quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Padrão, Fernando Pessoa


 

PADRÃO1

 






O esforço é grande e o homem é pequeno.
Eu, Diogo Cão2, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.

5




A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.


10



E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas3, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.



15

E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.

13-9-1918

Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).  - 60.

Disponível em: http://arquivopessoa.net/textos/2384

 

__________

1 Padrão: monumento de pedra que os navegadores portugueses erguiam nas terras que iam descobrindo, tendo como emblemas a cruz e as quinas (vide nota 3).

2 Diogo Cão: navegador português que, em 1485, descobriu a foz do rio Zaire, a norte de Angola.

3 Quinas: grupo de cinco escudos que figura nos símbolos nacionais de Portugal.

 

 

Texto de apoio – Dicionário da Mensagem

Febre - Motivo recorrente na Mensagem, o termo liga-se à ideia de conquista da «Distância» e à inquietação que faz do Português, no dizer de Gilberto de Melo Kujavsky, um ser-para-o-mar. Surge na «febre de navegar» (M,61), que possui Diogo Cão, ou na «febre de ânsia» (M, 99) que arde no peito desse terceiro nauta do poema «Noite» que quer partir à procura dos outros dois perdidos. Em causa está, em qualquer dos casos, «a busca de quem somos, na distância, / De nós» (M, ibid).

Curioso é, também, notar que essa febre participa, como o gesto a que conduz, da predestinação divina do herói. É algo que lhe é dado, que faz parte da sua própria condição, como ser depositário de um destino que se cumpre através dele, como acontece com D. Fernando:

[Deus]

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me

A fronte com o olhar;

E esta febre de Além, que me consome,

E este querer grandeza são seu nome

Dentro de mim a vibrar.

(M,38)

Mesmo nos casos onde o grande empreendimento a que se propuseram falhou, os heróis na Mensagem mantêm viva a chama do desejo e do sonho, impulsionados por essa febre de fazer, de descobrir, de criar, a que juntam o seu destemor confiante por se sentirem cheios de Deus.

Dir-se-ia, em suma, que nessa «febre de Além», nessa ânsia de Absoluto, reside um dos aspetos mais importantes da exemplaridade do herói na Mensagem.

(Complete este estudo, vendo os verbetes Distância e Horizonte.)



Padrão é, como se sabe, o monumento de pedra que os navegadores portugueses erigiam em cada nova terra descoberta. Veio substituir a cruz de madeira, usada para o mesmo fim, o que, naturalmente, permitia uma maior resistência à erosão do tempo, marcando de forma indelével a posse da nova terra.

Mas, simbolicamente, o que da sua fixação ressalta é a consumação da etapa penúltima desse «porto sempre por achar». Por isso, se atribui a Diogo Cão, provavelmente um dos navegadores que mais padrões ergueu e um dos mais importantes no estudo da navegação da costa ocidental africana, a exemplaridade irredutível deste gesto heroico:

Eu, Diogo Cão, navegador, deixei

Este padrão ao pé do areal moreno

E para diante naveguei.

(M,60)

Muito para além do que historicamente a obra de Diogo Cão representa, em termos de abertura às navegações seguintes, importa salientar a insatisfação de alma que anima o herói e o leva a aceitar a imperfeição da obra feita, não obstante a ousadia e o grande esforço despendido, como estímulo dessa eterna procura, que é nele a febre de navegar.

Recorrente, na Mensagem, é a pouca importância conferida à obra feita, materialmente considerada, em detrimento da atitude do herói. Recorde-se que Diogo Cão caiu em desgraça por ter, erradamente, julgado atingir o limite meridional do continente africano, facto a que o poema faz alusão:

O esforço é grande e o homem é pequeno

[…]

A alma é divina e a obra é imperfeita.

(ibid.)

O esforço é grande e o homem é pequeno

[…]

A alma é divina e a obra é imperfeita.

(ibid.)

Trata-se de um herói, como os que integram as «Quinas», sagrado por Deus «em honra e em desgraça», facto de que o navegador tem plena consciência:

Este padrão sinala ao vento e aos céus

Que, da obra ousada, é minha a parte feita:

O por-fazer é só com Deus.

(ibid.)

Note-se, ainda, a semelhança do último verso transcrito com o que termina o poema consagrado a D. Pedro («Tudo mais é com Deus!» - M, 40), compare-se a «febre de Além» de D. Fernando com a «febre de navegar» de Diogo Cão ou a sua grandeza de alma insatisfeita, que procura «o porto sempre por achar» com a inquietação de um D. João diante da impossibilidade de atingir «o inteiro mar», e, facilmente, se poderá concluir que o malogrado marinheiro é, igualmente, uma das quinas do padrão por ele plantado, já que também foi colhido pela sorte adversa na procura do «inteiro mar»:

Ensinam estas Quinas, que aqui vês,

Que o mar com fim será grego ou romano:

O mar sem fim é português.

(ibid.)

O que interessa, porém, ao Portugal futuro é a alma do herói, que o texto pessoano reabilita, e o que nela existe da face divina das coisas, i. e., o que da sua figura perdura como arquétipo, sintetizável nos primeiros versos que transcrevemos.

A reter é, pois, a ideia de navegar, metáfora de toda a procura, ou o valor simbólico do padrão (também metáfora da Mensagem) como marco sempre penúltimo da viagem começada.

Fonte: Dicionário da Mensagem, Artur Veríssimo. Porto, Areal Editores, 2000

 




 

Apresente, de forma bem estruturada, as suas respostas ao questionário.

1. Indique as funções atribuídas ao «padrão» neste poema.

2. Explicite as relações de sentido que o primeiro e o quinto versos estabelecem entre si.

3. Analise a importância que os vocábulos e expressões referentes à navegação assumem no texto.

4. Comente o significado dos versos: «Que o mar com fim será grego ou romano:/ O mar sem fim é português» (vv. 11-12).

5. Descreva o retrato que o sujeito poético faz de si mesmo.

 

Explicitação de cenários de resposta

1. Ao «padrão» (marco de pedra com emblemas simbólicos, que assinalava a posse de Portugal sobre as terras descobertas) são atribuídas, neste poema, as seguintes funções:

- assinalar a passagem de «Eu, Diogo Cão» pelo «areal moreno», ou seja, o cumprimento da parte que lhe cabe na realização da «obra ousada»;

- testemunhar, pelas «Quinas» gravadas no monumento, o domínio português do oceano;

- manifestar, através da «Cruz» que encima o «padrão», a transcendência do objetivo último da navegação do «eu», isto é, a demanda de Deus.

2. O paralelismo de construção dos versos 1 e 5 - resultante da estrutura em forma de máximas, assentes em antíteses - gera relações de sentido entre os seus elementos que evidenciam:

- as limitações do «homem» e as imperfeições da obra humana;

- o impulso humano de autossuperação e de procura da perfeição «divina»;

- a grandeza do «esforço» do «homem» no confronto com os seus limites.

3. O campo lexical referente à navegação («navegador», «padrão», «areal», «naveguei», «vento», «céus», «oceano», «mar com fim», «mar sem fim», «navegar», «calma», «porto [...] por achar») torna-se o mais importante do texto, pela quantidade e diversidade dos seus elementos, produzindo um discurso poético centrado no ato de navegar, que é canto da viagem marítima e de exaltação da descoberta, e também metáfora da demanda do transcendente.

4. Contrapondo o «mar com fim», «grego ou romano», ao «mar sem fim», «português», o poema enaltece as viagens marítimas dos Portugueses, afirmando a sua superioridade relativamente às dos povos da Antiguidade Clássica: estes dominaram apenas o conhecido, o «mar com fim»; os Portugueses, pelo contrário, apropriaram-se do desconhecido, do «mar sem fim» que desvendaram, acentuando-se, assim, a sua dimensão épico-heroica.

5. São traços do autorretrato do sujeito do poema:

- a ânsia e a exaltação de navegar, impelindo-o sem cessar «para diante», na busca do «porto sempre por achar»;

- o sentimento de insatisfação, de desejo de perfeição, a par da consciência dos limites humanos e do orgulho pela obra realizada;

- a determinação, a capacidade de esforço, de autossuperação;

- a consciência de realizar uma obra que tem uma dimensão transcendente e coletiva;

- o sentimento de respeito e de fascínio pelo oceano;

- …

Fonte: Exame Nacional do Ensino Secundário n.º 139. 12.º Ano de Escolaridade (Decreto-Lei n.º 286/89, de 29 de agosto). Cursos Gerais – Agrupamentos 1, 2 e 3 e Cursos Tecnológicos. Prova Escrita de Português B. Portugal, GAVE, 2000, 2.ª fase

 

 

Poderá também gostar de:

Fernando Pessoa - Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária da obra de Fernando Pessoa, por José Carreiro. 




“Padrão, Fernando Pessoa” in Folha de Poesia, José Carreiro. Portugal, 21-12-2022. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/12/padrao-fernando-pessoa.html



terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Horizonte, Fernando Pessoa

 Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte: Mar Português, II: Horizonte


HORIZONTE

 





5





10





15



Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração1,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério2
Esplendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria3 do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos4 merecidos da Verdade5.

 

s.d.

Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).  - 58.

Disponível em: http://arquivopessoa.net/textos/2380

_________

1 Cerração: nevoeiro denso; escuridão; trevas. 
2 Sidério: sidéreo; sideral, astral, celeste. 
3 “aquela fria / luz que precede a madrugada, / E é já o ir a haver o dia / Na antemanhã, confuso nada” (in “Viriato”) – fronteira entre o desconhecido e o conhecido. 
4 Beijos – recompensa. 
5 Verdade – conhecimento.

 

 

Texto de apoio

O termo Horizonte prende-se à demanda eterna desse «porto sempre por achar» e à ideia de descoberta de que a febre de navegar dos heróis se alimenta. O Horizonte torna-se, por isso, metáfora de toda a procura, pelo irrecusável da Distância a conquistar e caminho para o conhecimento. Desvendar o mistério que ele encerra é reencontrar a verdade perdida do que somos (ou o Graal de ser português) e redescobrir o gesto criador que lhe dá sentido.
     O sonho, a vontade ou a esperança são os ventos que empurram as «naus da iniciação». É  a viagem de um iniciado em busca da Verdade que, simbolicamente, o poema «Horizonte» celebra. (Dicionário da Mensagem, Artur Veríssimo, Porto, Areal Ed., 2000, p. 61)
     O mar na Mensagem é metáfora de todo o navegar, isto é, mais do que um pretexto para exaltar o que foi feito, o mar é, porque se cumpriu, o exemplo do fazer, do como partir à descoberta de nós mesmos e de Portugal. Não é do passado que se trata, mas do futuro que esse passado deixa adivinhar, desde que «outra vez conquistemos a Distância», desde que, uma vez mais, sejamos tocados pelo sonho e pela esperança, sabendo «Buscar na linha fria do horizonte / A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte - / Os beijos merecidos da Verdade.»
     O que a «Distância», como a «linha fria do horizonte», sugere é, em suma, essa possibilidade de passarmos do desconhecido ao conhecimento de nós mesmos e colhermos disso a recompensa merecida – o prazer da procura e da descoberta, onde a verdade concreta do que somos reside. (ibidem, pp. 33-34)

 

Questionário sobre o poema “Horizonte”, de Fernando Pessoa 

1. Indique o tema do texto e relacione-o com o seu título.

2. Apresente as partes em que se estrutura o poema quanto ao sentido. Justifique.

3. "Desvendadas a noite e a cerração"... (v. 3)

3.1. Explicite o significado das palavras noite e cerração, integradas nesta expressão.

3.2. Transforme-a numa oração subordinada conjuncional, sem alterar o sentido da frase.

4. "Abria em flor o Longe"... (v. 5)

4.1. Refira um recurso estilístico utilizado, comentando a sua expressividade.

5. "se aproxima" (v. 8) - "mais perto" (v. 10) - "no desembarcar" (v. 11)

5.1. Comente o efeito estilístico produzido por esta gradação.

6. "O sonho é ver as formas invisíveis" (v. 13)

6.1. Selecione, neste verso, as duas palavras cujos sentidos se opõem.

6.1.1. Indique o elemento, constitutivo de uma delas, responsável por essa oposição. Classifique-o.

7. Há no poema a evocação de uma época histórica.

7.1. Transcreva duas expressões que se referem a aspetos dessa época, identificando-a.

7.2. Aponte as razões da integração do poema na segunda parte da Mensagem.

8. Situe a Mensagem no universo poético pessoano.

 

 

Sugestões de correção:

1. O descobrir e contactar com mares e terras longínquos e desconhecidos, que é tema do texto, está presente na interpretação do título como projeto de ir mais longe.

2. O desenvolvimento temático, no poema, estrutura-se em três partes:

1.a parte: O caminho (a viagem) - 1.a estrofe;

2.a parte: A visão de um mundo novo - 2.a estrofe;

3.a parte: interpretação simbólica do descobrir - impulso para o conhecer - 3.a estrofe.

3.1. "Noite" e "cerração" significam o desconhecimento e o desconhecido.

3.2. Por exemplo: Depois que foram desvendadas a noite e a cerração.

4.1. Por exemplo: Imagem. Esta imagem sugere o momento feliz da revelação do desconhecido.

5.1. Esta gradação traduz o movimento de aproximação progressiva.

6.1. "Ver" e "Invisíveis".

6.1.1. Prefixo de negação in-

7.1. A época histórica dos Descobrimentos é evocada, por exemplo, em:

"As tormentas passadas e o mistério" (v. 4);

"Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta" (v. 8);

"E, no desembarcar, há aves, flores," (V. 11).

7.2. A avaliar pelas diversas referências à expansão marítima, presentes no poema, pode concluir-se pela sua integração da segunda parte da Mensagem - "Mar Português".

8. A Mensagem representa, no universo poético pessoano, uma linha temática do nacionalismo, sebastianismo, e uma linha estética simbolista.

 

Fonte: Exame Nacional do Ensino Secundário n.º 139. 12.º Ano de Escolaridade (Decreto-Lei n.º 286/89, de 29 de agosto). Cursos de Carácter Geral e Cursos Tecnológicos. Prova Escrita de Português B. Portugal, GAVE, 1997, 1.ª fase, 1.ª chamada

 

 

Poderá também gostar de:

Fernando Pessoa - Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária da obra de Fernando Pessoa, por José Carreiro. 

 

Intertextualidade entre o poema “Praia” de Sophia de Mello Breyner Andresen e os poemas “Horizonte” e “D. Dinis” de Fernando Pessoa. In: Folha de Poesia, José Carreiro, 2024-07-05



“Horizonte, Fernando Pessoa” in Folha de Poesia, José Carreiro. Portugal, 20-12-2022. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/12/horizonte-fernando-pessoa.html


segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

O Infante: Deus quer, o homem sonha, a obra nasce (Fernando Pessoa)

 Fernando Pessoa, Mensagem

Segunda Parte - Mar Português

Possessio maris


Mar é símbolo do português; é lição do ter sido; é metáfora de todo o navegar e procura; é fonte inspiradora do Portugal a haver.

 

Os doze poemas da segunda parte correspondem ao ciclo do zodíaco completo: ciclo do que se cumpriu (o mar), mas também o ciclo do eterno retorno.

 

Os poemas I e XII ligam-se em ciclo:

- « Senhor, falta cumprir-se Portugal!» (I - «O Infante»[1])

- «E outra vez conquistaremos a Distância –
   Do mar ou outra, mas que seja nossa!» (XII - «Prece»)

 

 

Almada Negreiros (1893-1970). «O Infante» (Ilustração para Mensagem). 1934.



 

I

O Infante[2]






5





10


Deus quer, o homem sonha, a obra nasce,
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

 Fernando Pessoa, Mensagem. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934

 

Linhas de leitura do poema “O Infante”, de Fernando Pessoa:

1.ª parte: v. 1 

O poeta usou o nome «homem» para conferir um valor universal à afirmação. Aliás, os verbos no presente do indicativo confirmam essa intenção.

 

O poema parte, pois, de uma concepção providencialista da vida humana (a vida humana é regida por interesses superiores).

 

O 1.º verso é a expressão lapidar da conceção messiânica que já vinha a ser afirmada e continuará a ser um tema-guia da obra. Os três termos da afirmação axiomática ou aforística (de tipo proverbial) encadeiam-se por uma ordem lógica de causa-efeito: «Deus quer» (é o agente primeiro), «o homem sonha» (capta a intenção divina, está em sintonia com o divino), «a obra nasce» (efeito de um agente primeiro e de um agente segundo). Se Deus não quisesse, o homem não sonharia e a obra não nasceria.

 

2.ª parte: vv. 2-8 

A missão para a qual se escolheu o Infante foi unir a terra e o mar (vv. 2-3: «que a terra fosse toda uma, / Que o mar unisse»). Trata-se de uma teofania, isto é, uma revelação divina. Assim, as palavras estão carregadas de simbolismo iniciático:

  • vv. 3, 10 e 11 «mar» (símbolo de desconhecido, mistério); v. 8, «o azul profundo» (do mar imenso, do fundo do mistério, a ideia de origem, profundidade);
  • v. 4, «Sagrou-te», v. 9, «Quem te sagrou criou-te português» (consagrou-te, ungiu-te, destinou-te, Sagres. O infante surge-nos aqui mais como o símbolo do herói português escolhido por Deus para ser agente da sua vontade do que um ser individual),
  • v. 4, «desfazendo a espuma» (desfazendo o mistério);
  • v. 4, «espuma» (branca), v. 5, «orla branca», v. 6, «Clareou», v. 8 «Surgir» - aparecimento (todas estas palavras exprimem a passagem do mistério para a plena luz, sair das sombras, revelar-se, desocultar-se, tornar conhecido o desconhecido);
  • v. 7, «de repente» (carácter súbito e miraculoso da Revelação);
  • v. 8, «redonda» (a esfera é símbolo da unidade, da perfeição cósmica; no texto, símbolo da totalidade da obra querida por Deus);
  • v. 10, «nos deu sinal» (dar um sinal da partida para a aventura é dar a chave para decifrar o mistério).

 

A segunda parte do texto (vv. 2-8) apresenta-nos a vontade de Deus que quer toda a terra unida pelo mar (que a separava), confiando essa missão ao Infante, que levou, como por encanto, essa «orla branca» até ao fim do mundo, surgindo, em visão miraculosa, «a terra [] redonda, do azul profundo».

Esta segunda parte do texto subdivide-se em três momentos:

  • vv. 2-4: «Deus quis» até «Sagrou-te»: a ação de Deus (Deus, o agente da vontade, quer a unidade da terra);
  • v.4: a ação do Infante, herói ungido por Deus;
  • vv. 5-8: e a realização da obra por Revelação (o grandioso feito que transcende as forças humanas, próprias de heróis).

 

«O que interessa a Pessoa é que o infante é agente sacralizado de uma missão de descobrir o Mundo, de estreitar os laços entre os continentes e de criar um mar português [aspectos que se ligam à simbologia do grifo]» (António Machado Pires, 1987).

 

3.ª parte: vv. 9-12 

A 3.ª quadra representa um momento de síntese[3] e reflexão. Retoma-se a trilogia: «quem [Deus] te [o homem] sagrou criou-te português» para reflectir sobre ela e o seu significado histórico: «Do mar e nós em ti nos deu sinal.» – e aqui retoma-se a ideia de sinal, signo, bandeira – «Cumpriu-se[4] o Mar» (resultado do sonho do Infante e da vontade divina).

 

Transpõe-se para o povo português a glória do Infante («Quem te sagrou criou-te português», v. 9). O povo português foi, pois, o eleito por Deus para esta façanha.

 

Bruscamente, em corte abrupto, o poeta assinala o desmoronar-se do império dos mares – «e o Império se desfez» – é a tristeza, o «nevoeiro» a ensombrar os nossos dias.

 

O que falta, então, no futuro? 

«Senhor, falta cumprir-se Portugal!» (a “obra”). 

Como? É lícito, desde já, apontar a fórmula redentora: Que Deus volte a querer, que os homens (portugueses) voltem a sonhar – daí nascerá, certamente, a obra necessária a um novo ciclo histórico de grandeza.

 

Portanto, no último verso repete-se a dinâmica do primeiro: 

Deus –> homem –> acção = vontade de Deus –> sonho do homem –> epopeia.

  

O percurso do poema é do geral para o particular e do particular para o coletivo: 

O assunto evoluciona primeiro do geral (universal) para o particular: o «homem» e a «obra» do 1.º verso têm aplicação universal, ao passo que, na 2.ª parte, o «homem» se particulariza no Infante e a «obra» na epopeia marítima. Dá-se, depois, na passagem da 2.ª para a última parte do poema, uma mudança de sentido oposto: transição de um plano particular (Infante) para um plano geral/colectivo (Portugueses). 

 

Este é um poema onde se verifica a economia de linguagem e uma densidade de sentidos: 

  • o vocabulário próprio da Revelação, acima referido; 

  • a utilização das maiúsculas, que vem do Paulismo (Mar, Português) e procura chamar a atenção para a riqueza significativa das palavras; 

  • a rima, sempre cruzada, valoriza certas palavras que, aparecendo em fim de verso, vêem o seu significado alargado: «nasce» (v.1), «uma» (v. 2), «mundo» (v. 6), «português» (v. 9), «sinal» (v. 10), «Portugal» (v. 12).

 

O último verso só indiretamente formula uma súplica a Deus. Apenas se enuncia perante Ele um facto: «falta cumprir-se Portugal». Segundo a técnica simbolista, é mais belo sugerir do que afirmar por claro. Além disso, esta enunciação da súplica, não em forma imperativa, mas em forma informativa, relaciona-se com as características messiânicas do texto: o povo português é o eleito de Deus; basta que Deus veja o que falta a Portugal para na hora certa desencadear as acções necessárias para restabelecer a glória do seu povo.

 

As frases são curtas: seis frases correspondem cada uma a um verso. Isto está também dentro da técnica simbolista: exprimir muito em poucas palavras. Note-se, por exemplo, que o último verso do poema sugere mais do que claramente afirma. É uma frase aberta a muitos cambiantes de sentidos: não afirma claramente, sugere.

 

Bibliografia:
Aula Viva Português 12.º Ano, João Guerra e José Vieira, Porto Ed., 1999.
Dicionário da Mensagem, Artur Veríssimo, Porto, Areal Ed., 2000, pp. 55-56, 147-148.
Fernando Pessoa e Heterónimos – o texto em análise, A. A. Borregana, Lx, Texto Ed., 1995, pp. 25-27.
Fernando Pessoa e Heterónimos. Propostas de Análise, Avelino Soares Cabral, Mem Martins, Ed. Sebenta, [1997], pp. 90-92.
“Os Lusíadas de Camões e a Mensagem de Fernando Pessoa”, António Machado Pires, Actas da III Reunião Internacional de Camonistas, Coimbra, Universidade de Coimbra, 1987.
Para Compreender Fernando Pessoa, Amélia Pinto Pais, Porto, Areal Editores, 2001, pp. 131-132.



[1] Sob o signo de Carneiro: Carneiro (21 de março a 20 de abril) é o signo da impulsão criadora, sob os desígnios de Deus, a «força genésica que desperta o homem e o mundo (Chevalier e Gheerbrant; Dicionário de Símbolos, p. 160): «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.» Corresponde «à elevação do Sol, à passagem do frio para o calor, da sombra para a luz; o que não deixa de estar relacionado com as buscas do Velo de Ouro» (ibid.), isto é, com as Descobertas:

Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

 

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo

 

[2] O Infante D. Henrique surge anteriormente na Primeira Parte (Brasão), em O Timbre, como «A Cabeça do Grifo», onde é visto como criador de civilização e como mentor espiritual da ideia de navegar.

[3] Na 3ª estrofe, verifica-se a dinâmica da tese, antítese e síntese. Tese = epopeia marítima foi realizada por vontade de Deus e dos portugueses: «cumpriu-se o mar»; antítese: «o Império se desfez» (decadência); síntese: «falta cumprir-se Portugal» (nova acção Deus e do homem português para uma nova tese: uma nova epopeia, a última fase de Portugal, o Quinto Império).

Deus quer

o homem sonha

a obra nasce

quem

te

cumpriu-se o Mar

Senhor

 

falta cumprir-se Portugal

 

[4] A “obra”.







Questionário sobre o poema “O Infante”, de Fernando Pessoa:

1. O primeiro verso enuncia o sopro criador do sonho.

1.1. Identifique o sonho e o detentor desse poder.

1.2. Explicite o significado da sequência, nesse primeiro verso.

1.3. Identifique a construção sintáctica e refira a sua expressividade.

2. O vocabulário da segunda quadra é sugestivo de um caminho da perfeição. Mostre como, semanticamente, é possível essa leitura.

Identifique o recurso estilístico presente no verso 8 e refira a sua expressividade.

3. Em que medida o poeta considera a missão cumprida, se há um desejo presente que não se consumou?

4. Que análise faz o autor da importância de ser "português"?

 

Chave de correção:

1.1. O sonho: desvendar novos mares e continentes e ir "até ao fim do mundo".

Deus é o detentor do poder criador, enquanto o homem consegue sonhar.

1.2. A obra é fruto do sonho, graças ao poder e vontade de Deus.

1.3. Coordenação assindética a sugerir gradação e ação.

2. O branco da orla e a claridade sugerem pureza; o azul é símbolo do amor e da harmonia; a terra inteira e redonda remetem para a imagem do círculo, representativo da perfeição e da plenitude; os verbos ir (no pretérito perfeito) e correr (no gerúndio) lembram a existência de um caminho a percorrer para que no fim possa participar do conhecimento; o verbo ver (v. 3 da 2.a quadra) significa conhecer, compreender, saber.

Há uma metonímia ao substituir o horizonte pela sua cor de "azul profundo". Esta associação por contiguidade permite salientar a beleza e a harmonia sugerida pela cor do horizonte.

(A nível fónico é possível encontrar uma aliteração da dental d, que, associada às nasais e à vogal fechada u, remete para o misterioso e recôndito; também as sibilantes s, z evocam a ideia de continuidade, enquanto as líquidas r, l, sugerem o deslizar ou o aparecer da terra redonda.)

3. Cumpriu-se a missão marítima; mas, após a queda do Império, não houve a sua renovação; faltava "cumprir-se Portugal", ou seja, realizar-se e engrandecer-se num novo império civilizacional (a que chamou de "Quinto Império").

4. O "português" apresenta-se como o escolhido, o homem que sonha, que se lança à aventura e que conquista os mares.

(Nota informativa: o aluno, para responder ao questionário, não tem, obrigatoriamente, de conhecer toda a obra de Pessoa. Como apoio para uma melhor compreensão da mensagem deste texto, elucida-se que o poeta afirma, em alguns textos, que a raça portuguesa buscará uma nova Índia em naus construídas "daquilo de que os sonhos são feitos" e considera que a futura civilização europeia será portuguesa.) 

Disponível em: http://www.esa.esaportugues.com/programa/Mensagem/textoMensagem.htm (Consultado em 04-02-2003)


 

Poderá também gostar de:

Fernando Pessoa - Apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária da obra de Fernando Pessoa, por José Carreiro.




O Infante: Deus quer, o homem sonha, a obra nasce (Fernando Pessoa)” in Folha de Poesia, José Carreiro. Portugal, 19-12-2022. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/12/o-infante-deus-quer-o-homem-sonha-obra.html


domingo, 18 de dezembro de 2022

O Infante D. Henrique - A Cabeça do Grifo do Brasão na Mensagem, de Fernando Pessoa


Fernando Pessoa, Mensagem
Primeira Parte - Brasão
V - O Timbre



 

A Cabeça do Grifo
O INFANTE D. HENRIQUE

 

Em seu trono entre o brilho das esferas,
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras -
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.

26-9-1928

Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).  - 49.

Disponível em: http://arquivopessoa.net/textos/193


Heróis do «Brasão» 

(Artur Veríssimo, Ler a Mensagem de Fernando Pessoa – curso n.º 21/2001 do Centro de Formação de Associação de Escolas de S. Miguel e Santa Maria)


 

 

O Timbre: insígnia do escudo que marca os graus de nobreza; marca pessoal, sinal; símbolo de poder legítimo. 

Grifo: ave fabulosa com bico e asas de águia e corpo de leão; a águia triunfa sobre o leão, ou seja, o poder espiritual impõe-se ao poder material. 

Na Mensagem, o grifo representa seguramente a conclusão da luta entre o homem e o mar, a empresa das descobertas, a reunião do conhecido com o desconhecido, do Ocidente com o Oriente, e respectiva aniquilação dos lutadores: a perda da independência que logo se seguiu e a perda progressiva do império. E representa ainda seguramente o resultado da operação: a pedra astral, elevada a timbre da nação. (Carlos Silva Carvalho, «Aspectos formais do nacionalismo místico da Mensagem» in Colóquio/Letras, nº 62, Julho de 1981, p. 31) 

D. Henrique é o dominador  do «mar novo» e das «mortas eras», ou seja, do conhecido e do desconhecido, do novo e do velho. Projectando-se acima da medida humana comum («Em seu trono entre o brilho das esferas»), simboliza a ideia de descoberta, é a figura suprema do criador de civilização. Daí que seja « O único imperador que tem, deveras, / O globo mundo em sua mão.» 

Note-se que ter o «globo mundo em sua mão» significa estar no centro, dominar, com o poder do leão e a inteligência da águia (Dicionário da Mensagem, Artur Veríssimo. Porto, Areal Editores, 2000, 52-53).


 

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“O Infante D. Henrique - A Cabeça do Grifo do Brasão na Mensagem, de Fernando Pessoa” in Folha de Poesia, José Carreiro. Portugal, 18-12-2022. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/12/o-infante-d-henrique-cabeca-do-grifo-do.html