sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Eu chamei-te para ser a torre, Sophia Andresen


 

Eu chamei-te para ser a torre

Que viste um dia branca ao pé do mar.

Chamei-te para me perder nos teus caminhos.

Chamei-te para sonhar o que sonhaste.

Chamei-te para não ser eu:

Pedi-te que apagasses

A torre que eu fui a minha vida os sonhos que sonhei.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

CORAL, 1.ª ed., 1950, Porto, Livraria Simões Lopes; 2.ª ed., s/d [c. 1979], Lisboa, Portugália Editora; 3.ª ed., s/d [c. 1980], Lisboa, Portugália Editora, ilustrações de José Escada; 4.ª ed., revista, 2003, Lisboa, Editorial Caminho; 5.ª ed., revista, 2005, Lisboa, Editorial Caminho. 1.ª edição na Assírio & Alvim (6.ª ed.), Lisboa, 2013, prefácio de Manuel Gusmão.

 

 

No poema «Eu chamei-te para ser», o sujeito poético afirma a razão do seu apelo ao destinatário, com o qual quis iniciar uma caminhada a dois («Chamei-te para sonhar o que sonhaste»), rompendo com a identidade inicial («Chamei-te para não ser eu»).

A metáfora «a torre» («Que viste»; «que eu fui») vista/sonhada pelo destinatário e procurada pelo sujeito poético que quer ajustar-se, coincidir com esse sonho, é a representação da superioridade difícil de alcançar, o sonho, em si mesmo, alto e erguido ao céu.

(E. Pinto et alii, Plural - Língua Portuguesa 10.º Ano. Livro do Professor, 2003, p. 39)

 

***

 

Invocado pelo sujeito poético, esse tu constitui o próprio sujeito, que aqui já busca um processo de identificação com esse outro: “Chamei-te para me perder nos teus caminhos”. É a tentativa de despersonalizar-se que fica impressa no verso “Pedi-te que apagasses / A torre que eu fui a minha vida [...]”, tentando tornar possível a vivência de um presente contínuo, sem fronteiras, livre da prisão temporal do quotidiano, como afirma Pereira Soares (2000), a fim de reformular sua própria existência.

Isso porque há em alguns poemas um abatimento advindo do sentimento de plenitude perdida, em que o sujeito, segundo Pereira Soares (2000), intromete-se conscientemente no processo imanente, afastando-se de si mesmo:

 

Numa disciplina constante procuro a lei da liberdade medindo o equilíbrio dos meus passos.

Mas as coisas têm máscaras e véus com que me enganam, e, quando eu um momento espantada me esqueço, a força perversa das coisas ata-me os braços e atira-me, prisioneira de ninguém mas só de laços, para o vazio horror das voltas do caminho.

(in Coral)

No poema, o sujeito busca, por meio da disciplina, a contenção entrevista na expressão “equilíbrio dos meus passos”, que não é conseguida devido às “máscaras e véus” com que as coisas se revestem. Quando o sujeito consegue apagar a si mesmo, “quando eu um momento espantada me esqueço”, a “força perversa” das coisas o retoma.

Segundo a conceção teórica de Collot (2013a), pode-se afirmar que Sophia enquanto poetisa parece projetar-se para fora de si, na imagem das coisas, as quais, por possuírem máscaras, não podem garantir a contenção que a poeta busca quando efetua tal projeção. Ainda que essa contenção não se dê de todo, tal como no vidente de Rimbaud, é “em seu sobressalto pelas coisas inaudíveis e inomináveis” que a poeta descobre o desconhecido que traz em si, vindo a se tornar “prisioneira de ninguém”, já que não se identifica de todo com essa outra entidade.

Kelly Delgado, Uma leitura aproximativa de João Cabral de Melo Neto com Alberto Caeiro e Sophia de Mello Breyner Andresen. Goiânia-GO, UFG, 2018

 

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Eu chamei-te para ser a torre, Sophia Andresen”, José Carreiro. Folha de Poesia, 2022-10-14. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/10/eu-chamei-te-para-ser-torre-sophia.html


quinta-feira, 13 de outubro de 2022

O Búzio de Cós, Sophia Andresen


 

O BÚZIO DE CÓS

 

Este búzio não o encontrei eu própria numa praia

Mas na mediterrânica noite azul e preta

Comprei-o em Cós numa venda junto ao cais

Rente aos mastros baloiçantes dos navios

E comigo trouxe o ressoar dos temporais

 

Porém nele não oiço

Nem o marulho de Cós nem o de Egina

Mas sim o cântico da longa vasta praia

Atlântica e sagrada

Onde para sempre minha alma foi criada

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, junho de 1995

O BÚZIO DE CÓS E OUTROS POEMAS, 1.ª ed., 1997, Lisboa, Editorial Caminho; 2.ª ed., 1998, Lisboa, Editorial Caminho; 3.ª ed., 1999, Lisboa, Editorial Caminho; 4.ª ed., 2002, Lisboa, Editorial Caminho; 5.ª ed., revista, 2004, Lisboa, Editorial Caminho.

 



 

O búzio comprado no porto grego de Cós é o elemento do real gerador do poema.

1. O que transportou o búzio consigo?

2. Traduza a expressão «longa vasta praia atlântica e sagrada» por apenas uma palavra.

3. Duas diferentes palavras, «marulho», «cântico», são usadas para referenciar o som de dois mares. Interprete esta diferenciação.

 

Respostas esperadas:

1. O búzio comprado no porto grego de Cós transportou consigo o som dos temporais, o som do mar.

2. Portugal

3. A palavra «marulho» referencia o mar da Grécia, enquanto a palavra «cântico» referencia o mar de Portugal. Esta diferenciação confere intensidade épica ao mar português, com o qual o sujeito poético se identifica.

(Pinto: 2003a, 229; b, 39)



 


Textos de apoio

Em O Búzio de Cós (1997), deparamo-nos com uma comovente nostalgia do «ressoar dos temporais», do tumulto e vastidão da praia atlântica, como se afinal Cós, o coração do Mediterrâneo, não pudesse separá-la das suas raízes. O poema é, afinal, sobre o que um búzio de Cós não pode ser.

 

Maria Andresen Sousa Tavares, Prefácio” in Obra Poética, Sophia de Mello Breyner Andresen (edição de Carlos Mendes de Sousa). Lisboa, Assírio & Alvim, 2015

 

 

“Os búzios têm muito bom ouvido, ouvem tudo, são os ouvidos do mar”, diz a pequena bailarina em A menina do mar. Como a menina do mar, personagem das histórias infanto-juvenis de Sophia, o eu lírico aqui também é feminino, “eu própria”, dizem os versos. Ou seja, o búzio não apareceu por obra do acaso num passeio à beira-mar, ele foi parte da transação comercial numa intenção manifesta, oposta no poema ao espontâneo maravilhamento de ser encontrado. Na escuridão da noite do mar Mediterrâneo, numa ilha grega onde há milênios os navios aportam, os mastros baloiçantes lembram a personagem de Homero que pediu para ser amarrado no convés e ouvir cantarem as sereias.

O eu lírico guarda com ele não o mavioso canto, mas o eco das tempestades marítimas que não vem das praias gregas, mas da longínqua praia lusitana que lhe devolve um cântico de outras águas, atlânticas e venerandas e à qual ele adere o próprio ser. Entre os diversos sentidos evidenciados no poema, temos a visão que percebe o cais, os navios e a noite, e o tato que toma o búzio em suas mãos, mas os aspetos mais relevantes comparecem através da audição, que ouve o sibilo dos mastros, o ressoar dos temporais, os marulhos de Cós e de Egina, e finalmente, os cânticos da praia tocada pelo Atlântico. Como o balanço de um navio, a sensação de movimento também é mostrada no agito dos barcos e na oscilação da tempestade, e ainda há um movimento a mais que está implícito nos versos: o da alma do eu lírico, marinheira que navega entre o oceano Atlântico e o Mar Mediterrâneo.

 

Karin Backes, Mar de poeta - A metáfora do oceano nas líricas de Cecília Meireles e Sophia Andresen. Porto Alegre, PUCRS-FL, 2008

 

Poderá também gostar de:

 


O Búzio de Cós, Sophia Andresen”, José Carreiro. Folha de Poesia, 2022-10-13. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/10/o-buzio-de-cos-sophia-andresen.html


quarta-feira, 12 de outubro de 2022

No poema: Transferir o quadro o muro a brisa, Sophia Andresen

 

NO POEMA

 

Transferir o quadro o muro a brisa

A flor o copo o brilho da madeira

E a fria e virgem limpidez da água

Para o mundo do poema limpo e rigoroso

 

Preservar de decadência morte e ruína

O instante real de aparição e de surpresa

Guardar num mundo claro

O gesto claro da mão tocando a mesa

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

LIVRO SEXTO, 1.ª ed., 1962, Lisboa, Livraria Morais Editora; 2.ª ed., 1964, Lisboa, Livraria Morais Editora; 3.ª ed., 1966, Lisboa, Livraria Morais Editora; 4.ª ed., 1972, Lisboa, Livraria Morais Editora; 5.ª ed., 1976, Lisboa, Moraes Editores; 6.ª ed., 1985, Lisboa, Edições Salamandra; 7.ª ed., revista, 2003, Lisboa, Editorial Caminho; 8.ª ed., revista, 2006, Lisboa, Editorial Caminho. 1.ª edição na Assírio & Alvim (9.ª ed.), Lisboa, 2014, prefácio de Gustavo Rubim.

 

 

 

I - Não está em causa «descrever» um mundo que há de ser o mundo do «poema limpo e rigoroso», mas o ato de o nomear.

 

1. De que forma o emprego dos «nomes» e dos «artigos» se ajusta ao que acima se afirma?

 

2. Que relação há entre o mundo nomeado e o poema?

 

(Ser em Português 10 – Língua Portuguesa 10. º ano. Coord. Artur Veríssimo. Porto: Areal Editores, 2003, p. 309)

 

Cenários de resposta:

1. É a sobrecarga de nomes concretos (ligados à ideia de visualidade e de clareza – quadro, muro, brisa, flor, copo...) que, sobretudo, se associa ao ato de nomear. Este aproxima e implica o Eu no mundo nomeado (= criado), aspeto que o emprego do artigo definido reforça.

(Note que nomes abstratos como «limpidez», «instante» «gesto», o não são assim tanto, porque pertencem ao mesmo mundo concreto dos nomes presentes nos dois primeiros versos e são precedidos de artigos definidos que os tornam mais palpáveis.)

 

2. O poema fixa o mundo nomeado num tempo fora do tempo, isto é, não sujeito à sua ação corrosiva, como o verso 5 explicita “Preservar de decadência morte e ruína”.

 

 

II - A poeta não se funde com o quadro, o muro ou a brisa, nem o poema. Ele é a preservação de tudo que existe, é a preservação do instante real, de um gesto claro da mão tocando a mesa. (Vivian Steinberg, “No Poema”: um paradigma da tessitura poética de Sophia de Mello Breyner Andresen, USP-FFLCH, 2006)

 

A partir da leitura da composição de Sophia Andresen “No poema” e de outras leituras sobre a poética da autora, elabore um texto expositivo em que comentes a afirmação acima transcrita.

 

 

Textos de apoio

 

A poesia portuguesa do século XX

[…] deste poema se pode dizer que é uma arte poética, expressa […] por uma série de conselhos ou auto-conselhos para criar poesia. Aliás, é bem de Sofia esta maneira de supor um texto anterior ao poema, no qual se formulam questões como em "Porque", ou se inserem verbos dicendi, como aqui. Três verbos no infinitivo (que também pode ser lido como imperativo), três verbos, dizia eu, que se reduzem a dois, pois preservar e guardar são sinónimos quase perfeitos, reforçando-se quase tautologicamente. Assim, nas duas estrofes temos os dois preceitos fundamentais do ato criador: transferir o referente para o discurso poético o preservar o momento da revelação poética, o gesto da escritura. Do mundo real Sophia seleciona elementos que sintetizam o concreto e o abstrato, o sólido e o líquido, o natural e o artificial, mas sua seleção só se faz numa área semântica em que predominam os semas positivos de arte (quadro), de proteção (muro), de frescura (brisa, água), de beleza (flor), de pureza (virgem), de transparência (copo, água). É esse mundo exterior restrito e seleto que se deve transferir para o mundo do poema, triplamente qualificado por epítetos da preferência do poeta: limpo, rigoroso e claro. Claro é também o gesto "da mão tocando a mesa". Para Sophia, como para Reis, Torga e Casais Monteiro, o poema é o lugar da preservação, da permanência: neles, sobretudo, a necessidade de permanecer como homem e como poeta nos seus versos; nela, o desejo de fixar no poema " o instante real de aparição e de surpresa" que, lido separadamente, poderia ser tomado como um instante-limite da aparição, mas que, em conjunto com o último verso, mais parece significar o instante da criação poética, a partir do "gesto claro da mão tocando a mesa".

 

Berardinelli, Cleonice. (2010). “A Poesia Portuguesa no Século XX”, Revista Letras. 26. 10.5380/rel.v26i0.19471.

 

***


No espaço do poema: a presença do real

Publicado originalmente em 1962, no Livro sexto, esse texto apresenta-se como uma espécie de arte poética da obra andreseniana. A linguagem apresenta-se de forma clara e objetiva, trazendo o poema como um espaço de construção, ou melhor, de reconstrução. O “mundo real” aparece a partir da enumeração de diferentes elementos desde o âmbito natural ao sensível, como o toque da mão na mesa.

No primeiro verso, observamos a ideia de “transferir”, que sugere o movimento de algo para um novo lugar. Para a voz poética, os elementos da realidade – como o quadro, o muro e a brisa – devem ser transferidos para “o mundo do poema”. Essa noção relaciona-se com as palavras de Sophia Andresen em sua “Arte Poética III”, quando ela afirma que a poesia sempre foi “uma perseguição do real”, e o poema, o círculo que apreende o pássaro do real, como vimos anteriormente. Ora, nesse círculo transfere-se o mundo concreto. Transcrevem-se seus elementos, reconstrói-se a realidade. O poema surge, então, como um espaço de reconstrução. […]

Os termos que constroem os primeiros versos de “No Poema” criam imagens visuais e também sensoriais. A brisa, por exemplo, evoca o tato, reproduzindo a sensação do vento fresco e húmido tocando a face. A fluidez da água também brinca com ambos os campos, pois é um forte apelo visual que suscita o contato com o líquido frio. A enumeração é feita, porém, sem sinais de pontuação, e essa marca é comum na poesia andreseniana. Tal ausência sugere a ideia de colagem, pois as palavras aparecem como fragmentos de imagens colocados em sequência, lado a lado, para a composição de uma imagem mais ampla e complexa: o mundo real. São como fotografias isoladas colocadas em conjunto para formar um painel.

Tal painel é, para o sujeito lírico, um espaço “limpo e rigoroso”; o poema é um “mundo claro” onde se pode guardar “O gesto claro da mão tocando a mesa”. Tais adjetivos são fundamentais à obra andreseniana. A limpidez nos permite ver, com clareza, o mundo real. É a luminosidade que permite à voz poética apreender os elementos que a cercam e inseri-los em seu poema. Para se ligar ao que existe no mundo, o sujeito vê antes cada coisa. Mas esse ‘ver’ não é simplesmente a faculdade de captar algo pelos órgãos da visão. Ver é perceber e assimilar as coisas do mundo por meio de todo e qualquer canal de receção: o ouvir, o tatear e, claro, o olhar. A luminosidade se associa também à ideia de “pureza”, ou seja, a relação pura (limpa) entre o poeta e sua realidade, entre o homem e o mundo. Além disso, a limpidez pode ser lida como clareza, nitidez, transparência, noções que permitem a visão. Ser visto é existir, é ser real. É se aperceber da presença das coisas e, dessa maneira, comungar o mundo, partilhar dele.

O rigor pode ser associado à noção de equilíbrio, isto é, o poema é um espaço construído com uma medida justa, harmônica. A busca pelo real é permeada pela relação justa que o homem deve estabelecer com seu mundo. Da ‘ordem justa’ e do ‘equilíbrio’, podemos pensar na ideia de ‘justeza’, a qual “é uma propriedade que o poema para si [de Sophia Andresen] procura para poder dizer o equilíbrio, a proporção certa e essa contenção da desmesura das coisas do mundo” (GUSMÃO, 2010, p. 276). A poesia constrói-se a partir de uma medida justa, e o poeta, ao integrar seu canto no mundo, deve fazê-lo com rigor.

Assim como uma fotografia, o poema é, na visão andreseniana, um espaço de nitidez, de equilíbrio e de claridade. Para que a imagem seja capturada e reproduzida, ocorre uma rigorosa e equilibrada reação entre a luz e o filme, coordenados pelo elemento ótico da lente. Nesse sentido, observamos, na primeira estrofe, a composição de uma imagem por meio do poema. Da mesma maneira que a lente de uma câmara fotográfica capta a luz e promove, pela reação química com o filme, a reprodução de um objeto, o poema surge – por seu rigor e sua limpidez – a partir da reprodução dos elementos do mundo real. Transcritos para o mundo do poema, os elementos tornam-se reais, pois são vistos, são verdadeiros.

Essa transcrição ou transferência – que une a ideia da reprodução e da presentificação – é para Sophia Andresen o modo como o poeta liga-se ao mundo. Ele escuta o poema, assimila-o, molda-o – buscando sempre o real, logo tornando-o real e presente, como a própria autora explica: “O poema não explica, implica. O poema não explica o rio ou a praia: diz-me que a minha vida está implicada no rio ou na praia. [...] É a poesia que me implica, que me faz ser no estar e me faz estar no ser. É a poesia que torna inteiro o meu estar na terra” (ANDRESEN, 1977, p. 77). Nesse âmbito, o poema é criado como “o selo da aliança do homem com as coisas” (Idem, 1960, p. 54).

Para a autora, “todo o poeta, todo o artista é artesão duma linguagem” (Idem, 2011, p. 839), o qual seria, contudo, distinto do artesanato “usual”, pois não nasce “da relação com uma matéria [...]. O artesanato das artes poéticas nasce da própria poesia à qual está consubstancialmente unido”, como indica em sua “Arte Poética II” (originalmente, o texto foi publicado na revista Távola Redonda, nº 21, jan. 1963. Depois, foi publicado na 1.ª edição de Geografia, 1967):

Se um poeta diz “obscuro”, “amplo”, “barco”, “pedra” é porque essas palavras nomeiam sua visão de mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. É da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o “obstinado rigor” do poema.

Ora, se a poesia é a ligação do homem com o real segundo essa visão, o poema surge como um espaço de salvação, um mundo que preserva “o instante real de aparição e surpresa”, conforme “No Poema”. Para a voz poética, a palavra tem este poder: tornar presente o real, mantendo a fugaz chama da sua existência. O poema capta e preserva o mundo na medida em que a palavra enuncia os seus elementos presentificando-os. Ele é, então, um lugar de excelência: é a ligação entre o homem e sua realidade.

Esse local é, para a voz poética, resguardado da decadência, da morte e da ruína. A imagem das ruínas surge para simbolizar um mundo que não é do equilíbrio nem da claridade. A morte aparece em uma espécie de antítese com o substantivo aparição, criando uma oposição entre o começo – o surgimento – e o fim. O aparecimento, o começo e o dia inicial são noções recorrentes para Sophia Andresen. O instante em que algo surge é o momento em que ele se faz presente, ele se torna real e verdadeiro. É, desse modo, a existência do real. […]

O poema andreseniano é, portanto, um espaço de reconstrução e de existência que, por meio da linguagem, permite que os outros homens – os leitores – liguem-se à realidade e sintam-se parte dela ao compartilhar do olhar do poeta. O sujeito de “O Poema” nos revela: “Mesmo que eu morra o poema encontrará / Uma praia onde quebrar as suas ondas” (ANDRESEN, 2011, p. 409). Sim, pois, ainda que o sujeito não esteja presente nesse espaço, o poema é a aliança dele com as coisas do mundo. A praia estará lá no poema em sua existência; a fotografia também, de certo modo, configura-se dessa maneira: “Fotos fornecem um testemunho. Algo de que ouvimos falar mas de que duvidamos parece comprovado quando nos mostram uma foto” (SONTAG, 2004, p.9). Afinal, a existência do objeto ou do elemento torna-se real através dela. Assim, o poema e a fotografia são maneiras de estarmos no mundo, de nos relacionarmos com o nosso contexto e de poder dividir essa experiência com os outros indivíduos que nos cercam. “É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética” (ANDRESEN, 2011, p. 839). 

Nathália Macri Nahas, “No espaço do poema: a presença do real, uma relação entre o poema e a fotografia na poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen”, Desassossego, São Paulo, v. 9, n. 18, p. 101, dez. 2017

*** 

Natureza e poesia

[…] para Andresen, a ideia de um convívio harmonioso com a natureza abrange também a relação do homem com a palavra, uma vez que a autora afirma, em “Arte Poética V”, enxergar no poema “a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio” (ANDRESEN, 2015, p. 898). Essa premissa da poesia como linguagem em estado de imanência é agudamente acentuada em poemas de Andresen que assumem caráter metalinguístico, como “No poema”, em que a autora explora a ideia da linguagem poética concebida como um organismo vivo, que preserva “o instante real de aparição e de surpresa”:

Transferir o quadro o muro a brisa

A flor o corpo o brilho da madeira

E a fria e virgem liquidez da água

Para o mundo do poema limpo e rigoroso

Preservar de decadência morte e ruína

O instante real de aparição e de surpresa

Guardar num mundo claro

O gesto claro da mão tocando a mesa

 

Nos versos apresentados, o eu lírico afirma que pretende transferir elementos como “o quadro”, “o muro”, “a brisa”; “A flor”, “o corpo”, o “brilho da madeira” e a “virgem liquidez da água” para o mundo do poema. Assim, os elementos imagéticos descritos recebem o apoio do elemento rítmico, que proporciona ênfase a cada uma das imagens evocadas conforme o encadeamento de palavras paroxítonas, que sugerem uma constância segundo a qual o ato de contemplação se desenvolve. Nesse sentido, em cada palavra ecoa a ideia de enfatizar os elementos que preservam o instante de “decadência morte e ruína” e que se revelam motivos substanciais ao fazer poético, uma vez que na poética andreseana

O mundo, a humanidade, a vida surgem e florescem apenas quando nomeadas pela palavra poética; a palavra é a flor, a essência do real, súbita clareza, límpida maravilha que nasce da insondável profundidade, dos territórios secretos do ser e os “diz” (LANCIANI, 2013, p. 101).

 

Em sentido amplo, é possível observar ao longo de “No poema” que o fazer poético se confunde com o próprio “estar no mundo” manifestado pela voz do eu lírico, o que indica uma inter-relação entre todos os elementos que compõem o poema, que, por sua vez, dialoga diretamente com a metáfora de teia oriunda do campo ecocrítico, segundo a qual “os ecossistemas são entendidos como redes de organismos individuais” (CAPRA, 1997, p. 34). Nesse contexto, a ideia sugerida pelo verbo transferir – mudar de um lugar para outro – ocupa lugar central para a compreensão dos versos da autora, que propõe um modo de pensar o mundo e compreendê-lo de forma global e integrativa.

Ainda, a preferência da autora pelo uso de substantivos concretos, conforme evidenciado nos grifos realizados, adequa-se a uma das definições de Andresen sobre o fazer poético, segundo a qual o “poema não fala de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta” (ANDRESEN, 2015, p. 891). Com base nessa experiência, o eu lírico nomeia a paisagem e os seus diferentes componentes: “o quadro o muro a brisa/ A flor o corpo o brilho da madeira/ E a fria e virgem liquidez da água”, de modo a procurar “desocultar a aparência do sensível das coisas, a sua essência” (PEREIRA, 2003, p. 152).

Nesse sentido, observa-se que, na sequência do texto, o verso “Para o mundo do poema limpo e rigoroso” muda a forma como a poeta concebe a linguagem no poema. Antes dele, verifica-se um uso de enumerações e aditivas; depois, há quebras constantes causadas pela preposição de (Preservar de decadência morte e ruína/ O instante real de aparição e de surpresa). Assim, tem-se que a segunda parte do poema se manifesta como um mosaico linguístico, de modo mais fragmentado, ou ainda um mosaico em composição, que traz a esse “mundo do poema limpo e rigoroso” os conflitos inerentes à perceção da modernidade.

Essa busca segundo a qual a poesia procura a grafia da forma absoluta entre a própria multiplicidade das formas visíveis e sensíveis (RUBIM, 2013, p. 238), ressaltada, sobretudo, pelos substantivos evocados ao longo do poema, consiste na referida manifestação do “instante real de aparição e de surpresa” como um mosaico em composição tal qual o mundo contemplado pela poeta, observável também diante da própria escolha estilística de Andresen, que opta por não utilizar uma separação convencional dos termos das orações por meio de vírgulas ou pontos-finais. A essa característica é possível associar um encadeamento de imagens, de modo que todos os elementos do poema parecem interligados e interdependentes.

Constata-se, portanto, que o sentido de interdependência entre os elementos está presente no poema tanto em suas manifestações linguísticas quanto no apelo imagético, que busca “Preservar de decadência morte e ruína/ O instante real de aparição e de surpresa”. Assim, estabelece-se a criação poética como uma fuga em relação à existência pura e simples, o que se mostra em acordo com um dos pensamentos expressos em “Arte Poética III”: o que define a poesia como a “ligação com o real que está presente em todas as coisas” (ANDRESEN, 2015, p. 893). Desse modo, o essencial na realidade de “No poema” pode ser interpretado, também, como o próprio poema.

A leitura de “No poema” indica que “o instante real de aparição e de surpresa” se apresenta também como um eixo para a contemplação dos seres e elementos naturais, aspeto presente em toda a obra de Andresen, bem como da conceção de “uma arte do ser”, conforme expressa a autora no ensaio Poesia e realidade: “o poema é o selo da união do homem com as coisas” (ANDRESEN, 1960, p. 54). É justamente esse encontro que estabelece, por meio do “poema limpo e rigoroso”, um olhar voltado para a imanência na linguagem andreseana, em um contexto em que a palavra se une à própria experiência do real e aproxima sua poesia a uma perspetiva fenomenológica, uma vez que o “estudo das essências, e todos os problemas, segundo ela, resumem-se em definir essências: a essência da perceção, a essência da consciência, por exemplo” (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 1).

Murillo Castex, Uma arte do ser: relações entre palavra e natureza na poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen. Curitiba, UTFPR, 2022


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No poema: Transferir o quadro o muro a brisa, Sophia Andresen”, José Carreiro. Folha de Poesia, 2022-10-12. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/10/no-poema-transferir-o-quadro-o-muro.html


terça-feira, 11 de outubro de 2022

O Hospital e a Praia, Sophia Andresen

Sophia no areal da praia de Dona Ana, em Lagos© D.R.

 

O HOSPITAL E A PRAIA

 

E eu caminhei no hospital

Onde o branco é desolado e sujo

Onde o branco é a cor que fica onde não há cor

E onde a luz é cinza

 

E eu caminhei nas praias e nos campos

O azul do mar e o roxo da distância

Enrolei-os em redor do meu pescoço

Caminhei na praia quase livre como um deus

 

Não perguntei por ti à pedra meu Senhor1

Nem me lembrei de ti bebendo o vento

O vento era vento e a pedra pedra

E isso inteiramente me bastava

 

E nos espaços da manhã marinha

Quase livre como um deus eu caminhava

 

E todo o dia vivi como uma cega

 

Porém no hospital eu vi o rosto

Que não é pinheiral nem é rochedo

E vi a luz como cinza na parede

E vi a dor absurda e desmedida

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

LIVRO SEXTO, 1.ª ed., 1962, Lisboa, Livraria Morais Editora • 2.ª ed., 1964, Lisboa, Livraria Morais Editora • 3.ª ed., 1966, Lisboa, Livraria Morais Editora • 4.ª ed., 1972, Lisboa, Moraes Editores • 5.ª ed., 1976, Lisboa, Moraes Editores • 6.ª ed., 1985, Lisboa, Edições Salamandra • 7.ª ed., revista, 2003, Lisboa, Editorial Caminho • 8.ª ed., revista, 2006, Lisboa, Editorial Caminho. • 1.ª edição na Assírio & Alvim (9.ª ed.), Lisboa, 2014, prefácio de Gustavo Rubim.

 

_______

1 Senhor: Deus.

***

 

Apresente, de forma bem estruturada, as suas respostas ao questionário sobre o poema «O hospital e a praia», de Sophia de Mello Breyner Andresen.

1. Explicite a relação existente entre o título e a estrutura do poema.

2. Refira um efeito de sentido produzido pala anáfora «E eu caminhei» (vv. 1 a 5).

3. Interprete o valor simbólico das seguintes palavras: «branco» (vv. 2 e 3), «cinza» (vv. 4 e 18), «azul» e «roxo» (v. 6).

5. Caracterize a atitude do sujeito poético descrita ao longo da segunda, da terceira e da quarta estrofes.

6. Comente as relações de sentido que se estabelecem entre o verso «E todo o dia vivi como uma cega» (v. 15) e a última estrofe.

 

 

Explicitação de cenários de resposta:

1. A representação sucessiva dos dois espaços nomeados no título - o «Hospital» e a «Praia» - é a linha estruturadora do texto até ao verso 15. Assim, à evocação do «eu» caminhando no espaço fechado e disfórico do «hospital» (vv. 1-4), opõe-se a representação do «eu» caminhando «nas praias e nos campos» (v. 5), isto é, no espaço aberto da natureza, logo singularizado na «praia», lugar da luz e da beleza plenas (vv. 6-14). O confronto estabelecido entre os dois espaços experienciados pelo «eu» organiza o texto, acentuando a radical diferença entre ambos. A última estrofe, convocando de novo o «hospital», reforça tal contraposição: o espaço da plenitude e da liberdade surge enquadrado pelas duas estrofes que referem o espaço da privação e da dor (vv. 1-4 e 16-19).

 

2. A anáfora «E eu caminhei» (vv. 1 e 5) produz, entre outros, os seguintes efeitos de sentido:

- marca o início de cada uma das representações do espaço, delimitando-as no poema;

- assinala o «eu» como o elemento instaurador de ambas as representações do espaço;

- põe em relevo a importância do «eu» e do seu movimento em relação aos espaços representados;

- acentua, por contraste com a repetição, o antagonismo entre os espaços representados;

- …

Nota - Recorda-se que o enunciado da pergunta requer a explicitação de um efeito de sentido.

 

3. As palavras «branco» e «cinza» caracterizam o espaço do «hospital», conotando-o como um lugar de dor e de morte: o «branco», descrito como «desolado e sujo», é a negação da própria brancura e, mesmo, da cor como elemento positivo («a cor que fica onde não há cor»); «cinza», que pode ser lida quer como restos do fogo quer como a cor cinzenta, é também o símbolo da negatividade, da não-luz, da tristeza e da falta de esperança.

    O «azul» e o «roxo» - cores da «praia», associadas ao «mar» e à «distância» - conotam os seguintes sentidos: vida, espaço e liberdade, plenitude da natureza.

 

4. O sujeito poético é representado, ao longo das segunda, terceira e quarta estrofes, caminhando «nas praias e nos campos», numa atitude que traduz:

- um sentimento de íntimo acordo com a natureza;

- uma sensação de liberdade quase divina;

- a satisfação plena dos sentidos;

- um estado de felicidade e de plenitude;

- …

Nota - A apresentação de três elementos é considerada suficiente para a atribuição da totalidade da cotação referente aos aspectos de conteúdo.

 

5. O verso «E todo o dia vivi como uma cega», que conclui a descrição da vivência da «praia», apresenta tal vivência como um estado de cegueira do «eu», isto é, de alienação relativamente à realidade nua e crua. O significado desta alienação clarifica-se nas relações semânticas que este verso estabelece com a última estrofe em que, de novo, é convocado o «hospital». Assim, a conjunção adversativa «Porém» marca a oposição entre a atitude do «eu» na «praia» e no «hospital»; a repetição da forma verbal «vi», que ocorre três vezes e duas delas em posição anafórica, intensifica e sublinha o valor da evidência do sofrimento testemunhado no «hospital», acentuando, por antítese, o significado da expressão «vivi como uma cega», alusiva à «praia». Em suma, a cegueira de que o «eu» se recrimina é a da sua consciência, ofuscada pela luz da «praia» e «cega» para a realidade da «dor» humana, «absurda e desmedida», brutalmente revelada no «hospital».

 

Exame Nacional do Ensino Secundário n.º 139. 12.º Ano de Escolaridade (Decreto-Lei n.º 286/89, de 29 de Agosto). Cursos Gerais e Cursos Tecnológicos. Prova Escrita de Português B, 1.ª fase, 2.ª chamada. Portugal, GAVE, 2002

 

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     Textos de apoio

 

O espaço natural e a identidade do sujeito

Em “O Hospital e a Praia”, publicado em Livro Sexto, observa-se mais uma vez o conflito entre o espaço natural, virgem e imaculado, e o espaço habitado pelo homem, de onde irrompe a escuridão e o sofrimento. Nesse poema, é interessante observar como elementos simbólicos inerentes ao conceito de limpidez e claridade assumem sentidos opostos:

E eu caminhei no Hospital

Onde o branco é desolado e sujo

Onde o branco é a cor que fica quando não há cor

E onde a luz é cinza

 

Na estrofe acima, que abre o poema, é possível observar que, conforme as imagens inerentes ao espaço natural se deslocam para o ambiente corrompido pelo homem, elas sofrem mudanças em seu sentido original. Aqui, o conceito de pluralidade das imagens, de Octavio Paz, pode ser identificado na mudança que a simbologia da cor branca e da luz sofrem. Antes associado ao conceito daquilo que é puro, o branco agora remete à ideia de algo sujo. Sempre ligada à ideia de vida, a luz, por sua vez, ganha nuances sombrias, na medida em que se revela cinza no hospital. Ao tratar dessa ambivalência de sentidos, o poeta e ensaísta mexicano aponta:

As palavras se conduzem como seres caprichosos e autônomos. Sempre dizem ‘isto e o outro’ e, ao mesmo tempo, ‘aquele e o mais além’. O pensamento não se resigna; forçado a usá-las, uma e outra vez a linguagem se rebela e rompe os diques da sintaxe e do dicionário (PAZ, 2005, p. 49)

 

Na mesma linha, Bachelard chama atenção para a natureza instável da imagem, que, além de jamais se prender a sentidos definitivos, também caminha sobre a tênue linha da tensão:

E quanto às imagens, logo fica evidente que atrair e repelir não resultam em experiências contrárias. Os termos são contrários. Ao estudarmos a eletricidade ou o magnetismo, podemos falar simetricamente de repulsão e atração. Basta uma ideia de sinais algébricos. Mas as imagens não aceitam ideias tranquilas, nem sobretudo ideias definitivas. Incessantemente a imaginação imagina e se enriquece com novas imagens (BACHELARD, 2008, p. 19).

 

Mas, se os versos iniciais de “O hospital e a praia” configuram um cenário invertido, na segunda estância, o espaço natural surge para confrontar o ambiente maculado pelo homem; fazendo frente à ideia de clausura que um espaço fechado como o hospital pode vir a sugerir, o sujeito defronta-se agora com um espaço aberto, a praia, onde ele caminha “livre como um deus”, como é possível observar nos versos que seguem:

E eu caminhei nas praias e nos campos

O azul do mar e o roxo da distância

Enrolei-os em redor do meu pescoço

Caminhei na praia quase livre como um deus

 

Na medida em que o sujeito busca fazer da vastidão do meio natural um prolongamento do seu ser, é interessante traçar uma relação entre a profundidade do mundo e a profundidade do ser íntimo da qual fala Bachelard ao afirmar que “diante de uma imensidade evidente, como a imensidade da noite, o poeta pode nos indicar os caminhos da profundidade íntima” (BACHELARD, 2008, p. 194). Nesse contexto, ao enrolar em redor do seu pescoço a vastidão das praias, do mar e dos campos, o sujeito procura a grandeza íntima que o mundo exterior “vem ajudar a revelar”, segundo Bachelard (p.197).

Nessa busca pela comunhão com o natural, é interessante, por fim, observar que o real natural por si só já basta para o “eu” poético. É como se diante do esplendor desse meio distante da intervenção do homem os questionamentos e as explicações fossem supérfluas:

Não perguntei por ti à pedra meu Senhor

Nem me lembrei de ti bebendo o vento

O vento era vento e a pedra pedra

E isso inteiramente me bastava

 

E nos espaços da manhã marinha

Quase livre como um deus eu caminhava

 

Porém no hospital eu vi o rosto

Que não é pinheiral nem é rochedo

E vi a luz como cinza na parede

E vi a dor absurda e desmedida

 

Gabriela Cerqueira, Mar de concreto: uma leitura da cidade e de sua relação com o mar nos poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen. São Paulo, USP-FFLCH, 2011

 

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O mito e a condição humana na obra poética de Sophia

São inúmeros os poemas que apresentam a cidade como o espaço do terror, da destruição máxima, do isolamento e da completa degradação do ser humano. Um deles diz o seguinte:

Cidade

As ameaças quase visíveis surgem

Nascem

Do exausto horizonte mortas luas

E estrangulada sou por grandes polvos

Nas tristezas das ruas.

(in Livro Sexto, 1962)

 

A cidade atualiza e, de certo modo, consolida o mito da queda original, que narra o destino de separação do homem, com a consequente rutura de sua integração harmoniosa com o universo, o que põe fim a um tempo de bem-aventurança, de plenitude e de alegria. A representação da cidade não é apenas mímesis de um espaço real, mas projeta também uma dimensão mítica à encenação da trajetória do homem sobre a terra, empreendida na obra de Sophia. Para se contrapor a esta imagem do mundo degradado, a poeta cria uma série de outras imagens que simbolizam espaços sagrados, fontes de restauração e de cura do homem. É o caso da “praia”, espaço sagrado que se opõe ao “hospital”, imagem metonímica da cidade, que reforça a ideia de que o homem está doente e precisa ser curado.

Por pertencer ao campo semântico relacionado à doença e à busca de cura, a imagem do “hospital” [no poema “O hospital e a praia”] instaura a reflexão acerca do estado doentio do homem contemporâneo. A imagem da praia se opõe à do hospital, já no próprio título, pela conjunção “e”, que estabelece dupla relação entre os termos. Ambos se aproximam e se repelem ao mesmo tempo.

Por estar colocado no mesmo campo semântico de “hospital”, o vocábulo “praia” tem seus sentidos denotativos ampliados, sendo tomada como espaço que se destina à cura, embora apresente conotações inteiramente opostas. O hospital é o local da “dor absurda e desmedida”, conotada pelo “branco desolado e sujo” e pela “luz cinza”, enquanto a praia é configurada como um espaço inundado pelo “azul do mar”.

Repleta de ar puro, de beleza, de sossego, a praia é naturalmente um espaço que favorece a saúde física. Tomada, porém, em suas dimensões míticas, trata-se de um espaço que também pode proporcionar a cura dos males de raiz metafísica, possibilitando a restauração integral do homem, ao promover sua religação com o cosmos. Por sua contiguidade ao mar, outro poderoso espaço mítico na estética andresiana, a carga semântica de extrato metafísico fica ainda mais ampliada.

Pode-se concluir que a cura almejada pelo eu lírico, para o homem, diz respeito àquela rutura que resultou de seu antigo desligamento do cosmos, representado metonimicamente pela praia.

Ao mesmo tempo em que contempla o mundo pairando seu olhar sobre espaços mitificados, que trazem um sopro de esperança e de renovação diante do abismo e da perene destruição, a poeta também tece dura crítica ao estado atual deste universo, como obra da insanidade, da soberba, do desejo desmedido de poder e dominação.

Embora seja eminentemente crítica da sociedade moderna, trata-se de uma poesia mergulhada numa aura de positividade e de celebração da vida, propondo uma reconstrução da mesma por meio da restauração dos mitos. Para pensar mais neste aspeto seria importante determo-nos um pouco mais sobre a trajetória mítica do homem. Ou, em outras palavras, cabe aqui uma reflexão sobre o mito da origem e da queda.

 

Maria Fernandes, “O mito e a condição humana na obra poética de Sophia de Mello Breyner Andresen”. Revista Texto Poético | ISSN: 1808-5385 | Vol. 16 (1o sem-2014) | p. 93-122

 

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  • Ocorrência do termo “cidade” na Obra Poética de Sophia de Mello Breyner Andresen - compilação de textos.

 

 


O Hospital e a Praia, Sophia Andresen”, José Carreiro. Folha de Poesia, 2022-10-11. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/10/o-hospital-e-praia-sophia-andresen.html