sexta-feira, 7 de setembro de 2012

VERBO E ABISMO (Vitorino Nemésio)

         
        


VERBO E ABISMO
        
Já da vaga vocálica dependo
Como a alga que a onda leva à areia:
Mas eu mesmo, que a digo, mal entendo
A voz que clama a minha vida e a enleia.

Se intervenho no som gratuito, ofendo
Seu sentido secreto e íntima cheia:
Transtornado por ela, emendo, emendo,
E é ela que me absorve e senhoreia.

Verbo ao abismo idêntico, toado
Sobre os traços de fogo que precedem
presença de Deus no monte irado,

Ao teu sopro de amor as vozes cedem
O que a morte decifra e restitui
Ao espírito liberto do que fui.
    

Vitorino Nemésio, O Verbo e a Morte, Lisboa, Moraes Editores, 1959
   



   
TEXTO DE APOIO
    
Este soneto pertence a O Verbo e a Morte, editado em 1959. Livro aonde afluem ainda as ressonâncias da culpa, ele marca efetivamente a libertação do autor em relação ao tom deprimido e ascético de O Pão e a Culpa, e da primeira e derradeira secções de Nem toda a noite a vida. Resignação, libertação, ressurreição - eis alguns dos tópicos fundamentais de O Verbo e a Morte. Superação da renúncia ‑ poderíamos acrescentar. Por isso melhor assentaria a esta obra o título «O Verbo e a Vida».

Mais de vinte anos após La Voyelle Promise, o problema da enunciação ressurge com todo o vigor na poesia de Nemésio. Mas agora traz em sua companhia os efeitos de duas linhas de força: o pensamento existencialista (caldeado) e a assimilação duma certa reflexão linguística de raiz estruturalista (não cabendo, porém, aos diversos estruturalismos qualquer responsabilidade no aproveitamento poético de certos frutos da investigação linguística).

Tais factos não chegam a eliminar dos poemas inclusos em O Verbo e a Morte a profunda influência judeo-cristã que se nota em livros que já comentámos. Nem os pensadores existencialistas católicos ‑ um Gabriel Marcel, por exemplo ‑ ou simplesmente cristãos ‑ recordemos Karl Jaspers ‑ se ausentaram do horizonte filosófico de Nemésio pelo facto de Martin Heidegger o ter impressionado seriamente. Heidegger, enquanto comentador de Hölderlin, forneceu a Nemésio, antes de mais, uma perspetiva de tipo linguístico-ontológico. As relações que o filósofo alemão intenta entre a linguagem e o «ser» deviam naturalmente impressionar um poeta atreito a questionar o seu próprio ato enunciador. Por outro lado, o «ser para a morte», que Heidegger tão ostensivamente ofertou ao pensamento europeu, inseria-se às mil maravilhas na grande aspiração de renúncia de que tratámos anteriormente. Assim, a certa impregnação de raiz cristã ‑ derivada de ambientes, família, usos e costumes ‑, matizada pela ambiguidade do culto do Divino Espírito Santo, vem juntar-se, na obra poética·de Vitorino Nemésio, um existencialismo híbrido, que aproveita dos pensadores cristãos a transcendência positiva, e dum Heidegger a transcendência negativa ­ esta, para mais, evidenciada num «balbúcio» em torno de pré-socráticos e quejandos, confusões inerentes a uma «filosofia da linguagem», que tudo pode afirmar ou negar, pois é perfeitamente arbitrário o campo que Wittgenstein considerava «dépourvu de sens».

Podemos dizer que Vitorino Nemésio resistiu. O seu espírito ávido assimilou, dos existencialismos, a problemática referente a características que se encontravam latentes ao longo da produção poética do autor. Por outro lado, Nemésio transpõe oabismo que separa o pensamento de Heidegger da investigação linguística de tipo estruturalista. E eis o mesmo poeta que escreveu «Ser para...» (pág. 38), em Agosto de 1959, assumindo a «vaga vocálica» (soneto transcrito), em Setembro do mesmo ano.

Trata-se, no fundo, de realizações divergentes do mesmo étimo: a relação ser/linguagem. Em «Ser para...», o poeta concluía:

Que então já nem meu verbo
Quid ou qual ergue ou ousa:
Mudo, no ser acerbo,
pensamento repousa.
   
A anulação (fictícia, pois o autor continua poetando) do verbo funciona como aspiração ao ser opaco («acerbo»), lugar estrutural dum pensamento mudo, absoluto. Mas que consistência tem esse projeto? Pouco antes, o poeta formulara a seguinte interrogação:

Já no esperado futuros,
As estações afeitos,
Que pretéritos puros
Seremos, imperfeitos?
    
Já se operara, mesmo sob a influência heideggeriana, a intromissão de elementos desestabilizadores ao nível do monólogo com o «Ser». São eles a própria nomenclatura gramatical e consequente ambiguidade: «futuros», «pretéritos», «imperfeitos», pois cada um desses vocábulos acumula o significado corrente com o significado técnico ‑ à beira duma função metalinguística ‑ denunciando a «imperfeição» que é irredutível à unidade do «ser».

Colocar-se perante a «vaga vocálica» quer dizer, graças ao «dependo», resignar-se, enquanto poeta, à edificação do monumento possível ‑ humano, imperfeito, transitório: o poema. É nesta resignação, humilde em relação aos altos voos dos filósofos, que radica a ressurreição de Nemésio, se considerarmos o filão metafísico da sua poesia (na verdade, Festa Redonda e outros poemas denotam a existência, no mesmo homem, do poeta dos sentidos ‑ vida – e do poeta da abstração ‑ morte).

Se confrontarmos os dois primeiros versos do soneto «Verbo e Abismo», aí encontramos depostas a matéria e a sua sublimação. Mas por ordem inversa da que acabamos de apontar: em primeiro lugar a «vaga vocálica»; em segundo lugar «a alga que a onda leva à areia». Raramente um poeta terá atingido, ao nível da pesquisa no seu ser marinho, insular e insulado, instável e insatisfeito, oscilante, a concisão que esses dois versos patenteiam: «Já... dependo». Como interpretar aquele «já» senão como um «finalmente», isto é, como o porto a que se chega depois da «odisseia»? E como é que esse porto se pode identificar com uma dependência? A única resposta possível será, em nosso entender, a vitória final sobre o povoamento torturado da anterior poesia «metafísica» de Vitorino Nemésio. Por outras palavras: o poeta resigna-se à sua oscilação existencial. E nessa resignação ‑ nem anjo nem bicho ‑, integra-se no seu habitat: a onda que o leva é vocálica, como se o mar se fundisse no Verbo; a sua terra de arribação é a «areia», a qual guarda das ondas o sabor e o molde; a palavra é «como a alga», elemento novo deposto por um elemento móvel (água) no elemento terreno que mais se lhe assemelha: a areia. Ou seja: entre dois elementos de natureza diferente, mas ambos movediços, estabelece-se a ponte humana (a palavra) como a alga que é momentâneo repouso, e cujo futuro não entra nos tratados de filosofia. Acrescente-se que a «alga», «vaga vocálica», tanto pode ser, no poema, uma vaga (onda) de vogais como uma entidade vocálica que fosse vaga (nebulosa). Espantosa capacidade de interpenetração de onde ressurge integralmente o autor de Mau Tempo no Canal, o autor que «confundia» a matéria e as almas num fabuloso universo de presságios...

Cada dicotomia, detetada ou superada, abre espaço, porém, a uma nova dicotomia. O «sistema» poético de Nemésio, colocado sob o signo da «vaga vocálica», não apaga uma oposição senão para a reassumir em outra oposição. O «eu mesmo» do 3º verso da 1ª quadra denota a insistência na ambiguidade da 1ª pessoa, o enunciante, agora oposto a uma enunciação que se explicita como tal. E logo a oposição se transfigura em eu/voz, sujeito contraposto a essa «voz que clama a minha vida e a enleia». Ambiguidade do enunciante, consequente ambiguidade do enunciado. E, para além disto, a magnífica acumulação de «clama». «Clama» será apregoa? Sim, que o poema é pregão do poeta. «Clama» será «lamenta»? Sim, que «clama» é alótropo de «crama», forma desse verbo «cramar» ainda tão vivo nos dialetos açorianos. Mas, como pregão ou como lamento, a «vida» é o complemento objetivo do ato enunciador. Vida enleada, mas vida!

Deixar a enunciação entregue ao «ser»? Deixar o «sentido» no seu secretismo, no seu tumulto de maré («íntima cheia»)? Impossível! Faltar-lhe-á o agente, o enunciante. Agente imperfeito, mas necessário. Daí o «emendo, emendo», desta vez desdobramento sintagmático dos significados paradigmaticamente depostos em «clama» na estrofe anterior. «Emendo», só no propósito estético? Ou moral? Ou amálgama? Ou mundividência que, por ser visão do mundo, necessita dum desdobramento? É esse o desdobramento de «emendo, emendo», como denúncia circular (a repetição dos morfemas cria a subjacência resignada) da imperfeição. E se repetir é, em estrutura de superfície, pleonasmo (aparente redundância que afinal entretece a própria função poética da linguagem), pleonástico será o último verso da segunda quadra: «E é ela que me absorve e senhoreia». Pleonástico? Só ao nível do conceito abstratamente encarado. Só na medida em que repete o embrião do «dependo» do 1ºverso. Postos de lado os pretensos matematicismos da linguagem, «depender» é estar sujeito, «ser absorvido» atinge uma intensidade que se não pode confundir com «depender», e «senhorear» envolve conotações de dominância que vão entroncar na história das civilizações. Assim, Vitorino Nemésio passa do reconhecimento duma «dependência» ao da globalidade da «absorvência», para depois restaurar, num vocábulo impregnado de feudalidade e culto da mulher, um tipo de fatal subjugação ‑ neste caso à cadeia vocálica do poema.

«Verbo ao abismo idêntico» ‑ prossegue. Salvação igual a perdição. Norma absoluta e tão arbitrária como o decálogo dum Deus irado. Ira igual a amor. Oxímoro que resulta da «presença» da negação integral que é a Morte. Consciência de «ser para... », a qual restitui ao Verbo a liberdade. Pode voar a palavra liberta por «saber a morte». E o Verbo, sendo Espírito, representa afinal a grande conquista da Vida!
     
José Martins Garcia, Vitorino Nemésio, a obra e o homem, 
Lisboa, Editora Arcádia, 1978, pp. 177-182)
       




       
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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/09/07/Verbo.Abismo.aspx]
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