terça-feira, 13 de dezembro de 2022

D. João I, O homem e a hora são um só (Mensagem, Fernando Pessoa)

Mensagem, de Fernando Pessoa

Primeira Parte - Brasão

I - Os Castelos


D. João I, por João Vaz de Carvalho


 

Sétimo (I)
D. JOÃO O PRIMEIRO

 






5





10


O homem e a hora são um só
Quando Deus faz e a história é feita.
O mais é carne, cujo pó
A terra espreita.

Mestre, sem o saber, do Templo
Que Portugal foi feito ser,
Que houveste a glória e deste o exemplo
De o defender.

Teu nome, eleito em sua fama,
É, na ara1 da nossa alma interna,
A que repele, eterna chama,
A sombra eterna.

12-2-1934

Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934

________

1 Ara: altar.

 

Linhas de leitura do poema “D. João o Primeiro”, de Fernando Pessoa

 

A noção de herói involuntário:

  • D. João I, «Mestre sem o saber», integra a linha do herói involuntário que age por instinto patriótico («O homem e a hora são um só / Quando Deus faz e a história é feita» - expressão idêntica a: Quando “Deus quer… a obra nasce”, in “O Infante”).

 

A exemplaridade do herói vista através do que defende 

  • Ele vale exclusivamente pelo símbolo  que a sua atitude representa.


  • Sendo um dos Castelos, é também fonte de procura e de inspiração, validada no seu gesto exemplar de defender Portugal. Não de um Portugal-território, mas de um Portugal «feito ser», v.6 (essência)..

 

  • Repare-se na subtil ligação Templo – Portugal-ser e na sacralização do gesto que a seguir se explicita: o de «o defender». Mas é à defesa do Templo transfigurado em Portugal e este em ser nacional, e não à defesa da Pátria enquanto espaço territorial e político que o poeta se refere, o que coerentemente se liga à ideia de Império espiritual que atravessa a Mensagem.

 

  • D. João I é celebrado, porque defende, de forma exemplar, o ideal de ser português. Daí vem a sua «glória» e não da vitória material sobre Castela. É o «Mestre» (Mestre de Avis, sacerdote do Templo, mestre espiritual) e o seu nome não poderá ser extinto («eterna chama», 11) da nossa devoção («na ara da nossa alma», 10) colectiva, pois jamais será esquecido («sombra eterna», 12).

 

  • Despojado da glória terrena e dos referentes históricos que lhe dão forma, a figura de D. João I torna-se incorpórea, espiritualiza-se à medida do Portugal de Pessoa. O herói, agora sacralizado, torna-se pelo seu gesto exemplar, um mito inspirador, imune à «sombra eterna» (v.12) do esquecimento, porque jamais deixará de ser «eterna chama» (v. 11), no altar que lhe foi erigido pela «nossa alma interna» (v. 10).

 

  • As batalhas, as conquistas pertencem à nossa alma externa; a Pessoa interessa o que no «eu» colectivo participa do divino e do que é eterno, em suma, o que constitui a nossa alma interna.

 

  • A alma é o templo do divino.

 

O sentido de «eterna chama» e «sombra eterna»

  • CHAMA – símbolo do espírito e da transcendência, elemento purificador, a chama é, como o mito ou a lenda, na Mensagem, uma potência do invisível, uma manifestação do divino e do oculto. Chama é a que arde no Templo, que é «Portugal feito ser», iluminando o herói paradigma da defesa do ideal português – D. João o Primeiro.

 

  • SOMBRA – esquecimento.

 

(Adaptado do Dicionário da Mensagem, Artur Veríssimo. Porto, Areal Editores, 2000) 


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D. João I, O homem e a hora são um só (Mensagem, Fernando Pessoa)” in Folha de Poesia, José Carreiro. Portugal, 13-12-2019. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/12/d-joao-i-o-homem-e-hora-sao-um-so.html


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