa Tavares • 4.ª ed., 2001, Lisboa, Texto Editora • 5.ª ed., revista, 2004, Lisboa, Editorial Caminho.

 

Para uma leitura do poema “Fúrias”

Resumo: O título do poema “Fúrias”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, remete no plano pré-textual para as quotidianas cóleras ou irritações que o determinaram (tal como o título “Contrariedades”, de Cesário Verde), e no plano propriamente textual para a metalinguagem do mito. As deusas da mitologia clássica são convocadas e reconfiguradas neste texto de Sophia, no regime da paródia: dessacralizadas, trivializadas, as Fúrias são aqui a imagem da desordem do mundo atual, que nega ou destrói a ordem essencial da natureza. As representações descritivas das Fúrias ao longo do poema convertem um sentido em forma, ao mesmo tempo que operam a passagem do mito à eventualidade histórica, falando-nos dum tempo “a contratempo” que quebrou a ordem natural do mundo.

 

Antes de serem, no título do poema, nome de deusas da mitologia clássica, as “fúrias” são as iras, as cóleras, as quotidianas irritações que pré-textualmente o determinaram. Até certo ponto, esta composição faz lembrar “Contrariedades”, de Cesário Verde, onde também a impaciência e o ressentimento se convertem em ímpeto ou “furor” poético, e se corporizam na escrita. Ambos os poemas textualizam a exasperação num título seguido da sua ilustração discursiva; ambos exprimem uma ligação ao real de ordem sarcástica, condicionada por fatores adversos, por “contrariedades” (Cesário) ou “contratempos” (Sophia), por uma impossibilidade mais ou menos circunstancial de conciliação entre o sujeito e o mundo; ambos falam excessivamente desse real, se bem que de formas diferentes (o de Cesário é realista, o de Sophia não); e ambos têm uma tonalidade catártica, graças a esse modo excessivo.

Mas o título “Fúrias” remete, já no plano propriamente textual, para a metalinguagem do mito. Fúrias são os “génios do mundo infernal nas crenças populares romanas primitivas” (GRIMAL, Pierre. Dicionário da mitologia grega e romana. Lisboa: Difel, [19--]., p. 179), equivalentes às Erínias ou Euménides, descritas como “violentas deusas que pertencem ao grupo das mais antigas forças do panteão grego”, pelas quais “se exprime a conceção fundamental do espírito helénico a respeito de uma certa ordem do mundo, que deve ser protegido das forças anárquicas” (id., p. 147). Com os cabelos eriçados de serpentes, são geralmente três, e não reconhecem qualquer outra autoridade divina, nem mesmo a de Zeus. Da escuridão dos Infernos, onde moram, punem todos os excessos humanos, perseguem os criminosos e enlouquecem as suas vítimas, castigando-as assim da hybris que as faz esquecer a sua condição e desafiar a ordem social.

O poema de Sophia convoca e reconfigura o mito, no regime da paródia, ou seja, da inflexão que simultaneamente o decalca e deforma: “Sem cabelos eriçados de serpentes”, “Sem rosto e sem máscara”, “Já não perseguem sacrílegos e parricidas/ Preferem vítimas inocentes/ Que de forma nenhuma as provocaram”. Dessacralizadas, trivializadas, em vez de protetoras da ordem social, as Fúrias são aqui a imagem da desordem, ou duma nova ordem do mundo – esse mundo atual, estilhaçado e confuso, “tão bem organizado que se desorganizou”, como Sophia o definiu numa das suas fórmulas próprias. “A eficácia que se avaria”: eis a caracterização poética da contingência, duma contingência que se sobrepõe à ordem essencial da natureza, ocultando-a, negando-a ou destruindo-a (“Por elas o dia perde seus longos planos lisos/ Seu sumo de fruta/ Sua fragrância de flor/Seu marinho alvoroço”).

Num conhecido ensaio intitulado “Le mythe, aujourd’hui”, Roland Barthes escreveu: “Quel est le propre du mythe? C’est de transformer un sens en forme” (BARTHES, Roland. Mythologies. Paris: Seuil, [19--] (1. ed. 1957) p. 204). É justamente o que Sophia faz neste poema, ao lançar mão do mito para representar o real: ao parodiar e atualizar esse mito, dá-lhe novas feições, enumera “formas” concretas das forças infernais que atormentam ou castigam o homem contemporâneo, na sua circunstância temporal e social: “São/ Torneira que se estraga atraso de autocarro/ Sopa que transborda na panela/ Caneta que se perde aspirador que não aspira/ Táxi que não há recibo extraviado/ Empurrão cotovelada espera/ Burocrático desvario”. Todos estes símiles ou exemplos se destinam a presentificar essas forças, numa expressividade paratática que culmina e encontra a sua síntese no verso “Elas são a peculiar maravilha do mundo moderno” – verso onde a antífrase surge como a figura retórica da exasperação dolorida.

Da presentificação do mito em formas hodiernas resulta outro aspeto importante do poema: a passagem do mito à História, da intemporalidade à contingência, do essencial ao acidental. Não esqueçamos que as Erínias pertencem, na mitologia grega, ao grupo das divindades mais antigas, anteriores ao próprio Zeus; a reconversão dessas forças arquetípicas em acidentes dum tempo presente não podia ter maior intencionalidade expressiva, pelo propositado desfasamento que cria. Abundam no texto as referências ao tempo (“a mais íntima humildade/ Do quotidiano”, “as meticulosas mãos do dia-a-dia”, “E o tempo é transformado/ Em tarefa e pressa/ A contratempo”), bem como as marcas duma deíxis temporal (“agora”, “mundo moderno”), reforçadas pela datação do poema (1988).

Assim, as equivalências descritivas das “Fúrias” não convertem apenas um sentido em forma(s): elas operam também a passagem do mito à eventualidade histórica, e falam-nos dum tempo “a contratempo”, que com o seu diferente compasso quebrou a ordem natural do mundo – e, na circunstância, perturbou a harmoniosa serenidade do poema.

 

Clara Rocha, “Para uma leitura do poema ‘Fúrias’, de Sophia de Mello Breyner Andresen”, SCRIPTA, Belo Horizonte, v. 8, n. 15, p. 60-63, 2º sem. 2004

 

 

"AS FÚRIAS ou de como o pai venceu a mãe" - texto a partir de “As Euménides” de ÉSQUILO dramaturgia, encenação e figurinos FERNANDA LAPA
http://www.escolademulheres.com/producoes-2/2017-2/as-furias-ou-de-como-o-pai-venceu-a-mae/

 

O mundo disfórico: a «cidade suja»

Mas a crítica de Sophia ao reino da opressão e da divisão não se reduz ao tempo da opressão da Ditadura, estendendo-se, nos seus últimos livros, ao âmbito civilizacional. Seguindo os passos da crítica romântica ao culto da razão no iluminismo, a civilização ocidental é apresentada como aquela que «traiu a imanência»264, onde o «ser deixou de estar na phisis e passou a estar no logos»265, «o pensamento se desligou da mão»266. Nos versos de Sophia esta traição será aludida através das «Fúrias» e da cidade «Elsinore».

O poema «Fúrias», segundo a própria Sophia, versa «justamente sobre este mundo de destruição do quotidiano, de destruição do tempo da nossa vida»267.

Castigar os crimes suscetíveis de destruir a harmonia e a ordem social é a missão das «Fúrias», as deusas violentas e vingadoras, que nasceram das gotas de sangue de que a mutilação de Úrano impregnou a terra. Ironicamente apresentadas como «a peculiar maravilha do mundo moderno» e completamente dessacralizadas, as «Fúrias» neste poema não só castigam os criminosos, mas estendem a atitude de vingança sobre todos os homens ao serem responsáveis por um progresso alienante e voraz que procede à subversão da «humilde paz quotidiana»269, representando, desta forma, «todas aquelas implacáveis tarefas quotidianas que privam o homem de qualquer tipo de aliança com o mundo»270. Agora elas não procuram os criminosos, mas «Preferem vítimas inocentes / Que de forma nenhuma as provocaram». O seu poder devastador e persistente manifestado, invisivelmente, «Sem rosto e sem máscara / Sem nome e sem sopro», em múltiplas atuações, leva a poetisa a identificá-las com as terríveis «hidras de mil cabeças» com as quais os homens, privados de uma força hercúlea, se debatem sem as poder vencer.

São as «Fúrias», com o seu maléfico domínio, que impossibilitam as sociedades modernas de fruir o que de melhor há no mundo, como o «sumo da fruta», a «fragrância da flor» e o «marinho alvoroço», tal é o ritmo alucinante a que estão votadas, «o tempo é transformado / Em tarefa e pressa / A contratempo». Desta forma, o homem «torna-se vítima de si mesmo»271.

O que há de mais doloroso em poemas como este é a «consciência da falta coletiva e a impossibilidade de quem quer que seja poder deixar de partilhar nessa falta»272. Helena Langrouva chega mesmo a afirmar que a «consciência do “pecado organizado” do homem e da sociedade por ele criada constitui um dos fulcros da obra de Sophia»273. E, na verdade, na obra de Sophia existem referências ao «pecado burguês»274, ao «pecado organizado»275, àqueles «que atormentam o ar com os seus pecados»276, ao não pagar o justo salário que é um «pecado que brada aos céus»277 e ao «pecado da revolta»278. A palavra pecado, não sendo muito frequente na escrita de Sophia, está sempre associada à sua dimensão social, como transparece no poema «Elsinore»279:

 

No palácio dos Átridas como em Elsinore

Tudo era cavernoso – as paredes

Eram grossas o espaço excessivo e sonoro

Roucas as vozes da maldição antiga

 

Porém em Micenas o sangue era exposto

E corria vermelho como num grande talho

Sujando apenas as mãos dos assassinos

E a água da bandeira –

Lá fora o rio a luz

Continuavam limpos e transparentes

O crime era um corpo estranho circunscrito

Não pertencia à natureza das coisas

 

Em Elsinore ao contrário o mal era um veneno

Subtil

Invadia o ar e a luz – penetrava

Os ouvidos as narinas o próprio pensamento –

O amor era impossível e ninguém podia

Libertar-se:

O inferno vomitava sua pestilência invadia

As veias e os rios:

No entanto o mal não se via era apenas

Um leve sabor a podre que fazia parte

Da natureza das coisas280.

 

A oposição mar/cidade, já desenvolvida anteriormente, neste poema surge na contraposição entre a unidade e a perfeição do mundo grego (Átridas) e o caos do mundo contemporâneo (Elsinore). No mundo grego, ordenado e harmonioso, o miasma estava circunscrito aos lugares do crime e aos criminosos, tal como convoca na invocação dos Átridas: «O crime era um corpo estranho circunscrito / Não pertencia à natureza das coisas», o mal não vazava para o exterior, contaminando somente quem o praticava: «Sujando apenas as mãos dos assassinos / E a água da banheira - / Lá fora o rio a luz / Continuavam limpos e transparentes». Já em Elsinore, reino da Dinamarca, o mal revestia-se de uma subtil complexidade, «um veneno subtil», e expandia-se pelo mundo inteiro, tornando-se incontrolável, «Invadia o ar e a luz», «As veias e os rios». Os horrores não eram exorcizados e «ninguém podia / Libertar-se», pois, ao contrário de Micenas, o mal «fazia parte / Da natureza das coisas». Neste mundo contemporâneo, todo o corpo social se torna responsável, todos pactuam, todos o alimentam: «o mal não se via era apenas / Um leve sabor a podre que fazia parte / Da natureza das coisas».

Esse mal surge na metáfora englobante do mundo contemporâneo, um mundo cada vez mais experimentado como caos sem horizontes que é ainda evocado nos dois últimos versos de «Não te esqueças nunca», de Ilhas: «Não esqueças nunca Treblinka e Hiroshima / o horror o terror a suprema ignomínia»281. Daí que por mais que o sujeito poético» suba e desça montanhas e colinas, atravesse rios, na procura de um de um «país sem mal»282, tal como o revolucionário do seu tempo, nada tinha «encontrado»283.

 

Emanuel Sousa, Poesia e Transcendência: Uma leitura teológica da obra de Sophia de Mello Breyner Andresen. Universidade Católica Portuguesa - Faculdade de Teologia, 2010 (data de defesa da tese: 2012)

 

_____________

264 Carta de Sophia de Mello Breyner Andresen a Jorge de Sena, 18 de novembro de 1972. In Correspondência: Sophia Mello Breyner e Jorge de Sena, p. 124.

265 Carta de Sophia de Mello Breyner Andresen a Jorge de Sena, 18 de novembro de 1972. In Correspondência: Sophia Mello Breyner e Jorge de Sena, p. 124.

266 ANDRESEN – O Nome das Coisas, p. 43.

267 Entrevista a J. A. Sousa. Jornal de Notícias (28 de março de 1990) 9.

269 MAGALHÃES – Sophia de Mello Breyner, p. 43.

270 CUNHA, António M. dos Santos – Sophia de Mello Breyner Andresen: Mitos gregos e encontro com o real. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2004, p. 120.

271 MAGALHÃES – Sophia de Mello Breyner, p. 43.

272 MAGALHÃES – Sophia de Mello Breyner, p. 43.

273 LANGROUVA – De Homero a Sophia, p. 162.

274 ANDRESEN – Posfácio, p. 74.

275 ANDRESEN – Posfácio, p. 74.

276 ANDRESEN – Geografia, p. 23.

277 ANDRESEN – Contos Exemplares, p. 58.

278 ANDRESEN – Contos Exemplares, p. 65.

279 Elsinore é uma localidade situada na Dinamarca, ligada à peça de Hamlet de William Shakespeare, traduzida por Sophia, publicada pela Editora Lello, em 1987.

280 ANDRESEN – Ilhas, p. 68.

281 ANDRESEN – Ilhas, p. 16.

282 ANDRESEN – Ilhas, p. 56.

 

Poderá também gostar de:

 


Fúrias, Sophia Andresen”, José Carreiro. Folha de Poesia, 2022-10-17. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/10/furias-sophia-andresen.html



domingo, 16 de outubro de 2022

Espera, Sophia Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

ESPERA

 

Deito-me tarde

Espero por uma espécie de silêncio

Que nunca chega cedo

Espero a atenção a concentração da hora tardia

Ardente e nua

É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho

É então que se vê o desenho do vazio

É então que se vê subitamente

A nossa própria mão poisada sobre a mesa

 

É então que se vê o passar do silêncio

 

Navegação antiquíssima e solene

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

GEOGRAFIA, 1.ª ed., 1967, Lisboa, Edições Ática; 2.ª ed., 1972, Lisboa, Edições Ática; 3.ª ed., 1990, Lisboa, Edições Salamandra, ilustração de Xavier Sousa Tavares; 4.ª ed., revista, 2004, Lisboa, Editorial Caminho. 1.ª edição na Assírio & Alvim (5.ª ed.), Lisboa, 2014, prefácio de Frederico Lourenço.

 

 

Questionário sobre a leitura do poema “Espera”, de Sophia de Mello Breyner Andresen.

1. O poema aponta para um momento especial em que algo também especial acontece.

1.1. Que marca textual se refere à chegada desse momento?

1.2. Que recurso expressivo lhe está associado?

2. Sobre que momentos incide a atitude de espera?

3. Refira-se à simbologia do «espelho» no processo de autoconhecimento.

4. Interprete o verso «É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho».

5. Em Sophia, a luz é, frequentemente, metáfora de «razão» e «conhecimento». Que vocábulos, no poema, reenviam para esta ideia?

6. Interprete os dois últimos versos do poema, tendo em conta os valores conotativos de «navegação».

7. Atribua ao poema um outro título que lhe pareça adequado.

8. Redija uma pequena composição em prosa poética, iniciando-a precisamente com os versos «Deito-me tarde; espero por uma espécie de silêncio que nunca chega cedo...»

 

 

Cenários de resposta:

1.1 e 1.2. O elemento textual é: «é então», que se torna mais evidente através da anáfora.

2. A atitude de «espera» refere-se não só à chegada da noite com a sua quietude e concentração, mas também à «espera» desse momento de lucidez e de autoconhecimento em que o mundo se revela na sua verdade.

3. O olhar-se no espelho e ser capaz de se reconhecer é uma das etapas mais importante do desenvolvimento humano, essencial à construção da consciência de si.

4. A alusão ao «segundo brilho» remete para o conhecimento profundo do que se vê; a imagem refletida e reenviada é a síntese da nossa verdade mais oculta (processo de introspeção).

5. Espelho, brilho, ver: associações metonímicas que veiculam o sema da luz como metáfora de «razão».

6. O conceito de «navegação» associa-se ao de «viagem» e «descoberta» sob «orientação», o que sugere o processo de reflexão e autoconhecimento, isto é, de viagem interior.

(Ser em Português 10 – Língua Portuguesa 10. º ano. Coord. Artur Veríssimo. Porto: Areal Editores, 2003, p. 281)

 

John Hrehov, Insomnia, 2001


Texto de apoio

Ao caos visível e audível captado pela perceção negligente do mundo, Sophia contrapõe a ordem visual e sonora das imagens no poema, cuja emergência descreve variadíssimas vezes ao longo da obra. Significativamente, é sempre do silêncio e do vazio que estas outras imagens irão surgir. Isto porque as imagens não são as coisas na sua perceção negligente, como a sonoridade silabada do poema acentua: elas são a intensidade absoluta das coisas, ou seja, o poético. Vejase o poema «Espera», também de Geografia.

Neste poema, é particularmente importante a referência ao espelho, pois é no espelho (e portanto enquadrado e destacado em imagem) que Sophia vê acenderse o mundo em pura intensidade: um «segundo brilho» nasce no espelho em virtude da atenção, da concentração «ardente e nua». O espelho é, então, imagem naquele mesmo sentido em que também o é «a nossa própria mão poisada sobre a mesa», quando surge destacada do fundo. Naquele mesmo sentido em que, em «Arte Poética I», a ânfora é descrita enquanto imagem:

Semelhante ao corpo de Orpheu dilacerado pelas fúrias este reino está dividido.

Nós procuramos reunilo, procuramos a sua unidade, vamos de coisa em coisa.

    É por isso que eu levo a ânfora de barro pálido e ela é para mim preciosa. Ponhoa sobre o muro em frente do mar. Ela é ali a nova imagem da minha aliança com as coisas.

 

Rosa Maria Martelo, "Imagens e som no mundo de Sophia", Colóquio/Letras, n.º 176, jan. 2011, p. 55-66.


 Poderá também gostar de:

 


Espera, Sophia Andresen”, José Carreiro. Folha de Poesia, 2022-10-16. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/10/espera-sophia-andresen.html


sábado, 15 de outubro de 2022

Chamei por mim quando cantava o mar, Sophia Andresen

Sophia Andresen - © Getty Images



Chamei por mim quando cantava o mar

Chamei por mim quando corriam fontes

Chamei por mim quando os heróis morriam

E cada ser me deu sinal de mim.


Sophia de Mello Breyner Andresen

CORAL, 1.ª ed., 1950, Porto, Livraria Simões Lopes; 2.ª ed., s/d [c. 1979], Lisboa, Portugália Editora; 3.ª ed., s/d [c. 1980], Lisboa, Portugália Editora, ilustrações de José Escada; 4.ª ed., revista, 2003, Lisboa, Editorial Caminho; 5.ª ed., revista, 2005, Lisboa, Editorial Caminho. 1.ª edição na Assírio & Alvim (6.ª ed.), Lisboa, 2013, prefácio de Manuel Gusmão.

 



 

Poética musical de Sophia de Mello Breyner Andresen

Em “Chamei por mim”, do livro Coral (1950) a escritora Sophia Mello Breyner Andresen mostra ao leitor a força do poema, e, ao invocar o auxílio ou clamar, faz com que outrem venha ao encontro do sujeito lírico. Chamar faz surgir outras vozes dentro da própria voz do Eu poético. Essas vozes serão denominadas “por mim”, situando que a arte poética ou a canção é um legado do artista ao mundo.

O poema é composto por quatro versos, os três primeiros apresentam o mesmo tema no começo das frases “chamei por mim quando” e realizam variações de ideias no final de cada verso. O último não traz o tema, parece ser um verso diferente, mas possui uma ligação com os três versos anteriores, que pode ser estabelecida através da relação entre o som e o sentido da palavra “mim”. Percebe-se que os três primeiros versos são realizados em um padrão grave; o último, em um padrão agudo. […]

No plano sonoro, Sophia Andresen produz a aliteração da letra “M” no texto, que está presente nas palavras-título “chaMei por MiM”, reaparecendo três vezes ao longo do poema, e em outras palavras, como “Mar” (v. 1), “corriaM” (v. 2), “MorriaM” (v. 3), “Me” (v. 4) e “MiM” (1-4). Verifica-se que a aliteração é repetida mais vezes na palavra “MiM”, no título e em todos os versos, e sugere uma maior atenção do leitor para a própria voz do Sujeito lírico.

A assonância de “A” ocorre na forma nasal (an), como em “quANdo” (vv. 1-3), cANtava (v. 1), corriAM (v. 3) e morriAM (v. 3), e na forma oral (a), como em “chAmei” (v. 1-3), mAr (v. 1), cAdA (v. 4) e sinAl (v. 4). Leva a pensar que o som que se repete parece referir ao verbo transitivo indireto que compõe o título do poema – “chamei” –, dando o significado de dizer em voz alta, invocar ou atrair algo para si.

Convém separar os versos do poema por apresentarem arranjos suficientemente harmônicos, o que permite refletir sobre a organização das sílabas de Andresen, através do processo de harmonização fônica como a reiteração vocálica na disposição de sílabas próximas na unidade dos versos, tornando-se dispensável a restrição deste andamento fônico apenas às vogais fortes, já que a harmonização sonora é localizada respectivamente em sílabas fortes e sílabas fracas:

 

“Chamei por mim quando cantava o mar” (v. 1).

       a                             a          a    a  a       a

 

“Chamei por mim quando corriam fontes” (v. 2).

               i            i                           i

 

“Chamei por mim quando os heróis morriam” (v. 3).

                   o                        o  o        o        o

 

E cada ser me deu sinal de mim” (v. 4).

  e             e      e   e                e

 

A harmonização fónica também ocorre com a reiteração dupla ou múltipla de consoantes no alinhamento de palavras próximas:

 

“Chamei por mim quando cantava o mar” (v. 1).

         m           m  m                                 m

 

“Chamei por mim quando corriam fontes” (v. 2).

                                  k           k

 

“Chamei por mim quando os heróis morriam” (v. 3).

                     r                                  r            r

 

“E cada ser me deu sinal de mim” (v. 4).

         d                d               d

 

Existem efeitos combinatórios de reiteração vocálica e consonântica no poema, o que pode provocar as mais variadas homofonias, podendo-se supor que essa harmonização fônica nasce livremente no coração dos versos, em uma possível aplicação da “teoria ordenada das sílabas”:

 

“Chamei por mim quando cantava o mar” (v. 1).

                                  kã           kã

 

“E cada ser me deu sinal de mim.” (v. 4).

                            de             de

 

Percebe-se que a harmonização fónica pode ser fundamentada no parentesco de um só traço articulatório, com reiterações parciais e os efeitos sonoros peculiares pelo contraste entre os traços não reiterados:

 

“Chamei por mim quando cantava o mar” (v. 1).

         m            m m        n         n            m

 

Chamei por mim quando corriam fontes” (v. 2).

   x    m    p r  m m  k    nd    k  r    m f  nt

 

“Chamei por mim quando os heróis morriam” (v. 3).

   x                r                            s      r   s       r

 

“E cada ser me deu sinal de mim” (v. 4).

          d   s           d      s       d

 

Observa-se um episódio de rima entre a palavra final de um verso e outra no interior do verso seguinte, gerador de mais uma musicalidade no poema, pois quando os sons são repetidos formam um grande recurso musical e rítmico, bem como ocorre na rima soante perfeita em “corriam/ morriam” (vv. 2-3):

“Chamei por mim quando os heróis morriam

E cada ser me deu sinal de mim” (vv. 3-4).

 

No nível semântico, a presença da anáfora (no começo) “chamei por mim quando” (vv. 1-3) é evidenciada ao longo do poema, com palavras e sinais, que indicam ao leitor as causas desse chamamento. O primeiro é “quando cantava o mar”, fazendo uma alusão aos poetas e músicos que se dedicavam à temática poética das viagens marítimas, levando a supor que a canção é uma herança, a qual o eu poético invoca dentro do seu próprio ser. Em “quando corriam fontes” menciona-se a importância do domínio da cultura clássica, procurada em livros, em arquivos pelos estudiosos e, como tal, revelada na perspetiva dos antigos gregos, recomendando-se estar atento à nascente das águas, pois a figura mítica de Apolo e as musas está associada à fonte de Hipocrene, que favorecia a inspiração poética. A última invocação é “chamar por mim/quando os heróis morriam”, remetendo à tradição cultural da arte (canto ou poema) ao narrar a trajetória e as proezas das pessoas de grande coragem, como um semideus, o protagonista principal ou a autor de grandes feitos. Essa tradição narrativa pode ser compreendida como um legado da cultura grega para o povo português. Em “Cada ser me deu sinal de mim” (v. 4), o Sujeito lírico alude a essas vozes poéticas que estão habitando dentro dele como uma memória, uma recordação ou lembrança, manifestando ao mundo exterior, através da transmissão oral ou por escrito, seus pensamentos ou suas inspirações, para ele também ser o portador de uma revelação.

 

Karoline Pereira, Poética musical de Sophia de Mello Breyner Andresen. Porto Alegre, Instituto de Letras – UFRGS, 2021

 

CORAL, 1.ª ed., 1950, Porto, Livraria Simões Lopes 


 

Modernidade e dimensão contemplativa

Nesses versos, o recurso do encadeamento, cuja característica é “repetir de verso a verso fonemas, palavras, frases e até um verso inteiro” (BANDEIRA, 2009, p. 1222), adquire fundamental importância. Assim, os três versos iniciais seguem a mesma estrutura de frase (“Chamei por mim quando”), seguida de ações que tomam como sujeito o mar, as fontes e os heróis, respectivamente. O resultado da repetição dessa estrutura sintática é a criação de um efeito de ampla ressonância, que sugere uma contínua e interminável busca pela própria identidade por parte do eu lírico, diante de um cenário de fragmentação. O desfecho do poema rompe com a estrutura frasal dos três primeiros versos, o que representa uma síntese que aglutina todas as sentenças anteriores, uma vez que o eu lírico afirma que cada um dos seres evocados “me deu sinal de mim”.

Nesse sentido, as diversas evocações dos seres e dos elementos naturais representam, na obra andreseana, “marcos de uma peregrinação interior que é também a demanda de uma identidade por encontrar” (MACEDO, 2013, p. 68). Conforme a dimensão do “cantar” sugerida pelo eu lírico, cada ser evocado engendra a possibilidade de uma tomada de consciência, uma vez que “céu, mar, árvores, rochas, corpos – são restituídos como emblemas de um mundo intemporal de totalidade perdida” (MACEDO, 2013, p. 68), no qual a linguagem poética configura um refúgio em que é possível repensar noções de identidade e as relações de dominação de caráter antropocêntrico.

Murillo Castex, Uma arte do ser: relações entre palavra e natureza na poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen. Curitiba, UTFPR, 2022

 

Sophia Andresen, por por Adriano Miranda



Fenomenologia: abertura para o mundo

De acordo com Buescu (2005, pp. 57, 59), em Sophia, a relação com a fenomenologia está precisamente no sentido “de uma orientação total e fundadora para o que, no mundo, permite ao sujeito compreender-se como dele fazendo parte. Estar atento ao mundo como forma de estar atento a si. Escutar o mundo para poder falar”. Acrescenta que, esse tipo de “escuta” em Sophia não sugere qualquer tipo de transcendentalismo, mas antes uma intimidade com o imanente, numa relação de estreita atenção ao que faz ver e ouvir ao sujeito, pois “só não vê quem está desatento ao real [...]”. É o que se nota no poema sem título, cujo primeiro verso é: “Chamei por mim quando cantava o mar”.

No poema fica em evidência o sentido fenomenológico de sua reflexão poética. O sujeito lírico olha as imagens, escuta as vozes que partem da natureza, a fim de desocultar o emergir do fenómeno que se revela, exigindo o desembaraço do olhar, dos sentidos, de modo a fazer aparecer, interpretar, um (outro) mundo que estava encoberto. O eu lírico, ao colocar-se frente à paisagem, chama por si “quando cantava o mar, quando corriam fontes, quando os heróis morriam”, revelando total abertura ao mundo, e compreendendo-se como dele fazendo parte ao receber o sinal de si. O sujeito busca a reconstituição de si que advém do mundo natural, das coisas, buscando rejuntar o que foi dividido, ou seja, trata-se de um encontro de identificação a partir do outro. O sujeito somente apreende os sinais que recebe porque sua natureza interna manifesta familiaridade com o mar e com as fontes. Procura-se na natureza, encontrando-se a partir das relações com o mundo. No processo de ver e ouvir o entorno, o sujeito coloca-se na escrita, no regime de uma imanência percetiva, dando lugar, posteriormente, à manifestação de uma imagem-paisagem mental.

 

Vanessa Silva, A geopoética de Sophia de Mello Breyner Andresen: paisagem e escrita. PUC-SP, 2019

 


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Chamei por mim quando cantava o mar, Sophia Andresen”, José Carreiro. Folha de Poesia, 2022-10-15. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/10/chamei-por-mim-quando-cantava-o-mar.html