quarta-feira, 12 de setembro de 2012

CORRESPONDÊNCIA AO MAR (Vitorino Nemésio)







CORRESPONDÊNCIA AO MAR


Quando penso no mar
A linha do horizonte é um fio de asas
E o corpo das águas é luar,

De puro esforço, as velas são memória
E o porto e as casas
Uma ruga de areia transitória.

Sinto a terra na força dos meus pulsos:
O mais é mar, que o remo indica,
E o bombeado do céu cheio de astros avulsos.

Eu, ali, uma coisa imaginada
Que o Eterno pica,
Vou na onda, de tempo carregada,

E desenrolo...
Sou movimento e terra delineada,
Impulso e sal de pólo a pólo.

Quando penso no mar, o mar regressa
A certa forma que só teve em mim ‑
Que onde acaba, o coração começa.

Começa pelo aro das estrelas
A compasso retido em mente pura
E avivado nos vidros das janelas.

Começa pelo peito das baías
A rosar-se e crescer na madrugada
Que lhe passa ao de leve as orlas frias.

E, de assim começar, é abstrato e imenso:
Frio como a evidência ponderada.
Quente como uma lágrima num lenço.

Coração começado pelos peixes,
És o golfo de todo o esquecimento
Na minha lembrança que me deixes,

E a rosa dos Ventos baralhada:
Meu coração, lágrima inchada,
Mais de metade pensamento.
      
Vitorino Nemésio, O Bicho Harmonioso, Coimbra, Revista de Portugal, 1938
     


     
TEXTO DE APOIO | LEITURA ORIENTADA
     
Na «Correspondência ao Mar», em onze tercetos de métrica irregular, a onda de imagens repercutidas pelo sujeito, a partir da oração temporal «Quando penso no mar», uma vez repetida, tem o condão de envolver o leitor numa sequência sensorial e emotiva quase imparável.
Esta envolvência do imaginário é, logo na 1ª estrofe, simbolizada através das imagens do fio de asas e do luar associadas à linha do horizonte e do corpo das águas. Na 2ª estrofe, os elementos metonímicos das velas, do porto e das casas, representativos dos barcos, da atividade náutica e da dialética nomadismo/sedentarismo, acrescentam a essa envolvência a dimensão do tempo, nas metáforas erosivas e efémeras da memória e de uma ruga de areia transitória. A 3ª estrofe, reunindo os quatro elementos de Empédocles,/erra, fogo ou energia (força dos meus pulsos), água (mar) e ar (céu e astros), continua a linguagem metonímica e simbólica da náutica através da deíxis ou sinal indicador do remo e da atividade de bombear. Na dialética dos elementos, a terra cinge-se ao labor energético do sujeito, às tarefas do seu quotidiano, em oposição à largueza imensa do mar e do céu, evocativa do sonho.
As restantes estrofes concretizam esta envolvência do imaginário a partir de uma identificação anímica, picada pelo Eterno, entre o sujeito e o mar em diálogo com a terra, num movimento de fluxo e refluxo, de pólo a pólo, numa sinestesia que contempla o ritmo do impulso e do compasso retido em mente pura, o gosto a sal, a temperatura das orlas frias e do calor (quente como uma lágrima num lenço) e a visão da terra delineada, do aro das estrelas e dos vidros das janelas. Então, o regresso do mar às formas únicas. Do imaginário («A certa forma que só teve em mim») provoca a expressão anafórica do início («começa») da atividade do coração, metonimicamente dispersa pelo aro das estrelas (céu), pelo peito das baías e pelos peixes (mar).
Nas últimas duas estrofes, o destinatário do poema é o próprio coração, sede da atividade espiritual da memória, das emoções e do pensamento, nas metáforas do golfo de todo o esquecimento e da lembrança e da Rosa dos Ventos baralhado, a indiciar a desorientação da lágrima inchada e de Mais de metade pensamento.
        
António Moniz, “A temática marítima”
in Para uma leitura de sete poetas contemporâneos, Lisboa, Editorial Presença, 1997, pp. 74-75.
    


    
SUGESTÃO
      
   

[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/09/12/correspondencia.ao.mar.aspx]
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