terça-feira, 25 de setembro de 2012

AQUELA QUE EU ADORO NÃO É FEITA DE LÍRIOS NEM DE ROSAS PURPURINAS

  
Flor de Lotus (National Papyrus Center, Giza, Egipto)


          
          
A primeira fase [literária de Antero de Quental], ligada à produção da juventude, mostra que os ideais amorosos e outros são uma constante quando somos jovens. Sonhamos e idealizamos o ser amado e concebemos o amor como ideal perfeito. Tal como acontece ao comum dos mortais, também Antero Quental sonhou e idealizou a mulher e o amor. Como poeta e pensador conseguiu talvez fazer mais do que nós, exprimindo em verso esse sentimento profundo. Observe-se o que nos diz no soneto “Ideal”:
        
        
IDEAL
Aquela que eu adoro não é feita 
De lírios nem de rosas purpurinas,
Não tem as formas lânguidas, divinas,
Da antiga Vénus de cintura estreita...

Não é a Circe1, cuja mão suspeita
Compõe filtros mortais entre ruínas,
Nem a Amazona, que se agarra às crinas
Dum corcel e combate satisfeita...

A mim mesmo pergunto, e não atino
Com o nome que dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino...

É como uma miragem que entrevejo,
Ideal, que nasceu na solidão,
Nuvem, sonho impalpável do Desejo...
         
(entre 1860 e 1884)
Antero de Quental, Sonetos
        
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Circe: feiticeira, filha da ninfa Perseia e de Hélio (sol). Vivia na ilha de Ea, onde Ulisses apartou. Circe, movida de grande paixão por Ulisses, transformou os seus homens em porcos.
        
                                                                            *
                  
Ao observarmos o título deste soneto, somos levados, provavelmente, a evocar o Romantismo, embora o conceito de "Ideal" nos possa remeter para a própria luta travada pela Geração de 70 na busca de novos ideais. Em qualquer dos casos, há uma sugestão de transcendência e de perfeição.
Ao longo do poema, alguns elementos semânticos - "que eu adoro", "visão", "como uma miragem", "Ideal", "nuvem", "sonho impalpável" - confirmam o titulo do soneto e mostram-nos uma mulher adorável, como uma "visão".
O tema é a mulher ideal, mas a sua descrição surge por antítese daquilo que "não é", Em confronto com figuras mitológicas, aparece como um ser divino e sublime, ideia pura: nem mulher sensual como a "Vénus de cintura estreita", com "formas lânguidas, divinas"; nem mulher fatal e traiçoeira como a Circe que "compõe filtros mortais entre ruínas"; nem mulher corajosa e dominadora como a Amazona, que "combate satisfeita…”.
Esta mulher, retratada à maneira petrarquista, é uma "visão" que "ora amostra ora esconde o meu·destino…", levando o sujeito lírico ao Desejo, ou seja, ao amor, à aspiração do Ideal. Apresenta-se como uma "miragem", "nuvem", "sonho impalpável do Desejo".
A busca do ideal não se confina ao amor. O homem e a mulher sempre ansiaram por ideais que permitissem que a sua vida tivesse sentido. Por isso, Antero de Quental, com a consciência do mundo em que vivemos, orientou a sua luta na busca dos ideais da justiça, da fraternidade e da liberdade. De forma diferente dos românticos, que sacralizaram o sentimento, procurou o apoio na Razão a que chamou "irmã do amor e da Justiça".
           
Português A e B: acesso ao ensino superior 2000, Vasco Moreira, Hilário Pimenta. Porto, Porto Editora, 2000. 
(Coleção: Acesso ao ensino superior: preparação para a prova de exame nacional - 12º ano)
           
           
SUGESTÕES DE LEITURA
               

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/09/25/ideal.aspx]
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