sexta-feira, 9 de agosto de 2013

AR LIVRE (Miguel Torga)


“Registo de Adolfo [Correia] Rocha, de pseudónimo Miguel Torga”
pertencente ao fundo “PIDE” do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

               

            
AR LIVRE

Ar livre, que não respiro!
Ou são pela asfixia?
Miséria de cobardia
Que não arromba a janela
Da sala onde a fantasia
Estiola e fica amarela!

Ar livre, digo-vos eu!
Ou estamos nalgum museu
De manequins de cartão?
Abaixo! E ninguém se importe!
Antes o caos que a morte...
De par em par, pois então?!

Ar livre! Correntes de ar
Por toda a casa empestada!
(Vendavais na terra inteira,
A própria dor arejada,
- E nós nesta borralheira
De estufa calafetada!)

Ar livre! Que ninguém canta
Com a corda na garganta,
Tolhido da inspiração!
Ar livre, como se tem
Fora do ventre da mãe
Desligado do cordão!

Ar livre, sem restrições!
Ou há pulmões,
Ou não há!
Fechem as outras riquezas,
Mas tenham fartas as mesas
Do ar que a vida nos dá!
            
Miguel Torga, Cântico do Homem, 1950
               

                                                       CÂNTICO DO HOMEM, Miguel Torga
               
                   
Ao longo de quase quarenta anos, estas referências ao poder castrador da censura faziam parte integrante das obras dos mais variados escritores que lutavam denodadamente para que a liberdade fosse, realmente, acessível a todos. Sem ela, o ser humano vive com “a corda na garganta” e, assim ameaçado, nem o poeta pode cantar, já que foi “tolhido da inspiração”, como refere Miguel Torga.
A asfixia do sujeito poético, que pode simbolizar a de todo um país, é recorrentemente enfatizada no poema devido à repetição anafórica da expressão “Ar livre”, associada às frases exclamativas. Numa espécie de diálogo virtual com o recetor plural (“Ar livre, digo-vos eu!”), explicita-se o que está na origem dessa falta de ar. Vive-se estagnado, confinado a um tempo passado e hermético, impermeável à mudança já que o sujeito tem consciência de que vive “nalgum museu”, que as janelas estão fechadas como numa “estufa calafetada” e ninguém age devido à “Miséria de cobardia”. Tolhida a fantasia, retidos num tempo-outro que os distancia do mundo por onde passam “Vendavais”, nem os construtores de palavras conseguem cantar. Assim sendo, o sujeito poético deseja vivamente o caos – dado que o encara como o oposto da morte em que vivem -, o poder usar os pulmões e respirar livremente, sentir que voltou a estar “Fora do ventre da mãe/Desligado do Cordão!”. A possibilidade de dizer o que pensa, de não ser comandado por uma força exterior a si próprio leva o sujeito poético a solicitar que todas as riquezas sejam fechadas, mas que lhe permitam ter acesso àquela que é essencial ao homem: o “ar que a vida nos dá!”.
Este poema de Torga coaduna-se com a posição defendida por Italo Calvino a propósito da função do escritor do século XXI. Se, num século onde aparentemente as ditaduras não existem – as políticas, as instituídas pelo poder político ‑, há ainda a necessidade de o escritor manifestar um empenho político, em tomar partido e comprometer-se com a divulgação de determinadas ideias; essa atitude de compromisso com um quotidiano silenciado, aprisionado, que urgia debelar, era ainda mais fulcral na época das ditaduras, como foi o caso de grande parte do século XX em Portugal.
“Nunca, como no momento actual, a realidade desafiara tão ostensivamente os artistas, e, mais do que nunca, eles sentiam a urgência de a olhar de frente e desmascarar, para que não ficassem sem denúncia e acusação os crimes do mundo.” (Miguel Torga, A Criação do Mundo ‑ 1937-1981)
                 
Portugal sob a égide da ditadura: o rosto metamorfoseado das palavrasTese de mestrado de Paula Fernanda da Silva Morais. Universidade do Minho – Instituto de Letras e Ciências Humanas, julho de 2005, pp. 50-52.
           
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[…] não é tão-pouco por acaso que se intitula A Criação do Mundo a autobiografia que Torga escreveu e que, ainda que transposta em termos ficcionais, logo subentende um íntimo acordo, ou o desejo de um íntimo acordo, entre a respiração do homem e a respiração do mundo. Mas, nesse desejo, igualmente se contém um esforço de correção recíproca entre aqueles dois ritmos respiratórios.
Seja como for, é principalmente no domínio da poesia torguiana que tal desejo e tal esforço aparecem mais patentes, mais nítidos ou, pelo menos, mais isoladamente "audíveis”. Assim acontece, nomeadamente, no poema “Ar Livre” do livro Cântico do Homem, publicado em 1950, poema esse que poderá ‑ ou deverá ‑ ser simultaneamente lido em duas diferentes claves ‑ uma literal e outra simbólica, uma no teclado da natureza e outra no do protesto político ‑ o que de imediato lhe confere a dobrada espessura de solilóquio e de coro, ou de «monumento» individual e de «documento» coletivo, numa aparente ambiguidade que se impõe afinal como negação da ambiguidade.
“Ou há pulmões / Ou não há”: esta clara disjuntiva, remate de algumas outras que constituem o suporte estrutural do texto, desvenda também a preocupação de que a respiração do homem terá de ser equivalente à respiração do mundo ‑ e de que este só respira bem, se, em conjunto, a Natureza e a História assim o permitirem.
           
David Mourão-Ferreira, Boletim Cultural do Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian, n.º 10, dedicado a Miguel Torga, maio de 1988, pp. 10-12
           
           
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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/08/09/miguel.torga.ar.livre.aspx]
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