sábado, 27 de julho de 2024

Pastoral, António Gedeão


 

PASTORAL

Não há, não,
duas folhas iguais em toda a criação.

Ou nervura a menos, ou célula a mais,
não há, de certeza, duas folhas iguais.

Limbo todas têm,
que é próprio das folhas;
pecíolo algumas;
bainha nem todas.
Umas são fendidas,
crenadas, lobadas,
inteiras, partidas,
singelas, dobradas.
Outras acerosas,
redondas, agudas,
macias, viscosas,
fibrosas, carnudas.
Nas formas presentes,
nos atos distantes,
mesmo semelhantes
são sempre diferentes.

Umas vão e caem no charco cinzento,
e lançam apelos nas ondas que fazem;
outras vão e jazem
sem mais movimento.
Mas outras não jazem,
nem caem, nem gritam,
apenas volitam
nas dobras do vento.

É dessas que eu sou.

 

António Gedeão, Teatro do mundo. Coimbra: Oficinas da Atlântida, 1958

 

Sobre o poema

António Gedeão começa por constatar que não há duas folhas iguais em todo o Universo, aludindo desta forma à grande diversidade biológica que também nelas se manifesta. Mesmo naquelas que parecem ser iguais, há com certeza uma diferença: é o que o poeta pretende dizer quando afirma “ou nervura a menos, ou célula a mais, não há, de certeza, duas folhas iguais”.

Depois passa à descrição da morfologia da folha e à sua classificação quanto ao recorte da margem, à forma da folha e à consistência. Na quadra seguinte reafirma que, apesar de as folhas poderem ser classificadas e separadas, mesmo entre aquelas que têm mesma forma − “semelhantes”− há sempre diferenças que as tornam únicas.

António Gedeão revela neste poema um bom conhecimento da morfologia e classificação botânica das folhas, mas comete um lapso comum ao afirmar que todas as folhas têm limbo. Embora seja verdade para a maioria, há algumas exceções, como por exemplo, as folhas da acácia.

Recorda que as folhas podem cair e …”jazem sem movimento”, referindose às folhas caducas, e às outras que “nem jazem, nem caem” as folhas perenes.

Por fim classificase a si próprio como pertencendo ao grupo das folhas que “não jazem, nem caem, nem gritam, apenas volitam nas dobras do vento”, isto é, como uma pessoa resistente e com personalidade.

 

Maria Cristina Gusmão Pinheiro, Ciência em poetas portugueses do século XX:

implicações na comunicação da Ciência. Universidade de Aveiro, 2007

 

Classificação das folhas quanto à constituição


De acordo com a leitura do poema “Pastoral”, de António Gedeão, classifica cada afirmação que se segue como verdadeira ou falsa. Procede à correção das afirmações falsas.

1. O poema “Pastoral” celebra a diversidade e singularidade das folhas.

2. O poema destaca que não há duas folhas iguais em toda a criação e enfatiza a individualidade de cada ser.

3. O poema sugere que todas as folhas possuem limbo sem exceção.

4. No poema sugere-se que todas as folhas têm bainha.

5. As folhas que "jazem sem movimento" no poema referem-se às folhas perenes.

6. A enumeração é uma técnica estilística presente no poema, especialmente na descrição das diferentes formas das folhas.

7. As folhas mencionadas no poema representam apenas características botânicas, sem nenhuma alegoria para a condição humana.

8. As folhas que “não jazem, nem caem, nem gritam” representam a efemeridade da vida.

9. O poema sugere que as folhas que "volitam nas dobras do vento" são um símbolo de resignação e derrota.

10. O sujeito poético descreve folhas que se adaptam e resistem, comparando-as à sua própria personalidade.

 

Respostas:

1. Verdadeiro

2. Verdadeiro

3. Verdadeiro. Embora Gedeão escreva isso no poema, na realidade, há exceções como mencionado na análise de Maria Cristina Gusmão Pinheiro.

4. Falso. Afirma-se que "bainha nem todas," indicando que nem todas as folhas possuem bainha.

5. Falso. No poema, as folhas que "jazem sem movimento" referem-se às folhas caducas, que caem e ficam imóveis.

6. Verdadeiro.

7. Falso. As folhas simbolizam também diferentes formas de existência e individualidade humana.

8. Falso. Essas folhas simbolizam a resistência e a persistência diante das adversidades.

9. Falso. Estas folhas simbolizam resiliência e a capacidade de adaptação, qualidades com as quais o sujeito poético se identifica.

10. Verdadeiro.

 

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