sábado, 14 de janeiro de 2023

O fingimento poético como nova expressão de arte - leitura orientada do poema “Isto”, de Fernando Pessoa

 

ISTO

 

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

 

Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).  - 236. 1ª publ. in Presença, n.º 38. Coimbra: abril de 1933. Disponível em: http://arquivopessoa.net/textos/4250

 

Linhas de leitura do poema “Isto”, de Fernando Pessoa

Assunto: teoria da criação poética.

 

Quanto à forma do poema (aspectos fónicos) repare-se no facto de o poeta usar o verso curto (seis sílabas) num poema de fundo pesado, em que se expõe uma teoria da criação poética. Para que o discurso lógico, apesar disso, decorra mais livremente, aparecem os casos de transporte: vv. 1.º e 2.º, 3.º e 4.º, 7.º e 8.º, 8.º e 9.º, 11.º e 12.º.

 

O poema surge na sequência do «Autopsicografia» e parece uma resposta a possíveis más interpretações daquele.

 

1.ª estrofe

Notar o tom depreciativo do início do poema e o tom de convicção total com o uso do advérbio «Não», seguido de ponto final. Assim, o verso «Dizem que finjo ou minto» tem aqui o sentido que lhe atribuem os que dizem que o poeta finge, isto é, «não sincero», «falta à verdade», como se depreende da própria disjuntiva «finjo ou minto». Este sentido é depreciativo e corresponde ao uso popular verificável, por exemplo, na expressão «pessoa fingida», isto é, falha de verdade. Por isso, o poeta se apressa a negar esse sentido ao seu fingimento: «Eu simplesmente sinto com a imaginação, / Não uso o coração».

 

Os versos 3-5 são como que a «tese» deste poema: o fingimento poético é a síntese da sensação com a imaginação, destacando-se esta, porque intelectual.

 

Notar a subjectividade manifestada pelo uso da 1º pessoa verbal, ausente de «Autopsicografia». (Talvez se deva a que aqui Pessoa se apresente como o poeta intelectual por excelência.)

 

2.ª estrofe

Esta parte constitui uma confirmação do conteúdo da 1ª estrofe, baseada na experiência vivida do poeta.

 

A 2.ª estrofe apresenta a fundamentação do uso da imaginação: a realidade onde mergulha o poeta é apenas a aparência ou o terraço (fronteira) que encobre outra coisa: as ideias, a obra poética; volta a acentuar-se o processo do fingimento poético, mas neste texto a sensação e imaginação processam-se num único momento – Enquanto na «Autopsicografia» o poeta distinguia dois momentos (o da sensação e o da imaginação), aqui tudo se processa num só momento: as realidades (belas) subjacentes ao «terraço» (aparências) são vistas por ele, poeta-Pessoa, automática e simultaneamente.

 

É evidente que paira aqui a doutrina platónica da reminiscência: olhar para as aparências (as coisas deste mundo) e ver (pressentir, intuir) imediatamente as realidades puras de um mundo mais alto (profundo).

 

Conceito oculto

Ou mesmo platónico de que

«Essa coisa é que é linda»

(mundo[1] que fascina o poeta)

 

--->

o mundo real[2] («terraço»)

é reflexo de

um mundo ideal
(«sobre outra coisa»)



[1] Mundo das ideias.

[2] Mundo sensível.


Constata-se aqui também a grande emoção (de natureza intelectual) que o poeta punha naquilo que ele considerava o fulcro, o âmago da poesia: «Essa coisa é que é linda».

 

A comparação que engloba os três primeiros versos constitui o cerne do poema, pois é o momento em que o autor define o universo em que se move, para, logo de seguida, ficarmos a saber o que procura:

 

Tudo o que sonho ou passo

O que me falha ou finda (1.º termo)

É como que (partícula comparativa) um terraço (2.º termo)

 

A comparação centrada em «terraço» é admiravelmente expressiva da fronteira, difícil de ultrapassar, entre o mundo sensível e o mundo intelectual. O verdadeiro poeta (neste caso, Pessoa) é o privilegiado que é capaz de ultrapassar essa fronteira, para usufruir da beleza que se encontra para além dela.

 

Os dois primeiros versos da 2.ª estrofe referem-se às contingências da vida do poeta; contingências, porque nenhum dos quatro verbos empregues pelo poeta («sonho», «passo», «falha», «finda»), é propriamente activo, ficando-nos a impressão de que o que sucede ao poeta é marcado pelo destino. Esta ideia é sugerida sobretudo pelo verso «o que me falha ou finda», em que o poeta não figura como sujeito das acções, mas como destinatário marcado pelo destino (o que se vê claramente na forma pronominal «me»). O mesmo sugere a forma verbal «passo», que o poeta poderia substituir por «faço», mas intencionalmente não quis. É que, enquanto «faço» apontaria par algo realizado pelo poeta, a forma «passo» aponta para algo que lhe sucede por fatalidade. Quer isto dizer que o poeta só por contingência se achava entre as coisas contingentes deste mundo (no mundo das aparências), pois o seu lugar, como poeta, situa-se para lá dessas coisas, para lá do «terraço».

 

Recuperação para a poesia de uma palavra tão prosaica como «coisa», utilizada em versos consecutivos, para designar algo que está muito para além do universo sensível a que, normalmente, se refere. Fê-la, assim, expressiva daquilo que é indefinível, que fica para além do «terraço», na região onde se gera a poesia.

 

3ª estrofe

O poeta, a jeito de conclusão («Por isso...»), afirma que escreve «em meio do que não está ao pé». O que está ao pé são as sensações, é o mundo das aparências; o «que não está ao pé» é o mundo da inteligência, o mundo das realidades puras, da imaginação que transforma, que eleva as sensações ao nível da literatura, ao nível da poesia. A arte poética nasce da abstracção do mundo sensível. Só quando o poeta é «livre do seu enleio» (do mundo sensível, do coração) é que pode dar-se o milagre da poesia. Só com os super-poetas, como ele, Fernando Pessoa, é que o milagre se realiza plenamente, porque não usa o coração, porque está «livre do seu enleio» e «sério do que não é» (entenda-se «sério» por liberto, isto é, livre do mundo sensível, das aparências). O verso «Sério do que não é» está aqui para reiterar a ideia do anterior, «livre do meu enleio». O poeta considera «sério» quem, como ele, é capaz de abstrair do acidental (do mundo sensível), para se concentrar no mundo das essências (no mundo intelectual).

 

O poeta fecha o poema com uma interrogação retórica e uma exclamação de sentido irónico-depreciativo: «Sentir?»

 

Note-se como esta interrogação, em conjunto com a exclamação «Sinta quem lê!» é uma resposta irónica ao «Dizem que finjo ou minto» do princípio do poema.

 

Devemos notar a diferença de significado entre o verbo sentir: na 1.ª estrofe («sinto») refere-se à emoção intelectual e não às sensações; na última estrofe («sentir», «sinta») há uma conotação pejorativa que não existe na 1ª estrofe, isto é, refere-se, agora, às sensações, próprias das pessoas que dizem que ele finge ou mente.

 

Bibliografia: Fernando Pessoa e heterónimos – o texto em análise, A. A. Borregana, Cacém, Texto Ed., 1995; Aula Viva Português 12.º Ano, João Guerra e José Vieira, Porto Ed., 1999; Introdução à Leitura de Fernando Pessoa e heterónimos, Avelino Soares Cabral, Sebenta Editora.

 


 

Comentário de texto

Faça um comentário global do poema “Isto”, sem nunca perder de vista a sua contextualização na obra.

Deve, entre outros aspetos pertinentes como os níveis fónico, morfossintático, semântico e estilístico, desenvolver, de forma integrada, os seguintes:

- assunto;

- divisão do poema em partes e assunto de cada parte;

- sentido da primeira estrofe;

- explicação da comparação da segunda estrofe;

- situação a que chega o poeta;

- estrutura formal.

 

Chave de correção:

Assunto

O fingimento e a criação artística; a racionalização dos sentimentos (sentir com a imaginação, não usando o coração).

 

Divisão do poema

- As duas primeiras quintilhas: negação de que finge ou mente; justificação de que o que faz é a racionalização dos sentimentos na busca de algo mais belo mas inacessível;

- A última quintilha: argumentação de que ao escrever se distancia da realidade, intelectualizando os sentimentos e elaborando uma nova realidade - a arte.

 

Sentido da 1.a estrofe

- Reconhecimento de que dizem e negação de que finge ou mente.

- "Sinto com a imaginação/Não uso o coração." - expressão da intelectualização do sentimento.

 

Base estrutural da 2.a estrofe

- Comparação: "Tudo o que sonho ou passo / O que me falha ou finda." (1.° termo da comparação) " (...) um terraço / sobre outra coisa ainda (2.° termo), ou seja, o mundo real ("terraço") é reflexo de ("sobre outra coisa ainda") um mundo ideal ("essa coisa é que é linda" - conceito oculto ou platónico, mundo que fascina o poeta).

 

Situação a que chega o poeta

- "livre do meu enleio" (desligado do tema) - há um ato de fingimento de pura elaboração estética e o leitor que sinta o que ele comunica apesar de não sentir ("Sentir? Sinta quem lê").

 

Estrutura formal

- Três quintilhas hexassilábicas, isomórficas e isométricas, obedecendo ao esquema rimático ababb. 

Disponível em: http://www.esa.esaportugues.com/programa/Pessoa/textosFP.htm (consultado em: 18-01-2003)

 


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Fernando Pessoa - Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária da obra de Fernando Pessoa, por José Carreiro.

 


sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

O poeta é um fingidor (Autopsicografia, de Fernando Pessoa)


 

AUTOPSICOGRAFIA 

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).  - 235.

1.ª publ. in Presença , nº 36. Coimbra: Nov. 1932.

Disponível em: http://multipessoa.net/labirinto/fernando-pessoa/1

 

 

Texto de apoio

Deve dividir-se em três partes o pensamento contido nesta poesia.

Cada uma das suas quadras encerra um conceito. Na primeira, está, todavia, a premissa do pensamento extremamente importante implícito nas três estrofes. Sendo um “fingidor”, o poeta não finge, em verdade, a dor que não sentiu, mas, sim, a dor de que teve experiência direta. E com isto se afasta qualquer possibilidade de interpretação do conceito de “fingimento” inerente à génese poética de Fernando Pessoa numa base de integral simulação de uma dor ou de uma experiência emocional que não teve. O reconhecimento da dor – experiência emocional – como base imprescindível da criação poética está patente, de forma clara, nesta primeira quadra. Mas – e isso se me afigura a essência da estética alquímica de Pessoa – a dor que o poeta realmente sente não é a dor que comparece, ou deve comparecer, na sua poesia. Adverso por natureza a toda a espontaneidade […], Fernando Pessoa […] não podia, de forma alguma, considerar poesia a passagem imediata da experiência à arte, a vivência à sua decantação, do impuro emocional ao puro intelectual. Por isso, sobre a dor experimentada, exigia a criação de uma dor fingida.

Na mesma ordem de ideias um ator que interpreta o papel de Otelo não deve traduzir, na expressão interpretativa da figura que recria, os sentimentos que porventura experimentou fora do palco, suscetíveis de se integrarem na ordem de reações de que a personagem de Shakespeare é vítima, pois representar – a palavra o está a dizer – é tornar objetiva, materializando-a, a paixão que desenha a psicologia da figura que se encarna em cena. Assim, o próprio poeta, desde que se propõe escrever sobre uma dor sentida, deve procurar representar, materializando-a, essa dor, não nas linhas espontâneas em que ela se lhe desenhou na sensibilidade, mas no contorno imaginado que lhe dá, volvendo-se para si mesmo e vendo-se a si mesmo como tendo tido certa dor. É, aliás, o processo preconizado pelo escritor clássico, o qual entende que a arte é a inteligibilização do sensível.

[…] “Finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente” – escreve Fernando Pessoa. E o sentido é claro – fingida a dor em imagens sobre o modelo da dor originária, tão perfeitamente a finge que o fingimento se lhe torna mais real que a dor fingida. De tal sorte que a dor fingida – de fingimento que era se lhe converte em nova dor, dor imaginária cuja potencialidade de comunicação absorve por completo o que de latente existia de dor que nela se metamorfoseou. E, transmutação do plano vivido ao plano imaginado – a objetivação alquímica da escória emocional no ouro puro da representação mental – prepara a fruição impessoal das dores que a poesia proporciona ao leitor.

E, assim, nos encontramos na segunda parte do pensamento contido em “Autopsicografia”. O leitor de um poema não entra em contacto com qualquer das duas dores que porventura o poeta exprima. A dor real, essa ficou na sua carne – na carne do poeta – não chegou à poesia. Quanto à dor representada – é óbvio que o leitor a não absorve já como dor, pois dor ela não é, uma vez que a dor é do mundo dos sentidos e a poesia é da esfera do espírito. A dor que a poesia exprime é exatamente aquela que os leitores não têm – “Mas só a que eles não têm”- pois ninguém tem, em verdade, o que a ninguém pertence, pura representação abstrata de uma dor mentalizada. Finalmente, a última parte do pensamento implícito na poesia em discussão: sendo, como é, poesia, pelo menos na conceção de Fernando Pessoa, representação mental, o coração, “esse comboio de corda” centro dos afetos tão desdenhados pelo poeta, que sempre considerou a sinceridade emocional falha de sinceridade, o coração não passa de um entretenimento da razão, girando, mecânico, pelas “calhas” fixas que é o mundo do convencionalismo emocional onde decorre a existência ordinária. […] 

João Gaspar Simões, “Uma explicação da obra de Fernando Pessoa”, in Heteropsicografia de Fernando Pessoa, Porto, Ed. Inova, 1973

 



Comentário de texto

Faça um comentário global do poema “Autopsicografia”, sem nunca perder de vista a sua contextualização na obra.

Deve, entre outros aspetos pertinentes como os níveis fónico, morfossintático, semântico e estilístico, desenvolver, de forma integrada, os seguintes:

- divisão do poema em partes e assunto de cada parte;

- sentido do fingimento;

- imagens tripartidas (tipos de dor; explicação do título);

- simbologia do número três;

- recursos estético-estilísticos;

- o conceito de poema para Fernando Pessoa ortónimo.

 

Chave de correção:

Divisão do poema em duas partes

- estrofes 1 e 2 - caracterização do poeta como fingidor, que codifica o poema, enquanto o recetor o descodifica à sua maneira;

- estrofe 3 - explicitação da subordinação do sentimento à razão, através de imagens.

 

Sentido do fingimento

- o ato poético apenas pode comunicar uma dor fingida, pois a dor real (sentida) continua no sujeito, que, por palavras e imagens, tenta uma representação;

- fingir é inventar, elaborar mentalmente conceitos que exprimem as emoções ou o que quer comunicar.

 

Imagens tripartidas

- três tipos de dor: a real ("que deveras sente"), a fingida e a "dor lida";

- construção do título: auto/psico/grafia, ou seja, autorretrato, da mente ou da alma ("psiqué"), através da expressão gráfica do poema;

- a dialética das três estrofes: na 1.a, surge a produção poética; na 2. a, dá-se a receção; na 3. a, procura-se a reconstrução pela conciliação da oposição razão/sentimento;

- razão - coração - elaboração estética;

- o real - o mentalizado - a arte. (O poeta parte da realidade, mas distancia-se, graças à interação entre a razão e a sensibilidade, para elaborar mentalmente a obra de arte).

 

Simbologia do número 3

- o 3 é o número da criação: 3 estrofes; 3 tipos de dor; título com 3 conceitos - auto/psico/grafia; 3 termos do fingimento - "fingidor", "finge", "fingir";

3 componentes da criação - razão, sentimento, fingimento (que permite a elaboração estética ao exprimir intelectualmente as emoções);

- o 3 é o símbolo da síntese espiritual, que soluciona o conflito gerado pelo dualismo do mundo da razão e do mundo do sentimento. Cada uma das 3 estrofes possui quatro versos; o 4 é o símbolo da condição humana com os seus limites naturais; mas o 4 é controlado ao encerrar-se nas 3 estrofes. Note-se que na última estrofe há uma certa angústia, com o coração "a entreter a razão" num movimento circular nas "calhas da roda";

- o 3 traduz a ideia da progressão cíclica que surge, evolui e se fecha. É símbolo da circularidade, presente também na imagem da roda (verso 9, múltiplo de 3) que procura disciplinar o coração ("comboio de corda") para que a obra de arte se construa. Como o próprio Pessoa afirma, em Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literária, "a arte é o resultado da colaboração entre o sentir e o pensar".

 

Recursos estético-estilísticos

- metáforas (vv. 1, 3);

- imagem (na combinação das metáforas da última quadra);

- perífrase (1.° verso da segunda estrofe);

- hipérbato (na inversão sintática na última quadra).

 

O conceito de poema para Fernando Pessoa Ortónimo

Para Fernando Pessoa ortónimo, o poema surge como um ato de fingimento, de pura elaboração estética. A criação artística implica a conceção de novas relações significativas, graças à distanciação que faz do real, o que pode ser entendido como ato de fingimento ou de mentira.

Disponível em: http://www.esa.esaportugues.com/programa/Pessoa/textosFP.htm (consultado em 18-01-2003)

 

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Fernando Pessoa - Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária da obra de Fernando Pessoa, por José Carreiro.

 


quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

A criança que fui chora na estrada, Fernando Pessoa

 


 

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

 

22-9-1933

Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).  - 90.

Disponível em: http://arquivopessoa.net/textos/2455

 

I - Linhas de leitura do poema “A criança que fui chora na estrada”, de Fernando Pessoa 

  • Na primeira estrofe, está presente a antítese passado/presente visível nas seguintes marcas textuais:

- “A criança que fui” (passado);

- “hoje […] o que sou é nada” (presente).

 

  • O sujeito poético anseia por regressar à infância para preencher o nada que o habita no presente: “Quero ir buscar quem fui onde ficou.” Subentende-se que a infância é o lugar da totalidade e da unidade, já que se mostra como o momento a que o eu lírico aspira, como fuga ao vazio do presente.

 

  • O eu lírico manifesta a incapacidade de recuperar a infância perdida (“Ah, como hei de encontrá-lo?”), estando plenamente consciente de que o seu percurso de vida foi labiríntico (“Quem errou / A vinda tem a regressão errada.”) e, como tal, no presente torna-se impossível encontrar o rumo certo. Esta desorientação conduz o sujeito lírico a uma espécie de paralisação da alma (“minha alma está parada.”).

 

  • O sujeito lírico aposta na lembrança (“de onde possa enfim […] relembrar”) como forma de recuperar a sua imagem do passado. O poeta precisa de se elevar, de utilizar a lucidez do seu pensamento e da sua visão (“Se ao menos atingir neste lugar / Um alto monte”) para poder apreender os contornos das imagens da sua infância. Esta lembrança é o único meio possível de trazer ao presente algumas realizações positivas do passado (“E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar / Em mim um pouco de quando era assim.”)

 

  • Em termos formais, Pessoa optou, a nível estrófico, pelo modelo do soneto (duas quadras e dois tercetos). Os versos são decassílabos, como se pode ver na escansão: “A criança que fui chora na estra/da”. A nível  rimático, toda a composição apresenta versos com rima cruzada (abab / baba / cdc / dcd).

 

II - Questionário sobre o poema “A criança que fui chora na estrada”, de Fernando Pessoa

1. Comprova que o sujeito poético já chegou à vida adulta.

2. Justifica o desejo expresso no final da primeira estrofe.

3. Explica o que o impede de concretizar esse desejo.

4. Expõe a forma que o sujeito poético encontra para contornar essa contrariedade.

5. Faz a análise formal do poema.

Fonte: recurso complementar do módulo de Português para o 9.º ano, disponível em https://estudoemcasa.dge.mec.pt/2020-2021/9o/portugues/61

 

 

Poderá também gostar de:

 

  • Visualizar a aula da Professora Tereza Cadete Sampainho sobre "Algumas proposições com crianças", de Ruy Belo, e "A criança que fui chora na estrada", de Fernando Pessoa. In: Projeto #EstudoEmCasa, lição n.º 61 de Português – 9.º ano, 2021-06-24






Disponível em https://www.rtp.pt/play/estudoemcasa/p7822/e553331/portugues-9-ano (a parte respeitante ao poema pessoano inicia no minuto 20’ 21’’).

 

  • Fernando Pessoa - Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária da obra de Fernando Pessoa, por José Carreiro.

- In: Lusofonia, https://sites.google.com/site/ciberlusofonia/PT/literatura-portuguesa/fernando_pessoa, 2021 (3.ª edição)

- e Folha de Poesia, 17-05-2018. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2018/05/fernando-pessoa-13061888-30111935.html

 


quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

«Não sei. Falta-me um sentido, um tato», Fernando Pessoa


 






Não sei. Falta-me um sentido, um tato
Para a vida, para o amor, para a glória...
Para que serve qualquer história,
Ou qualquer facto?

5




Estou só, só como ninguém ainda esteve,
Oco dentro de mim, sem depois nem antes.
Parece que passam sem ver-me os instantes,
Mas passam sem que o seu passo seja leve.


10



Começo a ler, mas cansa-me o que inda não li.
Quero pensar, mas dói-me o que irei concluir.
O sonho pesa-me antes de o ter. Sentir
É tudo uma cousa como qualquer cousa que já vi.



15

Não ser nada, ser uma figura de romance,
Sem vida, sem morte material, uma ideia,
Qualquer cousa que nada tornasse útil ou feia,
Uma sombra num chão irreal, um sonho num transe.

 

Fernando Pessoa, Poesia 1902-1917, edição de Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, Lisboa, Assírio & Alvim, 2005, p. 400.

 

I - Questionário sobre o poema “Não sei. Falta-me um sentido, um tato”, de Fernando Pessoa.

1. Refira quatro traços caracterizadores do estado de espírito do sujeito poético nos versos 1 a 12.

2. Interprete o desejo expresso pelo sujeito poético na última estrofe, enquanto conclusão do poema.

3. Complete as afirmações abaixo apresentadas, selecionando a opção adequada a cada espaço.

Na folha de respostas, registe apenas as letras – a), b) e c) – e, para cada uma delas, o número que corresponde à opção selecionada em cada um dos casos.

A expressividade deste poema é construída através de diferentes processos, nomeadamente o uso de recursos expressivos e de vocábulos com determinada carga semântica. Na segunda estrofe, o sujeito poético exprime a sua perceção de que apenas existe o momento presente ao utilizar a expressão _a)_. Ainda assim, através do recurso à _b)_, nos versos 7 e 8, e à metáfora, em _c)_, evidencia ter consciência da passagem do tempo.

a)

b)

c)

1. «como ninguém ainda esteve» (v. 5)

 

1. gradação

 

1. «uma cousa como qualquer cousa que já vi» (v. 12)

2. «sem depois nem antes» (v. 6)

2. personificação

 

2. «Sem vida, sem morte material» (v. 14)

3. «passam sem ver-me os instantes» (v. 7)

3. antítese

3. «Uma sombra num chão irreal» (v. 16)

 

Explicitação de cenários de resposta:

1. Refere, adequadamente, quatro traços caracterizadores do estado de espírito do sujeito poético nos versos 1 a 12:

a dificuldade em explicar o que sente;

a consciência da incapacidade/inaptidão para viver a vida, o amor e a glória;

a dúvida em relação à utilidade de tudo o que acontece;

o egotismo (evidente na perceção de que a solidão que sente é mais intensa do que a de qualquer outro ser humano);

o vazio interior, como se a sua vida se resumisse ao momento presente;

a consciência dolorosa da passagem do tempo;

o tédio/o cansaço perante as coisas mais simples da vida;

a dor provocada pelo pensamento e pelo sonho.

2. Interpreta o desejo expresso pelo sujeito poético na última estrofe, enquanto conclusão do poema, abordando os dois tópicos de resposta adequadamente:

referência ao desejo de não ter existência concreta/de ser algo «irreal» como uma «figura de romance», que vive apenas nas folhas de um livro.

referência ao facto de esse desejo de «não ser nada» nascer da sua incapacidade de viver a vida real.

3. Seleciona as três opções corretas: a) 2; b) 2; c) 3.

Fonte: “Grupo I – Parte B” do Exame Final Nacional de Português n.º 639 - 12.º Ano de Escolaridade (Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de julho). Portugal, IAVE– Instituto de Avaliação Educativa, I.P., 2020, Época Especial


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II – Domínio da escrita

Atente no seguinte texto escrito a propósito do verso pessoano “Não sei. Falta-me um sentido, um tato”.

Este primeiro verso de um poema de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa remete para a inadequação que algumas pessoas sentem constantemente, outras sentem em alguns momentos, e outras não chegam a sentir, e que é uma falta de tato para gerir a própria vida, para aceitá-la, tentando adequá-la aos objetivos e moldá-la como um pedaço do barro de que somos feitos.

As pessoas com este sentimento de desadequação, de falta de sentido para a vida (“oco de mim” diz o poeta) acabam, muitas vezes, por procurar aquele sentido fora delas próprias, em inebriantes e anestesiantes experiências que mais acentuam o vazio que sentem e não conseguem preencher. Tornam-se vidas, momentânea ou definitivamente, erráticas, que se desenrolam num plano paralelo ao da própria existência, assistindo a elas, como espetadores, os seus próprios autores.

Muitas vezes, este sentimento de hipersensibilidade é canalizado para a arte, para a pintura, para o cinema, para a escultura, para a música, para a escrita. E as obras artísticas, ao tentarem dar um sentido ou expressão ao Eu interior, ajudam os outros, os que verdadeiramente são espetadores, a dar sentido à própria vida.

É talvez esse um dos profundos sentidos da arte – para além do sentido primeiro: o de dar beleza à vida –, o de comunicar com outras pessoas, de lhes transmitir uma ideia (mesmo que seja a de vazio, a de inexistência de ideias), de lhes dar pistas, indicar caminhos, sugerir atalhos para compreenderem o mundo e se compreenderem a si mesmas.

E, para nos compreendermos e aceitarmos é, por vezes, necessário fazer o que Fernando Teixeira de Andrade nos sugere: abandonar “as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo” e vestir novas roupagens, que, no início, podem ser incómodas, mas, exatamente por isso, nos podem levar a questionar os nossos hábitos. Ou, como escrevia recentemente, na sua crónica no Jornal de Letras, Valter Hugo Mãe: “Viajo porque me fica a alma a meio (…). Fugir talvez tão completamente que se proporcione a oportunidade de não ser mais eu, mais outro”.

É este sentimento de falta, de que fala Pessoa, que nos leva, por vezes, a fugir, na esperança de nos tornarmos outros. Porque, efetivamente, é muito difícil compreendermo-nos a nós próprios e, mais difícil ainda, aceitarmos como nossas algumas características que não quereríamos ter.

E será que sabemos mesmo quem somos?

Maria Eugénia Leitão, “Não sei. Falta-me um sentido, um tacto” in Nascer do Sol, 2016-08-20. Disponível em: https://sol.sapo.pt/artigo/521101/-nao-sei-falta-me-um-sentido-um-tacto-

Num texto de características genológicas à sua escolha, responda à pergunta formulada no último parágrafo: “E será que sabemos mesmo quem somos?”

 


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Não sei. Falta-me um sentido, um tato, Fernando Pessoa” in Folha de Poesia, José Carreiro. Portugal, 11-01-2023. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2023/01/nao-sei-falta-me-um-sentido-um-tato.html