quarta-feira, 8 de março de 2023

Só o ter flores pela vista fora, Ricardo Reis

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Só o ter flores pela vista fora
Nas áleas1 largas dos jardins exatos
         Basta para podermos
         Achar a vida leve.

De todo o esforço seguremos quedas2
As mãos, brincando, pra que nos não tome
         Do pulso, e nos arraste.
         E vivamos assim,

Buscando o mínimo de dor ou gozo,
Bebendo a goles os instantes frescos,
         Translúcidos como água
         Em taças detalhadas,

Da vida pálida levando apenas
As rosas breves, os sorrisos vagos,
         E as rápidas carícias
         Dos instantes volúveis.

Pouco tão pouco pesará nos braços
Com que, exilados das supernas3 luzes,
         Scolhermos4 do que fomos
         O melhor pra lembrar

Quando, acabados pelas Parcas, formos,
Vultos solenes de repente antigos,
         E cada vez mais sombras,
         Ao encontro fatal

Do barco escuro no soturno rio,
E os nove abraços do horror estígio5,
         E o regaço insaciável
         Da pátria de Plutão7.

 

Ricardo Reis, Poesia, edição de Manuela Parreira da Silva, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000, pp. 36-37

 

__________

1 áleas (verso 2) – caminhos ladeados de árvores ou arbustos.

2 quedas (verso 5) – quietas; imóveis.

3 supernas (verso 18) – supremas; superiores.

4 Scolhermos (verso 19) – escolhermos.

5 Parcas (verso 21) – três divindades da mitologia romana que representam o destino: uma preside ao nascimento, outra ao casamento e a terceira à morte.

5 estígio (verso 26) – relativo ao Estige, rio dos Infernos na mitologia grega.

7 Plutão (verso 28) – deus dos Infernos, na mitologia romana.

 

Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

1. Explicite três traços da filosofia de vida exposta nas quatro primeiras estrofes. Fundamente a resposta com transcrições pertinentes.

2. Justifique o recurso à primeira pessoa do plural ao longo do poema.

3. De acordo com o conteúdo das três últimas estrofes, explique o modo como o sujeito poético perspetiva a morte.

 

Cenários de resposta

1. Nas quatro primeiras estrofes, é exposta uma filosofia de vida que se caracteriza por:

– um gosto pela fruição estética da natureza – «Só o ter flores pela vista fora / Nas áleas largas dos jardins exatos / Basta para podermos / Achar a vida leve.» (vv. 1-4);

– uma escolha da serenidade, o que conduz a uma atitude contemplativa – «De todo o esforço seguremos quedas / As mãos, brincando, pra que nos não tome / Do pulso, e nos arraste.» (vv. 5-7);

– uma atitude epicurista, que valoriza o prazer moderado – «Buscando o mínimo de dor ou gozo, / Bebendo a goles os instantes frescos,» (vv. 9-10);

– uma consciência da brevidade da vida, que conduz ao desejo de fruição do momento presente (carpe diem) – «As rosas breves, os sorrisos vagos, / E as rápidas carícias» (vv. 14-15).

2. O sujeito poético expõe um conjunto de normas que devem ser seguidas por todas as pessoas de modo a facilitar a vida humana e a aligeirar a dor provocada pelo facto de a vida ser efémera.

Neste sentido, o uso da primeira pessoa do plural – que surge nas formas verbais «podermos» (v. 3), «seguremos» (v. 5), «vivamos» (v. 8), «escolhermos» (v. 19), «fomos» (v. 19), «formos» (v. 21) e no pronome pessoal «nos» (vv. 6 e 7) – decorre de uma atitude normativa (ou exortativa) assumida pelo sujeito poético, incluído nessa primeira pessoa do plural.

Nota – não é obrigatória a apresentação de exemplos do uso da primeira pessoa do plural, ainda que estes figurem, a título ilustrativo, no cenário de resposta.

3. O sujeito poético perspetiva a morte de acordo com a conceção própria da antiguidade clássica, evidente:

– na ideia de que a vida humana é comandada pelo Destino, ou pelas Parcas, e de que as almas atravessam o rio Estige e chegam aos Infernos, à «pátria de Plutão» (vv. 21-28);

– na aceitação da morte, momento a que se deve chegar sem apego a nada e apenas recordando o que foi agradável, para que o sofrimento não seja tão penoso – atitude estoica (vv. 17-20).

 

Fonte: Exame Final Nacional do Ensino Secundário n.º 639 (Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de julho). Prova Escrita de Português - 12.º Ano de Escolaridade. Portugal, IAVE-Instituto de Avaliação Educacional, I.P., 2016, 2.ª Fase

 

https://picsart.com/create/editor?category=photos&app=t2i&projectId=6404b73113798f0012d40a61 (05-03-2023)



Outro questionário sobre o poema “Só o ter flores pela vista fora”, de Ricardo Reis:

1. Centre a sua atenção na primeira parte do poema (da 1.ª à 4.ª estrofes).

1.1. Explicite a feição moralista/didática aí presente, apoiando a sua resposta em marcas textuais.

1.2. Prove que este momento textual encerra uma lição de vida epicurista.

2. Identifique o tempo verbal que o poeta privilegia na segunda parte do texto (da 5.ª à 7.ª estrofes), justificando o seu emprego.

3. “Quando, acabados pelas Parcas, formos,”.

     Aponte a figura de estilo presente nesta citação textual, referindo o seu valor expressivo.

4. Mostre que o texto contém elementos clássicos e mitológicos.

Ponta Delgada, Escola Secundária Domingos Rebelo, 2006


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terça-feira, 7 de março de 2023

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo. (Ricardo Reis)

 







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Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no inverno os arvoredos,
        Nem pela primavera
        Têm branco frio os campos.

À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
        Com mais sossego amemos
        A nossa incerta vida.

À lareira, cansados não da obra
Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
        Não puxemos a voz
        Acima de um segredo,

E casuais, interrompidas sejam
Nossas palavras de reminiscência
         (Não para mais nos serve
        A negra ida do sol).

Pouco a pouco o passado recordemos
E as histórias contadas no passado
        Agora duas vezes
        Histórias, que nos falem

Das flores que na nossa infância ida
Com outra consciência nós colhíamos
        E sob uma outra espécie
        De olhar lançado ao mundo.

E assim, Lídia, à lareira, como estando,
Deuses lares1, ali na eternidade,
        Como quem compõe roupas
        O outrora componhamos

Nesse desassossego que o descanso
Nos traz às vidas quando só pensamos
        Naquilo que já fomos,
        E há só noite lá fora.

 

Ricardo Reis, Poesia, edição de Manuela Parreira da Silva, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000

 

_______

1 Deuses lares (verso 26) – deuses domésticos que protegem a habitação e a família.

 

Apresente, de forma clara e bem estruturada, as suas respostas aos itens que se seguem.

1. Relacione o sentido do primeiro verso com as referências à Natureza presentes nos versos 2 a 4.

2. Refira as normas de vida expostas nos versos 5 a 24, fundamentando a sua resposta com referências textuais pertinentes.

3. Explicite os valores simbólicos do espaço e do tempo em que ocorrem as recordações do passado.

4. Explique o conteúdo das duas últimas estrofes enquanto conclusão do poema.

 

Cenários de resposta

1. No primeiro verso, o sujeito poético expõe a ideia de que tudo ocorre num contexto preciso, determinado pelo curso natural das coisas.

As referências à Natureza presentes nos versos 2 a 4 sustentam esta ideia, fornecendo exemplos concretos. Estes mostram que a cada estação do ano corresponde um ambiente específico: no inverno, há frio e neve e é na primavera que as árvores florescem.

2. De acordo com os versos 5 a 24, é importante:

– viver de forma moderada e tranquila – «Com mais sossego amemos / A nossa incerta vida.» (vv. 7 e 8);

– evitar todo o esforço inútil – «Não puxemos a voz / Acima de um segredo» (vv. 11 e 12);

– lembrar o passado de forma ligeira, despreocupada e breve – «E casuais, interrompidas sejam / Nossas palavras de reminiscência» (vv. 13 e 14);

– rememorar as histórias «que nos falem» (v. 20) da «infância» (v. 21).

3. As recordações do passado ocorrem:

– numa noite de inverno, que, metaforicamente, corresponde à velhice;

– à «hora dos cansaços» (v. 10), propícia à rememoração e ao diálogo calmo e íntimo;

– à «lareira» (vv. 9 e 25), espaço associado ao conforto e à proteção.

4. As duas últimas estrofes sintetizam as ideias apresentadas anteriormente. Reafirma-se que a passagem do tempo conduz inevitavelmente à noite da vida e à recordação do «outrora» (v. 28).

Chegado este momento, deve adotar-se uma atitude serena, semelhante à dos «Deuses lares» (v. 26), e rememorar o passado de modo a tornar a passagem do tempo aceitável e agradável no presente.

 

Fonte: Exame Nacional do Ensino Secundário n.º 639 (Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de julho). Prova Escrita de Português - 12.º Ano de Escolaridade. Portugal, GAVE-Gabinete de Avaliação Educacional, 2013, 1.ª Fase

 


 

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segunda-feira, 6 de março de 2023

Antes de nós nos mesmos arvoredos, Ricardo Reis


 






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Antes de nós nos mesmos arvoredos
Passou o vento, quando havia vento,
E as folhas não falavam
De outro modo do que hoje.

Passamos e agitamo-nos debalde.
Não fazemos mais ruído no que existe
Do que as folhas das árvores
Ou os passos do vento.

Tentemos pois com abandono assíduo
Entregar nosso esforço à Natureza
E não querer mais vida
Que a das árvores verdes.

Inutilmente parecemos grandes.
Salvo nós nada pelo mundo fora
Nos saúda a grandeza
Nem sem querer nos serve.

Se aqui, à beira-mar, o meu indício
Na areia o mar com ondas três o apaga,
Que fará na alta praia
Em que o mar é o Tempo?

Ricardo Reis, Odes, Lisboa, Edições Ática, 1994

 

Apresente, de forma bem estruturada, as suas respostas aos itens que se seguem.

1. Explicite a relação que se estabelece entre «nós» e os elementos da Natureza referidos na primeira

e na segunda estrofes do poema.

2. Explique o sentido da terceira estrofe, tendo em conta uma das ideias filosóficas em que assenta a

poesia de Ricardo Reis.

3. Apresente uma justificação para o uso de um sujeito plural nas quatro primeiras estrofes do poema

e para o aparecimento da primeira pessoa do singular na última quadra.

4. Refira o valor expressivo da interrogação retórica presente na última estrofe.

 

Explicitação de cenários de resposta

1. A relação que se estabelece entre «nós» e os elementos da Natureza é caracterizada por:

– uma similitude de condições que decorre da participação da mesma realidade perene («Antes de nós nos mesmos arvoredos / Passou o vento, quando havia vento, / E as folhas não falavam / De outro modo do que hoje.» – vv. 1-4; «Não fazemos mais ruído no que existe / Do que as folhas das árvores / Ou os passos do vento» – vv. 6-8);

– uma dissimilitude de condições que decorre da finitude e da transitoriedade que caracterizam o homem e a sua consciência do tempo («Passamos» – v. 5) e da consciência da inutilidade do esforço humano («agitamo-nos debalde» – v. 5).

2. A terceira estrofe contém uma exortação à fruição calma do momento, à serenidade epicurista do contacto direto com a Natureza («Tentemos pois com abandono assíduo / Entregar nosso esforço à Natureza» – vv. 9-10), e ao desejo único de identificação com ela («E não querer mais vida / Que a das árvores verdes.» – vv. 11-12), numa indiferença à perturbação causada pela ameaça inelutável do Fatum.

Nota: A resposta pode conter outros conceitos do conhecimento dos examinandos, tais como carpe diem, aurea mediocritas, ataraxia, estoicismo, …

3. Nas quatro primeiras estrofes do poema, refere-se um destino comum a todos os homens, através do recurso a um sujeito plural («nós» – v. 1, «Passamos» – v. 5, «agitamo-nos» – v. 5, «Não fazemos» – v. 6, «Tentemos» – v. 9, «nosso» – v. 10, «parecemos» – v. 13, «nós» – v. 14, «Nos» – v. 15, «nos» – v. 16).

Na última quadra, evoca-se a situação particular do «eu» e refere-se a experiência direta da fugacidade da vida e da passagem inexorável do Tempo, através do recurso a um sujeito singular de primeira pessoa («o meu indício» – v. 17).

4. Toda a última estrofe é constituída por uma interrogação retórica que remete para a consciência que o «eu» possui da fugacidade da vida e que releva o fosso existente entre a pequenez humana («Se aqui, à beira-mar, o meu indício / Na areia o mar com ondas três o apaga,» – vv. 17-18) e a vastidão e a inexorabilidade do Tempo («Que fará na alta praia / Em que o mar é o Tempo?» – vv. 19-20).

 

Fonte: Exame Nacional do Ensino Secundário n.º 639 (Decreto-Lei n.º 74/2004, de 26 de março). Prova Escrita de Português - 12.º Ano de Escolaridade. Portugal, GAVE-Gabinete de Avaliação Educacional, 2009, 2.ª Fase

 

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domingo, 5 de março de 2023

Segue o teu destino, Ricardo Reis

 


 





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Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras1
Como ex-voto2 aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis, Odes, Lisboa, Ática, 1970

_______

1 aras: altares.

2 ex-voto: objeto que se oferece em cumprimento de uma promessa.

 



 

Questionário sobre o poema “Segue o teu destino”, de Ricardo Reis.

1. Ricardo Reis defende o prazer e a busca da calma ou a sua ilusão para viver feliz.

1.1. Explique o sentido do verso "Ama as tuas rosas", tendo em conta os conselhos dados na primeira estrofe.

1.2. Comente a construção dos primeiros três versos, atendendo às formas verbais e à função da linguagem.

2. Mostre em que medida se diferencia a realidade daquilo que "somos".

3. Escolha a expressão que melhor exprima a apatia como ideal ético. Justifique.

4. Prove que é necessária a ataraxia para viver com satisfação, mas que a calma e a felicidade são inatingíveis, mesmo para os deuses.

5. Comente o pensamento epicurista que se depreende do poema.

6. Enquadre esta composição na produção poética de Ricardo Reis. 


 


Chave de respostas

1.1. O sentido do verso "Ama as tuas rosas": no primeiro verso, surge o conselho dado a um "Tu" de seguir o seu destino e de se preocupar com o momento presente e com aquilo que lhe diz diretamente respeito ("as tuas plantas", "as tuas rosas"), pondo de parte o que lhe é alheio.

1.2. Nos primeiros três versos, encontramos o uso do imperativo e a função apelativa da linguagem.

2. A realidade nem sempre corresponde àquilo que desejamos: é sempre mais ou menos do que aquilo que queríamos alcançar (a realidade está dependente do destino); nós, sendo iguais a nós próprios, seremos sempre aquilo que queremos ser, se soubermos tentar alcançar apenas o que nos foi predestinado.

3. Todo o poema exprime uma atitude de apatia como ideal ético, mas os versos "Vê de longe a vida. / Nunca a interrogues." ou "Grande e nobre é sempre / Viver simplesmente." demonstram a aceitação calma de tudo o que o destino nos reserva, sem questionar e sem nos apegarmos à vida...

4. A ataraxia é necessária para vivermos com satisfação, porque a calma, a tranquilidade e a felicidade são essenciais para a nossa vida; no entanto, são também inatingíveis, porque a realidade "é sempre mais ou menos do que queremos", porque a concretização nem sempre corresponde às intenções ou às expectativas. O destino, de facto, comanda a vida e as explicações para os acontecimentos estão mesmo "para além dos deuses" (v. 20).

5. Do poema depreende-se um pensamento epicurista pela busca de uma atitude que harmonize todas as faculdades, que atinja o equilíbrio, a calma e a tranquilidade, evitando, assim, as preocupações que a fugacidade da vida possam causar. Daí, a intenção de buscar o isolamento ("suave é viver só"), ver "de longe a vida", vivendo simplesmente e aproveitando o momento presente.

6. As razões que nos permitem enquadrar esta composição na produção poética de Ricardo Reis são:

- a referência a ideais clássicos;

- o tom moralista (uso dos imperativos);

- a aceitação passiva da ordem das coisas ("vê de longe a vida");

- a busca da perfeição e do equilíbrio;

- a ideia de que não nos devemos prender demasiado ao momento presente, porque a vida é fugaz;

- o epicurismo;

- o individualismo (vv. 1, 11). 

 

Disponível em: http://www.esa.esaportugues.com/programa/Reis/texto1RR.htm (Consultado em 17-02-2015)

 




Comentário de texto

Elabore um comentário do poema em que desenvolva os seguintes tópicos:

- regras principais de uma arte de viver;

- função do emprego do modo imperativo;

- relação estabelecida entre os homens e os deuses;

- integração no universo poético de Ricardo Reis.

 

Explicitação de cenários de resposta

Regras principais de uma arte de viver

«Segue o teu destino»; «Vê de longe a vida. / Nunca a interrogues.»; «serenamente / Imita o Olimpo»: estas formulações apontam para a regra por excelência proposta ao leitor, que é a de não se questionar sobre o sentido ou o mistério da vida, permanecendo sem inquietação e sem ansiedade, antes com tranquilidade e desprendimento.

«Suave é viver só.»; «Grande e nobre é sempre/ Viver simplesmente.»: aqui, registam-se como indicações importantes a de viver sozinho e a de viver com simplicidade - embora «Viver simplesmente» também se possa ler «simplesmente viver», isto é, viver sem fazer perguntas metafísicas, tal como «viver só» pode significar «viver apenas».

Outra ideia forte é a da não coincidência entre desejo e realidade («A realidade / Sempre é mais ou menos / Do que nós queremos.»), ideia que está ligada às instruções já referidas: não se questionar e não ansiar por nada.

 

Função do emprego do modo imperativo

O imperativo é utilizado no poema, não como o modo da ordem, mas como o do conselho, servindo para a prescrição de normas de vida simples e serena. Os três primeiros versos, por exemplo, contêm, em três orações paralelas, três dessas normas.

Por outro lado, a alternância entre o imperativo e o presente do indicativo, ao longo do poema, mostra como as regras de vida que são propostas decorrem de uma observação e avaliação da realidade.

 

Relação estabelecida entre os homens e os deuses

Primeiro, há uma relação de distância, patente na oferenda de ex-votos.

Depois, percebe-se uma relação de proximidade e de quase identificação: o facto de a «resposta» estar «além dos deuses» implica que a pergunta que os homens fazem também não pode ser respondida pelos deuses, e que eles estão na mesma situação que os homens perante o mistério do mundo.

Daí que a última estrofe aconselhe os homens a imitarem «O Olimpo» e a aproximarem-se, portanto, dos deuses. A característica essencial dos deuses que deve ser imitada pelos homens é a de que «não se pensam», isto é, não tentam interrogar o sentido da vida - numa palavra, vivem simplesmente.

 

Integração no universo poético de Ricardo Reis

Esta poesia parte do ensinamento do mestre Caeiro - o não pensar, o nada desejar, o viver das sensações -, pois Ricardo Reis é um dos seus discípulos. Mas há um tom moral de ascendência estoica que a este último heterónimo advém, por seu turno, da educação clássica, donde procede também o seu gosto pelas formas regradas da poética horaciana.

Faz parte do seu modo particular de entender o ensinamento de Caeiro a emergência do paganismo. As referências constantes aos deuses da Antiguidade greco-latina são uma forma privilegiada de entender e de formular a primazia do corpo, das formas, da natureza, dos aspetos exteriores da realidade, sem cuidar da subjetividade ou da interioridade.

 

Fonte: Exame Nacional do Ensino Secundário n.º 134. 12.º Ano de Escolaridade - Via de Ensino (4.º curso). Prova Escrita de Literatura Portuguesa, 2000, 1.ª fase, 1.ª chamada


 

 

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sábado, 4 de março de 2023

Mestre, são plácidas todas as horas que nós perdemos, Ricardo Reis


 

 





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Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.

Não há tristezas 
Nem alegrias
Na nossa vida. 
Assim saibamos,
Sábios incautos1,
Não a viver,

Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Tendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza…

À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.

O Tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quasi2
Maliciosos,

Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre3.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido

Ricardo Reis, Poesia, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000

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1 incautos: sem cautelas, sem preocupações.

2 quasí: forma arcaizante de quase.

3 deus atroz / Que os próprios filhos / Devora sempre: referência ao deus grego Cronos, cujo nome significa em português Tempo; este deus devorava os filhos ao nascer.


Saturno devorando um filho, Goya, 1818-1823



Apresente, de forma bem estruturada, as suas respostas ao questionário.

1. Caracterize a relação entre «nós» e o «Tempo».

2. Explicite um dos efeitos de sentido produzidos pelas formas verbais «saibamos» (vv. 10 e 28), («Colhamos» (v. 37) e «Molhemos» (v. 38).

3. Interprete o valor simbólico das referências às «flores» (vv. 6 e 37), aos «Girassóis» (v. 43), aos «rios» (v. 40).

4. Refira a importância, no texto, do vocabulário relativo à ideia de calma.

5. Sintetize a filosofia de vida expressa no poema.

 


Explicitação de cenários de resposta

1. O sentido da relação entre «nós» e o «Tempo» está simbolizado na referência à figura mitológica de Cronos, o deus que devora os filhos: o «Tempo» é assim definido como o pai e, simultaneamente, o devorador, o aniquilador de «nós».

A consciência do carácter inelutável desse facto exige a aprendizagem da sua total aceitação por parte do «nós», de modo a saber conformar-se às leis do tempo (ao devir da vida, à inscrição do tempo em «nós» - «Envelhecemos.»).

2. O uso das formas verbais «saibamos» (w. 10 e 28), «Colhamos» (v. 37) e «Molhemos» (v. 38) – na 1.ª pessoa do plural do modo conjuntivo, com valor imperativo/optativo - produz, entre outros, os seguintes efeitos de sentido:

- constrói um sentido exortativo, dirigido a um «nós»;

- contribui para a formulação de máximas que encerram ensinamentos de vida;

- confere ao texto o estatuto de proposta de uma filosofia geral de vida;

- …

3. Os elementos «flores», «Girassóis» e «rios» presentificam a «Natureza» como a realidade com que o «nós» se identifica, convocando ainda cada um deles valores simbólicos próprios. Assim, as «flores» representam a beleza perecível; os «Girassóis» (que mudam de orientação, acompanhando o movimento do Sol), a vida iluminada e regida pera luz do Sol; os «rios», a passagem das «horas», do «Tempo».

4. Os adjetivos «plácidas» (v. 1), «Tranquilos» (vv. 14 e 46), «plácidos» (v. 14), «calmos» (v. 40) e os nomes «Calma» (v. 42) e «descanso» (v. 23) tornam recorrente no poema a ideia de calma e de serenidade. Contribuem, assim, para afirmar a centralidade do tema do sossego absoluto, sem qualquer perturbação, entendido como o ideal a atingir na vivência do «Tempo».

5. A filosofia de vida expressa no poema é a defesa da arte de viver sem envolvimento emocional com o presente e sem expectativas de futuro, por forma a chegar à morte sem sobressalto e com o mínimo de sofrimento («Não a viver» - v. 12; «tendo / Nem o remorso / De ter vivido» - vv. 46-48). O sujeito poético aspira a «decorrê-la» [à vida], isto é, a atingir a sensação elementar de existir, aceitando voluntariamente o seu destino, aprendendo a viver em conformidade com as leis da «Natureza», aceitando, com calma lucidez, a relatividade e a fugacidade de todas as coisas, recusando «tristezas» e «alegrias», na busca da indiferença à dor, ao desprazer, a qualquer sentimento extremo.

 

Fonte: Exame Nacional do Ensino Secundário n.º 139. 12.º Ano de Escolaridade (Decreto-Lei n.º 286/89, de 29 de agosto). Cursos Gerais e Cursos Tecnológicos. Prova Escrita de Português B. Portugal, GAVE, 2002, 2.ª fase

 



 

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