domingo, 4 de maio de 2025

Menino e moço, António Nobre

 


Menino e moço

 

Tombou da haste a flor da minha infância alada,
Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim:
Voou aos altos Céus a pomba enamorada
Que dantes estendia as asas sobre mim.

Julguei que fosse eterna a luz dessa alvorada,
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa visão de luar que vivia encantada,
Num castelo de prata embutido a marfim!

Mas, hoje, as pombas de oiro, aves da minha infância,
Que me enchiam de Lua o coração, outrora,
Partiram e no Céu evolam-se, a distância!

Debalde clamo e choro, erguendo aos Céus meus ais:
Voltam na asa do Vento os ais que a alma chora,
Elas, porém, Senhor! elas não voltam mais...

 

António Nobre, "Paraíso perdido", in Revista Brasil – Portugal,
edição n.º 200, de 16 de maio de 1907, p. 114

 

VOCABULÁRIO

Alada: que tem asas.
Alvorada: amanhecer.
Clamar: chorar, gritar.
Debalde: em vão.
Evolar-se: fugir, voando.
Pudico: envergonhado.

 

 

Linhas de leitura do poema “Menino e moço”, de António Nobre

- O título remete para a fase da infância e juventude do sujeito poético.

- A metáfora “Tombou da haste a flor da minha infância alada” transmite a ideia de fim da infância, representada como uma flor frágil e bela que caiu, simbolizando a perda da inocência e leveza dessa fase.

- O sujeito lírico acreditava que a infância e a sua felicidade seriam eternas (“Julguei que fosse eterna a luz dessa alvorada, / E que era sempre dia, e nunca tinha fim”).

- A “alvorada” representa o início da vida, cheio de luz e encantamento, que o sujeito poético julgava não terminar.

- No passado, o sujeito poético vivia um tempo mágico, protegido e sonhador (ex.: “a pomba enamorada [...] estendia as asas sobre mim”).

- No presente, sente-se desamparado e triste, percebendo que essa infância não volta mais (ex.: “Debalde clamo e choro [...] elas não voltam mais”).

 

Resumo das linhas de leitura:

O poema constrói-se sobre a oposição entre um passado idealizado, marcado pela inocência e proteção da infância, e um presente de desilusão, solidão e saudade. A metáfora da flor caída, a crença na eternidade da infância e o lamento pela sua perda são elementos centrais para compreender a nostalgia e o tom melancólico do poema.


Sugestão:

Assiste à aula da Professora Tereza Cadete Sampainho, disponível em Português - 7.º e 8.º anos , aula 47 - 04 mai 2021 - Estudo Em Casa - RTP

“Menino e moço", de António Nobre. "Meninos tomaram coragem", de Ruy Cinatti| Aula 47| 27 min| 04 mai. 2021 - Módulo de Português para 7.º e 8.º anos. O projeto #ESTUDOEMCASA destina-se a alunos e professores do Ensino Básico, que desejem recorrer a esta ferramenta no seu processo de ensino-aprendizagem.


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