quarta-feira, 16 de maio de 2018

O que é a MENSAGEM de Fernando Pessoa?



Contexto político da publicação da Mensagem

Salazar (1889-1970), chamado ao Poder, na qualidade de ministro das Finanças, em 1928, tornar-se-ia presidente do Conselho em 1932. Aprovados a Constituição e o Estatuto do Trabalho, em 1933, iniciava-se o Estado Novo.
O preço a pagar pela ordem e pelo rigor administrativo foi elevado em termos de repressão e de restrição das liberdades fundamentais.

Para Robert Bréchon (1996:537) «Pessoa não é nem um salazarista fervoroso nem um anti-salazarista convicto. A sua adesão ao Estado Novo é racional e provisória», o que traduz bem a dificuldade que é situá-lo ideologicamente no contexto político em que viveu.

Na Mensagem onde o nacionalismo utópico de Pessoa é abertura ao mundo, o nacionalismo salazarista é fechamento sobre si próprio; onde a mitologia pessoana é sonho e programa de acção, a do Estado Novo é saudosismo fadista; onde na Mensagem o império material se desmorona na sua própria impossibilidade histórica, o império colonial salazarista é, contra a História e o devir, a sua última possibilidade de grandeza.

(Adaptado de «Contexto político da sua publicação» in Dicionário da Mensagem, Artur Veríssimo, Porto, Areal Editores, 2000, pp. 84-85.)

Há quem veja na última estrofe do poema «Liberdade» uma alusão crítica a Salazar, que foi ministro das finanças e, supostamente, lia muito.
Todavia, o facto de ser muito religioso e de ler assiduamente não o fez entender o sentido e o dever de não coarctar a liberdade.

LIBERDADE


Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca.

                                                    1935


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Assunto da Mensagem

A Mensagem, publicada em 1934, é uma coletânea que reúne poemas de caráter nacionalista alimentados pelo mito sebastianista numa perspetiva épico-lírica.

O assunto da Mensagem não são os portugueses e os seus feitos gloriosos ou os acontecimentos históricos mais significativos, mas a essência de Portugal e a sua missão a cumprir.


A génese da Mensagem

A elaboração da Mensagem ocupou quase toda a vida literária de Fernando Pessoa: de 1913 a 1934. A génese e composição de Mensagem enquadra-se bem na leitura que Fernando Pessoa de si mesmo faz quando escreve: «Não evoluo, viajo».

Fernando Pessoa é atraído pela doutrina de Teixeira de Pascoaes quando este afirmava, na revista A Águia, em 1912, que a alma da raça é a Saudade e sublinhava o seu propósito: implantar «a alma portuguesa na terra portuguesa para que Portugal exista como Pátria, porque uma pátria é de natureza puramente espiritual e as únicas forças invencíveis são as forças do espírito.»

Deste modo, também Fernando Pessoa, em 1912, escreve na revista A Águia, os célebres artigos em que profetiza para breve o aparecimento de um Super-Camões e de um Super-Portugal, um império que se encontra para além do material.

Tais profecias acompanhavam a ligação de Pessoa à Renascença Portuguesa e ao saudosismo – que procuravam fazer renascer Portugal, com base no retomar do mito ou dos mitos – nomeadamente o da Saudade, vista como «sangue espiritual da Raça».

O ocultismo na Mensagem

A Mensagem é uma obra simbólica, de natureza ocultista/esotérica[1], situada na linha daquilo que o próprio Pessoa considerava de «nacionalismo místico». Procura reapresentar ao homem contemporâneo mitos e profecias que, universais na finalidade, tomaram contudo entre nós feições inéditas, enraizando-se profundamente na psique portuguesa.

Para entender a linguagem simbólica, diz-nos Pessoa que são necessárias ao intérprete cinco qualidades ou condições:

1.            Simpatia – capacidade para entrar em sintonia com o símbolo;

2.           Intuição – «aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo sem que se veja»;

3.           Inteligência – que «analisa, decompõe, re-constrói noutro nível o símbolo», permitindo «relacionar no alto o que está de acordo com a relação que está em baixo»;

4.           Compreensão, entendendo por esta palavra «o conhecimento de outras matérias que permitam que o símbolo seja iluminado por vários outros símbolos – pois que, no fundo, tudo é o mesmo»;

5.            Por último, aquela que é menos definível, e poderá chamar-se «graça», «Superior Incógnito», «Conhecimento e Conversação do Santo Anjo da Guarda», inspiração ou iluminação.

«Uma das linhas do complexo pensamento pessoano foi, desde muito cedo, o patriotismo. Pessoa assume-se também como poeta de missão, instância receptiva de um destino, [] integrado num devir histórico inscrito nos desígnios divinos e por eles conduzido. Assim, o patriotismo é entendido como messiânico e sebástico. [] A grandeza de Portugal, a passada sob a forma de História e a futura sob a forma de profecia, é um desígnio transcendente que Pessoa anuncia nos poemas da Mensagem: a relação passado/presente/futuro impulsiona utopicamente a regeneração da Pátria, num movimento alimentado pelo mito.[] Sem esta dimensão mítica tudo não passaria de mera poetização de informação histórica, carente da força enformadora de uma nova era. Pessoa é o poeta iniciático que cumpre a missão de revelar o Portugal Encoberto.» Mensagem – poema irradiante: messianismo nacionalista / espiritualidade universalista» in Para uma leitura de MENSAGEM de Fernando Pessoa, Mª Almira Soares, Lisboa, Editorial Presença, 2000, pp. 22-27).

O título é, só por si, uma porta que contém todo o poema e que é preciso saber abrir. A palavra portuguesa Mensagem é, como diz, J. Augusto Seabra (in Fernando Pessoa ou o Poetodrama) «derivada anagramaticamente» da fórmula de Anquises, quando explica a Eneias, descido aos infernos, o sistema do Universo: MENS AG[ITAT MOL]EM: o espírito move a massa. É uma maneira de o poeta afirmar logo à partida o seu idealismo absoluto.
«Fernando Pessoa aproveitou toda a simbologia da descida aos infernos para justificar o advento de uma nova Pátria. O título não podia ser mais feliz.

No Livro Sexto de A Eneida, verso 727, de Virgílio, Anquises explica ao seu filho Eneias, que desceu aos infernos, o sistema do Universo. Pessoa, qual outro Anquises, explica aos seus filhos espirituais – os portugueses – o sentido da sua Pátria. Descida aos infernos da decadência, ela renascerá, como a Fénix, das cinzas e alcançará a etapa final da Perfeição.» (in Aula Viva Português 12º Ano, João Guerra e José Vieira, Porto Ed., 1999).  


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O caráter esotérico recebe confirmação com a epígrafe inicial do livro: «Benedictus Dominus Deus noster qui dedit nobis signum» (Bendito Deus, Nosso Senhor, que nos deu o Sinal) e com o «Valete Frates» final (Adeus, irmãos!), apontando para a ideia de «sinal», de «bandeira», «pendão» entregue por Deus – símbolo também de fraternidade em organizações de tipo esotérico.

"Estamos, na verdade, perante um livro que obedece, na sua arquitectura interna, a uma estrutura esotérica". Ele divide-se em três partes: Brasão, Mar Português e Encoberto.

Este esqueleto ternário corresponde, sem dúvida, para Pessoa, a uma intencionalidade oculta. O mesmo número aparece com efeito retomado nas suas subdivisões: assim, a terceira parte do livro é dividida, por sua vez, em três partes (Os Símbolos, Os Avisos, Os Tempos); e a terceira dentre elas, a mais explicitamente profética, é introduzida por um poema dividido ele mesmo em três onde o poeta alude a três navegantes misteriosos, de que o terceiro, não identificado, aguarda ordem de partir... Não se trata, pois, de um simples acaso ou de uma mera preocupação de equilíbrio: o número 3 é reconhecido como central no esoterismo. "Da mesma forma no que respeita aos números 5, 7 e 12, que dominam as restantes subdivisões do livro" (J. Augusto Seabra, op. cit.).

«Dentro do esoterismo numerológico da Mensagem o número cinco tem um lugar impressiva e expressivamente significativo pelos conteúdos que o ocupam e pela reiteração de que é objecto: cinco grupos de poemas a compor a primeira parte; cinco quinas, sendo a quina o símbolo recorrente, tanto na consolidação da Pátria (Milagre de Ourique), como na sua expansão (o padrão que anuncia a projecção para o infinito); quinta quina ocupada pela figura messiânica por excelência – D. Sebastião; cinco símbolos, sendo o quinto o Encoberto (D. Sebastião); cinco tempos.»

«A construção do poema ajusta-se ao estatismo heráldico como interpretação poética do passado (1ª parte) e ao dinamismo da sucessão dos tempos e da projecção profética (2ª e 3ª partes). Entre a primeira parte (Brasão), a segunda (Mar Português) e a terceira (O Encoberto) estabelece-se uma relação transformadora do decurso histórico em percurso iniciático.» (Mª Almira Soares, op. cit.)




[1] Esotérico, esoterismo: doutrina que só deve ser comunicada a «iniciados», ligando-se a sua transmissão muitas vezes a práticas rituais de um culto e a comunicação de doutrinas de índole profética ou divinatória. Por vezes, sinónimo de ocultismo.




Estrutura tripartida da Mensagem

Mensagem é um livro estruturalmente muito cuidado, apontando as três fases por que a Pátria terá de passar.
Esta tripartição simbólica «tem como base o facto de as profecias se realizarem três vezes, ainda que de modo diferente e tempos diferentes. Corresponde à evolução do Império Português que, tal como o ciclo da vida, passa pelo nascimento, realização e morte. Todavia, esta morte não poderá ser entendida como um fim definitivo, visto que a morte pressupõe uma ressurreição. Esta ressurreição culmina com o aparecimento de um novo império, desta vez não terreno, mas sim espiritual e cultural, a fim de atingir a paz universal ("E a nossa grande Raça partirá em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas daquilo que os sonhos são feitos" – Fernando Pessoa).» (in Dossier Exame | Português B | 12º Ano, Mª José Peixoto e Célia Fonseca, Lx, Asa, 2001, p. 51)


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Primeira Parte – Brasão (os construtores do Império)

A 1ª parte corresponde ao nascimento, com referência aos mitos e figuras históricas até D. Sebastião, identificadas nos elementos dos brasões. Dá-nos conta do Portugal erguido pelo esforço dos heróis e destinado a grandes feitos.

I – Os campos – símbolo do espaço da vida e da consolidação do reino.

II – Os castelos – símbolo de protecção (baluartes de defesa e residência dos reis). Significa, também, as conquistas dos heróis.

III – As quinas – similitude às chagas de Cristo: dimensão espiritual. Lutadores e mártires são D. Duarte, D. Pedro, D. João e D. Sebastião.

IV – A coroa – símbolo de realeza.

V – O timbre – marca pessoal, sinal; símbolo de poder legítimo. Sagração do herói para missão transcendente.


HERÓIS DO «BRASÃO»
Simbologia do Grifo (ave fabulosa com bico e asas de águia e corpo de leão): reunião do conhecido com o desconhecido, do Ocidente com o Oriente e, em termos ocultistas, o domínio do espírito sobre a matéria (repare que não se atribui nenhuma figura histórica ao corpo do leão).

(Artur Veríssimo, Ler a Mensagem de Fernando Pessoa – curso n.º 21/2001 do Centro de Formação de Associação de Escolas de S. Miguel e Santa Maria)


Para Carlos Castro da Silva Carvalho, importa verificar que a Mensagem prima pela «contraposição de um brasão novo, um brasão reconstruído, a um velho brasão nacional».
Entre as alterações assinaladas por este crítico figuram:

- a do timbre das armas nacionais (a serpe alada dá lugar ao grifo);

- a da simbologia das quinas, que deixa de estar ligada ao Milagre de Ourique;

- a ausência dos vinte e cinco besantes, tradicionalmente símbolo dos trinta dinheiros que Judas recebeu pela venda de Jesus.

Conclui Silva Carvalho que a força simbólica do milagre de Ourique é, na Mensagem, substituída pela do mito, desde logo do mito da criação que Ulisses e os outros castelos representam. 

Se os castelos são a energia criativa do mito, o «sempre por achar»; as quinas são as chagas abertas do Ser, o preço a pagar pela glória; a coroa é o arquétipo a imitar, a vontade que se faz luz, a possibilidade de redenção; o grifo é a reunião do conhecido e do desconhecido, «da vontade e do poder». No seu todo, o Brasão é o frontispício do Ser futuro. 

O Brasão na Mensagem tem, em suma, de ser entendido como o lugar da memória colectiva onde as qualidades do ser português se fixam, como símbolo de procura, como possibilidade criadora, como potência do Portugal a haver. Mais do que a imagem do passado, o Brasão é o futuro que esse passado deixa adivinhar. (cf. «Brasão» in Dicionário da Mensagem, Artur Veríssimo, Areal Ed., 2000).


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Segunda Parte – Mar Português (o sonho marítimo e a obra das descobertas)

Na 2ª parte surge a realização e vida; refere personalidades e acontecimentos dos Descobrimentos que exigiram uma luta contra o desconhecido e os elementos naturais. Mas porque «tudo vale a pena», a missão foi cumprida.


O ciclo que se cumpriu

Poemas

Signos

Linhas de força

«O Infante»

Carneiro

Impulsão criadora

«Horizonte»

Touro

Terra e esforço na busca do concreto

«Padrão»

Gémeos

Polaridade: dis­tinção matéria/ /espírito

«O Mostrengo»

Caranguejo

Luta contra os medos incons­cientes e a descoberta da luz

«Epitáfio de Bartolomeu Dias»

Leão

Gosto de agir, objectivo de longo alcance

«Os Colombos»

Virgem

Diferenciação; determinação dos limites

«Ocidente»

Balança

Harmonização de contrários

«Fernão de Magalhães»

Escorpião

Fermentação, desagregação; criação, morte e renascimento

«Ascensão de Vasco da Gama»

Sagitário

Dualidade dos instintos; elevação do homem a Deus

«Mar Português»

Capricórnio

Elevação e morte física do mundo; iniciação

«A Última Nau»

Aquário

Passagem aos estados superiores; emancipação e aventura

«Prece»

Peixes

Comunicação com Deus; inconsciente colectivo e indiferenciação.



Número Doze

Na Segunda parte da obra, é o número doze que domina. Da riqueza simbólica do Doze pode o leitor fazer múltiplas interpretações, já que o número nos faz pensar nos doze apóstolos de Cristo, nos doze cavaleiros da Távola Redonda, nas doze tribos de Israel, nas doze portas da Jerusalém Celeste, nos doze frutos da árvore da vida, nos doze fundamentos da Cidade do futuro, nos doze meses do ano, para apenas nos referirmos a algumas das suas possibilidades simbólicas.

Todavia, qualquer que seja a opção que tomemos, o Doze é como afirma António A. Lourenço (1990, 127), «a marca simbólica do ciclo completo do cumprimento» e «o símbolo da repetição essencial, do eterno retorno». Uma evidência que a obra deixa explícita logo no primeiro poema da 2ª parte («Cumpriu-se o mar»), tornada exemplo e promessa de futuro pelo eu da Mensagem na sua prece, como estes versos (M, 73), significativamente os últimos de «Mar Português», fazendo eco do «falta cumprir-se Portugal», amplamente ilustram:

E outra vez conquistemos a Distância ‑ Do mar ou outra, mas que seja nossa!

(in Dicionário da Mensagem, Artur Veríssimo, Areal Ed., 2000)



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Terceira Parte –  O Encoberto (a imagem do Império moribundo, a fé de que a morte contenha em si o gérmen da ressurreição, capaz de provocar o nascimento do império espiritual, moral e civilizacional na diáspora lusíada. A esperança do Quinto Império)

Na 3ª parte aparece a desintegração, havendo, por isso, um presente de sofrimento e de mágoa, pois «falta cumprir-se Portugal». É preciso acontecer a regeneração que será anunciada por símbolos e avisos.

(In Acesso ao Ensino Superior. Português 12º Ano – A e B Vasco Moreira e Hilário Pimenta, Porto Ed., 2000, p. 118.)


Visão subjetiva/mítica da História de Portugal

Na opinião do poeta, havia-se perdido a identidade pessoal, os feitos heróicos perderam-se com o tempo e só já restava a memória. Então, nada melhor que recuperar um mito para fazer ressurgir das cinzas uma nação ("O mito é o nada que é tudo", em "Ulisses").

É irrelevante, parece dizer Pessoa desde o poema «Ulisses», que as figuras de que vai ocupar-se, os heróis fundadores, tenham tido ou não existência histórica - o que importa é que todos eles tenham funcionado com a força do mito, que, não existindo, é tudo. Por isso, todos os heróis que se seguem são heróis mitificados, ainda que com existência histórica, feita de sucessos ou fracassos, não importa.

Fernando Pessoa pretendeu essencialmente enobrecer a maneira grandiosa que está subjacente à realização dos acontecimentos que engrandeceram a História nacional.

A força enformadora de uma nova era resulta do idealismo platónico que impregna a visão do acontecer histórico (não é tanto o Império terreno que ele canta, mas sim a ideia condutora, o que não existe no mundo sensível, a quimera, o mito, a fome do impossível, a loucura).

Em Mensagem surgem diversos mitos, nomeadamente o do Sebastianismo e o do Quinto Império. É possível também perceber outros mitos como o do Santo Graal (“Galaaz com pátria” era o Desejado, capaz de permitir o retorno do Graal, o símbolo da união e harmonia entre os povos), o das Ilhas Afortunadas (de “terras sem ter lugar”, como o Quinto Império), e o do Encoberto (dentro da mística rosacruciana em cujos princípios se deveria basear o Quinto Império). A concepção mítica leva, também, Pessoa a usar figuras como Ulisses e o Mostrengo, que o ajudam a explicar o passado dos Portugueses e a fazer a apologia da sua missão profética.


Mito, história e cultura. O mito do Encoberto.

Para Fernando Pessoa, Portugal encontrará na sua própria alma «a tradição dos romances de cavalaria, onde passa, próxima ou remota, a Tradição Secreta do Cristianismo […], a Demanda do Santo Graal. Todas essas coisas, necessariamente dadas em mistério, representam a verdade íntima da alma, a conversação com os símbolos» (Fernando Pessoa in Sobre Portugal. Introdução ao Problema Nacional, recolha de textos por Mª Isabel Rocheta e Mª Paula Morão, introdução e organização de Joel Serrão, Lx., 1978, pp. 177-178).

Fernando Pessoa, que desejava ser um criador de mitos[1], apela ao mito sebastianista[2], à vinda de um messias[3] que viria cumprir Portugal. Assim, o Encoberto (D. Sebastião) foi o escolhido para realizar o sonho do Quinto Império. Esta tarefa só seria cumprida com muita determinação, loucura e sonho que tão bem caracterizam D. Sebastião («Louco, sim, louco, porque quis grandeza», em «D. Sebastião, Rei de Portugal»). (in Dossier Exame | Português B | 12º Ano, Mª José Peixoto e Célia Fonseca, Lx, Asa, 2001, p. 51)



[1] Mito: narrativa fabulosa de origem popular que transita de geração em geração sob a forma simbólica; relato das proezas de deuses ou de heróis, susceptível de dar uma explicação do real satisfatória para um espírito primitivo. Aponta para os caminhos que conduzem a Deus, indica estádios de iniciação e encerra verdades profundas, inefáveis e espirituais que não suportam ser submetidas ao exame da análise intelectual.
[2] Sebastianismo: crença popular no regresso, em manhã de nevoeiro, do rei D. Sebastião desaparecido em Alcácer Quibir (1578), mas cujo corpo nunca chegou a ser identificado com segurança. A expectativa do Encoberto converte-se em mito, na esperança de melhores dias, de felicidade nacional, de justiça e de grandeza. Consiste, pois, numa extrapolação do messianismo.
[3] Messianismo: esperança ou expectação de um messias salvador; face a situações pessoais ou colectivas que se apresentam sem solução, as pessoas agarram-se (como única tábua de salvação) ao que transcende as possibilidades humanas.



O mito sebastianista

Fernando Pessoa acreditava no destino messiânico de Portugal e acreditava também que o saudosismo que preenchia os corações dos portugueses poderia ser o ponto de partida, a motivação para a tentativa de recuperação de uma imagem que morrera com o passado.

O sebastianismo é abordado por Fernando Pessoa como mito, que exprime o drama de um país moribundo “à beira mágoa” a necessitar de acreditar de novo nas suas capacidades e nos valores que antigamente lhe permitiram a conquista dos mares e a sua afirmação no mundo. Diz Fernando Pessoa (in Obra Poética e em Prosa, vol. III), “Como o último verdadeiro Rei de Portugal foi aquele D. Sebastião que caiu em Alcácer Quibir, e presumivelmente ali morreu, é no símbolo do regresso d’El-Rei D. Sebastião que os portugueses da saudade Imperial projectaram a sua fé de que a família se não extinguisse”

Ao longo da Mensagem, a figura de D. Sebastião evolui do símbolo de um príncipe infeliz, desaparecido em Alcácer Quibir, no areal (primeira parte), para o mito que vai na “última nau, ao sol aziago” mas que surgirá entre a cerração” com o “pendão ainda / Do Império” (segunda parte), para, guardado com Deus, regressar para criar o Quinto Império. É apresentado, também, como, O Encoberto ou O Desejado, que volta com o santo Graal (terceira parte).

A hipótese de salvação e regeneração que D. Sebastião representa para o povo português é a base desta obra, pois é a partir do mito que se deve tentar transformar a realidade.




Fernando Pessoa e o Quinto Império

Analisando os quatro impérios universais já havidos, conforme a interpretação do profeta Daniel ao sonho de Nabucodonosor: Babilónia, Medo-Persa, Grécia e Roma, Fernando Pessoa é levado a concluir que o quinto teria que ser a Inglaterra, se de «impérios materiais se tratasse»: «Nesse esquema, porém, que é de Impérios materiais — escreve em 1934 —, o último é plausivelmente entendido como sendo o Império de Inglaterra. Desse modo se interpreta naquele País; e creio que, nesse nível, se interpreta bem. Não é assim no esquema português. Esta, sendo espiritual, em vez de partir, como naquela tradição, do Império material da Babilónia, parte, antes, com a civilização em que vivemos, do império espiritual da Grécia, origem do que espiritualmente somos. E, sendo esse o Primeiro Império, o Segundo é o de Roma, o Terceiro, o da Cristandade, e o Quarto o da Europa – isto é, da Europa laica de depois da Renascença. Aqui o Quinto Império terá que ser outro que o inglês, porque terá que ser de outra ordem. Nós o atribuímos a Portugal, para quem o esperamos.» (Fernando Pessoa, Obra Poética e em Prosa, vol. III, pp. 711-712.)

O que Pessoa realmente quis para Portugal, o único perfil coerente, e viável, do seu nebuloso Quinto Império, cifra-se em desejar que a sua decadente pátria seja portuguesa com a mesma naturalidade com que a Inglaterra é Inglaterra. O poeta obcecado pela Diferença não quer que Portugal seja uma outra Inglaterra — de via reduzida — quer apenas que seja Portugal. E para isso é necessário reduzir a nossa cultura a uma tábua rasa. mais vasta e com sentido diverso da imaginada pela Geração de 70, denunciadora da decadência nacional, mas também instrumento dela, segundo Pessoa, pela errada cura (francesa) proposta para os males nacionais. Dissolvidos na pseudo-universalidade dos outros — ou da França, sobretudo — teríamos perdido a lembrança da nossa própria, anterior e mais autêntica universalidade. É na recuperação dela que o Quinto Império se anuncia e já, de certo modo, se constrói. (Eduardo Lourenço, «Apoteose ou Segunda Morte de Fernando Pessoa?», Expresso, 13/7/1985.)

Mas o que é o Quinto Império? Visto de dentro da obra é o da «Vitória universal do espírito e da eterna aspiração, é a mística certeza do vir a ser pela lição do ter sido. É Portugal-espírito, Portugal-ente de cultura, esperança tanto mais forte quanto a hora de decadência a estimula; nevoeiro que não é mais que condição negativa necessária para surgir o Salvador» (António Machado Pires, «Os Lusíadas de Camões e a Mensagem de Fernando Pessoa», in Actas da III Reunião Internacional de Camonistas, Coimbra, Universidade de Coimbra, 1987, 99. 419-429). Universal, porquê? Porque sonha, como António Vieira, e parafraseando Torga, o «homem lusitano à medida do mundo».

Visto de fora da obra, poder-se-á perguntar, como Maria Irene Ramalho de Sousa Santos, («Um imperialismo de Poetas. Fernando Pessoa e o imaginário do Império», in Penélope. Fazer e Desfazer a História, n.° 15, Lisboa, 1995, pp. 53-74), um imperialismo de poetas? Ou como pretendem outros, fazendo fé na célebre afirmação de Pessoa/Bernardo Soares («Minha Pátria é a Língua Portuguesa») ou na referência ao «imperador da língua portuguesa», que é António Vieira, um imperialismo da Língua Portuguesa? Deixemos a resposta a essas questões a Fernando Pessoa (Fernando Pessoa, Sobre Portugal. Introdução ao Problema Nacional, Lisboa, Ática, 1979, p. 240): «Um imperialismo de gramáticos? O imperialismo dos gramáticos dura mais e vai mais fundo que o dos generais. É um imperialismo de poetas? Seja. A frase não é ridícula senão para quem defende o antigo imperialismo ridículo. O imperialismo de poetas dura e domina; o dos políticos passa e esquece, se o não lembrar o poeta que os cante.»

Dizer-se que um «imperialismo de gramáticos» dura mais que o dos generais ou que um «imperialismo de poetas» não é perecível como um «imperialismo de políticos» significa dizer-se que o Quinto Império se reduz a essas possibilidades? Estamos em crer que não. O conjuntivo «seja» com que Pessoa responde à 2ª questão equivalente a «admitamos que assim seja», próprio do discurso argumentativo, não é necessariamente uma afirmação categórica.

Certo é que o Quinto Império é português e sonhado em português e não se realizará sem o contributo da poesia e dos poetas, facto desde logo aferido pela existência da Mensagem. Mas a marca mais visível da universalidade desse Império está no ser-se português sem barreiras, o que, em nosso entender, transcende o problema da língua e o da criação poética.

Realizar Apolo espiritualmente como noutro lugar afirmou Pessoa, não permite a leitura redutora de que o Quinto Império seja, exclusivamente, um imperialismo de poetas, a menos que se entenda a criação poética como metáfora de todo o acto criador. Apolo é a divindade tutelar de todas as artes, o símbolo do Sol e da luz civilizadora, o que nos devolve ao Portugal-espírito, Portugal-ente de cultura e ao olhar esfíngico desse rosto da Europa, que é Portugal fitando o Ocidente. A lógica do porvir, que é também a do Quinto Império na Mensagem, participa desse mistério nunca totalmente revelado.

Dir-se-ia que o programa do Quinto Império explicita as condições do seu aparecimento, a sua natureza, os objectivos que persegue e até o seu mentor, mas não os conteúdos que o enformam. Mais do que um programa concreto, é uma representação mental, uma atitude perante a Nação e a nossa própria existência ou, se quisermos, a procura do nosso ser-no-mundo, como indivíduos e como Povo. (Artur Veríssimo, Dicionário da Mensagem, Porto, Areal Ed., 2000, pp. 67-69.)

O discurso na Mensagem – noção de POESIA ÉPICO-LÍRICA

Designação atribuída à Mensagem, pelo facto de F. Pessoa exprimir uma concepção trans-histórica e mítica sobre a as diversas figuras que decorrem na obra, prefigurando o surgimento da pátria cultural portuguesa que constituiria o Quinto Império.

Na obra Mensagem a voz narrativa da épica tradicional dá, constantemente, lugar a voz lírica, num discurso analítico-crítico, que reflecte sobre o passado heróico de conquistas, vibrando com o espírito do povo português, e expressa a visão e as emoções do “Eu” face ao acontecer histórico, muitas vezes num tom profético. Os poemas, em geral breves, apresentam uma linguagem metafórica e musical, bastante sugestiva, com frases curtas, apelativas e, frequentemente, aforísticas, onde abundam a pontuação expressiva e as perguntas retóricas.

Há, pois, uma interiorização e mentalização da matéria épica, numa atitude contemplativa.


Intertextualidade entre OS LUSÍADAS e a MENSAGEM

Os Lusíadas e Mensagem, dois poemas épicos separados no tempo, desenvolvem dois temas estruturantes: o mar e o valor da poesia.

Com efeito, quer no poema camoniano, quer no de Pessoa, o mar é o espaço da construção do herói português: o herói real, ligado à descoberta de novos mares e novas terras (Os Lusíadas); o herói que conquistará uma nova “Distância” e enformará o Portugal do futuro (Mensagem).

Assim, a epopeia quinhentista canta uma história factual, real, enquanto Pessoa desenha os contornos de um Portugal a haver, um Portugal a construir pelo poder do sonho e da poesia.

Contudo, não é apenas em Pessoa que heróis e impérios se erguem pela palavra poética, também Camões, de um modo diferente, o consegue. Efectivamente, quando o Poeta refere a D. Sebastião que só o registo dos nossos feitos heróicos nos tornará grandiosos e eternos, está também a atribuir à poesia uma dimensão superior.

Camões e Pessoa conciliam, assim, a condição de “trovador” e “argonauta”, apresentando cada um, distintamente, um Portugal presente — marcado nos dois poemas pela “apagada e vil tristeza” de um “nevoeiro sem brilho” — que se redimirá e se encontrará num futuro inadiável.

(in Abordagens 12.º, Zaida Braga e outros, Porto Ed., 2005, p. 219)

Os Lusíadas

Mensagem

 

Homens reais com dimensões heroicas mas verosímeis;

 

Heróis de carne e osso, bravos mas nunca infalíveis;

 

Heróis mitificados, desincarnados, carregando dimensões simbólicas

 

- Brasão ® Terra ® Nun’Álvares Pereira

- Mar Português ® Mar ® Infante D. Henrique

- O Encoberto ® Ar ® D. Sebastião

(de uma terra de dimensões conhecidas parte-se à descoberta do mar e constrói-se um império. Depois o império se desfez e o sonhos e o Encoberto são a raiz a esperança de um Quinto Império)

 

Herói coletivo: o povo português

Virtudes e manhas

 

Heróis individuais exemplares (símbolos)

 

D. Sebastião (rei menino) a quem Os Lusíadas são dedicados;

“tenro e novo ramo”

D. Sebastião mito “loucura sadia”

Sonho, ambição

(repare-se que D. Sebastião é a última figura da história a ser mencionada, como se se quisesse dizer que Portugal mergulhou, depois do seu desaparecimento num longo período de letargia)

 

Celebração do passado – história

Glorificação do futuro – símbolos

Messianismo a mola real de Portugal

 

Narrativa comentada da história de Portugal (cf. Jorge Borges de Macedo)
Teoria da história de Portugal

 

Metafísica do Ser português

Três mitos basilares:

Adamastor

Velho do restelo

A ilha dos amores

 

Tudo é mito

(“o mito é o nada que é tudo”)

 

Acão

Contemplação

Altiva rejeição do real

 

Império feito e acabado

 

Portugal indefinido, atemporal

 

Saudade profética ® saudades do futuro

 

Façanhas dos barões assinalados

Matéria dos sonhos

 

Temporalidade

Atemporalidade mística

 

Síntese pagão e cristão

Síntese total (sincretismo religioso)

 

D. Sebastião como enviado de Deus para alargar a Cristandade

Portugal como instrumento de Deus

(os heróis cumprem um destino que os ultrapassa)

 

Cabeça da Europa

Rosto da Europa que aguarda expectante o que virá

 



Plano pessoal dos poetas. Retratos humanos: avisos, reflexões, estados de alma.

Luís de Camões, mais preocupado com a valorização dos seus heróis, apenas no final de cada Canto exprime a sua visão dos factos, descansando a narrativa e, a propósito do passado, presente ou até de futuro, tece considerações atempadas, exteriorizando os seus sentimentos e ideias, à margem, sobre contingências da vida humana, que afectam também os valorosos, ou o contraste entre o que canta e o que vê, entre a idealização e a realidade.
Fernando Pessoa, com uma obra mais interiorizada, tece em cada poema, com apelos e reflexões sentidas, o que lhe vai na alma, perante o espectáculo marginal do seu presente e os tempos áureos do passado.
A par da gesta gloriosa de conquistas e glórias passadas, apresentadas por Luís de Camões e Fernando Pessoa aos seus contemporâneos, surgem, encaixados nos Poemas, pequenos textos que retratam a posição dos poetas face às fraquezas, aos defeitos e azares da vida: momentos de anti-heroísmo, correntes de consciência e tomadas de posição que apontam não para a crítica do Herói, mas contra aqueles que não aspiram ao heroísmo, contra os preguiçosos, os egoístas, e, sobretudo, os que renegam os valores dos seus pais e avós. São também ecos de anti-epopeia, já ouvidos na voz veneranda do Velho do Restelo. Constituem ainda uma reflexão térrea e nitidamente humana, embora com lumes de divino, sobre os obstáculos que enxameiam a existência. No entanto, esta ideia deprimente da fraqueza existencial pode reverter também para a valorização dos que, apesar de tudo, souberam suplantar-se a si mesmos e aos perigos. Os obstáculos foram sérios e constantes, as tentações assediaram as mentes, o desânimo pairou nos horizontes... mas o Herói foi-o porque venceu os seus apetites.

J. Oliveira Macedo, Sob o Signo do Império, Os Lusíadas – Mensagem, Edições Asa, Lisboa, pp. 165/166


Comparação do conceito de heroísmo n’Os Lusíadas e na Mensagem
   
I – Características comuns entre Os Lusíadas e a Mensagem no que diz respeito ao conceito de heroísmo:

  • Concepção mística e missionária do herói português que é ajudado pela intervenção divina cristã ou pelos deuses do Olimpo.
  • Destaque para a singularidade dos próprios autores das obras que participam do ser herói; assim:
– CAMÕES é exemplo do herói humanista (o que concilia em si as armas e as letras);

–  PESSOA é aquele que se autoproclama de vidente, isto é, uma espécie de profeta do Portugal futuro.

  • O reverso da vitória é o sofrimento (isto é, o caminho do heroísmo é o caminho do sofrimento). Exemplos:
– em Os Lusíadas: despedidas das naus em Belém; Velho do Restelo...

– na Mensagem: “Quem quer passar além do Bojador / Tem de passar além da dor”...


II – Características diferentes entre Os Lusíadas e a Mensagem no que diz respeito ao conceito de heroísmo:

Os Lusíadas

Mensagem

 

Heroísmo factual, ligado aos actos concretos de conquista e domínio, como por exemplo o elogio à descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama.

 

 

Heroísmo de grandeza de alma, cujo herói se distinguirá pelo espírito.

 

 

Herói com limitações próprias da condição humana.

 

Herói mitificado, encarnando valores simbólicos, como por exemplo D. Sebastião – “Por isso onde o areal está / Ficou meu ser que houve, não o que há.”

 

 

A esperança está na glória do passado histórico.

 

A esperança está na projecção futura do sonho, na utopia do Quinto Império.



***

Pergunta de desenvolvimento:

A figura do herói está presente em muitas obras estudadas ao longo do ensino secundário, embora a sua construção possa depender de diversos fatores.
Escreva uma breve exposição na qual distinga o herói em Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, do herói em Mensagem, de Fernando Pessoa.
A sua exposição deve incluir:
  • uma introdução ao tema;
  • um desenvolvimento no qual explicite, para cada uma das obras, uma característica que permita distinguir o herói em Os Lusíadas do herói em Mensagem, fundamentando as características apresentadas em, pelo menos, um exemplo significativo de cada uma das obras;
  • uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.

Cenário de resposta:
Para distinguir o herói em Os Lusíadas do herói em Mensagem, deve ser abordado um tópico relativo a cada uma das obras. Os tópicos a seguir apresentados constituem apenas exemplos, podendo ser abordados outros igualmente relevantes. 
Em Os Lusíadas
os heróis são apresentados na sua dimensão humana e histórica, o que é patente, por exemplo, nos protagonistas da viagem marítima até à Índia, nomeadamente Vasco da Gama e os marinheiros, cujos feitos permitiram o desvendamento dos mares desconhecidos; 
os heróis são os portugueses que, vencendo os seus medos e todos os perigos, foram capazes de superar a própria condição humana e de ascender ao plano dos deuses, como se comprova, por exemplo, quando são recompensados na Ilha dos Amores. 
Em Mensagem
os heróis não se inscrevem num tempo nem num espaço determinados, assumindo uma dimensão mítica/simbólica. É o caso de D. Sebastião, enquanto símbolo da ambição que poderá fazer renascer a glória da pátria; 
os heróis situam-se na esfera da espiritualidade, como é o caso de D. Fernando, que age como instrumento da vontade divina/de uma vontade superior.
Fonte: Exame Final Nacional de Português, Prova 639 (Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de julho), Ensino Secundário - 12.º Ano de Escolaridade. IAVE, 2018, 1.ª Fase


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Leitura orientada e notas para a análise literária dos poemas da Mensagem, de Fernando Pessoa:

Títulos

Incipit

BRASÃO: I- OS CAMPOS

 

Primeiro - O DOS CASTELOS (1928-12-08)

A Europa jaz, posta nos cotovelos:

Segundo - O DAS QUINAS (1928-12-08)

Os Deuses vendem quando dão.

 

 

BRASÃO: II- OS CASTELLOS

 

Primeiro - ULISSES

O mito é o nada que é tudo

Segundo - VIRIATO (1934-01-22)

Se a alma que sente e faz conhece

Terceiro - O CONDE D.HENRIQUE

Todo começo é involuntário.

Quarto - D. TAREJA (1928-09-24)

As nações todas são mistérios.

Quinto - D. AFONSO HENRIQUES

Pai, foste cavaleiro.

Sexto-  D. DINIS (1934-02-09)

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo

Sétimo (I) - D. JOÃO O PRIMEIRO (1934-02-12)

O homem e a hora são um só

Sétimo (II) - D. FILIPA DE LENCASTRE (1928-09-26)

Que enigma havia em teu seio

 

 

BRASÃO: III - AS QUINAS

 

Primeira-  D. DUARTE REI DE PORTUGAL (1928-09-26)

Meu dever fez-me, como Deus ao mundo.

Segunda - D. FERNANDO INFANTE DE PORTUGAL (1913-07-21)

Deu-me Deus o seu gládio porque eu faça

Terceira - D. PEDRO REGENTE DE PORTUGAL (1934-02-15)

Claro em pensar, e claro no sentir,

Quarta - D. JOÃO INFANTE DE PORTUGAL (1930-03-28)

Não fui alguém. Minha alma estava estreita

Quinta - D. SEBASTIÃO REI DE PORTUGAL (1933-02-20)

Louco, sim, louco, porque quis minha grandeza

 

 

BRASÃO: IV - A COROA

 

NUN'ÁLVARES PEREIRA (1928-12-08)

Que auréola te cerca?

 

 

BRASÃO: V - O TIMBRE

 

A cabeça do grifo - O INFANTE D.HENRIQUE (1928-09-26)

Em seu trono entre o brilho das esferas,

Uma asa do grifo - D. JOÃO O SEGUNDO (1928-09-26)

Braços cruzados, fita além do mar.

A outra asa do grifo - AFONSO DE ALBUQUERQUE (1928-09-26)

De pé, sobre os países conquistados

 

 

MAR PORTUGUÊS

 

O INFANTE

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce,

HORIZONTE

Ó mar anterior a nós, teus medos

PADRÃO (1918-09-13)

O esforço é grande e o homem é pequeno.

O MOSTRENGO (1918-09-09)

O mostrengo que está no fim do mar

EPITÁFIO DE BARTOLOMEU DIAS

Jaz aqui, na pequena praia extrema,

OS COLOMBOS (1934-04-02)

Outros haverão de ter

OCIDENTE

Com duas mãos - o Acto e o Destino -

FERNÃO DE MAGALHÃES

No vale clareia uma fogueira.

ASCENSÃO DE VASCO DA GAMA (1922-01-10)

Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra

MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal

A ÚLTIMA NAU

Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,

PRECE (1922-01-01)

Senhor, a noite veio e a alma é vil.

.

 

 

 

O ENCOBERTO: I- OS SÍMBOLOS

 

Primeiro - D. SEBASTIÃO

‘Sperai! Caí no areal e na hora adversa

Segundo - O QUINTO IMPÉRIO (1933-02-21)

Triste de quem vive em casa,

Terceiro - O DESEJADO (1934-01-18)

Onde quer que, entre sombras e dizeres,

Quarto - AS ILHAS AFORTUNADAS (1934-03-26)

Que voz vem no som das ondas

Quinto - O ENCOBERTO (1933-02-21; 1934-02-11)

Que símbolo fecundo

 

 

O ENCOBERTO: II- OS AVISOS

 

Primeiro - O BANDARRA (1930-03-28)

Sonhava, anónimo e disperso,

Segundo - ANTÓNIO VIEIRA (1929-07-31)

O céu 'strela o azul e tem grandeza.

TERCEIRO (1928-12-10)

Screvo meu livro à beira-mágoa.

 

 

O ENCOBERTO: III- OS TEMPOS

 

Primeiro - NOITE

A nau de um deles tinha-se perdido

Segundo - TORMENTA (1934-02-26)

Que jaz no abismo do mar que se ergue?

Terceiro - CALMA (1934-02-15)

Que costa é que as ondas cantam

Quarto - ANTEMANHà(1933-07-08)

O mostrengo que está no fim do mar

Quinto - NEVOEIRO (1928-12-10)

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,

 


CARREIRO, José. O que é a MENSAGEM de Fernando Pessoa? Portugal, Folha de Poesia, 16-05-2018. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2018/05/fernando-pessoa-autor-da-mensagem.html (1.ª edição: Lusofonia - Plataforma de Apoio ao Estudo da Língua Portuguesa no Mundo, 15-12-2011. Projeto concebido por José Carreiro, disponível em http://lusofonia.com.sapo.pt/literatura_portuguesa/FP_Mensagem.htm)


segunda-feira, 14 de maio de 2018

Bernardo Soares




Sou a cena viva onde passam vários atores representando várias peças.
Bernardo Soares    


De Bernardo Soares disse Pessoa que era, não um heterónimo, mas um semi-heterónimo (ou "personalidade literária", como também lhe chamou). Na já tão mencionada carta de 1935 a Adolfo Casais Monteiro, Pessoa justifica o porquê de não o considerar como os outros:

«O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as faculdades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual [...]»

Ora, se Pessoa pouco nos diz desta sua "personalidade literária", dele ficamos a conhecer, pela leitura do Livro, a condição de ajudante de guarda-livros, vivendo e trabalhando na Baixa lisboeta, contactando com o universo 'cinzento' da paisagem que o rodeia, a citadina e a humana, a dos cafés que frequenta, a do escritório da Rua dos Douradores, com o patrão Vasques, o Moreira ou o moço de fretes. Vivia num quarto alugado e conversava sobre literatura com Fernando Pessoa, tendo mostrado apreço pela revista Orpheu. Ter-lhe-ia confessado mesmo que, «não tendo para onde ir, nem amigos que visitasse, soia gastar as suas noites, no seu quarto alugado, escrevendo também». Da sua escrita resultaram os fragmentos (designá-los-ei por f.) do que viria a ser o Livro do Desassossego.



O LIVRO:

O projeto do Livro do Desassossego acompanhou sempre Pessoa, que publicou o 1ºfragmento, intitulado «Na Floresta do Alheamento» na Águia, em 1913, já com a menção «Livro do Desassossego». Durante bastante tempo o livro como que foi 'hibernando', tendo começado a adquirir alguma forma no período compreendido entre 1929 e 1932, período em que foram publicados em revistas várias outros fragmentos. No entanto, o Livro não chegou a ser livro, no sentido vulgar da palavra: ele ficaria para sempre sob a forma de 'fragmentos', de 'livro por fazer' - que competiria a Jacinto do Prado Coelho publicar em 1982. Nele se reúnem um total de 520 fragmentos. Nunca saberemos se é esse o livro que Pessoa teria feito, visto que, na ausência de critérios explícitos por parte do seu autor, foi opção de quem o organizou tudo publicar. Assim nos foi facultada a versão integral - competindo a cada um de nós, de certo modo, fazer o 'nosso' livro, dispondo dos fragmentos como melhor entendermos.

O TÍTULO:

No Prefácio a essa 1ªedição do Livro do Desassossego (ed. Ática, 1982-2 volumes), Jacinto do Prado Coelho dava explicação do título, nos seguintes termos:

«O título a que Pessoa se manteve fiel coloca o Livro sob o signo do desassossego - palavra que recebe de alguns textos uma conotação decadentista. Em Na Floresta do Alheamento associa-se a tédio: “Que horas, ó companheira inútil do meu tédio, que horas de desassossego feliz se fingiram nossas ali!...” Reaparece em “Perystilo”, texto de cariz semelhante: “Às horas em que a paisagem é uma auréola de vida, e o sonho é apenas sonhar-se, eu ergui, ó meu amor, no silêncio do meu desassossego, este livro estranho com portões abertos ao fim duma alameda duma casa abandonada” E ainda em “Nossa Senhora do Silêncio” fala Soares em sentimentos que habitam “a sombra dos seus cansaços e as grutas dos seus desassossegos”. Mas também ocorre em passos de outro estilo: “O que tenho sobretudo é cansaço, e aquele desassossego que é gémeo do cansaço quando ele não tem razão de ser senão o estar sendo” (fragmento talvez de 1932). Ajusta-se ao enervamento, à inquietação, à ansiedade que, sem causa imediata, decorrem duma sensação de vazio, de mal-estar, de “incompetência” para viver.» (J.P.Coelho,op.cit)

Por outro lado, recordemo-lo, o termo aparece em «Opiário» (1915), de Álvaro de Campos, significando justamente a inquietação, o mal estar existencial de se saber existindo sem «oriente a oriente do oriente», com vontade de «ser as coisas fortes», mas sem «mola», energia vital, para a ação.


ESTE LIVRO NA OPINIÃO DE ALGUNS DOS SEUS LEITORES:

Trata-se de uma espécie de diário íntimo de Bernardo Soares, em que se refletem histórias de vida, reflexões, paisagens citadinas, em discurso de 1ªpessoa, e em prosa melódica, que a torna mais do que nenhuma outra, prosa lírica.

Jorge de Sena, um dos primeiros a estudar o Livro do Desassossego, afirma que Soares representaria um heterónimo mais próximo de Pessoa do que os outros, por «assumir a meditação dispersa e fragmentária de uma sociedade de heterónimos na disponibilidade. O livro dele era uma espécie de refugo de tudo o que não chegava a ser de ninguém dos outros; e uma espécie de depósito da fragmentária tristeza de Pessoa, que, até certo ponto, para que ele existisse, sofria a suspensão existencial deles.» E acrescenta: «Se nem todos os trechos são de igual valor, alguns serão da mais bela prosa da língua portuguesa. Neles perpassam os temas, às vezes mesmo fantasmas de estrutura, dos poemas de todos os heterónimos e ortónimos. Tudo o que a poesia plenamente realizada, ou a diversificada prosa, deles todos foi ‑ está presente nestes fragmentos feitos da análise espectral das vivências que pululavam dentro do homem Fernando Pessoa, acotovelando-se e atropelando-se para serem, ou, pouco a pouco, desvanecendo-se nas trevas inferiores, como espíritos que se cansam de comparecer à mesa de pé de galo a que os convocaram demasiadamente. O racionalismo transcendental de Fernando Pessoa; o misticismo irónico e frio de outro Fernando Pessoa; a meditação existencial de Álvaro de Campos; o empiriocriticismo de Alberto Caeiro; a consciência cansadamente hedonística da fugacidade de tudo, que era de Ricardo Reis; o neo-positivismo espiritualista do autor dos 35 Sonnets; a lascívia reprimida do autor de Antinous; o anarquismo paradoxal do Banqueiro, etc., etc.‑ e, sob tudo isto, como uma maldição, de que todos são filhos, como um pecado original a que todos devem o ser, a terrível incapacidade de amar, a medonha demonstração de que o homem existe pelos seus atos e não é outro senão eles, e que não existe, senão como ficção, quando, em lugar de aceitar ir sendo, escolhe fixar-se na pedagogia monstruosa de ser por conta alheia, de perder-se 'na floresta do alheamento'»

Por sua vez, Maria Alzira Seixo, na Introdução que faz ao Livro do Desassossego (Editorial Comunicação, Lisboa), insiste sobre o caráter onírico do Livro ‑ «Entre o sonho e o duplo, entre a alienação e as ambiguidades, entre o 'alheamento' e o 'intervalo' se formula o essencial do Livro do Desassossego». A mesma autora acrescenta: «o Livro do Desassossego apresenta-se-nos, no seu conjunto, como a descrição consistente e desdobrada de um estado de alma, traçada a pinceladas obsessivas e desconexas, movida pela observação atenta mas logo desfigurada do seu conteúdo que se delineia em sucessivas e fragmentárias vagas de expressão sentimental ou de reflexão racionalizante»

Por outro lado, parece existir neste livro um fascínio pelo concreto da cidade, dos matizes que as variantes meteorológicas põem nas ruas, nas casas e nas pessoas, a lembrar muito o Cesário Verde de Num bairro moderno ou do Sentimento de um Ocidental. Só que é uma cidade admiravelmente descrita, mas que não vale por si, remetendo para estados de alma em que Soares se desdobra, «novos mergulhos no ser e no desassossego que o altera» (Mª Alzira Seixo, op.cit)

Robert Bréchon, por sua vez, afirma representar o livro «a nudez de Pessoa», sendo o seu assunto «o auto-retrato de uma consciência que sente e que sabe excessivamente» e o livro «a confissão de um ser cujas virtualidades não podem concretizar-se, de um ser que perdeu o segredo da infância; Soares é um homem sem memória, sem história, sem biografia; é também um ser inacabado, que está por vir e contudo não tem porvir»

E, se bem que Maria Alíete Galhoz nele pareça entrever uma abertura para uma «vaga 'felicidade'», a verdade é que não deixa de lhe reconhecer um tom geral de disforia ‑ «um livro existente, extraordinariamente testemunhal do concreto até, e é ao mesmo tempo, um livro do esvaziamento do ser ‑ Jorge de Sena chamou-lhe "livro do não ser"»

Quanto a Eduardo Lourenço, chama-lhe «texto suicida (?)», no qual «reencontramos sem surpresa aquele que por excesso de ausência de alma em tantas fingidas se multiplicou»; e termina o seu magnífico estudo desta maneira: «Concluindo: aos textos-diferentes que justificariam a mitologia heteronímica, quer na ótica de Fernando Pessoa quer na nossa, de todos, opõe-se o texto -das -diferenças, chamado O Livro do Desassossego onde os escritos imaginários que designamos como Caeiro, Reis e Campos se articulam entre si e os outros textos não-heteronímicos sem solução de continuidade, revelando-nos, assim, não o caráter fabricado dos textos heteronímicos, mas tão só o carácter lúdico da sua autonomização, tanto como a sua função ocultante. Como o Livro do Desassossego o testemunha, sob a heteronímia expressa, resiste e persiste uma heteronímia natural que embora não consentindo a ilusão de uma pluralidade mítica, menos nos consente ainda, se precisássemos confirmação disso, uma mítica unidade.»


INTERTEXTUALIDADE COM OS OUTRO(S) PESSOA(S)- O MESMO E O OUTRO

Ao lermos o Livro do Desassossego somos sensíveis à presença no Eu/escrita de Soares os outros Pessoas já nossos conhecidos.

Por exemplo, Fernando Pessoa ortónimo:

«Sou o intervalo entre o que sou e o que não sou, entre o que sonho e o que a vida fez de mim, a média abstracta e carnal entre coisas que não são nada, sendo eu nada também.[f.154] ‑ cf. este poema com, por ex.: «Entre o sono e o sonho»

«E tudo se me confunde num labirinto onde, comigo, me extravio de mim.» [...] ‑ cf. com «Há no firmamento»

«Meu Deus, meu Deus, a quem assisto? Quantos sou? Quem é eu? O que é este intervalo que há entre mim e mim?» [f.21]

«[...] E num delírio intersticiado de certezas, leve, breve, suave, o murmúrio das águas de todos os parques nasce, emoção, do fundo da minha consciência de mim.» [f.98] ‑ cf.com «Leve, breve, suave»

Ou Ricardo Reis:
    
“Nada pesa tanto como o afeto alheio ‑ nem o ódio alheio, pois que o ódio é mais intermitente que o afeto; sendo uma emoção desagradável, tende, por instinto de quem a tem, a ser menos frequente. Mas tanto o ódio como o amor nos oprimem; ambos nos buscam e procuram, não nos deixam sós” [f.382]‑ cf. com “Não só quem nos odeia ou nos inveja”.
    
“Nunca amamos ninguém. Amamos, tão somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma é a nós mesmos - que amamos” [f.416] ‑ cf. com “Ninguém a outro ama, senão que ama”.
    
“O verdadeiro sábio é aquele que assim se dispõe que os acontecimentos exteriores o alterem minimamente” [f.418] ‑ cf. com “Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo” e com “Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia”.
    
    
...Alberto Caeiro:
    
“Leio e estou liberto. Adquiro objetividade. Deixei de ser eu e disperso. E o que leio, em vez de ser um trajo meu que mal vejo e por vezes me pesa, é a grande clareza do mundo externo, toda ela notável [?] o sol que vê todos, a lua que a malha de sombras o chão quieto, os espaços largos que acabam em mar, a solidez negra das árvores que acenam verdes em cima, a paz sólida dos tanques das quintas, os caminhos tapados pelas vinhas, nos declives breves das encostas.” [f.16] ‑ cf. com qualquer poema de “O Guardador de Rebanhos”.
    
“Cada rosto, ainda que seja o de quem vimos ontem, é outro hoje, pois que hoje não é ontem. Cada dia é o que é, e nunca houve outro igual no mundo. Só em nossa alma está a identidade ‑ a identidade sentida, embora falsa, consigo mesma - pela qual tudo se assemelha e se simplifica. O mundo é coisas destacadas e arestas diferentes; mas, se somos míopes, é uma névoa insuficiente e contínua.” [f.67] ‑ idem, especialmente com o poema II.
    
“Quem me dera, neste momento o sinto, ser alguém que pudesse ver isto como se não tivesse com ele mais relação que o vê-lo ‑ contemplar tudo como se fora o viajante adulto chegado hoje à superfície da vida! Não ter aprendido, da nascença em diante, a dar sentidos dados a estas coisas todas, poder vê-las na expressão que têm separadamente da expressão que lhes foi imposta. Poder conhecer na varina a sua realidade humana independente de se lhe chamar varina, e de se saber que existe e que vende. Ver o polícia como Deus o vê. Reparar em tudo pela primeira vez, não apocalipticamente como revelação do Mistério, mas diretamente como floração da Realidade.” [f.87] ‑ idem, especialmente com poema XXIV.
    
    
...Álvaro de Campos:
    
“Sentir tudo de todas as maneiras; saber pensar com as emoções e sentir com o pensamento; não desejar muito senão com a imaginação; sofrer com coquetterie; ver claro para escrever justo; conhecer-se com fingimento e tática, naturalizar-se diferente e com todos os documentos; em suma, usar por dentro todas as sensações, descascando-as até Deus; mas embrulhar de novo e repor na montra como aquele caixeiro que de aqui estou vendo com as latas pequenas de graxa da nova marca”. [f.30] - cf. com “A melhor maneira de viajar é sentir” e “Passagem das Horas”
    
“Escrevo atentamente, curvado sobre o livro em que faço a lançamento a história inútil de uma firma obscura; e, ao mesmo tempo, o meu pensamento segue, com igual atenção, a rota de um navio inexistente por paisagens de um oriente que não há.” [f.118] - cf. com “Ode Marítima”
    
“Tenho sonhado muito. Estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos dispersos. Em sonhos consegui tudo. Também tenho despertado, mas que importa? Quantos Césares fui! E os gloriosos, que mesquinhos! [...] Quantos Césares fui, mas não dos reais. [...] Quantos Césares fui, aqui mesmo na Rua dos Douradores. E os Césares que fui vivem ainda na minha imaginação[...] Atiro com a caixa de fósforos, que está vazia, para o abismo que a rua é para além do parapeito da minha janela alta sem sacada. Ergo-me na cadeira e escuto.” [...] ‑ [f. 132] ‑ cf. com “Tabacaria” e “Pecado original” ‑ versos 16, 21 a 23: "Quantos Césares fui!"
    
“Estou hoje lúcido como se não existisse.” [f. 416] ‑ cf. com “Tabacaria”.
    
“Doem-me a cabeça e o universo.” [f.430] - cf. com “Tenho uma grande constipação” ‑ último verso: "Preciso de verdade e de uma aspirina."
    
De certo modo, Soares vem-se-nos revelar como alguém que está por detrás de todos os outros Pessoa(s), que existe com todos e em todos, como todos existem em si- o que, necessariamente, vem colocar a questão da heteronímia em moldes diferentes, vem dizer-nos que somos todos o mesmo e o outro - nesse sentido poderão entender-se as palavras, atrás referidas, de Eduardo Lourenço sobre o Livro do Desassossego como texto-rasura e como texto suicida, texto do ser/não ser que permanentemente se descobre como impossibilidade.

ALGUNS DOS TEMAS / IDEIAS ABORDADAS NO LIVRO DO DESASSOSSEGO:

Amor (27 fragmentos)
Arte literária (8 f.)
O Eu de B-Soares (59 f.)
Lisboa- cidade (15 f.)
Lisboa-ciclos do dia (25 f.)
Figuras da cidade (12 f.)
Quotidiano da cidade (21 f.)
Consciência/Inconsciência (24 f.)
«Decadência» (12 f.)
relação Eu/outros (31 f.)
Eu vário e múltiplo (24 f.)
Indiferença/abdicação (16 f.)
Inércia/ação (24 f.)
Leituras (13 f.)
Língua-linguagem ( 9 f.)
Morte (16 f.)
Noite (6 f.)
Paisagem (22 f.)
Viagem-viagens (18 f.)
Passado-infância (17 f.)
Sensações (22 f.)
Sensacionismo (13 f.)
Ser e (des)conhecer-se (43 f)
Sonho /realidade (21 f.)
Tédio (21 f.)
Trovoadas (13 f.)
Viagens (8)

Como pode ver-se pelo levantamento feito, predomina a reflexão filosófica (o Eu de Bernardo Soares; consciência-inconsciência; relação eu-outros; Eu vário e múltiplo; Inércia-ação; Indiferença-abdicação; Ser e conhecer-se; tédio; decadência) e ainda o mundo exterior da cidade, ainda que nas suas relações com o Eu pensante.


UMA ESPÉCIE DE CONCLUSÃO:

Aquando do capítulo 5º, a respeito da Heteronímia, ocorreu-me falar de «explosão» e «implosão». Se texto há em que se verifique tal «implosão», ele é certamente o do Livro do Desassossego (existencial) de Pessoa-Caeiro-Reis-Campos/Bernardo Soares.

O mesmo que de si dizia:

«Sou variamente outro.»

«Não evoluo, VIAJO.»

«Vou enriquecendo-me na capacidade de criar personalidades novas, novos tipos de fingir que compreendo o mundo, ou antes, de fingir que se pode compreendê-lo.»

«Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.»

Ou, como diz Eduardo Lourenço: «Quem sonhou todas estas ficções foi o passeante da Rua dos Douradores, um homem triste por não existir como se sonhava, irmão gémeo por dentro de Luís da Baviera, prisioneiro como ele de idênticos fantasmas. Enquanto se inventava poeta e nos sonhava mais angustiados do que somos, mais perdidos do que ele se sentia, mais tristes do que ele era, ia escrevendo como quem transcreve o sonho que o está sonhando, o livro do seu Desassossego. Não há na nossa literatura prosa mais luminosamente suicidária. Aí se despe da sua própria ficção oferecendo-se sem resguardas como órfão de tudo, excluído voluntário dos outros e da vida, sonhador de todos os sonhos, sobretudo dos improváveis.»
E acrescenta, em jeito de síntese:

«Aí está o retábulo da sua vera e incruenta paixão. É um retábulo simbolista, pouco conforma ao mito ‑ Pessoa de um vanguardismo estridente e todo exterior, mas talvez esse mito seja mais do nosso engano do que da sua verdade. Toda a sua vida foi simbolista. Nem há na literatura do Ocidente mais completa expressão do Simbolismo. O Modernismo foi a sua e nossa ficção. Devolvamo-lo, pois, à sua dolorosa realidade de amante da Morte, de herói da impossibilidade de amar, como o seu duplo e não menos wagneriano Luís Segundo, Rei da Baviera:

“Teu amor pelas cousas sonhadas era o teu desprezo pelas coisas vividas.
Rei - Virgem que desprezaste o amor,
Rei - Sombra que desdenhaste a luz,
Rei - Sonho que não quiseste a vida!
Entre o estrépido surdo de címbalos e atabales, a Sombra te proclama Imperador!”
[excerto do f.335 do L.D.]»

Amélia Pinto Pais, Para Compreender Fernando Pessoa, Porto, Areal Editores, 1996. Capítulo XI disponibilizado na revista Nave da Palavra, edição nº 48, 16/02/2001 e consultado em linha, em 17/03/2003


  • Leia aqui uma versão do Livro do Desassossego.

Leitura orientada e notas para a análise literária de poemas do semi-heterónimo pessoano Bernardo Soares:

Poema

Incipit

O olfato é uma vista estranha.

O olfato é uma vista estranha.

 

 



CARREIRO, José. Bernardo Soares. Portugal, Folha de Poesia, 14-05-2018. Disponível em: https://folhadepoesia.blogspot.com/2018/05/bernardo-soares.html (1.ª edição: Lusofonia - Plataforma de Apoio ao Estudo da Língua Portuguesa no Mundo, 15-12-2011. Projeto concebido por José Carreiro, disponível em http://lusofonia.com.sapo.pt/literatura_portuguesa/FP_BernardoSoares.htm)