quinta-feira, 3 de abril de 2014

AÇORIANIDADE


FOTOGRAFIA DE JOSE MARIA DE AGUIAR CARREIRO, Freguesias de Santana e Achada, no concelho de Nordeste, 2011-03-26
José Carreiro, Feteira Grande, 2011-03-26.

            

            

“Quisera poder enfeixar nesta página emotiva o essencial da minha consciência de ilhéu. Em primeiro lugar o apego à terra, este amor elementar que não conhece razões, mas impulsos; - e logo o sentimento de uma herança étnica que se relaciona intimamente com a grandeza do mar.

[…] o basco espanhol Baroja […] escreveu um livro chamado juventud,Egolatria: "O ter nascido junto do mar agrada-me, parece-me como um augúrio de liberdade e de câmbio".

Escreveu a verdade. E muito mais quando se nasce mais do que junto ao mar, no próprio seio e infinitude do mar, como as medusas e os peixes. Era este orgulho feito de singularidade e solidão que levava Antero a chamar aos portugueses da metrópole os seus "quási patrícios".

Uma espécie de embriaguez do isolamento impregna a alma e os atos de todo o ilhéu, estrutura-lhe o espírito e procura uma fórmula quási religiosa de convívio com quem não teve a fortuna de nascer, como o logos, na água […]”.

Vitorino Nemésio, Açorianidade, 1932

        

        

             

IDENTIDADE AÇORIANA

“Num viveiro de lusitanidade quatrocentista”, nasce o ilhéu, uma criação que ganha forma quando o “continental transplantado se descontinentaliza” e perde os seus pontos de referência (Nemésio, 1989: 13). Como ilhéu, a viver num espaço isolado, assume a condição de insular e, ao conviver com outros continentais “transplantados”, acaba por adquirir novos hábitos, costumes e crençasproduzindo um tecido social novo e, acima de tudo, próprio, o que leva, de uma forma natural, à consciencialização do ser açoriano. Assim, “há um escalonamento temporal e espacial no processo de insularidade. Primeiro é-se insular geograficamente, depois, é-se insular psicologicamente; por fim, é-se insular culturalmente” (Rosa e Trigo, 1990: 19).

É na convergência destas três facetas que emerge a identidade do açoriano ou, nas palavras de Vitorino Nemésio (1901-1978)4, a açorianidade. Termo usado pela primeira vez em 19325açorianidade pode ser entendido como uma expressão dos traços de uma comunidade, no fundo como conceito caracterizador de “entidade cultural coletiva” (Almeida, 1987: 305), atendendo à “existência de uma realidade açoriana que não só geograficamente se manifesta, mas que sobretudo é vivida numa ética própria, numa vida – em suma – em muitos pontos especializada e diferenciada” (Nemésio, 1995 [1932]: 88).

Embora a nacionalidade seja reconhecida aos portugueses, desde 1822, na nossa tradição jurídico-constitucional, pelo jus solis e pelo jus sanguiniis, nem sempre esses requisitos terão sido suficientes para os indivíduos se autopercecionarem realmente enquanto tal. Podemos ilustrar este pensamento com um exemplo dado pela história e citado por José Mattoso (2001:14): na segunda metade do século XIX, o Rei D. Luís perguntou do seu barco a uns pescadores se eram portugueses, ao que estes responderam: “Nós outros? Não, meu Senhor! Nós somos da Póvoa do Varzim!”. Esta história leva-nos a pensar que, apesar da antiguidade do Estado, a noção de pertença a uma comunidade nacional é relativamente recente. A partir da Revolução Liberal, o país confrontou-se com o desafio político e cultural de fundar e legitimar uma nova ordem nacional, um novo sentimento de pertença coletiva a uma só comunidade, quer espacial, quer histórica. Foi esse esforço de liberais oitocentistas, republicanos e salazaristas que brindou o nosso tempo com vagas de “reaportuguesadores”, de “inventores de Portugal”, na literatura, na arte, na música e na arquitetura. No entanto, o analfabetismo, bem como a fragmentação e a pobreza do tecido económico nacional, nunca permitiram criar uma identidade supraindividual e suprarregional, fazendo com que o contexto em que o indivíduo nascesse e crescesse assumisse o estatuto definidor da sua identidade, contribuindo para o enfraquecimento ou mesmo para a anulação de laços mais abrangentes.

Partindo do caricato exemplo dos pescadores nortenhos, podemos fazer uma analogia com o arquipélago dos Açores, pois se no século XIX os pescadores só viam a sua Póvoa do Varzim, eram raros os açorianos de então que não se diziam micaelenses,terceirenses ou faialenses antes de serem portugueses, dado que os Açores eram o seu “país natal”. Fruto também da situação geográfica pode dizer-se que a relação do arquipélago com o Portugal continental, pelo menos até ao século XX, era muito semelhante a uma relação metrópole-colónia. Assim, existiam vários escritos onde a ideia de Portugal como uma nação pluriespacial – na qual o arquipélago dos Açores estivesse plenamente integrado e onde fosse assumido o sentimento português dos açorianos – não era clara, fazendo com que, no caso açoriano, se desenvolvesse um certo “orgulho na insularidade”, cujo reverso sempre foi (e ainda poderá ser), uma certa “mágoa de abandono”.

Mercê da situação geográfica, o mar é um dos elementos base na vida dos ilhéus. É com ele que os indivíduos mantêm uma forte relação, pois, se, por um lado, oferece a certeza do confinamento, por outro lado, oferece a possibilidade de fuga e de ligação com o resto do mundo. Vitorino Nemésio, também ele açoriano, em Corsário das Ilhas – o testemunho escrito das suas viagens aos Açores em 1946 e em 1955 – regista este sentimento, ao afirmar que:

os continentais, sempre um pouco malignos connosco, bem davam a imagem do nosso estreitamento neste Mundo, dizendo: “Vocês, quando acordam, não estendem as pernas, com medo de que o mar vos molhe as pontas dos pés”... Ora, se isto não é fisicamente verdade (...) tem todavia uma certa razão interior: traduz caricaturalmente a nossa sensação insular de solidão e de limite. Nós não temos medo de que o mar nos alague ou de que a terra nos falte: - temos sempre presente, como salutar advertência, a sensação de que o Mundo é curto, e o tempo mais curto ainda.

Mas contra o que se poderia tirar da área apertada que nos coube no berço, quanto à nossa equação com o Mundo e à nossa maneira de respirar, a verdade é que ninguém mais do que o ilhéu, a não ser talvez o homem da planície, possui o instinto da amplidão. É com os próprios olhos que tiramos do mar a terra que nos faltou (1996: 62).

Esta consciência da insularidade é decisiva para a assunção da açorianidadeenquanto dimensão cultural e (quase) filosófica do ilhéu, na medida em que passa a haver uma relação inconsciente com o mundo de proveniência e instala-se uma relação consciente e forte com a terra de acolhimento. Consequentemente, há sentimentos de pertença que se instalam e se tornam princípios inabaláveis, levando à emergência, de uma forma generalizada, de um enfraquecimento do “sentido de nacionalidade” (Rosa e Trigo, 1990: 21).

No entender de José Henrique dos Santos Barros (1981), este fator poderá estar relacionado com a emigração acentuada que pode levar a uma desagregação e a uma segmentação espacial, logo, a uma falta de “coesão social” que impede os açorianos de se verem coletivamente (74). Contudo, se, por um lado, a emigração pode apartar e desagregar, por outro lado parece-nos curioso verificar, especialmente quando se disserta sobre a açorianidade enquanto conceito, que esta se manifesta, de forma mais visível, quando a distância física existe. Assim, constata-se junto da diáspora açoriana a invocação de uma proximidade psicológica, através da lembrança, da memória, da escrita ou da leitura das vivências passadas, e assume-se a tal coesão, numa espécie de “catarse coletiva da libertação” mesmo que, e acima de tudo, seja imaginada (Almeida, 1989:30).

Fatores objetivos, como a pobreza e o desemprego, aliam-se a fatores subjetivos, como o apelo de familiares ou o sonho da fortuna fácil, para dar forma a um êxodo regular de açorianos. Em busca de um “significado cultural global” para a emigração ao longo da história portuguesa, Machado Pires identifica duas grandes justificações: por um lado, a deficiente estrutura social, com o domínio senhorial, a má exploração dos campos, a fraca industrialização e a atração pela exploração marítima que impedia a criação de raízes e o desenvolvimento sustentado; por outro lado, e de forma imbricada, as características próprias do povo português – logo, também do povo açoriano – onde ressalta a expansividade (Pires, 1981).

Nesta linha de ação, não se pode ignorar o fator emigração na teia da construção de um conceito de identidade local. Para além de ser uma dimensão mental e espiritual, temática recorrente na literatura açoriana (emigrada étnica)6, é um fenómeno importante na formação económica, social e cultural do arquipélago (Rocha, 1991: 265). De uma forma generalizada, as famílias emigradas agregam-se em comunidades e mantêm viva a sua cultura e a sua consciência insular, não só de uma forma interior, mas também de uma forma visível com o consumo de produtos regionais, com a presença da bandeira e do hino do arquipélago7, com a comemoração de datas marcantes, essencialmente religiosas, como as Festas do Espírito Santo8.

De acordo com Rosa e Salvato (1990), a emigração veio permitir a emergência da “mátria açoriana”, mãe que não assume diferenças, mas que olha os filhos como iguais, como açorianos. Em simultâneo, e de acordo com os mesmos autores, a mátria vive em harmonia com a pátria, permitindo afirmar que “a mátria dá justificação à açorianidade e que a pátria justifica a portugalidade” (19).

Apesar de a Literatura ser uma forma de expressão significativa na tradição açoriana9, encontrámos na RTP-Açores e na ficção televisiva (na sua maioria produtos de adaptações de obras literárias de autores locais) um potencial estudo de caso para cumprir os nossos objetivos.

       

Catarina Duff Burnay,Gaudium Sciendi nº 1março de 2012.

           

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(4) Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva, oriundo da Ilha Terceira, foi poeta, ensaísta, romancista e Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e na Universidade Livre de Bruxelas.

(5) "Açorianidade", Insula, 7/8, Julho/Agosto, 1932 (Vitorino Nemésio (1989 [1932]) "Açorianidade" Carlos Cordeiro, et al (rec. e sel. textos) Açorianidade e Autonomia. Páginas Escolhidas, Ponta Delgada: Signo, pp. 13-14). Este conceito segue os princípios que levaram à criação do termo hispanidad por Miguel de Unamuno (En torno al Casticismo, 1895).

(6) Em concordância com Eduardo Mayone Dias (1983), a literatura açoriana relaciona-se com a emigração de duas formas: através da literatura emigrada, ou seja, criada por autores transplantados não influenciados pelo novo ambiente e através da literatura étnica, isto é, o trabalho de uma segunda geração de emigrantes consciente da sua cultura e do seu lugar no país de acolhimento.

(7) A primeira bandeira surgiu em 1893 durante o chamado Primeiro Movimento Autonomista Açoriano. Com pequenas alterações, foi aprovada pelo Decreto Regional n.º 4/79/A de 10 de Abril. O hino foi composto em 1890 durante o mesmo período. Com letra de Natália Correia foi oficialmente adotado em 1980 pelo Decreto Regulamentar Regional n.º 49/80/A de 21 de Outubro.

(8) Ver, entre outros: João Leal (1994) As Festas do Espírito Santo nos Açores: um estudo de etnografia social, Lisboa: Dom Quixote.

(9) A expressão literatura açoriana teve a sua primeira aparição impressa a 12 de Maio de 1852 na Revista dos Açores, a propósito de uma informação biobibliográfica. A partir daí, durante a segunda metade do século XIX até aos dias de hoje, a questão foi/é debatida, apoiada e rebatida. No entender de Onésimo Teotónio Almeida (1983), estamos perante um debate semântico, político, ideológico e estético que cria controvérsia por se estar a lidar com uma instância pequena (Açores) e não com uma situação nacional (Literatura Portuguesa, Literatura Francesa), onde também não existe corpo homogéneo nem barreiras definidas. Para além disso, e embora a caracterização de uma produção escrita como substrato cultural de um povo implique uma autonomia política, linguística e cultural9, a expressão “Literatura Açoriana” deverá prevalecer, quando usada em sentido alargado, em referência a obras que: a) falam dos Açores; b) usam os Açores como pano de fundo; c) são escritas por açorianos; d) são escritas por não açorianos, mas que falam deles ou neles se passam; e) usam regionalismos açorianos; f) não os usam, mas usam personagens ou temas que o são; g) revelam, expressam e defendem a mundividência cosmológica e ética açoriana; h) revelam, expressam e defendem a primeira e recusam a segunda, ou vice-versa ou recusam ambas; i) fazem algo ou tudo o dito de a) a h) (Almeida, 1983: 212).






Machado Pires estreia série na RTP/Açores
Estreia domingo, dia 26 de outubro de 2014, às 19h30, na RTP/Açores, a série Açorianidade, da autoria do Professor Machado Pires.
Inspirada no livro Páginas da Açorianidade, a série televisiva carateriza a condição insular e a identidade marcada das ilhas açorianas.
Com doze episódios de vinte minutos, Açorianidade  assenta numa série de conversas entre Machado Pires e personalidades cuja atividade ajuda a compreender a identidade açoriana.
Entre outros, estão agendados diálogos com Avelino Meneses, Fernando Peixoto, Jorge Barros e Ana Maria Martins.
Discípulo de Vitorino Nemésio, criador do conceito açorianidade, Machado Pires, natural da ilha Terceira, foi reitor da Universidade dos Açores.



         

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2014/04/03/acorianidade.aspx]
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