sábado, 22 de setembro de 2012

ACORDANDO (Antero de Quental)

  
 estreia em televisão… “Anthero – O Palácio da Ventura”, dia 1 de Junho

           
        
ACORDANDO

Em sonho, às vezes, se o sonhar quebranta
Este meu vão sofrer, esta agonia,
Como sobe cantando a cotovia,
Para o céu a minh'alma sobe e canta.

Canta a luz, a alvorada, a estrela santa,
Que ao mundo traz piedosa mais um dia...
Canta o enlevo das coisas, a alegria
Que as penetra de amor e as alevanta...

Mas, de repente, um vento húmido e frio
Sopra sobre o meu sonho: um calafrio
Me acorda - A noite é negra e muda: a dor

Cá vela, como dantes, a meu lado...
Os meus cantos de luz, anjo adorado,
São sonho só, e sonho o meu amor!
         
Antero de Quental, Sonetos
       



           
TEXTO DE APOIO
          
No poema “Acordando”, de Antero de Quental, “é nítida a oposiçãoSonho/Realidade, que constitui precisamente o tema do poema.

Na verdade, estes dois aspetos estão perfeitamente delimitados no texto, estando o Sonho expresso nas quadras e a Realidade nos tercetos. Assim, poderemos distinguir dois momentos neste soneto:

- o primeiro, correspondente às duas primeiras estrofes, onde o poeta manifesta o desejo de se evadir da realidade, que lhe provoca sofrimento, através do sonho;

- o segundo, constituído pelos dois tercetos, iniciado pela conjunção coordenativa adversativa "Mas" que marca, precisamente, a oposição ao sonho do qual o sujeito poético desperta em consequência da ação do vento que o leva novamente para a realidade fria, desconfortável e desoladora.
          
Cecília Sucena e Dalila Chumbinho, Sebenta de Português: Antero de Quental – introdução ao estudo da obra,
Estoril, Edição da papelaria Bonanza, [Edição/reimpressão: 2006]
          
          


LINHAS DE LEITURA PARA UM COMENTÁRIO DE TEXTO
         
Elabore um comentário do poema “Acordando” de Antero de Quental, integrando o tratamento dos seguintes tópicos:

- tema;

- desenvolvimento do tema;

- campos semânticos opostos;

- caracterização do sujeito poético;

- recursos expressivos importantes;

- relação do texto com a evolução literária do autor.
           

            
COMENTÁRIO DE TEXTO (PROPOSTA DE RESOLUÇÃO)
   
O soneto apresentado para objeto de comentário é da autoria de Antero de Quental, poeta da segunda metade do século XIX, que teve uma ação preponderante em todos os movimentos culturais do seu País, nomeadamente na chamada Questão Coimbrã (1865) e nas célebres Conferências do Casino (1871). No primeiro caso, bateu-se pela renovação contra o imobilismo de Castilho e da geração que este representava, pela inovação contra a imitação sem originalidade, pela liberdade e isenção contra o compadrio e a dependência do poder estabelecido; no segundo acontecimento, lançou, com outras eminentes personalidades, os fundamentos programáticos da ação renovadora. É considerado unanimemente a "alma" da Geração de 70, constituída por um vasto leque de exímias personalidades, de nível sobretudo literário, empenhadas na transformação política, Europa como modelo a seguir. Educado tradicionalmente, místico por natureza, chegou a Coimbra e sofreu os efeitos de um meio totalmente diverso do familiar. Sentindo-se atraído por um mundo ideal, utópico, deixa-se influenciar pelo socia lismo de Proudhon e pelo idealismo de Hegel. A mediocridade da realidade contrasta com o mundo que traz gravado no seu coração e, por isso, sente-se sempre um inadaptado, vivendo um permanente conflito, oriundo dessa oposição.
       
A oposição entre o sonho e a realidade é precisamente o tema do soneto "Acordando", composto, como é de lei, por duas quadras e dois tercetos, com o esquema rimático abba, ccd, eed, de versos decassílabos interpolados (a a, d d) e emparelhados (bb, cc, ee). O sonho está expresso sobretudo nas quadras – primeiro momento -, através de vocabulário de carácter positivo: “o sonhar quebranta...”, "a cotovia", "Céu", "canta", "luz", "alvorada", "estrela", "dia", "enlevo", "alegria" e "amor". Sente-se a atração, a magia que este conjunto semântico de felicidade exerce sobre o sujeito poético. Com efeito, é através do sonho que o Poeta se eleva para o "Céu", para o ideal, aquele mundo perfeito que Platão soube expor em textos ainda sedutores e identificados com o desejo do "Bem Absoluto", aspiração que mora na alma de cada ser humano. Comparando-se a uma cotovia, é embalado pelo canto desta ave: a repetição do verbo "subir" e do verbo "cantar" acentua essa evasão para o paraíso do sonho. De realçar o gerúndio "cantando" a sugerir a permanência do canto/sonho, e ainda a expressividade da substância fónica dos versos 3 e 4 realizada, quer pelas leves aliterações /c/, /t/, /s/, quer pelo tom nasal, quer pela repetição da vogal /i/. Nesta quadra, encontra-se já claramente definida a oposição entre o sonho e a realidade. Há dois campos semânticos opostos: sofrer, agonia", cotovia, Céu. A rima explicita também esta oposição: quebranta/canta, agonia/cotovia. O entusiasmo, a magia do canto é muito mais evidente na segunda quadra. Na verdade, o verbo cantar, repetido anaforicamente, dá O tom a todo um discurso embalador, feito sobretudo da enumeração assindética de muitos elementos, todos eles apelando para um mundo pleno de alegria. A rima entre santa e alevanta, dia e alegria, o vocabulário positivo, luminoso, a pontuação suspensiva, a construção paralelística (vv. 5-6, 7-8) são aspetos bem sugestivos de que no mundo do sonho paira um mar de felicidade.

Todavia, nos versos 1 e 2, há um indício claro de que o sonho é passageiro e a realidade persiste: "às vezes, se o sonhar quebranta/Este meu vão sofrer, esta agonia". É essa realidade que se instala no primeiro terceto e no primeiro verso do segundo terceto - segundo momento do texto.

A adversativa "Mas" impõe uma oposição. Por isso, o discurso regressa à realidade, trazendo para o texto todo um vocabulário negativo: "vento húmido e frio", "um calafrio", "A noite é negra e muda", "a dor", recupera-se o vocabulário dos versos 1 e 2 da primeira quadra, numa circularidade simbólica, a sugerir o eterno retorno à realidade cruel.

Personificando o vento, caracterizado pelo duplo adjetivo "húmido" e "frio", faz dele o elemento destruidor do mundo onírico: "Sopra sobre o meu sonho", que acorda, em calafrio, o Poeta. Repare-se no travessão como divisória, afastando o sonho e impondo a crueldade da realidade: "A noite é negra e muda". As palavras de sentido negativo, a aliteração do som nasal [ n ] e [m], a dupla adjetivação, tudo se agrupa num campo semântico para criar a relação antitética entre dia noite, sonho realidade. Em consequência, nova realidade antitética se gera: a alegria e a dor. Já não há canto, já não há aves, já não há luz, já não 'há amor; só a dor aparece vigilante. O encavalgamento estrófico é elucidativo do estado de tristeza que avassala a realidade. O verbo "velar", do campo semântico da vigilância, que não pode permitir evasões, impõe a dor, personificada, feita companheira inseparável do sujeito poético. Compreende-se a expressividade do título "Acordando", um gerúndio, a sugerir a dificuldade do abandono do sonho e da entrada na realidade.

Em sinal de honestidade, o sujeito poético não deixa de, num terceiro momento, se dirigir em apóstrofe ao seu destinatário "anjo adorado", lembrando-lhe que os seus cantos – os seus poemas - são "sonho só" e nada mais. Ele sonha o "seu amor". Nova circularidade a ressaltar que a passagem do mundo real ao mundo irreal se faz "às vezes", mas a realidade acaba sempre por se impor.

Poema belo, simples e dramático. Vocabulário fácil e expressivo, realidade dramática: o "eu" não consegue libertar-se do mundo real, que o oprime.
              
Quem não vê aqui a trajetória da evolução literária de Antero? Poeta combativo, luminoso, otimista, paladino de um mundo orientado pela Razão, Justiça, Verdade, Amor, Liberdade, procurando "O palácio encantado da Ventura", tentando realizar o que afirmara em 'Odes Modernas': "A Poesia moderna é a voz da Revolução"; poeta abatido, desalentado, destruído, pessimista, apelando ao Nada, ao Nirvana, ao Não-Ser, onde possa descansar do seu inútil combate. Ele é verdadeiramente o cavaleiro andante que, no "Palácio encantado da Ventura", encontrou "silêncio e nada mais". Ficou, todavia, a sua obra como manifestação imorredoura do drama que acompanhará sempre a humanidade dividida entre o sonho e a realidade.
     
João Guerra e José Vieira, Aula Viva – Português A. 12º Ano, 1º vol. Porto Editora, 1999
             
             

QUESTIONÁRIO INTERPRETATIVO
             
1. Neste soneto de Antero é nítida a oposição sonho/realidade.

1.1. Faça a delimitação textual da presença desses dois aspetos.

1.2. Indique os elementos que o poeta faz corresponder a cada um dos polos
da oposição.

1.2.1. Explique as razões da sua utilização tendo em conta o modo como alguns deles são caracterizados.

1.3. Nos dois últimos versos do segundo terceto, o poeta faz uma constatação.

1.3.1. Refira-se a ela, evidenciando o seu contributo para a compreensão global do texto.

1.4. Atente no título do poema.

1.4.1. Comente a utilização do gerúndio Acordando.

2. Na poesia anteriana, o plano do real é sempre confrontado com o plano do ideal.

2.1. Reporte-se a uma das fases da sua produção poética e, não ultrapassando as 8 linhas, demonstre a veracidade da afirmação.
      
Exame Nacional do Ensino Secundário nº 139. Prova Escrita de Português B, 12º Ano (plano curricular correspondente ao Dec.-Lei nº 286/89, de 29 de Agosto). 1996, 1ª fase, 1ª chamada.
             
        
        
SUGESTÕES DE LEITURA
        


[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/09/22/acordando.aspx]
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