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sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

Natália Correia à partida de São Miguel

 


MANHÃ CINZENTA
À Partida de São Miguel

Ai madrugada pálida e sombria
em que deixei a terra de meus pais…
e aquele adeus que a voz do mar trazia
dum lenço branco, a acenar no cais...

O meu veleiro – era de espuma fria –
levava-o o fervor dos vendavais.
À passagem gritavam-me: onde vais?
Mas só o meu veleiro respondia.

Cruzei o mar em direções diferentes.
Por quantas terras fui, por quantas gentes,
nesta longa viagem que não finda.

Só uma estrada resta – mais nenhuma:
na Ilha que o passado envolve em bruma,
um lenço que me acena ainda...

 

in Portugal, Madeira e Açores,
Abril de 1946

 

Natália Correia, “Inéditos, 1941/47” in O Sol das Noites e o Luar nos Dias I. Lisboa, Círculo de Leitores, março de 1993, p. 11




A Ilha: ponto de partida

 

O laço de pertença que une Natália à Ilha é naturalmente emocional e psicológico, porque a partida se efetiva na realidade, despertando um sentimento de perda material. Mas a poesia permite recuperar a Ilha como se fosse “um objeto imaculado pela distância, a nata de uma criança infinitamente chamada pelas ondas a esvaziar-se pela boca cantante com que assombramos as vírgulas adultas dos lugares que habitamos.” (Correia 1993a: 422) Assim se pontua o momento da partida numa “Manhã Cinzenta”, porque se impõe a mudança exigida pela fase adulta da vida […].

A despedida reveste-se da tristeza que é normal sentir-se quando se deixa a “Ilha que o passado envolve em bruma.” É da terra dos seus pais – “ninfa e pai chuva de lava” – que o sujeito poético parte para cruzar “o mar em direções diferentes”, como se doravante a ínsula se afastasse da vida da poetisa. Este afastamento, porém, é materializado no momento da partida, uma vez que a poesia permite a Natália apenas uma “longa viagem que não finda, / só uma estrada resta – mais nenhuma”: a lembrança do adeus acenado por um lenço branco.

Por isso é que, no III dos “7 Poemas da Morte e da Sobrevivência”, Natália esclarece que o retorno à Ilha não deve fazer-se de um qualquer modo, há que revestir o colorido da flor para imprimir outra tonalidade à palidez da despedida naquela “Manhã Cinzenta”. Se um lenço branco acenou à sua partida, que a florescência em cor a saúde aquando do regresso:

Não regressarei à terra
como uma folha que cai.
Condição de ser a hera
que no meu tronco se enlaça
sou a nascente da água
que me leva quando passa.

Não sou poeira que o vento
arrasta até encontrar
a florescência da flor.
Origem morte existência
sou a própria florescência
incontinente na flor.

(Correia 1993a: 117)

 

Mas o regresso não se faz tão cedo. O lugar de onde parte permanece-/-lhe na memória e é evocado com saudade quando, numa circunstância específica da sua vida, Natália pensa que pode vislumbrar, ao longe, a Ilha que lhe serviu de berço e da qual se despediu tristemente numa manhã sem sol. Na obra Descobri que Era Europeia. Impressões duma viagem à América3, a poetisa descreve a jornada que faz aos Estados Unidos da América. Quando, em 1950, sobrevoa o Atlântico rumo à terra da fartura, a escala técnica na ilha vizinha de Santa Maria leva Natália Correia a registar em prosa aquilo que em poesia é canto de saudade:

Estamos a vinte e sete milhas náuticas de Santa Maria. A partir daqui, a viagem começa a revestir um significado sentimental. Pela primeira vez, após quinze anos, vou aproximar-me da terra onde nasci. Ficarei durante uma hora a sessenta milhas de distância da minha ilha: São Miguel.

Vou parar em Santa Maria, onde nunca estive, mas que conheço como uma ténue linha de horizonte dos dias claros. Quantas vezes, debruçada na balaustrada do Aterro, vendo a ilha distante, aberta como uma flora na bruma do mar, eu pensava se aquela não seria a ilha misteriosa sepultada no oceano que a velha Maria da Estrela dizia aparecer de quando em quando aos olhos fadados para a ver: […] (Correia 1993a: 422).

A paragem na pequena ilha de Santa Maria assume uma dupla função: por um lado, não será mais do que um lugar de passagem na rota para outro mundo, mesmo ao lado do ponto de partida de há década e meia de anos e, por outro, torna-se numa espécie de janela a partir da qual Natália tenta perscrutar a sua Ilha, espaço agora preservado na memória, ao qual a poetisa acede através da recordação e do sonho.

 

_________

[3] Esta narrativa de Natália Correia é um documento importante para a compreensão do fenómeno da “açorianidade”. Aí se desenvolve, com bastante acuidade, a conclusão a que chegam, por exemplo, Rosa & Trigo 1987:199: “Entre a insularidade e o sonho realizado, ou não, da distância das “Califórnias da abundância”, constrói-se cada vez com mais fervor a açorianidade – essa maneira que o açoriano tem de afirmar a sua especificidade de ser português, sendo ao mesmo tempo um cidadão de errância em trânsito permanente, espiritual ou físico, para sua mátria: Açores.”

 

Rui Faria, “Figurações da Ilha na poesia de Natália Correia: da expressão da açorianidade à busca da universalidade” in Limite. ISSN: 1888-4067, nº 16, 2022, pp. 149-163

 


segunda-feira, 25 de setembro de 2023

AO PRINCÍPIO ERA O LIVRO (Natália Correia)

Tertúlia em casa de Natália Correia.

 

O livro é como um rio. Tem a sua nascente e a sua foz. E assim como o rio se mistura na vastidão oceânica, funde-se o livro na massa do saber universal. A sua nascente é o autor. A foz, o leitor. Mas esse percurso não seria possível se dele não fossem motores o editor e o livreiro, figuras por vezes obscuras, mas não menos importantes na marcha do livro para o seu destino universal.

Contudo não é sem razão que hoje se levanta um alarme. Agouros tecnológicos de entre os quais avulta a aldeia global de MacLuan vaticinam, se não a liquidação do livro pela hipnose dos meios dos meios audio-visuais, pelo menos a grande redução do seu espaço. Ai de nós se assim for. Porque a audiovisualidade por mais apuradamente cultural que seja e dificilmente o será, não permite a retenção da palavra, o voltar atrás que a escrita faculta, elementos indispensáveis à reflexão, do exercício da memória e ao despertar da subjectividade cada vez mais apoucada pela tirania da massificação.

Dignificar o livro e promover a sua expansão é, pois, obra de quantos se empenham em salvaguardar os valores individualizantes que poderão resistir à imbecilização de uma humanidade puerilizada pelo igualitarismo da quantificação tecnológica.

Quando Gutemberg inventou o prelo tipográfico, alguns viram nesse meio de democratização dos conhecimentos obra faustica de um pacto com o diabo. E ainda Lope de Vega nela denunciava o perigo de abandalhar pela quantidade o que devia ser património da qualidade. Contudo, hoje, por ironia da mudança dos tempos e das vontades, é nesse produto nobre da tipografia que residem as virtudes da defesa do qualitativo da tecnologia globalista que despersonaliza e que desidentifica, que anula os indivíduos. Bem hajam, pois, os que nesta ilha confirmam a tradição da bibliofilia que tanto a tem ilustrado e a dotam com mais um instrumento de cultura. Porque esta é a própria condição do fortalecimento da personalidade açórica e da sua invulnerabilidade à usura de um Estado centralizador, que no seu narcisismo, se condena a afundar-se nas águas fatais da autocontemplação, tragicamente alheio a realidades indefectíveis como esta: açorianidade!

Natália Correia, “Ao princípio era o Livro” - discurso proferido aquando da inauguração da livraria Nove Estrelas, dirigida por José de Almeida, em 07-12-1981.

(Partilhado por Carlos Melo Bento, em https://www.facebook.com/carlos.melobento, 23-09-2023)


quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Romance de D. Pedro e Dona Inês (Natália Correia)

Pedro e Inês, os amantes infelizes, por Sérgio Marques, 2021

 

Romance de D. Pedro e Dona Inês

 

Era seu colo de neve
tocado daquela graça
do contorno mais breve
onde o infinito se enlaça.

Morta, em sua fronte uma constelação
era presságio do ritual macabro
duma coroação.

O que bebera em sua carne a claridade
que dos deuses escorre para a mais pura taça
partiu com mãos de tempestade
apressando com ira
e com desgraça
a fatalidade que os ungira.

E só parou quando mudo no espanto
onde o enlevo da morte se adivinha
o fim do mundo ficou esperando
aos pés da mais fantástica rainha.

 

Natália Correia, Poemas (1955)

 

O poema é inspirado na história de amor trágico entre o infante D. Pedro e a sua amante Inês de Castro, que foi assassinada por ordem do rei D. Afonso IV, pai de D. Pedro, em 1351. Após a morte de Inês, D. Pedro declarou que se tinha casado secretamente com ela e mandou coroá-la como rainha, expondo o seu cadáver no trono.

O poema apresenta uma estrutura narrativa, podendo ser dividido em três momentos: a descrição da beleza de Inês (primeira estrofe), o relato do seu assassinato (segunda e terceira estrofes) e a reação de D. Pedro (quarta estrofe).

As imagens da primeira parte parecem ser ambíguas, visto que a neve pode simbolizar a palidez da pele de Inês após a morte, mas também pode simbolizar a brancura e a delicadeza da sua pele em vida. A graça e o contorno podem sugerir a beleza e a delicadeza da sua forma mesmo na morte, mas também podem sugerir a elegância e a perfeição da sua forma em vida. O infinito pode representar a transcendência da beleza de Inês, mesmo após sua morte, mas também pode representar a eternidade do amor entre Inês e D. Pedro.

Os versos da primeira estrofe parecem evocar a beleza serena do corpo morto de Inês após a sua morte violenta, usando imagens de pureza e tranquilidade para contrastar com a tragédia que ocorreu. Assim, o contorno breve do corpo mortal demarcaria a fronteira entre o físico e o espiritual, como se estivesse tocando o infinito.

A segunda estrofe introduz elementos sombrios na narrativa, com a menção de uma constelação na sua fronte como presságio do "ritual macabro / duma coroação" póstuma, como de facto veio a acontecer.

A terceira estrofe revela a crueldade do destino, sugerindo que o que atraía a claridade dos deuses na sua carne foi arrancado com fúria e desgraça. O sujeito poético emprega nesta parte do texto uma linguagem bem sombria e dramática para narrar o ato cruel que tirou a vida de Inês. Palavras como "tempestade", "ira", "desgraça" e "fatalidade" são escolhidas para expressar a fúria e a injustiça que marcaram o crime. A palavra "tempestade" evoca uma sensação de caos e violência, sugerindo que o ato foi tumultuoso e selvagem. "Ira" ressalta a intensidade da raiva subjacente a essa ação violenta, enquanto "desgraça" aponta para o trágico e infortunado destino de Inês. A palavra "fatalidade" enfatiza a inevitabilidade do ocorrido, como se o destino estivesse selado desde o início.

Na quarta estrofe, o sujeito poético retrata a profunda reação de D. Pedro perante o cadáver de Inês, revelando o seu espanto e a sua dor de maneira comovente.

A utilização de uma hipérbole, ao afirmar que "o fim do mundo ficou esperando / aos pés da mais fantástica rainha" enfatiza a intensidade do amor de D. Pedro por Inês e a extensão do seu sofrimento. Ao sugerir que o "fim do mundo" estava à espera, a poeta indica que, para D. Pedro, nada mais importava a não ser o seu amor por Inês. Essa hipérbole realça o aspeto trágico e atemporal do amor do protagonista, como se a própria ordem do mundo estivesse suspensa ou interrompida diante da morte de Inês.

Além disso, ao chamar Inês de "rainha" depois de sua morte, o sujeito poético destaca o caráter fantástico e paradoxal da situação. Inês, embora morta, é descrita como uma rainha, talvez indicando que o seu amor e a sua beleza transcenderam a vida e a morte, conferindo-lhe uma realeza eterna. Esse uso do termo "rainha" também ressalta a importância de Inês na vida de D. Pedro e a profunda reverência que ele sentia por ela, independentemente das circunstâncias.

O poema "Romance de D. Pedro e Dona Inês" de Natália Correia é um texto que evoca uma atmosfera sombria e trágica, mergulhando na lenda histórica do amor proibido entre D. Pedro I de Portugal e Dona Inês de Castro.

 

Túmulos de D. Pedro e D. Inês, dispostos frente a frente, no Mosteiro de Alcobaça



domingo, 23 de julho de 2023

Proençaes soem mui bem trobar, D. Dinis

 


Proençaes soem mui bem trobar
e dizem eles que é com amor;
mais os que trobam no tempo da frol
e nom em outro, sei eu bem que nom
am tam gram coita no seu coraçom
qual m’eu por mia senhor vejo levar.

Pero que trobam e sabem loar
sas senhores o mais e o melhor
que eles podem, sõo sabedor
que os que trobam quand’a frol sazom
á, e nom ante, se Deus mi perdom,
nom am tal coita qual eu ei sem par.

Ca os que trobam e que s’alegrar
vam eno tempo que tem a color
a frol consigu’e, tanto que se for
aquel tempo, logu’em trobar razom
nom am, nom vivem em qual perdiçom
oj’eu vivo, que pois m’á de matar.

D. Dinis (CV 127, CBN 489)

A Lírica Galego-Portuguesa, 2.ª ed., edição de Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramos, Lisboa, Comunicação, 1985, p. 286.

 

Notas

soem (verso 1) – costumam.

mais (verso 3) – mas.

frol (verso 3) – flor.

coita (verso 5) – sofrimento amoroso.

levar (verso 6) – suportar; sofrer.

Pero que (verso 7) – embora.

quand’a frol sazom / á (versos 10 e 11) – na estação das flores.

par (verso 12) – igual; semelhante.

Ca (verso 13) – pois; porque.

tanto que se for / aquel tempo, logu’em trobar razom / nom am (versos 15 a 17) – assim que acaba aquele tempo, logo deixam de ter razões para trovar.

 

Análise de uma composição trovadoresca galego-portuguesa

1. Apresentação:

Identificação: «Proençaes soen mui ben trobar»

Género: cantiga de amor e simultaneamente sátira literária

Presença nos cancioneiros: CV 127, CBN 489

Autor: D. Dinis

 

2. Paráfrase da cantiga: (por Natália Correia, Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses):

 

Os provençais que bem sabem trovar!
e dizem eles que trovam com amor,
mas os que só na estação da flor
vejo trovar jamais no coração
semelhante tristeza sentirão
qual por minha senhora ando a levar.

Muito bem trovam! Que bem sabem louvar
as suas bem-amadas! Com que ardor
os provençais lhes tecem um louvor!
Mas os que trovam durante a estação
da flor e nunca antes, sei que não
conhecem dor que à minha se compare.

Os que trovam e alegres vejo estar
quando na flor está derramada a cor
e que depois quando a estação se for,
de trovar não mais se lembrarão,
esses, sei eu que nunca morrerão
da desventura que vejo a mim matar.

 

3. Tema/ Assunto: contraposição da sinceridade amorosa peninsular ao artificialismo do amor à maneira provençal.

 

4. Estrutura formal: 3 estrofes uníssonas e «capcaudadas».

10a 10b 10b 10c 10c 10a

 

5. Questionário sobre a cantiga “Proençaes soen mui ben trobar”, de D. Dinis.

5.1. Explicite o contraste que o trovador estabelece, na primeira estrofe, entre a sua prática poética e a dos «Proençaes» (verso 1).

5.2. Analise o valor simbólico atribuído, ao longo do poema, à palavra «frol».

5.3. Refira duas características temáticas que permitem integrar este texto no conjunto das cantigas de amor.

5.4. Neste poema, é possível reconhecer traços de sátira literária.

Comprove esta afirmação, com base em dois aspetos relevantes.

 

Explicitação dos cenários de resposta

5.1. Na resposta, devem ser desenvolvidos os dois tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes.

Na primeira estrofe, o trovador estabelece um contraste entre a sua prática poética e a dos «Proençaes» (v. 1) do modo seguinte:

− a prática poética do trovador, ao contrário da dos «Proençaes» (v. 1), não se limita a uma certa estação do ano (como se subentende por «trobam no tempo da frol / e nom em outro» ‒ vv. 3-4);

− o trovador considera que os «Proençaes» (v. 1) sofrem muito menos por amor do que ele («nom / am tam gram coita no seu coraçom» ‒ vv. 4-5).

5.2. Na resposta, devem ser desenvolvidos dois dos tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes.

Ao longo do poema, a palavra «frol» adquire um valor simbólico:

− como marca da primavera, literariamente conotada com o amor e com a poesia («tempo da frol» ‒ v. 3 ‒, aquele em que os «Proençaes» ‒ v. 1 ‒ costumam trovar);

− como indício da chegada de uma estação do ano («quand'a frol sazom / á» ‒ vv. 10-11) propícia ao sentimento amoroso;

− como sugestão de um ambiente alegre e cheio de cor («eno tempo que tem a color / a frol consigu'» ‒ vv. 14-15).

5.3. Na resposta, devem ser desenvolvidos dois dos tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes.

O texto pode integrar-se no conjunto das cantigas de amor com base nestas características:

− a afirmação do sofrimento por amor, ou coita amorosa, de que padece o sujeito poético («gram coita» ‒ v. 5; «tal coita» ‒ v. 12);

− a devoção a uma mulher amada, designada por «mia senhor» (v. 6);

− um sentimento tão intenso que leva o sujeito poético a prever a sua morte por amor («em qual perdiçom / oj’eu vivo, que pois m’á de matar» ‒ vv. 17-18).

5.4. Na resposta, devem ser desenvolvidos os dois tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes.

A presença de traços de sátira literária neste poema pode ser comprovada com base nos aspetos seguintes:

− a expressão «dizem eles» (v. 2) sugere uma desconfiança irónica no que respeita à motivação dos «Proençaes» (v. 1);

− ao longo do poema, a prática poética dos «Proençaes» (v. 1) é desdenhada pelo sujeito poético (por nela reconhecer sinais de artificialismo).

(Questionário disponível no Exame Final Nacional de Literatura Portuguesa. Prova 734 | 2.ª Fase | Ensino Secundário | 2023 | 11.º Ano de Escolaridade | Decreto-Lei n.º 55/2018, de 6 de julho | Decreto-Lei n.º 22/2023, de 3 de abril. República Portuguesa – Educação / IAVE-Instituto de Avaliação Educativa, I.P.)

 

 

   Poderá também gostar de:

 

Lição n.º 43 de Português – 7.º e 8.º anos (Projeto #EstudoEmCasa), sobre "Os provençais que bem sabem trovar" e "Cantiga sua, partindo-se", 2021-04-20.

► Assistir à aula da Professora Tereza Cadete Sampainho, em https://www.rtp.pt/play/estudoemcasa/p7828/e538278/portugues-7-e-8-anos

 

“Poesia trovadoresca galego-portuguesa”, José Carreiro. In: Folha de Poesia, 2018-05-18. Síntese didática disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2018/05/poesia-trovadoresca-galego-portuguesa.html



sábado, 18 de março de 2023

O Dever de Deslumbrar - Biografia de Natália Correia

 

O Dever de Deslumbrar. (Imagem: https://www.rtp.pt/acores/cultura/o-dever-de-deslumbrar-e-a-nova-obra-biografica-sobre-natalia-correia_79894)

O Dever de Deslumbrar - Biografia de Natália Correia

Filipa Martins

Contraponto Editores, março de 2023

 

SINOPSE

Intimidando pela verve de aríete e pela beleza, Natália Correia simbolizou, como poucos, as inquietações do século XX português. Precoce e radical no pensamento feminino, vítima de efabulações e de mitos, incompreendida e amada, lançou um olhar oracular sobre o seu tempo. Em tertúlias, que eram verdadeiras olimpíadas da confraternização lisboeta, o seu traço aglutinador envolvia, juntamente com o fumo dos cigarros, intelectuais e admiradores, que se irmanavam com párias e malditos em ideias e poemas de vanguarda.

Mulher deslumbrante e carismática, equiparada às maiores pensadoras europeias e às estrelas de Hollywood, atacou o Regime onde mais lhe doía - na moral caduca -, elegeu o erotismo como arma política e tornou-se a autora mais censurada da ditadura. Já no bar que fundou em Lisboa, fez e desfez governos à batuta da sua boquilha.

Nesta biografia, da autoria de uma das vozes mais seguras da nova literatura portuguesa, convivem a libertária e a conservadora, avessa a expor a sua atribulada vida íntima, a mulher que desprezava a política partidária e que nela viveu, inclusive como deputada; o espírito frágil e o temperamento intempestivo; o polémico exercício de funções diretivas em órgãos de imprensa e a defesa intransigente das causas maiores; e, em todas as páginas, as contradições e coerências de uma pensadora capaz de criar para si própria uma narrativa que não a torturasse pelas escolhas que fez. 

Disponível em: https://www.contrapontoeditores.pt/produtos/ficha/o-dever-de-deslumbrar/21332326


Natália Correia, Lisboa, 1963 (Arquivo de Ivo Machado)


 

NATÁLIA, MAIOR DO QUE A VIDA

Livre, corajosa, visionária, sedutora, complexa. São inesgotáveis os adjetivos que vão bem com Natália Correia (1923-1993), a escritora, a editora, a política, a cidadã, a mulher de armas, a figura maior do que a vida, que atravessou todo o século XX português. “É a mátria portuguesa”, diz Filipa Martins, também ela escritora e, agora, autora da muito aguardada nova biografia de Natália Correia, uma longa investigação de quase seis anos que chega, nesta semana, às livrarias. “Era uma mulher davinciana, que tocava todas as artes, até a política. E a sua história confunde-se com a própria História do País”, acrescenta Filipa Martins, no artigo assinado pela grande repórter da Visão Rosa Ruela, que faz a nossa capa desta semana.

O ano de 2023 é um ano de dupla efeméride no que toca a Natália Correia: a 16 de março, faz 30 anos que morreu; a 13 de setembro, cumpre-se um século após o seu nascimento. Com um pai ausente, Natália foi educada pelas mulheres da família, conforme conta Rosa Ruela, seguindo o relato de Filipa Martins em O Dever de Deslumbrar, que a jornalista pôde ler em primeira mão. Teve uma infância feliz “entre gargalhadas e poucos ralhetes”, escreve a jornalista da Visão. “Natália-adulta iria conseguir ver muito à frente do seu tempo. Era uma visionária, com uma capacidade de antecipação, de perceber o que estava por vir, como quase ninguém. E iria manter-se coerente com os seus princípios e valores, até ao fim.” Uma figura que ainda hoje tem muito por revelar, num trabalho de fôlego que o leitor pode ler a partir da página 32 desta edição.

Visão n.º 1657, editorial de 16-03-2023


Visão n.º 1657, 2023-03-16

 

NATÁLIA, A INDOMÁVEL

Para se perceber Natália, tem de se começar por conhecer as suas origens. Era, aliás, algo que lhe interessava, respondeu quando o escritor Victor de Lima Meireles, seu amigo, lhe propôs investigar a sua genealogia.

Nas suas raízes, tinha, no lado paterno, Duarte Galvão, cronista-mor do reino e embaixador da corte de Dom João II à Etiópia (“Não poderemos dizer menos do que isso sobre Natália”, comenta Filipa Martins). E, no lado materno, tanto houve um antepassado a traçar pescoços numa batalha no Porto, em 1245, como uma sexta avó escrava, Inês de seu nome.

“Não deixa de ser curioso saber que o sangue de Natália fluiu de paragens distantes”, nota a biógrafa. Talvez viesse daí, aventa, a sua curiosidade pelas calafonas (expatriadas que viviam na Califórnia) e pelos gestos que elas faziam quando fumavam. Em pequena, imita-as às escondidas com papelinhos enrolados, “os antepassados precoces das longas boquilhas imortalizadas na pose que lhe conhecemos”.

O pai, Manuel Medeiros Correia, herdara da mãe, professora, “algum traquejo cultural”, que terá encantado Maria José. Apresentava-se como administrador de estufas de ananases e teria prosperado não fosse o gosto por uma vida mundana. Tanto fez que, “carregado de dívidas, deu o salto, indo para o Brasil”, contaria a própria Natália.

Manuel sai dos Açores em 1929, tem ela 6 anos, mas já antes se ausentara, nomeadamente para as Bahamas. Do Brasil, há de enviar-lhe algumas cartas e muitos rosários, bentinhos e missais, até se remeter ao mais completo silêncio. Mesmo Maria José passa décadas sem saber do marido, conseguindo divorciar-se só nos anos 50. “Não tinha pai como todos tinham”, resumirá Natália em Onde Está o Menino Jesus?

Conservador nos costumes, Manuel deixara a gestão das rendas das propriedades ao irmão, Francisco, vigário, o que era uma forma de controlar os comportamentos morais da família. Maria José detestava o cunhado, achava-o “capaz de abençoar com a mesma mão com que às escondidas apalpava o rabo à criada”, lemos.

A escritora seria sempre dura ao falar do pai. Aos amigos, dizia-se traumatizada pelo seu comportamento de alcoólico. Em entrevistas, limita-o ao papel de fecundador e resume-o a pândegas e a playboiadas. Em várias obras, sintetiza-o sem paninhos quentes, nota a biógrafa.

UMA CASA DE MULHERES

Os dois só voltam a encontrar-se nos anos 50, em Lisboa, na mesma altura em que Maria José está de partida para o Brasil, acompanhando a filha Cármen. Seria um reencontro “dolorosamente cerimonioso”, descreveria Natália, já fragilizada com a perspetiva da ausência da mãe, de quem se sentia muito dependente.

Maria José era filha de um liberal com ligações à secreta Carbonária. Professora desde os 21 anos, garantira, até casar, o sustento da sua mãe viúva e das três irmãs solteiras, Santo Cristo, Hortênsia e Amância.

Era uma mãe culta, que educou as filhas para o paganismo e a liberdade. Dava prioridade à mitologia da Antiguidade, à leitura dos clássicos, à criatividade. “A minha mãe alinhava em tudo o que fosse, na altura, modernidade subversiva”, contaria a escritora.

Na ausência do pater familias, a casa “tornou-se um ‘gineceu’”, escreve Filipa Martins. A avó, já com 81 anos quando Natália nasceu, era “a matriarca delirante”, que passava os dias na penumbra do seu quarto, na companhia do Príncipe Sublime, como chamava ao manequim de costureira vestido com um traje de características maçónicas que pertencera ao marido. A tia Hortênsia flagelava-se com cilícios, tendo embora sido sufragista em nova. E a tia Santo Cristo “era a tia boa”, que acabaria por morrer numa casa de saúde mental, na sequência de um desgosto de amor.

Quanto a Cármen, não liga às leituras como ela e a mãe, mas tem ouvido para a música. Nos vários relatórios da PIDE, enquanto Natália é nomeada escritora ou, o mais das vezes, doméstica, a irmã chega a constar como pianista.

As duas tratam-se por “minha adorada irmãzinha” quando se escrevem, mas teriam sempre uma relação ambígua, “entre o amor e o ciúme, a estranheza e a admiração”, conclui a biógrafa. Natália sofreria quando Cármen desapareceu sem deixar rasto no Brasil, depois de se juntar a uma seita religiosa obscura.

MACAMBÚZIA E INDOMÁVEL

Em 1934, vai ser apenas com a mãe e a irmã que ruma a Lisboa, aos 11 anos. A avó teria morrido, a tia Santo Cristo fora internada e as outras duas tias haviam emigrado para o Brasil. Ela própria só voltaria a Ponta Delgada mais de três décadas depois.

Na capital, a mãe começa por dar aulas numa escola pública (mais tarde, fundaria um colégio, o Lusitano), Cármen vai estudar para o Liceu Maria Amália e ela para o Dona Filipa de Lencastre, então no rés do chão de um prédio no bairro da Estrela. Passa muito tempo sozinha, autossegrega-se. Torna-se a “versão macambúzia” da criança açoriana.

Revela novamente uma maturidade invulgar, sublinha Filipa Martins, contando como foi ela quem escreveu, aos 11 anos, um requerimento a pedir à direção da escola a isenção de propinas. “Evoca a sua condição de órfã, por o pai estar ‘ausente em parte incerta na América do Sul’ como razão cimeira.” Maria José ganhava 700 escudos por mês, e só o exame do curso geral (5ª classe) custava 200.

A isenção é-lhe concedida, apesar dos resultados modestos nos estudos, que a própria atribuirá a um temperamento indomável. Nos anos 80, há de contar ter sido expulsa da escola, facto que a biógrafa não conseguiu confirmar (“a memória é barro domável...”). Cármen, ela sim, foi suspensa e afastada por excesso de faltas.

Depois do Filipa, Natália segue para a Escola Industrial Machado de Castro, escapando-se, assim, às aulas de lavores, culinária ou artes domésticas. Nunca saberia estrelar um ovo, chorava para fazer um chá, era incapaz de acender o fogão e contava com Alfredo Machado, o terceiro marido, com quem viveu mais de 30 anos, para lhe comprar até as meias de nylon. “Não sei tratar de nada, na ordem das coisas práticas, não sei assinar um cheque, sou perfeitamente desastrada. Só sei escrever”, confessava.

O BOM SENSO DO CURA

Quando nasceu a Mocidade Portuguesa Feminina, em dezembro de 1938, Natália saiu da Machado de Castro porque Maria José não aceitava que as filhas pertencessem àquela “detestável organização”. Tinha 15 anos, estaria a meio do 3º ciclo e não se sabe se terminou esse ano letivo. “É nessa altura que começa a escolher os seus mestres”, conta Filipa Martins.

São eles alguns amigos da família, como o escritor e professor Manuel Cardoso Marta, que há de mostrar os primeiros poemas de Natália ao escritor José Campos de Figueiredo, e muitos poetas clássicos. Pouco depois, devora as leituras subversivas recomendadas pela mãe, “que a definiram numa altura em que qualquer apertão deixa marca à flor da pele”.

Será desse tempo o exemplar “manuseado com o cuidado dos amantes” de Le Bon Sens du Curé J. Meslier, obra póstuma do sacerdote francês, apontado por alguns historiadores como precursor da doutrina socialista, que a biógrafa encontrou na biblioteca da escritora, agora em Ponta Delgada.

Por altura da guerra civil de Espanha, ouve clandestinamente a BBC com a mãe, “horrorizada pelo espectro nazi”. É também pela mão da mãe que começa a frequentar tertúlias políticas e literárias, “numa antecâmara daquilo em que se viria a transformar a sua casa dos anos 50 e 60”. Já preferia a companhia dos mais velhos, porque eles lhe traziam conhecimento.

Ao mesmo tempo, Natália-adolescente tornou-se uma “exímia patinadora”, segundo as próprias palavras. “Era uma menina bonitinha com um estilo diferenciado” das restantes, “que remédio senão ser namoradeira”.

Logo em 1942, a mãe autoriza o seu casamento com Álvaro dos Santos Dias Ferreira, um escrivão do Tribunal da Boa Hora, mais velho 11 anos. Casa a 2 de setembro, a dias de perfazer 19 anos, pelo civil. Fica, assim, em aberto a hipótese do divórcio.

“Ela casa, e a sua liberdade transita das mãos do pai ausente para as do marido”, sublinha a biógrafa, que vê neste seu primeiro enlace sobretudo a vontade de se emancipar.

“CÉLIA” E O CASAMENTO INFELIZ

Os primeiros meses de casamento deixam-na acabrunhada. Já tinha a convicção de que não queria ser mãe – queria trabalhar. Sente-se “desasada mas decidida”, confirma a biógrafa num diário inédito da escritora.

Natália estreia-se, então, a cantar músicas românticas na Emissora Nacional, sob pseudónimo, porque as cantoras da rádio tinham fama de levianas. Escolhe apresentar-se como Célia Navarro, consta que lhe aplaudem a voz, mas conhece um curto êxito.

Um dia, vai ao Rádio Club Português dizer versos num programa açoriano, descobrem-lhe o timbre declamatório, e de cançonetista passa a locutora, apresentando-se aos microfones com o seu nome de casada: Natália Dias Ferreira. Em ainda menos tempo, torna-se residente no espaço literário noturno, onde rapidamente está a ler poemas da sua autoria.

O casamento também não dura muito. Seja pelos serões passados fora de casa, pelo cansaço dela, pelo facto de ser vítima de violência doméstica (“Mais tarde, confidencia a amigos que Álvaro a violava”, conta-nos a biógrafa), certo é que Natália protagoniza um dos 9 125 divórcios em Portugal da década de 1940. Um divórcio com direito a ação em tribunal e fundamentado na admissão de adultério da mulher e de sevícias por parte do marido.

Tinha sido, entretanto, afastada da rádio, talvez por razões políticas, supõe Filipa Martins. A sua família era vigiada pela PIDE desde março de 1944, e, dois anos depois, ela iria ingressar no MUD (Movimento de Unidade Democrática). Havia agentes da polícia política à porta do colégio da mãe e da sua própria casa.

Meses mais tarde, está a escrever no jornal Portugal, Madeira e Açores, cujo chefe de redação era Artur Geraldo Soares, que se diria apaixonado “até ao delírio” por ela. E, até ao final da década de 1980, nunca deixará de escrever em jornais e revistas.

Começa, então, a olhar para a condição feminina, tema que passa a interessar-lhe como nenhum outro. Não estando ainda divorciada, insurge-se publicamente quando Salazar retira o direito de voto às casadas. “Será que o matrimónio marca uma fase de apatia mental na futura mãe de família?”, escreve, com ironia, em março de 1946. […]

 

Ler mais em: “Natália Correia - a história da poetisa Indomável”, Rosa Ruela. Visão n.º 1657, 16-03-2023

 


“O Dever de Deslumbrar - Biografia de Natália Correia” in Folha de Poesia, José Carreiro. Portugal, 18-03-2023. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2023/03/o-dever-de-deslumbrar-biografia-de.html