sábado, 10 de agosto de 2013

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO (1957-1961)


 -NOTÍCIAS DO BLOQUEIO (1957-1961)
            
Notícias do Bloqueio ‑ Série de nove "fascículos de poesia" publicados no Porto, entre 1957 e 1961, sob a direção de Egito Gonçalves, Daniel Filipe, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão, Ernâni Melo Viana e António Rebordão Navarro. Incluíam poesia empenhada, que se insurgia contra o mundo circundante (a violência, a injustiça, a falta de liberdade) e afirmava o valor da solidariedade com o próximo.
A designação da revista, retirada do título de um poema de Egito Gonçalves, publicado no 4.° fascículo de Árvore, remete para um programa de poesia de resistência, aludindo metaforicamente ao cerco a que estavam submetidos os intelectuais portugueses.
Sem apresentar texto programático, nem textos de crítica ou teoria poética, a publicação reúne criação poética de autores com opções estéticas diversas (além da direção, Jorge de Sena, Casais Monteiro, Miguel Torga, Afonso Duarte, António José Fernandes, Vasco Costa Marques, Mário Henrique Leiria, Maria Almira Medina, João Ribeiro Melo, Orlando da Costa, José Fernandes Fafe, António Reis, Daniel Filipe, Joaquim Namorado, João Rui de Sousa, Alexandre O'Neill, Mário Dionísio, Armindo Rodrigues, José Augusto Seabra, Pedro Alvim, Maria Teresa Rita, Gastão Cruz), mas que colaboram sistematicamente com composições subordinadas a um intuito de denúncia e combate. Cada fascículo incluía, ainda, nas últimas páginas, tradução de poetas estrangeiros (Brecht, Guillevic, Stephan Hermlin, Jorge Carreara Andrade, Jean Todrani, Nicolau Vaptzarov). Os fascículos 6 e 8 são dedicados a poetas moçambicanos e angolanos.
http://auladeliteraturaportuguesa.blogspot.pt/2010/07/noticias-do-bloqueio.html
            
            
NOTÍCIAS DO BLOQUEIO
Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval,
a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
os dias que embranquecem os cabelos…
Tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
– único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima…

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva e a esperança reproduz-se
                        
Egito Gonçalves, Notícias do Bloqueio, 1952
                       
                       
Egito Gonçalves (1920-2001) é poeta, editor e tradutor. Participou na fundação e na direção de diversas revistas literárias, como A Serpente (1951), Árvore (1952-54), Notícias do Bloqueio (1957-61), Plano (1965-68), Limiar (1992). O poema "Notícias do Bloqueio" (1952) e é certamente o mais emblemático de sua trajetória poética tendo-se tornado um símbolo da militância política em tempos da ditadura e gerando o nome da revista que ele dirigiu entre 1957 e 1961.
Ao longo do poema de Egito Gonçalves – em tempos difíceis da ditadura portuguesa – o eu lírico envia notícias de um espaço bloqueado, de “dias que embranquecem os cabelos”, em que o silêncio, “duro e violento”, é dado como alimento àqueles cerceados pelo bloqueio: “Dirás como trabalhamos em silêncio, / como comemos silêncio, bebemos / silêncio, nadamos e morremos / feridos do silêncio duro e violento”.
Não poderia passar impune, portanto, a utilização da palavra bloqueio como modo de definição do espaço português.
                       
“Cada vida é um corpo a fecundar”: os corpos amados na poesia de Helder Macedo, dissertação de mestrado de Carolina Casarin da Fonseca Hermes. Rio de Janeiro, UFRJ/ Faculdade de Letras, 2008.
                       
                       
NOTÍCIA PARA COLAR NA PAREDE
Por aqui andamos a morder as palavras
dia a dia no tédio dos cafés
por aqui andaremos até quando
a fabricar tempestades particulares
a escrever poemas com as unhas à mostra
e uma faca de gelo nas espáduas
por aqui continuamos ácidos cortantes
a rugir quotidianamente
até ao limite da respiração
enquanto os corações se vão enchendo de areia
lentamente
lentamente.
                
Egito Gonçalves, Notícias do Bloqueio, n.º 3, p. 61
Poemas Políticos (1952-1979)
Lisboa, Moraes Editores, 1980, pág. 53.
                       
                       
                                                  
                       
                       
COM PALAVRAS
Com palavras me ergo em cada dia!
Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto
e saio para a rua.
Com palavras - inaudíveis – grito
para rasgar os risos que nos cercam.

Ah!, de palavras estamos todos cheios.
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor
em quatro ou cinco línguas.
Tomamo-las à noite em comprimidos
para dormir o cansaço.

As palavras embrulham-se na língua.
As mais puras transformam-se, violáceas,
roxas de silêncio. De que servem
asfixiadas em saliva, prisioneiras?

Possuímos, das palavras, as mais belas;
as que seivam o amor, a liberdade...
Engulo-as perguntando-me se um dia
as poderei navegar; se alguma vez
dilatarei o pulmão que as encerra.

Atravessa-nos um rio de palavras:
Com elas me deito, me levanto,
e faltam-me palavras para contar...
            
Egito Gonçalves, Poemas Políticos (1952-1979)
Lisboa, Moraes Editores, 1980
              
              
Da mesma forma que Manuel Alegre referia que as palavras foram “tantas vezes violadas”, também Egito Gonçalves, no poema “Com Palavras”, reflete sobre as limitações do seu material de escrita.
O poema indicia, desde logo, que no decurso do texto vai ser feita a apologia ou a rejeição do material com que o poeta exerce o seu ofício: as palavras. Não é, por isso, de estranhar, que o vocábulo “palavras” e a expressão “Com palavras” apareçam disseminados insistentemente ao longo do texto; essa proliferação torna-se mais evidente não só pelo uso da anáfora na primeira estrofe mas também pela sua substituição por pronomes pessoais e determinantes artigos definidos.
A ênfase colocada nesse material linguístico é importante na medida em que o poema surge como um questionar a utilização que damos às palavras, a forma como elas nos perseguem quotidianamente nas mais ínfimas tarefas e a incapacidade de comunicarmos por não descobrirmos a palavra adequada ou por ela nos estar vedada. Decorrente dessa reflexão, o sujeito poético constatará, no final, que “Com elas [se deita], [se levanta], / e faltam-[lhe] palavras para contar…”; consciente do poder da palavra enquanto veículo de transmissão das ideias, enquanto meio de controlar os seres pela persuasão do discurso, o sujeito poético apreende que as muitas palavras que tem ao seu dispor não lhe permitem verbalizar as suas ideias, não são as suficientes para comunicar, daí o uso das reticências no final de alguns versos para tentar substituir os vocábulos em falta. A angústia que domina o Eu é tanto maior, quanto a sua certeza de que “de palavras estamos todos cheios”. Há, assim, uma espécie de saturação, de opressão gerada pelas palavras que a aliteração das sibilantes e reiteração sistemática do vocábulo “palavras” propiciam.
Por outro lado, a vida do sujeito poético é feita de palavras. É com elas que ele se ergue (de notar o valor desta forma verbal, conotada com a edificação de nações e com princípios religiosos), se lava e sai para a rua. O domínio das palavras é tanto mais desesperante quanto maior é o arquivo do léxico de uma língua de que dispomos: não só dominamos a nossa como outras. O próprio vocábulo “arquivos” salienta o facto de esse conhecimento ser meramente passivo. Verifica-se, desta forma, um esvaziamento do sentido das palavras já que nos limitamos a “[sabê-las] de cor”. Essa bipolarização – palavra ativa e palavra passiva – permite que elas adquiram uma nova função: a de analgésico: “Tomamo-las à noite em comprimidos / para dormir o cansaço”. Se a metáfora lhes concede o efeito de um calmante, a personificação e a transformação de um verbo intransitivo em transitivo (“dormir”) salienta a possibilidade de alienação, o efeito do cansaço sobre a capacidade de utilizar pertinentemente as ideias e as palavras.
A ausência de comunicação não é só notória quando o cansaço se instaura. É com as palavras que o rodeiam que o sujeito poético procura “rasgar os risos que nos cercam”; neste caso, todos os ruídos que dificultam a comunicação. Dificuldades essas realçadas pela aliteração da vibrante e das sibilantes bem como pelo uso da antítese “Com palavras inaudíveis – grito”. A vontade que o sujeito exprime é inglória já que o seu grito não ultrapassa a barreira criada pelos risos. Por isso, o verbo “cercar” enfatiza a ideia da prisão que os envolve assim como a utilização dos travessões a ladear o adjetivo “inaudíveis”. Essa incapacidade em transmitir uma mensagem afeta a própria essência das palavras. Por essa razão, elas “embrulham-se na língua” e “As mais puras transformam-se, violácea / roxas de silêncio”. Cria-se uma espécie de dislexia gerada por uma certa asfixia advinda da ausência de comunicação que afeta até as palavras mais cristalinas. Esta transformação é reforçada pela gradação ao nível das cores e pela metáfora que intensificam o silêncio avassalador. É este último, motor das transformações, que gera a crueldade nas palavras e que, tal como os risos, as torna prisioneiras. Perante essa constatação, o sujeito poético não podia deixar de questionar para que servem elas afinal se não são livres. Essa pergunta retórica permite, então, equacionar a validade das palavras já que elas estão em prisão perpétua. Perante este descalabro, verifica-se que “Possuímos, das palavras, as mais belas” e, pela primeira vez, surge um sema positivo já que essas são as palavras que “seivam o amor, a liberdade”. Dado que estas últimas parecem ter vida própria, não perderam ainda a sua significação, são engolidas como se fossem comprimidos. A ânsia em possui-las, em fazer livre uso desse material linguístico é bem evidente na forma como o Eu as utiliza, perguntando-se “se um dia/as [poderá] navegar”, se será capaz de dilatar o “pulmão que as encerra”. Porém, a total liberdade de circulação das palavras só poderá ser alcançada num futuro distante; facto corroborado pelo uso simultâneo da conjugação perifrástica no futuro, do próprio futuro do indicativo e da conjunção subordinada condicional. Projeta-se, dessa forma, no futuro a possibilidade de abolir todas as limitações, todas as incapacidades em comunicar; contudo a esse sonho de navegar as palavras, de as libertar da clausura imposta, contrapõe-se a certeza de que essa prisão parece ser perpétua (salienta-se o uso do verbo “encerrar” no presente do indicativo que intensifica a ideia de impenetrabilidade).
Ao observar todo o processo que envolve as palavras, conclui-se que somos atravessados por “um rio de palavras”; que elas estão em contínua ebulição, não estão estagnadas. Contudo, não é possível fazer uso de toda essa efervescência já que há lexemas que não podem ser utilizados, daí a constatação final de que apesar dos muitos vocábulos que tem ao seu dispor, o Eu não encontra as palavras que desejaria para “contar”.
[…]
Se a análise do poema de Egito Gonçalves proporciona o evidenciar de uma utilização incorreta das palavras, o facto de ele ter sido publicado na coletânea Poemas Políticos permite, desde logo, aceder à intenção do autor. Apesar de o poema abordar o seu material de trabalho, ele tem uma função interventiva ao nível das circunstâncias externas à sua conceção. Desta perspetiva, o leitor facilmente detetará as referências ao regime político: as palavras que rodeiam o sujeito poético são aquelas que o Estado impõe; as que ele gostaria de gritar, são as silenciadas, as que foram proibidas – daí serem inaudíveis – e que não são capazes de rasgar a aparência quotidiana em que vivem as pessoas. Por isso mesmo, impedidos do uso da palavra, os homens vivem numa dislexia coletiva que os leva a deturpar o sentido das palavras, a utilizá-las não para comunicar mas para asfixiar aquelas que gerariam a liberdade. Decorrente desta situação, as palavras associadas ao amor e à liberdade são usadas como analgésicos que possibilitarão, num futuro incerto, a ocorrência da comunicação: “Engulo-as perguntando-me se um dia/as poderei navegar; se alguma vez/dilatarei o pulmão que as encerra.” Esse pulmão, que é o aparelho de Estado e o braço da censura, faz com que as palavras sejam selecionadas a priori bem como os seus significados; por isso, o sujeito poético tem consciência que é atravessado por “um rio de palavras”, mas faltam-lhe “palavras para contar” já que ele não pode usar todos os arquivos que possui.
Neste poema há, assim, uma co-fusão da intenção do autor (recriminar a falta de liberdade e a forma como as palavras são silenciadas) com a interpretação que o próprio poema sugere (a referência contínua à incapacidade em comunicar, na oposição entre o domínio passivo da língua e a utilização que dela é feita) e, ao mesmo tempo, com as expectativas dos leitores. Quer o leitor da época quer o posterior, devido ao próprio título da obra e à data da sua publicação, vai incluir na sua interpretação mais do que a mera constatação de que o poema aborda a função do material de escrita do poeta. Consciente ou inconscientemente, o leitor apreende essas insinuações à forma como o regime cerceava a capacidade comunicativa dos textos e das pessoas e o mutismo generalizado, consequência dessa falta de palavras.
                 
Portugal sob a égide da ditadura: o rosto metamorfoseado das palavrasTese de mestrado de Paula Fernanda da Silva Morais. Universidade do Minho – Instituto de Letras e Ciências Humanas, julho de 2005, pp.60-63, 70-71.
           
           
PODERÁ TAMBÉM GOSTAR DE LER:
           
   
                    

Enviar um comentário