segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

A última nau (Mensagem, Fernando Pessoa)

 


A ÚLTIMA NAU






5


Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,
E erguendo, como um nome, alto o pendão
Do Império,
Foi-se a última nau, ao sol aziago
Erma, e entre choros de ânsia e de pressago
Mistério.




10



Não voltou mais. A que ilha indescoberta
Aportou? Voltará da sorte incerta
Que teve?
Deus guarda o corpo e a forma do futuro,
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro
E breve.



15




Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlântica se exalta
E entorna,
E em mim, num mar que não tem tempo ou ’spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna.


20




Não sei a hora, mas sei que há a hora,
Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora
Mistério.
Surges ao sol em mim, e a névoa finda:
A mesma, e trazes o pendão ainda
Do Império.

 

Fernando Pessoa, Mensagem, 19.ª ed., Lisboa, Ática, 1997

 

GLOSSÁRIO:

aziago (verso 4) – que prenuncia desgraça.

cerração (verso 17) – nevoeiro denso; escuridão.

erma (verso 5) – solitária.

pendão (verso 2) – bandeira longa e triangular.

pressago (verso 5) – que pressagia, prevê ou pressente.

 

 

Apresente, de forma clara e bem estruturada, as suas respostas aos questionários que se seguem.

 

QUESTIONÁRIO I

1. Explicite três dos aspetos que, nos versos de 1 a 12, se referem ao mito sebastianista, fundamentando a sua resposta com elementos do texto.

2. Caracterize, com base na terceira estrofe do poema, o modo como o sujeito poético e o povo português reagem ao desaparecimento da «última nau».

3. Relacione o conteúdo da última estrofe com a pergunta «Voltará da sorte incerta / Que teve?», formulada nos versos 8 e 9.

4. Identifique, no poema, uma característica do discurso épico e uma característica do discurso lírico de Mensagem, citando um exemplo significativo para cada um dos casos.

 

Explicitação de cenários de resposta:

1. Explicita, adequadamente, três dos aspetos que, nos versos de 1 a 12, se referem ao mito sebastianista, fundamentando a resposta com elementos textuais relativos a cada um desses aspetos.

A resposta pode contemplar três dos tópicos que a seguir se enunciam, ou outros considerados relevantes.

Nos versos de 1 a 12, os aspetos que se referem ao mito sebastianista são os seguintes:

– o desaparecimento misterioso da «última nau» e de D. Sebastião – «Levando a bordo El-Rei D. Sebastião» (v. 1); «Foi-se a última nau» (v. 4); «Mistério.» (v. 6); «Não voltou mais.» (v. 7);

– a associação do desaparecimento da «última nau» e de D. Sebastião ao fim do Império português – «Levando a bordo El-Rei D. Sebastião, / E erguendo, como um nome, alto o pendão / Do Império, / Foise a última nau» (vv. 1 a 4); «Não voltou mais.» (v. 7);

– o pressentimento de desgraça associado à partida da nau – «Foi-se a última nau, ao sol aziago / Erma, e entre choros de ânsia e de pressago / Mistério.» (vv. 4 a 6);

– as incertezas quanto ao destino de D. Sebastião – «A que ilha indescoberta / Aportou?» (vv. 7 e 8);

– as expectativas quanto ao regresso de D. Sebastião – «Voltará da sorte incerta / Que teve? / Deus guarda o corpo e a forma do futuro, / Mas Sua luz projeta-o, sonho escuro / E breve.» (vv. 8 a 12).

 

2. Caracteriza, adequadamente, o modo como o sujeito poético e o povo português reagem ao desaparecimento da «última nau», fazendo referências pertinentes à terceira estrofe do poema.

A resposta pode contemplar os tópicos que a seguir se enunciam, ou outros considerados relevantes.

De acordo com o conteúdo da terceira estrofe do poema:

– o povo português, perante o desaparecimento da «última nau», na qual seguia D. Sebastião, reage com desânimo (v. 13);

– o sujeito poético manifesta uma viva crença no regresso de D. Sebastião e no Império que ele simboliza (vv. 14 a 18).

 

3. Relaciona, adequadamente, o conteúdo da última estrofe com a pergunta formulada nos versos 8 e 9, fazendo referências pertinentes ao texto.

A resposta pode contemplar os tópicos que a seguir se enunciam, ou outros considerados relevantes.

Na última estrofe, o sujeito poético responde afirmativamente à pergunta enunciada nos versos 8 e 9, apresentando:

– o regresso de D. Sebastião e do Império que ele simboliza como uma certeza obtida por intuição – «sei que há a hora» (v. 19); «Surges ao sol em mim» (v. 22); «trazes o pendão ainda / Do Império.» (vv. 23 e 24);

– o momento exacto em que esse acontecimento terá lugar como uma incerteza – «Não sei a hora» (v. 19); «Demore-a Deus» (v. 20); «Mistério.» (v. 21).

 

4. Identifica, adequadamente, uma característica do discurso épico e uma característica do discurso lírico de Mensagem, citando um exemplo significativo para cada um dos casos.

A resposta pode contemplar os tópicos que a seguir se enunciam, ou outros considerados relevantes.

Características do discurso épico:

– uso narrativo da 3.ª pessoa – «Foi-se a última nau» (v. 4); «Não voltou mais.» (v. 7);

– importância conferida à História – «Levando a bordo El-Rei D. Sebastião» (v. 1);

– mitificação de um herói – «Deus guarda o corpo e a forma do futuro, / Mas Sua luz projeta-o, sonho escuro / E breve.» (vv. 10 a 12).

Características do discurso lírico:

– expressão da subjetividade, evidente no uso da primeira pessoa – «minha alma» (v. 14); «em mim» (vv. 16 e 22); «Vejo» (v. 17); «Não sei» (v. 19); «sei» (v. 19) – e no uso da interjeição – «Ah» (v. 13);

– aproximação entre o sujeito e o destino nacional, patente na convicção intuitiva de que o mito será concretizado (vv. 16 a 18; vv. 22 a 24).

 

Fonte: Exame Final Nacional do Ensino Secundário n.º 639 (Decreto-Lei n.º 74/2004, de 26 de março). Prova Escrita de Português - 12.º Ano de Escolaridade. Portugal, GAVE-Gabinete de Avaliação Educacional, 2011, 2.ª Fase


QUESTIONÁRIO II

Leia atentamente o poema “A última nau”, de Fernando Pessoa, e as estâncias 8, 9 e 16 do Canto I de Os Lusíadas de Luís de Camões.

 

8

Vós, poderoso Rei, cujo alto Império

O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;

Vê-o também no meio do Hemisfério,

E quando dece o deixa derradeiro;

Vós, que esperamos jugo e vitupério

Do torpe Ismaelita cavaleiro,

Do Turco Oriental e do Gentio

Que inda bebe o licor do santo Rio:

 

9

Inclinai por um pouco a majestade

Que nesse tenro gesto vos contemplo,

Que já se mostra qual na inteira idade,

Quando subindo ireis ao eterno Templo;

Os olhos da real benignidade

Ponde no chão: vereis um novo exemplo

De amor dos pátrios feitos valerosos,

Em versos divulgado numerosos.

 

16

Em vós os olhos tem o Mouro frio,

Em quem vê seu exício afigurado;

Só com vos ver, o bárbaro Gentio

Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;

Tétis todo o cerúleo senhorio

Tem para vós por dote aparelhado,

Que, afeiçoada ao gesto belo e tenro,

Deseja de comprar-vos para genro.

 

Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto I

GLOSSÁRIO:

Estrofe 8: vitupério: humilhação; torpe Ismaelita: mouro vil; Gentio…santo Rio: hindu/s que considerava(m) sagradas as águas do Ganges, o grande rio da Índia.

Estrofe 9: eterno Templo: templo da Fama, convívio eterno com Deus; um novo: sem precedentes; numerosos: harmoniosos.

Estrofe 16: Mouro frio: mouros apavorados; exício: extermínio; por dote aparelhado: preparado como dote de casamento.

 

Responda de forma completa às questões que se seguem.

1. Localize os dois textos na estrutura interna de Os Lusíadas e da Mensagem.

Atente, exclusivamente, no poema “A Última Nau”.

2. Clarifique o sentido dos versos “Foi-se a última nau, ao sol aziago/ Erma, e entre choros de ânsia e de pressago / Mistério.”.

3. Transcreva expressões que ilustram as dimensões histórica e mítica associadas à figura de D. Sebastião.

4. O poeta é um eleito que ergue a sua voz contra a dormência do país. Comente esta afirmação, tendo em conta o sentido das últimas duas estrofes.

5. Demonstre que os mitos da terceira parte da Mensagem surgem implicitamente neste poema.

6. Estabeleça, agora, um paralelo entre os dois textos anteriormente transcritos, destacando uma semelhança e duas diferenças.

7. “Os heróis da Mensagem funcionam, com efeito, como símbolos, elos duma trajetória cujo sentido Pessoa se propõe desvelar até onde o permite o olhar visionário.” (Jacinto do Prado Coelho, D’ Os Lusíadas à Mensagem)

Num texto de 150 a 200 palavras, desenvolva esta ideia, a partir das suas impressões de leitura da Mensagem.

8. Elabore uma nota de apresentação da Mensagem, com um mínimo de 80 e um máximo de 100 palavras, que pudesse figurar na contracapa desta obra de Fernando Pessoa.

Mensagem, o único livro de versos portugueses organizado e publicado por Fernando Pessoa, é, das suas obras, aquela onde a visão ocultista mais perfeitamente se concretiza, sendo também aquela onde o itinerário da sua inteligência poética nos aparece intimamente associado à realidade histórica. Considera o próprio autor que este livro se integra numa linha de criação poética que designa de “nacionalismo místico”. Em carta, de 1935, a Adolfo Casais Monteiro, sobre a génese dos heterónimos, escreve: “Concordo absolutamente consigo em que não foi feliz a estreia, que de mim mesmo fiz, com um livro da natureza da Mensagem. Sou, de facto, um nacionalista místico, um sebastianista racional. Mas sou, à parte isso, e até em contradição com isso, muitas outras coisas. E essas coisas, pela mesma natureza do livro, a Mensagem não as inclui.” Mais à frente, Pessoa diz que concorda com os factos (a publicação), acentuando que o aparecimento do livro coincide “com um dos momentos críticos (no sentido original da palavra) da remodelação do subconsciente nacional.”

O facto de as poesias que constituem o livro possuírem datas que oscilam entre 1913 e 1934 pode ser visto como a afirmação da constância de uma linha de sebastianismo profético declarada já em 1912, em artigos sobre “A Nova Poesia Portuguesa”, publicados na revista Águia.

Constituem as datas dos poemas um elemento de ligação à sociedade e à cultura de uma época, que seria motivo de equívoco se a sua leitura não mostrasse que o nacionalismo da Mensagem é uma proposta de renascer para a diversidade, compatível com um ideal cosmopolita. Para Pessoa, a existência de Portugal como nação anda a par com a sua existência poética e é esta que considera em perigo, estagnada, propondo-se engrandecê-la. A concretização do “propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade” passa pelo fazer outro a história nacional.

Mensagem, enquanto poema épico-lírico, rivaliza com o canto épico da literatura portuguesa – Os Lusíadas de Luís de Camões – e prossegue, noutro sentido, a História do Futuro do Padre António Vieira. (Silvina Rodrigues Lopes, ‘Mensagem’ de Fernando Pessoa. Lisboa: Editorial Comunicação, 1986 – texto com supressões)

 

BRUM, M. Ponta Delgada, Escola Secundária Domingos Rebelo, 23-04-2007

 

 

Texto de apoio

ZODÍACO

É conhecido o interesse de Pessoa pela astrologia. Fez o seu próprio horóscopo e dos seus heterónimos e chegou mesmo a pensar instalar um consultório, onde exerceria a profissão de astrólogo. Não é, pois, de estranhar que alguns críticos associem os doze poemas que integram a Segunda Parte da obra aos doze signos do Zodíaco. Este, como sabe, é ao mesmo tempo o símbolo do ciclo completo que se cumpriu («Cumpriu-se o mar») e um conjunto de símbolos particulares, cujos significados variam segundo as relações que mantêm entre si.

Assim sendo, poderíamos estabelecer a seguinte correspondência: […]

XI - «A última Nau»

Aquário (20 de janeiro -18 de fevereiro) é o signo da passagem aos estados superiores. É verdadeiramente o signo dos valores que enformam o Quinto Império aludido no poema:

- a solidariedade;

- a fraternidade;

- o desapego às coisas materiais.

E se dúvidas houvesse, esta caracterização do mundo aquariano, na palavra abalizada de Chevalier e Gheerbrant (s.d.,77) desfá-las-iam:

[Como signo do ar, relacionado com Saturno] aponta para o mundo das afinidades eletivas que fazem de nós seres vivos uma comunidade espiritual e em plena esfera universal. [...] Também lhe é atribuído como regente Úrano, que mobiliza de novo o ser libertado no fogo [elemento do quinto Império] do poder prometaico, tendo em vista ultrapassar-se a si próprio. [...] Existe também um aquário uraniano, prometaico, que é o indivíduo das vanguardas, do progresso, da emancipação, da aventura.

Como interpretar então a referência ao «Sol» no poema? Paulo Cardoso (cf. apud A. C., 1991, 56) atribui-lhe o símbolo de «uma energia desvirtuada da sua posição central». Com efeito, o Sol é o astro regente de Leão (note-se que Bartolomeu Dias foi bem-sucedido, contrariamente a D. Sebastião), daí o insucesso do empreendimento, bem patente na expressão «sol aziago». 

Artur Veríssimo, Dicionário da Mensagem. Porto, Areal Editores, 2000

 

 

Poderá também gostar de:

Fernando Pessoa - Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária da obra de Fernando Pessoa, por José Carreiro. 




A última nau (Mensagem, Fernando Pessoa)” in Folha de Poesia, José Carreiro. Portugal, 26-12-2022. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/12/a-ultima-nau-mensagem-fernando-pessoa.html



domingo, 25 de dezembro de 2022

Ascensão de Vasco da Gama (Mensagem, Fernando Pessoa)

 Mensagem, de Fernando Pessoa

Segunda Parte - Mar Português

Possessio maris



 

IX

ASCENSÃO DE VASCO DA GAMA

 

Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra
Suspendem de repente o ódio da sua guerra
E pasmam. Pelo vale onde se ascende aos céus
Surge um silêncio, e vai, da névoa ondeando os véus,
Primeiro um movimento e depois um assombro.
Ladeiam-no, ao durar, os medos, ombro a ombro,
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões.

Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta
Cai-lhe, e em êxtase , à luz de mil trovões,
O céu abrir o abismo à alma do Argonauta.

 

10-1-1922

Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934

Disponível em: http://arquivopessoa.net/textos/2402

 

 

I - Leitura orientada do poema “Ascensão de Vasco da Gama”, de Fernando Pessoa:

O poema “Ascensão de Vasco da Gama” tem duas estrofes. A primeira tem sete versos e a segunda tem três. Vasco da Gama é um marco importante nos descobrimentos marítimos portugueses. Com ele, o grande império marítimo toma forma e tudo o que era incerto e duvidoso ganha formas precisas. Faz parte do grande ciclo das conquistas ultramarinas: iniciam-se as guerras que levariam à tomada de posse dos novos territórios descobertos. De salientar que, neste poema, não se fala propriamente da figura histórica, mas sim da sua “ascensão”. Somando todos os versos presentes neste poema, encontramos o número dez (7 + 3 = 10)

Na iconografia cristã existem numerosas representações do homem ascensional; símbolo do levantar voo, da elevação ao céu depois da morte. (…) Todas estas imagens representam uma resposta positiva do homem à sua vocação espiritual e, mais do que um estado de perfeição, é um movimento em direção à santidade. (Chevalier, Jean e Gheerbrant, Alain,ra, Artur, Dicionário de Símbolos, Trad. de Rodriguez, Cristina e Guerra, Lisboa: Editorial Teorema, 1994)

A palavra “ascensão” fala de um Vasco da Gama já não terreno, mas que iniciou o seu percurso em direção à santidade. Em Os Lusíadas, também Camões apresenta os homens a ascenderem ao estatuto de semideuses, confraternizando e contraindo matrimónio com as ninfas, numas bodas onde o terreno se mistura com o celestial.

Todo o início é involuntário e duvidoso e estes conceitos poderão ser aplicados a estes três poemas.

Quando D. Henrique fundou o Condado Portucalense não sonhou sequer que, embrionariamente, estava ali o futuro reino de Portugal. Quando Vasco da Gama iniciou a viagem marítima para a Índia não alcançou as reais consequências futuras dos seus atos, tendo por isso iniciado a sua derradeira viagem rumo ao divino. O poema “O dos Castelos” parece marcar o tempo antes da ação, podendo associar-se ao tempo antes da fundação do reino de Portugal (Conde D. Henrique) e antes da fundação do grande império ultramarino (Vasco da Gama).

A irregularidade estrófica destes poemas reforça esta ideia de caos inicial, de uma desorganização e desorientação que precedem o aparecimento de grandes realizações.

 

Maria Isabel Coelho, Mensagens de Mensagem, de Fernando Pessoa. Universidade Nova de Lisboa – FCSH, 2010

 


II - Questionário sobre o poema “Ascensão de Vasco Da Gama”, de Fernando Pessoa:

O poema que acaba de ler é dedicado a Vasco da Gama.

1. Refira e interprete os elementos textuais que o presentificam no poema.

2. A ascensão do herói aos céus vai sendo gradativamente replasmada na primeira estrofe. Baseando-se nos verbos, advérbios e locuções adverbiais, explicite a verdade desta afirmação.

3. No poema Horizonte lê-se:

Ó mar anterior a nós, teus medos

Tinham coral e praias e arvoredos.

Transcreva um verso que mostre que esta situação do “mar anterior a nós foi ultrapassada.

4. A “chegada” aos céus provoca manifestações/reacções várias. Refira-as.

5. Numa composição que não deve ultrapassar as oito linhas, confronte este momento da Mensagem em que o “céu se abre” com a chegada dos “segundos Argonautas” à Ilha dos Amores no canto IX de Os Lusíadas.

 

Chave de respostas:

1. Os medos “ladeiam-no” (v. 6) a este “Argonauta”(v. 10) que encontrou o seu velo de ouro.

2. Explicitação da afirmação A ascensão do herói aos céus vai sendo gradativamente replasmada na primeira estrofe:

• Do espanto/expectativa dos Deuses — “suspendem” e ‘pasmam” (vv. 2 e 3);

• à progressiva ascensão — “vai ondeando” (v. 4), “primeiro” (v. 5), “depois” (v. 5);

até à assunção plena da chegada aos “céus” — “ao longe” (v. 7), “ruge” (v. 7).

3. Confrontar o v. 6: “Ladeiam-no, ao durar, os medos, ombro a ombro”

4. E ao longe, o rastro ruge em nuvens e clarões.

Em baixo, (...) o pastor (pastor-poeta) gela, (...) em êxtase à luz de mil trovões.

Nota: Nas epifanias de várias religiões, os deuses manifestam-se pela luz e pelo som (ouro, fogo, trovões...).

5. Entre outros aspetos deve considerar n’Os Lusíadas:

• a descrição do espaço e a sua relação com o visualismo/naturalismo da Renascença;

• o prémio dos Argonautas;

• o prémio do Gama como umvelo de ouroem múltiplas dimensões.

No poema Ascensão de Vasco da Gama deve considerar:

• a abstracção própria do simbolismo (“sugerir: eis o sonho”);

• a ligação da aventura da viagem à aventura da escrita.

(in Preparar exames nacionais 12.º Português B, Areal Ed. 2003, p. 7 e p. 25)

 

Vasco da Gama - 5.º Centenário do nascimento (1969)


  

III – Comentário de texto

Proceda a um comentário crítico do poema “Ascensão de Vasco da Gama”, tendo em conta os seguintes tópicos de análise:

- significado da luta «Deuses da tormenta»/ «gigantes da terra»;

- sentido de véus/assombro;

- teofania (versos que a denunciam);

- relação Gama/Argonauta;

- imortalização do herói;

- relação abismo/alma.

(Artur Veríssimo, Ler a Mensagem de Fernando Pessoa – curso n.º 21/2001 do Centro de Formação de Associação de Escolas de S. Miguel e Santa Maria)

Vasco da Gama - selo de Portugal, 1945

 


IV - Textos de apoio

Vasco da Gama (1468?-1524)

Vasco da Gama nasceu em Sines.

Por ser perito em navegação, D. João II encarregou-o de várias missões de responsabilidade. D. Manuel nomeou-o capitão da armada de descobrimento do caminho marítimo para a índia, que partiu do Tejo em 8 de julho de 1497. Enfrentando as primeiras manifestações da hostilidade muçulmana no sultanato de Moçambique, não conseguiu que o rei de Calecute aceitasse as propostas de aliança e trato comercial feitas através da carta de D. Manuel, devido à oposição dos mercadores muçulmanos residentes na Corte do Samorim.

Partindo da ilha de Angediva em 5 de outubro de 1498, após uma toma-viagem acidentada por calmarias e doenças, desembarcou finalmente em Lisboa em fins de agosto de 1499, sendo recebido apoteoticamente pelo rei e pelo povo.

D. Manuel cumulou-o de honras e dádivas, concedendo-lhe o título de Dom e nomeando-o almirante do mar da Índia. Em 1502, [...] 0 almirante foi enviado de novo a Calecute, onde [...] firmou aliança com os reis de Cochim e Cananor e lançou as bases da hegemonia portuguesa no oceano Índico. [...]

Voltou à Índia em 1524 [...] com o cargo de vice-rei. [...]. Adoeceu gravemente em Cochim, onde faleceu a 24 de dezembro desse ano.

 

in Dicionário de História de Portugal. Porto, Figueirinhas, 1979


Vasco da Gama (1469-1524), selo de Portugal,1992

 

IX - «Ascensão de Vasco da Gama»

Sagitário (22 de novembro - 20 de dezembro) é o símbolo da dualidade entre os instintos («gigantes da terra») e as aspirações superiores («deuses da tormenta»). Do ponto de vista cosmogónico, é o regresso do homem a Deus, percetível no título do poema e na manifestação clássica da divindade: «o rastro ruge em nuvens e clarões» e «à luz de mil trovões» (M, 69). E poderíamos ficar por aqui.

Mas não é despiciendo notar a coincidência desta caracterização do sagitariano com o conjunto de valores para que o poema estudo nos reenvia:

[...] na origem do tipo sagitariano, distingue-se um Eu em expansão ou em intensidade, que procura os seus próprios limites e aspira a ultrapassá-los, e isso sob pressão de uma espécie de instinto de força e de grandeza. Daí a aspiração a uma certa elevação ou dimensão que ele procura num arrebatamento, que pode ser um impulso de participação, de assimilação ideal à vida coletiva, ou, pelo contrário, revolta estimulante contra um poder que tem de ser dominado [...] (cf. CHEVALIER/GHEERBRANT, 581).

Note como o texto se aplica, grosso modo, a Vasco da Gama, pelo que esta figura representa de superação dos próprios limites, pelo instinto de força e de grandeza, pela elevação, pelo que nela se lê de aspiração individual e coletiva.

Constitui, por isso, um convite à exploração das profundezas da alma, para a libertar dos medos e soltar-lhe a imaginação e o sonho, já que a alma do herói é pertença do nosso inconsciente coletivo, como a simbologia do abismo, presente no último verso, denuncia.

Dicionário da Mensagem, Artur Veríssimo. Porto, Areal Editores, 2000, p. 150

 


moeda portuguesa de 200$00


Argonauta/Gama (Vasco da)

O termo aparece ligado a Vasco da Gama e significa «navegador arrojado». Porém, temos de, metaforicamente, associá-lo aos tripulantes da nau Argo («os Argonautas»), que, segundo a lenda grega, foram, sob o comando de Jasão, a Cólquida em demanda do velo de ouro, símbolo do poder e da prosperidade. Uma viagem de heróis eleitos, recheada de peripécias, bafejada pelos deuses.

Uma das façanhas mais conhecidas de Jasão é a de ter feito a nau Argo passar incólume entre os dois rochedos flutuantes que, à entrada do mar Negro, chocavam, esmagando entre eles as naus. Note como este verso do poema «Ascensão de Vasco da Gama» poderia servir também para ilustrar aquela proeza do Argonauta grego:

Ladeiam-no, ao durar, os medos, ombro a ombro

(M,69)

A aproximação simbólica da viagem de Vasco da Gama à viagem dos Argonautas da lenda grega surge já n'Os Lusíadas. Os marinheiros portugueses, momentos antes da partida,

Foram de Emanuel remunerados,

[…]

E com palavras altas animados

Pera quantos trabalhos sucedessem.

Assi foram os Mínias ajuntados,

Pera que o Véu dourado combatessem,

Na fatídica Nau, que ousou primeira

Tentar o mar Euxínio, aventureira.

(C. IV, 83)

Tornando à Mensagem, a ideia de Argonauta liga-se à ideia de ascensão, i. e., à superação espiritual das condições materiais da existência. Vasco da Gama é alma, torna-se símbolo e arquétipo e, como tal, ganha direito à existência eterna (v. Ocultismo). A sua alma penetra no abismo dos céus, sob o pasmo e o assombro de todas as forças cósmicas:

Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra

Suspendem de repente o ódio da sua guerra

E pasmam.

(M,69)

É em êxtase que o pastor (imagem repleta de simbolismo religioso) vê superada a sabedoria terrena e os segredos encantatórios da sua flauta diante da teofania (manifestação da divindade) que acompanha a ascensão de Vasco da Gama: «vê, à luz de mil trovões / O céu abrir o abismo à alma do Argonauta) (M,ibid.); o pastor assiste (e nós com ele), dir-se-ia, à integração suprema do herói na união mística.

Bibl.: Jöel Schimdt, «Argonautas», in Dicionário de Mitologia Grega e Romana, Lisboa, Edições 70, 1994, pp.41-42.

 

Dicionário da Mensagem, Artur Veríssimo. Porto, Areal Editores, 2000, pp. 11-12

 

Estátua de Vasco da Gama,
em Inhambane, Moçambique 



Poderá também gostar de:

Fernando Pessoa - Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária da obra de Fernando Pessoa, por José Carreiro.

 


Ascensão de Vasco da Gama (Mensagem, Fernando Pessoa)” in Folha de Poesia, José Carreiro. Portugal, 25-12-2022. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/12/ascensao-de-vasco-da-gama-mensagem.html


sábado, 24 de dezembro de 2022

Os Colombos (Mensagem, Fernando Pessoa)

Mensagem, Fernando Pessoa

Segunda Parte - Mar Português

 



 

 

VI

OS COLOMBOS

 

Outros haverão de ter
O que houvermos de perder.
Outros poderão achar
O que, no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado.

Mas o que a eles não toca
É a Magia que evoca
O Longe e faz dele história.
E por isso a sua glória
É justa auréola dada
Por uma luz emprestada.

2-4-1934

Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).  - 65.

Disponível em: http://arquivopessoa.net/textos/2393

 

 

Cristóvão Colombo

Nascido em Génova, de família modesta, viaja pelo Mediterrâneo como agente comercial. Esteve na Madeira, onde casou com a filha de um dos capitães donatários. Viajou numa caravela portuguesa até à Mina, e ofereceu-se ao rei português D. João II para levar por diante a ideia que formulara de descobrir a rota ocidental para a Índia.

Como o rei português não aceitou, ofereceu-se aos Reis Católicos de Castela, que hesitaram, mas de quem finalmente, em 1492, recebeu plenos poderes para empreender a viagem.

Para a viagem de descobrimento foram postos à disposição de Colombo três pequenos navios, entre os quais se contava a «Nina» (caravela de 17 metros de comprimento).

Colombo pisou o solo da América a 12 de outubro de 1492, sendo recebido com cordialidade e espanto pelos habitantes.

Após longos anos de espera e de privações, ao cabo de uma arriscada viagem rumo ao desconhecido, Colombo viu, com a descoberta da América, o seu projeto ambicioso tornar-se realidade. Ao regressar, a Corte espanhola recebeu-o triunfalmente em Barcelona. Como vice-rei das terras recém-descobertas, foi-lhe concedido sentar-se ao lado dos Reis Católicos.

Após a morte, em 1504, de Isabel, a Católica, sua protetora, Colombo perdeu todos os privilégios inerentes aos cargos de almirante e de vice-rei. Esquecido pelos seus contemporâneos, morreu a 21 de maio de 1506 em Valladolid. Até à sua morte, Colombo sempre acreditou que descobrira a Índia. (O novo continente tomou o nome de outro navegador, o italiano Américo Vespucci, que fez parte de numerosas expedições à América do Sul.)

in Homens que Transformaram o Mundo, coord. Roland Gook; trad. Elsa Teixeira Pinto. - 2.ª ed.- [Lisboa]: Círculo de Leitores, 1978

 

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Sob o signo de Virgem

Virgem (23 de agosto - 24 de setembro) é o símbolo da diferenciação, bem explicito no confronto outros/nós:

Outros haverão de ter / O que houvermos de perder.

(“Os Colombos”, Mensagem)

«Mercúrio é o seu planeta regente: no tempo das colheitas e do enceleiramento, em que o resultado se pesa e se calcula, nós estamos com efeito, num mundo que se diferencia, se particulariza, se seleciona, se restringe, se reduz, se despoja, determina para si certos limites.» (cf. Chevalier/ Gheerbrant, 698). Não é o que se faz em «Os Colombos» quando se distingue, pesados os resultados, o que a «eles» é permitido e o que «nós» nos toca? «Outros poderão achar na seara que nos pertence o que nos foi dado colher ou abdicar «segundo o destino dado». Mas estabelece-se que o limite para a glória dos Colombos é essa «justa auréola dada/Por uma luz emprestada». 

in Dicionário da Mensagem, Artur Veríssimo. Porto, Areal Editores, 2000, p. 149

 

Artur Veríssimo, Ler a Mensagem de Fernando Pessoa – curso n.º 21/2001 do Centro de Formação de Associação de Escolas de S. Miguel e Santa Maria


 

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Fernando Pessoa - Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária da obra de Fernando Pessoa, por José Carreiro.

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Compositor italiano descobre em Pessoa chave para a crise

"São 44 poesias para ser lidas e interiorizadas, porque dentro delas está o código do futuro para Portugal", afirma Mariano Deidda.

É sentado na cadeira preferida por Fernando Pessoa, no café Martinho da Arcada, em Lisboa, que o compositor e cantor italiano, Mariano Deidda, divaga com o Expresso por dez anos de união da sua música à obra literária pessoana. "Mensagem", apresentada no III Congresso Internacional de Fernando Pessoa, que decorreu em Lisboa no final de novembro, é mais um dos seus trabalhos dedicados à metamorfose da literatura do poeta. Entre versos e acordes, Deidda, revela "o código do futuro de Portugal" que, diz, vai ajudar a sair da crise. O seu trabalho é composto de 44 poemas, que afirma essenciais para enfrentar o futuro em Portugal.

O que é que Pessoa nos ensina perante a crise?

São 44 poesias para ser lidas e interiorizadas, porque dentro delas está o código do futuro para Portugal. Só uma pessoa jovem pode descodificá-lo. Acredito que sobretudo uma poesia chamada "Os Colombos" tem a chave para um futuro próximo: "Outros haverão de ter/ O que houvermos de perder./ Outros poderão achar/ O que, no nosso encontrar,/ Foi achado, ou não achado,/ Segundo o destino dado". Estas linhas são o código para o futuro da sociedade. Cada um de nós tem de fazer a sua parte. Nos anos 60 e 70 era o Estado que construía. Hoje, o Estado não existe. Temos de o fazer nós, e precisamos de pessoas inteligentes para isso. A palavra fundamental é a competência. A nossa sociedade é muito sofisticada e o futuro será belíssimo, estou seguro.

Mas para isso é necessário que haja essa mudança de mentalidades...

A tecnologia ajuda muito. Há 50 anos, as pessoas trabalhavam no carvão, hoje temos satélites que trabalham para nós. É perfeito, porque um satélite raramente falha. O homem falha muito mais. Esta mudança só se pode dar com uma geração culturalmente desenvolvida e são poucas as pessoas incultas. Daqui a 20 anos serão menos ainda e quem não usar a cabeça, é excluído do jogo da vida.

Num mundo em que, como diz, são cada vez menos pessoas a trabalhar com as mãos e é privilegiado o trabalho "com a cabeça", qual o papel das artes e do belo?

Com a cabeça ou com a fantasia. É necessário talento e imaginação. Até para organizar um supermercado é preciso ser original. Tal como quando um engenheiro constrói uma metrópole, tanto precisa de inteligência como de imaginação. Porque é necessário que esta seja confortável mas também bela. Eu penso que a crise que atravessamos é, por um lado, económica, mas sobretudo uma crise de ideias. As pessoas têm medo de fazer coisas diferentes e só pensam no que não têm, porque o primeiro pensamento está no materialismo. O belo e a arte tem um papel muito importante. Até uma horta de um agricultor é uma obra de arte. O essencial é fazer, inventar. A mensagem de Einstein presente no meu álbum aborda isso mesmo.

Porque decidiu incluir essa citação no álbum?

Porque a "Mensagem" é isso. No fundo, o significado das 44 poesias, é resumido nessa citação. A mensagem de Einstein diz-nos que a crise acontece quando as pessoas chegam a um nível de vida mais ou menos estável, acreditando que têm tudo o que precisam. Mas a sociedade muda e nós ficamos desorientados.

"Mensagem" é o quinto disco que compõe em torno da poesia de Fernando Pessoa. O que o faz voltar constantemente a este poeta?

A universalidade da sua escrita. Fernando Pessoa foi um futurista e é difícil encontrar uma escrita tão moderna. Há poemas que se projetam muitos anos à frente do tempo em que ele viveu. Acredito que o expoente máximo deste autor não está no nosso tempo, mas está ainda por vir.

A "Mensagem" é para si uma espécie de Bíblia de ensinamentos?

Sim, porque Fernando Pessoa escreveu sobre todas as coisas relacionadas com a vida. Passando pela psicanálise, esoterismo, escreveu também quadras populares para fazer rir. Foi todas as coisas.

E também foi todas as pessoas, desdobrando-se em vários heterónimos...

Pessoa tinha poucos amigos. Inventou-os, porque naquela altura haviam poucos homens culturalmente altos.

Como lhe surgiu a ideia de unir a literatura de Fernando Pessoa à música?

Primeiro é preciso ler. Antes de musicar os poemas de Pessoa, havia já lido a sua obra durante muitos anos. Comprava discos de outros cantores e as palavras ficavam pobres. Faltava conteúdo. Então, pensei em Fernando Pessoa e na sua obra vasta e universal. Comecei há dez anos. É um projeto inovador, porque junta a música à literatura e pouca gente o faz. Existem alguns músicos portugueses a fazê-lo, mas pontualmente. Alguns adulteram as letras para conseguirem a métrica perfeita.

E o mariano não o faz...

Não, toda a poesia inteira, exatamente como escreveu Fernando Pessoa. A tradução é obra de António Tabucchi, que morreu o ano passado. É uma pena não ter aqui uma foto dele [olha para as paredes do Martinho da Arcada], que este é o café de Pessoa, mas também dele.

Foi a partir do escritor que teve acesso à poesia de Fernando Pessoa...

Sim, fui muito amigo de António Tabucchi, no meu concerto do III Congresso Internacional de Fernando Pessoa, no Teatro Aberto, em 3 dias, eu fui o único a lembrar a morte dele. Levantamo-nos todos para o homenagear com muitas palmas, mas eu fui o único a lembrá-lo. Se pessoa cresceu muito no mundo, é também pelo mérito de António Tabucchi.

Sente que o seu trabalho é mais bem recebido em Portugal ou em Itália?

É um paradoxo, mas, penso, que em Portugal. Eu sou estrangeiro, mas trabalho com o poeta mais importante do país. Em Itália nós adoramos Pessoa. E não só em Itália. Eu tenho o pressentimento de que Portugal não tem ideia do valor deste poeta no mundo. Ele inventou algo totalmente novo: os heterónimos. Há muitos, dentro da arca há 70 ou 80, cada um com uma caligrafia diferente.

Tem algum heterónimo de estimação?

O mestre, Alberto Caeiro. Mas também gosto muito de Álvaro de Campos. E claro, o poema que diz: "Não sou nada./ Nunca serei nada./ Não posso querer ser nada./ À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo." Basta colocar esta frase no contexto da crise. Temos tudo em nós. Basta ligar a cabeça, como quem liga um interruptor da luz. Iluminar. Porque o homem é uma máquina perfeita e pensar que entramos em crise porque temos poucos recursos económicos é um erro. O ser humano conquistou imensas coisas e perdê-las leva-o à loucura. Já não conseguimos viver sem o telemóvel. A conquista da tecnologia é esta. Para além disso, entrámos num ciclo vicioso em que os que perdem o trabalho são os mesmos que o tiram aos outros. Por exemplo, quem não tem dinheiro para comprar CD, tira a música da internet sem pagar. Eu, que sou músico, faço isso. O mesmo se passa com a crise do cinema. Ou, por exemplo, quando encomendamos um voo pela internet. Isso gera desemprego, e cada um de nós contribui um pouco para a crise.

Como artista, o que sugere para solucionar esse ciclo vicioso, de forma a que a arte tenha o lucro necessário para funcionar?

São as indústrias culturais que dão o dinheiro para investir em discos como o meu, e a partir daí pode correr bem ou não. Um jovem artista precisa apostar na qualidade e novidade do projeto. Estas são duas componentes essenciais.

Mas quando o Estado não investe na cultura, os artistas não podem evoluir, ou então têm de emigrar...

O Estado não investe na cultura, e por isso é necessário que toda a gente a reivindique. Por exemplo, estou aqui no café e se o empregado me disser que posso escolher entre um café ou um bolo, eu digo: não, quero isto! [aponta para "A Mensagem" em cima da mesa] Isto é cultura. Toda a gente deveria fazer deste modo. Quando o Estado mostra talkshows e telenovelas na televisão, podemos desligar e dizer: não quero ver isto. Eu quero um filme, eu quero um bom espetáculo, uma boa leitura.

A crise, como disse, não é apenas económica, mas quando existe uma crise económica as pessoas tendem a abstrair-se da cultura...

Todas as coisas devem partir de nós. O povo é que faz uma nação. Quantas vezes se faz uma greve para pedir cultura? É raro, e são os estudantes que vemos nas ruas. As outras pessoas não pedem cultura porquê? Querem o Ronaldo? O Ronaldo cria algum avanço na economia, mas a cultura verdadeira é mais necessária.

Para o futuro, que projetos tem em mente?

Estou a pensar fazer um quinto álbum ligado a Pessoa. Estou a  trabalhar nisso. Isto porque, um dia, António Tabucchi pediu-me para não parar com este projeto. E também porque sou o único no mundo a ter um trabalho tão vasto sobre um poeta. Tenho quatro discos em estúdio e um ao vivo, só para Pessoa. É muita literatura.

O meu primeiro disco foi com palavras minhas. Parei aí. Há muitas palavras lindíssimas neste livro ["Mensagem"], não preciso inventar.

 

Ana Marques Francisco, “Compositor italiano descobre em Pessoa chave para a crise” in Expresso, 06-12-2013. Disponível em: https://expresso.pt/cultura/compositor-italiano-descobre-em-pessoa-chave-para-a-crise=f844970

 



“Os Colombos (Mensagem, Fernando Pessoa)” in Folha de Poesia, José Carreiro. Portugal, 24-12-2022. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/12/os-colombos-mensagem-fernando-pessoa.html