sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

D. Sebastião, Rei de Portugal (Mensagem, Fernando Pessoa)

 Mensagem, Fernando Pessoa

Primeira Parte - Brasão

III - As Quinas

  


 

Quinta
D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL

 

Louco, sim, louco, porque quis minha grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

20-2-1933

Fernando Pessoa, Mensagem. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934

Disponível em: http://arquivopessoa.net/textos/187


Linhas de leitura “D. Sebastião, Rei de Portugal”, de Fernando Pessoa: 

Aspetos a considerar: 

  • Vontade expressa: “porque quis minha grandeza” – herói voluntário.
  • Tragicidade do Eu: “qual a Sorte a não dá” – sem a graça (o auxílio) de Deus
  • Queda histórica/Ascensão espiritual


 

O poema apresenta o dramatismo do discurso na 1.ª pessoa, num acto de afirmação e, ao mesmo tempo, de autointerpretação. 

O tópico que expõe para reflexão é o da loucura positiva, o da loucura como singularidade na ousadia, no espírito de aventura, na coragem, no tentar ultrapassar os limites da mediania, de que D. Sebastião é tomado como símbolo. 

É, pois, um herói que aparentemente 'falhou' o empreendimento épico a que Camões e outros o tinham incentivado, falando, em 1.ª pessoa, do seu sonho de grandeza e assumindo-se orgulhosamente como louco, capaz de partir e de se deixar morrer por uma ideia de grandeza no areal de Alcácer-Quibir. Só que nesse areal ficou apenas o que nele havia de mortal : «Ficou meu ser que houve, não o que há.» O que sobreviveu foi, afinal, o mais importante: o ser que há, que permanece, que é imortal: o sonho – loucura – de querer «grandeza / qual a Sorte a não dá.» (Pais: 2001, 127-128)  

O sinal positivo na figura contrapõe-se ao sinal negativo na sua tentativa de realização. 

É um herói voluntário («porque quis []», v. 1), mas também foi eleito, no sentido de que era esperado antes de nascer (historicamente falando). No entanto, agiu em altura imprópria, em hora adversa, «porque quis grandeza / Qual a Sorte a não dá». A hora adversa é de cima, não é dele. 

Assim, ele outorga (entrega) a sua loucura, como herança, àqueles que estarão talvez, na hora certa, em que a sorte será favorável à grandeza, v.6. 

v. 5: desdobramento do significado  da figura: «o ser que houve» – temporal, circunscrito a um momento histórico em que se esgotou; «não o que há» – intemporal, que permanece no homem habitado pela loucura do desejo de grandeza. 

v. 4: a sugestão factual é muito leve, esboçada, estilizada, evocada em pequenos traços: o «areal» e a sua correlação com o título, recria evocativamente a cena desastrosa da Batalha de Alcácer-Quibir. 

Perante a diminuição  do desastre e da apresentação positiva da loucura, contrapõem-se

- palavras de incidência semântica agressiva: «besta sadia», «cadáver adiado», a rejeitar a sobrevivência, o cinzentismo vegetativo de quem não ousa;

- o jogo verbal: «houve»/«há»; «adiado»/«que procria». 



A pergunta que está nos vv. 8-10 constrói um axioma, uma verdade intemporal. Trata-se de uma interrogação que impede o passado de se esgotar em História e faz de D. Sebastião um símbolo do regresso das grandezas. A morte não foi acabamento total, pois o ser que há transcende o ser que houve. 

v. 7: «Com o que nela ia» – o que ia na loucura do rei não é nomeado, não é definido, mas esta indefinição faz disso património comum, uma senha nacional que todos identificam. Quando o assunto é propriamente nosso, pode ser referido apenas por meias palavras, que todos entendem: o que ia, o que foi na loucura de D. Sebastião, era a grandeza de Portugal que agora outros devem tomar, para que Portugal não continue a ser um país profundamente morto, embora superficialmente sobrevivente. 

A expressão «Com o que nela ia» é uma maneira muito pessoana de abrir um espaço de mistério na significação ao insubstantivar a referência.

(cf. Soares: 2000, 37-38)

 

Dom Sebastião, Mosteiro de Tibães


Sugestão: visiona o Módulo de Português do 12.º Ano respeitante à análise e interpretação do poema “D. Sebastião, Rei de Portugal”, de Fernando Pessoa: 





In: Projeto #ESTUDOEMCASA. O sebastianismo na Mensagem. O poema "D. Sebastião, Rei de Portugal" -Aula 21 de Português do 12.º Ano, 01-02-2021. Disponível em: https://www.rtp.pt/play/estudoemcasa/p7907/e521420/portugues-12-ano


 



Questionário sobre o poema “D. Sebastião, Rei de Portugal”, de Fernando Pessoa:

1. Interpreta a utilização da primeira pessoa neste poema.

2. A “loucura” é um traço que o sujeito poético escolhe para se autocaracterizar.

2.1. Mostra como essa loucura se integra na conceção de homem e de herói presente no poema «D. Sebastião, Rei de Portugal».



3. Atenta nos versos: «Por isso onde o areal está / Ficou meu ser que houve, não o que há.» (vv. 4-5)

3.1. Interpreta os versos, aludindo à raiz histórica e mítica da afirmação.

4. Comenta o uso dos tempos verbais do poema, atendendo à articulação entre passado e presente.

5. Atenta no verso «Minha loucura, outros que a tomem.» (v.1 – 2.ª est.)

5.1. Explicita o modo como este verso e o poema projetam a “loucura”, sonho de D. Sebastião, para o futuro. 


Atenção

Nas respostas a questões de interpretação tem em consideração o seguinte:

a) organiza o teu texto em três partes: introdução, desenvolvimento e conclusão;

b) desenvolve as tuas ideias;

c) cita o texto literário que estás a interpretar;

d) usa conectores para estruturares as tuas ideias.

 

Fonte: Recurso complementar da Aula 21 de Português do 12.º Ano sobre o sebastianismo na Mensagem e o poema "D. Sebastião, Rei de Portugal". Projeto #ESTUDOEMCASA, 01-02-2021

 

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D. Sebastião, Rei de Portugal (Mensagem, Fernando Pessoa)” in Folha de Poesia, José Carreiro. Portugal, 16-12-2019. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2022/12/d-sebastiao-rei-de-portugal-mensagem.html


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